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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LIX - "As tres irmãs"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 2, Serpa,
Fevereiro de 1904, Volume VI, pp. 28 a 31 (série de
4 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

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"Pato
aqui, pato ali.
Filha de rei a guardar patos,
E' coisa que nunca vi."
O
sabor dos Sabores
"Havia
um rei que tinha tres filhas e um dia chamou-as e perguntou
á mais velha:
-
Por onde me queres tu, minha filha?
- Pela alma, respondeu ella.
E
perguntou á segunda:
- E tu?
- Pelo coração.
E
fez a mesma pergunta á terceira filha, que lhe respondeu:
"Eu quero tanto ao meu pae como ao sabor dos sabores".
O
pae zangou-se com esta resposta, porque entendeu que não
era querer-lhe bem, e mandou-a pôr fóra do palacio.
Ella
arranjou as suas joias e o seu fato e foi a correr mundo.
Chegou
lá a outro reino, foi a palacio do rei e perguntou
se precisavam de uma creada; disseram lhe que sim e mandaram-na
guardar patos.
Ella,
quando ia para o campo, estendia no chão as suas joias
e punha se a olhar pa-ra ellas muito triste.
Os
patos, como viam luzir, começavam a picar, e ella punha-se
com um pausinho a apontar e a dizer:
"Pato
aqui, pato ali.
Filha de rei a guardar patos,
E' coisa que nunca vi."
Depois
matava um e levava-o para o palacio, e todos os dias matava
um.
O
principe, admirado de tanta morte nos patos. foi espreital-a,
e como lhe visse as joias e ouvisse as palavras, disse:
"Tato!
temos princeza!"
E
quando foi para palacio contou tudo ao pae, e disse que queria
casar com a princeza.
Quando
a rapariga chegou ao palacio foi mettida em confissão
pelo rei, e ella contou tudo.
Perguntou-lhe
o rei se queria casar com o principe, e ella disse que sim,
mas que o pae d'ella havia de ser convidado para o casamento,
e que a comida que o pae havia de comer ella é que
a queria fazer.
Assim
foi, e em todas as comidas não deitou sal.
O
rei de tudo que começava a comer de nada gostava, e
ficou sem jantar.
Diz-lhe
agora a filha: "Vossa real magestade porque não
comeu?"
E
respondeu o rei: "Pois que gosto tem a comida sem sal?
-
Então porque me pôz fóra do palacio por
eu lhe dizer que lhe queria tanto como o sal, que é
o sabor dos sabores?"

http://testesdeportugues.blogspot.com/2008/04/o-sabor-dos-sabores.html
O
pae arrependeu-se muito do mal que tinha feito á filha,
que não o tinha offendido; mas ficou muito contente
por a ver casada com o principe.
Colori,
colorado, está meu conto acabado.
(Elvas)
A. THOMAZ PIRES
Ver Também - O
Sal e a Água - Teófilo Braga - Contos Tradicionais
do Povo Português - (1883):

abrilemmaio.no.sapo.pt
LF/CapaLF
o
sabor dos sabores - por Miguel Castro Caldas, com Arlete,
António Aires, César Almeida, Jaime, José
Moreira.
abrilemmaio.no.sapo.pt/Textos-LF03-MCC
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