Gil Vicente 500

Vida GV de 1460/70 a 1502 a 1536/38
500 anos de GV - de 1960 - 2002 - 2038

78 anos a celebrar o 5ºCGV como reNASCIMENTO de um TEATRO a partir da RAIZ
por José Gil Vicente da Beira e outros deNÓMIOS...

Obras de Gil Vicente:
PANORÂMICA

as 47 uma a uma

 

A FEIRA DE CASTRO vista por um CIGANO CASTANHO andarilho de feiras

A FEIRA DE CASTRO VERDE

AS FEIRAS EM VÃS REDONDILHAS

penedo gordo - BEJA 1987/1991/1993/94/95

A FEIRA DE CASTRO

DE TODAS AS FEIRAS

DE TODAS AS PALAVRAS

DETODOS OS SIGNOS

DE TODOS OS SÍMBOLOS

DE TODOS OS ÍCONES

DE TODOS OS ÍNDICES

TODOS OS INDÍCIOS

...

título
AFEIRA DE CASTRO - AS FEIRAS

autor
CIGANO CASTANHO andarilho de feiras

1ª versão
@amstrad pcw8256 joraga beja,1987

2ª versão
@ IBM PS/1 JORAGA, P.Gordo, Beja, 1991

3ª versão
@ JORAGA - C 486-33c, P.Gordo, Beja 1993/94

4ª versão
@ JORAGA - C 486-66c, P.Gordo, Beja 1994/95

5ª v. p/ o Grupo de Teatro da Esc.Sec. CORROIOS,1
@ JORAGA - C 486-66c, P.Gordo, Beja JAN/95

a feira de castro

a de castro verde

como as outras feiras

as das outras terras...

são todas iguais.

são todas diferentes.

eu canto a de castro

como signo imagem

de milhares de feiras

de milhares de terras...

essa aonde vai

a da sua terra

A FEIRA DE ...

é a sua (minha) feira.

a quem a dedico?

esta feira imagem?

à feira - às feiras

à festa - às festas

a todos aqueles

que fazem a feira...

ciganos, feirantes,

gente da limpeza

que por vezes chamam

a gente do lixo...

aos mestres que mandam

aos homens que cavam

aos pulsos que erguem

estacas e mastros

e aos magos das luzes

que estendem mil fios...

e às mãos que enfeitam

balões e lanternas

que enchem a feira

duma ponta à outra

para todos verem

sem ninguém as ver...

e aos das barracas

aos magos e fadas

que trazem em caixas

todas as surpresas

que vão encantar

os mil compradores

mesmo que não comprem

a feira de castro

de todas as feiras

de todos os signos

de todos os símbolos

de todos os índices

todos os indícios

todas as palavras

mesmo sem palavras

...

a feira de castro

fronteira de encontros

de encontros cruzados

de tempos espaços

de todas as gentes

algarve - alentejo

do norte e do sul

de este e d' oeste

a feira de castro

feira do alvito

feira do cartaxo

as feiras dos santos

do norte e do centro

do centro e do sul

do minho e das beiras

trás-os-montes douro

alentejo algarve

...

a feira de castro

do século XVII

(1620) seiscentos e vinte

Filipe III

com seu TERRADEGO

p’ró Senhor das Chagas

‘inda vive agora

nos anos oitenta

nos anos noventa

nos anos dois mil...

encontro de gentes

encontro de tempos

de tempos cruzados

de gentes cruzadas...

gente das cidades

gente das aldeias

gente ‘inda dos montes

que acorrem à feira

p'ra sobreviver

p'ra ver outros mundos.

a feira de castro

de espaços cruzados

de cores e de sons

de cheiros e gostos

de sensibilidades...

a feira de castro

fronteira de povos

que são um só povo

algarve alentejo

desvairadas gentes

de muitos lugares

país portugal

e nuestros hermanos

e muitos turistas

de muitos países...

a feira de castro

troca de produtos

de comes e bebes

de subsistência

de tempos antigos

de gostos passados

talvez gulodices

nestes tempos novos:

romãs azeitonas

castanhas e nozes

amêndoas pinhões

favas e ervilhas

figos avelãs

cereais feijões

rubros diospiros..

a feira de castro

d'utensílios sãos

sólidos pesados

de são material...

tábuas e masseiras

e pás para o forno

arcas e arcazes

varas e escadas

para varejar

de cestos e cestas

para enceleirar

cadeiras de verga

tabua (diga tabúa) salgueiro

mil coisas de palha

para ornamentar

mil coisas de bunho

para rechear

a casa do bairro

vivenda ou do monte

onde vai passar

este longo inverno

rolar de estações

de tempos e eras...

a feira de castro

de grandes barracas

de comes e bebes

barracas de tiro

-é só um tirinho,

vá lá, ó freguês

essa pontaria!...

de cobres e latas

e de bugigangas

de barro de plástico

de couro e madeira

mantas e sapatos

botas e chinelos

capotes casacos

safões e samarras

coletes e calças

saias e vestidos

chapéus e gibões

pelicos e capas...

a feira de castro

carrinhos de choque

carrocéis corridas

- é nova corrida

é nova viagem

comprem o bilhete

um molho de senhas

grande circo jumbo

circo cardinali

circo universal...

ou circo da vida

- é entrar senhores

meninos meninas

hoje é só palhaços

e grandes vedetas

coisas nunca vistas

d'outros continemtes

de grandes estrelas

de grande renome

internacional

a feira de castro

como as outras feiras

é o grande circo

das gentes que correm

da gente dos montes

gente das cidades

em busca de tudo

em busca de nada

- venho só p'ra ver!

-atão e não compra

nada desta vez?...

em busca de tudo

em busca de nada

atrás de ilusões

de fios de lã

fios de algodão

do que já não há

e havia dantes...

algodão açúcar

mantas cobertores

casacos capotes

cultura, culturas

botas e sapatos

chinelos tamancas

tudo artesanal

ou então moderno

de tela de plástico...

qualquer ferramenta

de há tanto urgente

agora encontrada

agora inventada

parece um milagre

de tão procurada

p'ra tanto conserto

- parece um concerto! -

p'ra tanta demão

remédio p'ra tudo

uma solução

já tão procurada

e ali à mão

- aqui tem, meu povo

ideal solução...

nada é mais barato

nada de mais inútil!!!

perdão enganei-me!

nada é mais preciso

e pronto a servir

para o que precisa...

não custa dois mil

nem mil e quinhentos

a nota de mil

dá para levar

dois. e paga (só) um.

é assim, meu povo

não há que enganar

nem aqui estamos

p'ra enganar ninguém.

é aproveitar

sempre mais barato

aqui do que lá...

são duas ali

p'r'aquelas senhoras

outra para além

para aquele senhor...

aquele cavalheiro

desculpe o senhor!...

e aqui também

p'r'aquela menina...

é sempre a aviar...

chega-me essa manta

chega-me essa caixa

e essa toalha

esse guarda-chuva

moderno automático

e esse também

dos tempos antigos

de bengala grossa

tamanho de gente

que alberga todos

tapa chuva e sol

como uma cabana

de todas as cores...

chega-me também

esse cobertor

os atoalhados

essas mantas quentes

p'rá noite e p'ró dia

e esses conjuntos

de lençóis flanela

de pano e de linho

que dá p'r'aquecer

encontros de sonho

a dois no quentinho

aconchegadinhos!

próprio para pares

que vão dormir juntos

noites sem dormir...

...tudo vem da fábrica

para as mãos do povo

Ah! mulher dum raio

homem duma cana

no me deixes mal...

nu dás c'o imbrulho

e o freguês espera

Ai! que já nu prestas

nu te quero mais

troco-te na feira

por quem me der mais

por dois rapazolas

por duas moçoilas

há'í mais de cem

sem quem os console

e lhes diga: amém.

- escuta, meu povo:

nu me dá co'a caixa

aberta ó fechada...

ah! home dum raio,

nu te quero mais...

oh mulher danada

troco-te na feira!...

nu se vão embora

ora oiçam cá...

é tudo p'ró povo

só p'ró vosso bem.

nem o presidente

e nem o governo

tratam bem de vós

como nós tratamos!

Vinde a nós meu povo!

- Fala agora tu

tu ou vósmecê

pois está na hora

de dar a palavra

e o microfone

ao outro feirante.

- tome lá a gaita...

ela é toda sua...

é a sua vez...

que vende produtos

e banha da cobra

p'ra todos os males

para o bem de todos...

venda os seus produtos

mas não gastem tudo

porque logo à tarde

inda aqui há mais

cá nesta barraca...

é banha da cobra

é fala barato

é andar à roda

com'um carrocel

como nos carrinhos

no poço da morte

na montanha russa

ou roda gigante...

há que procurar

um pouco de tudo

ou de tudo um pouco...

ele é fruta seca

ou cristalizada

é queijo curado

do da serra autêntico

e aqui de serpa

ou então dos montes

de ovelha de cabra

e do de mistura

...

torrão d'alicante

presuntos fumados

polvo ressequido

torrado na brasa

avelãs e alhos

balões coloridos

amendoins, amêndoas

rádios gravadores

com auscultadores

quadros e molduras

de todas as cores

de todos os temas

cópias de pinturas

de grande valor

de nús e artistas

crianças e flores...

-olha a quele além!

a lágrima é água

que corre do olho...

só lhe falta a fala

o grito e o choro...

mas que grande artista!

paisagens fantásticas

que não há no mundo

e nos vai abrir

aquela parede

que é feia e que é fria...

corações sagrados

carros e paisagens

que são da suiça

mas que têm neve

que aqui não há...

mas inda há mais...

cassetes piratas

que gritam os tops

do último artista

que passa na rádio

e na têvê-música

ele é zé-malhão

ou marco do pau

ou o júlio igreijas

ou o rui ventoso

ou os miniestares

tudo o que 'stá a dar

...

são vasos e plantas

de flores naturais

que até parecem

artificiais

e outras que tais

artificiais

mas de tão perfeitas

quase que parecem

mesmo naturais

...com vaso, sem vaso

p'ra todos os gostos

e depois barracas

de santos e santas

terços de enfeitar

e até p'ra rezar...

senhoras de fátima

de barro, de vidro

corpo iluminado

plástico inquebrável

com ficha, com luz,

a pilhas, corrente!

de lá transportadas

c'o a virtude toda

e com água santa

dentro de garrafas

ou mini frasquinhos!

- é só uma nota.

são só cem mil réis.

estas mais pequenas

são de lá-também

e evita a viagem

e tem'na virtude

para todo o ano

lá em sua casa...

é sempre a aviar.

nem se vê já bem

quem é que tem fome!

quem é que tem fé?

se é aquele que vende

se é aquele que compra

aquela água benta

como a água pé!?

e há chocolate

que é lá da suiça

feito ali, d'espanha,

mesmo garantido

c'os restos do pó

de bolos e doces

tudo coisa boa!...

móveis, candeeiros,

tudo muito antigo

fabricado agora

directo da fábrica

...

são bolos caseiros

feitos aos montões

e também mel puro

tudo empacotado

e bem fabricado

normas CEE...

ou já da UE

bem empacotado

e acondicionado

sacos de feijões

de todas as cores

brancos, salpicados

castanhos-marron

ou esverdeados

e os encarnados

há outros também

pró amarelado

feijão frade ou grão

favas e ervilhas

pevides e alhos

cebolas e nabos

em résteas trançados

cenouras aos molhos

rábanos, rabanetes

azeitonas novas

pisadas curtidas...

arco-íris de cores

de cheiros e sons

de todos os tons

e de todos os gostos!

toca agora a banda

é a bamba, o samba

ou é a lambada

não se sabe bem!!!?

uma alentejana:

não bebas em castro

não matas a sede

cheira a rosa a fonte

tudo misturado

c'o as canções da moda

tudo em altos gritos

raminhos de flores

junto à cabeceira

os amores perdidos

achados na feira!

carrinhos de lata

carrinhos de pau...

como o tempo passa!?

ai valha-me deus!!!

agora de plástico

p'ra durarem mais.

filhós e farturas

bolos, malaquecos

e frangos de campo

que são d'aviário

a meia ração

ou talvez nem não

assados no espeto

que roda a motor

logo ali ao lado

assado na grelha

e virado à mão

com garfo e espeto

em cima da brasa

e mais uns pimentos

e batata frita

em óleo já preto

que é azeite puro

puro d'oliveira!!!

...

barriga já cheia

canecas bebidas

uns copos virados!

mais uma voltinha:

barracas de tiro

um de cada vez

flobert afinada

p'racertar ao lado

e mil tentações

presas às fitinhas...

são só três tirinhos

a nota de cem.

mas não tem clientes!

só mais logo à noite

pela noite dentro

quando as namoradas

querem provas dadas

ou não há p'r'onde ir

porque a feira é farta

de tudo.

ilusões!

de amores passageiros

mas amores inteiros

para a vida inteira

não nos tem a feira

ali a vender!

ou talvez quem sabe?

lá vá encontrar

o que tinha à mão

mesmo ao pé da porta!

e outros, sei lá?,

que corriam mal

ali vão saldar...

ali vão soldar!?

...

ou de madrugada

quando os foliões

invadem a feira

e o vapor do álcool

dá mais pontaria

e afina o tiro

atirando ao meio

das duas figuras

que pendem das fitas!!!

mas que confusão!

e a luz dos sons

barulho das luzes

noite mal dormida

ajudar o tiro

e a pontaria

na guita na fita

que ata a garrafa

a boneca o brinde

que sai na barraca...

carrocéis gigantes

giram sem parar

girafas, cavalos,

motos bicicletas,

carros de corrida

rodando parados

na pista que gira

na roda gigante

na montanha russa

roda e rodopia

ondas alterosas

em grandes banheiras

que rodam girando

e o rapaz que roda

vai de borda em borda

cobrando os bilhetes

numa roda viva

música estridente

gritos dos de dentro

gritos dos de fora

só mais uma volta

p'ra passar a outra

só mais uma nota

logo só mais uma...

e a feira que é festa

é feira de castro

ou qualquer lugar

é meio do mês

é só uma vez

só p'ró ano há outra

feira como esta

feira festa encontro

fronteira de encontros

ou de desencontros

de buscas, procura

mas mais d'ilusões...

na feira de castro

na feira d'alvito

feira do cartaxo

como noutras feiras

...

corre-se parado

o tempo, as pessoas

velhos e crianças

o espaço girando

nas rodas gigantes

é a feira que gira

não sai do lugar

corre o tempo, o espaço

que ficam parados

e a gente pasmada

anda em roda viva

que mesmo parada

é feira que passa

...

passa agora gente

todos os modelos

que todos reparam

sem ninguém os ver...

o menino bem

veste-se à pastor

de bota cardada

colete bem feito

que custa uma nota...

o pastor de jeans

último modelo

do filme que viu

no vídeo têvê

e tem logo ali

na feira de castro

a moda que viu

chapéu à cawboy

e de camorcine

bota caneleira

ou de prateleira

ou à alentejana

gibão ou samarra

capote e safões

mesmo que o sol brilhe

...

casacos de peles

ali do alvito

de vila de frades

ou são cucufate...

mantas de teares

antigo de teias

armado em castanho

que apertam as malhas

fechadas e presas

pela lançadeira

e outras que tais

das tradicionais

feitas já em série

...cobertores de papa

meias manuais

de garridas cores

feitas ao serão

dos longos invernos

à luz da lareira

pr'aquecer o frio

do inverno d'outros

que as podem comprar...

...

e há outra feira!

regresso à infância

aos tempos de outrora

guloseimas várias

balões coloridos

redondos, ovais

forma em coração

também saltitões

bonbons, rebuçados

brinquedos doutrora

a pomba o ciclista

e o acrobata

que salta na corda

carrinhos de bois

pitas debicando

na tábua que é prato

a servir de chão

e também poleiro

...

mas há uma falta:

não há marionetas.

faltaram à festa

o mestre talhinhas

e o seu teatro

a sua magia

atrás dos arames

e panos de luz

a contar pecados

dos mais conhecidos

enquanto contava

os pecados d'eva

e também d'adão

criação do mundo

vicentinos autos

autos populares

onde o mestre leu

a sua mestria

colhendo a magia

a arte e o som

de todos os tempos

que não passam mais

mas ora não passam

não estão a dar!...

quem pode lutar

co'as cores da têvê

co'as caixas de som

co'as caixas de jogos

co'as lendas já feitas

por especialistas?

Mas faltaram mais

faltaram!... não faltam

os dois vultos grandes

poetas de fama

de todos lembrados

de todo esquecidos

o António Aleixo

vindo do Algarve,

o Manel de Castro

vindo ali da Cuba

que esperam lembrança

painel colorido

silhueta em bronze

de dois vultos nobres

monumento erguido

aos versos corridos

rimas repentinas

despiques satíricos

bravas desgarradas

jogando ao baldão

com rimas cruzadas

e rimas dobradas

quadras espelhadas

que tecem oitavas

de rima quadrada...

ou então desdobram

décimas tecidas

de sábias rimas

e entoações

segredo guardado

pela tradição

em que analfabetos

sábios e pensantes

dão suas lições

a muitos doutores!...

ditos sabichões!...

‘Inda há o baldão

de toada morna

lenta e hesitante

à roda dum copo

dum petisco farto

a cantar louvores

de língua afiada

crítica mordaz

aos grandes senhores

que não fazem nada...

dizem fazer tudo

e são presidentes

ou são dirigentes

de tudo e de nada!...

e tudo isto rola

ao som da viola

de cordas d’ arame

que é a campaniça

a ferir os dedos

duros calejados

com seu som metálico

tal como as palavras

em verso lançadas

acertam certeiras

sem errar o alvo!..

Depois aparecem

os poetas vivos

que não sabem ler...!

dizem os doutores!

são analfabetos!!!

sabem escrever

palavras diferentes

que se não escrevem

e editam seus livros

para a feira ouvir

com versos que nascem

no seu coração

todo o ano e hora

como fonte viva

jorrando às golfadas

e em borbotões...

...

mas ainda há mais...

há carros de lata

e agora modernos

doutros materiais

com portas a abrir

faróis a piscar

mais sofisticados

com comando rádio

e teleguiados

brinquedos do espaço

que são fantasia.

não saem do chão

mas sobem e voam

nas asas do sonho

da imaginação

...

cruzamento de eras

desencontro encontro

passado e futuro

passando o presente.

é assim a feira

são assim as feiras

...

na feira de castro

alvito ou cartaxo,

fronteira de encontros

e de desencontros!

o presente escapa

pelo descampado

dos campos de ourique...

a batalha-história

que nunca existiu...?

dos cinco reis mouros

e afonso henriques

que nunca aqui 'steve?!

ou talvez quem sabe?!!!

pela cruz guiado

in hoc signo vinces

sinal de vitória

armado em cruzado

pinta o seu guião

com as cinco quinas

as chagas de cristo

ou cinco reis mouros

ou cinco castelos

luta co'a moirama

as armas cruzadas

tudo numa fona

cristãos e mafoma

alá e javé

moisés maomé

os da meia lua

os da cruz-crescente

santiago aos mouros

morte aos infiéis...

por mafoma a morte

aos perros cristãos

nascente ocidente

o sul contra o norte

em luta de morte

regresso ao futuro

do tempo passado

no tempo presente

nasceu portugal

meu torrão natal

à beira do mar

olhando o além

para descobrir

matando o futuro

mas crendo o futuro

e querendo tudo

o que havia de vir

os descobrimentos

esp'rado encoberto

camões, fernão lopes

vieira, bandarra

fernando pessoa

e o quinto império

povo do passado

fazendo o futuro

...

mas inda há mais

nesta feira farta

onde inda há de tudo

...

há a vendedeira

morena entre as cores

dos bons figos secos

outros recheados

de amêndoa ou de nozes

que fazem crescer

a água na boca

onde o dente encontra

algo p'ra trincar

morder e roer...

castanhas assadas

outras para assar

amendoas com casca

ou já descascadas

cocas (diga côcas!) ou amargas

pinhões aos pacotes

e ameixas secas

nozes aos taleigos

azeitona verde

outra já pisada

a balança que dança

que dança e balança

c'um toque da mão

sempre peso certo

pesa p'ró freguês...

balança moderna

mais fiel e certa

ladina cigana

vai vendendo a fruta

e fazendo as contas

as contas da vida

numa lufa-lufa

de notas e trocos

riso cativante

e olhos brilhantes

cativa o freguês

ou talvez quem sabe...

lá p'ró fim da noite

logo se há-de ver...

e enquanto avia

pesa e faz os trocos

há quem se aproveite

para se aviar

lá por conta própria

sem esperar a vez

...

é assim a feira

a feira de castro

a de castro verde

como tantas outras

alvito e cartaxo

guarda, trás-os-montes

abela, redondo

fundão, santa iria

monchique, alcobaça

chaves, vila franca

vermoil, penalva

vieira do minho

borba, golegã

cercal de valença

e penafiel

portimão também

melides e mafra

mangualde, candossa

e até mesão frio

pedrógão o grande

e tantas tão grandes

em tanto lugar...

é só ver a lista

daquele almanaque

ou do bord'água...

com tanto p'ra ver

pra dar ó menino

pra dar à menina...

e p'ra si também...

pra si e pra si...

não se 'steja a rir

aqui há pra todos

mil coisas modernas

tudo novidades

já velhas de séculos...

e até tarecos

e outros bonecos

que você precisa

pra pôr na parede

e na prateleira

qu'está lá tão nua

sem graça nenhuma...

e então as amigas

quando isso virem

vão gritar d'inveja:

compraste na feira?!!!

que sorte tiveste!

eu nada encontrei

que gosto tivesse!!!

há barros e loiças

os pratos, os potes

os panos, as calças

casacos, camisas

e meias aos maços...

roupas interiores

cuequinhas com rendas

todos os tamanhos

todos os feitios

umas são só fita

quase sem ter pano

tapar sem tapar

é esse o engano

no há no mercado

há aqui na feira

as mais provocantes

o mais esquisito...

e a feira do gado

cavalos e burros

com éguas e moscas

todos luzidios

dentes sãos brilhantes

potros brincalhões

animais esbeltos

em demonstrações

corridas e trotes

em exibições...

e os burros prestáveis

que grandes negócios

que grandes barretes

ciganos campónios

campónios ciganos

é um meio mundo

a enganar o outro

e todos no fim

lá partem felizes

de ter enganado

de ser enganados

...

são assim as feira!

são feiras d'encontros

e de desencontros

que é feira fronteira

de espaços e tempos

de sons e de luzes

sonhos ilusões

e realizações

que ali se mercam

por alguns tostões

...

acabou a feira.

passaram três dias

que foi um só dia.

a festa acabou.

foguete de lágrimas

que subiu bem alto

e logo chorou

em chuva de luzes

e se apagou.

inchado balão

de cores fantasia

que de tanto inchar

logo rebentou.

os restos da feira

são rastos de gente

marcados na lama

barracas desfeitas

de furos no chão

esqueletos ocos

a desolação

no campo deserto

voando cartões

pelo descampado

voam papelões

papéis coloridos

plásticos ao vento

caixas de ilusões

que voam se arrastam

que dançam chafurdam

em charcos de lama

em regos de chuva

em sulcos cavados

mastros desolados

despidos fantasmas

...

e o chão explorando

lá esgravatando

além rebuscando

o chão revolvendo...

cigano atrevido

garoto ladino

pedinte de fome...

buscando o perdido

que outro perdeu

o seu saco encheu!...

e as gentes da feira

que foi festa louca

já longe dali

de corpo cansado

ideia iludida

que quis ilusão

desilusão querida

que tolda e anima

que mata e dá vida

que morre e vicia

qual droga maligna

que anima, dá vida...

renasce em esperança

de nova ilusão

p'ró ano que vem

ou lápr'ó natal

ou p'ró s.joão

ou lá mais pr'ó verão

pr'á feira futura

que é o dia a dia

da roda da vida

sempre em roda viva.

deram vida à feira?

a feira deu vida!?

a feira findou.

a vida não finda.

FINDOU ESTA FEIRA

a feira de castro

fronteira de encontros

de encontros cruzados

de tempos espaços

de todas as gentes

algarve alentejo

do norte e do sul

de este e d'oeste.

FINDOU ESTA FEIRA

FRONTEIRA DE ENCONTROS

E DE DESENCONTROS

DE ENCONTROS FECUNDOS

D'ENCONTROS FORTUITOS

PASSADO E PRESENTE

REGRESSO AO FUTURO

REGRESSO AO PASSADO

NA FEIRA ENCONTRADO.

findou esta feira

a feira de castro

como as outras feiras

a feira do alvito

e a do cartaxo

da régua amarante

a feira dos santos

a de são miguel

a de são gonçalo

a dos santos todos

de todos os mortos

de todas as gentes

todos os produtos

e divertimentos

...

as feiras gerais

quais outras que tais

de mês sasonais

são todas iguais

todas tão diferentes

de ano p'ra ano

duma terra e outra...

OH! como era dantes?!!!

Já nada se faz

como antigamente!!!

OH! as do meu tempo?!!!

aquilo é que era!!!

Mudaram as feiras?

ou foi o feirante

o jovem d'outrora

que voltou à feira

a ver se lá'stava???

e não'stava!... pena?!!!

ou vida que roda

que cresce e que vive?

Aquilo é que era

viver sensações

de sons e de cores

de gostos e cheiros

d'imaginação

sonhos ilusões

fartura que abunda

quando muito falta

é ouvir e ver

gostar e cheirar

sentir encontrões

andar e correr

beber vibrações

que voam no ar

pensar e sonhar

ver imaginar

sentir ilusões

crer desilusões

querer ambições

cansar p'ra dormir

e p'ra descansar

sonhar acordado

dormir p'ra sonhar

morrer p'ra viver

uma vida nova...

tornar a viver

p'ra depois morrer...

AS FEIRAS SÃO FEIRAS

DUMA VIDA INTEIRA

VIVIDA D'INTEIRO

C'OS SETE SENTIDOS

QUE VIDA NOS DÁ.

E P'RA SER VIVIDA

POR TODOS OS POROS

SEM INTERMITÊNCIAS

TUDO DUMA VEZ

TUDO INTERLIGADO

INTERSECCINISMO

CUBISMO INVENTADO

PARA SE VER TUDO

DE TODOS OS LADOS

SEMPRE AO MESMO TEMPO

SEMPRE REPARTIDO.

VIDA REPARTIDA

NUM TEMPO SENTIDA

NUM TEMPO ESQUECIDA

TEM DE SER EM CHEIO

EM PLENO VIVIDA...

TEM DE SER JOGADA

JOGAR TUDO OU NADA

SÓ NUMA CARTADA...

LÁ DIZ O POETA

que não ia em/a feiras...

-P'RA VIVER A VIDA

SENTINDO A POESIA

EM TRAGOS INTEIROS

EM GOLOS GLUTÕES

EM TUDO SENTINDO

VIDA AOS BORBOTÕES

EM PLENO VIVIDA?!!!...

SÓ QUANDO A RAZÃO

QUE TUDO COMANDA

NO MUNDO REAL

DITO RACIONAL...

PUDER SER MANDADA

E BEM GOVERNADA

PELO CORAÇÃO

QUE TUDO COMANDA

NO MUNDO REAL

DO IRRACINAL

QUE ÀS VEZES,QUEM SABE?,

COMO A AVÓ DIZIA

AO CONTAR HISTÓRIAS

DE FADAS PRINCESAS

DE MAGOS E BRUXOS

E DE BELOS PRÍNCEPES

QUE DEPOIS CASAVAM...

TINHAM MUITOS FILHOS...

E ERAM FELIZES

PARA TODO O SEMPRE!!!...

É BEM MAIS REAL

E MAIS RACIONAL

QUE O MUNDO REAL

QUE JULGAMOS VER.


isto é um folheto

de vender na feira

na feira de castro

alvito ou cartaxo

no ano dois mil

daqui a mil anos.

agora não presta.

são vãs redondilhas

que voam c'o vento

que já ninguém ouve!

nem já se dão conta

que o vento as envolve!

sem vento morriam!

sem ar nem viviam!

no ano dois mil

e mais trinta e oito

que é centenário

do pobre poeta

ceguinho de gota

serena no olho

de nome penedo

de alcunha penetra

de sina cigano

e de cor: castanho...

que não é autor

que não é poeta

como foi PESSOA...

nem é verdadeiro.

é outro poeta

alberto caeiro

que guarda rebanhos

guardando seus sonhos

e é andarilho

romeiro de feiras...

no ano dois mil

e mais trinta oito

ou mais trinta mil...

o qu'interessa o tempo

se o tempo é ficção

como são os versos?

aí, vão-nos ler.

vão dizer. coitado

o pobre poeta

incompreendido

se vivesse hoje

era idolatrado!!!

assim já morreu!

já não incomoda!

dá-se-lhe o nome

p'ra pôr numa escola

ou rua deserta

e pronto, acabou-se

cumpriu-se a promessa

honrou-se a memória

do poeta louco

que nasceu, asar!,

fora do seu tempo

e viveu e viu

as coisas que os outros

não podiam ver...

ACABOU A FEIRA.

FICOU O RETRATO

QUE NÃO É POEMA

NEM É BEM POESIA

NEM FOTOGRAFIA.

QUERIA SER PINTURA

ATÉ PARTITURA

OU UMA ESCULTURA

OU UMA VARINHA

DESSAS DE CONDÃO

OU UMA CANÇÃO...

MAS DEU REDONDILHAS...

AS VÃS REDONDILHAS

BOLAS DE SABÃO

LANÇADAS AO VENTO

QUE LOGO REBENTAM

E FICAM SÓ AR...

E TODOS O SENTEM

TODOS O RESPIRAM

E SABEM QUE EXISTE

E SEM ELE NÃO VIVEM...

MAS NINGUÉM O VÊ

E NINGUÉM O TEM...

ASSIM ESTES VERSOS

QUE VOAM NO VENTO

E SENDO DE TODOS

NÃO SÃO DE NINGUÉM!!!

OLHA A PARVOÍCE:

O POETA DIZ

O QUE TODOS DIZEM

OU ATÉ PENSARAM

E SABEM DIZER

MELHOR DO QUE ELE!!!

PORQUE SE MAÇOU?!!!

COITADO do pobre!

pensava poder

dar alguma coisa!!!

depois, afinal

só deu de presente

o que os outros têm

já demasiado

e não mata a fome

não enche barriga...

A fome que mata

não a têm eles!

Que morra de fome

se só sabe dar

versos e poemas...

petas e patranhas

que dizem verdades!!!

...

rolaram palavras

rolam redondilhas

retratos cruzados

em sons registados

que são escritura.

retratos cruzados

rostos sobrepostos

de gentes e coisas

no mágico quadro

sempre actualizado

desactualizado

cantando o passado

COMPROMETEDOR

todo promissor

já vendo o futuro

futuro sonhado

todo promissor

ou PROMETEDOR?

para o poder ver

futuro passado

fica registado

em computador

ou ordenador

qu'ié processador

de textos e sonhos

DA FEIRA DA VIDA.

ACABOU A FEIRA!!!

A FEIRA DA VIDA!!!

COMEÇOU A FEIRA!!!

A FEIRA DA VIDA!!!

SENHORAS, SENHORES,

MENINOS, MENINAS!!!

ACABOU A FEIRA!!!

COMEÇOU A FEIRA!!!

A FEIRA DA VIDA!!!


cigano castanho

andarilho de feiras

também zé penedo

1ª versão

outubro de 87

2ª versão

outubro de 89

3ªversão

outubro de 91

penedo gordo

beja

31/10/91

4ª - outubro de 93?...

5ª - Janeiro de 1995


trabalho acabado de escrever

e realizar

em WinWord

C 486-66c

complementado com uma centena de fotografias e diapositivos

@ JORAGA

Penedo Gordo, Beja

1993/94

1994/95

Com adaptação em Janeiro de 1995, especialmente para o grupo de teatro da escola secundária de Corroios 1, que se atreveu a sonhar dramatizar este desconcerto de encontros e desencontros

Por se tratar de um DOCUMENTO bastante extenso - e por nos parecer importante aparecer com uma ILUSTRAÇÃO adequada... cheia de IMAGENS... e de CORES... e de GENTES... em breve será apresentado como eBook ou noutra PÁGINA PRÓPRIA (feira_de_castroverde) nesta TEIA interminável desta REDE inesgotável - em joraga.net/a_minha_teia_na_rede ... ou, enviada a pedido...

Agora já pode ter A FEIRA através da e-libro

para voltar ao início de GV

E-Mail: joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
pelo telefone 212 553 223 ou pelo Telmv. 917 632 524
e pelo CORREIO: Rua Almada Negreiros, 48 - 2855-405 CORROIOS.
a minhateianarede é em http://www.joraga.net onde poderá encontrar o caminho para os TEMAS que não couberam aqui.

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Joraga 2000 em viagem