Gil Vicente 500

Vida GV de 1460/70 a 1502 a 1536/38
500 anos de GV - de 1960 - 2002 - 2038

78 anos a celebrar o 5ºCGV como reNASCIMENTO de um TEATRO a partir da RAIZ
por José Gil Vicente da Beira e outros deNÓMIOS...

Obras de Gil Vicente:
PANORÂMICA

as 47 uma a uma

GIL VICENTE

Algumas NOTAS sobre a

1. A VIDA 1 - GIL VICENTE - VIDA 14
2. OBRA e Dados históricos 2. - OBRAS DE GIL VICENTE 18
3. ÉPOCA - os "Reinados" de GV 3. - ÉPOCA 22
4. Algumas datas sobre os DESCOBRIMENTOS 4. - OS DESCOBRIMENTOS: Algumas datas e nomes para referências... 27
  5 - BIBLIOGRAFIA usada 28

São elementos, que parecem indispensáveis para uma possível LEITURA ACTUAL de GV e dos seus AUTOS...

1 - GIL VICENTE - VIDA

O que se pode dizer da vida deste Homem?!...
Como acontece com grande número de nomes ilustres da nossa Literatura e da nossa História, pouco se sabe, ao certo, da vida de Gil Vicente. Costuma ser divertido discutir-se se será o mesmo mestre Vicente, ourives artista, que assina a célebre custódia de Belém.
Mais importante do que isso, será útil ter em conta alguns dados mais importantes da época em que ele viveu, para o podermos situar no espaço e no tempo.

Gil Vicente terá nascido entre 1460, 1465, ou 1470.
Onde? Muitas terras reivindicam a sua naturalidade sob os mais diversos pretextos. Em Guimarães? Na Beira? Na Covilhã? Não é possível saber. Os do futebol teimam em considerar que é de Barcelos, que já produziu outros fenómenos como o "galo" e a Rosa Ramalho!
Claro que também pode ser de Lisboa, ou pode ser considerado como um dos muitos portugueses, já naquele tempo!, oriundos da província, que se vai tornar famoso junto da corte, em Lisboa.
A Imprensa de Gutemberg data de 1450, e, embora só para muito poucos, como agora, desde essa altura, só existe e tem valor o que fica registado pela escrita!

 

Viveu em pleno a época áurea dos Descobrimentos, tendo ele próprio a sua época áurea, no reinado de D. Manuel I, o rei Venturoso e/ou Afortunado que não só realizou o sonho máximo dos Descobrimentos, como pôde reinar em paz!!!, reinstalando o absolutismo que havia de ser um dos factores que haviam de travar a dinâmica, possivelmente utópica, lançada pela generosidade e genialidade dos Homens de Quinhentos, do Renascimento, do Humanismo, de toda uma Revolução no sistema e métodos do conhecimento e da maneira de estar no Mundo!!!

Terá morrido cerca de 1536, em Évora, onde possivelmente jaz, sepultado no mosteiro de S. Francisco. Mais um dado incerto!!!
Morre entretanto, já afastado dos favores da Corte; e já com a ansiada Inquisição, afanosamente pedida pelo seu pupilo D. João III, que nascera com o seu nascimento para o teatro!, a chegar com toda a sua corte de injustiças, julgamentos sumários, arrogância, prepotência, abusos discricionários, crimes... Mais um factor a travar a caminhada que a Humanidade tinha encetado!!!

Viveu, pois, nos reinados de D. João II (1455, rei de 1481 a 1495 - teria GV 35? 25 anos)!, a quem chama o "domado" (no sentido de AMADO, estimado, querido); e viveu sobretudo na corte de D. Manuel (1469 - rei de 1495 a 1521 - a plenitude da maturidade de GV); e viveu ainda no reinado de D. João III, no nascimento de quem vai representar o Auto da Visitação (1502 e rei de 1521 a 1557), mas durante o qual entra em declínio e é afastado da corte!

De qualquer maneira, estes são os dados suficientes para nos permitir perceber que vive em cheio a transição da Idade Média para o Renascimento com todo o seu cortejo de ambiguidades e confusões!... viveu, em posição privilegiada a empolgante aventura do auge dos Descobrimentos com o início do estabelecimento da expansão colonial!
Assiste assim à reinstalação do poder absoluto em Portugal após a esperançosa e eufórica experiência das Cortes com a presença do Povo (vide Revolução de 1383/85); e, nos últimos anos, vai viver a sinistra espera da chegada oficial da Inquisição a Portugal, que é finalmente autorizada no ano da sua morte!!!

Com isto, podemos talvez ver o Mestre Gil Vicente e a sua Obra, com todas as suas marcas de uma Época de transição, como possivelmente é a nossa e muitas outras.

Por um lado, ainda vive, mesmo que já fortemente contestada e rejeitada pelas elites, toda a ingenuidade, espontaneidade e refinada malícia da Idade Média, com toda a sua iluminada obscuridade teocêntrica e o seu predomínio do religioso e das crendices, sustentada pela segurança da infalibilidade do "Magister dixit" tanto para a Religião como para a Ciência; com toda a magia das tradições sociais rurais, e espontaneidade da linguagem popular "analfabeta"!?...
Vivendo, ao mesmo tempo, a passagem para o Renascimento, Classicismo, Humanismo, com as suas referências mitológicas alargadas; com o exercício do seu poder crítico sobre os problemas sociais e religiosos. Podemos assistir, com ele, à transição possivelmente perigosa e violenta da contestação da Ciência Dogmática do princípio da Autoridade, para a grande aventura da Ciência Experimental. Ou seja, ao aparecimento de um Novo Espírito Científico, baseado na dúvida, na investigação e na prova.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É aliás, este novo espírito científico, que anima, ainda hoje, passados quinhentos anos, os pioneiros do progresso da Humanidade que, como diz Carl Sagan, obedece a duas regras fundamentais:

A primeira consiste em tomar consciência de que não existem verdades absolutas ou sagradas. Todas as asserções devem ser cuidadosamente examinadas com espírito crítico. Os argumentos de Autoridade deixam de ter valor. Nada provam.
A segunda é complementar desta. Tudo aquilo que esteja em contradição com os factos tem de ser rejeitado ou revisto. Não se pode confundir aquilo que gostaríamos que fosse, com aquilo que é na realidade. Como se verificou, muitas vezes, ao longo dos tempos, aquilo que parecia óbvio e evidente, estava e está errado; e o insólito e inesperado, é verdadeiro... É ver (um século mais tarde) a famosa frase de Galileu (1564 - 1642): "E pur si muove". Mesmo que não tenha sido pronunciada no célebre dia 21/22-06-1633, nem por isso deixa de ser uma terrível verdade e um violento protesto, ainda actual, contra toda a forma de autoritarismo e arrogância das Doutrinas e das Ciências instaladas nos seus cómodos dogmatismos.

Enfim, Gil Vicente, fica na História da Literatura, como o fundador do Teatro Português de nível literário. Fundador e pioneiro e genial mestre em praticamente todas as vertentes, como actor, encenador, e autor de valiosa, variada e contestada obra... Inicia a sua obra de comediógrafo com o Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação que ele próprio representou, dois dias após o nascimento do que havia de ser o rei D. João III, e vai deixar-nos pelo menos, mais de quatro dezenas de peças teatrais, coligidas mais tarde por seu filho Luís, divididas em Autos, Mistérios religiosos, Milagres, Moralidades e Tragicomédias...

2. - OBRAS DE GIL VICENTE

O elenco possível de 49 Obras, fora muitas outras mencionadas, e alguns dados históricos para possível enquadramento no CONTEXTO...

 

Ano Gil Vicente (GV e nº obras 1-46? 49...)  Dados da Época (DE)
1438 DE D. Afonso V - sobe ao trono
1450 DE Aparecimento da IMPRENSA de Gutemberg.
1452 Europa n. Leonardo da Vinci - 1519
1459 Europa n. Maximiliano I - 1519
1460 GV  65?70? Nascimento de Gil Vicente
1467 Europa n. Erasmo de Roterdão - 1536
1469 Europa n. Juan del Encina - 1529
1469 Europa n. Nicolau Maquiavel - 1527 (ver "O Príncipe"
1470 DE n. Garcia de Resende - 1536
1471 Europa n. Albrecht Dürer - 1528
1474 Europa n. Ludovico Ariosto - 1533
1475 Europa n. César Bórgia - 1507
1475 Europa n. Miguel Ângelo - 1564
1478 Europa n. Thomas Morus - 1535 (ver "A Utopia"
1481 DE Morte de , o Africano. Reina D. João II.
  DE n. Francisco de Sá de Miranda - 1558 - o que introduziu as formas clássicas...
1482 ?DE n. Bernardim Ribeiro - 1552? 5? (ver "Menina e Moça"
1483
/84
DE Lutas de D. João II com a nobreza. Execução do Duque de Bragança em Évora, e D. Diogo, duque de Viseu, irmão do futuro rei D. Manuel I, cunhado do rei, é apunhalado pelo próprio rei. A rainha D. Leonor ( a Rainha Velha de Gil Vicente) funda um Hospital em Caldas da Rainha (futuro das Misericórdias).
1487 DE  Bartolomeu Dias Dobra o Cabo da Boa Esperança.
1489 DE Primeira impressão de um livro em Lisboa. (?)
1490 DE Morte do príncipe herdeiro D. Afonso, filho de D. João II, que entretanto casara com D. Isabel, filha dos reis católicos de Espanha. Foi um profundo golpe para o rei e para o seu sonho de unificação ibérica... que o vai levar a escolher D. Manuel I...
1491 Europa n. Henrique VIII de Inglaterra - 1547
1492 DE Cristóvão Colombo chega à América, lançando a confusão da chegada à Índia pelo Ocidente...
1494 DE Tratado de Tordesilhas que divide o Mundo entre Portugal e Espanha, de pólo a pólo, por um meridiano imaginário a 370 léguas a Ocidente do Arquipélago de Cabo Verde. Hábil manobra dos enviados de D. João II que detém conhecimentos únicos sobre a existência da América e do Brasil... cartografia... e métodos de orientação...O Breviarium Bracarense, fica a marcar o aparecimento da imprensa em Portugal...
1495 DE Aclamação de D. Manuel I que dois anos depois casa com a viúva de seu primo (D. Afonso) D. Isabel, pretendendo dar continuidade ao sonho Ibérico do Príncipe Perfeito...
1496 DE n. João de Barros - 1570 (ver "Décadas"
1497 DE Partida da Armada de Vasco da Gama para a Índia... em Julho.
1498 DE Chegada de Vasco da Gama a Calecut. D. Leonor funda as Misericórdias.
1500 DE Descoberta oficializada do Brasil. D. Manuel casa com a infanta D. Maria de Castela. Diogo de Gouveia é reitor na Universidade de Paris...
1502 1 Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação (c)
  2 Auto Pastoril Castelhano (c)
  DE Aparecimento do segundo Diário da segunda viagem de Vasco da Gama à Índia...
1503 3 Auto dos Reis Magos (c)
1504 4 Auto de S. Martinho (c) (nas Caldas)
1506 5 Sermão feito à rainha D. Leonor (c)
  DE Concluída (por Gil V.?) a Custódia de Belém com ouro trazido da Índia
1507 DE Na Índia, Afonso de Albuquerque conquista Ormuz
1509 6 Auto da Índia (1519?) (p) (No Paço de Almada)
  7 Auto da Sibila Cassandra (c) (1513)
  DE Gil v. nomeado ourives da Rainha D. Leonor...
  DE Afonso de Albuquerque empreende a formação do império português na Índia
1510 8 Auto da Fé (bilingue) (Almeirim)
  9 Auto da Fama (1516??? 1521???) (p)
1510 Europa n. Lope de Rueda - 1565 (Dramaturgo espanhol... )
1511 10 Auto dos Quatro Tempos (c)
1512 11 O Velho da Horta (p) (Paço da Ribeira)
  12 Auto dos Físicos (c) (data ???)
  DE Mais de 1200 portugueses embarcam para a Índia e muitos por lá ficam...
1513 DE Célebre embaixada de (Tristão da Cunha c/ elefante) D. Manuel ao Papa Leão X...
  13 Exortação da Guerra (1513?) (p)
1514 DE Construção da Torre de Belém...
1515 14 Quem tem Farelos (1505?) (bilingue)
  Europa n. Teresa de Ávila - 1582 (ver "As moradas"
1516 DE Cancioneiro Geral de Garcia de Resende...
1517 15 Auto da/s Barca/s do Inferno (1512?) (p) (Paços da Ribeira)
1518 16 Auto da/s Barca/s do Purgatório (p) (Hospital de Todos os Santos)
  17 Auto da Alma (1508?) (p)
1519 18 Auto da/s Barca/s da Glória (c) (Almeirim)
  DE Fernão Magalhães atravessa o estreito que fica com o seu nome...
1520 ??? Obra da Geração Humana
  ??? Auto de Deus Padre, Justiça e Misericórdia
  DE n. António Ribeiro Chiado - 1591 (continuador de Gil V. mas...)
1521 DE Morte de D. Manuel e aclamação de D. João III
  19 Cortes de Júpiter (p)
  20 Auto dos Quatro Tempos
  21 Comédia de Rubena (bilingue) (Ver Diálogo Infantil in Teatro de Gil V. - A. J. Saraiva
  DE Morte de D. Manuel I e subida ao trono de D. João III
  outras Romance à morte de D. Manuel
  outras Oração dos Grandes depois de enterrado El-Rei
  outras Romance à Aclamação de D. João III
  outras Palavras dos Senhores ao Beijar da Mão
1522 22 Pranto de Maria Parda (p)
1523 outras Trovas ao Conde de Vimioso
  23 Farsa de Inês Pereira (p) (Convento de Tomar - D. João III)
  24 Auto Pastoril Português (Em Évora)
1524 25 Frágua de Amor (bilingue)
  26 Comédia do Viúvo (1521?) (c)
1525 27 O Juiz da Beira (bilingue) (Almeirim)
  28 Farsa das Ciganas (1521?) (c)
  29 Tragicomédia de D. Duardos (c)
  DE Morte da 2Rainha Velha" D. Leonor)
  DE Nascimento de Camões (? a data mais provável)
1526 30 Templo de Apolo (bilingue)
  31 Auto da Feira (p) (1528? repr. nos Paços da Ribeira)
1527 32 Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra (bil.)
  33 Auto das Fadas (bil.) (data???)
  34 Nau de Amores (bil.) (Chegada a Lisboa de d. Catarina mulher de D. João III)
  35 Farsa dos Almocreves (1526?) (p)
  36 Tragicomédia - Pastoril da Serra da Estrela (p) (Ao nascimento, em Coimbra, da Infanta D. Maria, filha de D. João III a 15.10.1527
  37 AUTO DA HISTÓRIA DE DEUS (em Almeirim)
  38 Diálogo dos Judeus sobre a Ressurreição (p)
1528 39 Auto da Festa (p) (1526?)
  outras Trovas a D. João III
1529 40 Triunfo do Inverno (c)
  41 O Clérigo da Beira (p) (Almeirim)
1530 DE Tremor de terra em Lisboa e em 1531
  DE Pedido da Inquisição em Portugal
1531 outras Fala de Gil Vicente aos Frades de S. Francisco em Santarém, defendendo os cristãos novos
  outras Carta de Gil Vicente sobre a atitude dos frades
  42 Jubileu dos Amores (repres. em Bruxelas em castelhano)
1532 43 Auto da Lusitânia (bil.) com Todo o Mundo e Ninguém...
1533 44 Romagem de Agravos / ados (p) (Évora)
    Aderência do Paço (desaparecido? cond. Inquisição)
    Jubileu de Amor (desaparecido cond. Inquisição)
    Vida do Paço (desaparecido cond. Inquisição)
  45 Auto de Amadis de Gaula (c) (Évora)
  DE André de Gouveia é eleito Reitor da Universidade de Paris...
1534 46 Auto da Cananeia (p) (Convento de Odivelas)
  47 Auto da Mofina Mendes (p) (antes era Auto dos Mistérios da Virgem) (1ª 1515)
1536 48 Floresta de Enganos (bil.) (Évora)
  DE Estabelecimento da Inquisição em Portugal.
1537? 1540? Morte de Gil Vicente (?)
1562   Copilação de todallas obras de Gil Vicente - apesar da Inquisição, a viúva de D. João III conseguiu que fosse publicada... (16 em Pot. + 11 Cast. 16 biling.
1580   Perda da Nacionalidade e ? morte de Luís de Camões... "Ao menos, morro com a Pátria"

Alguns dos mui ilustres CONTEMPORÂNEOS de GIL VICENTE


Leonardo da Vinci 1452-1519; Maximiliano I 1459-1519; Erasmo de Roterdão c. 1467-1536
Nicolau Maquiavel 1469-1527; Albrecht Dürer 1471-1528; Ludovico Ariosto 1474-1533
César Bórgia c. 1475-1507; Miguel Ângelo 1475-1564; Thomas Morus 1478-1535
Francisco Sá de Miranda 1481 (?)-1558; Rafael Sanzio 1483-1520; Henrique VIII de Inglaterra 1491-1547
Bernardim Ribeiro c. 1482 (?)-1552 (?); João de Barros 1496 (?)-1570; Benvenuto Cellini 1500-1571.

3. - ÉPOCA

Os primeiros reinados da 2ª Dinastia e os Reis com quem Gil Vicente viveu.
Mais alguns dados históricos da ÉPOCA VICENTINA para uma possível compreensão do que passava há 500 anos e como tentativa para tentar perceber a nossa...


D. João I

viveu - 1357 a 1433

reinou -1385 a 1433

Décimo rei de Portugal, dá início à segunda Dinastia, após a primeira série que começara em Afonso Henriques e terminou com D. Fernando e a crise de 1383/85.Viveu de 1357 a 1433. Reinou de  (Cortes de Coimbra) a 1433.Filho bastardo de El-rei D. Pedro e de Teresa Lourenço. Em 1364, ainda menor de sete anos é investido como Mestre de Avis, com a formação religiosa, militar e cultural inerentes a esta função. Foi protagonista com Álvaro Pais, João das Regras e Nuno Álvares Pereira da Crise de 1383/85. Aí as lutas com Castela, o Cerco de cinco meses de Lisboa, a aclamação como rei nas Cortes de Coimbra, a Batalha de Aljubarrota, o casamento com D. Filipa de Lencastre, matriz fecunda da "ínclita geração de altos infantes" donde sobressaem o futuro rei, D. Duarte, D. Henrique, D. Fernando e D. Pedro, o das sete partidas...
D. Duarte

Viveu 1391 - 1438

Reinou 1433 a 1438

. Filho mais velho e herdeiro de D. João I e D. Filipa de Lencastre, nasceu em 31 de Outubro de 1391. Reinou breves cinco anos mas deu continuidade à obra de seu pai e deixou o caminho preparado para o seu sucessor como prova a Lei Mental publicada pelo seu filho D. Afonso V. Deixou-nos obras literárias como "Ensinança de bem Cavalgar Toda a Sela" e "Leal Conselheiro". Ficou marcado pelo envolvimento nas desastrosas empresas de Ceuta e de Tânger, onde ficou o seu irmão D. Fernando. Aconteceu, durante o seu reinado o escândalo do Concílio de Basileia, a continuação do Cisma do Ocidente com a existência do Papa de Roma e do de Avinhão e depois, até à divisão da Igreja por três Papas...
D. Afonso V

Viveu 1432 - 1481

Reinou 1438 - 1481.

Tendo nascido em 1432, foi logo proclamado Rei com apenas seis anos e idade devido à morte prematura do pai alanceado pelo desastre de Tânger e vítima da peste endémica do Reino. Este período é marcado por uma grave crise e pela guerra civil. Esta crise é acalmada durante a regência sábia, de sete anos, de D. Pedro, em nome do rei menino, (1438 - 1445) logo é reacendida em 1446 indo culminar com o trágico desfecho da Batalha de Alfarrobeira, em 1449, onde morre o tio regente D. Pedro, pai de D. Isabel, com quem D. Pedro tinha casado... Por sua vez, estes vêm a ser pais de infanta Santa D. Joana, e de D. João II, que virá a ser o Príncipe Perfeito... Reinado desastroso de quarenta e dois anos, é salvo, pela positiva, pelo continuado trabalho do seu tio D. Henrique que continuava a saga dos Descobrimentos, e por fortuitas vitórias em África que lhe valeram o cognome de "Africano"... Deu-se, em 1453, a queda de Constantinopla e o terror da ameaça do Grão-Turco... Foi feliz na expedição a África e chegou a ser senhor de Ceuta, de Alcácer-Seguer, Arzila e Tânger o que lhe deu o direito de acrescentar ao título de "Rei de Portugal e dos Algarves", o de "D'Aquém e d'Além - Mar em África". Apesar disto, este tumultuoso reinado, é também o preâmbulo do século áureo da Cultura Portuguesa da Renascença, que se vai manifestar nos reinados de D. João II, D. Manuel, e mesmo D. João III, que haviam de produzir um Gil Vicente, Pedro Nunes, Garcia de Orta, António Ferreira, D. João de Castro, Luís de Camões...

D. João II

Viveu 1455 - 1492

Reinou 1481 a 1492. 

O Príncipe Perfeito , como ficou conhecido na história, vai dar continuidade à grande Obra de seus tios, os infantes D. Henrique e D. Pedro, desvirtuada pelos desvarios aventureiristas de seu pai D. Afonso V, a ele se deve o empenhamento de Portugal, como nação e Governo, no grandioso empreendimento dos Descobrimentos, como um projecto solidamente baseado em estudos rigorosos, escolas de investigação e registos, e em dados científicos, continuada depois na exploração sistemática, programada e rigorosamente orientada... como empresa pioneira e genial, de interesse nacional e de toda a Humanidade, na linha das grandes explorações actuais do Espaço e do Cosmos. Reinado de grandes convulsões internas, vai ser preciso dominar as ambições da Nobreza, saída da hipotética Revolução de 1383/85. Senhor de uma excepcional Cultura, inteligência e sentido de governo político, este rei, filho de primos..., tendo-se empenhado, desde os dezasseis anos, nos negócios do reino, e sobretudo no empreendimento dos Descobrimentos, que o seu pai, na sua inércia, felizmente lhe confiava..., determinou o desenvolvimento dos estudos da Geografia, Cosmografia, Astronomia e Matemática, e outras áreas de Cultura até então obscuras universalmente... Dispondo de um escol de experientes navegadores, pilotos, marinhagem, técnicos e sábios nas ciências da Geografia e arte de marear, cosmógrafos, cartógrafos, matemáticos e navegadores..., procurou, por exemplo, localizar o famoso Prestes João que, depois de grandes e impressionantes viagens, foi identificado como o Negus da Abissínia por Pêro da Covilhã que, no regresso das suas viagens, ali ficou cativo até à morte, mas só depois de ter feito chegar a D. João II todas as informações que haviam de abrir os caminhos para a Grande Viagem da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, que havia de permitir o Encontro da Humanidade na sua diversidade de Culturas, Raças e Credos...A sua escola de pajens - onde, além da educação nos serviços internos da Corte e de intenso treino desportivo de futuros cavaleiros, com equitação, manejo de armas, jogos de tavolado, caça de monte e falcoaria, incluía aprendizagem de maneiras cortesãs, música, dança, com especial interesse por estudos de cartografia, rudimentos de astronomia para navegação pelas estrelas, prática de instrumentos de bordo como astrolábios, leitura e traça de cartas e portulanos... Era nesse tempo, e parece que poderá ser nos tempos de hoje, considerada o modelo de ESCOLA inserida no âmago dos problemas do Homem do Meio, tentando responder às principais questões do seu tempo e virada para o Futuro...Lisboa era o centro vital da Europa e do Mundo Civilizado. Era pioneira da Astronomia Náutica, "Mestra" da construção naval e arte de navegar, com grande prática de tabelas e de instrumentos náuticos, trato de comércio e de convívio com povos bárbaros e exóticos - tudo isto forçado ao mais rigoroso sigilo para evitar a concorrência alheia...Mantinha contacto com sábios de todo o Mundo, e por ironia, assim foi o rei que se estabeleceu como senhor absoluto e promotor da tremenda Inquisição em Portugal...Deixou enfim, tudo preparado para a Grande Viagem, cujos louros viriam coroar o Rei Venturoso ou Afortunado ...

D. Manuel I

Viveu 1469 - 1521

Reinou 1495 a 1521

D. Manuel I Nasceu em 1469 e reinou de 1495 a 1521. (Curioso binómio de 26 mais 26 anos !). D. Manuel I, Duque de Beja, primo e cunhado de D. João II, irmão do Duque de Viseu, assassinado pelo próprio rei para pôr termo a mais uma conspiração, é considerado herdeiro do trono, por ter morrido desastrosamente, da queda de um cavalo, o príncipe D. Afonso, único filho varão de D. João II, que se casara entretanto com D. Isabel, filha dos reis católicos de Espanha, os seus adversários mais directos na saga dos Descobrimentos, sonhando a realização da unificação da Península sob o comando de Portugal, que abriria os caminhos do Mundo a descobrir... É este sonho que D. Manuel vai prosseguir, casando logo com D. Isabel, a viúva do seu primo, em 1497, que entretanto morre de parto, antes que seja conhecido o êxito retumbante da gloriosa Viagem de Vasco da Gama à Índia. Casa depois, em segundas núpcias, com a Infanta D. Maria, irmã de D. Isabel, de quem terá dez filhos, a começar pelo príncipe herdeiro que virá a ser D. João III. É o nascimento deste que vai servir de pretexto a Gil Vicente para dar a conhecer as possibilidades do seu génio como comediante e homem de Teatro... D. Manuel casou ainda, no fim da vida, com a infanta de Castela D. Leonor, de quem terá a filha D. Maria, já no ano da sua morte, em 1521. E pode ser este o resumo do reinado do Rei Venturoso ou Afortunado que, mercê das circunstâncias, pôde reinar em regime de puro absolutismo, herdando uma Nobreza dócil e temerosa, devido à intervenção dura e inflexível do Príncipe Perfeito!, e herdando todas as condições e impulsos já dados para as grandes realizações que permitiriam a grande glória do seu reinado e o fulgor deslumbrante da sua Corte... Este deslumbramento!, não terá afectado somente o rei e a sua corte, mas com certeza o povo que governava e que somos... "Pertenço a um género de portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho." Isto veio a dizer Fernando Pessoa, disfarçado de Álvaro de Campos, in Opiário, estância 27, que termina assim: "A morte é certa./ Tenho pensado nisto muitas vezes." Mas, já na estância 13, tinha dito o poeta que escrevia no Canal de Suez: "Eu acho que não vale a pena ter / Ido ao Oriente e visto a Índia e a China."; e na 14, "Por isso tomo ópio. É um remédio. / Sou um convalescente do Momento. / Moro no rés-do-chão do pensamento / E ver passar a Vida faz-me tédio." ...Será esta a leitura do Poeta da Mensagem do século XX, sobre o grande Rei Venturoso ou Afortunado e os grandes acontecimentos de Quinhentos?
 

D. João III

Viveu 1502 - 1557

reinou 1521 a 1557. 

D. João III Nasceu em 1502 e reinou de 1521 a 1557. Saudado logo a dois dias do seu nascimento por Gil Vicente com o Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, no dia 7/8 de Junho de 1502, ainda nos Paços do Castelo de Lisboa, na câmara da Rainha parturiente, perante o rei e toda a sua corte, bem podemos dizer que, com o futuro D. João III, nascia também o teatro português, como diz Hernâni Cidade e Carlos Selvagem no 6º volume da Cultura Portuguesa. Coube a este rei dar continuidade à epopeia dos Descobrimentos que vinha sendo preparada desde o início da segunda Dinastia especialmente pelos trabalhos desenvolvidos pelo Infante D. Henrique e por seu irmão o Infante D. Pedro, os da ínclita geração, mas tratava-se agora de consolidar o vasto império onde nunca o sol se punha, e pôr cobro aos desmandos da cobiça, do desgoverno e dos abusos que se cometiam longe das vistas e do poder imediato do Rei. Pode dizer-se que o império e a expansão portuguesa atingiam o seu auge, bem como a Cultura do Renascimento fazia florir os nomes e as Obras mais ilustres e, afinal, todo este esplendor, já estava minado pelo vírus da destruição. Estávamos no século em que Rabelais, logo no seu início, concebera os homens em seu triunfo olímpico, engendrando no seio das próprias deusas os super-homens que imporiam ao mundo inteiro o império da sua lei, inventando a abadia de Thélème, e em 1572, cantava Camões nos seus Lusíadas a Ilha dos Amores onde Gama e os seus Argonautas, depois de dominarem as forças da Natureza, fruíram a satisfação dos apetites nos frutos abundantes, nas cores variadas, nos encantos das Ninfas e descobriam a insaciável curiosidade da inteligência, na visão da "Máquina do Mundo - o Cosmos mostrado por Tétis em ante-Visão apontando assim o AMOR UNIVERSAL como META e solução para os problemas da Humanidade. Mal floria a Idade de Oiro, e já se viam os Sinais que a fariam murchar, denunciados por Camões, Sá de Miranda, Gil Vicente, João de Barros...  D. João de Castro... Marcam o reinado deste rei, o abandono das praças fortes do Norte de África por inúteis e dispendiosas... O estabelecimento da Inquisição em Portugal e a Vinda da Companhia de Jesus... Começa o descalabro do Império do Oriente onde tinham sido enviados Governadores e Vice-Reis íntegros e enérgicos como Vasco da Gama, Nuno da Cunha, D. João de Castro... Expande-se a Colonização em África, Angola e Moçambique e sobretudo a colonização do imenso território do Brasil desde o Recife ao Rio da Prata... Este Rei veio a morrer sem herdeiro directo, deixando como sucessor um neto de três anos: o "Desejado", D. Sebastião, que levaria o reino ao desastre de Alcácer Quibir e à perca da independência em 1580, quando Camões, na agonia, se lamentava: "Ao menos, morro com a Pátria."

 

4. - OS DESCOBRIMENTOS: Algumas datas e nomes para referências...

1394 Infante D. Henrique (5º filho de D. João I e Filipa de Lencastre. (04/03/1394 - 1460)
1411 Organiza a frota e toma parte importante na tomada de Ceuta
1419 Redescobrimento português de Porto Santo
1420 Madeira
1427 Diogo de Silves terá chegado aos Açores Ocidentais
1432 Descoberta e colonização metódica dos Açores
1434 Gil Eanes chega ao Bojador, Serra Leoa
1441 O Infante envia Antão Gonçalves ao Rio do Ouro
1443 Pode dizer-se que é incentivada a descoberta da Costa de África a Sul do Bojador, - Arguim - foz de Senegal - Rio do Ouro - Cabo Verde... Cabo dos Mastros... (com o interregno de Alfar-robeira... e intrigas da Corte...)
1448 Descoberta das Américas do Norte, Centro e Sul (prováveis)
1454 Bula de Nicolau V ao Infante "outorgando-lhe em exclusivo a posse, ocupação e apropriação de todas as terras, portos, ilhas e mares de África...
1460 Morte do Infante D. Henrique
1460? 1465? 1470 - Nascimento de Gil Vicente
1487 Bartolomeu Dias descobre a passagem do Sueste - Cabo da Boa Esperança
1494 Tratado de Tordesilhas
1495 Descoberta das Américas... já confirmadas.
1498 Cristóvão Colombo, 3ª viagem, ao Continente americano
1519 Fernão Magalhães realiza a Viagem de Circum - navegação

1536 Morte de Gil Vicente



5 - BIBLIOGRAFIA usada

Autores Títulos Ed.
SELVAGEM, Carlos e 
CIDADE, Hernâni
CULTURA PORTUGUESA Empresa Nacio-nal de Publicidade, Ed. especial patrocinada pela Di-recção - Geral da Educação Permanente, 1971, em especial os volumes: 2, 3, 4, 5 e 6, dos 18 da colecção.
REMÉDIOS, Mendes dos
(Revisão, Prefácio e notas)
 OBRAS DE GIL VICENTE, Tomo I, 1907, Tomo II, 1912, Tomo III, 1914, volumes XI, XV e XVII da Colecção Subsídios para o Estudo da História da Língua Portuguesa, Coimbra, França Amado, Editor.
QUADROS, António (Introdução, organização e biobibliografia) OBRA POÉTICA DE FERNANDO PESSOA, POESIAS DE ÁLVARO DE CAMPOS Publicações Europa América, Mem Martins, !985?, 86?
SOARES, Albano Monteiro

(Estudo, Análise, Notas, Vocabulá-rio e Questionários) FARSA DE INÊS PEREIRA DE GIL VI-CENTE

Porto Editora, Porto, 1976
SARAIVA, António José  GIL VICENTE E O FIM DO TEATRO MEDIEVAL, Livraria Bertrand, 3ª ed., 1981, com prefácio de Paris de Outubro de 1965 e cujo ensaio serviu de tese de doutoramento publicado em 1942
SARAIVA, António José (Apresentação e leitura) TEATRO DE GIL VICENTE Portugália Editora, 5ª Ed. s/d.
SARAIVA, António José  GIL VICENTE E O FIM DO TEATRO MEDIEVAL Bertrand, (1942) 3ª ed., Lisboa 1983
SARAIVA, António José A CULTURA EM PORTUGAL - teoria e História - Livro II primeira Época: A Formação edição de GRADIVA - PUBLICAÇÕES, Ldª , Março de 199
KEIL, Luís AS ASSINATURAS DE VASCO DA GAMA, UMA FALSA ASSINATURA DO NAVE-GADOR PORTUGUÊS, CRÍTICAS, COMENTÁ-RIOS E DOCUMENTOS da Academia Nacional de Belas Artes, Conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 1934.
Vários - Verbo Ed. ENCICLOPÉDIA LUSO BRASILEIRA DE CULTURA, Ed. Verbo, especialmente nos temas Descobrimentos, Infante D. Henrique...
CRUZ, Duarte Ivo INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO TEATRO PORTUGUÊS Guimarães Editores, Lisboa,1983

 

Será longa a lista de dados para perceber plenamente o CONTEXTO de um pequeno AUTO de Gil Vicente, mas não pretendem ser senão algumas pistas de LEITURA, para perceber a sua OBRA, o Renascimento, o que fomos e o que SOMOS COMO POVO.

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