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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
L - "O pirolito"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno V, Nº 11, Serpa,
Novembro de 1903, Volume V, pp. 172 a 176 (série de
7 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

http://conversasimagens.no.sapo.pt/noddy.jpg
http://merdock-litoral.blogspot.com/2008/01/o-pirolito.html
O
pirolito
Era
d'uma vez uma mulher que tinha um filho e uma filha, elle
era o pirolito e ella a pirolita; mandou os dois, um para
a escola e o outro para a mestra, e o que chegasse primeiro
a casa ganhava um bocadinho de pão e queijo.
Chegou
primeiro o pirolito e disse-lhe ella:
- Olha, põe alem uma mesa, um alguidar debaixo e uma
faca, e põe-te em cima da mesa a dormir a sésta.
Elle
assim fez. Depois a mãe quando o sentiu a dormir, matou
o, e fez d'elle um guizado.
Veio
a pirolita.
- Mãe, já veio o pirolito?
- Ainda não; toma lá um bocadinho de pão
e queijo e vae levar o jantar a teu pae, mas não espreites,
nem proves.

bichafemea.com/blog/picnic-basket
Ella
chegou lá muito adiante e quiz ver o que era o jantar;
viu o pirolito e começou a chorar.
Chegou
ali Nossa Senhora e perguntou-lhe porque chorava.
Ella
contou-lhe, e Nossa Senhora disse:
- Não chores; em teu pae estando a jantar há
de te chamar para comeres tambem, mas tu dize-lhe que não
tens vontade, e depois d'elle jantar reune os ossinhos e deita-os
para o rio.

http://raparigadaslaranjas.blogs.sapo.pt/
Ella
fez o que Nossa Senhora lhe disse; deitou os ossinhos para
o rio, e sahiu de lá o pirolito todo cheio de laranjas,
e foram os dois irmãos para casa.
Diz
lhe agora a mãe:
- Pirolito, dás-me uma laranja?
- Não, que me mataste.
Diz-lhe
agora o pae:
- Pirolito, dás-me uma laranja?
- Não, que me comeste.
Diz-lhe
agora a pirolita:
- Pirolito, dás-me uma laranja?
- Toma-as lá todas, que me salvaste.
A tua bocca cheia de anjinhos e a minha de confeitinhos.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES

http://www.ucp.pt/site/resources/images/CEPCEP/est-doc%2011.jpg

bdalentejo.net/BDAObra/obras/66/BlocosPDF/bloco12-109_118.pdf
Ver
ainda, também in
- http://www.joraga.net/mertola/pags/20lendas2mito.htm
:
Várias referências ao hediondo crime de canibalismo,
cometido por Tântalo, que veio a sofrer um terrível
castigo: "O suplício de Tântalo"!!!

Entre
as páginas pp. 357 - 362
"TANTALO
e NÍOBE
Tântalo, como filho de Zeus, era muito mais considerado
pelos deuses do que qualquer outro descendente mortal do Senhor
do Olimpo - convidavam-no para a sua mesa, saboreava a ambrosia
e o néctar, que só ele podia partilhar com os
imortais. Mais ainda: honraram com a sua presença um
banquete que Tântalo ofereceu no seu palácio
e condescenderam em conviver com ele na Terra. Em troca desses
favores, ele agiu de modo tão medonho que não
houve ainda nenhum poeta que conseguisse explicar cabalmente
a sua conduta. Mandou matar seu filho Pélope, cozinhá-lo
num grande caldeirão e servi-lo aos deuses. Aparentemente
tal acto teria sido consequência de uma paixão
de ódio que nutria por eles e que o dispôs a
sacrificar o filho, a fim de lhes fazer sentir, o horror de
serem canibais; mas também se põe a hipótese
de ter querido mostrar-lhes da maneira mais espantosa e chocante,
sem dúvida, quão fácil era para ele desapontar
as divindades temíveis, veneradas e humildemente adoradas.
Com este escarnecer dos deuses e a sua desmedida autoconfiança,
Tântalo nunca sonhou que os convidados descobrissem
a espécie de alimento que lhes apresentava.
Fora um louco! Os Olimpianos estavam a par do que se passava.
Retiraram-se, pois, do banquete execrando e insurgiram-se
contra o criminoso que o havia idealizado. O seu castigo ia
ser de tal ordem, declararam, que ninguém, depois dele,
ao ter conhecimento do sofrimento a que fora condenado, ousaria
insultá-los de novo. O superpecador foi colocado num
poço, no Hades, mas sempre que na sua atormentadora
sede se inclinava para beber não conseguia chegar à
água, pois ela desaparecia, infiltrando-se no chão,
enquanto ele se curvava; quando se levantava, lá aparecia
a água novamente. Por sobre o poço pendiam árvores
de fruto carregadas de pêras, de romãs, de maçãs
rosadas, de doces figos. Todas as vezes que esticava a mão
para apanhar um fruto o vento punha os ramos fora do seu alcance,
fazendo-os subir muito alto nos ares. Assim ficou para a eternidade,
a garganta imortal sempre sedenta, a fome no meio da abundância,
incapaz de a satisfazer.
Os deuses restituíram Pélope à vida,
mas tiveram de lhe moldar um ombro de marfim. Uma das deusas,
uns dizem que Deméter, outros, Tétis, teria
comido inadvertidamente do repugnante manjar; no momento em
que os membros do rapaz foram repostos no seu lugar, deu-se
pela falta de um ombro. Esta história detestável
parece ter sido transmitida de geração em geração
em toda a sua forma brutal e crua, sem qualquer tentativa
de aligeiramento; os gregos das épocas posteriores,
no entanto, protestaram contra ela, pois não era do
seu agrado. O poeta Píndaro chamou-lhe:
Conto envolto em mentiras reluzentes contra a palavra da verdade.
Que não se fale de actos de canibalismo entre os deuses
bem-aventurados!
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