GENTE DE MANTEIGAS


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Afinal quem é
PAULO LUÍS MARTINS?

Gente de Manteigas in G+, de José Paiva Tacanho

FIGURAS HISTÓRICAS
de MANTEIGAS in «ANTOLOGIA»,
de José Lucas Baptista Duarte
1985
PRESIDENTES de CÂMARA
de 1910 a 2017 e AQUI
AUTORES e LIVROS e AQUI
de Gente de Manteigas
in TOPONIMIA, e AQUI
de José David Lucas Batista
in CONTOS SERRANOS,
de Dr. João Isabel e AQUI
in POIOS e PROSA
de António Leitão (PDF?)
in AQUELE PROFUNDO VALE, de José Cleto Estrela e AQUI


DOIS CLÍNICOS MANTEIGUENSES
EM HOLOCAUSTO A SUA TERRA

in ANTOLOGIA I - Depoimentos histórico-Etnográficos sobre MANTEIGAS e SAMEIRO, de José Lucas Baptista Duarte, 2ª ed., Câmara Municipal de Manteigas, 1985. Pp. 118 - 124.

"Envolvidos nas tragédias epidémicas que, nos fins do século XIX e princípios do século XX, sacudiram fortemente as gentes de Manteigas, ceifando vidas em número tal, que casas houve que ficaram desertas, invocam-se aqui os nomes de dois Clínicos naturais desta Vila, que, em horas trágicas, dedicaram à população o melhor do seu trabalho e da sua abnegação, a ponto de lhe sacrificarem as próprias vidas, irremediavelmente contagiados pelas fatídicas malinas com que se viram a braços:

(Dr. JOSÉ CORREIA TANGANHO
(1852 09 30. - Faleceu em 1882)

- Dr. JOSÉ CORREIA TANGANHO (década de 80 dos anos 1800) - Morreu vitimado pela epidemia do tifo exantemático, que atingiu Manteigas no ano de 1882.

De tal forma se tornou popular e querido do Povo, pois era dos que cobrava aos ricos para dar aos pobres, que a sua morte foi sentidamente chorada por todos. Ainda se conta (pela via da tradição) que, no dia do seu funeral, os gritos da População eram tantos, que se ouviram em plena Serra de Baixo (Bejames).

Era um estudioso e pôde ser considerado, a par de outros, um dos mártires da medicina no seu tempo. Esta seria uma autorizada opinião que, mais tarde, seria manifestada pelo Prémio Nobel de Medicina, Prof. Egas Moniz, no Jubileu assinalado pela sua última lição como Professor.

(Nobel de Medicina, Prof. Egas Moniz (1874 11 29 - 1955 12 13)

A confirmar tal opinião, assinale-se o facto de ele próprio se ter feito de cobaia, ingerindo certo medicamento horas antes de morrer, profetizando para a família: "Se eu, com este medicamento, conseguir viver até às "tantas" horas, então salvo-me eu e salva-se a População".

Infelizmente, não chegou à hora por ele indicada, morrendo com a idade de 30 anos incompletos.
Diz-se ainda que teria ingerido o medicamento em dose exagerada.

Nota

«De uma nota extraída do verso da Carta do Curso, passada pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, habilitando-o para poder exercer a CIRURGIA E MEDICINA, em seguimento à aprovação no Acto Grande em 23 de Julho de 1878, pudemos arquivar as seguintes notas biográficas:
"JOSÉ CORREIA TANGANHO - Nasceu em 30/9/1852. Faleceu em 1882, vitima do tifo, exercendo o partido do Concelho de Manteigas 3 anos e 1/2, vencendo o ordenado de 400 reis anuais, deixando grande simpatia nos seus clientes.
Foi sepultado no cemitério velho, detrás do Calvário, na Freguesia de Santa Maria -- Manteigas, 10 de Outubro de 1884."»

Uma OBRA do Dr. José Correia Tanganho


Albuminuria : etiologia e pathogenia
Tanganho, José Correia
Dissertação Inaugural
1878
https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/16226/browse?type=author&order=ASC&rpp=20
&value=Tanganho%2C+Jos%C3%A9+Correia

 

António Augusto Pereira de Matos
http://genealogiapereiradematos.blogspot.pt/p/antonio-augusto-pereira-de-matos.html
«António Augusto Pereira de Matos era filho de José Pereira de Matos e de Josefa Leitão. Nasceu no dia 5 de Setembro de 1869 em Manteigas. Foi médico, tendo após a formatura exercido durante 5 anos na Figueira de Foz, e posteriormente em Manteigas desde 1903 até ao seu falecimento, em 11 de Agosto de 1910, devido ao surto de tifo que atingiu a Vila.»

in ANTOLOGIA I - Depoimentos histórico-Etnográficos sobre MANTEIGAS e SAMEIRO, de José Lucas Baptista Duarte, 2ª ed., Câmara Municipal de Manteigas, 1985. Pp. 119 - 120.

- DR. ANTÓNIO AUGUSTO PEREIRA DE MATOS (primeira década dos anos 1900) - Relativamente novo, também, sem contudo se poder concretizar a idade, sucumbiu igualmente vitimado por outra epidemia - a pneumónica.
Consta que um tal "Areias", prostrado na cama pela malina se lhe lançou ao pescoço quando era observado, e com tamanha força e ânsia o fez, gritando: "Senhor Doutor, salve-me!››, que este não pôde livrar-se do perigoso contacto e foi, naturalmente, ao sentir a picadela do piolho transmissor, que soou o momento fatídico em que foi contagiado.

Vítimas da sua humanitária missão, ambos foram dignos e merecedores da gratidão dos seus conterrâneos, a qual foi simbolizada na homenagem que, por posturas da Câmara Municipal de Manteigas, lhes foi prestada postumamente, dando os seus nomes a duas artérias da Vila: uma que vai desembocar na Praça Luís de Camões, outra no Largo da Igreja de São Pedro.


Dr. FRANCISCO DE VASCONCELOS DA CRUZ SOBRAL

http://geneall.net/pt/nome/2068188/francisco-maria-de-barros-e-vasconcelos-da-cruz-sobral/

«Não sendo, embora, manteiguense por origem, justamente mereceu ser considerado nosso concidadão honorário, eleito que o foi pela grandeza de alma e devotada abnegação à causa da Humanidade.
Por isso, não fica a desmerecer a sua menção no Capítulo
"FIGURAS HISTÓRICAS DA VILA DE MANTEIGAS" o nome do Médico e brioso Militar que, nobremente e com coragem, tão bem soube conciliar a sua dupla função, pondo a de Médico ao serviço das gentes de Manteigas numa hora difícil em que desabava sobre elas uma das maiores calamidades da sua História.

Revejamos a História do depoimento colhido
no N.° 220, de 27/1/ 1963, do "ECOS DE MANTEIGAS":

"ECOS DE MANTEIGAS": 1963 01 27



A OITENTA ANOS DE DISTÂNCIA - TRAGÉDIA NA SERRA (1963)

"Estamos, agora, em 1882.
Uma pobre mulher de Manteigas, chamada Maria Emília, casada com o operário Bento António, recebe a inesperada notícia de lhe ter adoecido, em Gouveia, um filho, o qual reclama a presença da mãe para o tratar. Cuidavam dele, por caridade, algumas vizinhas.

A partir deste facto banal, principiou a desenrolar-se na serra tragédia de grande vulto. E é precisamente na evolução do drama que sobressaiu a grandeza moral do insigne médico da Guarda.

Ainda a madrugada vinha longe, e a desventurada mãe metia os pés ao caminho, desafiando a ferocidade dos lobos. Ao alcançar o casebre do filho, na outra vertente da serra, foi topá-lo estendido em lôbrega enxerga de palha, amodorrado pelas ardências da febre, emagrecido pela fome e pela doença, alucinado pelo delírio e pela infecção.

Cobriu-o de beijos, indiferente ao perigo do contágio.

Ignoramos a marcha da enfermidade e o destino do rapaz.

Sabemos apenas ter a mulher de Bento António regressado, poucos dias depois, a Manteigas, estonteada pela febre. Decorridas poucas semanas, foram adoecendo, sucessivamente, as pessoas que a tratavam.

E assim começou a desenvolver-se o tifo exantemático em Manteigas.

Eram péssimas as condições higiénicas na vila. No dizer de Francisco Sobral, constituíam a povoação "8 casas e 600 pocilgas".

Viam-se "animais imundos vagueando livremente durante o dia, e passando juntamente a noite em família com o homem, no mesmo compartimento. Nas próprias habitações dos ricos, em muitas, a pocilga é dentro de casa".

Os dois médicos municipais, José Tanganho e Esteves d' Oliveira, vêem-se em apuros para acudir a todos os enfermos, e acabam por ser contagiados. O Administrador do concelho despende prodigiosa actividade nesta valorosa cruzada contra a enfermidade e a miséria, mas a foice da morte colhe-o em plena azáfama.

O enorme consumo de remédios esvaziou, em poucos dias, os escaparates das boticas. Adoecem, por fim, os farmacêuticos, deixando de haver medicamentos por carência de matéria-prima e falta de manipuladores. Fecham as padarias por não haver padeiros nem farinhas. Durante alguns dias, a vila ficou isolada do resto do País, entregue ao seu próprio destino.

O governador do distrito, Dr. Sousa Cavalheiro, tenta remediar o mal, e começa por procurar clínico que se afoite a enfrentar o andaço. Envia convites a todos os facultativos do distrito, mas recebeu apenas escusas em respostas. O posto é perigoso e a filantropia tem limites. Por fim, já desesperado, o governador civil decide contratar médicos por todo o preço. Foi, todavia, tão inútil apelar para as consciências, como tentar seduzir os corações pela ambição.

(Governo Civil - Governadores Civis do Distrito: Dr. José Joaquim de Sousa Cavalheiro de 17/02/1890 a 14/05/1890; Dr. João Manuel Martins Manso de 14/05/1890 a 06/04/1893; Dr. Custódio Joaquim da Cunha e Almeida de 06/04/1893 a 14/09/1893; Cons. José Joaquim de Sousa Cavalheiro de 13/12/1894 a 11/06/1895…)

Em meados de Dezembro, quando Sousa Cavalheiro estava prestes a desesperar de poder valer à população de Manteigas, surge-lhe no gabinete Cruz Sobral a oferecer-se para cuidar dos tifosos.

Havia, contudo, pequena dificuldade burocrática a resolver. Carecia de autorização superior para poder ausentar-se da Guarda. A fim de facilitar a resolução do problema, todavia, avisa o governador civil de que tratará simultaneamente os enfermos de Manteigas e os da enfermaria do Regimento.

Ao escutar-lhe o alvitre, o governador civil olhou-o com pasmo.

Mas Sobral cortou-lhe todas as dúvidas, pedindo-lhe duas mudas cavalos: dois ginetes na Guarda, um para ele, outro para o impedido; os outros dois seriam postos em aldeia situada a meio do caminho entre a cidade e a vila.

Havia também que discutir, no entender de Sousa Cavalheiro, os honorários a receber por trabalho tão meritório quanto violento.

Francisco Sobral corta a questão com estas palavras:

-- Tanto sirvo a Pátria na Guarda, como em Manteigas. Basta-me o soldo da tropa.

Aos olhos assombrados do governador civil, afigura principesca de Sobral assumiu as proporções dos gigantes. Aquela abnegação parecia-lhe tocar as raias da loucura!

O inverno ia no auge. A procela ululava diariamente em todos os recantos da cidade, espalhando no ambiente a dissonância das elegias da Natureza.

Era véspera de Natal. E foi na madrugada dessa noite tempestuosa que Francisco Sobral se aventurou a partir para Manteigas, acompanhado pelo impedido e por dois mastins da serra, para o livrarem dos lobos.

Alguns egitanienses, ao ouvirem, no aconchego fofo dos leitos, o estrépito dos cavalos do clínico ferindo o lajedo da rua, assomavam, assombrados, à janela, para verem quem ousava afrontar, com tanta temeridade, as inclemências da borrasca. E viam o vulto do médico em fantástica aparição, envolto no capote militar, cavalgando a toda a brida a caminho de Manteigas-. Seguia-o de perto o impedido e ladeavam-no os dois molossos.

Ao meio do percurso mudam de cavalos e continuam a correria apocalíptica. Urgia fazer serviço na vila e regressar à Guarda da parte da tarde, a fim de cuidar da clientela da cidade e dos enfermos do Regimento.

"Mas que prodígios - clamou Sousa Martins na inauguração do monumento fúnebre do herói - para operar tão singular desdobramento da sua pessoa. O caminho era longo e, em parte, péssimo. Áspera a estação, aspérrimo o clima. O trabalho profissional, insano. As Iabutações do espírito, opressoras".

Quando Sobral surgiu em Manteigas, assumiu aos olhos do povo a grandeza dos enviados de Deus!

Ali pôde o médico observar as supremas amarguras do coração humano nos transes de aflição colectiva.

Quis distribuir pão pelos famintos, remédios pelos enfermos e roupas pelos pobres. E não encontrou pão, nem remédios, nem roupas! Transparecia em todos os olhares o pavor da morte! O cemitério transformara-se em sorvedouro de tifosos!

Começou o clínico por instituir "sopas económicas" com autorização do governo de Lisboa.

Conselhos desassisados e ordens incoerentes que lhe davam da capital, faziam-no rir e desobedecer!

Foi obrigado a improvisar enfermarias.

Encontrava em todas as ruas da vila a mesma desolação e tristeza: "visões trágicas do sofrimento humano", na sua expressão mais tocante!

Seja ele próprio a contar-nos algo do que viu:

"Em uma repugnante enxerga, quase preta pela sujidade, jaziam marido, mulher e três filhinhos, ressequidos pela sede, consumidos pela febre e... não tinham água, nem luz, nem fogo, nem um caldo. Não tinham nada. Estavam cobertos com uns nojentos farrapos que deixavam ver, em diferentes pontos, as carnes não menos imundas do que todo o resto. E havia três dias que não viam pessoa nenhuma".

E mais baixo comenta:

"Sinto-me bem quando penso que desde esse dia a fome fugiu daquela habitação, cujo aspecto me impressionou de uma forma extraordinária. Bendigo o feliz acaso que ali me levou, e ainda mais o ter na minha bolsa o bastante para poder remediar os infelizes até dia em que se principiou a distribuir sopa económica".

E termina com estas palavras de celestial regozijo:

"Curaram-se todos".

Levantaram-se, de norte a sul do país, aplausos e simpatia ao herói.
Fizeram-se peditórios para ajudar Sobral na cruzada sacrossanta. Entregue a importância de determinada subscrição ao jornalista Eduardo Coelho, director do Diário de Notícias, a fim de a enviar ao grande médico, o prestigioso homem público fez acompanhar a respectiva quantia de extensa carta, da qual respigamos a seguinte frase:
" V. E×.ª, que tão heróico papel tem representado nessa campanha contra o inimigo omnipotente e insidioso, do qual vem saindo triunfante, e que melhor que ninguém conhece os martírios dessas povoações angustiadas, para quem tem sido a consubstanciação de um anjo consolador e salvador, não pode deixar de prestar mais este serviço a elas e a esta empresa que, com orgulho, por mim lho agradece".

Na sessão realizada na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, em 12 de Maio de 1883, Silva Amado e Sousa Martins apresentaram a seguinte proposta:



Dr. Silva Amado
Amado, José Joaquim da Silva (N. Lisboa, 1840; ob. ?, 1925). Área: Medicina Legal. Docente: Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, Escola Médico-Cirúrgica do Porto.



Dr. Sousa Martins
José Tomás de Sousa Martins foi um médico e professor catedrático da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, antecessora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. (Wikipédia); Nascimento: 7 de Março de 1843, Alhandra; Falecimento: 19 de Agosto de 1897, Alhandra

"Os abaixo assinados têm a honra de promover que se lance na acta um voto de louvor ao médico FRANCISCO DE VASCONCELOS DA CRUZ SOBRAL, pela coragem, abnegação e zelo com que tem socorrido os doentes atacados pela epidemia de Manteigas".

NOTA: - Para perpetuar a sua Memória, a Câmara Municipal deliberou, mais tarde, dar a uma das principais artérias da Vila o nome de "Rua Dr. Sobral".

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