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A
POESIA e o CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS
Ver DÉCIMAS: As
DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR
- Arquitectura e Modelos: Camões... Manuel de CASTRO...
Sobre
o CANCIONEIRO
Sobre
as DÉCIMAS (ver à frente) e X
IBRITO - X TiBELCHIOR - X
MCASTR1 - XMCASTRO2
Três
CANTIGAS - MESTRE ALENTEJANO - FISGA - POSTAL DOS CORREIOS
Três
MODAS - ALENTEJO - 'STRALA A BOMBA - A REBÊRA D'ODEVELAS
SOBRE
O CANCIONEIRO
E termina assim a sua introdução (Maria Arminda Zaluar
Nunes, in CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por josé
Leite de Vasconcellos, coordenado e com introdução
de MAZN, vol. I, por Ordem da Universidade, 1975, p. XXXIX:
“As cantigas são valiosas
nos seus aspectos literário, filológico e etnográfico. É
o Cancioneiro importantíssimo documento para a revelação do povo
português, encarado tanto na sua vida psíquica como na material
e na evolução dentro do meio em que habita. Conceitos de vida, sentimentos,
usos e costumes tradicionais, frequentemente já obliterados nas
classes evoluídas, tudo aí se espelha.”
E termina:
“Não será insistência
demasiada recordar que eminentes etnógrafos da actualidade são concordes
em que, para o perfeito conhecimento dum país, é imprescindível
o estudo das suas manifestações não só cultas mas também populares.”
SOBRE
AS DÉCIMAS
Seria bom ouvir aqui, só de Manuel de Castro,
“Fui nova cortante enxada...” e “Em tudo sinto poesia...”
- De mineral, a metal, a enxada que se gastou até ir
para a um canhão, tudo isto dito como quem fala e fala como quem
canta, temos aí alimento para ver a vida do Homem e da Humanidade!!!
- O encanto perante as maravilhas da Natureza e da
Vida, desde o mais simples, aos sons sotaques, aos montes e montanhas,
é um Cântico que é muito raro encontrar em poesia!!!
E “as QUADRAS? de
60 pontos?” de Manuel José Santinhos?
Eis aí um desafio que o Povo lança aos estudiosos, com o
respeito, a tolerância, a seriedade que é apanágio dos verdadeiros
estudiosos que buscam a sabedoria.
As décimas, pela sua raridade, pela sua originalidade, pelo
seu enraizamento em certas regiões do Sul do país, são ou devem
ser consideradas de alto valor artístico, são ou devem ser consideradas
património inalienável da Humanidade, talvez não como catedrais,
mas pelo menos como jóias de uma arquitectura rara, e para nossa
glória, são, obra do Povo, que não foi à Escola, se foi não as aprendeu
na Escola, porque a Escola nem sequer lhe tem dado a atenção, que
esta extraordinária forma de expressão poética, merece. Somos nós
que temos de fazer este estudo e de o apreciar devidamente, ou estamos
à espera que os estranhos o venham fazer?
As décimas, caro leitor e amigo,
acho que têm a magia e o encanto daqueles misteriosos livros circulares
que todos desejavam ter ou escrever, mas que os monges medievais
disseram não existir nas suas bibliotecas, nem nunca ter existido,
como denuncia Humberto Eco no seu labiríntico Nome da Rosa.
Assim, após longas
e aturadas investigações, chegámos à conclusão que pode começar
a ler uma décima por onde lhe aprouver.
O mote, ou quadra
redonda se for perfeita ou de rima quadrada, há-de dar-lhe o quadrado
que se vai transformar num círculo, à medida que as décimas, que
vão terminar em cada verso, começarem a girar, construindo a circulatura
do quadrado, ou a quadratura do círculo, que nunca foi conseguida
por nenhuma das artes.
Só esta arte, de cariz
e índole popular e tradicional, pela sua ingenuidade e ousadia,
tenta ir mais além daquilo que as ciências exactas e as exegeses
eruditas permitem arriscar.
Talvez seja mesmo
a realização da UTOPIA.
Ousamos pois dizer
que, através da magia das DÉCIMAS, A UTOPIA É POSSÍVEL.
In:
As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR – inédito de JRG, com publicação
parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. VII/VIII, série III, de
Agosto de 98, sob o Título: DÉCIMAS - Uma Linguagem Comum Ibero-Americana.
(O Touro
e a Cobra)

Neste
Lugar Solitário – Décima de Inocêncio de Brito
NÊSTE LUGAR SOLITARIO
ONDE O ACASO ME TEM
BRADO NINGUEM ME RESPONDE
OLHO NÃO VÊJO NINGUEM
|
Estou
por cá bem felismente
Só
me faz incomodar
Uma
pendencia de olhar
Para
a parte do nascente
Passo
a vida tristemente
Neste
continuo fadario.
Sinto-me
louco ando vario
E
o caso é está bem visto
Que
não dou remedio a isto
Neste
lugar solitario
|
Que
mais pra eu viver triste
Um
cinge as armas de Elrei
E
o mais novinho não sei
Ao
mênos aonde existe
Pra
que o pai o não aviste
A
distancia me o esconde
Lançar
a vista pra onde
Se
o pobre pai nada vê
Estar-lhe
bradando pra quê
Brado
ninguém me responde
|
|
A
côr que não desmerêce
É
amôr de pai pra filhos
E
se ausente dêsses caudilhos
Mais
a côr resplandêce
É
lembrança que não esquêce
E
não pode esquecer a quem
Tem
um aqui, outro álem
Onde
a sórte os colocou
E
eu por sórte tamem estou
Onde
o acaso me tem
|
De
dia mando o sentido
Levar
novas e trazêr
Tanto
dêles quero sabêr
Tão
pouco conrespondido
À
noite um sonho atrevido
Com
illusões me entertem
Illude-me
o querer bem
Que
os estou vendo e ouvindo
E
eu tão nescio acordo rindo
Olho
não vêjo ninguém
|
Por onde andou este homem enquanto
um dos filhos fazia o serviço militar? Porque é que não sabe do
outro? Porque nunca fala da mulher, ou da mãe dos filhos?
É ele mesmo que responde, com NOTAS escritas pelo próprio
ao lado do MOTE:
"Esta obra
fis eu quando estive no monte Corvesso. E, os filhos estavão em
diferentes pontos."
"Um era
militar, e o mais moço estava com as cabras da Apariça ao pé de
Moura. E eu não sabia onde êle estava."
Monte Corvesso? Ou Monte Corveiro?
No original parece-nos poder ler Corvesso, mas as pessoas contactadas
não conhecem tal nome e este, como é em nota, ao lado da Décima,
não deve ser invenção. Há algum Monte, para os lados de Ferreira,
com este nome ou parecido?
In:
As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR – inédito de JRG, e in:
DÉCIMAS de INOCÊNCIO DE BRITO – GRITOS NA SOLIDÃO, inédito de JRG,
com publicação parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. XII, série
III, de Dezembro de 99.
UMA
DÉCIMA DO TI BELCHIORINHO da Estação de Ourique, com o MOTE da INSTRUÇÃO,
talvez anterior à de Inocêncio de Brito...
(Glosando
o mesmo mote mas com o 1º verso modificado(?), transcrevemos esta
décima atribuída ao “tio” Belchior, (falecido), Estação de Ourique,
Castro Verde,
in a espiga - uma publicação Nº 1 de 1982, da Escola Preparatória
de Beja, coordenada por Abílio, Maria do Carmo, Maria da Conceição
Teixeira e Maria Joaquina.
MOTE
A INSTRUÇÃO É PRECISA
A INSTRUÇÃO NÃO CONVÉM
QUE A INSTRUÇÃO EMBRUTECE
A QUEM MUITA INSTRUÇÃO TEM.
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Duques,
marqueses, morgados
Família
de igual medida
É
tudo gente instruída
Alguns
em direito formados
Lentes
e deputados
A
morte os harmoniza
Sabe
Deus quem autoriza
A
conhecer o bem do mal
Para
a base fundamental
A
instrução não é precisa.
|
O
rico por ter estudado
Não
faz trabalhos de peso
Nem
encargos de desprezo
Quem
os faz é gente rude
O
que não sabe faz tudo
é
o que menos merece
É
aquele que não conhece
De
que serve ter aprendido
Há
tanto homem instruído
Que
a instrução embrutece
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Se
todos pudessem estudar
E
todos pudessem saber
Quem
havia exercer
Por
aí tanto lugar
Ninguém
queria trabalhar
Cuidar
dos gados de alguém
O
estudo para quem não tem
Não
é útil o seu ensino
Para
quem é pequenino
A
instrução não convém.
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Ver-se
o pobre ignorante
Não
causa admiração
Ele
não recebeu instrução
Não
vê os erros por diante
Admira
é o estudante
Que
vai a Coimbra e vem
Não
é um são mais de cem
Se
a gente os for a contar
Isso
é que é para admirar
A
quem muita instrução tem.
|
NOTA. Ver no INÍCIO, a mesmo MOTE glosado por Inocêncio
de Brito. As histórias que terão dado origem aos respectivos desenvolvimentos,
são completamente diferentes. Segundo Francisco Paquete, dizem uns
amigos do Ti Belchiorinho da Estação, por exemplo o Chico Nobre
Carreira, de Casével, que terá sido feita, provocado pelo desgosto
causado pelo filho que foi estudar e na volta, nem sequer ligava
ao pai. Mas segundo investigações do mesmo, terá sido um Mote trazido
de Coimbra por Brito Camacho, pelos colegas que não acreditavam
que houvesse poetas alentejanos, que, de uma Quadra - Mote, criassem
as quatro Décimas como desenvolvimento do Tema.
Afinal,
quem será o autor do MOTE e qual é? Com NÃO ou sem NÃO? Ora este
episódio ter-se-á passado pelos anos 1880/90. O Ti Belchior, morreu
em 1917, vítima da pneumónica. Ora a vinda do Afonso Costa a Beja,
ter-se-á passado, pelos anos 1912/13, pois será fácil recolher dados
sobre esse episódio, pelos registos do tribunal ou até junto de
pessoas que ouviram contar...
In:
As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR – inédito de JRG, e in:
DÉCIMAS de INOCÊNCIO DE BRITO – GRITOS NA SOLIDÃO, inédito de JRG,
com publicação parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. XII, série
III, de Dezembro de 99.
Em
tudo Sinto Poesia – Décima de Manuel de Castro
para tentar mostrar como funciona a CONSTRUÇÃO DE
UMA DÉCIMA
In:
As DÉCIMAS ou a MAGIA DA POESIA POPULAR – inédito de JRG, com publicação
parcial na Revista Arquivo de Beja, vols. VII/VIII, série III, de
Agosto de 98, sob o Título: DÉCIMAS - Uma Linguagem Comum Ibero-Americana.
Uma DÉCIMA de MANUEL DE CASTRO da CUBA
MOTE
Fui nova, cortante enxada,
Desbravei, cavei o chão,
Fui sucata abandonada,
Ando agora num canhão!
Quase
me lembro de ser
A
pedra dum mineral
E
lembro-me a luta fatal
Do
braço p’ra me colher;
Levaram-me
a derreter,
Fui
em ferro transformada,
Fui
depois à martelada
Numa
bigorna estendida,
Deram-me
a forma devida
Fui
nova, cortante enxada. |
Começava
de manhã
Sempre
em luta vigorosa,
Mesmo
em terra pedregosa,
Cada
vez com mais afã,
Resisti
enquanto sã
A
poder ser consertada,
Já
rasinha e dilatada,
Deixei
de ser ferramenta,
Fui
p’ró canto ferrugenta,
Fui
sucata abandonada.
|
|
Comprou-me
um moço posssante,
Pôs-me
um cabo de madeira
E
lá vou na segunda-feira
Nos
braços desse gigante;
Desde
esse dia em diante
Foi
a minha profissão
Desbravar
terras de pão,
Relvas,
vinhas olivais,
Vinte
anos, talvez mais,
Desbravei,
cavei o chão.
|
Passei
anos sem valor
Com
velhos ferros como eu,
Até
que um dia apareceu
Lá
por cassa um comprador;
Meteram-me
num vapor,
Fui
a nova fundição,
Por
meu destino ou condão
Nunca
mais cavei na terra,
Mandaram-me
para a guerra,
Ando
agora num canhão!
|
–
Três Cantigas como exemplo
de utilização de uma Linguagem Comum e Característica,
para um nível literário e acessível...Terras
de Grandes Barrigas - Cantiga de António Pinto Basto;
A Fisga e o Postal dos Correios, de João Monge.
|
O Alentejano no Alentejo e o Confronto
com as Outras maneiras de Falar..
|
A Juventude à Procura de Acertar...
|
O Alentejano que imigrou... (falta talvez o que emigrou...)
|
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MESTRE ALENTEJANO,
canta: António Pinto Basto
(José de Vasconcellos e Sá, fado corrido)
|
a fisga
In Rio Grande, CD, com textos de João Monge e compostos
por João Gil, produzido por Rui Veloso, Tim e João Gil, 1996?
|
postal dos correios
In Rio Grande, CD, com textos de João Monge e compostos
por João Gil, produzido por Rui Veloso, Tim e João Gil, 1996?
|
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Terras
de grandes barrigas
Onde
há muita gente gorda,
à
sopa, chama-se açorda,
E
à açorda, chamam-lhe migas...
às
razões, chamam cantigas;
Molhaduras,
são gorjetas;
E
em vez de encostas, chapadas;
Em
vez de açoites, nalgadas;
E
as bolotas são boletas...
Terra
mole, é atasquero;
Ir
embora, é abalare;
Deitar
fora, é aventare;
Fita
de coiro, é atero;
Vaso
com planta, é cravero;
Carpinteiro,
é abegão;
E
a choupana, é cabanão;
às
hortas chamam hortejos;
Os
cestos, são cabanejos;
E
ao trigo, chama-se pão!
No
resto de Portugal(e)
Ninguém
diz palavras tais:
As
terras baixas, são vais;
Vestir
bem, parece mal(e);
à
aveia, chamam cevada;
E
ao bofetão, orelhada;
Alcofa
grande? é gorpelha;
A
?"balazã" é vermelha;
Broas
de mel, é melada!...
Quando
um tipo está doente
Logo
dizem que está morto;
E
a todo o vau, chamam porto;
Chamam
gajo, a toda a gente;
Mas
ter safões é corrente;
Por
acaso, é por adrego;
Ao
saco, chamam talego...
E
até, nas classes mais finas,
Ser
janota, é ser maricas;
Ser
beirão, é ser galego!
Os
porcos, medem-se às varas;
E
o peixe vende-se aos quilos...
E
a gente pasma de ouvi-los
usar
maneiras tão raras!
Chamam
relvas, às searas,
às
vezes, não sei porquê?...
E
tratam por vomecê
Pessoas
a quem venero!...
Não
quero, diz-se: Nã quero!
Eu
não sei, diz-se: Ê nã sê!
|
Trago a fisga no bolso de trás
E na pasta o caderno dos deveres
Mestre-esco1a, eu sei lá se sou capaz
De escolher o melhor dos dois saberes
O pai diz que o Sol éá que noa faz
Minha mãe manda-me ler a lição
Mestre-esco1a, eu sei lá se sou capaz
Faz-me falta ouvir outra opinião
Eu até nem sequer sou mau rapaz
Com maneiras até sou bem mandado
Mestre-escola diga lá se for capaz
Pra que lado é que me viro. Pra que lado?"
Trago a fisga no bolso de trás
E na pasta o caderno dos deveres
Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz
De escolher o melhor dos dois saberes
Já
não tenho mais assunto pra escrever
Cumprimentos
ao nosso pessoal
Um
abraço deste que tanto vos quer
Sou
capaz de ir aí pelo Natal
|
Querida mãe, querido pai. Então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre os dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer
Mas falemos de coisas bem melhores:
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída
Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo “expresso” que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça p’rá merenda
Sempre dá para enganar a saudade
Espero que não demorem a mandar
Novidades na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como vão as oliveiras de “candeio”?
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Cantiga
do Alentejo
ALENTEJO
(DO
CANCIONEIRO POPULAR DO ALENTEJO)
EU GOSTO MUITO DE OUVIR
CA(O)NTAR A QUEM APRENDEU
SE HOUVERA QUEM ME ENSINARA
QUEM APRENDIA (aprendera) ERA EU
EU GOSTO MUITO DE CA(O)NTAR (ESTAR)
ONDE QUER QUE OS MESTRES ‘STÃO
SE NALGUMA COISA ERRAR
OS MESTRES ME ENSINARÃO!
...
EU SOU DEVEDOR À TERRA
E A TERRA ME ESTÁ DEVENDO
A TERRA PAGA-ME EM VIDA
EU PAGO À TERRA MORRENDO...!
(Outros cantam:
EU PAGO À TERRA EM MORRENDO!...
(Ver a diferença profunda!!!)
Do
Cancioneiro Popular do alentejo.
Strala
a Bomba... e A Rebera d'odevelas...
(Coro
Alentejano)

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