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A
FEIRA DE CASTRO vista por um CIGANO CASTANHO andarilho de feiras
A
FEIRA DE CASTRO VERDE
AS
FEIRAS EM VÃS REDONDILHAS
penedo
gordo - BEJA 1987/1991/1993/94/95
A
FEIRA DE CASTRO
DE
TODAS AS FEIRAS
DE
TODAS AS PALAVRAS
DETODOS
OS SIGNOS
DE
TODOS OS SÍMBOLOS
DE
TODOS OS ÍCONES
DE
TODOS OS ÍNDICES
TODOS
OS INDÍCIOS
...
título
AFEIRA DE CASTRO - AS FEIRAS
autor
CIGANO CASTANHO andarilho de feiras
1ª versão
@amstrad pcw8256 joraga beja,1987
2ª versão
@ IBM PS/1 JORAGA, P.Gordo, Beja, 1991
3ª versão
@ JORAGA - C 486-33c, P.Gordo, Beja 1993/94
4ª versão
@ JORAGA - C 486-66c, P.Gordo, Beja 1994/95
5ª v. p/ o Grupo de Teatro da Esc.Sec. CORROIOS,1
@ JORAGA - C 486-66c, P.Gordo, Beja JAN/95
a
feira de castro
a
de castro verde
como
as outras feiras
as
das outras terras...
são
todas iguais.
são
todas diferentes.
eu
canto a de castro
como
signo imagem
de
milhares de feiras
de
milhares de terras...
essa
aonde vai
a
da sua terra
A
FEIRA DE ...
é
a sua (minha) feira.
a
quem a dedico?
esta
feira imagem?
à
feira - às feiras
à
festa - às festas
a
todos aqueles
que
fazem a feira...
ciganos,
feirantes,
gente
da limpeza
que
por vezes chamam
a
gente do lixo...
aos
mestres que mandam
aos
homens que cavam
aos
pulsos que erguem
estacas
e mastros
e
aos magos das luzes
que
estendem mil fios...
e
às mãos que enfeitam
balões
e lanternas
que
enchem a feira
duma
ponta à outra
para
todos verem
sem
ninguém as ver...
e
aos das barracas
aos
magos e fadas
que
trazem em caixas
todas
as surpresas
que
vão encantar
os
mil compradores
mesmo
que não comprem
a
feira de castro
de
todas as feiras
de
todos os signos
de
todos os símbolos
de
todos os índices
todos
os indícios
todas
as palavras
mesmo
sem palavras
...
a
feira de castro
fronteira
de encontros
de
encontros cruzados
de
tempos espaços
de
todas as gentes
algarve
- alentejo
do
norte e do sul
de
este e d' oeste
a
feira de castro
feira
do alvito
feira
do cartaxo
as
feiras dos santos
do
norte e do centro
do
centro e do sul
do
minho e das beiras
trás-os-montes
douro
alentejo
algarve
...
a
feira de castro
do
século XVII
(1620)
seiscentos e vinte
Filipe
III
com
seu TERRADEGO
pró
Senhor das Chagas
inda
vive agora
nos
anos oitenta
nos
anos noventa
nos
anos dois mil...
encontro
de gentes
encontro
de tempos
de
tempos cruzados
de
gentes cruzadas...
gente
das cidades
gente
das aldeias
gente
inda dos montes
que
acorrem à feira
p'ra
sobreviver
p'ra
ver outros mundos.
a
feira de castro
de
espaços cruzados
de
cores e de sons
de
cheiros e gostos
de
sensibilidades...
a
feira de castro
fronteira
de povos
que
são um só povo
algarve
alentejo
desvairadas
gentes
de
muitos lugares
país
portugal
e
nuestros hermanos
e
muitos turistas
de
muitos países...
a
feira de castro
troca
de produtos
de
comes e bebes
de
subsistência
de
tempos antigos
de
gostos passados
talvez
gulodices
nestes
tempos novos:
romãs
azeitonas
castanhas
e nozes
amêndoas
pinhões
favas
e ervilhas
figos
avelãs
cereais
feijões
rubros
diospiros..
a
feira de castro
d'utensílios
sãos
sólidos
pesados
de
são material...
tábuas
e masseiras
e
pás para o forno
arcas
e arcazes
varas
e escadas
para
varejar
de
cestos e cestas
para
enceleirar
cadeiras
de verga
tabua
(diga tabúa) salgueiro
mil
coisas de palha
para
ornamentar
mil
coisas de bunho
para
rechear
a
casa do bairro
vivenda
ou do monte
onde
vai passar
este
longo inverno
rolar
de estações
de
tempos e eras...
a
feira de castro
de
grandes barracas
de
comes e bebes
barracas
de tiro
-é
só um tirinho,
vá
lá, ó freguês
essa
pontaria!...
de
cobres e latas
e
de bugigangas
de
barro de plástico
de
couro e madeira
mantas
e sapatos
botas
e chinelos
capotes
casacos
safões
e samarras
coletes
e calças
saias
e vestidos
chapéus
e gibões
pelicos
e capas...
a
feira de castro
carrinhos
de choque
carrocéis
corridas
-
é nova corrida
é
nova viagem
comprem
o bilhete
um
molho de senhas
grande
circo jumbo
circo
cardinali
circo
universal...
ou
circo da vida
-
é entrar senhores
meninos
meninas
hoje
é só palhaços
e
grandes vedetas
coisas
nunca vistas
d'outros
continemtes
de
grandes estrelas
de
grande renome
internacional
a
feira de castro
como
as outras feiras
é
o grande circo
das
gentes que correm
da
gente dos montes
gente
das cidades
em
busca de tudo
em
busca de nada
-
venho só p'ra ver!
-atão
e não compra
nada
desta vez?...
em
busca de tudo
em
busca de nada
atrás
de ilusões
de
fios de lã
fios
de algodão
do
que já não há
e
havia dantes...
algodão
açúcar
mantas
cobertores
casacos
capotes
cultura,
culturas
botas
e sapatos
chinelos
tamancas
tudo
artesanal
ou
então moderno
de
tela de plástico...
qualquer
ferramenta
de
há tanto urgente
agora
encontrada
agora
inventada
parece
um milagre
de
tão procurada
p'ra
tanto conserto
-
parece um concerto! -
p'ra
tanta demão
remédio
p'ra tudo
uma
solução
já
tão procurada
e
ali à mão
-
aqui tem, meu povo
ideal
solução...
nada
é mais barato
nada
de mais inútil!!!
perdão
enganei-me!
nada
é mais preciso
e
pronto a servir
para
o que precisa...
não
custa dois mil
nem
mil e quinhentos
a
nota de mil
dá
para levar
dois.
e paga (só) um.
é
assim, meu povo
não
há que enganar
nem
aqui estamos
p'ra
enganar ninguém.
é
aproveitar
sempre
mais barato
aqui
do que lá...
são
duas ali
p'r'aquelas
senhoras
outra
para além
para
aquele senhor...
aquele
cavalheiro
desculpe
o senhor!...
e
aqui também
p'r'aquela
menina...
é
sempre a aviar...
chega-me
essa manta
chega-me
essa caixa
e
essa toalha
esse
guarda-chuva
moderno
automático
e
esse também
dos
tempos antigos
de
bengala grossa
tamanho
de gente
que
alberga todos
tapa
chuva e sol
como
uma cabana
de
todas as cores...
chega-me
também
esse
cobertor
os
atoalhados
essas
mantas quentes
p'rá
noite e p'ró dia
e
esses conjuntos
de
lençóis flanela
de
pano e de linho
que
dá p'r'aquecer
encontros
de sonho
a
dois no quentinho
aconchegadinhos!
próprio
para pares
que
vão dormir juntos
noites
sem dormir...
...tudo
vem da fábrica
para
as mãos do povo
Ah!
mulher dum raio
homem
duma cana
no
me deixes mal...
nu
dás c'o imbrulho
e
o freguês espera
Ai!
que já nu prestas
nu
te quero mais
troco-te
na feira
por
quem me der mais
por
dois rapazolas
por
duas moçoilas
há'í
mais de cem
sem
quem os console
e
lhes diga: amém.
-
escuta, meu povo:
nu
me dá co'a caixa
aberta
ó fechada...
ah!
home dum raio,
nu
te quero mais...
oh
mulher danada
troco-te
na feira!...
nu
se vão embora
ora
oiçam cá...
é
tudo p'ró povo
só
p'ró vosso bem.
nem
o presidente
e
nem o governo
tratam
bem de vós
como
nós tratamos!
Vinde
a nós meu povo!
-
Fala agora tu
tu
ou vósmecê
pois
está na hora
de
dar a palavra
e
o microfone
ao
outro feirante.
-
tome lá a gaita...
ela
é toda sua...
é
a sua vez...
que
vende produtos
e
banha da cobra
p'ra
todos os males
para
o bem de todos...
venda
os seus produtos
mas
não gastem tudo
porque
logo à tarde
inda
aqui há mais
cá
nesta barraca...
é
banha da cobra
é
fala barato
é
andar à roda
com'um
carrocel
como
nos carrinhos
no
poço da morte
na
montanha russa
ou
roda gigante...
há
que procurar
um
pouco de tudo
ou
de tudo um pouco...
ele
é fruta seca
ou
cristalizada
é
queijo curado
do
da serra autêntico
e
aqui de serpa
ou
então dos montes
de
ovelha de cabra
e
do de mistura
...
torrão
d'alicante
presuntos
fumados
polvo
ressequido
torrado
na brasa
avelãs
e alhos
balões
coloridos
amendoins,
amêndoas
rádios
gravadores
com
auscultadores
quadros
e molduras
de
todas as cores
de
todos os temas
cópias
de pinturas
de
grande valor
de
nús e artistas
crianças
e flores...
-olha
a quele além!
a
lágrima é água
que
corre do olho...
só
lhe falta a fala
o
grito e o choro...
mas
que grande artista!
paisagens
fantásticas
que
não há no mundo
e
nos vai abrir
aquela
parede
que
é feia e que é fria...
corações
sagrados
carros
e paisagens
que
são da suiça
mas
que têm neve
que
aqui não há...
mas
inda há mais...
cassetes
piratas
que
gritam os tops
do
último artista
que
passa na rádio
e
na têvê-música
ele
é zé-malhão
ou
marco do pau
ou
o júlio igreijas
ou
o rui ventoso
ou
os miniestares
tudo
o que 'stá a dar
...
são
vasos e plantas
de
flores naturais
que
até parecem
artificiais
e
outras que tais
artificiais
mas
de tão perfeitas
quase
que parecem
mesmo
naturais
...com
vaso, sem vaso
p'ra
todos os gostos
e
depois barracas
de
santos e santas
terços
de enfeitar
e
até p'ra rezar...
senhoras
de fátima
de
barro, de vidro
corpo
iluminado
plástico
inquebrável
com
ficha, com luz,
a
pilhas, corrente!
de
lá transportadas
c'o
a virtude toda
e
com água santa
dentro
de garrafas
ou
mini frasquinhos!
-
é só uma nota.
são
só cem mil réis.
estas
mais pequenas
são
de lá-também
e
evita a viagem
e
tem'na virtude
para
todo o ano
lá
em sua casa...
é
sempre a aviar.
nem
se vê já bem
quem
é que tem fome!
quem
é que tem fé?
se
é aquele que vende
se
é aquele que compra
aquela
água benta
como
a água pé!?
e
há chocolate
que
é lá da suiça
feito
ali, d'espanha,
mesmo
garantido
c'os
restos do pó
de
bolos e doces
tudo
coisa boa!...
móveis,
candeeiros,
tudo
muito antigo
fabricado
agora
directo
da fábrica
...
são
bolos caseiros
feitos
aos montões
e
também mel puro
tudo
empacotado
e
bem fabricado
normas
CEE...
ou
já da UE
bem
empacotado
e
acondicionado
sacos
de feijões
de
todas as cores
brancos,
salpicados
castanhos-marron
ou
esverdeados
e
os encarnados
há
outros também
pró
amarelado
feijão
frade ou grão
favas
e ervilhas
pevides
e alhos
cebolas
e nabos
em
résteas trançados
cenouras
aos molhos
rábanos,
rabanetes
azeitonas
novas
pisadas
curtidas...
arco-íris
de cores
de
cheiros e sons
de
todos os tons
e
de todos os gostos!
toca
agora a banda
é
a bamba, o samba
ou
é a lambada
não
se sabe bem!!!?
uma
alentejana:
não
bebas em castro
não
matas a sede
cheira
a rosa a fonte
tudo
misturado
c'o
as canções da moda
tudo
em altos gritos
raminhos
de flores
junto
à cabeceira
os
amores perdidos
achados
na feira!
carrinhos
de lata
carrinhos
de pau...
como
o tempo passa!?
ai
valha-me deus!!!
agora
de plástico
p'ra
durarem mais.
filhós
e farturas
bolos,
malaquecos
e
frangos de campo
que
são d'aviário
a
meia ração
ou
talvez nem não
assados
no espeto
que
roda a motor
logo
ali ao lado
assado
na grelha
e
virado à mão
com
garfo e espeto
em
cima da brasa
e
mais uns pimentos
e
batata frita
em
óleo já preto
que
é azeite puro
puro
d'oliveira!!!
...
barriga
já cheia
canecas
bebidas
uns
copos virados!
mais
uma voltinha:
barracas
de tiro
um
de cada vez
flobert
afinada
p'racertar
ao lado
e
mil tentações
presas
às fitinhas...
são
só três tirinhos
a
nota de cem.
mas
não tem clientes!
só
mais logo à noite
pela
noite dentro
quando
as namoradas
querem
provas dadas
ou
não há p'r'onde ir
porque
a feira é farta
de
tudo.
ilusões!
de
amores passageiros
mas
amores inteiros
para
a vida inteira
não
nos tem a feira
ali
a vender!
ou
talvez quem sabe?
lá
vá encontrar
o
que tinha à mão
mesmo
ao pé da porta!
e
outros, sei lá?,
que
corriam mal
ali
vão saldar...
ali
vão soldar!?
...
ou
de madrugada
quando
os foliões
invadem
a feira
e
o vapor do álcool
dá
mais pontaria
e
afina o tiro
atirando
ao meio
das
duas figuras
que
pendem das fitas!!!
mas
que confusão!
e
a luz dos sons
barulho
das luzes
noite
mal dormida
ajudar
o tiro
e
a pontaria
na
guita na fita
que
ata a garrafa
a
boneca o brinde
que
sai na barraca...
carrocéis
gigantes
giram
sem parar
girafas,
cavalos,
motos
bicicletas,
carros
de corrida
rodando
parados
na
pista que gira
na
roda gigante
na
montanha russa
roda
e rodopia
ondas
alterosas
em
grandes banheiras
que
rodam girando
e
o rapaz que roda
vai
de borda em borda
cobrando
os bilhetes
numa
roda viva
música
estridente
gritos
dos de dentro
gritos
dos de fora
só
mais uma volta
p'ra
passar a outra
só
mais uma nota
logo
só mais uma...
e
a feira que é festa
é
feira de castro
ou
qualquer lugar
é
meio do mês
é
só uma vez
só
p'ró ano há outra
feira
como esta
feira
festa encontro
fronteira
de encontros
ou
de desencontros
de
buscas, procura
mas
mais d'ilusões...
na
feira de castro
na
feira d'alvito
feira
do cartaxo
como
noutras feiras
...
corre-se
parado
o
tempo, as pessoas
velhos
e crianças
o
espaço girando
nas
rodas gigantes
é
a feira que gira
não
sai do lugar
corre
o tempo, o espaço
que
ficam parados
e
a gente pasmada
anda
em roda viva
que
mesmo parada
é
feira que passa
...
passa
agora gente
todos
os modelos
que
todos reparam
sem
ninguém os ver...
o
menino bem
veste-se
à pastor
de
bota cardada
colete
bem feito
que
custa uma nota...
o
pastor de jeans
último
modelo
do
filme que viu
no
vídeo têvê
e
tem logo ali
na
feira de castro
a
moda que viu
chapéu
à cawboy
e
de camorcine
bota
caneleira
ou
de prateleira
ou
à alentejana
gibão
ou samarra
capote
e safões
mesmo
que o sol brilhe
...
casacos
de peles
ali
do alvito
de
vila de frades
ou
são cucufate...
mantas
de teares
antigo
de teias
armado
em castanho
que
apertam as malhas
fechadas
e presas
pela
lançadeira
e
outras que tais
das
tradicionais
feitas
já em série
...cobertores
de papa
meias
manuais
de
garridas cores
feitas
ao serão
dos
longos invernos
à
luz da lareira
pr'aquecer
o frio
do
inverno d'outros
que
as podem comprar...
...
e
há outra feira!
regresso
à infância
aos
tempos de outrora
guloseimas
várias
balões
coloridos
redondos,
ovais
forma
em coração
também
saltitões
bonbons,
rebuçados
brinquedos
doutrora
a
pomba o ciclista
e
o acrobata
que
salta na corda
carrinhos
de bois
pitas
debicando
na
tábua que é prato
a
servir de chão
e
também poleiro
...
mas
há uma falta:
não
há marionetas.
faltaram
à festa
o
mestre talhinhas
e
o seu teatro
a
sua magia
atrás
dos arames
e
panos de luz
a
contar pecados
dos
mais conhecidos
enquanto
contava
os
pecados d'eva
e
também d'adão
criação
do mundo
vicentinos
autos
autos
populares
onde
o mestre leu
a
sua mestria
colhendo
a magia
a
arte e o som
de
todos os tempos
que
não passam mais
mas
ora não passam
não
estão a dar!...
quem
pode lutar
co'as
cores da têvê
co'as
caixas de som
co'as
caixas de jogos
co'as
lendas já feitas
por
especialistas?
Mas
faltaram mais
faltaram!...
não faltam
os
dois vultos grandes
poetas
de fama
de
todos lembrados
de
todo esquecidos
o
António Aleixo
vindo
do Algarve,
o
Manel de Castro
vindo
ali da Cuba
que
esperam lembrança
painel
colorido
silhueta
em bronze
de
dois vultos nobres
monumento
erguido
aos
versos corridos
rimas
repentinas
despiques
satíricos
bravas
desgarradas
jogando
ao baldão
com
rimas cruzadas
e
rimas dobradas
quadras
espelhadas
que
tecem oitavas
de
rima quadrada...
ou
então desdobram
décimas
tecidas
de
sábias rimas
e
entoações
segredo
guardado
pela
tradição
em
que analfabetos
sábios
e pensantes
dão
suas lições
a
muitos doutores!...
ditos
sabichões!...
Inda
há o baldão
de
toada morna
lenta
e hesitante
à
roda dum copo
dum
petisco farto
a
cantar louvores
de
língua afiada
crítica
mordaz
aos
grandes senhores
que
não fazem nada...
dizem
fazer tudo
e
são presidentes
ou
são dirigentes
de
tudo e de nada!...
e
tudo isto rola
ao
som da viola
de
cordas d arame
que
é a campaniça
a
ferir os dedos
duros
calejados
com
seu som metálico
tal
como as palavras
em
verso lançadas
acertam
certeiras
sem
errar o alvo!..
Depois
aparecem
os
poetas vivos
que
não sabem ler...!
dizem
os doutores!
são
analfabetos!!!
sabem
escrever
palavras
diferentes
que
se não escrevem
e
editam seus livros
para
a feira ouvir
com
versos que nascem
no
seu coração
todo
o ano e hora
como
fonte viva
jorrando
às golfadas
e
em borbotões...
...
mas
ainda há mais...
há
carros de lata
e
agora modernos
doutros
materiais
com
portas a abrir
faróis
a piscar
mais
sofisticados
com
comando rádio
e
teleguiados
brinquedos
do espaço
que
são fantasia.
não
saem do chão
mas
sobem e voam
nas
asas do sonho
da
imaginação
...
cruzamento
de eras
desencontro
encontro
passado
e futuro
passando
o presente.
é
assim a feira
são
assim as feiras
...
na
feira de castro
alvito
ou cartaxo,
fronteira
de encontros
e
de desencontros!
o
presente escapa
pelo
descampado
dos
campos de ourique...
a
batalha-história
que
nunca existiu...?
dos
cinco reis mouros
e
afonso henriques
que
nunca aqui 'steve?!
ou
talvez quem sabe?!!!
pela
cruz guiado
in
hoc signo vinces
sinal
de vitória
armado
em cruzado
pinta
o seu guião
com
as cinco quinas
as
chagas de cristo
ou
cinco reis mouros
ou
cinco castelos
luta
co'a moirama
as
armas cruzadas
tudo
numa fona
cristãos
e mafoma
alá
e javé
moisés
maomé
os
da meia lua
os
da cruz-crescente
santiago
aos mouros
morte
aos infiéis...
por
mafoma a morte
aos
perros cristãos
nascente
ocidente
o
sul contra o norte
em
luta de morte
regresso
ao futuro
do
tempo passado
no
tempo presente
nasceu
portugal
meu
torrão natal
à
beira do mar
olhando
o além
para
descobrir
matando
o futuro
mas
crendo o futuro
e
querendo tudo
o
que havia de vir
os
descobrimentos
esp'rado
encoberto
camões,
fernão lopes
vieira,
bandarra
fernando
pessoa
e
o quinto império
povo
do passado
fazendo
o futuro
...
mas
inda há mais
nesta
feira farta
onde
inda há de tudo
...
há
a vendedeira
morena
entre as cores
dos
bons figos secos
outros
recheados
de
amêndoa ou de nozes
que
fazem crescer
a
água na boca
onde
o dente encontra
algo
p'ra trincar
morder
e roer...
castanhas
assadas
outras
para assar
amendoas
com casca
ou
já descascadas
cocas
(diga côcas!) ou amargas
pinhões
aos pacotes
e
ameixas secas
nozes
aos taleigos
azeitona
verde
outra
já pisada
a
balança que dança
que
dança e balança
c'um
toque da mão
sempre
peso certo
pesa
p'ró freguês...
balança
moderna
mais
fiel e certa
ladina
cigana
vai
vendendo a fruta
e
fazendo as contas
as
contas da vida
numa
lufa-lufa
de
notas e trocos
riso
cativante
e
olhos brilhantes
cativa
o freguês
ou
talvez quem sabe...
lá
p'ró fim da noite
logo
se há-de ver...
e
enquanto avia
pesa
e faz os trocos
há
quem se aproveite
para
se aviar
lá
por conta própria
sem
esperar a vez
...
é
assim a feira
a
feira de castro
a
de castro verde
como
tantas outras
alvito
e cartaxo
guarda,
trás-os-montes
abela,
redondo
fundão,
santa iria
monchique,
alcobaça
chaves,
vila franca
vermoil,
penalva
vieira
do minho
borba,
golegã
cercal
de valença
e
penafiel
portimão
também
melides
e mafra
mangualde,
candossa
e
até mesão frio
pedrógão
o grande
e
tantas tão grandes
em
tanto lugar...
é
só ver a lista
daquele
almanaque
ou
do bord'água...
com
tanto p'ra ver
pra
dar ó menino
pra
dar à menina...
e
p'ra si também...
pra
si e pra si...
não
se 'steja a rir
aqui
há pra todos
mil
coisas modernas
tudo
novidades
já
velhas de séculos...
e
até tarecos
e
outros bonecos
que
você precisa
pra
pôr na parede
e
na prateleira
qu'está
lá tão nua
sem
graça nenhuma...
e
então as amigas
quando
isso virem
vão
gritar d'inveja:
compraste
na feira?!!!
que
sorte tiveste!
eu
nada encontrei
que
gosto tivesse!!!
há
barros e loiças
os
pratos, os potes
os
panos, as calças
casacos,
camisas
e
meias aos maços...
roupas
interiores
cuequinhas
com rendas
todos
os tamanhos
todos
os feitios
umas
são só fita
quase
sem ter pano
tapar
sem tapar
é
esse o engano
no
há no mercado
há
aqui na feira
as
mais provocantes
o
mais esquisito...
e
a feira do gado
cavalos
e burros
com
éguas e moscas
todos
luzidios
dentes
sãos brilhantes
potros
brincalhões
animais
esbeltos
em
demonstrações
corridas
e trotes
em
exibições...
e
os burros prestáveis
que
grandes negócios
que
grandes barretes
ciganos
campónios
campónios
ciganos
é
um meio mundo
a
enganar o outro
e
todos no fim
lá
partem felizes
de
ter enganado
de
ser enganados
...
são
assim as feira!
são
feiras d'encontros
e
de desencontros
que
é feira fronteira
de
espaços e tempos
de
sons e de luzes
sonhos
ilusões
e
realizações
que
ali se mercam
por
alguns tostões
...
acabou
a feira.
passaram
três dias
que
foi um só dia.
a
festa acabou.
foguete
de lágrimas
que
subiu bem alto
e
logo chorou
em
chuva de luzes
e
se apagou.
inchado
balão
de
cores fantasia
que
de tanto inchar
logo
rebentou.
os
restos da feira
são
rastos de gente
marcados
na lama
barracas
desfeitas
de
furos no chão
esqueletos
ocos
a
desolação
no
campo deserto
voando
cartões
pelo
descampado
voam
papelões
papéis
coloridos
plásticos
ao vento
caixas
de ilusões
que
voam se arrastam
que
dançam chafurdam
em
charcos de lama
em
regos de chuva
em
sulcos cavados
mastros
desolados
despidos
fantasmas
...
e
o chão explorando
lá
esgravatando
além
rebuscando
o
chão revolvendo...
cigano
atrevido
garoto
ladino
pedinte
de fome...
buscando
o perdido
que
outro perdeu
o
seu saco encheu!...
e
as gentes da feira
que
foi festa louca
já
longe dali
de
corpo cansado
ideia
iludida
que
quis ilusão
desilusão
querida
que
tolda e anima
que
mata e dá vida
que
morre e vicia
qual
droga maligna
que
anima, dá vida...
renasce
em esperança
de
nova ilusão
p'ró
ano que vem
ou
lápr'ó natal
ou
p'ró s.joão
ou
lá mais pr'ó verão
pr'á
feira futura
que
é o dia a dia
da
roda da vida
sempre
em roda viva.
deram
vida à feira?
a
feira deu vida!?
a
feira findou.
a
vida não finda.
FINDOU
ESTA FEIRA
a
feira de castro
fronteira
de encontros
de
encontros cruzados
de
tempos espaços
de todas as gentes
algarve
alentejo
do
norte e do sul
de
este e d'oeste.
FINDOU
ESTA FEIRA
FRONTEIRA
DE ENCONTROS
E
DE DESENCONTROS
DE
ENCONTROS FECUNDOS
D'ENCONTROS
FORTUITOS
PASSADO
E PRESENTE
REGRESSO
AO FUTURO
REGRESSO
AO PASSADO
NA
FEIRA ENCONTRADO.
findou
esta feira
a
feira de castro
como
as outras feiras
a
feira do alvito
e
a do cartaxo
da
régua amarante
a
feira dos santos
a
de são miguel
a
de são gonçalo
a
dos santos todos
de
todos os mortos
de
todas as gentes
todos
os produtos
e
divertimentos
...
as
feiras gerais
quais
outras que tais
de
mês sasonais
são
todas iguais
todas
tão diferentes
de
ano p'ra ano
duma
terra e outra...
OH!
como era dantes?!!!
Já
nada se faz
como
antigamente!!!
OH!
as do meu tempo?!!!
aquilo
é que era!!!
Mudaram
as feiras?
ou
foi o feirante
o
jovem d'outrora
que
voltou à feira
a
ver se lá'stava???
e
não'stava!... pena?!!!
ou
vida que roda
que
cresce e que vive?
Aquilo
é que era
viver
sensações
de
sons e de cores
de
gostos e cheiros
d'imaginação
sonhos
ilusões
fartura
que abunda
quando
muito falta
é
ouvir e ver
gostar
e cheirar
sentir
encontrões
andar
e correr
beber
vibrações
que
voam no ar
pensar
e sonhar
ver
imaginar
sentir
ilusões
crer
desilusões
querer
ambições
cansar
p'ra dormir
e
p'ra descansar
sonhar
acordado
dormir
p'ra sonhar
morrer
p'ra viver
uma
vida nova...
tornar
a viver
p'ra
depois morrer...
AS
FEIRAS SÃO FEIRAS
DUMA
VIDA INTEIRA
VIVIDA
D'INTEIRO
C'OS
SETE SENTIDOS
QUE
VIDA NOS DÁ.
E
P'RA SER VIVIDA
POR
TODOS OS POROS
SEM
INTERMITÊNCIAS
TUDO
DUMA VEZ
TUDO
INTERLIGADO
INTERSECCINISMO
CUBISMO
INVENTADO
PARA
SE VER TUDO
DE
TODOS OS LADOS
SEMPRE
AO MESMO TEMPO
SEMPRE
REPARTIDO.
VIDA
REPARTIDA
NUM
TEMPO SENTIDA
NUM
TEMPO ESQUECIDA
TEM
DE SER EM CHEIO
EM
PLENO VIVIDA...
TEM
DE SER JOGADA
JOGAR
TUDO OU NADA
SÓ
NUMA CARTADA...
LÁ
DIZ O POETA
que
não ia em/a feiras...
-P'RA
VIVER A VIDA
SENTINDO
A POESIA
EM
TRAGOS INTEIROS
EM
GOLOS GLUTÕES
EM
TUDO SENTINDO
VIDA
AOS BORBOTÕES
EM
PLENO VIVIDA?!!!...
SÓ
QUANDO A RAZÃO
QUE
TUDO COMANDA
NO
MUNDO REAL
DITO
RACIONAL...
PUDER
SER MANDADA
E
BEM GOVERNADA
PELO
CORAÇÃO
QUE
TUDO COMANDA
NO
MUNDO REAL
DO
IRRACINAL
QUE
ÀS VEZES,QUEM SABE?,
COMO
A AVÓ DIZIA
AO
CONTAR HISTÓRIAS
DE
FADAS PRINCESAS
DE
MAGOS E BRUXOS
E
DE BELOS PRÍNCEPES
QUE
DEPOIS CASAVAM...
TINHAM
MUITOS FILHOS...
E
ERAM FELIZES
PARA
TODO O SEMPRE!!!...
É
BEM MAIS REAL
E
MAIS RACIONAL
QUE
O MUNDO REAL
QUE
JULGAMOS VER.
isto é um folheto
de
vender na feira
na
feira de castro
alvito
ou cartaxo
no
ano dois mil
daqui
a mil anos.
agora
não presta.
são
vãs redondilhas
que
voam c'o vento
que
já ninguém ouve!
nem
já se dão conta
que
o vento as envolve!
sem
vento morriam!
sem
ar nem viviam!
no
ano dois mil
e
mais trinta e oito
que
é centenário
do
pobre poeta
ceguinho
de gota
serena
no olho
de
nome penedo
de
alcunha penetra
de
sina cigano
e
de cor: castanho...
que
não é autor
que
não é poeta
como
foi PESSOA...
nem
é verdadeiro.
é
outro poeta
alberto
caeiro
que
guarda rebanhos
guardando
seus sonhos
e
é andarilho
romeiro
de feiras...
no
ano dois mil
e
mais trinta oito
ou
mais trinta mil...
o
qu'interessa o tempo
se
o tempo é ficção
como
são os versos?
aí,
vão-nos ler.
vão
dizer. coitado
o
pobre poeta
incompreendido
se
vivesse hoje
era
idolatrado!!!
assim
já morreu!
já
não incomoda!
dá-se-lhe
o nome
p'ra
pôr numa escola
ou
rua deserta
e
pronto, acabou-se
cumpriu-se
a promessa
honrou-se
a memória
do
poeta louco
que
nasceu, asar!,
fora
do seu tempo
e
viveu e viu
as
coisas que os outros
não
podiam ver...
ACABOU
A FEIRA.
FICOU
O RETRATO
QUE
NÃO É POEMA
NEM
É BEM POESIA
NEM
FOTOGRAFIA.
QUERIA
SER PINTURA
ATÉ
PARTITURA
OU
UMA ESCULTURA
OU
UMA VARINHA
DESSAS
DE CONDÃO
OU
UMA CANÇÃO...
MAS
DEU REDONDILHAS...
AS
VÃS REDONDILHAS
BOLAS
DE SABÃO
LANÇADAS
AO VENTO
QUE
LOGO REBENTAM
E
FICAM SÓ AR...
E
TODOS O SENTEM
TODOS
O RESPIRAM
E
SABEM QUE EXISTE
E
SEM ELE NÃO VIVEM...
MAS
NINGUÉM O VÊ
E
NINGUÉM O TEM...
ASSIM
ESTES VERSOS
QUE
VOAM NO VENTO
E
SENDO DE TODOS
NÃO
SÃO DE NINGUÉM!!!
OLHA
A PARVOÍCE:
O
POETA DIZ
O
QUE TODOS DIZEM
OU
ATÉ PENSARAM
E
SABEM DIZER
MELHOR
DO QUE ELE!!!
PORQUE
SE MAÇOU?!!!
COITADO
do pobre!
pensava
poder
dar
alguma coisa!!!
depois,
afinal
só
deu de presente
o
que os outros têm
já
demasiado
e
não mata a fome
não
enche barriga...
A
fome que mata
não
a têm eles!
Que
morra de fome
se
só sabe dar
versos
e poemas...
petas
e patranhas
que
dizem verdades!!!
...
rolaram
palavras
rolam
redondilhas
retratos
cruzados
em
sons registados
que
são escritura.
retratos
cruzados
rostos
sobrepostos
de
gentes e coisas
no
mágico quadro
sempre
actualizado
desactualizado
cantando
o passado
COMPROMETEDOR
todo
promissor
já
vendo o futuro
futuro
sonhado
todo
promissor
ou
PROMETEDOR?
para
o poder ver
futuro
passado
fica
registado
em
computador
ou
ordenador
qu'ié
processador
de
textos e sonhos
DA
FEIRA DA VIDA.
ACABOU
A FEIRA!!!
A
FEIRA DA VIDA!!!
COMEÇOU
A FEIRA!!!
A
FEIRA DA VIDA!!!
SENHORAS,
SENHORES,
MENINOS,
MENINAS!!!
ACABOU
A FEIRA!!!
COMEÇOU
A FEIRA!!!
A
FEIRA DA VIDA!!!

cigano castanho
andarilho
de feiras
também
zé penedo
1ª
versão
outubro
de 87
2ª
versão
outubro
de 89
3ªversão
outubro
de 91
penedo
gordo
beja
31/10/91
4ª
- outubro de 93?...
5ª
- Janeiro de 1995
trabalho acabado de escrever
e
realizar
em
WinWord
C
486-66c
complementado
com uma centena de fotografias e diapositivos
@
JORAGA
Penedo
Gordo, Beja
1993/94
1994/95
Com
adaptação em Janeiro de 1995, especialmente para o
grupo de teatro da escola secundária de Corroios 1, que se
atreveu a sonhar dramatizar este desconcerto de encontros e desencontros

Por
se tratar de um DOCUMENTO bastante extenso - e por nos parecer importante
aparecer com uma ILUSTRAÇÃO adequada... cheia de IMAGENS...
e de CORES... e de GENTES... em breve será apresentado como
eBook ou noutra PÁGINA PRÓPRIA (feira_de_castroverde
com mais NOTAS) nesta TEIA interminável desta REDE inesgotável
- em joraga.net/a_minha_teia_na_rede ... ou, enviada a pedido...
No Outono de 2003, esta obra foi publicada pela
e-libro
Tem como título A
FEIRA, de José
Penedo de Castro, A Feira de Castro Verde vista por um cigano
Castanho andarilho de feiras... e pode ser pedido no formato virtual
para transferência ou sob o formato em papel

para
voltar a Gil Vicente
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