GENTE DE MANTEIGAS


contacto © joraga ®.

Afinal quem é
PAULO LUÍS MARTINS?

Gente de Manteigas in G+, de José Paiva Tacanho

FIGURAS HISTÓRICAS
de MANTEIGAS in «ANTOLOGIA»,
de José Lucas Baptista Duarte
1985
PRESIDENTES de CÂMARA
de 1910 a 2017 e AQUI
AUTORES e LIVROS e AQUI
de Gente de Manteigas
in TOPONIMIA, e AQUI
de José David Lucas Batista
in CONTOS SERRANOS,
de Dr. João Isabel e AQUI
in POIOS e PROSA
de António Leitão (PDF?)
in AQUELE PROFUNDO VALE, de José Cleto Estrela e AQUI

BANDA BOA UNIÃO - MÚSICA VELHA - MANTEIGAS
https://www.facebook.com/musicavelha.manteigas

1865 07 08 - (152 anos em 2017 07 08)

151 ANOS em 2016



Maestro Luís Serra - da Filarmónica Popular Manteiguense - Música Nova

150 anos em 2015

8 de Julho de 2015 - Distinção de sócios honorários

8 de Julho de 2015 - Distinção de sócios honorários — com Joana Domingos, Alfredo Marcelo, Sílvia Monteiro, João C. Craveiro, Lídia Marcos e Helena Marcos.

HISTORIAL da BANDA BOA UNIÃO - MÚSICA VELHA - MANTEIGAS

De 1906 (?) até 1930 a "Filarmónica Boa União" residiu na "Associação 1.° de Dezembro"


HISTORIAL

AQUI o relato de 1965 07 08, assinado por António de Crvalho Lucas e Joaquim Lucas Baptista, publicado in In «ANTOLOGIA I - Depoimentos histórico-Etnográficos sobre MANTEIGAS e SAMEIRO, de José Lucas Baptista Duarte, 2ª ed., Câmara Municipal de Manteigas, 1985. Pp. 132 - 144

BANDA BOA UNIÃO.
(Música Velha)

A BANDA BOA UNIÃO
Dedicamos este despretensioso trabalho no dia do seu primeiro CENTENARIO
Manteigas, 8/7/1965

ANTÓNIO DE CARVALHO LUCAS
JOAQUIM LUCAS BAPTISTA

FUNDAÇÃO DA
"PHILARMÓNICA VELHA DE MANTEIGAS"

«Não é possível, decorridos cem anos sobre a criação oficial da primeira filarmónica de Manteigas, porque não só minguam os documentos escritos como até é extremamente pobre a tradição oral, não é possível saber quais terão sido os antecedentes, os motivos que levaram à criação de uma associação musical na nossa terra.

Na altura, no resto do país, não era esse um movimento ainda generalizado e, mesmo que o fosse, o isolamento natural de Manteigas não era propício a contactos entre gentes que pudessem, de um momento para o outro, criar, entre serranos, um agrupamento vocal e instrumental em termos. A ideia alguém a trouxe de longe e a lançou por aqui na expectativa de um longo e frutuoso amadurecimento, na esperança de que havia de surgir algum dia o momento próprio para a sua realização. Esse momento surgiu quando, algum tempo depois, passou por Manteigas um agrupamento de palhaços que se fazia acompanhar de alegre e barulhenta charanga. Nessa altura, os lamentos todos se referiam ao facto de não poder Manteigas criar um agrupamento instrumental parecido.

Como quer que fosse, o entusiasmo foi tão grande, tão manifesto que, imediatamente, alguém cuidou de encomendar instrumentos, e não tardou que a vila toda se alvoraçasse com os ensaios e a actuação da Banda assim improvisada. Para estes factos é impossível, no entanto, marcar, com certeza, uma data. Algumas fontes sublinham como provável o ano de 1864, outros pensam até em anos anteriores. Dessa incerteza, entretanto, não e fácil sair-se nem lógico tirar quaisquer ilações.

Os documentos são bem claros quando se referem à criação oficial e pública da Música em Manteigas.

Reza assim a escritura:

"Saibam quantos este instrumento público virem que sendo no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e sessenta e cinco, aos oito dias do mês de Julho, pelas nove horas da noite e casas e moradas de Ana Martins Pereira, aonde, eu, Tabelião, vim a rogo de partes para fazer a presente escritura, ali sendo presentes José Maria Ribeiro Cabral e a sobredita Ana Martins Pereira, viúva, Manuel da Costa Monsanto, António Correia Tanganho, João Lucas Coelho, João Abrantes da Cunha, João António Lopes Espinho, Manuel Duarte Serra, José Abrantes da Cunha, Joaquim Lopes Rebelo, todos desta vila, conhecidos das testemunhas adiante nomeadas e assinadas e estas de mim Tabelião que dou fé, perante as quais por eles outorgantes foi dito que tinham contratado de reger Sociedade Filarmónica com as condições seguintes…".

Depois a escritura prossegue fazendo-se eco da organização que pretendia dar-se à referida Associação, enumerando as quinze condições que ficam a constituir as quinze cláusulas do contrato que sujeitavam dessa forma ao conhecimento da lei. Dessas condições a quarta é bastante sintomática por provar, em definitivo, a existência de um agrupamento musical a 1865.

Diz assim:
"O produto das festas será dividido por todos os filarmónicos com igualdade, depois de tirada a quinta parte que entrará em Caixa e para as despesas gerais da Sociedade; como porem existem já alguns móveis e músicas, os que de novo entrarem e não pertencerem à antiga filarmónica não receberão coisa alguma sem que faça meio ano, findo o qual ficarão com direito a esses móveis e receberão tanto como os outros".

Desta forma se fala claramente de uma filarmónica que havia já sido desfeita e havia elementos capazes de actuar ainda em nova associação, músicas e móveis. A que ano se pode ou deve atribuir o aparecimento e a extinção da dita filarmónica? Dez, vinte anos antes?
Sem rivais, sem luta, a primeira filarmónica deve ter tido vida efémera, conhecendo a vida e a morte nos cinco anos que precederam a fundação da Filarmónica "Boa União" em 8 de Julho de 1865, na casa que em S. Pedro era habitada por Ana Martins Pereira, viúva.

A escritura a que se tem feito referência pouco mais apresenta que seja digno de nota. Celebrada entre indivíduos pertencentes às duas freguesias da Vila, muito embora em chão de São Pedro, a escritura demonstra que a nova sociedade pretendia ser uma instituição válida para toda a Vila. Além disso, por se referir com pormenor ao processo de divisão dos fundos que ainda hoje está em voga em quase todas as suas congéneres pelo resto do país, a escritura evidencia uma fonte comum de inspiração, fonte que não é possível aprofundar mais por não se ter feito ainda um estudo exaustivo do assunto em Portugal.

Nesta escritura, a sociedade não se apresenta, entretanto, com um nome específico, o contrato e celebrado por dois anos.

Em 2 de Outubro do mesmo ano (1865), talvez porque na primeira escritura não tivessem sido esclarecidos certos pontos, talvez por a regência passar para a mão de Manuel da Costa Monsanto, é celebrado novo contrato que, fundamentalmente, apresenta as seguintes inovações:
- criam-se sócios pensionistas e estabelecem-se normas que hão-de presidir aos serviços litúrgicos das duas freguesias da Vila;
- nomeia-se uma Direcção da qual fazem parte dois padres (os Reverendos Joaquim Gomes Pinheiro e Francisco Martins Lucas) e os leigos (sócios pensionistas como os dois vigários) Manuel Francisco Serra, José Esteves Lucas e Joaquim Roque Botelho.

Em 1869, aos dois dias do mês de Janeiro e nas "Casas da Sociedade Filarmónica", fez-se nova escritura sob pressão do "Reverendo José Gomes Neves e outros desta Vila e julgado de Manteigas".

A nova escritura tinha por fim descer a mais pormenores quanto à organização da Sociedade, e é o primeiro documento a apresentar especificamente o nome do mestre - no caso o Padre José Gomes Neves, então pároco da freguesia de São Pedro.

Do exame cuidadoso das três escrituras surgem, como necessários alguns reparos.

A escritura celebrada em 8 e Julho de 1865 pretendia ser válida por dois anos, mas a necessidade, logo verificada de esclarecimentos às condições do contrato, mostrou a oportunidade de uma revisão que veio de facto a efectuar-se aos dois dias do mês de Outubro do mesmo ano.

Essa escritura que, como a primeira, foi feita em casa de Ana Martins Pereira, era válida por três anos e foi substituída, nos alvores do ano de 1869, aos dois dias do mês de Janeiro, sobe pressão do Padre José Gomes Neves e de outros, por nova escritura, válida também por três anos.

Se bem que a última escritura fosse encabeçada por nomes diferentes, na quase totalidade, dos que patrocinaram a celebração dos dois primeiros contratos, não é de admitir que tal facto se deva à cisão havida entre os filarmónicos e sócios pensionistas da Sociedade, porquanto o documento em referência nada mais fez do que pormenorizar a organização do agrupamento musical, e não apresenta quaisquer sinais de azedume para com as disposições dos contratos e testemunhas da escritura. Além disso, na extrema variedade dos autorgantes e testemunhas da escritura de 1869, é notória ainda a mistura de elementos de Santa Maria e São Pedro. A partir de 1869 e até 1883 e difícil, no entanto, acompanhar devidamente o caminho da filarmónica e, sobretudo, marcar ao certo a data que viu nascer em Manteigas um novo agrupamento musical.

Em 1880, com data de 9 de Abril, Valério de Paiva Boléo compõe, na cidade da Covilhã, um "Hino dedicado a Sociedade Philarmónica Velha de Manteigas". Na análise do original desse hino se baseiam aliás, todos os que determinam para antes de 1880 o nascimento da "Filarmónica Popular de Manteiguenses".

Os documentos escritos minguam, mas no entanto há um facto que a tradição oral refere, capaz de trazer luz ao problema.

Debatiam-se na altura pelo poder os partidos regenerador e progressista -- os primeiros fundados sob a orientação do Marquês de Saldanha, em 1851, e o segundo saído do célebre Pacto da Granja, por fusão dos partidos "histórico" e "reformista", em Setembro de 1786.

Uns e outros tinham em Manteigas os seus apaniguados: os "regeneradores", de tendências direitistas, eram chefiados pelo Senhor da Quinta de S. Fernando, D. António Ribeiro de Portugal, e os "progressistas", de tendência esquerda, tinham como chefe um industrial de grandes haveres e prestígio, Manuel Cunha.

Diz a tradição que as eleições eram renhidas, e os dois chefes se empenhavam o melhor que sabiam em chamar para a sua causa o maior número possível de adeptos. Nessas alturas organizavam-se grandes banquetes públicos e chegavam a distribuir-se terras a troco de um voto.

Quando, em determinada altura, o partido "progressista" ganhou as eleições, Manuel Cunha propôs à direcção da Filarmónica a conveniência de a mesma se associar à festa das esquerdas, ao que prontamente anuiu a direcção encabeçada por D. António Ribeiro de Portugal, com a condição de a Música receber uma libra em ouro por cada hora de exibição. A proposta foi aceite e, passadas duas horas e pagas as libras do contrato, Manuel da Cunha dispensou os serviços da Filarmónica e comunicou, publicamente, a sua intenção de patrocinar ele próprio a fundação de uma nova associação musical em Manteigas. Imediatamente aderiram à sua ideia alguns músicos presentes, os quais, separando-se da velha associação, fundaram a que depois viria a chamar-se "Filarmónica Popular Manteiguense".

A dar certa esta informação de tradição oral, não se torna difícil marcar, em definitivo, o ano da vitória eleitoral dos "progressistas" e, concomitantemente, marcar a data da cisão e fundação da nova filarmónica.

Em 2 de .Junho de 1879, Anselmo Braamcamp, a convite especial e directo do Rei, organiza o primeiro governo progressista, dissolve o Parlamento e, a 19 de Outubro do mesmo ano, realiza eleições gerais, conseguindo eleger 93 deputados contra 23 da oposição.

Porque a referência oral da tradição fala em "eleições ganhas", e fácil marcar para Outubro de 1879 a fundação do novo agrupamento musical. Só dessa forma, aliás, se pode dar crédito ao motivo político que parece ter originado, a cisão entre os membros da velha filarmónica. E o motivo político, isto e, a vitória dos "progressistas" em eleições, verificou-se só em 1879 e graças ao alto tacto político de Anselmo Braancamp e da plêiade de ministros de que se rodeou e dentre os quais é justo salientar os nomes de José Luciano de Castro e do Marquês de Sabugosa.
D. António Maria José de Melo Silva César e Meneses
Marquês de Sabugosa.

Exerceu o cargo de Ministro da Marinha e Ultramar entre 1 Junho de 1879 e 3 de Julho de 1880, no 37.º governo da Monarquia Constitucional presidido por Anselmo José Braamcamp.

Fundada antes de 1880 e coincidindo com a estrondosa vitória eleitoral do partido "progressista", a "Filarmónica Popular Manteiguense" só podia ter visto a luz do dia no ano de 1879. Em Junho ou, provavelmente, em Outubro de 1879.

Importa referir, para já, que nem mesmo após a fundação da Música os dois agrupamentos passaram a circunscrever-se, cada um, à sua freguesia.
O ideal político que havia provocado o cisma, alimentou, ele próprio, durante muitos anos, as rivalidades, e elementos de uma e outra freguesia faziam parte de uma e de outra banda, de acordo com tendências e conveniências políticas. As rivalidades, no aspecto social, quando muito, e para aqueles que pouco ou nada percebiam de política, faziam-se sentir mais no mister de cada um do que na freguesia em que nasciam ou moravam. Naturalmente, os operários, por conveniência de trabalho, agrupavam-se em volta de Manuel Cunha e eram progressistas, e os trabalhadores do campo e pastores, por tendência natural, uniam-se em redor do senhor das terras e dos pastos - D. António Ribeiro de Portugal -, e eram regeneradores.

As lutas politicas, nessas alturas, revestiam-se até de características que as tornavam faladas pelo ardor que uns e outros punham na celebração das suas vitórias eleitorais. Assim, quando as direitas ganhavam, os progressistas sumiam-se nas partes mais escuras das suas casas, havia foguetes, e a "Música Velha" animava os folguedos no largo da Casa das Obras e na Quinta de S. Fernando. Quando as esquerdas adregavam de vencer, os regeneradores escondiam-se, e os folguedos circunscreviam-se ao Velho Rossio (largo da Liberdade) e Praça Luís de Camões. Só bastante mais tarde, já nos alvores do século XX, é que, efectivamente as bandas começaram a referir-se cada uma à sua freguesia. As causas devem buscar-se no esmorecimento dos partidos (que se multiplicaram sem conto e perderam coesão) e nas animosidades que a revisão dos limites das freguesias provocaram. A opinião pública apaixonou-se de tal forma, que os leigos se embrenharam em quezílias de vária ordem com os padres, e as bandas, naturalmente, acabaram por render-se ao estado de espírito da vila e tomaram a seu cargo, até, a honra das freguesias que passaram a defender com o mesmo espírito partidário dos fins do século XIX.

Dentre os elementos que, em 1879, se devem ter passado para o novo agrupamento musical, cita-se, pelo especial relevo que imprimiu à vida política de Manteigas João Abrantes Martins da Cunha , filho de Ana Martins Pereira. Dentre os que permaneceram fiéis à "Música Velha", devem citar-se: D. António Ribeiro de Portugal, D. Manuel Ribeiro de Portugal, Manuel Lucas Baptista, João Lucas Coelho, Gregório Cerveira, Eduardo Quaresma e Manuel Francisco Serra.
Depois do cisma, o acto jurídico mais relevante da "Filarmónica Velha de Manteigas" deu-se em 1833 (?), data do alvará que aprovou os estatutos. No verso da 2ª folha desse documento refere-se que os primeiros estatutos da Banda foram feitos em 1874. A inscrição que reza assim:
1.°s Estatutos foram feitos em 29 de Novembro de 1874", não traz qualquer assinatura e não é explícita ao ponto de indicar se a data se refere à aprovação ou composição dos referidos Estatutos.

De 1883 aos nossos dias (1985) a vida da "Filarmónica Boa União" foi um caminhar perene e gigantesco na procura de um ideal: e esse ideal foi procurado sempre na consideração da arte, no culto da amizade e no insatisfeito desejo de vencer. Só dessa forma, aliás, foi possível escapar-se à morte lenta a que o destino condena as Instituições do género. Nem tudo foram rosas, mas sentiram-se as dores profundas dos espinhos cravando-se na carne; nem tudo o que se fez perdura, mas o saldo final é um alegre saldo de vitória.

Os actos jurídicos posteriores a 1883 que importa salientar resumem-se a dois:
- a construção da actual casa de ensaios, na Rua das Obras,
(Morada: RuaTeles de Vasconcelos 6260-999 Manteigas)
- e a declaração de propriedade do coreto do Senhor do Calvário, respectivamente em 25 de Novembro de 1950 e 14 de Julho de 1956. ,

A construção da casa dos ensaios tornou-se possível graças à generosidade da Exma. Senhora D. Maria de Portugal da Silveira que doou os terrenos necessários, e ao entusiasmo e dedicação de toda a freguesia de Santa Maria que, com ofertas de materiais e trabalho, mostrou a força actuante do seu bairrismo.
O ensaio foi inaugurado em 1951, aos 29 dias do mês de Julho.

Em 1956 e por mor de certos ditos e desejos mal encobertos, houve necessidade de afirmar publicamente a "posse" do coreto do Largo do Senhor do Calvário. Em Manteigas ninguém ousaria pôr em dúvida a legitimidade da posse do coreto na pessoa da Banda Boa União. No entanto, gente estranha à nossa Terra, numa infeliz demonstração de pouco apreço para com as nossas obras e o nosso entusiasmo, tentou derrubar essa convicção, pretendendo a todo o custo promover a transferência do coreto. Essa tentativa provocou reacções, a mais serena das quais saiu da boca do Vigário de Santa Maria, Reverendo Padre Joaquim Dias Parente, e pôs ponto final na questão.
Em declaração pública o Pároco afirmava:

DECLARAÇAO
"Eu abaixo assinado, Padre Joaquim Dias Parente, natural de Alpedrinha, concelho do Fundão, filho de Eduardo dos Santos Hipólito e Maria da Piedade, e residente na freguesia de Santa Maria do concelho de Manteigas, declaro por esta forma e para todos os efeitos legais, em nome pessoal, como Pároco da Freguesia de Santa Maria supra dita e, ainda, como Presidente da Comissão Fabriqueira da respectiva lgreja, que o coreto que se encontra no Largo do Senhor do Calvário, nesta Vila de Manteigas, é propriedade, única e exclusiva, da Banda "Boa União", associação recreativa com sede nesta Vila de Manteigas. E por ser verdade e para os devidos efeitos, fiz escrever a presente declaração perante as testemunhas JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS, viúvo, funcionário público aposentado, e ANTÓNIO PRATA, casado, funcionário público, ambos residentes nesta Vila, a qual assino com as ditas testemunhas".
Manteigas, 14 de Julho de 1956
P. Joaquim Dias Parente
José Augusto dos Santos
António Prata


Padre Joaquim Dias Parente, pároco de Santa Maria de Manteigas entre 1910-1957.

NOMES E FACTOS INESQUECÍVEIS
'A história da "Música Velha", os gloriosos 100 anos que nos separam da sua fundação, não se compreendem, não têm verdadeiro sabor se não forem recordados de parceria com uma série de episódios que ficaram célebres.

Episódios que se relacionam com o cisma de 1879, episódios que se referem a lutas de freguesias ou despiques entre as duas Músicas , um e outro facto relacionado com figuras amigas ou mais ligadas à "Música Velha".

O primeiro mestre da música em Manteigas, José Maria Ribeiro Cabral, era natural de Mesquitela, fora aluno de teologia e, em 1863, com 26 anos, ligou-se à família de António Martins Ramos, industrial, por casamento.

A primeira e segunda escritura foram celebradas em Chão de São Pedro, numa casa que é hoje pertença da Senhora D. Elisa Mota, sita na Rua de São João de Deus, antiga Rua da Encruzilhada. Essa casa era propriedade de Ana Pereira Martins, viúva de João Abrantes da Cunha. Seus filhos, João, Fortunato e António, haveriam mais tarde de desempenhar lugar preponderante na organização do partido progressista em Manteigas e, em 1879, haviam de ser cabecilhas do cisma com Manuel da Cunha e Caetano Espinho.

Manuel da Cunha, chefe progressista que, em 1879, provocou o cisma, era sogro de Joaquim Pereira Matos, e marcou uma era de protecção em relação à "Música Nova", só desmentida, mais tarde, com a dedicação que, em relação à "Música Velha", sempre revelou a Senhora D. Maria do Carmo da Cunha Mattos.

Sociedade Musical Gouveense em 1917
Nos alvores deste século, em Julho de 1909, houve em Gouveia uma concentração de Bandas, oito ou todo, pertencentes às seguintes localidades: Manteigas, Seia, Vila Nova de Tazem, Moimenta da Serra, Arcozelo, Rio Torto, Linhares e Gouveia. De todas, a que mais alto se colocou na execução do Hino da Carta foi a "Filarmónica Boa União", de Manteigas. Ainda há pouco tempo, em Rio Torto, em animada conversa com um velho filarmónico que tomara parte na concentração, ficou efectivamente evidenciado o alto prestígio de que então gozava a "Música Velha". Durante essa concentração os músicos de Manteigas, além de revelarem o aprumo artístico da sua execução, apresentaram-se em Gouveia com dois fardamentos diferentes.

Depois dessa jornada monárquica em Gouveia, outras jornadas gloriosas teve a "Música Velha": A ida a Santiago do Escoural, no Alto Alentejo, em 1932; as Festas do Senhor do Calvário em Gouveia e as Festas do Senhor do Calvário em Santa Maria de Manteigas onde, por duas vezes - 1927 e 1929 - se bateu com a categorizada Banda do Regimento de Infantaria n.º 21 da Covilhã, da qual era Regente o Grande Maestro Lança.

Em 1939, à sombra da "Música Velha" e no coração da freguesia de Santa Maria, à Praça da Louça, funda-se o "Rancho dos Serranos da Estrela" que horas de glória haveria de trazer também à "Música Velha". Dessas horas de glória as maiores foram vividas em 1940, em Viseu, e em 1964, em Coimbra, nas Festas da Rainha Santa.

Se é certo que episódios como os que ficam descritos dão mais cor a vida de uma agremiação, certo é, também, que há figuras, há beneméritos que, só por si, explicam a grandeza de uma obra e se tornam credores de uma eterna gratidão: D. António e D. Manuel Ribeiro de Portugal, os Homens que, para além do interesse político, para além das glórias passageiras, viram na "Filarmónica Boa União" uma associação artística e de recreio à qual se devotaram e da qual foram generosos mecenas.
Joaquim da Cruz Filipe, Albino da Cruz Filipe, Manuel Francisco Serra Rabaça, António Augusto Prata Massano, José Vicente Baptista Gonçalves, Alberto Eduardo de Sá, José Craveiro Rabaça, José Augusto Rabaça Leitão, Manuel de Oliveira, Silvino Augusto Ribeiro Abranches, Zeferino d' Almeida Fraga, Joaquim Craveiro Rabaça, Francisco Gaspar, António Gaspar, Manuel Gaspar, António Abrantes Pereira e Manuel Clemente Branco são outras tantas figuras prestigiosas que, no último quartel do século XIX, deixaram o seu nome e o seu entusiasmo ligados à "Filarmónica Boa União". Em tão boa hora o fizeram, que os seus nomes não mais se varreram da memória agradecida de uma instituição que eles próprios ajudaram a criar para a História.

AS CASAS DOS ENSAIOS DA
"FILARMÓNICA BOA UNIAO"


Banda Boa União - Casa dos Ensaios - desenho de José da Cruz Paixão
«O ensaio foi inaugurado em 1951, aos 29 dias do mês de Julho.»

Nota actual -
(Nas comemorações dos 150 anos, em 2015, a Casa das Artes - Banda Boa União)

 

AS CASAS DOS ENSAIOS DA "FILARMÓNICA BOA UNIAO"

«A escritura de 1883 fala especialmente em "casas da Sociedade Filarmónica". No entanto, tal designação quererá, obrigatoriamente, significar casa de ensaios? É difícil responder sem dar margem a controvérsias, tanto mais quanto, efectivamente, a tradição oral é pobríssima em elementos que a tal assunto se possam ou devam referir.»

A "Música Velha" morou na actual Rua Vasco da Gama, numa numa casa que ainda hoje é pertença da família "OIiveiras", de santa Maria.

Desde quando? Até quando? Aqui se entra no campo das hipóteses.

Sabe-se que morou depois paredes meias com a Igreja da Misericórdia, num edifício que era propriedade da santa Casa da Misericórdia, e que foi demolido há anos por necessidade de alargamento da Praça Luís de Camões.

O arrendamento deste edifício foi, durante anos, objecto de um característico leilão anual entre as duas Filarmónicas da Vila. Ao que parece no entanto, e enquanto a "Música Velha" não se transferiu para a "Casa 1º de Dezembro", a "Música Nova" nunca conseguiu levar a melhor nesse leilão. Logo após a transferência da "Música Velha", e por tempo que não é possível demarcar com certeza, o mesmo edifício serviu de ensaio da "Filarmónica Popular Manteiguense".
(actual Casa de Cristo-Rei) sita na velha Rua do Sol, (hoje Dr. Sobral).

O edifício foi construído por interesse conjunto da "Banda Boa União" e da associação Recreativa 1.° de Dezembro, e destinava-se a sede das duas agremiações que tinham uma só e mesma Direcção. Nele se realizavam os ensaios da Banda e se promoviam sessões culturais e récitas que ainda hoje se recordam, tão profundamente falaram ao coração do Povo. A sala de espectáculos serviu até várias vezes para receber grandes Companhias de teatro amador vindas de fora.

Entre 1930 e 1951, e graças à generosidade da família Cunha Mattos, a "Música Velha" ensaiava nas dependências térreas do edifício que hoje é pertença e habitação da família Cunha Mattos Isabel.

Desde 1951 a "Banda Boa União" encontra-se instalada em edifício próprio e expressamente construído para a sua Sede e ensaios, e fica situado na Rua Teles de Vasconcelos, também conhecida por Rua das Obras por nela se situar o Solar "Casa das Obras", pertencente à família nobre Ribeiro de Portugal da Silveira que gratuitamente cedeu o terreno para a construção do edifício nas imediações do Solar.


Sede da Banda Boa União, desde 1951 a 2015



Sede da Banda Boa União, desde 2015 (2015 08 10
(inauguração em 2015 08 10)

-----------------------------------------------------------

OS MESTRES DA "BANDA BOA UNIAO"


Mestre ---------- em 2015... desde...

JOSÉ MARIA RIBEIRO CABRAL (1865): regeu a "Música Velha" durante três meses.

MANUEL DA COSTA MONSANTO (1865-1869): manteiguense de origem e homem de bom gosto.

PADRE JOSÉ GOMES NEVES (Padre Pacha): deve ter regido até 1873, data em que, presumivelmente, foi nomeado pároco de Cabril. Foi pároco de S. Pedro.

JOÃO MATAGOTA, acerca do qual nada mais se sabe.

FRANCISCO PAIVA BOLÉO (1873-1895); sobrinho do grande compositor Valério de Paiva Boléo, veio para Manteigas com a idade de 14 anos, exercendo desde essa idade as funções de mestre da "Música Velha". Tinha que subir para um banco, dada a sua pequena estatura, para reger, mas logo se revelou de um saber e gosto admiráveis na difícil arte de usar a batuta.
Porque na altura eram grandes as rivalidades que opunham a "Música Nova" e a "Música Velha", Mestre Boléo, muitas vezes, vestido de pastor, de capa e cajado, ia para junto do ensaio da "Música Nova" apanhar as músicas que, um ou dois dias depois, ensaiava com a sua filarmónica com tanta eficiência, que acabavam por sair primeiro que eles com a marcha.

JOÃO LUCAS COELHO (1895-1900): mais tarde, haveria de transferir-se para a "Música Nova".

HONORATO NUNES FERNANDES (1900-1906).

PORFÍRIO DUARTE SERRA (1906-1935): o maior músico que Manteigas deu algum dia a luz e um mestre insigne. incompreendido e desprezado, mais tarde, por críticas de família-e preconceitos religiosos, transferiu-se para a "Música Nova" onde foi até quase à morte o mestre erudito que não mais pode ser esquecido na consideração dos valores musicais da nossa terra.

ANTÓNIO GOMES SERRA (Granja): foi também um músico de talento, alternando o tempo da sua regência com Porfírio Duarte Serra.

PADRE JOAQUIM DIAS PARENTE: Senhor de uma personalidade inconfundível, profundo conhecedor dos homens e das artes, transformou a "Música Velha" numa verdadeira academia musical.
As suas composições eternizaram-se, e as exibições da Banda, sob a sua regência, ficaram inolvidáveis.
Paroquiou a freguesia de Santa Maria durante 47 anos, e a sua paixão pela música ficou patenteada no brilho que imprimiu às celebrações litúrgicas e na dedicação com que dirigia os ensaios da "Banda Boa União".
Ele foi verdadeiramente o grande "maestro" da "Música Velha" a cujos destinos presidiu durante a regência de Porfírio Duarte Serra, António Gomes Serra, Afonso Lopes Cerveira e António Marcos Leitão.
Em 1928, no dia da inauguração da luz eléctrica em Manteigas, a "Música Velha" empolgou a multidão ao executar a primor e sob as suas ordens a marcha "Alte Kamaraden" (Velhos Camaradas).

https://angelinawittmann.blogspot.pt/2013/12/alten-kamaraden-e-o-show-dos-velhos.html
(Pode ouvir uma interpretação em https://www.youtube.com/watch?v=-ai6DCuH-OM)

São de realçar, igualmente, as inúmeras e belíssimas rapsódias que compôs para o Rancho "Os Serranos da Estrela" e que constituem hoje um verdadeiro tesouro artístico, uma herança abençoada das horas que a "Música Velha" e o "Rancho" conheceram sob a sua batuta inspirada.

ANTÓNIO MARCOS LEITÃO: membro de uma família de artistas e pai de mais dois mestres.

EDUARDO SIMÃO D'ALMEIDA.

MANUEL MARCOS LEITAO.

JOÃO RIBEIRO MARCOS LEITÃO (este o último Mestre em exercício (1985?) a data em que se fazem para este livro as transcrições que aqui ficam a atestar, para os vindouros, as origens da "Banda Boa União").

(Depois de 1985 até 2017?)

------------------------------------

IMAGENS HISTÓRICAS


Música velha - Tempo do Padre Parente - anos 40?
http://acurvadoslivros.blogspot.pt/2016_03_01_archive.html


in Marcos Serra - A Curva dos Livros
AdJ- Adelino Jorge; JqJ - Joaquim Jorge; PP- Padre Parente; AnJ- António Jorge; MnM- Manuel Marcos; JSJ- José Jorge; AnM- António Marcos; JAs- José Ascenção; JsA- José Ambrósio; JoM- João Marcos; JsM- José Marcos.


Bernardo Marques Leitão - Sacristão - Santa Maria anos 40 - 60?

 


Jorge - Bisavô de Marcos Serra


O coreto de Santa Maria foi construído em 1926 por esta mesma freguesia. Mas desde 14 de Julho de 1956 é propriedade da Banda Boa União. Apresenta uma forma octogonal, em que cada lado tem 2,20m, com um perímetro de 17,60 metros. O autor do projeto foi Bernardo Marcos Leitão, um sacristão artista que tinha anteriormente construído um coreto que se montava nas festividades e que podia ser dobrado e guardado quando não era necessário. A execução do projeto ficou a cargo de João Duarte Quaresma, mestre-de-obras que dirigiu a construção, à exceção da parte relativa à serralharia, que foi executada pelos dois irmãos Lopes, ferreiros de Manteigas. - See more at:
http://museuvirtual.activa-manteigas.com/index.php/places/coretos/coreto-da-banda-boa-uniao/#sthash.WxD8Xwj4.dpuf

Musica Velha - anos? (a imagem mais antiga?)

joraga@netcabo.pt e joraga200@gmail.com ou zeraga@gmail.com

Compatível com IE/Netscape na resolução 800x600
aminhaTEIAnaREDE www.joraga.nethttp://museuvirtual.activa-manteigas.com/index.php/places/patrimonio-arqueologico/casa-das-obras/