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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LXI - "O principe encantado"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 2, Serpa,
Fevereiro de 1904, Volume VI, pp. 28 a 31 (série de
4 contos)
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

cultureba.com.br/irmas
O
principe encantado
"Era
d'uma vez tres irmans que sahiram da sua terra; mas na terra
para onde foram havia o costume de cada pessoa fazer o seu
fato, e ellas não sabiam costurar; queriam dar os seus
vestidos a fazer e não havia quem tomasse conta d'elles,
e decidiram por fim ir morar para outra terra.
No
caminho foram ter a uma estalagem e perguntaram se havia algum
quarto para ellas.
A
estalajadeira disse que não, que tinha tudo cheio;
mas, se quizessem, havia na frente umas casas para onde podiam
ir, mas que apparecia lá um medo.

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Ellas
disseram:
- Não tem duvida. E foram.
E
á noite disseram as duas mais mocas: Vamo-nos a deitar.
E disse a mais velha: Vão vocês, que eu ainda
fico.
E
ficou; estava quasi a escabeçar com somno e: ouviu
dizer: Eu cáio, ou não cáio? E assim
que ouviu isto foi-se a fugir e metteu-se na cama com as duas
irmans.
Na
outra noite ficou a do meio. Aconteceu-lhe o mesmo
E
na noite do outro dia ficou a mais moça.
Quando
ouviu dizer: Eu caio, ou não cáio? respondeu:
Pois cae para ahi.

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E
pela chaminé abaixo cahiu um mólho de chaves.
E
ella disse: - Chaves? N'algumas fechaduras hão de servir.
E
foi abrindo portas e mais portas d'aquella casa, até
que chegou a uma casa onde havia uma cisterna, e sahiu d'ella
um preto, que disse:
- Foste muito valente! E's capaz de fazer outra coisa?
- Então o que é?
- E' montares-te nas minhas costas e irmos por essa cisterna
abaixo.
- Pois vamos.
Foram-se
cisterna abaixo e lá ao fundo chegaram a um palacio;
entraram, mas a rapariga não viu ninguem, em nenhuma
das salas, e nos outros dias tambem ninguem viu, senão
o preto.
E
todas as noites, antes de se deitar, tinha á cabeceira
da cama um copo de doce, que comia, e dormia-se logo a somno
solto.
Um
dia disse ao preto que tinha saudades das suas irmans e que
ia vêl-as.
O
preto não queria, mas ella tanto teimou, que conseguiu.
E
diz-lhe agora o preto: "Ha de ser com uma condição:
hade-se demorar só tres dias e ao fim de tres dias
hade ouvir tres assobios, ao primeiro assobio hade-se despedir
de suas irmans, ao segundo hade estar á porta da casa
da cisterna e ao terceiro havemos de vir cisterna abaixo".
Ella
assim o prometteu. Veiu ás costas do preto, cisterna
acima, e foi ter com as irmãs.
Muita
festa para a festa, e contou tudo, tudo, quanto lhe tinha
succedido.
Diz-lhe
agora a irmã mais velha: "Olha, quando te fores,
não comas o doce que te põem á cabeceira
da cama, não te durmas e põe-te á espera".
Ao
fim dos tres dias soaram os tres assobios e aqui vem ella
para o palacio ás costas do preto.
N'essa
noite foi-se deitar, mas não comeu o doce e esperou,
fazendo-se dormida.
Passado
algum tempo sentiu chegar uma pessoa e metter-se na cama d'ella.
Deixou-se
estar, mas depois accendeu uma véla para ver quem era.
Era
um principe, e toda a tremer, deixou cahir um pingo da véla
na cabeça do pzincipe, que estava a dormir.

peregrinacultural.files.wordpress.com/passarinho-no-galho
Acordou
o principe e disse:
"Mesmo agora me encantaste; e transformou-se n'um passarinho
e fugiu."
Ella
ficou toda atarantada.
Ao
depois, a uma das janellas do quarto do rei d'aquella terra
apparecia todos os dias um passarinho a cantar assim:
"Se
elrei soubesse
Que eu era filho d'elle
Sopinhas de mel
Me dava a comer."
Os
criados tanta vez ouvirem isto, que foram dizel-o á
rainha.
Um
dia a rainha escondeu se debaixo da cama do rei e esperou
o passarinho.
Veiu
elle e cantou:
Se
el-rei soubesse
Que eu era filho d'elle,
Sopinhas de mel
Me dava a comer.
"Se
elrei soubesse
Que eu era filho d'elle
Sopinhas de mel
Me dava a comer."
E
diz ella:
"Não
o sabe o rei,
Mas sabe-o a rainha;
Anda cá, meu filho,
Que te faço as sopinhas"

(Bolachas com mel - Sopinhas de mel!!!)
receitasdaromy.blogspot.com
Veiu
o passarinho; a rainha mandou vir sopinhas de mel, e ao comel-as
quebrou-se o encanto ao passarinho e transformou-se no principe.
Houve
grandes festas no palacio e o principe foi buscar a rapariga
com quem dormiu tantas noites e casou com ella.
Conto
acabado, dinheiro ganhado.
(Elvas).
A THOMAZ PIRES.

files.nireblog.com/blogs/jeovashama/files/passaro_uirapuru
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Ver Tb. por exemplo em: bagosdeuva.blogspot.com/2008_04_01_archive.html
Proverbios & Dictos
(Continuado de pago 16)
DXXV
Queres? se diz aos doentes.
DXXVI
Quem tem bocca não manda assoblar.
DXXVII
Quem não tem bocca é que falla.
DXXVIII
Quem mexe no mel sempre lambe.
DXXIX
Agua não quebra osso.
DXXX
A cada canto um espirito santo.
DXXXI
Aldeia-cadeia.
DXXXII
P'ra quem não gosta ha de sobra.
DXXXIII
Pé velhaco não precisa sapato.
DXXXIV
Perna feia não precisa meia.
DXXXV
Primeiro nós, depois vós.
DXXXVI
Primeiro falta a bocca do que a sopa.
DXXXVII
Por bem fazer, mal haver.
DXXXIX
P'ra pouca saude, mais vale nenhuma.
DXL
Se não fosse a bota cortava-lhe a perna.
DXLI
São carnaduras - umas moles, outras duras.
DXLII
Levantar mais cedo para dizer a missa mais tarde.
(Da
Tradição oral de Serpa)
M. Dias Nunes
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