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CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS
(recolhidos da Tradição oral)
LXVIII - "A menina apparecida"
Por A. Thomaz Pires
Elvas
In Tradição II vol. Anno VI, Nº 6, Junho
de 1904, Volume VI, pp. 94 e 95
[Digitalizado
por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada),
procurando manter a grafia registada na época.]

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A
menina apparecida
"Era
d'uma vez um rei muito moço e um conde, foram passeiar
e tanto passearam que veio a noite. Viram ali uma casa com
luz, foram bater á porta e pediram ao dono da casa
para os deixar lá ficar, e o homem disse:
"Fiquem,
senhores, mas eu não tenho cama para descançarem,
tenho só uma, mas a minha mulher está n'ella
muito doente."
"Dê-nos
umas cadeiras"; e sentaram- se ao lume de lenha.
Pela
noite adeante nasceu uma menina e disse uma voz:
"Esta que nasceu ha-de reinar"
E
o rei disse para o conde:
"Não ouviste?""
"Ouvi, real senhor."
"Ora esta!"
E
de manhã, quando o homem veio dizer que lá tenham
uma creadinha ás suas ordens, o rei disse:
"Vae baptisar a creanca".
E
o homem disse:
"Então ainda esta noite nasceu! e não tenho
padrinho".
- "O padrinho é este senhor".
E
baptisaram-n'a e foi padrinho o conde.
E
o rei disse:
"A menina vae comnosco".
O
homem não queria deixal-a ir, mas o rei disse:
"Sou o rei, mando n'ella". E os paes lá ficaram
muito tristes.
No
caminho o rei disse para o conde:
"Mata a tua afilhada".
O
conde disse:
"Não mato, se queria que a matasse não
dissesse para eu ser padrinho".
E
levava uma cinta encarnada, enrolou a crença na cinta
e dependurou-a d'uma arvore.
Passaram
dois almocreves e disse um:
"Olha uma cinta encarnada e a mim que me faz tanta falta!"
Foi
tiral-a e encontrou a creança.
- "Olha! tão bonita! levo-a para casa, que não
tenho filhos."

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Quando
a creança chegou aos oito annos mandaram tirar-lhe
o retrato e o pae foi vendel-o por muitas terras, dizendo
que era o retrato da menina apparecida n'uma cinta encarnada.
O
conde comprou um retrato e foi mostral-o ao rei, e o rei disse:
"Dize ao homem que traga a criança."
Elle
não queria leval-a, mas pela força sempre a
levou.
O
rei mandou fazer um caixão, metteram n'elle a creanca
e o rei disse-lhe:
"Levas ahi comer para sete annos."
E
deitaram o caixão no meio do mar.
Ao
fim de sete annos veio o caixão acima.
Defronte estava a tia do rei á janella, viu o caixão
no mar e mandou buscal-o.
Abriu
o caixão e encontrou uma menina muito bonita; e mandou
participar ao sobrinho que tinha seis aias e agora sete, uma
muito bonita que tinha vindo do mar dentro d'um caixão.
E
o rei disse: "Ainda não morreste, raça
do diabo!"
E
foi visitar a tia para ver a rapariga e levou sete anneis
todos eguaes e deu um a cada aia e aquella que perdesse o
annel morreria.
O
rei andava sempre atraz da rapariga e lá um dia foi
ella lavar-se, tirou o annel e esqueceu-se d'elle.
Quando
veio buscal-o já não o encontrou.

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Tinha-o
tirado o rei e foi atiral-o ao mar.
Veio
a rapariga perguntar ás outras e disseram-lhe que não
tinham visto o annel.
O
rei adoeceu, tinha muito fastio e a aia disse á tia
do rei que talvez uma postinha de peixe lhe abrisse o appetite.
"Lembras-te
bem" - disse a tia, e mandou comprar peixes e de dentro
da barriga d'um sahiu o annel.
Logo
que o rei o soube, disse:
"Então para que hei de estar com mais coisas?
Caso com ella e que reine."
E
casou.
(Elvas).
A THOMAZ PIRES.
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