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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LVI - "A filha do commerciante"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 1, Serpa,
Janeiro de 1904, Volume VI, pp. 9 a 15 (série de 4
contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

ziario.wordpress.com/o-principe-e-a-rosa/
A
filha do commerciante
"Era
d'uma vez um commerciante que tinha uma filha muito bonita
e morava ao pé do palacio do rei, e o rei tinha um
filho que era o principe.

A
filha do commerciante chamava-se Rosa e na casa havia uma
varanda que dava para o jardim do rei.
Todas
as tardes ia a Rosa á varanda regar as flores, onde
havia uma flor que se chamava verdiana. E o principe, lá
do jardim, dizia-lhe sempre:
-
Quantas flores tem a verdiana?
E
a Rosa respondia:
-
Tantas como estrellas tem o ceu.

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E
o principe tinha uma grande paixão pela Rosa, que sempre
se lhe mostrava esquiva.
Um
dia o principe encarregou uma criada velha de ir a casa do
commerciante fallar com a Rosa e convencel-a para ir ao jar-
dim.
A
Rosa não queria ir, mas a velha teve tantas artes que
a convenceu.
A
Rosa disse que só iria ás 11 horas da noite.
E assim foi.
Quando
lá chegou estava o principe no jardim e convidou-a
a beber um copo de licor com elle, E ella respondeu:
- Então para isto é que me mandou cá
vir?
E
foi-se com a velha, mas o principe quando ella se retirava
deu-lhe um beijo por debaixo do veu.
No
ontro dia foi a Rosa á varanda, e começou o
principe:
-
Quantas folhas tem a verdiana?
E
ella:
-Tantas
como estrellas ha no ceu.
E
elle:
-
E o beijinho debaixo do veu?
E
ella foi-se toda zangada.
No
outro dia foi outra vez a velha a casa do commerciante, e
a Rosa foi outra vez ao jardim, onde o principe lhe offereceu
de novo um copo de licor.
Ella
não quiz e o principe deu-lhe um belisco.
E
ella disse:
-
Ui! velha, vamo-nos embora.
Na
tarde d'aquelle dia o principe, do jardim:
-
Quantas folhas tem a verdiana?
E
ella:
-Tantas
como estrellas ha no ceu.
E
elle:
-
Ui! velha, vamo-nos embora.
E
ella retirou-se toda zangada e nunca mais foi á varanda.
O
principe começou a entristecer e depois disse assim:
- Para que hei-de eu estar a pôr me triste? Eu não
posso casar com ella, que não é pessoa real;
vou casar com a princeza, que tanto me quer.
E
casou.
As
festas do casamento duraram tres dias e tres noites e houve
muitos convidados e todos elles haviam de dormir as tres noites
no palacio.
E
o commerciante e a filha foram convidados tambem, por parte
de visinhos.
E
a Rosa pediu ao pae que lhe arranjasse tres vestidos muito
ricos dos que não tivesse a princeza.
O
pae arranjou-lh'os.

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No
primeiro dia das festas a princeza não tirava os olhos
do vestido de Rosa e disse-lhe:
- Venda-me o seu vestido.
E
ella:
- Não lh'o vendo, dou-lho; mas ha de me deixar dormir
esta noite no quarto do príncipe.
E
a princeza consentiu e foi dormir na camara destinada á
filha do commerciante.
E
disse a Rosa ao príncipe n'aquella noite, que bem sabia
que elle gostava muito da filha do commerciante, que tinha
muitos ciumes d'ella e que só ficaria satisfeita se
elle fosse dar-lhe uma sova á cama em que ella dormia.
O
principe, para fazer a vontade á sua noiva, foi dar
a sova na filha do commerciante, mas em quem elle a deu foi
na princeza, que se calou muito bem calada.
No
outro dia a Rosa vestiu o segundo vestido, e a princeza quiz
que lh'o vendesse, e ella:
- Não lh'o vendo, dou-lh'o, se me deixar tambem dormir
esta noite no quarto do principe.
Succedeu
o mesmo, e nova sova na pobre da princeza.
Terceiro
dia, terceiro vestido e terceira dormida de Rosa no quarto
do principe, e agora ella exigiu-lhe que fosse á cama
da filha do commerciante e lhe cortasse o troço do
cabello.
No
outro dia appareceu a princeza sem troço e o principe
ficou muito admirado e desconfiado do caso, e depois de muito
pensar perguntou aos convidados com quem havia de elle casar,
com quem o comprou, ou com quem o vendeu?
Os
convidados disseram:
- Com quem o comprou.
E
vae elle casou com a Rosa e mandou embora a princeza, que
o vendera pelos trapos dos tres vestidos.
Conto
acabado, seja Deus louvado.
(Elvas).
A. THOMAZ PIRES

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