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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LXV - "Desanda Palitroques"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 4, Serpa,
Abril de 1904, Volume VI, pp. 62 a 63
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

(Camponeses )
ogoblin.com.br/Mulheres-Camponesas
Desanda
Palitroques
"Era
d'urna vez um velho e uma velha; viviam muito pobres, porque
o velho já não podia trabalhar, e um dia a velha
zangou se com elle e elle, apaixonando-se, foi para o campo
e encontrando um homem que lhe perguntou se queria ir guardar
gado, disse-lhe que sim, e foi-se com elle.
Ao
fim d'um anno pediu ao amo para vir ver a mulher e entregar-lhe
o dinheiro que tinha ganho.
O
amo consentiu n'isso, deu-lhe um guardanapo e disse-lhe:
- Quando tiveres fome, não tens mais que dizer: - Guardanapo,
compõe-te.

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No
meio do caminho, o velho, como tivesse fome, estendeu o guardanapo
e disse:
- Guardanapo, compõe-te. E logo ali appareceu muito
de comer.
O
velho ficou muito contente, e disse:
- Bom! Já não preciso guardar gado.
Foi
andando e foi ter a uma estalagem, dizendo á estalajadeira
que lhe guardasse aquelle guardanapo, mas que não dissesse:
"Guardanapo, compõe-te".
Logo
que o velho sahiu, a filha da estalajadeira disse para a mãe:
"Vamos experimentar o guardanapo, e vêr o que isto
é:
- Guardanapo, compõe-te!
E
appareceu comida e mais comida.
- Bom! - disseram ellas - Já não precisamos
accender lume para darmos de comer a quem nol-o pedir.
E
ficaram com o guardanapo.
Quando
o velho veiu, deram-lhe outro.
O
velho, quando chegou a casa, perguntou á mulher o que
tinha para a ceia.
E
ella disse-lhe:
- O que hei-de eu ter? Uns feijões!
-Aventa lá com isso, mulher, que trago ceia melhor.
Ella
não queria, mas elle tanto teimou, que a velha teve
de aventar os feijões.
E
elle começou para o guardanapo:
- Guardanapo, compõe-te! Guardanapo, compõe-te!
E
nada de apparecer comida.
A
velha ficou desesperada e pôz o velho na rua.
E
aqui vae o velho outra vez para casa do amo a guardar gado.
Ao
fim d'um anno quiz ir outra vez ver a mulher e o amo deu-lhe
uma burra e disse-lhe:
- Quando tiveres precisão de dinheiro, não tens
mais do que dizer: "Burra, faz dinheiro".

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No
caminho quiz experimentar o caso, e a burra fez bastante dinheiro.
Foi
ter á mesma estalagem, deu a burra aguardar, mas com
a recommendação de que não lhe dissessem:
"Burra, faz dinheiro".
Succedeu-lhe
o mesmo que quando foi do guardanapo - trocaram-lhe a burra.
E
aqui vem o velho a caminho de casa com a burra trocada.
Chegou
lá e diz para a mulher:
- Já somos ricos. Queres vêr? E começa
a dizer:
- Burra, faz dinheiro. Mas a burra não fazia coisisima
nenhuma.
E
a velha, cada vez mais desesperada com tantos enganos, põe
o velho na rua.
E
lá foi o pobre do velho outra vez para casa do amo
a guardar gado.
Ao
fim de outro anno quiz o velho tornar a casa para ver a mulher
e o amo deu-lhe um sacco com dois paus dentro e disse-lhe:
- Quando te vires n'alguma affiicção, não
tens mais do que dizer para o sacco: "Desanda palitroques".;
e quando não queiras que elles batam mais, dizes: "Palitroques
ao sacco".

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No
meio do caminho, o velho quiz experimentar, e ao dizer:
"Desanda palitroques", saltam os paus de dentro
do sacco e começam a bater em tudo quanto encontravam;
depois de se fartar de ver bater, disse: "Palitroques
ao sacco", e aqui veem elles metter-se no sacco.
Disse
o velho para comsigo: "Agora é que me vou a castigar
a estalajadeira, que me ficou com o guardanapo e com a burra.
Chegou
á estalagem e disse.:
- Guardem-me cá este sacco, mas não lhe digam:
Desanda palitroques.
A
estalajadeira e mais a filha, como das duas vezes se tinham
sahido bem, assim que o velho deu costas, disseram:
"Desanda palitroques", e aqui começaram os
paus a bater-lhes fortemente; n'isto veiu o velho e ellas
pediram-lhe por tudo quanto havia que as livrasse d' aquella
pancadaria de crear bicho, e elle disse-lhes:
- Só accudo se me apresentarem o meu guardanapo e a
minha burra.
- Pois sim, senhor, disseram ellas, com tanto que nos livre
d'isto.
Depois
o velho disse:
- Palitroques ao sacco.
E
os paus deixaram de bater, e o velho foi para casa muito contente
com as suas prendas.
Bateu
á porta, a mulher não lh'a queria abrir, julgando
que a ia enganar pela terceira vez; mas tanto lhe pediu que
ella cedeu; e experimentaram as duas primeiras prendas, que
deram bom resultado.
A
velha ficou muito contente, porque já estava rica,
e ficaram vivendo como Deus com os anjos.
Os
visinhos assim que viram aquella fartança, foram accusar
o velho de ladrão.
Foi
preso o velho e condemnado á morte.
Quando
já estava rodeado da justiça e de muito povo
para o verem enforcar, elle pediu que lhe deixassem vir de
casa um sacco que lá tinha; disseram-lhe que sim, e
logo que o sacco chegou, gritou o velho:
-
"Desanda palitroques!"
E
começaram os paus a bater n'aquella gente toda; houve
muitas pernas partidas e braços e cabeças quebradas,
e começaram todos a pedir que os livrassem d'aquella
pancadaria, e o velho disse:
- Só se me perdoarem a morte, porque estou innocente;
a riqueza que tenho deu-m'a meu amo, que era S. Pedro.
A
justiça disse que sim, e o velho gritou:
- "Palitroques, ao sacco!"
Logo
que os paus se metteram no sacco, pôl-os ás costas
e foi-se caminho de casa a viver com a sua velhota.
Colori,
colorado, está meu conto acabado.
(Elvas).
A THOMAZ PIRES.
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