CONTOS & LENDAS
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12 - TRADIÇÃO - SERPA - Revista de 1899 - 1904

CONTOS & LENDAS

 

 

 

 

 

 


CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LXV - "Desanda Palitroques"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 4, Serpa, Abril de 1904, Volume VI, pp. 62 a 63

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


(Camponeses )
ogoblin.com.br/Mulheres-Camponesas

Desanda Palitroques

"Era d'urna vez um velho e uma velha; viviam muito pobres, porque o velho já não podia trabalhar, e um dia a velha zangou se com elle e elle, apaixonando-se, foi para o campo e encontrando um homem que lhe perguntou se queria ir guardar gado, disse-lhe que sim, e foi-se com elle.

Ao fim d'um anno pediu ao amo para vir ver a mulher e entregar-lhe o dinheiro que tinha ganho.

O amo consentiu n'isso, deu-lhe um guardanapo e disse-lhe:
- Quando tiveres fome, não tens mais que dizer: - Guardanapo, compõe-te.


rainhasdolar.com/media/1/perni

No meio do caminho, o velho, como tivesse fome, estendeu o guardanapo e disse:
- Guardanapo, compõe-te. E logo ali appareceu muito de comer.

O velho ficou muito contente, e disse:
- Bom! Já não preciso guardar gado.

Foi andando e foi ter a uma estalagem, dizendo á estalajadeira que lhe guardasse aquelle guardanapo, mas que não dissesse: "Guardanapo, compõe-te".

Logo que o velho sahiu, a filha da estalajadeira disse para a mãe:
"Vamos experimentar o guardanapo, e vêr o que isto é:
- Guardanapo, compõe-te!

E appareceu comida e mais comida.
- Bom! - disseram ellas - Já não precisamos accender lume para darmos de comer a quem nol-o pedir.

E ficaram com o guardanapo.

Quando o velho veiu, deram-lhe outro.

O velho, quando chegou a casa, perguntou á mulher o que tinha para a ceia.

E ella disse-lhe:
- O que hei-de eu ter? Uns feijões!
-Aventa lá com isso, mulher, que trago ceia melhor.

Ella não queria, mas elle tanto teimou, que a velha teve de aventar os feijões.

E elle começou para o guardanapo:
- Guardanapo, compõe-te! Guardanapo, compõe-te!

E nada de apparecer comida.

A velha ficou desesperada e pôz o velho na rua.

E aqui vae o velho outra vez para casa do amo a guardar gado.

Ao fim d'um anno quiz ir outra vez ver a mulher e o amo deu-lhe uma burra e disse-lhe:
- Quando tiveres precisão de dinheiro, não tens mais do que dizer: "Burra, faz dinheiro".


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No caminho quiz experimentar o caso, e a burra fez bastante dinheiro.

Foi ter á mesma estalagem, deu a burra aguardar, mas com a recommendação de que não lhe dissessem: "Burra, faz dinheiro".

Succedeu-lhe o mesmo que quando foi do guardanapo - trocaram-lhe a burra.

E aqui vem o velho a caminho de casa com a burra trocada.

Chegou lá e diz para a mulher:
- Já somos ricos. Queres vêr? E começa a dizer:
- Burra, faz dinheiro. Mas a burra não fazia coisisima nenhuma.

E a velha, cada vez mais desesperada com tantos enganos, põe o velho na rua.

E lá foi o pobre do velho outra vez para casa do amo a guardar gado.

Ao fim de outro anno quiz o velho tornar a casa para ver a mulher e o amo deu-lhe um sacco com dois paus dentro e disse-lhe:
- Quando te vires n'alguma affiicção, não tens mais do que dizer para o sacco: "Desanda palitroques".; e quando não queiras que elles batam mais, dizes: "Palitroques ao sacco".


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No meio do caminho, o velho quiz experimentar, e ao dizer:
"Desanda palitroques", saltam os paus de dentro do sacco e começam a bater em tudo quanto encontravam; depois de se fartar de ver bater, disse: "Palitroques ao sacco", e aqui veem elles metter-se no sacco.

Disse o velho para comsigo: "Agora é que me vou a castigar a estalajadeira, que me ficou com o guardanapo e com a burra.

Chegou á estalagem e disse.:
- Guardem-me cá este sacco, mas não lhe digam: Desanda palitroques.

A estalajadeira e mais a filha, como das duas vezes se tinham sahido bem, assim que o velho deu costas, disseram:
"Desanda palitroques", e aqui começaram os paus a bater-lhes fortemente; n'isto veiu o velho e ellas pediram-lhe por tudo quanto havia que as livrasse d' aquella pancadaria de crear bicho, e elle disse-lhes:
- Só accudo se me apresentarem o meu guardanapo e a minha burra.
- Pois sim, senhor, disseram ellas, com tanto que nos livre d'isto.

Depois o velho disse:
- Palitroques ao sacco.

E os paus deixaram de bater, e o velho foi para casa muito contente com as suas prendas.

Bateu á porta, a mulher não lh'a queria abrir, julgando que a ia enganar pela terceira vez; mas tanto lhe pediu que ella cedeu; e experimentaram as duas primeiras prendas, que deram bom resultado.

A velha ficou muito contente, porque já estava rica, e ficaram vivendo como Deus com os anjos.

Os visinhos assim que viram aquella fartança, foram accusar o velho de ladrão.

Foi preso o velho e condemnado á morte.

Quando já estava rodeado da justiça e de muito povo para o verem enforcar, elle pediu que lhe deixassem vir de casa um sacco que lá tinha; disseram-lhe que sim, e logo que o sacco chegou, gritou o velho:

- "Desanda palitroques!"

E começaram os paus a bater n'aquella gente toda; houve muitas pernas partidas e braços e cabeças quebradas, e começaram todos a pedir que os livrassem d'aquella pancadaria, e o velho disse:
- Só se me perdoarem a morte, porque estou innocente; a riqueza que tenho deu-m'a meu amo, que era S. Pedro.

A justiça disse que sim, e o velho gritou:
- "Palitroques, ao sacco!"

Logo que os paus se metteram no sacco, pôl-os ás costas e foi-se caminho de casa a viver com a sua velhota.

Colori, colorado, está meu conto acabado.

(Elvas).
A THOMAZ PIRES.

 

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