CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LVI - "A filha do commerciante"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 1, Serpa, Janeiro de 1904, Volume VI, pp. 9 a 15 (série de 4 contos)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


ziario.wordpress.com/o-principe-e-a-rosa/

A filha do commerciante

"Era d'uma vez um commerciante que tinha uma filha muito bonita e morava ao pé do palacio do rei, e o rei tinha um filho que era o principe.

A filha do commerciante chamava-se Rosa e na casa havia uma varanda que dava para o jardim do rei.

Todas as tardes ia a Rosa á varanda regar as flores, onde havia uma flor que se chamava verdiana. E o principe, lá do jardim, dizia-lhe sempre:

- Quantas flores tem a verdiana?

E a Rosa respondia:

- Tantas como estrellas tem o ceu.


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E o principe tinha uma grande paixão pela Rosa, que sempre se lhe mostrava esquiva.

Um dia o principe encarregou uma criada velha de ir a casa do commerciante fallar com a Rosa e convencel-a para ir ao jar- dim.

A Rosa não queria ir, mas a velha teve tantas artes que a convenceu.

A Rosa disse que só iria ás 11 horas da noite. E assim foi.

Quando lá chegou estava o principe no jardim e convidou-a a beber um copo de licor com elle, E ella respondeu:
- Então para isto é que me mandou cá vir?

E foi-se com a velha, mas o principe quando ella se retirava deu-lhe um beijo por debaixo do veu.

No ontro dia foi a Rosa á varanda, e começou o principe:

- Quantas folhas tem a verdiana?

E ella:

-Tantas como estrellas ha no ceu.

E elle:

- E o beijinho debaixo do veu?

E ella foi-se toda zangada.

No outro dia foi outra vez a velha a casa do commerciante, e a Rosa foi outra vez ao jardim, onde o principe lhe offereceu de novo um copo de licor.

Ella não quiz e o principe deu-lhe um belisco.

E ella disse:

- Ui! velha, vamo-nos embora.

Na tarde d'aquelle dia o principe, do jardim:

- Quantas folhas tem a verdiana?

E ella:

-Tantas como estrellas ha no ceu.

E elle:

- Ui! velha, vamo-nos embora.

E ella retirou-se toda zangada e nunca mais foi á varanda.

O principe começou a entristecer e depois disse assim:
- Para que hei-de eu estar a pôr me triste? Eu não posso casar com ella, que não é pessoa real; vou casar com a princeza, que tanto me quer.

E casou.

As festas do casamento duraram tres dias e tres noites e houve muitos convidados e todos elles haviam de dormir as tres noites no palacio.

E o commerciante e a filha foram convidados tambem, por parte de visinhos.

E a Rosa pediu ao pae que lhe arranjasse tres vestidos muito ricos dos que não tivesse a princeza.

O pae arranjou-lh'os.


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No primeiro dia das festas a princeza não tirava os olhos do vestido de Rosa e disse-lhe:
- Venda-me o seu vestido.

E ella:
- Não lh'o vendo, dou-lho; mas ha de me deixar dormir esta noite no quarto do príncipe.

E a princeza consentiu e foi dormir na camara destinada á filha do commerciante.

E disse a Rosa ao príncipe n'aquella noite, que bem sabia que elle gostava muito da filha do commerciante, que tinha muitos ciumes d'ella e que só ficaria satisfeita se elle fosse dar-lhe uma sova á cama em que ella dormia.

O principe, para fazer a vontade á sua noiva, foi dar a sova na filha do commerciante, mas em quem elle a deu foi na princeza, que se calou muito bem calada.

No outro dia a Rosa vestiu o segundo vestido, e a princeza quiz que lh'o vendesse, e ella:
- Não lh'o vendo, dou-lh'o, se me deixar tambem dormir esta noite no quarto do principe.

Succedeu o mesmo, e nova sova na pobre da princeza.

Terceiro dia, terceiro vestido e terceira dormida de Rosa no quarto do principe, e agora ella exigiu-lhe que fosse á cama da filha do commerciante e lhe cortasse o troço do cabello.

No outro dia appareceu a princeza sem troço e o principe ficou muito admirado e desconfiado do caso, e depois de muito pensar perguntou aos convidados com quem havia de elle casar, com quem o comprou, ou com quem o vendeu?

Os convidados disseram:
- Com quem o comprou.

E vae elle casou com a Rosa e mandou embora a princeza, que o vendera pelos trapos dos tres vestidos.

Conto acabado, seja Deus louvado.

(Elvas).
A. THOMAZ PIRES


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