GIL VICENTE
AUTO da VISITAÇÃO /
AUTO do VAQUEIRO
uma "abusiva" actualização
para a ESCOLA por José Gil Vicente da Beira

A salientar neste AUTO adaptado
NATAL NA (ESCOLA/PRAÇA)
ou a MAGIA DE TUDO RENOVAR
uma adaptação perversamente
livre do
AUTO da VISITAÇÃO
ou AUTO DO VAQUEIRO
de GIL VICENTE
com PROPOSTA para a re/criação
e várias recreações do mesmo AUTO
INTRODUÇÃO (de
500 anos depois...)
O espaço onde vai acontecer
esta representação deve ser, se possível ao
ar livre, ou num espaço suficientemente amplo onde já
esteja armado em lugar de destaque um Presépio tradicional
com as figuras tradicionais, que rapidamente se podem retirar, transformando
o dito presépio - curral de animais - onde o Menino nasceu,
numa Câmara real onde terá nascido o mui alto e excelente
Príncipe D. João, o terceiro em Portugal... ou...?
Para maior impacto de toda esta representação,
pode ser que os actores e encenadores queiram optar por fazer um
cenário mais complexo, deixando o dito Presépio, por
exemplo do lado direito; e construindo uma recriação
da possível câmara real do lado esquerdo, ficando esse
cenário e figuras, representadas por actores ou fabricadas,
desde o princípio até ao fim...
Assim, ficaria um equivalente espaço
central, entre as duas cenas de Nascimentos, - o real, que dizem
ter sido o do Nascimento do Redentor: um curral com manjedoira e
animais, mais o José, Maria e o Menino...; num tempo em que
faria frio e neve e se celebra em Dezembro, próximo do dia
mais curto do ano em Luz solar, e teria sido no ano um da nossa
Era, mas devia ter sido no ano zero!; e o outro mesmo real, uma
câmara de um palácio real, onde teria nascido o excelente
Príncipe que nos vai brindar com a Inquisição,
e aconteceu a seis de Junho de 1502, num tempo em que já
faria calor com a aproximação do Verão, a quinze
dias do maior dia com Luz solar do ano, da mesma Era! - para as
outras possíveis re/criações e re/creações!!!...
As longas tiradas do/s arauto/s... apresentador/es...
personagem/ns... como a do Gil ou da Rainha Velha, que poderiam
tornar o AUTO monótono ou cansativo..., estão ali, para, ao longo
dos ensaios, haver um permanente trabalho complementar de pesquisa
e "improvisação" para, oportunamente, à moda de Gil Vicente,
que, segundo se diz, mesmo durante o desenrolar das peças, não se
coibia de intervir a dar indicações aos actores em cena, ou "encaixar"
ali, de acordo com as circunstâncias e a inspiração de momento,
uma alteração, um entre/acto, uma intervenção dos que "estão
ali à espera" para só entrarem no final... Além do encenador,
o trabalho criativo de todo o grupo de trabalho, pode e deve resolver
este e os outros problemas... para além de ter em conta dos "erros"
ou características de muitos Autos de GV que, além de não terem
em conta o Tempo e o Espaço continuado e de o resolver em cena...
apresenta, também, como na Barca do inferno, uma acumulação sucessiva
de personagens que entram em cena, com pouca ou nenhuma interacção,
além das interpelações dos respectivos "arrais" de cada
uma das Barcas... Claro que o grupo de trabalho pode resolver estas
questões como GV as terá resolvido com "apartes" - mímicas
- entreactos... etc., mais ou menos elaborados...
Criadas pois as condições
ideais que terão levado muito tempo e muito trabalho a preparar
mas deve-se fingir de tal maneira que tudo isto parece ter aparecido
de um modo mais ou menos improvisado,
entra um arauto, que pode ser um pajem ou
um escriba, ou um cronista como Fernão Lopes, ou até
talvez um exemplar conselheiro real ou porta-voz como aparece em
quase todas as histórias que metem reis e rainhas e príncipes
e princesas ou outros presidentes que não sabem falar ou não têm
tempo para se perder em ninharias com jornalistas ou com o público
que governam..., e talvez seja conveniente ir acompanhado por uma
dama que pode ser uma aia ou confidente da rainha..., ou uma condessa
ou duquesa ou até marquesa estudiosa e letrada, o que era
uma raridade no tempo, mas com a presença de dotes que são
e foram sempre intemporais, porque sempre sedutores!!!... pode ser
um factor importante a ter em conta...
e anuncia(m):
AUTO DA VISITAÇÃO
(Introdução de 1502)
e, sem mais, lê ou lêem a introdução
do anunciado Auto no possível Português antigo que
nos resta para dar a ideia que é feita pelo próprio
Gil Vicente.
"Porquanto a obra de devação
seguinte procedeu de hua visitação, que o autor fez
ao parto da muito esclarecida Rainha Dona Maria, e nascimento do
muito alto e excelente Principe Dom João, o terceiro em Portugal
deste nome; se põe aqui primeiramente a dita Visitação,
por ser a primeira coisa, que o autor fez, e que em Portugal se
representou, estando o mui poderoso Rei Dom Manoel, e a Rainha (...)
D. Beatriz sua mãe, e a Senhora Duquesa de Bragança,
sua filha, na segunda noite do nascimento do dito Senhor. E estando
esta companhia assim junta, entrou um vaqueiro, dizendo:"
(In Obras de Gil Vicente, com revisão prefácio e notas
de Mendes dos Remédios, Tomo Terceiro, França Amado
- Editor, Coimbra, 1914.)
Esta é a introdução
que aparece como introdução a este Auto de Gil Vicente.
Quem a fez? O autor, ou o seu filho Luís que depois da sua
morte tratou de editar as suas obras, já só em 1562, vinte e tal
anos depois da morte do pai e já com os esbirros da Inquisição
a tentarem impedi-la, não fosse a intervenção
da já viúva do senhor D. João III!? Que erros
tem? Porque chama Rainha à mãe de D. Manuel que nunca
teve esse título? É por isso que nos atrevemos a tirar
as aspas e apresentar de novo a mesma INTRODUÇÃO já
com emendas permitidas pelas obras consultadas e estudos feitos.
Porquanto a obra de devação
seguinte procedeu de hua visitação, que o autor fez
ao parto da muito esclarecida Rainha Dona Maria (a segunda esposa
do Rei D. Manuel), e nascimento do muito alto e excelente Principe
Dom João, o terceiro em Portugal deste nome; se põe
aqui primeiramente a dita Visitação, por ser a primeira
coisa, que o autor fez, e que em Portugal se representou, estando
o mui poderoso Rei Dom Manoel, e a Rainha (que seria D. Leonor a
rainha velha, viúva de D. João II, o Príncipe
Perfeito, e a Infanta) D. Beatriz sua mãe, e a Senhora Duquesa
de Bragança, sua filha, na segunda noite do nascimento do
dito Senhor. E estando esta companhia assim junta, entrou um vaqueiro,
dizendo:
Feitas estas pequenas mas subversivas alterações,
o vaqueiro não entra, que nós não deixamos,
e faltam ainda outras APRESENTAÇÕES.
Apresentado o cenário em que terá
acontecido este Auto da Visitação para celebrar o
nascimento do muito alto e excelente Príncipe Dom João,
falta-nos apresentar o cenário onde terá nascido o
Redentor da Humanidade.
O nascimento de Jesus, S. Lucas, 2, 8 e
pode ir até 20 com os anjos e pastores).
"E aconteceu, naqueles dias,
que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todas
as pessoas se recenseassem.
(Este primeiro recenseamento foi feito sendo Cirénio presidente
da Síria.)
E todos iam recensear-se, cada um à sua própria cidade.
E subiu, também, José da Galileia, da cidade de Nazaré,
à Judeia, à cidade de David, chamada Belém
(porque era da casa de David),
A fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
E aconteceu que, estando ali, se cumpriram os dias em que ela havia
de dar à luz.
E deu à luz o seu filho primogénito, e envolveu-o
em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lu-gar
para eles na estalagem."
Estão feitas as APRESENTAÇÕES
dos NATAIS que aconteceram no passado. Um que terá acontecido
em seis de Junho de 1502; e o outro que, por não se saber,
se celebra no noite de 24 para 25 de Dezembro dum suposto ano UM.
E a APRESENTAÇÃO para a nossa
REPRESENTAÇÃO?
Em finais do século XX ou já
no limiar ou em pleno século XXI, no NATAL deste ano, no
país ou na cidade ou na vila ou aldeia ou bairro ou escola
ou zona em que vivemos... é possível supor várias
situações, tal como Mestre Gil faria, se se visse
na emergência de preparar cuidadosamente um brilhante improviso
para fazer uma representação... para se divertir...
divertir... criticar... e pôr a pensar... tão ilustre
Assembleia... como é esta corte aqui reunida.
(De repente, à última hora,
tudo, cenários e figurantes, e tudo o que eles simbolizam,
pode mudar subitamente, e deixar campo livre para a criatividade
e improvisação!!!. Podem também manter-se os
dois cenários fixos, e aproveitar o espaço livre,
central para a recriação ou para a recreação.
Para os "artistas" que representam e para os "artistas"
que ouvem, assistem ou participam..., fica um vasto campo para o
sonho, para a fantasia e para a arte.)
(Entra finalmente um ARAUTO que já
não é o apresentador e vai ter o encargo de apresentar
estas e outras representações e ANUNCIA:)
(Saudação à Plateia)
Senhoras e senhores!
Meninos e Meninas!
... ... ...
Alunos e professores!
Assessores e funcionários
E outros auxiliares!
Ilustres autoridades!
Visitas e convidados!
Senhores espectadores
e presentes nesta sala...
Tenho eu grande prazer
E grande honra também
De poder anunciar
Que o cenário vai mudar
Nada mudando afinal
Daquilo que estão a ver!...
(Deve dar algum tempo para que se interiorize
o ESPANTO geral que se gerou na sala e se façam ou não algumas mudanças
e... solenemente anuncia:)
É que agora vai entrar
Perante o espanto geral
Que ora deve acontecer
Em cada um que nos vê
E nos ouve, está bem claro,
Um tal Mestre Gil Vicente
Que na Era de Quinhentos
Se atreveu a Apresentar
Lá no palácio real
Onde paria a Rainha
Uma Comédia mui séria
Que a todos fazia rir...
E transformava os Senhores,
Reis, Rainhas e Infantes,
Infantas e Servidores,
em personagens de Drama,
De Tragédia, de Teatro...
Para que ao verem-se em cena
Se rissem dos próprios actos
Que vão vivendo na vida...
E rindo de si e dos outros
Depois se vão transformar
De acordo com os princípios
E os valores que defendiam
Ou descobrem
Quando falam e discursam
Mas logo deles se esquecem
Quando agem e decidem...
Assim, Senhoras, Senhores
E todos os espectadores...,
O Menino que ali vedes
Não é Jesus, nem João...
O que vai ser o terceiro
Desse nome em Portugal
Lá para ano vinte e um
Do século décimo sexto
É Manuel ou Malaquias
Ou é José ou António
Duma Era de Quinhentos
A Regressar ao Futuro
Desta Era que vivemos...
Nossa Senhora é Maria.
Também o é a Rainha
A esposa já segunda
Do grande Rei Venturoso,
Como todas as Marias
Mesmo sem ter esse nome...
S. José é D. Manuel
Ou outro nome qualquer
Como o Rei afortunado
Que reinou em Portugal
Naquele tempo cobiçado
Em que ouro era a granel...
Depois, no resto dos quadros,
Com anjos reis e pastores
E Infantas e Duquesas
E com burros e vaquinhas
E ovelhas e carneiros
Podeis ver os figurantes
Do teatro que é a vida
Desse tempo e deste tempo...
Podem aparecer Camões,
João/ões de Barros, Albuquerques,
D. Teresa/s; e Urraca/s
D. Inês/es, Isabel/eis
ou outros nomes que tais...
Sá/s de Miranda, os Cabrais,
Vasco/s da Gama, D. Pedro/s,
Os Infante/s D. Henrique,...
E até o/s Desejado/s
D. Sebastião - Encoberto
Que vai aparecer prazenteiro
Num dia de nevoeiro!!!
Mas para quê buscar figuras
De passado tão distante?
Podeis ali ver sentados
Ou de pé em pose erecta
No espaço de sobejo
Deste palco que é a vida
E a infinda imaginação
As figuras do presente
Que governam o País
A Escola ou a Cidade
A Vila ou a Freguesia.
Homens, mulheres e crianças
Rodando a roda da vida
Em constante corrupio...
Ou virando o bico ao prego
O palco passa para aí
Onde está a assistência
E, por arte ou por magia,
Os actores deixam de o ser
E todos aqui presentes
São os actores a viver
As suas vidas de sempre
Vulgares e habituais
Com mil mentiras e truques
E gestos lassos, banais...
E assim vamos à cena...
À cena, à cena, Senhores
Entrem em cena os actores
Anunciem-se os autores
Que o Auto vai começar
Com a cena mais banal
Que acontece afinal
Aos milhares, todos os dias
Em toda a roda do Mundo...
Uma mulher vai ser mãe
Dar à luz uma criança
Que ao dar o primeiro grito
Um vagido intraduzível
Tem pela frente uma vida
Onde cabe toda a esperança...
É o momento, senhoras,
Senhores e espectadores
De aparecer Gil Vicente
O próprio, em carne e osso...
Não se deixem enganar
Pelos disfarces que traz
Seja Homem ou Mulher
Pois a arte do Teatro
É fazer o que lhe apraz
Com quem e quando quiser...
Vem agora disfarçado
De Pastor ou de Vaqueiro
Entrando qual furacão
Pelas portas do Palácio
D'El-Rei Manuel, o primeiro
Que olhava o seu herdeiro
Acabado de nascer
E em breve viria a ser
Em Portugal o terceiro
Com esse nome João...
E entrando aos tropeções
Temperados com uns palavrões
Com empurrões e punhadas
Entre dadas e levadas
Logo fica deslumbrado
Quando o deixam descansado
Por ser louco sem conserto
Olhando tanta riqueza,
Tanta beleza afinal...
Como pode viver bem
A Nobreza em Portugal...
Aí está.
Entra o VAQUEIRO...
Não se deixem enganar
Minhas senhoras, senhores
com este falar estranho
pois ele fala castelhano
uma língua vicentina
de raiz também latina
um português mal falado
que não há em nenhum lado:
AUTO DA (VISITAÇÃO
- 7 de Junho de 1502
Pardiez! siete arrepelones
Me pegaron á la entrada,
Mas yo di una puñada
Á uno de los rascones.
Empero, si yo tal supiera,
No viniera,
Y si viniera, no entrára,
Y si entrára, yo mirára
De manera,
Que ninguno no me diera.
Mas andar, lo hecho, es hecho:
Pero todo bien mirado,
Ya que entré, neste abrigado,
Todo me sale en provecho.
Rehuélgome en ver estas cosas,
Tan hermosas,
Que está hombre bobo en vellas:
Véolas yo; pero ellas,
De lustrosas,
A nosotros son dañosas.
(Falla à Rainha)
Si es aqui adonde vo?
Dios mantenga si es aqui:
Que yo no sé parte de mi,
Ni deslindo donde estó.
Nunca vi cabaña tal,
En especial
Tan notable de memoria:
Esta debe ser la gloria
Principal
Del paraiso terrenal.
Ó que sea, o que no sea,
Quiero decir á que vengo,
No diga que me detengo
Nuestro consejo e aldea.
Enviame á saber acá,
Si es verdá
Que parió Vuestra Nobreza?
Mi fé si; que Vuestra Alteza
Tal está,
Que señal dello me dá.
Muy alegre y placentera,
Muy ufana y esclarecida,
Muy prehecha y muy lucida,
Mas mucho que dantes era.
Oh qué bien tan principal,
Universal!
Nunca tal placer se vió!
Mi fe, saltar quiero yo.
He, zagal!
Digo, dice, salté mal?
Quien quieres que no reviente
De placer y gasajado!
De todos tan deseado
Este príncipe excelente
Oh qué Rey tiene de ser
A mi ver
Debiamos pegar gritos:
Digo que nuestros cabritos
Dende ayer
E no curan de pacer.
Todo el ganado retoza,
Toda laceria se quita;
Com esta nueva bendita
Todo el mundo se alboroza.
Oh que alegria tamaña!
La montaña
Y los prados florecieron,
Porque ahora se complieron
En esta misma cabaña
Todas las glorias de España.
Qué gran placer sentirá
La gran corte castellana!
Cuan alegre e cuan ufana
Que vuestra madre estará,
Y todo el reino à monton!
Con razon.
Que de tal rey procedió
El mas noble que nació:
Su pendon
No tiene comparacion.
Qué padre, qué hijo
y qué madre!
Oh qué aguela y qué aguelos!
Bendito Dios de los cielos,
Que le dió tal madre y padre!
Qué tias, que yo me espanto!
Viva el príncipe logrado!
Quel es bien aparentado!
Juri á Sanjunco santo.
Si me ora vagára espacio,
Y de prisa no veniera,
Juri á nos que yo os diera
Cuenta de su generacio.
Será rey don Juan tercero,
Y herdero
De la fama que dejaron
En el tiempo que reinaron,
El segundo y el primero,
Y aun los outros que passaron.
Quedáronme allí detras
Unos treinta compañeros,
Porquerizos y vaqueros,
Y aun creo que son mas;
Y traen para el nacido
Esclarecido
Mil huevos y leche aosadas,
Y un ciento de quesadas;
Y han traido
Quesos, miel, lo que han podido.
Quiérolos ir à llamar:
Mas segun yo vi las señas,
Hanles de mesar las greñas
Los rascones al entrar.
Entrárão certas figuras
de pastores e offerecérão ao Principe os ditos presentes.
E por ser cousa nova em Portugal, gostou tanto a Rainha velha desta
representação, que pedio ao autor que isto mesmo lhe
representasse ás matinas do Natal, endereçado ao nacimento
do Redemptor; e porque a substancia era mui desviada, em lugar disto
fez a seguinte obra. ...
(FIM DO AUTO COMPLETO como consta na Edição
das OBRAS DE GIL VICENTE com revisão, prefácio e notas
de Mendes dos Remédios - TOMO TERCEIRO - COIMBRA - FRANÇA
AMADO - EDITOR - 1914.)
Apresentador/es:
E a seguinte obra foi esta que logo
a seguir vem esboçada para que conste que é do conhecimento
da ilustre assembleia e dos ilustres actores...
Auto
Pastoril Castelhano
endereçado ás Matinas do Natal
O AUTO PASTORIL CASTELHANO é um auto
em que entra um certo Gil, um pastor inclinado à vida contemplativa
e anda sempre solitário... logo aparece outro, o Braz, que
o repreende disso... Aparecendo de seguida o Lucas, o Silvestre,
o Gregório e o Mateus...
Não o vamos introduzir aqui... porque já chega de
transcrever Gil Vicente.
Vamos usá-lo só em mímica para ser percebido
só por quem já o conhece e despertar interesse aos
que o não conhecem para o virem a ler...
Trata-se agora de dar uma devida encenação
a esta parte final do AUTO DA VISITAÇÃO que, em vez
de apontar para um final desinteressante e confuso, com desfiles
e pequenas representações e declamações
mais ou menos bem improvisadas, será, terá de ser,
um primeiro ponto culminante num gráfico que está
ainda em crescendo.
Trata-se, portanto, fundamentalmente, de
conseguir organizar o caos, a confusão, o movimento delirante
em perfeita sintonia com o Cosmos que gera a vida, a estabilidade
e a perpétua renovação no ciclo permanente
patente nas estações e na sucessão sempre renovada
do dia e da noite e da morte e da VIDA.
Assim, ao mesmo tempo que começa
um desfile, estilo procissão, cortejo de homenagem, que se
encaminha e desfila perante o futuro Rei D. João III e a
família real; e em que tudo é possível, a variedade
de presentes, o seu simbolismo, a dança, a mímica
o canto, representações e declamações
individuais e em grupos, uns grandes, outros pequenos...
...paralelamente, e com muitos dos mesmos personagens que já
desfilaram e vão desfilar perante o Rei, passam-se cenas
semelhantes ou diametralmente opostas do outro lado do Presépio
propriamente dito diante do Deus Menino.
Estudar os presentes, o seu simbolismo e
representatividade; e que podem ser tudo, de animais a objectos
a gestos e formas simbólicas..., preparar quem e a forma
como são levados e apresentados... será todo um trabalho
colectivo de um grupo coeso e dinâmico que tem de estar em
sintonia com o seu meio social, com o ambiente e com as preocupações
dominantes de toda uma região e duma geração...
É o momento do espectáculo
global. Se possível, os actores e grupos de actores, hão-de
descobrir a forma de fazer passar toda a assistência diante
dos dois recém-nascidos que nascem, um em Belém de
Lisboa (que foi no Paço da Alcáçova), outro
em Belém de Judá no Oriente...
Ainda durante este desfile, ao mesmo tempo,
e depois de terem desfilado provavelmente pelos dois presépios,
no espaço central, mas sem o ocuparem, e mais inclinados
para o lado do Presépio que é curral de animais, em
Belém de Judá, vai-se organizando o grupo que terá
representado, no Natal de 1502 o Auto Pastoril Castelhano.
À boca da cena, senta-se o pastor sonhador, o Gil, "inclinado
à vida contemplativa", que sucessivamente e simultaneamente
vai sendo rodeado pelos restantes personagens do Auto: o Braz, o
Lucas, o Silvestre, o Gregório e o Mateus...
Representam só através de mímica. Embora só
o possa entender bem quem o conhece, será importante fazer
passar o essencial para todos perceberem um pouco o Auto Pastoril
Castelhano.
Para que tudo isto entre numa dinâmica
de apoteose contida e ainda em crescendo, toda esta sucessão
de cenas, quadros e desfiles e representações simultâneas,
terão como suporte, um, dois ou três Grupos Corais
- Orquestra, que vão, uns após outros, cantando os
Cânticos de Natal mais tradicionais, religiosos, profanos
e em várias línguas..., alguns dos quais aparecem
em anexo no final deste trabalho.
À medida que o palco se vai esvaziando,
pois as pessoas regressam aos seus lugares, porque o espectáculo
vai continuar, ou recomeçar..., os cânticos vão
cedendo lugar à música de fundo, e por sua vez, vai
também chegando ao fim a simulação do Auto
Pastoril Castelhano mimado pelos seis pastores...
Nesta altura, dum lado e doutro, sobretudo
do lado de Belém Ocidental, aparece o Rei D. Manuel a cumprimentar
e a felicitar o Mestre Gil Vicente que é Vaqueiro, e a sua
esposa que confia o menino a uma ama, e a Duquesa de Bragança...
José e Maria, vão timidamente esboçar uns breves
agradecimentos ao autor e aos intervenientes... e ao público.
Tudo isto é, evidentemente, sempre muito aplaudido pelo público,
mesmo que se tenham de fazer cartazes para saberem o quê e
quando o devem fazer...!!! (Talvez seja importante avisar insistentemente
que deve rir e rir bastante...)
Assim a pouco e pouco, vão saindo
todos, e no espaço Central, que nesse momento já está
praticamente livre, aparece muito solene e digna a "Rainha
Velha" a falar com Gil Vicente..., e embora o público
ainda não tenha percebido bem o que se passa, pois pensa
que vai, como os outros, receber os aplausos do público,
A "Rainha Velha" pede com um gesto o silêncio e
a atenção do respeitável público, pois
a sua ida ali é:
- Para felicitar o Sr. Gil Vicente por isto
"ser cousa nova em Portugal..." e a desafiá-lo
para novas aventuras...
Fala a Rainha Velha, D.
Leonor:
Senhor, Mestre Gil Vicente,
Ainda que de Vaqueiro
Disfarçado se apresente
e represente
Este auto Genial
Cousa nova em Portugal...
Eu, a viúva d'El-Rey,
Que foi o Príncipe Perfeito
E teve o nome João
O Segundo em Portugal...
Como avó deste Menino
Que vai ser João Terceiro
Que não neto verdadeiro
Porque o nosso filho herdeiro
Tragicamente morreu
Escolhendo como filho
D. Manuel o Venturoso
Que o sonho realizou
De chegar ao Oriente
E é pai deste meu neto
que o não é como se sabe...
Eu, a "Velha Rainha"
Como o povo me nomeia,
Estou aqui para dizer
Em seu nome e no do Povo
E em meu nome para valer,
Que o que está a acontecer,
Neste espaço, neste tempo
É qualquer coisa de novo
Nunca vista em Portugal...
E tem de ter, é fatal,
Ressonância universal!
Senhor Mestre Gil Vicente,
Não acha, que este Auto,
Aqui, ora, apresentado,
Fica um tanto deslocado
Diria: é mal empregado
Ou talvez exagerado
Perder tempo a alimentar
Os anseios e esperanças
De um povo que já viveu
Os mil sonhos que sonhou...???
Já chegou ao Oriente
A Índia, já conquistou...
Já chegou a Ocidente
E as Américas tomou...
Vir aqui, para exigir
Desta criança nascida
Que vá 'inda mais Além
Do que já foi este povo
Pela mão e por vontade
"D'El-Rei D. João Segundo"
Para Além do "Mar sem fundo"?..
E já foi até à Índia
Pelo sonho e pelo mando
D'El-Rei, Senhor D. Manuel I?!!!
Não será exigir muito?
Não será o querer demais?
Senhor Mestre, Gil Vicente,
Ouça bem o meu conselho
De sábia "Velha Rainha"
Que mui sofreu e viveu...
Não esbanje o seu talento
Em apostas sem futuro
Pedindo a este menino
Acabado de nascer
Que faça todos os sonhos
Que um Povo tem para viver...
Isto aqui realizado
Cheio de esperança ideal
De um povo pequeno e só
que se lançou para o Mar...
Faça-o, sou eu que peço,
P'rás Matinas do Natal
Endereçado ao nascimento
Do Divino Redentor
Que veio para salvar
Os Povos de todo o Mundo
Fazendo deles um só Povo
A abarcar o Cosmo todo...
Fala então o Mestre
Gil, disfarçado de Vaqueiro:
Isso que pedis, Senhora
É tarefa de tal monta
Que não posso, por meu mal,
Dar a resposta cabal...
Para fazer este Auto
Eu fui buscar o teatro
que o Povo sabe fazer...
Mas depois do que eu já fiz
E a Arte sabe fazer
Com ciência e inteligência
Prudência e ponderação...
Uma Obra dessa Arte
A buscar a solução
Para os novos problemas
De toda uma geração...
"Que depois de achar a Índia
ficou assim deslumbrado,
pasmado e desempregado
sem nada o que fazer!!!"
Para arriscar tal empresa?!!!
Só se o Povo a encontrar
Com todo o seu "Cabedal"
E experiência acumulada
De novo reanimada
Com a força do Futuro
Que medra na Juventude...
Isso que estais a pedir
De repetir este Auto
Nas Matinas do Natal
No final deste Milénio
O segundo Universal
Que anuncia o terceiro
A começar em dois mil e um...
... no começo do milénio
o terceiro universal...
Isso que estais a pedir
Não é a mim, ó Senhora,
Rainha de Portugal
Que me o deveis pedir...
Essa loucura Utopia
Deveis pedi-la, Senhora,
Aos jovens de Portugal
Aos jovens de todo o Mundo...
Aos que estão nesta sala
E a todos que por eles
Vão ouvir esta mensagem...
Aquilo que fui capaz
De inventar para o Natal
Que Vossa Alteza pediu
Já o vistes ali mimado
Por aquele Gil sonhador
E seus amigos pastores...
O que agora me pedis
Não é já da minha arte
Não vos posso responder...
Talvez a Arte, que é Arte
Tenha a resposta devida...
Dirigi as vossas falas
Para o Povo desta sala
E p'rós outros que não estão...
Esses vos responderão...
(Sai Gil Vicente e a Rainha pelas portas
do fundo que não têm mais o que fazer e dizer e entra
(os ARAUTOS) o arauto e a sua companheira para
que a Festa continue...)
"Meus amigos,
É esta a questão:
Quereis ficar aí à espera
Que venha o rei ou governo
A dizer-vos que fazer?!!!
Ou que venha o "Encoberto
num dia de nevoeiro"
trazer-vos a salvação?!!!
Quereis eleger deputados
Que vos dêem solução
Daquilo que pretendeis...
Ou vamos nós procurá-la
E dar a resolução
Àquilo que nos aflige...
Procurar a Liberdade
A possível Igualdade
A irmã Fraternidade
A simples Felicidade...?
A possível nesta vida?!!!
Vamos então à função...
Já temos erros que cheguem
de génios e salvadores
que ora se enganam no verbo
"Penso, logo existo..."
Ora: existo, logo penso...
ou então o erro é outro
e trocaram o pronome:
...uni-vos
em vez de unidos...
Dizer: vós, em vez de nós
É um erro muito caro
que fez perder gerações!!!
Ali, no mesmo lugar
em vez daqueles personagens
que lá estavam e não estão
podeis agora ver outros
com a luz da imaginação...
Está vazio o palco, agora,
para que nele caiba tudo
o que quisermos...
"A vida toda é teatro
onde nós representamos
cada um o seu papel..."
O palco não é ali!...
É aí na assistência!!!...
Não. Isso não é verdade...
O palco é fora, na rua,
na escola, no trabalho,
no emprego, em nossa casa...
no trabalho e no descanso
em férias e fora delas...
Vamos ali pôr então
para rir e pr'a chorar
aqueles que mais estimulam
a nossa imaginação...
Aqueles que até aparecem
em sonhos e pesadelos
e ao vermos televisão
quer os queiramos ou não...
São presidentes, ministros,
deputados, secretários...
o nosso da Educação...
O Conselho Directivo...
ou então o da Gestão...
Alunos e professores...
Enfim:
O NOSSO RETRATO
POSTO ALI NO TEATRO
para aprendermos no palco
a pisar forte na VIDA...
Então, depois de se decidir enfim,
se o palco fica vazio ou fica cheio... E se fica cheio, com quem
ou/e com o quê... podem então seguir-se uma ou várias
representações, mais ou menos glosando o Monólogo
do Vaqueiro, adaptado às mais diversas circunstâncias,
com maior ou menor oportunidade...
Vamos criticar a Escola? Vamos personalizar
mais ou menos? Vamos criticar a Actualidade recente?...
A título de sugestão, fica aqui
um registo para que o improviso possa parecer mesmo a sério...
Entra então um personagem que pode
ser um estudante ou um professor ou uma professora, ou uma funcionária
ou funcionário da escola, ou até um convidado ou convidada,
conforme o resultado do concurso que tinha sido lançado uns
meses antes para representar este papel e os anteriores...
E pode até ir destrajado de Gil Vicente
que ia destrajado de Vaqueiro... ou daquilo que a fantasia e as
circunstâncias indicarem... um pode ir tal e qual costuma
andar na vida real, porque afinal, na vida real é que a maior
parte das pessoas anda mascarado... então, para sermos diferentes
e chamar a atenção, vamos ali representar parecendo
que andamos na vida real...
Chega ao palco depois de ter atravessado
toda a plateia aos tropeções, com empurrões
de um e outro lado... e as intervenções e interjeições
inerentes a tão difícil quão arrojada tarefa...
barafustando..., implicando..., respondendo..., defendendo-se...,
interpelando..., e, sempre... sempre... saudando e cumprimentando
e agradecendo à respeitável assembleia, sobretudo
se é das assembleias que estão habituadas a pagar
e têm com o quê...
... e, mesmo de papel na mão, se
não teve tempo de o decorar, diz:
(Entra Gil Vicente Actual)
Eu vim aqui, a mandado
de meu senhor, Mestre Gil,
de Vicente apelidado,
que não pôde vir, coitado!,
porque ficou sem ceitil...
e já esticou o pernil
vai para uns quinhentos anos!
e jaz p'rali sepultado
esquecido e desprezado
na cripta de S. Francisco
em Évora que é cidade
Património Universal!!!
De pedras e de muralhas
De templos e catedrais
Pois as gentes!? pouco importam...
Passam... Desaparecem...
Esse senhor, Mestre Gil,
Mandou-me certo recado
De saber, de perguntar,
- Quem pergunta não ofende! -
De saber se ainda havia
Por aqui algum dobrado
Desses que vinham da Índia
Ou das costas do Brasil?!!!
- 'Stá visto. É só penúria?!
-
Disse-me ele meio a rir!
- Agora, quem faz teatro
Não é querido da rainha,
Nem de reis nem de ministros...
Pró fazer tem de pagar
E no fim, a agradecer,
Leva dois chutos no cu
E uma sapatada...
Bem feita que é para aprender
A não meter o nariz
Aonde não é chamado!!!
- Mas não era encomendado?
- Era.
A peça.
Não a cabeça.
... e tentando depois decalcar, mais ou
menos o AUTO muito bem "improvisado" por Gil Vicente,
na câmara da mui alta e nobre rainha D. Maria, no dia sete/oito
de Junho de mil quinhentos e dois, dois dias após o nascimento
do mui alto nobre e excelente príncipe dom João que
havia de ser o terceiro desse nome em Portugal, e que, para nossa
salvação e redenção, nos havia de trazer
a Santa Inquisição...
(Tradução livre do AUTO)
Por Deus! Ó gente estimada,
Levei ali à entrada
Uns dez ou doze encontrões
Daqueles que são guardiões
De vossas altas senhorias...
Mas eu dei uma punhada
A um desses figurões
Fanfarrões
Que os outros debandaram
e andam por aí aos sacões
Pelos salões
À procura dos chefões...
A gritar:
- Ó da guarda!... Aqui ladrões!...
Oh! mas se eu soubesse
Que só a minha presença
Tanto engodo vos causava
Eu não entrara
Nem tal coisa pela cabeça
Me passara...
E se passasse e viesse
E prevenido viesse
Eu havia de arranjar
Depois de muito bem olhar
A maneira de passar
Por í dentro sem parar
De vagar, discretamente,
Sem que ninguém me topasse
ou arriasse...
Mas vamos. O feito é feito
E vendo bem o que vejo
Desde que entrei nesta sala
Toda vestida de gala
Vejo-me só rodeado
De figuras de alto a'preço
Tanto que eu nem mereço
Pisar sequer a entrada!!!
Ver tantas damas formosas
Tantos Doutores e Doutoras
Tanto Mestre doutorado
Em Ciência.. Educação...
Economia... Finanças...
Engenharia... Direito...
Tão grande Sabedoria...
Tanto saber ilustrado
Iluminado!!!
Fica tonto o coração...
E, ao ver tanto canudo
Fico até a pensar
Só, cá para os meus botões
Se estamos no Natal
Ou se me terei enganado
E estamos no Entrudo
Ou se terá chegado o Verão
Ou só estamos no Outono?!
(E dirigindo-se à nobre Assembleia
ou ao seu representante maior:...)
Será aqui o lugar?
Será isto que eu procuro?
Serão as pessoas certas
Para eu representar
O papel que encomendaram?
OH! Valha-me a Virgem Santa!
Que eu não tenho mão em mim
Nem sei o que hei-de dizer!
É verdade!!!
Nunca vi (Escola) uma SALA igual!
Parece uma catedral
A maior que eu já vi
Nos reinos de Portugal
E nos mundos que corri!
Mas,
Quer seja, quer não seja
Quero dizer ao que venho
Não digam que esqueci
O recado que trazia...
Valha-me Santa Maria!
Querem ver que se varreu
Da cabeça aquele recado
Que as gentes lá do meu bairro
Da rua e da freguesia
Do concelho e da cidade...
E até da minha aldeia...
... ... ...
Com tanta força e empenho
Me encarregaram de dar
A tão ilustre Assembleia!?
Varreu-se-me da ideia!??
Não.
A incumbência que tenho
Das gentes da minha aldeia
É de ver com estes dois
Com os olhos da cara e da mente
Com toda a arte e engenho
Sé é verdade ou é mentira
O que se diz por aí...
E o que dizem? Dizem tal...
Dizem bem... E dizem mal...
Dizem com grande mistério
Que agora o ministério
Chamado de Educação
(ou outro... que tal...)
Vai trazer a solução
Que vai salvar Portugal
Do atraso universal
Que é sua sina e condão
Desde que foi ao Ceilão
Para a Índia descobrir...
E já estava descoberta...
E como era grande e rica!
Duma cultura infinita...
Desde então, e por má sina
Diz o poeta engenheiro
Que disse que aprendia
Com o poeta pastor
- O Guardador de rebanhos -
Que descoberto esse atalho
Do ouro e das riquezas
Muitos de nós portugueses
Ficámos sem ter trabalho
De puxar pela cabeça!
Vivemos dos rendimentos
E dos melhores sentimentos...
Somos povo de poetas
Que sem "o" ficam só petas!!!
Mas vejo que me enganei...
Ao ver tudo isto aqui
Parece que estou a entrar
No Olimpo terreal
Tão real
Que nem um palácio real.
São salas e são salões
Laboratórios, balcões,
Pavilhões
Para correr e saltar
E cantos para aprender
De tudo um pouco e do muito
E muito de algum pouco
Para fazer especialistas
Do presente e do futuro...
Que vejo eu afinal?
Uma Escola tão sabida
(Uma assembleia sabida...)
Tão sábia e instruída
Tão dotada e tão feliz
Que quem entra logo diz:
- Isto é gente esclarecida
Da mais culta e erudita
Do país...
Nunca tal aconteceu
Desde que o mundo apareceu
E, por isso
Cantemos louvores ao céus!
Graças a Deus!!!
Vamos cantar e bailar
Que apareceu a céu aberto
Em dia de nevoeiro
Aquele que estava encoberto
E já se chamou Roberto
E até Veiga Simão
E já se chamou Cardia
E depois passou a Grilo...
Até a Ferreira Leite...
... ... ...
Ou outro nome de bicho
E veio p'ra nos salvar
Da ignorância ancestral
Proverbial
Que é vista por um canudo
Muita vez sem conteúdo!!!
Mas agora que é chegado
O que foi mais desejado
Em Portugal
Vamos dormir descansados
E sonhar mesmo acordados
Vivendo como nababos.
Vamos lá ver se é quem é
Este príncipe excelente.
Vamos lá ver se sabemos
Quem somos e o que somos...
Que valemos?
Vamos lá ver se é verdade
Ou não passa de mentira
O sucesso apregoado
E mostrado ao Universo
E à UE.
Vamos lá fazer a prova
Se o Sistema Escolar
Funciona como o Solar
Com o Sol que lhe dá vida
Sempre, sempre em movimento
Com raízes no passado
E os olhos sempre em frente
Como um Regresso ao Futuro
A assumir tudo o que somos
Para sermos o que queremos...
É tempo de festejar
O sucesso que já temos
E mostrar que já sabemos
Dançar, cantar e saltar...
Pois nós vamos descobrir
E mostrar
Ao mundo que está p'ra vir
Que pode viver, sorrir
E achar
Tudo o que há para encontrar
E usar
Tudo o que nos é devido...
É uma festa tão gira
Que toda a terra se agita
E a Natureza grita
De prazer e alegria...
Até, no campo, os cabritos
Saltam pulam e dão gritos
E deixaram de comer...
O feito é de tal monta
Que os zagais ficam aflitos
E prudentes
Põem alerta os sentidos.
Pois que nova será esta?
Que terá acontecido
Pois é bem certo e sabido
Que todos estão em Festa.
A alegria é tamanha
Que as montanhas
e os prados floresceram...
Pois aqui aconteceram
Tais façanhas
Que todos emudeceram...
Que prazer não vão sentir
Todos quantos isto virem
E ouvirem
E a mudança sentirem
Do passado p'ró provir...
Salta alegre o coração
Com razão
Pois nasceu de novo a esperança
De vivermos a mudança
Com segurança
Que dá vida à toda a Vida.
Que pais! Que filhos! Que mães!
Que avôs! Que avós! E que netos!
Que professores! Professoras!
Que ministros! Secretários!
...
Que instalações e espaços!
...
Tudo isto é um espanto
Que não cabe neste canto!
Quem há aí que não cante
Esta mudança que vem
Transformar a nossa vida
Em Alegria!
É hora de encantamento
Celebrar este momento
Que vem aí, quem diria
Encher (nos) de contentamento!
Se agora tivesse tempo
E vós paciência de ouvir
Tudo o que está para vir
Nas asas do pensamento
Desta mudança a devir...
Eu nunca mais acabava
E deixava
De contar o já sabido
Acontecido
E sonhava
Transformar o Mundo Antigo
Livrando-o de todo o mal
Com que nos pode chagar.
Um Mundo nunca sonhado
Sem muros e sem fronteiras
Onde caíssem barreiras
De tudo o que impede o sonho
De voar, realizar...
O mundo com tirania
Onde reina a hipocrisia
A prepotência, arrogância
O atraso, a ignorância
Bania-o para bem longe
Para ficar à distância
Como da noite p'ró dia...
Eu daria
Fim a toda a intolerância!
E como sinal de esperança
Desses tempos que hão-de vir
E nós vamos descobrir
E com as mãos construir...
Vamos fazer uma dança
Numa roda sem findar
E cantar
De mão na mão
Olhos nos olhos
As canções mais inspiradas
Do Natal
E do nosso cancioneiro
P'ra dizer ao Mundo inteiro:
Somos nós os construtores
Do Mundo que há-de vir...
E então, p'ra começar,
P'ra tudo ser a preceito
E de tudo ter proveito
Mandemos agora entrar
Os meus trinta companheiros...
Serão talvez inda mais...
Os padeiros
Os futuros engenheiros
E doutores
E também os lavradores
Que hão-de cuidar a terra
Com amor e com carinho
Técnicos, comerciantes
Pais e mães, jovens amantes
Que constróem o futuro...
Estes serão os primeiros
Que aqui vão apresentar
E a dançar
Nos vão mostrar, sem dinheiro,
Sem interesse,
O que o Mundo tem p'ra dar
No futuro
Construído no saber
E no Amor.
...
FESTA FINAL... e vai entrando
o número possível de representantes de todas as profissões
e trabalhadores do presente e do futuro, tentando mostrar o que
uma Escola devia fazer para preparar a juventude para o Mundo que
os espera... até contadores de histórias e declamadores...
dançarinos, artistas do palco e do circo... poetas... enfim...
um estímulo para todos os presentes, se possível,
passarem pelo palco ou pelo espaço onde só costumam
passar os actores..., fazendo circular tudo até o palco ser
plateia e a plateia teatro...
A lista das actividades e performance que
se poderá realizar a partir daqui é infindável
e incontável... e aplicável a qualquer circunstância
e espaço...
José Gil Vicente da Beira
Penedo Gordo, Natal de 1989
Amora, Corroios, Natal de 1995 e Junho de 1996.
com revisão e actualização em 7/8 de Junho
de 2002.

Capa da brochura de 1996


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