CONTOS & LENDAS
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uma TEIA infindável de Contos & Lendas

 

12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
L - "O pirolito"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 11, Serpa, Novembro de 1903, Volume V, pp. 172 a 176 (série de 7 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


http://conversasimagens.no.sapo.pt/noddy.jpg

http://merdock-litoral.blogspot.com/2008/01/o-pirolito.html

O pirolito

Era d'uma vez uma mulher que tinha um filho e uma filha, elle era o pirolito e ella a pirolita; mandou os dois, um para a escola e o outro para a mestra, e o que chegasse primeiro a casa ganhava um bocadinho de pão e queijo.

Chegou primeiro o pirolito e disse-lhe ella:
- Olha, põe alem uma mesa, um alguidar debaixo e uma faca, e põe-te em cima da mesa a dormir a sésta.

Elle assim fez. Depois a mãe quando o sentiu a dormir, matou o, e fez d'elle um guizado.

Veio a pirolita.
- Mãe, já veio o pirolito?
- Ainda não; toma lá um bocadinho de pão e queijo e vae levar o jantar a teu pae, mas não espreites, nem proves.


bichafemea.com/blog/picnic-basket

Ella chegou lá muito adiante e quiz ver o que era o jantar; viu o pirolito e começou a chorar.

Chegou ali Nossa Senhora e perguntou-lhe porque chorava.

Ella contou-lhe, e Nossa Senhora disse:
- Não chores; em teu pae estando a jantar há de te chamar para comeres tambem, mas tu dize-lhe que não tens vontade, e depois d'elle jantar reune os ossinhos e deita-os para o rio.



http://raparigadaslaranjas.blogs.sapo.pt/

Ella fez o que Nossa Senhora lhe disse; deitou os ossinhos para o rio, e sahiu de lá o pirolito todo cheio de laranjas, e foram os dois irmãos para casa.

Diz lhe agora a mãe:
- Pirolito, dás-me uma laranja?
- Não, que me mataste.

Diz-lhe agora o pae:
- Pirolito, dás-me uma laranja?
- Não, que me comeste.

Diz-lhe agora a pirolita:
- Pirolito, dás-me uma laranja?
- Toma-as lá todas, que me salvaste.
A tua bocca cheia de anjinhos e a minha de confeitinhos.

(Elvas)
A. THOMAZ PIRES


http://www.ucp.pt/site/resources/images/CEPCEP/est-doc%2011.jpg


bdalentejo.net/BDAObra/obras/66/BlocosPDF/bloco12-109_118.pdf


Ver ainda, também in
- http://www.joraga.net/mertola/pags/20lendas2mito.htm :
Várias referências ao hediondo crime de canibalismo, cometido por Tântalo, que veio a sofrer um terrível castigo: "O suplício de Tântalo"!!!

Entre as páginas pp. 357 - 362

"TANTALO e NÍOBE
Tântalo, como filho de Zeus, era muito mais considerado pelos deuses do que qualquer outro descendente mortal do Senhor do Olimpo - convidavam-no para a sua mesa, saboreava a ambrosia e o néctar, que só ele podia partilhar com os imortais. Mais ainda: honraram com a sua presença um banquete que Tântalo ofereceu no seu palácio e condescenderam em conviver com ele na Terra. Em troca desses favores, ele agiu de modo tão medonho que não houve ainda nenhum poeta que conseguisse explicar cabalmente a sua conduta. Mandou matar seu filho Pélope, cozinhá-lo num grande caldeirão e servi-lo aos deuses. Aparentemente tal acto teria sido consequência de uma paixão de ódio que nutria por eles e que o dispôs a sacrificar o filho, a fim de lhes fazer sentir, o horror de serem canibais; mas também se põe a hipótese de ter querido mostrar-lhes da maneira mais espantosa e chocante, sem dúvida, quão fácil era para ele desapontar as divindades temíveis, veneradas e humildemente adoradas. Com este escarnecer dos deuses e a sua desmedida autoconfiança, Tântalo nunca sonhou que os convidados descobrissem a espécie de alimento que lhes apresentava.
Fora um louco! Os Olimpianos estavam a par do que se passava. Retiraram-se, pois, do banquete execrando e insurgiram-se contra o criminoso que o havia idealizado. O seu castigo ia ser de tal ordem, declararam, que ninguém, depois dele, ao ter conhecimento do sofrimento a que fora condenado, ousaria insultá-los de novo. O superpecador foi colocado num poço, no Hades, mas sempre que na sua atormentadora sede se inclinava para beber não conseguia chegar à água, pois ela desaparecia, infiltrando-se no chão, enquanto ele se curvava; quando se levantava, lá aparecia a água novamente. Por sobre o poço pendiam árvores de fruto carregadas de pêras, de romãs, de maçãs rosadas, de doces figos. Todas as vezes que esticava a mão para apanhar um fruto o vento punha os ramos fora do seu alcance, fazendo-os subir muito alto nos ares. Assim ficou para a eternidade, a garganta imortal sempre sedenta, a fome no meio da abundância, incapaz de a satisfazer.
Os deuses restituíram Pélope à vida, mas tiveram de lhe moldar um ombro de marfim. Uma das deusas, uns dizem que Deméter, outros, Tétis, teria comido inadvertidamente do repugnante manjar; no momento em que os membros do rapaz foram repostos no seu lugar, deu-se pela falta de um ombro. Esta história detestável parece ter sido transmitida de geração em geração em toda a sua forma brutal e crua, sem qualquer tentativa de aligeiramento; os gregos das épocas posteriores, no entanto, protestaram contra ela, pois não era do seu agrado. O poeta Píndaro chamou-lhe:
Conto envolto em mentiras reluzentes contra a palavra da verdade.
Que não se fale de actos de canibalismo entre os deuses bem-aventurados!

 

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