feira
as FEIRAS - a FEIRA de CASTRO VERDE
vista por um Cigano Castanho ANDARILHO de FEIRAS
viagens do Cigano Castanho e da Cigana Mariana ataravés do maravilhoso

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

contacto © joraga ® ver tb. em gilviteatro

 

Um episódio num dia de FEIRA...
... passagem de SÓCRATES pela ÁGORA ateniense.

«O mercado e a feira são o primeiro espaço de troca franca e aberta da nossa civilização. Na Grécia antiga esse intercâmbio espiritualizou-se e com Sócrates a Filosofia nasce como troca gratuita e informal de ideias. Neste texto, André Bonnard representa com humor o filósofo ateniense irrompendo pelo mercado ruidoso da cidade, para exercitar com um interlocutor desprevenido a difícil arte do diálogo.

«Dez horas da manhã, praça do mercado, um dia qualquer dos trinta anos do apostolado de Sócrates (o último terço do século a que se convencionou chamar de Péricles, o que não daria prazer a Sócrates, que não amou a Atenas desse homem). A praça está cheia de gente. O salsicheiro apregoa os seus chouriços; o oficial de cavalaria estende o capacete à vendedora de arenques. Diante da loja do barbeiro, em volta das mesas dos cambistas, Atenas conversa.


«Sócrates passa. Todos o conhecem. Seria difícil um engano, é o mais feio dos Atenienses. A sua face larga e romba coroa-se de uma face vasta e nua. Os olhos salientes lançam, sob as grossas sobrancelhas, uma mirada de touro. As narinas do menos grego de todos os narizes levantam-se ousadamente. Uma barba rala esconde mal os lábios de uma boca que parece feita para morder conforme sugere um discípulo, e mais feia que a de um burro, acrescenta Sócrates. Um corpo robusto sobre pernas curtas. Tal é a fealdade socrática, de que Sócrates é o primeiro a rir e que se gaba de poder demonstrar que é a própria beleza. Porque, se o belo é o útil, quem não preferiria a um nariz direito, cujas narinas só distinguem os odores que sobem do chão, este nariz aberto a todos os ventos, oferecido ao hálito do céu? Demonstração pouco convicente para os fiéis dos deuses do Olimpo e para os fervorosos do ginásio. Alguns inclinam-se a ver num tal excesso de fealdade um sinal do desfavor do Céu. Só um íntimo aí distingue, pelo contrário, e secreto parentesco do mestre com antigos génios, os sátiros maliciosos, Sileno, o encantador.

«Este feio homenzinho cuida pouco de si. Porque tem o corpo em pouca estima, um filósofo lava-se pouco. Se frequenta as palestras, é para aí debitar as sua tolices, não para frudtrar os atentados da idade, a insidiosa invasão da gordura. E que dizer desse velho manto que ele arrasta por todas as estações, quer o bóreas sopre em rajadas ou o sol a pino obrigue as pessoas de bom senso a disputarem a sombra de um burro! Sócrates traz o trajo da gente pobre. O vulgo não sabe que Sócrates se antecipa aos séculos e que este manto, que os filósofos tomarão dele em sua memória, tornar-se-á o hábito do monge.

«Entretanto, Sócrates cruzou-se na praça com um personagem conhecido, um daqueles cuja palavra governa a assembleia popular. É um bom orador, talvez um homem honesto, mas que tem nos lábios, mais vezes do que seria prudente, a bela palavra justiça.

« Com a liberdade das relações antigas, Sócrates aborda-o:

- "Meu caro", diz-lhe, mais ou menos , "tu que és o conselheiro do povo em todo o empreendimento justo ou injusto, quererás que juntos procuremos o que poderá ser justiça?" Ou diz-lhe: "Uma vez que um homem de Estado tem por ofício velar pelo respeito das leis, quererás definir comigo a lei?"

Faz-se roda.

O personagem importante está cheio de segurança. "A lei? A justiça? Não há nada mais simples!"

Dá a sua definição.

Sócrates sopesa-a. Há ali um termo obscuro. Definamo-lo por sua vez. Ou tomemos talvez um exemplo, tirado da arte culinária ou da criação de cavalos, enfim, de coisas que toda a gente conhece.

A conversa prossegue rasteirinha, cheia de surpresas e de evidências, rigorosa sob aparentes desvios, até ao momento em que, diante deste homem cujas perguntas só pedem um sim ou um não como resposta, o belo burilador de frases, forçado a recuar a cada passo, ameaçado de cair no absurdo, perseguido pela boa lógica, dividido entre dilemas, decide-se a concluir bruscamente que a lei é a ilegalidade. E que a justiça...

Mas prefere desistir. O que obriga Sócrates a certificar que ele discorria na assembleia acerca de coisas de que ignorava tudo...

A assistência ri, enquanto o outro se esquiva. Sócrates fez um inimigo.

in "A Civilização Grega"
de André Bonnard, p. 435-436

Nota de Fernanda Lourenço, Professora de história, que nos forneceu este texto:

«O autor usa exemplos em parte imaginários, ou pelo menos "compostos", mas sempre na linha socrática.»


 

 

 

E-Mail: joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
pelo telefone 212 553 223 ou pelo Telmv. 917 632 524
e pelo CORREIO: Rua Almada Negreiros, 48 - 2855-405 CORROIOS.
visite ainda a minha TEIA na REDE além de joroga.net - joraga/alice/osrabaca/serradaesrela/gilvicente/cart2326/

Compatível com IE/Netscape na resolução 800x600
Joraga 2000 em viagem