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Um
episódio num dia de FEIRA...
... passagem de SÓCRATES pela ÁGORA ateniense.
«O mercado
e a feira são o primeiro espaço de troca franca e
aberta da nossa civilização. Na Grécia antiga
esse intercâmbio espiritualizou-se e com Sócrates a
Filosofia nasce como troca gratuita e informal de ideias. Neste
texto, André Bonnard representa com humor o filósofo
ateniense irrompendo pelo mercado ruidoso da cidade, para exercitar
com um interlocutor desprevenido a difícil arte do diálogo.
«Dez
horas da manhã, praça do mercado, um dia qualquer
dos trinta anos do apostolado de Sócrates (o último
terço do século a que se convencionou chamar de Péricles,
o que não daria prazer a Sócrates, que não
amou a Atenas desse homem). A praça está cheia de
gente. O salsicheiro apregoa os seus chouriços; o oficial
de cavalaria estende o capacete à vendedora de arenques.
Diante da loja do barbeiro, em volta das mesas dos cambistas, Atenas
conversa.
«Sócrates passa. Todos o conhecem. Seria difícil
um engano, é o mais feio dos Atenienses. A sua face larga
e romba coroa-se de uma face vasta e nua. Os olhos salientes lançam,
sob as grossas sobrancelhas, uma mirada de touro. As narinas do
menos grego de todos os narizes levantam-se ousadamente. Uma barba
rala esconde mal os lábios de uma boca que parece feita para
morder conforme sugere um discípulo, e mais feia que a de
um burro, acrescenta Sócrates. Um corpo robusto sobre pernas
curtas. Tal é a fealdade socrática, de que Sócrates
é o primeiro a rir e que se gaba de poder demonstrar que
é a própria beleza. Porque, se o belo é o útil,
quem não preferiria a um nariz direito, cujas narinas só
distinguem os odores que sobem do chão, este nariz aberto
a todos os ventos, oferecido ao hálito do céu? Demonstração
pouco convicente para os fiéis dos deuses do Olimpo e para
os fervorosos do ginásio. Alguns inclinam-se a ver num tal
excesso de fealdade um sinal do desfavor do Céu. Só
um íntimo aí distingue, pelo contrário, e secreto
parentesco do mestre com antigos génios, os sátiros
maliciosos, Sileno, o encantador.
«Este
feio homenzinho cuida pouco de si. Porque tem o corpo em pouca estima,
um filósofo lava-se pouco. Se frequenta as palestras, é
para aí debitar as sua tolices, não para frudtrar
os atentados da idade, a insidiosa invasão da gordura. E
que dizer desse velho manto que ele arrasta por todas as estações,
quer o bóreas sopre em rajadas ou o sol a pino obrigue as
pessoas de bom senso a disputarem a sombra de um burro! Sócrates
traz o trajo da gente pobre. O vulgo não sabe que Sócrates
se antecipa aos séculos e que este manto, que os filósofos
tomarão dele em sua memória, tornar-se-á o
hábito do monge.
«Entretanto,
Sócrates cruzou-se na praça com um personagem conhecido,
um daqueles cuja palavra governa a assembleia popular. É
um bom orador, talvez um homem honesto, mas que tem nos lábios,
mais vezes do que seria prudente, a bela palavra justiça.
« Com
a liberdade das relações antigas, Sócrates
aborda-o:
- "Meu
caro", diz-lhe, mais ou menos , "tu que és o conselheiro
do povo em todo o empreendimento justo ou injusto, quererás
que juntos procuremos o que poderá ser justiça?"
Ou diz-lhe: "Uma vez que um homem de Estado tem por ofício
velar pelo respeito das leis, quererás definir comigo a lei?"
Faz-se roda.
O personagem
importante está cheio de segurança. "A lei? A
justiça? Não há nada mais simples!"
Dá a
sua definição.
Sócrates
sopesa-a. Há ali um termo obscuro. Definamo-lo por sua vez.
Ou tomemos talvez um exemplo, tirado da arte culinária ou
da criação de cavalos, enfim, de coisas que toda a
gente conhece.
A conversa prossegue
rasteirinha, cheia de surpresas e de evidências, rigorosa
sob aparentes desvios, até ao momento em que, diante deste
homem cujas perguntas só pedem um sim ou um não como
resposta, o belo burilador de frases, forçado a recuar a
cada passo, ameaçado de cair no absurdo, perseguido pela
boa lógica, dividido entre dilemas, decide-se a concluir
bruscamente que a lei é a ilegalidade. E que a justiça...
Mas prefere
desistir. O que obriga Sócrates a certificar que ele discorria
na assembleia acerca de coisas de que ignorava tudo...
A assistência
ri, enquanto o outro se esquiva. Sócrates fez um inimigo.
in "A Civilização
Grega"
de André Bonnard, p. 435-436
Nota de Fernanda
Lourenço, Professora de história, que nos forneceu
este texto:
«O autor
usa exemplos em parte imaginários, ou pelo menos "compostos",
mas sempre na linha socrática.»
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