Gil Vicente 500

Vida GV de 1460/70 a 1502 a 1536/38
500 anos de GV - de 1960 - 2002 - 2038

78 anos a celebrar o 5ºCGV como reNASCIMENTO de um TEATRO a partir da RAIZ
por José Gil Vicente da Beira e outros deNÓMIOS...

Obras de Gil Vicente:
PANORÂMICA

as 47 uma a uma

POEMAS de NATAL

 lista de POEMAS

 

Título

Autor

Obra

Pg.

1.

À Encarnação do Verbo Eterno
soneto CXXXVII

Luís de Camões

Obras Completas, Lello & Irmão, Porto, 1970, 72

50

2.

A Cristo Nosso Senhor no Presépio
soneto CXXXVIII

Luís de Camões

Obras Completas, Lello & Irmão, Porto, 1970, 73

50

3.

Natal...

Fernando Pessoa

Obras Completas

51

4.

É dia de Natal

Fernando Pessoa

Obras Completas

51

5.

Num meio dia de fim de Primavera

Alberto Caeiro

Guardador de Rebanhos, VIII

52

6.

Natal, e não Dezembro

David M. Ferreira

As Lições do Fogo

57

7.

Natal

Sidónio Muralha

poemas

57

8.

Dia de Natal

António Gedeão

Máquina de Fogo

58

9.

Balada da Neve

Augusto Gil

Luar de Janeiro

60

10.

A Palavra mais Bela

Adolfo Simões Müller

 

60

11.

Presentinho de Natal

Matilde Rosa Araújo

O Livro de Tila

61

12.

Dia de Ano Bom

Eugénio de Castro

Cravos de Papel

61

13.

História Antiga

Miguel Torga

Diário I

62

14.

Presépio

Espínola de Mendonça

Gerânios

63

15.

Canto de Natal

Manuel Bandeira

 

63

16.

O Menino Brincando

Augusto Gil

Alba Plena

64

17.

Natal

Sidónio Muralha

Poemas

65

18.

Natal

Manuel Sérgio

 

65

19.

Romance do Menino - Deus

Romance Popular

 

66

20.

Dia de Ano Bom

 Eugénio de Castro

 Cravos de Papel

 

21. Madeiro do Natal Cândido Guerreiro Às Tuas mãos Misericordiosas  
22. A Bairrada em Noite de Natal Fialho de Almeida Pasquinadas  
23. Santos Reis António Sardinha Epopeia da Planície  
24. Soneto da Visitação António Sardinha Epopeia da Planície  
25. História Antiga Miguel Torga Diário I  

26.

Outros textos escolhidos e/ou escritos por professores e alunos

 

 

 

 DOIS SONETOS DE CAMÕES

À Encarnação do Verbo Eterno

soneto CXXXVII, in OBRAS DE LUÍS de CAMÕES, Lello & Irmão Ed., Porto, 1970, p. 72

 

Desce do céu imenso Deus

para encarnar na Virgem soberana.

Porque desce o divino a cousa humana?

Para subir o humano a ser divino.

 

Pois como vem tão pobre e tão menino,

Rendendo-se ao poder de mão tirana?

Porque vem receber morte inumana

Pera pagar de Adão o desatino.

 

É possível que os dois o fruito comem

Que de quem lhes deu tanto foi vedado?

Sim, porque o próprio ser de deuses tomem.

 

E por esta razão foi humanado?

Sim, porque foi com causa decretado,

Se quis o homem ser Deus, que Deus fosse homem.

 

A Cristo Nosso Senhor no Presépio

soneto CXXXVIII, in OBRAS DE LUÍS de CAMÕES, Lello & Irmão Ed., Porto, 1970, p. 73

 

Dos céus à Terra desce a mor Beleza,

Une-se à nossa carne e a faz nobre;

E, sendo a humanidade dantes pobre,

Hoje subida fica à mor riqueza

 

Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;

Que, como ao mundo o seu amor descobre,

De palhas vis o corpo tenro cobre,

E por elas o mesmo céu despreza.

Como? Deus em pobreza à terra desce?

O que é mais pobre tanto lhe contenta,

Que este somente rico lhe parece.

Pobreza este Presépio representa;

Mas tanto por ser pobre já merece,

Que quanto mais o é, mais lhe contenta.

 

 

DOIS POEMAS de Fernando Pessoa

NATAL...

Natal...   Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

 

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

‘Stou só e sonho saudade.

 

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista detrás da vidraça

Do lar que nunca terei!

É DIA DE NATAL

 

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

 

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

 

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

 

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

NUM MEIO DIA DE FIM DE PRIMAVERA...

(Alberto Caeiro, poema VIII de O Guardador de Rebanhos)

Num meio - dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas

- Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

 A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia em que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

 

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou

- “Se é que ele as criou, do que duvido.” - 

“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.”

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E levo-o ao colo para casa.

.................................................................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

 

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

................................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

É dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

..............................................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

 

Natal, e não Dezembro - de David Mourão Ferreira - in As Lições do Fogo

Entremos, apressados friorentos,

numa gruta, no bojo de um navio,

num presépio, num prédio, num presídio,

no prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.

Entremos, e depressa, em qualquer sítio,

porque esta noite chama-se Dezembro,

porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,

duzentos mil, doze milhões de nada.

Procuremos o rastro de uma casa,

a cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.

Das mãos dadas talvez o fogo nasça,

talvez seja Natal e não Dezembro

talvez universal a consoada.

 

NATAL - Sidónio Muralha - Poemas

 

Hoje é dia de Natal.

O jornal fala dos pobres

em letras grandes e pretas,

traz versos e historietas

e desenhos bonitinhos,

e traz retratos também

dos bodos, bodos e bodos,

em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

‑ Mas quando será de todos?

 

DIA DE NATAL

António Gedeão - (Rómulo de Carvalho) - Máquina de Fogo (1961), - in Poesias Completas, 2ª ed. 1965

 

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,

de lhe darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo os que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanto a fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,

a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu

e as vozes crescem num fervor patético.

(Vosso Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sobre o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra num estabelecimento

e compra ‑ louvado seja o Senhor! ‑ o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta, tanta, tanta,

que nem dorme serena.

Cada menino

abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora

já está desperta.

De manhãzinha

salta da cama,

corre à cozinha

mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!!

 

Na branda macieza

da matutina luz

aguarda-o a surpresa

do Menino Jesus.

Jesus,

o doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

de Pedrinho

uma metralhadora.

Que alegria

reinou naquela casa todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

tá-tá-tá-tá-tá-tá- tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!

E fazias erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.

 

Dia de Confraternização Universal,

Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas alturas.

BALADA DA NEVE - (Augusto Gil, Luar de Janeiro)

 

Batem leve, levemente,

Como quem chama por mim...

Será chuva? Será gente?

Gente não é certamente,

E a chuva não bate assim...

 

É talvez a ventania...

Mas há pouco, há poucochinho,

Nem uma agulha bulia

Na quieta melancolia

Dos pinheiros do caminho...

 

Quem bate assim levemente,

Com tão estranha leveza,

Que mal se ouve, mal se sente?

Não é chuva, nem é gente,

Nem é vento com certeza.

 

Fui ver. A neve caía

Do azul-cinzento do céu,

Branca e leve, branca e fria...

Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!

 

Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho.

Passa gente, e, quando passa,

Os passos imprime e traça

Na brancura do caminho...

 

Fico olhando esses sinais

Da pobre gente que avança,

E noto, por entre os mais,

Os traços miniaturais

Duns pezitos de criança...

 

E, descalcinhos, doridos,

A neve deixa inda vê-los,

Primeiro bem definidos

Depois em sulcos compridos,

Porque não podia erguê-los...

 

Que quem já é pecador

Sofra tormentos, enfim!...

Mas as crianças, Senhor,

Porque lhes dais tanta dor?

Porque padecem assim?

 

E uma infinita tristeza,

Uma funda turbação,

Entre em mim, fica em mim presa...

Cai neve na natureza

E cai no meu coração.

A PALAVRA MAIS BELA - Adolfo Simões Müller

 

Fui ver ao dicionário dos sinónimos

A palavra mais bela, sem igual,

Perfeita como a nave dos Jerónimos

E o dicionário disse-me: NATAL.

 

Perguntei aos poetas que releio

Gabbriela, Régio, Göthe, Poe, Quental,

Lorca, Olegário... E a resposta veio:

Christmas... Nöel... Natividade... NATAL.

 

Interroguei o firmamento todo

Cobra, formiga, pássaro, chacal!

O aço em chispas,, o pipe-line, o lodo!

E a voz das coisas respondeu: NATAL!

 

Pedi ao vento e trouxe-me dispersos

Riscos de luz, fragmentos de papel

Cânticos, sinos, lágrimas e versos

Um N, um A, um T, um A, um L...

Perguntei a mim próprio e fiquei mudo

Qual a mais bela das palavras, qual?

Para que perguntar, se tudo, tudo,

Diz: NATAL, diz NATAL, diz NATAL!

PRESENTINHO DE NATAL de Matilde Rosa Araújo, O livro de Tila

 

Eu queria ter um cestinho cheio de flores

Para tecer um xaile de muita cor, muito lindo!

E um retalhinho do Céu

Para fazer um vestido azul tão lindo!

E mais sete estrelas das mais brilhantes

Para armar um chapeuzinho de luz!

E mais ainda dois quartinhos de lua

Que chegassem para uns sapatos de saltos muito altos...

E tudo isto, depois,

Eu dava a minha Mãe,

Neste dia de Natal:

O xailezinho de muita cor,

Os sapatinhos de saltos muito altos...

Minha Mãe! minha Mãe!

E hoje é dia de Natal

E só posso dizer:

Minha Mãe! minha Mãe!

 

DIA DE ANO BOM de Eugénio de Castro, Cravos de Papel

Hoje, dia d’Ano Bom,

Foi o jantar melhorado:

Canja d’oiro, cabidela

E um rico leitão assado.

 

Não contente de o assar bem,

A cozinheira briosa

Pôs na boca do leitão

Uma linda e grande rosa.

 

Além dessas vitualhas,

Outras mais o olhar divisa:

Mexilhões frescos d’Aveiro

E um paio, róseo, de Nisa;

Sobremesas são às dúzias,

Na mesa, ao pé da floreira:

Manjar branco, ovos de fio,

E uma “barriga-de-freira”.

 

De fato novo, os pequenos

Riem bem e melhor comem:

O Martin, que é o mais novinho,

A comer parece um homem!

 

Na braseira, sob a cinza,

Dormem brasas resplendentes:

Fazem-se alegres saúdes

Aos amigos e aos parentes.

 

HISTÓRIA ANTIGA de Miguel Torga, Diário I

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.

Feio bicho, de resto:

Um cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava, e via

Que naquela figura não havia

Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.

Porque um dia,

O malvado,

Só por ter o poder de quem é rei,

Por não ter coração,

Sem mais nem menos,

Mandou matar quantos eram pequenos

Na cidades e aldeias da Nação.

Mas,

Por acaso ou milagre, aconteceu

Que, num burrinho pela areia fora,

Fugiu,

Daquelas mãos de sangue um pequenito

Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou

Esse palmo de sonho

Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, se Deus;

E meter no inferno o tal das tranças,

Só porque ele não gostava de crianças.

PRESÉPIO de Espínola de Mendonça, Gerânios

Dos teus vários brinquedos de criança,

muitos dos quais te dava o Deus-Menino,

há um que mais perdura na lembrança:

- o presépio que armaste em pequenino.

 

A igreja de cartão que tu fizeste,

onde um par de bonecos se casou!

E o desgosto profundo que tiveste,

quando o padre de barro se quebrou.

 

Um galo empoleirado sobre um sino,

de bico muito aberto, de contente,

cantava anunciando que o Menino

sobre palhas nascera, humildemente.

 

Mais além era um rancho que folgava,

com guitarras, pandeiros e violas,

tendo à frente uma preta que dançava,

brandindo com salero as castanholas.

 

E lavadeiras, frescas e formosas,

entoavam canções ao desafio;

e, arregaçando as saias vaporosas,

lavavam debruçadas sobre o rio.

 

Junto à fonte, sorrindo em seus afagos

namorados juravam seus amores.

E, descendo a colina, os três Reis-Magos

caminhavam à frente duns pastores.

Ao pé da gruta, onde Jesus dormia,

um soldado de chumbo, prazenteiro,

com a sua espingarda o protegia

de qualquer inimigo traiçoeiro.

 

Eram estes bonecos tentadores

que te encantavam num ingénuo afã,

entre velas brilhantes, de mil cores,

que se apagavam só com a manhã.

 

Foi como se apagou a minha luz,

lançando sobre mim um negro véu,

naquela madrugada em que Jesus

te arrebatou consigo para o Céu.

 

Bonecos de expressões entristecidas,

tendes segredos que só eu desvendo.

E há vozes no ar gritando, indefinidas,

que dizem coisas que só eu entendo.

 

E destas rosas de papel, agora,

que o tempo as desbotou sem piedade,

o mais vivo perfume se evapora:

- é o vivo perfume da saudade.

CONTO DE NATAL, Manuel Bandeira

 

O nosso menino

Nasceu em Belém.

Nasceu tão-somente

Para querer bem.

 

Nasceu sobre as palhas

O nosso Menino.

Mas a mãe sabia

Que ele era divino.

Vem para sofrer

A morte na cruz,

O nosso menino.

Seu nome é Jesus.

 

Por nós ele aceita

O humano destino.

Louvemos a glória

de Jesus Menino.

O MENINO BRINCANDO, Augusto Gil, Alba Plena

Ó meu Jesus adorado,

Fecha os teus olhos divinos

Num soninho descansado;

Que a não sermos tu e eu

Toda a gente do povoado,

Desde os velhos aos meninos,

Há muito que adormeceu.

E o Menino Jesus não se dormia...

Dorme, dorme, dorme agora

(Cantava a Virgem Maria)

Que mal assomou a aurora,

Sentei-me junto ao tear

E por todo o dia fora,

Até que já se não via,

Não deixei de trabalhar!

E o Menino Jesus não se dormia...

Tornava Nossa Senhora,

Numa voz mais consumida:

Dorme, dorme, dorme agora

E que eu descanse também,

Porque mesmo adormecida

Vela sempre, a toda a hora,

No meu peito, o amor de mãe.

E o Menino Jesus não se dormia...

Numa voz mais fatigada,

Tornava a Virgem Maria:

Dorme pombinha nevada,

Dorme, dorme, dorme bem...

Vê que está quase apagada

A frouxa luz da bugia,

Do pouco azeite que tem.

E o Menino Jesus não se dormia...

Rogava Nossa Senhora:

Modera a tua alegria...

Não deites a roupa fora

Do teu leito pequenino...

Não rias mais. Dorme agora

E brincarás todo o dia...

Dorme, dorme, meu menino.

E o Menino Jesus não se dormia...

Mais triste, mais abatida,

Pediu a Virgem Maria:

Tem pena da minha vida,

Que se a quero é para ti...

Vida aflita e dolorida!

Só por ti a viveria

Tão longe de onde nasci!...

E o Menino Jesus não se dormia...

E a voz da Virgem volveu:

Repara no meu olhar,

Vê como ele entristeceu...

Dorme, dorme, dorme bem,

Ó alvo lírio do céu!

Olha que estou a chorar,

- Tem pena da tua mãe!

Nosso Senhor, então, adormeceu.

 

NATAL, Sidónio Muralha, Poemas

Hoje é dia de Natal.

O jornal fala dos pobres,

em letras grandes e pretas,

traz versos e historietas

e desenhos bonitinhos,

e traz retratos também

dos bodos, bodos e bodos,

em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

Mas quando será para todos?

NATAL, Manuel Sérgio

Enquanto a chuva

Escorrer da minha vidraça

E furar o telhado

Daquele farrapo de homem que além passa

Enquanto o pão

Não entrar com a justiça

Lado a lado

Mão a mão

Nem Jesus vem

Andar pelos caminhos onde os outros vão

Um dia

Quando for Natal

(E já não for Dezembro)

E o mundo for o espaço

Onde cabe

Um só abraço

Então

Jesus virá

E será

À flor de tudo

O redentor

Universal

(Quando o Homem quiser

Será Natal)

ROMANCE DO MENINO DEUS - Romance Popular

Um pastor, vindo de longe

à nossa porta bateu:

trouxe recado que diz:

“O Deus - Menino nasceu”.

Este recado tivemos

já meia noite seria.

‑ Estrela do céu lá vamos

dar parabéns a Maria.

‑ Mas que havemos de levar

a um Deus que tanto tem?

‑ Ainda que muito tenha,

Sempre gosta que lhe dêem.

- Eu lhe levo um cordeirinho,

o melhor que eu encontrei.

- E eu levo um requeijão,

o melhor que eu requeijei.

- Pois também eu aqui levo

fofinhos p’ra lhe oferecer,

bons merendeiros de leite,

favos de mel p’ra comer.

- Vamos ter com mais pastores,

não se percam no caminho,

vamos todos, e depressa,

adorar o Deus - Menino.

- Vinde também, pastorinhos,

vinde, correi a Belém,

vinde visitar Maria,

que divino filho tem.

Esta noite é santa noite,

inda mesmo assim tão fria;

vamos todos a Belém

visitar Jesus, Maria.

- Ai, que formoso Menino,

ai, que tanta graça tem!

Ai que tanto se parece

Com sua Senhora Mãe!

 

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