POEMAS
de NATAL
lista
de POEMAS
|
1.
|
À
Encarnação do Verbo Eterno
soneto CXXXVII
|
Luís
de Camões
|
Obras
Completas, Lello & Irmão, Porto, 1970, 72
|
50
|
|
2.
|
A
Cristo Nosso Senhor no Presépio
soneto CXXXVIII
|
Luís
de Camões
|
Obras
Completas, Lello & Irmão, Porto, 1970, 73
|
50
|
|
3.
|
Natal...
|
Fernando
Pessoa
|
Obras
Completas
|
51
|
|
4.
|
É
dia de Natal
|
Fernando
Pessoa
|
Obras
Completas
|
51
|
|
5.
|
Num
meio dia de fim de Primavera
|
Alberto
Caeiro
|
Guardador
de Rebanhos, VIII
|
52
|
|
6.
|
Natal,
e não Dezembro
|
David
M. Ferreira
|
As
Lições do Fogo
|
57
|
|
7.
|
Natal
|
Sidónio
Muralha
|
poemas
|
57
|
|
8.
|
Dia
de Natal
|
António
Gedeão
|
Máquina
de Fogo
|
58
|
|
9.
|
Balada
da Neve
|
Augusto
Gil
|
Luar
de Janeiro
|
60
|
|
10.
|
A
Palavra mais Bela
|
Adolfo
Simões Müller
|
|
60
|
|
11.
|
Presentinho
de Natal
|
Matilde
Rosa Araújo
|
O
Livro de Tila
|
61
|
|
12.
|
Dia
de Ano Bom
|
Eugénio
de Castro
|
Cravos
de Papel
|
61
|
|
13.
|
História
Antiga
|
Miguel
Torga
|
Diário
I
|
62
|
|
14.
|
Presépio
|
Espínola
de Mendonça
|
Gerânios
|
63
|
|
15.
|
Canto
de Natal
|
Manuel
Bandeira
|
|
63
|
|
16.
|
O
Menino Brincando
|
Augusto
Gil
|
Alba
Plena
|
64
|
|
17.
|
Natal
|
Sidónio
Muralha
|
Poemas
|
65
|
|
18.
|
Natal
|
Manuel
Sérgio
|
|
65
|
|
19.
|
Romance
do Menino - Deus
|
Romance
Popular
|
|
66
|
|
20.
|
Dia
de Ano Bom
|
Eugénio
de Castro
|
Cravos
de Papel
|
|
| 21. |
Madeiro
do Natal |
Cândido
Guerreiro |
Às
Tuas mãos Misericordiosas |
|
| 22. |
A
Bairrada em Noite de Natal |
Fialho
de Almeida |
Pasquinadas |
|
| 23. |
Santos
Reis |
António
Sardinha |
Epopeia
da Planície |
|
| 24. |
Soneto
da Visitação |
António
Sardinha |
Epopeia
da Planície |
|
| 25. |
História
Antiga |
Miguel
Torga |
Diário
I |
|
|
26.
|
Outros
textos escolhidos e/ou escritos por professores e alunos
|
|
|
|
DOIS
SONETOS DE CAMÕES
À
Encarnação do Verbo Eterno
soneto
CXXXVII, in OBRAS DE LUÍS de CAMÕES, Lello & Irmão Ed.,
Porto, 1970, p. 72
Desce
do céu imenso Deus
para
encarnar na Virgem soberana.
Porque
desce o divino a cousa humana?
Para
subir o humano a ser divino.
Pois
como vem tão pobre e tão menino,
Rendendo-se
ao poder de mão tirana?
Porque
vem receber morte inumana
Pera
pagar de Adão o desatino.
É
possível que os dois o fruito comem
Que
de quem lhes deu tanto foi vedado?
Sim,
porque o próprio ser de deuses tomem.
E
por esta razão foi humanado?
Sim,
porque foi com causa decretado,
Se
quis o homem ser Deus, que Deus fosse homem.
A
Cristo Nosso Senhor no Presépio
soneto
CXXXVIII, in OBRAS DE LUÍS de CAMÕES, Lello & Irmão Ed.,
Porto, 1970, p. 73
Dos
céus à Terra desce a mor Beleza,
Une-se
à nossa carne e a faz nobre;
E,
sendo a humanidade dantes pobre,
Hoje
subida fica à mor riqueza
Busca
o Senhor mais rico a mor pobreza;
Que,
como ao mundo o seu amor descobre,
De
palhas vis o corpo tenro cobre,
E
por elas o mesmo céu despreza.
Como?
Deus em pobreza à terra desce?
O
que é mais pobre tanto lhe contenta,
Que
este somente rico lhe parece.
Pobreza
este Presépio representa;
Mas
tanto por ser pobre já merece,
Que
quanto mais o é, mais lhe contenta.

DOIS
POEMAS de Fernando Pessoa
NATAL...
Natal...
Na província neva.
Nos
lares aconchegados,
Um
sentimento conserva
Os
sentimentos passados.
Coração
oposto ao mundo,
Como
a família é verdade!
Meu
pensamento é profundo,
‘Stou
só e sonho saudade.
E
como é branca de graça
A
paisagem que não sei,
Vista
detrás da vidraça
Do
lar que nunca terei!
É
DIA DE NATAL
Chove. É dia de
Natal.
Lá para o Norte
é melhor:
Há a neve que faz
mal,
E o frio que ainda
é pior.
E toda a gente
é contente
Porque é dia de
o ficar.
Chove no Natal
presente.
Antes isso que
nevar.
Pois apesar de
ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo
me arrefece
Tenho o frio e
Natal não.
Deixo sentir a
quem quadra
E o Natal a quem
o fez,
Pois se escrevo
ainda outra quadra
Fico gelado dos
pés.
NUM MEIO DIA DE FIM
DE PRIMAVERA...
(Alberto
Caeiro, poema VIII de O Guardador de Rebanhos)
Num meio - dia
de fim de Primavera
Tive um sonho como
uma fotografia.
Vi Jesus Cristo
descer à terra.
Veio pela encosta
de um monte
Tornado outra vez
menino,
A correr e a rolar-se
pela erva
E a arrancar flores
para as deitar fora
E a rir de modo
a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do
céu.
Era nosso demais
para fingir
De segunda pessoa
da Trindade.
No céu era tudo
falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores
e pedras.
No céu tinha que
estar sempre sério
E de vez em quando
de se tornar outra vez homem
E subir para a
cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda
à roda de espinhos
E os pés espetados
por um prego com cabeça,
E até com um trapo
à roda da cintura
Como os pretos
nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam
ter pai e mãe
Como as outras
crianças.
O seu pai era duas
pessoas
- Um velho chamado
José, que era carpinteiro,
E que não era pai
dele;
E o outro pai era
uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era
do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não
tinha amado antes de o ter.
Não era mulher:
era uma mala
Em que ele tinha
vindo do céu.
E queriam que ele,
que só nascera da mãe,
E nunca tivera
pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade
e a justiça!
Um dia em que Deus
estava a dormir
E o Espírito Santo
andava a voar,
Ele foi à caixa
dos milagres e roubou três.
Com o primeiro
fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se
eternamente humano e menino.
Com o terceiro
criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado
na cruz que há no céu
E serve de modelo
às outras.
Depois fugiu para
o Sol
E desceu pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje vive na minha
aldeia comigo.
É uma criança bonita
de riso e natural.
Limpa o nariz ao
braço direito
Chapinha nas poças
de água,
Colhe as flores
e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos
burros,
Rouba a fruta dos
pomares
E foge a chorar
e a gritar dos cães.
E, porque sabe
que elas não gostam
E que toda a gente
acha graça,
Corre atrás das
raparigas
Que vão em ranchos
pelas estradas
Com as bilhas às
cabeças
E levanta-lhes
as saias.
A mim ensinou-me
tudo.
Ensinou-me a olhar
para as coisas.
Aponta-me todas
as coisas que há nas flores.
Mostra-me como
as pedras são engraçadas
Quando a gente
as tem na mão
E olha devagar
para elas.
Diz-me muito mal
de Deus.
Diz que ele é um
velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar
no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria
leva as tardes da eternidade a fazer meia
E o Espírito Santo
coça-se com o bico
E empoleira-se
nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido
como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus
não percebe nada
Das coisas que
criou
- “Se é que ele
as criou, do que duvido.” -
“Ele diz, por exemplo,
que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não
cantam nada.
Se cantassem seriam
cantores.
Os seres existem
e mais nada,
E por isso se chamam
seres.”
E depois, cansado
de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus
adormece nos meus braços
E levo-o ao colo
para casa.
.................................................................................................................
Ele mora comigo
na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna
Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano
que é natural,
Ele é o divino
que sorri e que brinca.
E por isso é que
eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino
Jesus verdadeiro.
E a criança tão
humana que é divina
É esta minha quotidiana
vida de poeta,
E é porque ele
anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo
olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno
som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova
que habita onde vivo
Dá-me uma mão a
mim
E a outra a tudo
que existe
E assim vamos os
três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando
e rindo
E gozando o nosso
segredo comum
Que é o de saber
por toda a parte
Que não há mistério
no mundo
E que tudo vale
a pena.
A Criança Eterna
acompanha-me sempre.
A direcção do meu
olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento
alegremente a todos os sons
São as cócegas
que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem
um com o outro
Na companhia de
tudo
Que nunca pensamos
um no outro,
Mas vivemos juntos
e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita
e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos
as cinco pedrinhas
No degrau da porta
de casa,
Graves como convém
a um deus e a um poeta,
E como se cada
pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso
um grande perigo para ela
Deixá-la cair no
chão.
Depois eu conto-lhe
histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque
tudo é incrível.
Ri dos reis e dos
que não são reis,
E tem pena de ouvir
falar das guerras,
E dos comércios
e dos navios
Que ficam fumo
no ar dos altos mares.
Porque ele sabe
que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem
ao florescer
E que anda com
a luz do Sol
A variar os montes
e os vales
E a fazer doer
aos olhos dos muros caiados.
Depois ele adormece
e eu deito-o.
Levo-o ao colo
para dentro de casa
E deito-o, despindo-o
lentamente
E como seguindo
um ritual muito limpo
E todo materno
até ele estar nu.
Ele dorme dentro
da minha alma
E às vezes acorda
de noite
E brinca com os
meus sonhos.
Vira uns de pernas
para o ar,
Põe uns em cima
dos outros
E bate as palmas
sozinho
Sorrindo para o
meu sono.
................................................................................................
Quando eu morrer,
filhinho,
Seja eu a criança,
o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para
dentro da tua casa.
Despe o meu ser
cansado e humano
E deita-me na tua
cama.
E conta-me histórias,
caso eu acorde,
Para eu tornar
a adormecer.
É dá-me sonhos
teus para eu brincar
Até que nasça qualquer
dia
Que tu sabes qual
é.
..............................................................................................................
Esta é a história
do meu Menino Jesus.
Por que razão que
se perceba
Não há-de ser ela
mais verdadeira
Que tudo quanto
os filósofos pensam
E tudo quanto as
religiões ensinam?

Natal,
e não Dezembro - de David
Mourão Ferreira - in
As Lições do Fogo
Entremos, apressados
friorentos,
numa gruta, no
bojo de um navio,
num presépio, num
prédio, num presídio,
no prédio que amanhã
for demolido...
Entremos, inseguros,
mas entremos.
Entremos, e depressa,
em qualquer sítio,
porque esta noite
chama-se Dezembro,
porque sofremos,
porque temos frio.
Entremos, dois
a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze
milhões de nada.
Procuremos o rastro
de uma casa,
a cave, a gruta,
o sulco de uma nave...
Entremos, despojados,
mas entremos.
Das mãos dadas
talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal
e não Dezembro
talvez universal
a consoada.

NATAL
- Sidónio Muralha - Poemas
Hoje
é dia de Natal.
O
jornal fala dos pobres
em
letras grandes e pretas,
traz
versos e historietas
e
desenhos bonitinhos,
e
traz retratos também
dos
bodos, bodos e bodos,
em
casa de gente bem.
Hoje
é dia de Natal.
‑
Mas quando será de todos?
DIA
DE NATAL
António
Gedeão - (Rómulo
de Carvalho) - Máquina
de Fogo (1961), - in
Poesias Completas, 2ª ed. 1965
Hoje
é dia de ser bom.
É
dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de
falar e de ouvir com mavioso tom,
de
abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É
dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de
lhe darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de
perdoar aos nossos inimigos, mesmo os que não merecem,
de
meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove
tanto a fraternidade universal.
É
só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como
se de anjos fosse,
numa
toada doce,
de
violas e banjos,
entoa
gravemente um hino ao Criador.
E
mal se extinguem os clamores plangentes,
a
voz do locutor
anuncia
o melhor dos detergentes.
De
novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e
as vozes crescem num fervor patético.
(Vosso
Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não
seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se
difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda
a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos
participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e
fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas
lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com
subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam,
sobre o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as
belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os
olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao
chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É
como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como
se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A
Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se
uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E
a gente, mesmo sem querer, entra num estabelecimento
e
compra ‑ louvado seja o Senhor! ‑ o que nunca tinha
pensado comprar.
Mas
a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela
véspera santa
a
sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que
nem dorme serena.
Cada
menino
abre
um olhinho
na
noite incerta
para
ver se a aurora
já
está desperta.
De
manhãzinha
salta
da cama,
corre
à cozinha
mesmo
em pijama.
Ah!!!!!!!!!!!
Na
branda macieza
da
matutina luz
aguarda-o
a surpresa
do
Menino Jesus.
Jesus,
o
doce Jesus,
o
mesmo que nasceu na manjedoura,
veio
pôr no sapatinho
de
Pedrinho
uma
metralhadora.
Que
alegria
reinou
naquela casa todo o santo dia!
O
Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava
tudo com devastadoras rajadas
e
obrigava as criadas
a
caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já
está!
E
fazias erguer para de novo matá-las.
E
até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que
caíam
crivados
de balas.
Dia
de Confraternização Universal,
Dia
de Amor, de Paz, de Felicidade,
de
sonhos e Venturas.
É
dia de Natal.
Paz
na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória
a Deus nas alturas.
BALADA
DA NEVE - (Augusto
Gil, Luar de Janeiro)
Batem
leve, levemente,
Como
quem chama por mim...
Será
chuva? Será gente?
Gente
não é certamente,
E
a chuva não bate assim...
É
talvez a ventania...
Mas
há pouco, há poucochinho,
Nem
uma agulha bulia
Na
quieta melancolia
Dos
pinheiros do caminho...
Quem
bate assim levemente,
Com
tão estranha leveza,
Que
mal se ouve, mal se sente?
Não
é chuva, nem é gente,
Nem
é vento com certeza.
Fui
ver. A neve caía
Do
azul-cinzento do céu,
Branca
e leve, branca e fria...
Há
quanto tempo a não via!
E
que saudades, Deus meu!
Olho-a
através da vidraça.
Pôs
tudo da cor do linho.
Passa
gente, e, quando passa,
Os
passos imprime e traça
Na
brancura do caminho...
Fico
olhando esses sinais
Da
pobre gente que avança,
E
noto, por entre os mais,
Os
traços miniaturais
Duns
pezitos de criança...
E,
descalcinhos, doridos,
A
neve deixa inda vê-los,
Primeiro
bem definidos
Depois
em sulcos compridos,
Porque
não podia erguê-los...
Que
quem já é pecador
Sofra
tormentos, enfim!...
Mas
as crianças, Senhor,
Porque
lhes dais tanta dor?
Porque
padecem assim?
E
uma infinita tristeza,
Uma
funda turbação,
Entre
em mim, fica em mim presa...
Cai
neve na natureza
E
cai no meu coração.

A
PALAVRA MAIS BELA - Adolfo
Simões Müller
Fui
ver ao dicionário dos sinónimos
A
palavra mais bela, sem igual,
Perfeita
como a nave dos Jerónimos
E
o dicionário disse-me: NATAL.
Perguntei
aos poetas que releio
Gabbriela,
Régio, Göthe, Poe, Quental,
Lorca,
Olegário... E a resposta veio:
Christmas...
Nöel... Natividade... NATAL.
Interroguei
o firmamento todo
Cobra,
formiga, pássaro, chacal!
O
aço em chispas,, o pipe-line, o lodo!
E
a voz das coisas respondeu: NATAL!
Pedi
ao vento e trouxe-me dispersos
Riscos
de luz, fragmentos de papel
Cânticos,
sinos, lágrimas e versos
Um
N, um A, um T, um A, um L...
Perguntei
a mim próprio e fiquei mudo
Qual
a mais bela das palavras, qual?
Para
que perguntar, se tudo, tudo,
Diz:
NATAL, diz NATAL, diz NATAL!

PRESENTINHO
DE NATAL de Matilde Rosa Araújo, O livro de Tila
Eu
queria ter um cestinho cheio de flores
Para
tecer um xaile de muita cor, muito lindo!
E
um retalhinho do Céu
Para
fazer um vestido azul tão lindo!
E
mais sete estrelas das mais brilhantes
Para
armar um chapeuzinho de luz!
E
mais ainda dois quartinhos de lua
Que
chegassem para uns sapatos de saltos muito altos...
E
tudo isto, depois,
Eu
dava a minha Mãe,
Neste
dia de Natal:
O
xailezinho de muita cor,
Os
sapatinhos de saltos muito altos...
Minha
Mãe! minha Mãe!
E
hoje é dia de Natal
E
só posso dizer:
Minha
Mãe! minha Mãe!

DIA
DE ANO BOM de Eugénio de Castro, Cravos de Papel
Hoje, dia d’Ano
Bom,
Foi o jantar melhorado:
Canja d’oiro, cabidela
E um rico leitão
assado.
Não contente de
o assar bem,
A cozinheira briosa
Pôs na boca do
leitão
Uma linda e grande
rosa.
Além dessas vitualhas,
Outras mais o olhar
divisa:
Mexilhões frescos
d’Aveiro
E um paio, róseo,
de Nisa;
Sobremesas são
às dúzias,
Na mesa, ao pé
da floreira:
Manjar branco,
ovos de fio,
E uma “barriga-de-freira”.
De fato novo, os
pequenos
Riem bem e melhor
comem:
O Martin, que é
o mais novinho,
A comer parece
um homem!
Na braseira, sob
a cinza,
Dormem brasas resplendentes:
Fazem-se alegres
saúdes
Aos amigos e aos
parentes.
HISTÓRIA
ANTIGA de Miguel Torga, Diário I
Era
uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio
bicho, de resto:
Um
cara de burro sem cabresto
E
duas grandes tranças.
A
gente olhava, reparava, e via
Que
naquela figura não havia
Olhos
de quem gosta de crianças.
E,
na verdade, assim acontecia.
Porque
um dia,
O
malvado,
Só
por ter o poder de quem é rei,
Por
não ter coração,
Sem
mais nem menos,
Mandou
matar quantos eram pequenos
Na
cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por
acaso ou milagre, aconteceu
Que,
num burrinho pela areia fora,
Fugiu,
Daquelas
mãos de sangue um pequenito
Que
o vivo sol da vida acarinhou;
E
bastou
Esse
palmo de sonho
Para
encher este mundo de alegria;
Para
crescer, se Deus;
E
meter no inferno o tal das tranças,
Só
porque ele não gostava de crianças.
PRESÉPIO
de Espínola de Mendonça, Gerânios
Dos
teus vários brinquedos de criança,
muitos
dos quais te dava o Deus-Menino,
há
um que mais perdura na lembrança:
-
o presépio que armaste em pequenino.
A
igreja de cartão que tu fizeste,
onde
um par de bonecos se casou!
E
o desgosto profundo que tiveste,
quando
o padre de barro se quebrou.
Um
galo empoleirado sobre um sino,
de
bico muito aberto, de contente,
cantava
anunciando que o Menino
sobre
palhas nascera, humildemente.
Mais
além era um rancho que folgava,
com
guitarras, pandeiros e violas,
tendo
à frente uma preta que dançava,
brandindo
com salero as castanholas.
E
lavadeiras, frescas e formosas,
entoavam
canções ao desafio;
e,
arregaçando as saias vaporosas,
lavavam
debruçadas sobre o rio.
Junto
à fonte, sorrindo em seus afagos
namorados
juravam seus amores.
E,
descendo a colina, os três Reis-Magos
caminhavam
à frente duns pastores.
Ao
pé da gruta, onde Jesus dormia,
um
soldado de chumbo, prazenteiro,
com
a sua espingarda o protegia
de
qualquer inimigo traiçoeiro.
Eram
estes bonecos tentadores
que
te encantavam num ingénuo afã,
entre
velas brilhantes, de mil cores,
que
se apagavam só com a manhã.
Foi
como se apagou a minha luz,
lançando
sobre mim um negro véu,
naquela
madrugada em que Jesus
te
arrebatou consigo para o Céu.
Bonecos
de expressões entristecidas,
tendes
segredos que só eu desvendo.
E
há vozes no ar gritando, indefinidas,
que
dizem coisas que só eu entendo.
E
destas rosas de papel, agora,
que
o tempo as desbotou sem piedade,
o
mais vivo perfume se evapora:
-
é o vivo perfume da saudade.

CONTO
DE NATAL, Manuel Bandeira
O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
Nasceu sobre as
palhas
O nosso Menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita
O humano destino.
Louvemos a glória
de Jesus Menino.
O
MENINO BRINCANDO, Augusto Gil, Alba Plena
Ó meu Jesus adorado,
Fecha os teus olhos
divinos
Num soninho descansado;
Que a não sermos
tu e eu
Toda a gente do
povoado,
Desde os velhos
aos meninos,
Há muito que adormeceu.
E o Menino Jesus
não se dormia...
Dorme, dorme, dorme
agora
(Cantava a Virgem
Maria)
Que mal assomou
a aurora,
Sentei-me junto
ao tear
E por todo o dia
fora,
Até que já se não
via,
Não deixei de trabalhar!
E o Menino Jesus
não se dormia...
Tornava Nossa Senhora,
Numa voz mais consumida:
Dorme, dorme, dorme
agora
E que eu descanse
também,
Porque mesmo adormecida
Vela sempre, a
toda a hora,
No meu peito, o
amor de mãe.
E o Menino Jesus
não se dormia...
Numa voz mais fatigada,
Tornava a Virgem
Maria:
Dorme pombinha
nevada,
Dorme, dorme, dorme
bem...
Vê que está quase
apagada
A frouxa luz da
bugia,
Do pouco azeite
que tem.
E o Menino Jesus
não se dormia...
Rogava Nossa Senhora:
Modera a tua alegria...
Não deites a roupa
fora
Do teu leito pequenino...
Não rias mais.
Dorme agora
E brincarás todo
o dia...
Dorme, dorme, meu
menino.
E o Menino Jesus
não se dormia...
Mais triste, mais
abatida,
Pediu a Virgem
Maria:
Tem pena da minha
vida,
Que se a quero
é para ti...
Vida aflita e dolorida!
Só por ti a viveria
Tão longe de onde
nasci!...
E o Menino Jesus
não se dormia...
E a voz da Virgem
volveu:
Repara no meu olhar,
Vê como ele entristeceu...
Dorme, dorme, dorme
bem,
Ó alvo lírio do
céu!
Olha que estou
a chorar,
- Tem pena da tua
mãe!
Nosso Senhor, então,
adormeceu.

NATAL,
Sidónio Muralha, Poemas
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos
pobres,
em letras grandes
e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos
também
dos bodos, bodos
e bodos,
em casa de gente
bem.
Hoje é dia de Natal.
Mas quando será
para todos?

NATAL,
Manuel Sérgio
Enquanto
a chuva
Escorrer
da minha vidraça
E
furar o telhado
Daquele
farrapo de homem que além passa
Enquanto
o pão
Não
entrar com a justiça
Lado
a lado
Mão
a mão
Nem
Jesus vem
Andar
pelos caminhos onde os outros vão
Um
dia
Quando
for Natal
(E
já não for Dezembro)
E
o mundo for o espaço
Onde
cabe
Um
só abraço
Então
Jesus
virá
E
será
À
flor de tudo
O
redentor
Universal
(Quando
o Homem quiser
Será
Natal)
ROMANCE
DO MENINO DEUS - Romance Popular
Um
pastor, vindo de longe
à
nossa porta bateu:
trouxe
recado que diz:
“O
Deus - Menino nasceu”.
Este
recado tivemos
já
meia noite seria.
‑
Estrela do céu lá vamos
dar
parabéns a Maria.
‑
Mas que havemos de levar
a
um Deus que tanto tem?
‑
Ainda que muito tenha,
Sempre
gosta que lhe dêem.
-
Eu lhe levo um cordeirinho,
o
melhor que eu encontrei.
-
E eu levo um requeijão,
o
melhor que eu requeijei.
-
Pois também eu aqui levo
fofinhos
p’ra lhe oferecer,
bons
merendeiros de leite,
favos
de mel p’ra comer.
-
Vamos ter com mais pastores,
não
se percam no caminho,
vamos
todos, e depressa,
adorar
o Deus - Menino.
-
Vinde também, pastorinhos,
vinde,
correi a Belém,
vinde
visitar Maria,
que
divino filho tem.
Esta
noite é santa noite,
inda
mesmo assim tão fria;
vamos
todos a Belém
visitar
Jesus, Maria.
-
Ai, que formoso Menino,
ai,
que tanta graça tem!
Ai
que tanto se parece
Com
sua Senhora Mãe!
para
voltar ao início de GV