feira
as FEIRAS - a FEIRA de CASTRO VERDE
vista por um Cigano Castanho ANDARILHO de FEIRAS
viagens do Cigano Castanho e da Cigana Mariana ataravés do maravilhoso

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

contacto © joraga ® ver tb. em gilviteatro

 

A FEIRA DE CASTRO vista por um CIGANO CASTANHO andarilho de feiras

A FEIRA DE CASTRO

AS FEIRAS EM VÃS REDONDILHAS

penedo gordo
BEJA
1987/1991/1993/94/95

A FEIRA DE CASTRO
DE TODAS AS FEIRAS
DE TODAS AS PALAVRAS
DETODOS OS SIGNOS
DE TODOS OS SÍMBOLOS
DE TODOS OS ÍCONES
DE TODOS OS ÍNDICES
TODOS OS INDÍCIOS
...


título AFEIRA DE CASTRO - AS FEIRAS
autor CIGANO CASTANHO andarilho de feiras
1ª versão @amstrad pcw8256 joraga beja,1987
2ª versão @ IBM PS/1 JORAGA, P.Gordo, Beja, 1991
3ª versão @ JORAGA - C* 486-33c, P.Gordo, Beja 1993/94
4ª versão @ JORAGA - C* 486-66c, P.Gordo, Beja 1994/95
5ª v. p/ o Grupo de Teatro da Esc.Sec. CORROIOS,1 @ JORAGA - C* 486-66c, P.Gordo, Beja JAN/95

 

a feira de castro
a de castro verde
e as outras feiras
as das outras terras...

são todas iguais.
são todas diferentes.
eu canto a de castro
como signo imagem
de milhares de feiras
de milhares de terras...
essa aonde vai
a da sua terra
A FEIRA DE ...
é a sua (minha) feira.

a quem a dedico?
esta feira imagem?
à feira - às feiras
à festa - às festas
a todos aqueles
que fazem a feira...
ciganos, feirantes,
gente da limpeza
que por vezes chamam
a gente do lixo...
aos mestres que mandam
aos homens que cavam
aos pulsos que erguem
estacas e mastros
e aos magos das luzes
que estendem mil fios...
e às mãos que enfeitam
balões e lanternas
que enchem a feira
duma ponta à outra
para todos verem
sem ninguém as ver...
e aos das barracas
aos magos e fadas
que trazem em caixas
todas as surpresas
que vão encantar
os mil compradores
mesmo que não comprem

a feira de castro
de todas as feiras
de todos os signos
de todos os símbolos
de todos os índices
todos os indícios
todas as palavras
mesmo sem palavras
...
a feira de castro
fronteira de encontros
de encontros cruzados
de tempos espaços
de todas as gentes
algarve - alentejo
do norte e do sul
de este e d' oeste

a feira de castro
feira do alvito
feira do cartaxo
as feiras dos santos
do norte e do centro
do centro e do sul
do minho e das beiras
trás-os-montes douro
alentejo algarve
...

a feira de castro
do século XVII
(1620) seiscentos e vinte
Filipe III
com seu TERRADEGO
p'ró Senhor das Chagas
'inda vive agora
nos anos oitenta
nos anos noventa
nos anos dois mil...
encontro de gentes
encontro de tempos
de tempos cruzados
de gentes cruzadas...
gente das cidades
gente das aldeias
gente 'inda dos montes
que acorrem à feira
p'ra sobreviver
p'ra ver outros mundos.

a feira de castro
de espaços cruzados
de cores e de sons
de cheiros e gostos
de sensibilidades...

a feira de castro
fronteira de povos
que são um só povo
algarve alentejo
desvairadas gentes
de muitos lugares
país portugal
e nuestros hermanos
e muitos turistas
de muitos países...

a feira de castro
troca de produtos
de comes e bebes
de subsistência
de tempos antigos
de gostos passados
talvez gulodices
nestes tempos novos:
romãs azeitonas
castanhas e nozes
amêndoas pinhões
favas e ervilhas
figos avelãs
cereais feijões
rubros diospiros..

a feira de castro
d'utensílios sãos
sólidos pesados
de são material...
tábuas e masseiras
e pás para o forno
arcas e arcazes
varas e escadas
para varejar
de cestos e cestas
para enceleirar
cadeiras de verga
tabua (diga tabúa) salgueiro
mil coisas de palha
para ornamentar
mil coisas de bunho
para rechear
a casa do bairro
vivenda ou do monte
onde vai passar
este longo inverno
rolar de estações
de tempos e eras...

a feira de castro
de grandes barracas
de comes e bebes
barracas de tiro
-é só um tirinho,
vá lá, ó freguês
essa pontaria!...
de cobres e latas
e de bugigangas
de barro de plástico
de couro e madeira
mantas e sapatos
botas e chinelos
capotes casacos
safões e samarras
coletes e calças
saias e vestidos
chapéus e gibões
pelicos e capas...

a feira de castro
carrinhos de choque
carrocéis corridas
- é nova corrida
é nova viagem
comprem o bilhete
um molho de senhas
grande circo jumbo
circo cardinali
circo universal...
ou circo da vida
- é entrar senhores
meninos meninas
hoje é só palhaços
e grandes vedetas
coisas nunca vistas
d'outros continemtes
de grandes estrelas
de grande renome
internacional

a feira de castro
como as outras feiras
é o grande circo
das gentes que correm
da gente dos montes
gente das cidades
em busca de tudo
em busca de nada
- venho só p'ra ver!
-atão e não compra
nada desta vez?...
em busca de tudo
em busca de nada
atrás de ilusões
de fios de lã
fios de algodão
do que já não há
e havia dantes...
algodão açúcar
mantas cobertores
casacos capotes
cultura, culturas
botas e sapatos
chinelos tamancas
tudo artesanal
ou então moderno
de tela de plástico...
qualquer ferramenta
de há tanto urgente
agora encontrada
agora inventada
parece um milagre
de tão procurada
p'ra tanto conserto
- parece um concerto! -
p'ra tanta demão
remédio p'ra tudo
uma solução
já tão procurada
e ali à mão

- aqui tem, meu povo
ideal solução...
nada é mais barato
nada de mais inútil!!!
perdão enganei-me!
nada é mais preciso
e pronto a servir
para o que precisa...
não custa dois mil
nem mil e quinhentos
a nota de mil
dá para levar
dois. e paga (só) um.
é assim, meu povo
não há que enganar
nem aqui estamos
p'ra enganar ninguém.
é aproveitar
sempre mais barato
aqui do que lá...
são duas ali
p'r'aquelas senhoras
outra para além
para aquele senhor...
aquele cavalheiro
desculpe o senhor!...
e aqui também
p'r'aquela menina...
é sempre a aviar...
chega-me essa manta
chega-me essa caixa
e essa toalha
esse guarda-chuva
moderno automático
e esse também
dos tempos antigos
de bengala grossa
tamanho de gente
que alberga todos
tapa chuva e sol
como uma cabana
de todas as cores...
chega-me também
esse cobertor
os atoalhados
essas mantas quentes
p'rá noite e p'ró dia
e esses conjuntos
de lençóis flanela
de pano e de linho
que dá p'r'aquecer
encontros de sonho
a dois no quentinho
aconchegadinhos!
próprio para pares
que vão dormir juntos
noites sem dormir...
...tudo vem da fábrica
para as mãos do povo
Ah! mulher dum raio
homem duma cana
no me deixes mal...
nu dás c'o imbrulho
e o freguês espera
Ai! que já nu prestas
nu te quero mais
troco-te na feira
por quem me der mais
por dois rapazolas
por duas moçoilas
há'í mais de cem
sem quem os console
e lhes diga: amém.
- escuta, meu povo:
nu me dá co'a caixa
aberta ó fechada...
ah! home dum raio,
nu te quero mais...
oh mulher danada
troco-te na feira!...
nu se vão embora
ora oiçam cá...
é tudo p'ró povo
só p'ró vosso bem.
nem o presidente
e nem o governo
tratam bem de vós
como nós tratamos!
Vinde a nós meu povo!

- Fala agora tu
tu ou vósmecê
pois está na hora
de dar a palavra
e o microfone
ao outro feirante.
- tome lá a gaita...
ela é toda sua...
é a sua vez...
que vende produtos
e banha da cobra
p'ra todos os males
para o bem de todos...
venda os seus produtos
mas não gastem tudo
porque logo à tarde
inda aqui há mais
cá nesta barraca...

é banha da cobra
é fala barato
é andar à roda
com'um carrocel
como nos carrinhos
no poço da morte
na montanha russa
ou roda gigante...

há que procurar
um pouco de tudo
ou de tudo um pouco...

ele é fruta seca
ou cristalizada
é queijo curado
do da serra autêntico
e aqui de serpa
ou então dos montes
de ovelha de cabra
e do de mistura
...
torrão d'alicante
presuntos fumados
polvo ressequido
torrado na brasa
avelãs e alhos
balões coloridos
amendoins, amêndoas
rádios gravadores
com auscultadores
quadros e molduras
de todas as cores
de todos os temas
cópias de pinturas
de grande valor
de nús e artistas
crianças e flores...
-olha a quele além!
a lágrima é água
que corre do olho...
só lhe falta a fala
o grito e o choro...
mas que grande artista!
paisagens fantásticas
que não há no mundo
e nos vai abrir
aquela parede
que é feia e que é fria...
corações sagrados
carros e paisagens
que são da suiça
mas que têm neve
que aqui não há...
mas inda há mais...
cassetes piratas
que gritam os tops
do último artista
que passa na rádio
e na têvê-música
ele é zé-malhão
ou marco do pau
ou o júlio igreijas
ou o rui ventoso
ou os miniestares
tudo o que 'stá a dar
...
são vasos e plantas
de flores naturais
que até parecem
artificiais
e outras que tais
artificiais
mas de tão perfeitas
quase que parecem
mesmo naturais
...com vaso, sem vaso
p'ra todos os gostos

e depois barracas
de santos e santas
terços de enfeitar
e até p'ra rezar...
senhoras de fátima
de barro, de vidro
corpo iluminado
plástico inquebrável
com ficha, com luz,
a pilhas, corrente!
de lá transportadas
c'o a virtude toda
e com água santa
dentro de garrafas
ou mini frasquinhos!
- é só uma nota.
são só cem mil réis.
estas mais pequenas
são de lá-também
e evita a viagem
e tem'na virtude
para todo o ano
lá em sua casa...
é sempre a aviar.
nem se vê já bem
quem é que tem fome!
quem é que tem fé?
se é aquele que vende
se é aquele que compra
aquela água benta
como a água pé!?

e há chocolate
que é lá da suiça
feito ali, d'espanha,
mesmo garantido
c'os restos do pó
de bolos e doces
tudo coisa boa!...

móveis, candeeiros,
tudo muito antigo
fabricado agora
directo da fábrica
...
são bolos caseiros
feitos aos montões
e também mel puro
tudo empacotado
e bem fabricado
normas CEE...
ou já da UE
bem empacotado
e acondicionado
sacos de feijões
de todas as cores
brancos, salpicados
castanhos-marron
ou esverdeados
e os encarnados
há outros também
pró amarelado
feijão frade ou grão
favas e ervilhas
pevides e alhos
cebolas e nabos
em résteas trançados
cenouras aos molhos
rábanos, rabanetes
azeitonas novas
pisadas curtidas...
arco-íris de cores
de cheiros e sons
de todos os tons
e de todos os gostos!

toca agora a banda
é a bamba, o samba
ou é a lambada
não se sabe bem!!!?
uma alentejana:
não bebas em castro
não matas a sede
cheira a rosa a fonte
tudo misturado
c'o as canções da moda
tudo em altos gritos
raminhos de flores
junto à cabeceira
os amores perdidos
achados na feira!

carrinhos de lata
carrinhos de pau...
como o tempo passa!?
ai valha-me deus!!!
agora de plástico
p'ra durarem mais.
filhós e farturas
bolos, malaquecos
e frangos de campo
que são d'aviário
a meia ração
ou talvez nem não
assados no espeto
que roda a motor
logo ali ao lado
assado na grelha
e virado à mão
com garfo e espeto
em cima da brasa
e mais uns pimentos
e batata frita
em óleo já preto
que é azeite puro
puro d'oliveira!!!
...
barriga já cheia
canecas bebidas
uns copos virados!
mais uma voltinha:

barracas de tiro
um de cada vez
flobert afinada
p'racertar ao lado
e mil tentações
presas às fitinhas...
são só três tirinhos
a nota de cem.
mas não tem clientes!
só mais logo à noite
pela noite dentro
quando as namoradas
querem provas dadas
ou não há p'r'onde ir
porque a feira é farta
de tudo.
ilusões!
de amores passageiros
mas amores inteiros
para a vida inteira
não nos tem a feira
ali a vender!
ou talvez quem sabe?
lá vá encontrar
o que tinha à mão
mesmo ao pé da porta!
e outros, sei lá?,
que corriam mal
ali vão saldar...
ali vão soldar!?
...
ou de madrugada
quando os foliões
invadem a feira
e o vapor do álcool
dá mais pontaria
e afina o tiro
atirando ao meio
das duas figuras
que pendem das fitas!!!
mas que confusão!
e a luz dos sons
barulho das luzes
noite mal dormida
ajudar o tiro
e a pontaria
na guita na fita
que ata a garrafa
a boneca o brinde
que sai na barraca...

carrocéis gigantes
giram sem parar
girafas, cavalos,
motos bicicletas,
carros de corrida
rodando parados
na pista que gira
na roda gigante
na montanha russa
roda e rodopia
ondas alterosas
em grandes banheiras
que rodam girando
e o rapaz que roda
vai de borda em borda
cobrando os bilhetes
numa roda viva
música estridente
gritos dos de dentro
gritos dos de fora
só mais uma volta
p'ra passar a outra
só mais uma nota
logo só mais uma...

e a feira que é festa
é feira de castro
ou qualquer lugar
é meio do mês
é só uma vez
só p'ró ano há outra
feira como esta
feira festa encontro
fronteira de encontros
ou de desencontros
de buscas, procura
mas mais d'ilusões...

na feira de castro
na feira d'alvito
feira do cartaxo
como noutras feiras
...
corre-se parado
o tempo, as pessoas
velhos e crianças
o espaço girando
nas rodas gigantes
é a feira que gira
não sai do lugar
corre o tempo, o espaço
que ficam parados
e a gente pasmada
anda em roda viva
que mesmo parada
é feira que passa
...

passa agora gente
todos os modelos
que todos reparam
sem ninguém os ver...
o menino bem
veste-se à pastor
de bota cardada
colete bem feito
que custa uma nota...
o pastor de jeans
último modelo
do filme que viu
no vídeo têvê
e tem logo ali
na feira de castro
a moda que viu
chapéu à cawboy
e de camorcine
bota caneleira
ou de prateleira
ou à alentejana
gibão ou samarra
capote e safões
mesmo que o sol brilhe
...
casacos de peles
ali do alvito
de vila de frades
ou são cucufate...
mantas de teares
antigo de teias
armado em castanho
que apertam as malhas
fechadas e presas
pela lançadeira
e outras que tais
das tradicionais
feitas já em série
...cobertores de papa
meias manuais
de garridas cores
feitas ao serão
dos longos invernos
à luz da lareira
pr'aquecer o frio
do inverno d'outros
que as podem comprar...
...
e há outra feira!
regresso à infância
aos tempos de outrora
guloseimas várias
balões coloridos
redondos, ovais
forma em coração
também saltitões
bonbons, rebuçados
brinquedos doutrora
a pomba o ciclista
e o acrobata
que salta na corda
carrinhos de bois
pitas debicando
na tábua que é prato
a servir de chão
e também poleiro
...
mas há uma falta:
não há marionetas.
faltaram à festa
o mestre talhinhas
e o seu teatro
a sua magia
atrás dos arames
e panos de luz
a contar pecados
dos mais conhecidos
enquanto contava
os pecados d'eva
e também d'adão
criação do mundo
vicentinos autos
autos populares
onde o mestre leu
a sua mestria
colhendo a magia
a arte e o som
de todos os tempos
que não passam mais
mas ora não passam
não estão a dar!...
quem pode lutar
co'as cores da têvê
co'as caixas de som
co'as caixas de jogos
co'as lendas já feitas
por especialistas?

Mas faltaram mais
faltaram!... não faltam
os dois vultos grandes
poetas de fama
de todos lembrados
de todo esquecidos
o António Aleixo
vindo do Algarve,
o Manel de Castro
vindo ali da Cuba
que esperam lembrança
painel colorido
silhueta em bronze
de dois vultos nobres
monumento erguido
aos versos corridos
rimas repentinas
despiques satíricos
bravas desgarradas
jogando ao baldão
com rimas cruzadas
e rimas dobradas
quadras espelhadas
que tecem oitavas
de rima quadrada...
ou então desdobram
décimas tecidas
de sábias rimas
e entoações
segredo guardado
pela tradição
em que analfabetos
sábios e pensantes
dão suas lições
a muitos doutores!...
ditos sabichões!...

'Inda há o baldão
de toada morna
lenta e hesitante
à roda dum copo
dum petisco farto
a cantar louvores
de língua afiada
crítica mordaz
aos grandes senhores
que não fazem nada...
dizem fazer tudo
e são presidentes
ou são dirigentes
de tudo e de nada!...
e tudo isto rola
ao som da viola
de cordas d' arame
que é a campaniça
a ferir os dedos
duros calejados
com seu som metálico
tal como as palavras
em verso lançadas
acertam certeiras
sem errar o alvo!..

Depois aparecem
os poetas vivos
que não sabem ler...!
dizem os doutores!
são analfabetos!!!
sabem escrever
palavras diferentes
que se não escrevem
e editam seus livros
para a feira ouvir
com versos que nascem
no seu coração
todo o ano e hora
como fonte viva
jorrando às golfadas
e em borbotões...
...
mas ainda há mais...

há carros de lata
e agora modernos
doutros materiais
com portas a abrir
faróis a piscar
mais sofisticados
com comando rádio
e teleguiados
brinquedos do espaço
que são fantasia.
não saem do chão
mas sobem e voam
nas asas do sonho
da imaginação
...
cruzamento de eras
desencontro encontro
passado e futuro
passando o presente.
é assim a feira
são assim as feiras
...
na feira de castro
alvito ou cartaxo,
fronteira de encontros
e de desencontros!
o presente escapa
pelo descampado
dos campos de ourique...
a batalha-história
que nunca existiu...?
dos cinco reis mouros
e afonso henriques
que nunca aqui 'steve?!
ou talvez quem sabe?!!!
pela cruz guiado
in hoc signo vinces
sinal de vitória
armado em cruzado
pinta o seu guião
com as cinco quinas
as chagas de cristo
ou cinco reis mouros
ou cinco castelos
luta co'a moirama
as armas cruzadas
tudo numa fona
cristãos e mafoma
alá e javé
moisés maomé
os da meia lua
os da cruz-crescente
santiago aos mouros
morte aos infiéis...
por mafoma a morte
aos perros cristãos
nascente ocidente
o sul contra o norte
em luta de morte
regresso ao futuro
do tempo passado
no tempo presente
nasceu portugal
meu torrão natal
à beira do mar
olhando o além
para descobrir
matando o futuro
mas crendo o futuro
e querendo tudo
o que havia de vir
os descobrimentos
esp'rado encoberto
camões, fernão lopes
vieira, bandarra
fernando pessoa
e o quinto império
povo do passado
fazendo o futuro
...
mas inda há mais
nesta feira farta
onde inda há de tudo
...
há a vendedeira
morena entre as cores
dos bons figos secos
outros recheados
de amêndoa ou de nozes
que fazem crescer
a água na boca
onde o dente encontra
algo p'ra trincar
morder e roer...
castanhas assadas
outras para assar
amendoas com casca
ou já descascadas
cocas (diga côcas!) ou amargas
pinhões aos pacotes
e ameixas secas
nozes aos taleigos
azeitona verde
outra já pisada
a balança que dança
que dança e balança
c'um toque da mão
sempre peso certo
pesa p'ró freguês...
balança moderna
mais fiel e certa
ladina cigana
vai vendendo a fruta
e fazendo as contas
as contas da vida
numa lufa-lufa
de notas e trocos
riso cativante
e olhos brilhantes
cativa o freguês
ou talvez quem sabe...
lá p'ró fim da noite
logo se há-de ver...
e enquanto avia
pesa e faz os trocos
há quem se aproveite
para se aviar
lá por conta própria
sem esperar a vez
...

é assim a feira
a feira de castro
a de castro verde
como tantas outras
alvito e cartaxo
guarda, trás-os-montes
abela, redondo
fundão, santa iria
monchique, alcobaça
chaves, vila franca
vermoil, penalva
vieira do minho
borba, golegã
cercal de valença
e penafiel
portimão também
melides e mafra
mangualde, candossa
e até mesão frio
pedrógão o grande
e tantas tão grandes
em tanto lugar...
é só ver a lista
daquele almanaque
ou do bord'água...
com tanto p'ra ver
pra dar ó menino
pra dar à menina...
e p'ra si também...
pra si e pra si...
não se 'steja a rir
aqui há pra todos
mil coisas modernas
tudo novidades
já velhas de séculos...
e até tarecos
e outros bonecos
que você precisa
pra pôr na parede
e na prateleira
qu'está lá tão nua
sem graça nenhuma...
e então as amigas
quando isso virem
vão gritar d'inveja:
compraste na feira?!!!
que sorte tiveste!
eu nada encontrei
que gosto tivesse!!!

há barros e loiças
os pratos, os potes
os panos, as calças
casacos, camisas
e meias aos maços...
roupas interiores
cuequinhas com rendas
todos os tamanhos
todos os feitios
umas são só fita
quase sem ter pano
tapar sem tapar
é esse o engano
no há no mercado
há aqui na feira
as mais provocantes
o mais esquisito...

e a feira do gado
cavalos e burros
com éguas e moscas
todos luzidios
dentes sãos brilhantes
potros brincalhões
animais esbeltos
em demonstrações
corridas e trotes
em exibições...
e os burros prestáveis
que grandes negócios
que grandes barretes
ciganos campónios
campónios ciganos
é um meio mundo
a enganar o outro
e todos no fim
lá partem felizes
de ter enganado
de ser enganados
...
são assim as feira!
são feiras d'encontros
e de desencontros
que é feira fronteira
de espaços e tempos
de sons e de luzes
sonhos ilusões
e realizações
que ali se mercam
por alguns tostões

...

acabou a feira.
passaram três dias
que foi um só dia.
a festa acabou.
foguete de lágrimas
que subiu bem alto
e logo chorou
em chuva de luzes
e se apagou.
inchado balão
de cores fantasia
que de tanto inchar
logo rebentou.

os restos da feira
são rastos de gente
marcados na lama
barracas desfeitas
de furos no chão
esqueletos ocos
a desolação
no campo deserto
voando cartões
pelo descampado
voam papelões
papéis coloridos
plásticos ao vento
caixas de ilusões
que voam se arrastam
que dançam chafurdam
em charcos de lama
em regos de chuva
em sulcos cavados
mastros desolados
despidos fantasmas
...
e o chão explorando
lá esgravatando
além rebuscando
o chão revolvendo...
cigano atrevido
garoto ladino
pedinte de fome...
buscando o perdido
que outro perdeu
o seu saco encheu!...

e as gentes da feira
que foi festa louca
já longe dali
de corpo cansado
ideia iludida
que quis ilusão
desilusão querida
que tolda e anima
que mata e dá vida
que morre e vicia
qual droga maligna
que anima, dá vida...
renasce em esperança
de nova ilusão
p'ró ano que vem
ou lápr'ó natal
ou p'ró s.joão
ou lá mais pr'ó verão
pr'á feira futura
que é o dia a dia
da roda da vida
sempre em roda viva.

deram vida à feira?
a feira deu vida!?
a feira findou.
a vida não finda.

FINDOU ESTA FEIRA
a feira de castro
fronteira de encontros
de encontros cruzados
de tempos espaços
de todas as gentes
algarve alentejo
do norte e do sul
de este e d'oeste.

FINDOU ESTA FEIRA
FRONTEIRA DE ENCONTROS
E DE DESENCONTROS
DE ENCONTROS FECUNDOS
D'ENCONTROS FORTUITOS
PASSADO E PRESENTE
REGRESSO AO FUTURO
REGRESSO AO PASSADO
NA FEIRA ENCONTRADO.

findou esta feira
a feira de castro
como as outras feiras
a feira do alvito
e a do cartaxo
da régua amarante
a feira dos santos
a de são miguel
a de são gonçalo
a dos santos todos
de todos os mortos
de todas as gentes
todos os produtos
e divertimentos
...
as feiras gerais
quais outras que tais
de mês sasonais
são todas iguais
todas tão diferentes
de ano p'ra ano
duma terra e outra...
OH! como era dantes?!!!
Já nada se faz
como antigamente!!!
OH! as do meu tempo?!!!
aquilo é que era!!!
Mudaram as feiras?
ou foi o feirante
o jovem d'outrora
que voltou à feira
a ver se lá'stava???
e não'stava!... pena?!!!
ou vida que roda
que cresce e que vive?

Aquilo é que era
viver sensações
de sons e de cores
de gostos e cheiros
d'imaginação
sonhos ilusões
fartura que abunda
quando muito falta
é ouvir e ver
gostar e cheirar
sentir encontrões
andar e correr
beber vibrações
que voam no ar
pensar e sonhar
ver imaginar
sentir ilusões
crer desilusões
querer ambições
cansar p'ra dormir
e p'ra descansar
sonhar acordado
dormir p'ra sonhar
morrer p'ra viver
uma vida nova...
tornar a viver
p'ra depois morrer...

AS FEIRAS SÃO FEIRAS
DUMA VIDA INTEIRA
VIVIDA D'INTEIRO
C'OS SETE SENTIDOS
QUE VIDA NOS DÁ.

E P'RA SER VIVIDA
POR TODOS OS POROS
SEM INTERMITÊNCIAS
TUDO DUMA VEZ
TUDO INTERLIGADO
INTERSECCINISMO
CUBISMO INVENTADO
PARA SE VER TUDO
DE TODOS OS LADOS
SEMPRE AO MESMO TEMPO
SEMPRE REPARTIDO.
VIDA REPARTIDA
NUM TEMPO SENTIDA
NUM TEMPO ESQUECIDA
TEM DE SER EM CHEIO
EM PLENO VIVIDA...
TEM DE SER JOGADA
JOGAR TUDO OU NADA
SÓ NUMA CARTADA...

LÁ DIZ O POETA
que não ia em/a feiras...

-P'RA VIVER A VIDA
SENTINDO A POESIA
EM TRAGOS INTEIROS
EM GOLOS GLUTÕES
EM TUDO SENTINDO
VIDA AOS BORBOTÕES
EM PLENO VIVIDA?!!!...
SÓ QUANDO A RAZÃO
QUE TUDO COMANDA
NO MUNDO REAL
DITO RACIONAL...
PUDER SER MANDADA
E BEM GOVERNADA
PELO CORAÇÃO
QUE TUDO COMANDA
NO MUNDO REAL
DO IRRACINAL
QUE ÀS VEZES,QUEM SABE?,
COMO A AVÓ DIZIA
AO CONTAR HISTÓRIAS
DE FADAS PRINCESAS
DE MAGOS E BRUXOS
E DE BELOS PRÍNCEPES
QUE DEPOIS CASAVAM...
TINHAM MUITOS FILHOS...
E ERAM FELIZES
PARA TODO O SEMPRE!!!...
É BEM MAIS REAL
E MAIS RACIONAL
QUE O MUNDO REAL
QUE JULGAMOS VER.


isto é um folheto
de vender na feira
na feira de castro
alvito ou cartaxo
no ano dois mil
daqui a mil anos.

agora não presta.
são vãs redondilhas
que voam c'o vento
que já ninguém ouve!
nem já se dão conta
que o vento as envolve!
sem vento morriam!
sem ar nem viviam!

no ano dois mil
e mais trinta e oito
que é centenário
do pobre poeta
ceguinho de gota
serena no olho
de nome penedo
de alcunha penetra
de sina cigano
e de cor: castanho...
que não é autor
que não é poeta
como foi PESSOA...
nem é verdadeiro.
é outro poeta
alberto caeiro
que guarda rebanhos
guardando seus sonhos
e é andarilho
romeiro de feiras...
no ano dois mil
e mais trinta oito
ou mais trinta mil...
o qu'interessa o tempo
se o tempo é ficção
como são os versos?

aí, vão-nos ler.

vão dizer. coitado
o pobre poeta
incompreendido
se vivesse hoje
era idolatrado!!!
assim já morreu!
já não incomoda!
dá-se-lhe o nome
p'ra pôr numa escola
ou rua deserta
e pronto, acabou-se
cumpriu-se a promessa
honrou-se a memória
do poeta louco
que nasceu, asar!,
fora do seu tempo
e viveu e viu
as coisas que os outros
não podiam ver...

ACABOU A FEIRA.
FICOU O RETRATO
QUE NÃO É POEMA
NEM É BEM POESIA
NEM FOTOGRAFIA.

QUERIA SER PINTURA
ATÉ PARTITURA
OU UMA ESCULTURA
OU UMA VARINHA
DESSAS DE CONDÃO
OU UMA CANÇÃO...
MAS DEU REDONDILHAS...

AS VÃS REDONDILHAS
BOLAS DE SABÃO
LANÇADAS AO VENTO
QUE LOGO REBENTAM
E FICAM SÓ AR...
E TODOS O SENTEM
TODOS O RESPIRAM
E SABEM QUE EXISTE
E SEM ELE NÃO VIVEM...

MAS NINGUÉM O VÊ
E NINGUÉM O TEM...

ASSIM ESTES VERSOS
QUE VOAM NO VENTO
E SENDO DE TODOS
NÃO SÃO DE NINGUÉM!!!

OLHA A PARVOÍCE:
O POETA DIZ
O QUE TODOS DIZEM
OU ATÉ PENSARAM
E SABEM DIZER
MELHOR DO QUE ELE!!!

PORQUE SE MAÇOU?!!!
COITADO do pobre!
pensava poder
dar alguma coisa!!!
depois, afinal
só deu de presente
o que os outros têm
já demasiado
e não mata a fome
não enche barriga...

A fome que mata
não a têm eles!
Que morra de fome
se só sabe dar
versos e poemas...
petas e patranhas
que dizem verdades!!!
...
rolaram palavras
rolam redondilhas
retratos cruzados
em sons registados
que são escritura.

retratos cruzados
rostos sobrepostos
de gentes e coisas
no mágico quadro
sempre actualizado
desactualizado
cantando o passado
COMPROMETEDOR
todo promissor
já vendo o futuro
futuro sonhado
todo promissor
ou PROMETEDOR?

para o poder ver
futuro passado
fica registado
em computador
ou ordenador
qu'ié processador
de textos e sonhos
DA FEIRA DA VIDA.

ACABOU A FEIRA!!!

A FEIRA DA VIDA!!!

COMEÇOU A FEIRA!!!

A FEIRA DA VIDA!!!

SENHORAS, SENHORES,
MENINOS, MENINAS!!!

ACABOU A FEIRA!!!

COMEÇOU A FEIRA!!!

A FEIRA DA VIDA!!!


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Bruegel - Carnaval

 

 

 

 


Bruegel - BODAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

cigano castanho
andarilho de feiras
também zé penedo
1ª versão
outubro de 87
2ª versão
outubro de 89
3ªversão
outubro de 91
penedo gordo
beja
31/10/91
4ª - outubro de 93?...
5ª - Janeiro de 1995


trabalho acabado de escrever
e realizar
em WinWord
C* 486-66c
complementado com uma centena de fotografias e diapositivos
@ JORAGA
Penedo Gordo, Beja
1993/94
1994/95

Com adaptação em Janeiro de 1995, especialmente para o GRUPO DE TEATRO DA ESCOLA SECUNDÁRIA DE CORROIOS 1, que se atreveu a sonhar dramatizar este desconcerto de encontros e desencontros.


Um grupo de actores que apresentou esta FEIRA
Vide em 6 - Representações de RUA


Pintura de Bruegel - os PROVÉRBIOS (ou a FEIRA DA VIDA)

 

 

 

E-Mail: joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
pelo telefone 212 553 223 ou pelo Telmv. 917 632 524
e pelo CORREIO: Rua Almada Negreiros, 48 - 2855-405 CORROIOS.
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