CONTOS & LENDAS
A ARTE DE enCANTAR
na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LV - "Os tres encantos"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 1, Serpa, Janeiro de 1904, Volume VI, pp. 9 a 15 (série de 4 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


em: meta75.blogspot.com/

Os tres encantos

"ERA de uma vez uma viuva que tinha tres filhas e eram muito pobres, lavavam roupas. Appareceram ali um dia tres rapazes muito bem vestidos, que eram tres encantos.

Um d'elles gostou muito da mais velha e foi pedil-a.

Ella não queria, porque era muito pobre e o que havia de ser da mãe, que ficava só com as duas irmans; mas tanto teimou o rapaz que por fim casaram, e elle ao partir para a sua terra deu tanto dinheiro á sogra que esta não foi capaz de o arrojar pela casa.

Já não lavavam roupas, e as visinhas tinham muita inveja.

Os ladrões foram lá uma noite, fizeram um buraco no telhado, roubaram o dinheiro e aqui ficou a família outra vez pobre.

Foi o segundo rapaz pedir a rapariga do meio.

Succedeu o mesmo, a rapariga não queria, mas no fim casou-se, está claro, e o marido deu á sogra tanto dinheiro ou mais do que o outro.

Veio outra vez a inveja dos visinhos e mais os ladrões, e a familia ficou outra vez pobre.

Foi o terceiro rapaz pedir a rapariga mais moça.

Tudo na quinta da mesma, casamento e invejas, somentes não houve d'esta vez ladrões, que o dinheiro estava escondido na terra por causa das duvidas.

A viuva tinha ainda um filho muito pequenino e quando chegou a homem disse para a mãe:
Vou-me a vêr as minhas irmans, que não houve mais noticias d'ellas, nem dos maridos.

A mãe, com a vontade que tinha de saber das filhas, deixou-o ir.

E aqui vae agora o irmão á cata das irmans.

Andando, andando chegou ao palacio da mais velha. A irmã conheceu-o logo e disse-lhe que o marido era o rei dos leões e, se o visse, que o matava.

Elle pediu que o escondesse ali para um cantinho, e que dissesse ao rei dos leões que não lhe fizesse mal.

Escondeu-se.

Veio o rei dos leões e disse:
- O' mulher! cheira aqui a sangue humano!

Ella disse que era o irmão que ali estava.

E elle disse:
- Então se é teu irmão é meu cunhedo, e diz lhe que appareça, que não lhe faço mal.

Appareceu o rapaz e houve grandes festas em palacio, pela visita do Irmão.

Passados dois dias decidiu se o rapaz a visitar a segunda irmã.

Ora o rapaz ao sahir da casa da viuva tinha encontrado no caminho uma velhinha com um feixe de lenha á cabeça e tendo dó d'ella disse que elle lhe levava o feixe.

A velhinha agradeceu muito e viu-se livre da carga até á sua cabana, e, chegando ali, entrou e trouxe lá de dentro umas botas de encante e offereceu-as ao rapaz dizendo-lhe que aquellas botas o haviam de pôr na altura em que elle quizesse.

Indo o rapaz andando, andando, chegou á torre em que estava a segunda irmã, e pediu ás botas que o posessem á porta do quarto da irmã para elle bater e apparecer-lhe ella.

Assim foi; appareceu-lhe a irmã e disse-lhe que o seu marido era o rei dos peixes e que se o visse comia-o.

Elle disse que se ia esconder e que lhe pedisse que não lhe fizesse mal.

Ella assim fez, escondeu-o.

Veio o rei dos peixes e disse o mesmo: que cheirava a sangue humano.

Ella pediu pelo irmão e o rei dos peixes disse que apparecesse e se o outro o tinha obsequiado, aquelle ainda o obsequiou mais.

Foi depois o rapaz visitar a terceira Irmã. Aconteceu lhe o mesmo; as botas pozeram-n'o á porta do quarto e veio a irmã e disse-lhe:
-Olha, o meu marido é, por encante, o rei de todos os bichos, e se te vê, come-te.

Elle disse que não n'o havia de comer, e o que queria vêr era se lhe quebrava o encante.

E ella disse que só havia um meio de quebrar esse encante e o dos dois cunhados - o rei dos leões e o rei dos peixes - era carregar uma espingarda com uma pedra e quando o visse de bocca aberta atirar o tiro direito á bocca.

Elle assim fez e o rei dos bichos morreu e ao morrer este morreram os outros dois, e as tres raparigas recolheram as riquezas todas e vieram com o rapaz para casa da mãe e ainda hoje vivem muito felizes.

E a certidão está em Tondella,
quem quizer vá lá vêl-a.

(Elvas).
A. THOMAZ PIRES

Ver também in:


http://www.ceg.ul.pt/publicacoes.asp?id=313&tab=3

 

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