CONTOS & LENDAS
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na LITERATURA POPULAR PORTUGUESA

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As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR (Ver Notas)

Décima de Manuel de Castro - ENXADA e gráfico I

Décima de Camões e gráfico II

Décima de Manuel de Castro - POESIA

Décima do Pôtra

 

Uma Décima de Manuel de CASTRO

MOTE

FUI NOVA CORTANTE ENXADA
DESBRAVEI, CAVEI O CHÃO,
FUI SUCATA ABANDONADA,
ANDO GORA NUM CANHÃO!

Quase me lembro de ser
A pedra dum mineral
E lembro-me a luta fatal
Do braço p’ra me colher;
Levaram-me a derreter,
Fui em ferro transformada,
Fui depois à martelada
Numa bigorna estendida,
Deram-me a forma devida
Fui nova, cortante enxada.

Começava de manhã
Sempre em luta vigorosa,
Mesmo em terra pedregosa,
Cada vez com mais afã,
Reisti enquanto sã
A poder ser consertada,
Já rasinha e dilatada,
Deixei de ser ferramenta,
Fui p’ró canto ferrugenta,
Fui sucata abandonada.

 

Comprou-me um moço posssante,
Pôs-me um cabo de madeira
E lá vou na segunda-feira
Nos braços desse gigante;
Desde esse dia em diante
Foi a minha profissão
Desbravar terras de pão,
Relvas, vinhas olivais,
Vinte anos, talvez mais,
Desbravei, cavei o chão.

 

Passei anos sem valor
Com velhos ferros como eu,
Até que um dia apareceu
Lá por cassa um comprador;
Meteram-me num vapor,
Fui a nova fundição,
Por meu destino ou condão
Nunca mais cavei na terra,
Mandaram-me para a guerra,
Ando agora num canhão!

 

uma DÉCIMA de Luís Vaz de Camões: CANTIGA - MOTE ALHEIO

 

 

 

 

 

 

 

 
Como exemplo, uma DÉCIMA de Luís Vaz de Camões: CANTIGA - MOTE ALHEIO.

In: As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR – inédito de JRG, com publicação parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. VII/VIII, série III, de Agosto de 98, sob o Título: DÉCIMAS - Uma Linguagem Comum Ibero-Americana.

 

MOTE ALHEIO

Campos bem-aventurados,
Tornai-vos agora tristes,
Que os dias em que me vistes
Alegre, já são passados.

Campos cheios de prazer,
Vós, que estais reverdecendo,
Já me alegrei com vos ver;
Agora venho a temer
Que entristeçais em me vendo,
E, pois a vista alegrais
Dos olhos desesperados,
Não quero que me vejais,
Pera que sempre sejais,
Campos bem aventurados.

Já me vistes ledo ser;
Mas depois que o falso Amor
Tão triste me fez viver,
Ledos folgo de vos ver,
Porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
De minha dor me sentistes,
Julgai quanto mais desejo
As horas que vos não vejo,
Que os dias em que me vistes.

 

Porém, se por acidente
Vos pesar de meu tormento,
Sabereis que Amor consente
Que tudo me descontente,
Senão descontentamento.
Por isso vós arvoredos,
Que já nos meus olhos vistes
Mais alegrias que medos,
Se mos quereis fazer ledos,
Tronai-vos agora tristes.

 

O tempo, que é desigual,
De secos, verdes vos tem;
Porque em vosso natural
Se muda o mal pera o bem,
Mas o meu pera mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
Pelos tempos diferentes
Que de Amor me foram dados,
Tristes, aqui são presentes;
Alegres, Já são passados.

  Obras de Luís de Camões, pp. 743-744
Lello & Irmão - Editores, Porto, 1970

 

DÉCIMA DE MANUEL DE CASTRO

EMTUDO SINTO POESIA,
DESDE O INSECTO À PLANTA,
TUDO ME DIZ SINFONIA,
TODO ME PRENDE E ENCANTA
!

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

In: As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR – inédito de JRG, com publicação parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. VII/VIII, série III, de Agosto de 98, sob o Título: DÉCIMAS - Uma Linguagem Comum Ibero-Americana.

MOTE

Em tudo sinto poesia
Desde o insecto à planta!
Tudo me diz sinfonia
Tudo me prende e encanta!

Um cardo seco que seja,
Um pedinte esfarrapado,
Qualquer pária abandonado,
Um réptil que rasteja,
A borboleta que adeja,
O gavião que assobia,
O pintainho que pia
Implorando à galinha,
Por simples tendência minha,
Em tudo sinto poesia!

A água que corre nas fontes,
Os arroios graciosos,
Os regatos caprichosos,
A imponência dos montes,
Os extensos horizontes,
A brilhante luz do dia,
A contínua melodia
Das vozes da Criação,
É tudo a mesma canção,
Tudo me diz sinfonia!

 

Uma flor que murchou,
Outra mais que floriu,
Uma abelha que zumbiu,
Um veículo que passou,
Um insecto que saltou,
Um rebanho que se espanta,
O eco duma garganta,
Um apito, um som disperso,
Tudo diz o mesmo verso
Desde o insecto à planta.

 

A majestade da serra,
Os aromosos perfumes,
Os sotaques, os costumes
Dos habitantes da Terra,
O cordeirinho que berra,
O passarinho que canta,
A caça que se levanta
A fugir espavorida,
Tudo poemas da vida,
Tudo me prende e encanta!

 

UMA DÉCIMA DO PÔTRA

A propósito do fenómeno, que foi Inocêncio de Brito, no final do século dezanove e primeiras décadas do século XX, lembrou-se, o Senhor Luís Alves, de um outro PASTOR DE CABRAS, do tempo de frei Manuel do Cenáculo (n. 1724, foi Bispo de Beja e arcebispo de Évora; em 1770 renovou a Diocese de Beja que tinha deixado de o ser durante uns tempo)...

Quando este sábio pastor andava nas suas vistas e andanças pelo Alentejo, alguns lavradores que sabiam do seu interesse pela literatura e pela poesia, falaram-lhe de um pastor de cabras, o PÔTRA que era um poeta repentista...

Cheio de curiosidade quis um dia pôr à prova o famoso pastor com fama de repentista...

Levado à sua presença, diz o bispo:

- Faz-me um poema!

- Dê-me, Senhor o Mote!

E no entusiasmo e na galhofa o Bispo bateu as palmas...
E sai-se o pastor:

Senhor meu, bateu as palmas
Pois nós não somos iguais
Eu sou pastor de animais
E vós sois pastor das almas
Sofro frio e sofro calmas
Sofro do tempo os rigores
Vós brilhais entre os doutores
Servindo aos sábios de exemplo
Eu no prado e vós no templo
Nós ambos somos pastores.

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Ver mais uma versão publicada

no jornal "Há Tanta Ideia Perdida" da CONFRARIA DO PÃO

O PÔTRA – o Poeta Pastor do Século XVIII, S. Matias – Beja.

 Evocando outra figura “esquecida” de S. Matias ou das cercanias...

 

Uma célebre Décima (mesmo só dez versos) do PÔTRA

 

O senhor Luís Alves, é um poeta faz tudo, natural de S. Matias, Beja, com cerca de sessenta anos em 1999, autodidacta, senhor de uma cultura e de uma memória fora do vulgar, pois pode passar um dia inteiro, dizendo por exemplo, factos, episódios, datas de nascimento ou morte de grandes personalidades, começando no dia um de Janeiro e seguindo por aí fora..., criando e resolvendo problemas complicadíssimos, dizendo volumes e medidas de rios montanhas quedas de água... (O Mestre Luís Alves faleceu, há uns anos, já depois de eu ter escrito esta crónica, em 2001 ou 2202).

 

Ora o Mestre Luís Alves, falando um dia, numa taberna, em S. Matias , Beja, a propósito de um outro fenómeno, outro mestre de Poetas que foi Inocêncio de Brito, um Poeta Popular que nasceu no final do século dezanove e viveu as primeiras décadas do século XX, lembrou-se, o Senhor Luís Alves, de um outro PASTOR DE CABRAS, do tempo de Frei Manuel do Cenáculo (n. 1724, foi Bispo de Beja e Arcebispo de Évora; em 1770. Como grande obra, que deixou marca na história, foi ele que renovou a Diocese de Beja, que tinha deixado de o ser durante uns tempos)...

Quando este Bispo e sábio pastor de almas andava nas suas vistas e andanças pelo Alentejo, alguns lavradores, que sabiam do seu interesse pela literatura e pela poesia, falaram-lhe de um pastor de cabras, o PÔTRA que era um poeta repentista... Cheio de curiosidade quis um dia pôr à prova o famoso pastor com fama de versejador... Levado à sua presença, diz o bispo:

‑ Faz-me um poema, pastor!

‑ Dê-me, Vossa Excelência, o Mote!

E no entusiasmo e na galhofa o Bispo bateu as palmas... (E consta então que foi esta a DEIXA, apanhada pelo pastor…

E sai-se o pastor:

Frei Manuel do Cenáculo

Nasceu em 1724, em Lisboa, e morreu em 1814, em Évora

Versão que me foi dada pelo Sr. Luís Alves

Versão da Mãe do Chico Madureira

Senhor meu, bateu as palmas!

Pois nós não somos iguais.

Eu sou pastor de animais

E vós sois pastor das almas…

Sofro frio e sofro calmas,

Sofro do tempo os rigores…

Vós brilhais entre os doutores

Servindo aos sábios de exemplo;

Eu no prado e vós no templo

Nós ambos somos pastores.

Senhor meu, batei as palmas,

Que nós não somos iguais,

Eu sou pastor de animais

E vós sois pastor de almas…

Sofro frio e sofro calmas,

Sinto do tempo os rigores,

Vós brilhais entre os doutores

Servindo ao sábio de exemplo,

Eu no prado e vós no templo,

Nós ambos somos pastores

É espantoso verificar como, através do tempo, sem registo que se conheça, esta décima tenha corrido toda a região do Alentejo e embora com algumas diferenças, todos a atribuem a um Pastor analfabeto que era sabido e conhecido pela arte de rimar!

É esta a história verdadeira? Não sei.

Deixo-a, aqui, lado a lado com a que nos foi dada pelo Francisco Madureira no número anterior, para que conste.

Levo o meu atrevimento um pouco mais longe.

Como me deixei seduzir por estes valores da Tradição, em especial pelos valores da Tradição Oral, transmitida de geração em geração de “boca a ouvido”, como se verifica por este testemunho do Francisco, que a recebeu da mãe e eu que a recebi do ti Luís Alves, que só conheci nos anos noventa, “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto” e desde há muito defendo e divulgo que, nestas “artes” da tradição oral, seja poesia, contos e lendas e istórias de encantar, o grande desafio que os nossos pais e avós nos deixaram é o da Criatividade.

Aquele: «Foi assim que me contaram…», «Era uma vez…», era e é, segundo a minha Modesta, Respeitável e Discutível opinião, o mote para “agarrares” a tua oportunidade de criares algo de novo, como implicitamente os antepassados nos diziam apoiando-se na autoridade dos antepassados deles. «Um dia, a minha avó contou-me…». E, a partir daí, ela adaptava a história, que tinha ouvido contar, com certeza, mas adaptada ao tempo, às circunstância, ao ambiente, adaptada à idade do público que tinha pela frente. É esta para mim a grande herança que nos foi legada e temos o direito e o dever de desenvolver, para deixarmos algo aos nossos descendentes.

Agora, nos nossos tempos, tempos de maiores facilidades do registo escrito ou gravado, mas também tempos do efémero, creio que é este o nosso papel. O desafio de deixarmos registado no papel ou nos jornais ou no gravador ou no vídeo, aquilo que irá desencadear a criatividade das gerações futuras.

Foi por isso que me atrevi a escrever o que se segue e aí fica mais uma DEIXA.

Parece que nunca foi possível saber se existiu a DÉCIMA completa do Popular Poeta – o PÔTRA. Talvez não tenha mesmo existido, porque não era disso que se tratava, mas tão só de uma DÉCIMA simples, como resposta ao desafio, como se usa nas DÉCIMAS silvadas. Apesar disso e tentando evocar o inspirado Pastor – o PÔTRA, que gozava de grande fama em Beja e por todos os seus arredores, onde havia feiras e grandes despiques, um dia, o poeta menor, José Penedo*, tentou “engendrar” o que seria a DÉCIMA completa, tendo “inventado” a QUADRA completa como MOTE...

Um Bispo, Pastor de Almas,

Encara o POTRA, pastor...

O Senhor bateu as palmas:

- Nós ambos somos Pastores

Conta a estória, que, um dia,

O Frei Manuel do Cenáculo,

Governando com seu báculo

E grande sabedoria,

Quando os montes percorria

Sofrendo o rigor das calmas

Recebendo flores e palmas,

Encontra o PÔTRA, o pastor

Poeta de grande valor!

Ele, um Bispo Pastor de Almas!

 

- Creio que um analfabeto

Não pode versos fazer!...

Não sabes ler, escrever!...

Mas dizem que és esperto...

- Eles fazem do longe perto!...

Meu labor não são as almas,

Mas sofrer, do tempo, as calmas,

A chuva, o frio, o rigor...

Eu sou, de animais, pastor...

E o Senhor bateu as palmas...

 

- Como te chamas, pastor?

Tens fama de grande bardo!

Faz um verso a meu agrado

E terás os meus louvores

Pois muitos te dão valor...

- Pois se o ouviste(s), Senhor

E o pedis com tal calor

Venha o MOTE para o verso!...

E o Bispo de olhar travesso

Encara o Pôtra, pastor:

«- Senhor meu bateu as palmas!!!

Pois nós não somos iguais...

Eu sou pastor de animais

E vós sois Pastor das almas!

Sofro frio e sofro as calmas

Sofro, do tempo, os rigores.

Vós brilhais entre os Doutores

Servindo, aos sábios de exemplo!

Eu, no prado e vós no Templo...

Nós, ambos, somos pastores! »

 

Aí fica, como aprendiz de “fazedor de Décimas” esta DEIXA, com o meu pedido de desculpas aos Mestres mais entendidos, que cito neste trabalho e com os quais estarei sempre disposto a aprender.

 

* José Penedo é um dos deNómios (género de pseudónimo ou heterónimo) usado pelo autor.

José Rabaça Gaspar

Corroios, Junho de 2004

 

(Ver também esta Décima. citada por Manuel Viegas Guerreiro, in PARA A HISTÓRIA DA LITERATURA POPULAR PORTUGUESA, Instituto de Língua e Cultura Portuguesa, Ministério da Educação, (1ª ed. 1978) 2ª ed. 1983, p. 22. cintando por sua vez in Revista Lusitana, vol IX, p. 140.

SOBRE AS DÉCIMAS

Seria bom ouvir aqui, só de Manuel de Castro, “Fui nova cortante enxada...” e “Em tudo sinto poesia...

- De mineral, a metal, a enxada que se gastou até ir para a um canhão, tudo isto dito como quem fala e fala como quem canta, temos aí alimento para ver a vida do Homem e da Humanidade!!!

- O encanto perante as maravilhas da Natureza e da Vida, desde o mais simples, aos sons sotaques, aos montes e montanhas, é um Cântico que é muito raro encontrar em poesia!!!

                E “as QUADRAS? de 60 pontos?” de Manuel José Santinhos?

                Eis aí um desafio que o Povo lança aos estudiosos, com o respeito, a tolerância, a seriedade que é apanágio dos verdadeiros estudiosos que buscam a sabedoria.

                As décimas, pela sua raridade, pela sua originalidade, pelo seu enraizamento em certas regiões do Sul do país, são ou devem ser consideradas de alto valor artístico, são ou devem ser consideradas património inalienável da Humanidade, talvez não como catedrais, mas pelo menos como jóias de uma arquitectura rara, e para nossa glória, são, obra do Povo, que não foi à Escola, se foi não as aprendeu na Escola, porque a Escola nem sequer lhe tem dado a atenção, que esta extraordinária forma de expressão poética, merece. Somos nós que temos de fazer este estudo e de o apreciar devidamente, ou estamos à espera que os estranhos o venham fazer?

  As décimas, caro leitor e amigo, acho que têm a magia e o encanto daqueles misteriosos livros circulares que todos desejavam ter ou escrever, mas que os monges medievais disseram não existir nas suas bibliotecas, nem nunca ter existido, como denuncia Humberto Eco no seu labiríntico Nome da Rosa.

Assim, após longas e aturadas investigações, chegámos à conclusão que pode começar a ler uma décima por onde lhe aprouver.

O mote, ou quadra redonda se for perfeita ou de rima quadrada, há-de dar-lhe o quadrado que se vai transformar num círculo, à medida que as décimas, que vão terminar em cada verso, começarem a girar, construindo a circulatura do quadrado, ou a quadratura do círculo, que nunca foi conseguida por nenhuma das artes.

Só esta arte, de cariz e índole popular e tradicional, pela sua ingenuidade e ousadia, tenta ir mais além daquilo que as ciências exactas e as exegeses eruditas permitem arriscar.

Talvez seja mesmo a realização da UTOPIA.

Ousamos pois dizer que, através da magia das DÉCIMAS, A UTOPIA É POSSÍVEL.

 

In: As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR – inédito de JRG, com publicação parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. VII/VIII, série III, de Agosto de 98, sob o Título: DÉCIMAS - Uma Linguagem Comum Ibero-Americana.

 

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