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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
XLIV - "A preguiçosa"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 9, Serpa,
Setembro de 1903, Volume V, pp. 140 a 144 (série de
4 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

animaisamazonia.blogspot.com/2008/06/bicho-preguia
A
preguiçosa
Era
duma vez uma mulher e tinha uma filha que era muito preguiçosa,
não queria fazer nada, ou antes, só queria fazer
papas e comêl-as.

Ver receitas
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A mãe zangava-se muito com ella, e batia-lhe, mas era
o mesmo que nada, não queria trabalhar.
Defronte
havia uma estalagem e a dona era muito amiga da mãe
da rapariga, e ás vezes dizia a esta que não
fosse preguiçosa, mas a rapariga não fazia caso.
Costumava
ir para a estalagem um negociante que começou a reparar
que a vizinha batia muito na rapariga e perguntou á
dona da estalagem porque era aquillo.
E
ella disse-lhe:
- Porque trabalha muito, porque não quer senão
estar a fiar, e a mãe não quer que ela trabalhe
tanto, porque é muito fraca.
O
homem ficou muito indignado e disse que se a rapariga quizesse
casar com ele, que a livrava d'aquelle martyrio; que ia fazer
uma viagem e que a incumbia de lhe falar a semelhante respeito
e lhe daria a resposta quando elle voltasse.
Assim
que elle marchou foi dizer á rapariga que o hospede
queria casar com ella e a rapariga disse que sim, que casava.
Quando
veio o hospede perguntou se já tinha fallado á
rapariga e o que tinha dito.
- Que não se lhe dava de casar, mas que não
queria sahir da terra.
E
elle disse que estava bem, pois ia fixar a sua residência
ali; que ia fazer outra viagem e quando voltasse se fazia
o casamento.
Quando
voltou, arranjou uma casa, mobilou-a e um dos quartos guarneceu-o
todo de estrígas de linho, fechou-o e guardou á
chave.
No
dia do casamento foi mostrar a casa e quando abriu a porta
d'aquelle quarto disse para a mulher: - que ali tinha para
se entreter, mas que não queria que o fiasse todo.
D'ahi
a dias teve que ir fazer uma viagem e quando se despediu da
mulher disse: que não queria que fiasse muito.
E
ela quando viu que eram vesperas de o marido voltar foi buscar
uma estriga de linho para ver se podia fiar, mas era coisa
que não sabia.

ensarilhar o linho...
http://eb1felgueirasresende.blogspot.com/
Poz
o linho na roca e foi fazer uma tachada de papas, trouxe-a
para o meio da casa, sentou-se no chão, mergulhou a
roca nas papas e começou a lambel-as e a dizer:
"Isto assim poderá ser que se fie bem".
E
foi a querer rodar o fuso mas não sabia.
Defronte,
na dita estalagem, estava um hospede, homem muito rico, e
casualmente viu aquelle ensaio.
Chamou
a estalajadeira, que lhe explicasse o que era aquilo?
A
estalajadeira explicou lhe e o homem disse que queria lá
ir, e foi com a estajaladeira.
Esteve
fallando com a mulller, que lhe explicou a sua affiicção,
porque tinha uma casa cheia de linho e não sabia como
havia de fiar algum antes que o marido viesse.
O
homem disse á estalajadeira que mandasse vêr
quem fiava linho na terra, para se fiar todo.
Foi
ella logo e mandou uma porção para cada lado,
de maneira que, quando o negociante veio estava o linho todo
fiado e posto nos seus logares, mas depois a visinha e a mãe
lembraram-se de que elle compraria outra porção
egual águella e ficaria ella nas mesmas difficuldades;
por isso no dia em que o marido veio mandaram-n'a metter na
cama, cingiram-n'a toda de nozes, e disseram-lhe que quando
elle viesse e a fosse abraçar lhe dissesse:
-Ai! não me toques, não me toques! que tenho
os ossos todos desconjuntados! E elle ficou todo affiicto
e disse:
--Queres apostar que fiaste muito? E ella muito lastimosa
respondeu:
-Vae lá vêr, vae lá vêr!

tascar o linho...
joraga.net/feiradecastro-linho
Elle
foi, viu tudo fiado, ficou muito zangado e ralhou com ella,
pois não queria que fiasse uma brutalidade d'aquellas!
E
disse á visinha que fosse chamar um medico para a tratar,
e que explicasse ao medico o que tinha sido para elle saber.
Veio
o medico e disse que a doente precisava de muito socego, e
de não trabalhar mais, se o marido queria ter mulher.
E
seja Deus louvado, está o meu conto acabado.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES.
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