Gil Vicente 500

Vida GV de 1460/70 a 1502 a 1536/38
500 anos de GV - de 1960 - 2002 - 2038

78 anos a celebrar o 5ºCGV como reNASCIMENTO de um TEATRO a partir da RAIZ
por José Gil Vicente da Beira e outros deNÓMIOS...

Obras de Gil Vicente:
PANORÂMICA

as 47 uma a uma

PRANTO DE MARIA PARDA (Completo)

e numa coluna à direita o espaço para uma recri/e/ação na medida em que surgir a inspiração ou a oportunidade e/ou o desafio para outros tentarem...

(in OBRAS de GIL VICENTE com revisão e notas de Mendes dos Remédios, Tomo I de III, França Amado Editor, Coimbra, 1907, pp. 384-393).

por que vio as ruas de Lisboa com tão poucos ramos nas tavernas e o vinho tão caro, e ella não podia viver sem elle.

(Quase não terá nada a ver com o Auto da Visitação, ou com o Natal, ao não ser quando se refere "Na manhã que Deus nasceu / À hora do nascimento" quando se refere à Rua da Ferraria, mas decidi incluí-lo nesta série pelo aspecto coloquial que, embora nos faltem muitos dados da época, se refere, com certeza, a locais ruas e "tascos" de todos conhecidos, além da referência a uma quantidade de localidades de diversos pontos do país, mais conhecidos pela sua maior ou menor "devoção" à bebida... A coluna da direita fic como desafio a um levantamento de expressões populares (actualizadas?) e a um possível levantamento das "novas" tascas e regiões vinícolas... com possível referência à variedade de mixórdias inventadas desde a famosa e imbatível CocaCola!!! Enfim, uma revista à Portuguesa - "uma Comédia Humana de cenário português" como dizia o Mestre Vitotino Nemésio...

  Texto citado da Obra de Gil Vicente Tentativa de "tradução" - adaptação... 
 

Eu so quero prantear

Este mal que a muitos toca;

Que estou já como minhoca

Que puzerão a seccar.

Triste desaventurada

Que tão alta está a canada

Pera mi como as estrellas;

Oh coitadas das guelas!

Oh guelas da coitadas)

   Triste desdentada escura,

Quem me trouxe a taes mazelas!

Oh gengivas e arnellas,

Deitae babas de seccura;

Carpi-vos, beiços coitados,

Que já lá vão meus toucados,

E a cinta e a fraldilha ;

Hontem bebi a mantilha,

Que me custou dous cruzados.

Oh Rua de San Gião,

Assi ‘stás da sorte mesma

Como altares de quaresma

E as malvas no verão.

Quem levou teus trinta ramos

E o meu mana bebamos,

Isto a cada bocadinho?

Ó vinho mano, meu vinho,

Que ma ora te gastamos.

   O’ travéssa zanguizarra

De Mata-porcos escura,

Como estás de ma ventura,

Sem ramos de barra a barra.

Porque tens já tantos dias

As tuas pipas vazias,

Os toneis postos em pé?

Ou te tornaste Guiné

Ou o barco das enguias.

   Triste quem não cega em ver

Nas carnicerias velhas

Muitas sardinhas nas grelhas ;

Mas o demo já de beber.

E agora que estão erguidas

As coitadas doloridas

Das pipas limpas da borra;

Achegou-lhe a paz com porra

De crecerem as medidas.

   O’ Rua da Ferraria,

Onde as portas erão mayas,

Como estás cheia de guaias,

Com tanta louça vazia!

Já m’a mim accoteo

Na manhan-que Deos naceo,

A’ hora do nacimento,

Beber alli hum de cento,

Que nunca mais pareceo.

   Rua de Cata-que-farás,

Que farei e que farás!

Quando vos vi taes, chorei,

E tornei-me por detras.

Que foi do vosso bom vinho,

E tanto ramo de pinho,

Laranja, papel e cana,

Onde bebemos Joanna

E eu cento e hum cinguinho.

   O’ tavernas da Ribeira,

Não vos verá a vós ninguem

Mosquitos, o verão que vem,

Porque sereis areeira.

Triste que sera de mi!

Que ma ora vos eu vi!

Que ma ora me vós Vistes!

Que ma ora me paristes,

Mãe da filha do ruim!

   Quem vio nunca toda Alfama

Com quatro ramos cagados,

Os tornos todos quebrados!

O’ bicos de minha mama!

Bem alli ó Sancto Esprito

Ia eu sempre dar no fito

N'hum vinho claro rosete.

Oh meu bem doce palhete,

Quem pudera dar hum grito!

   O' triste Rua dos Fornos,

Que foi da vossa verdura!

Agora rua d'amargura

Vos fez a paixão dos tornos.

Quando eu, rua, per vós vou,

Todolos traques que dou

São suspiros de saudade;

Pera vós ventosidade

Naci toda como estou.

   Fui-me ó Poço do chão,

Fui-me á praça dos canos;

Carpi-vos, manas e manos,

Que a dezaseis o dão.

O' velhas amarguradas,

Que antre três sete canadas

Sohiamos de beber,

Agora, tristes! remoer

Sete raivas apertadas.

   Ó rua da Mouraria,

Quem vos fez matar a sêde

Pela lei de Mafamede

Com a triste d'agua fria?

O' bebedores irmãos,

Que nos presta ser christãos,

Pois nos Deus tirou o vinho?

O' anno triste cainho,

Porque nos fazes pagãos?

   Os braços trago cansados

De carpir estas queixadas,

As orelhas engelhadas

De me ouvir tantos brados.

Quero-m'ir ás taverneiras,

Taverneiros, medideiras

Que me dem hua canada,

Sôbre meu rosto fiada,

A pagar lá polas eiras.

Pede fiado á Biscaïnha.

   0’ Senhora , Biscaïnha,

Fiae-me canada e meia,

Ou me dae hua candeia,

Que se vai esta alma minha.

Acudi-me dolorida,

Que trago a madre cahida,

E çarra-se-me o gorgomilo:

Emquanto posso engoli-lo,

Soocorei-me minha vida.

Biscaïnha.

Não dou eu vinho fiado,

Ide vós embora, amiga.

Quereis ora que vos diga?

Não tendes isso aviado.

Dizem lá que não he tempo

De pousar o cu ao vento.

Sangrade-vos, Maria Parda;

Agora tem vez a Guarda

E a raia no avento.

A João Cavalleiro, Castilhano.

   Devoto João Cavalleiro,

Que pareceis Isaïas,

Dae-me de beber tres dias,

E far-vos-hei meu herdeiro.

Não tenho filhas nem filhos,

Senão canadas e quartilhos;

Tenho enxoval de guarda,

Se herdardes Maria Parda,

Sereis fóra d'empecilhos.

João Cavalleiro.

   Amiga, dicen por villa

Un ejemplo de Pelayo,

Que una cosa piensa el bayo

Y otra quien lo ensilla.

Pagad, si quereis beber;

Porque debeis de saber

Que quien su yegua mal pea,

Aunque nunca mas la vea,

Él se la quiso perder.

Vai-se a Branca Leda.

   Branca mana, que fazedes?

Meu amor, Deos vos ajude ;

Que estou no ataude,

Se me vós não accorredes.

Fiade-me ora tres meias,

Que ando por casas alheias

Com esta sêde tão viva,

Que ja não acho cativa

Gota de sangue nas veias.

Branca Leda

   0lhade, mulher de bem,

Dizem qu'em tempo de figos

Não ha hi nenhuns amigos,

Nem os busque então ninguém,

E diz o exemplo dioso,

Que bem passa de guloso

O que come o que não tem.

Muita agua ha em Boratem

E no poço do tinhoso.

Vai-se a João do Lumiar.

Senhor João do Lumiar,

Lume da minha cegueira,

Esta era a verde pereira

Em que vos eu via estar.

Fiae-me hum gentar de vinho,

E pagar-vos-hei em linho,

Que ja minha lan não presta:

Tenho mandada hua besta

Por elle a antre Douro e Minho.

João do Lumiar.

   Exemplo de mulher honrada,

Que nos ninhos d'ora a hum anno

Não ha passaros oganno.

I-vos, que sois aviada.

Emquanto isto assi dura,

Matae coan agua a seccura,

Ou ide a outremm enganar,

Que eu não me hei-de fiar

De mula com matadura.

Indo para casa de Martim Alho, vai dizendo:

   Amara aqui hei d'estalar

Nesta manta emburilhada:

Oh Maria Parda coitada,

Que não tens ja que mijar!

Eu não sei que mal foi este,

Peor sem vezes que a peste,

Que quando era o trão e o tramo,

Andava eu de ramo em ramo

Não quero deste, mas deste.

Diz a Martim Alho.

   Martim Alho, amigo meu,

Martim Alho meu amigo,

Tão secco trago o embigo

Como nariz de Judeu.

De sêde não sei que faça;

Ou fiado ou de graça,

Mano, soccorrede-me ora,

Que trago ja os olhos fóra

Como rala da negaça.

Martim Alho.

   Diz hum verso acostumado:

Quem quer fogo busque a lenha;

E mais seu dono d'acenha

Appella de dar fiado.

Vós quereis, dona, folgar,

E mandais-ane a mim fiar?

Pois diz outro exemplo antigo,

Quem quizer comer comigo

Traga em que se assentar.

Vai-se á Falula.

   Amor meu, mana Falula,

Minha gloria e meu deleite,

Emprestae-mne do azeite,

Que se me sécca a matula.

Até que haja dinheiro,

Fiae, que pouco requeiro,

Duas canadas bem puras,

Por não ficar ás escuras.

Que se m'arde o candieiro.

Falula.

   Diz Nabucodonosor

No sideraque e miseraque

Aquelle que dá gran traque

Atravesse-o no salvanor.

E diz mais, quem muito pede,

Mana minha, muito fede.

Sete mil custou a pipa;

Se quereis fartar a tripa,

Pagae, que a vinte se mede.

Maria Parda.

   Raivou tanto sideraque

E tanta zarzagania.

Vou-me a morrer de sequia

Em cima d'hum almadraque.

E ante de meu finamento,

Ordeno meu testamento

Desta maneira seguinte,

Na triste era de vinte

E dous desde o nacimento.

 

Testamento.

 

   A minha alma encommendo

A Noé e a outrem não,

E meu corpo enterrarão

Onde estão sempre bebendo.

Leixo por minha herdeira

E tambem testamenteira,

Lianor Mendes d'Arruda,

Que vendeo como sesuda,

Por beber, at'á peneira.

   Item mais mando levar

Por tochas cepas de vinha,

E hUa borracha minha

Com que me hajão d'encensar,

Porque teve malvasia.

Encensem-me assi vazia,

Pois tambem eu assi vou;

 E a sêde que me matou,

Venha pola cleresia.

   Levar-me-hão em hum andor

De dia, ás horas certas

Que estão as portas abertas

Das tavernas per hu for.

E irei, pois mais não pude,

N'hum quarto por ataude,

Que não tivesse agua pé

O sovenite a Noé

Cantem sempre a meude.

   Diante irão mui sem pejo

Trinta e seis odres vazios,

Que despejei nestes frios,

Sem nunca matar desejo.

Não digão missas rezadas,

Todas sejão bem cantadas

Em Framengo e Allemão,

Porque estes me levarão

Ás vnhas mais carregadas.

   Item dirão per dó meu

Quatro ou cinco ou dez trintairos,

Cantados per taes vigairos,

Que não bebão menos qu'eu.

   Sejão destes tres d'Almada,

E cinco daqui da Sé,

Que são filhos de Noé,

A que som encommendada.

   Venha todo o sacerdote

A este meu enterramento,

Que tiver tão bom alento,

Como eu tive ca de cote.

Os de Abrantes e Punhete,

D'Arruda e d'Alcouchete,

D'Alhos-Vedros e Barreiro,

Me venhão ca sem dinheiro

Atá cento e vinte e sete.

   Item mando vestir logo

O frade allemão vermelho

Daquelle meu manto velho

Que tem buracos de fogo.

Item mais, mais mando dar

A quem se bem embebedar ,

No dia em que eu morrer,

Quanto movel hi houver

E quanta raiz se achar.

   Item mando agasalhar,

Das orphans estas nó mans

As que por beber dos paes

Ficão proves por casar.

Ás quaes darão por maridos

Barqueiros bem recozidos

Em vinhos de mui bôs cheiros;

Ou busquem taes escudeiros,

Que bebão coma perdidos.

   Item mais me cumprirão

As seguintes romarias,

Com muitas ave-marias,

E não curem de Monção.

Vão por mim a Sancta Orada

D'Atouguia e d'Abrigada,

E a Curageira sancta,

Que me derão na garganta

Saude a peste passada.

   Item mais me prometti

Nua á pedra da estrema,

Quando eu tive a postema

No beiço de baixo aqui.

E porque gran gloria senta,

Lancem-me muita agua benta

Nas vinhas de Caparica,

Onde meu desejo fica

E se vai a ferramenta.

   Item me levarão mais

Hum gran cirio pascoal

Ao glorioso Seixal,

Senhor dos outros Seixaes;

Sete missas me dirão

E os caliz encherão,

Não me digão missa sêcca;

Porque a dor da enchaqueca

Me fez esta devação.

   Item mais mando fazer

Hum espaçoso esprital,

Que quem vier de Madrigal

Tenha onde se acolher.

E do termo d'Alcobaça

Quem vier dem-lhe em que jaça:

E dos termos de Leirea

Dem-lhe pão, vinho e candea,

E cama, tudo de graça.

   Os d'Obidos e Santarem,

Se aqui pedirem pousada,

Dem-lhes de tanta pancada

Como de maos vinhos tem.

Homem d'Entre Douro e Minho

Não lhe darão pão nem vinho;

E quem de riba d'Avia for

Fazê-lhe por meu amor

Como se fosse vizinho.

   Assi que por me salvar

Fiz este meu testamento,

Com mais siso e entendimento

Que nunca me sei estar.

Chorae todos meu perigo,

Não levo o vinho que digo,

Qu'eu chamava das estrellas,

Agora m'irei par'ellas

Com grande sêde comigo.

 

Amigos, vamos chorar
E com vigor protestar
contra esta nova cota
de zero - a taxa alcoólica!

Estes novos governantes
não se lembram que já dantes
este vinho que bebemos
fará comer, pelo menos
um milhão de portugueses...!?

Mas a maior desventura
que nos traz mais amargura
é o preço do bom tinto
- e corrijam-me se minto -
nos custa coiro e cabelo...
e barata,
só zurrapa,
dessa que é puro veneno!!!...

E a desgraça mais rara
que custa os olhos da cara
é ver, que em vez das tabernas
onde se bebia bom tinto
prantam em todas as bermas
duma estrada ou avenida
uns bares, umas "boites pimbas"
onde se bebem mistelas
que nos trazem só mazelas...

Na vinte e quatro de Julho
aquilo parece um entrudo...
Aquilo é só chinfrineira...
A bebida é estrangeira...
e com drogas à mistura...
Depois andam à porrada
por dá cá aquela palha...
Vêm os chuis: há pancada!
Todos berram: Ó da Guarda!!!
e fica uma festa armada!!!

"já í stá o balho armado"!!!

... ... ...

Oh Rua de San Gião,

Assi ‘stás da sorte mesma

Como altares de quaresma

E as malvas no verão.

Quem levou teus trinta ramos

E o meu mana bebamos,

Isto a cada bocadinho?

Ó vinho mano, meu vinho,

Que ma ora te gastamos.

O’ travéssa zanguizarra

De Mata-porcos escura,

Como estás de ma ventura,

Sem ramos de barra a barra.

Porque tens já tantos dias

As tuas pipas vazias,

Os toneis postos em pé?

Ou te tornaste Guiné

Ou o barco das enguias.

   Triste quem não cega em ver

Nas carnicerias velhas

Muitas sardinhas nas grelhas ;

Mas o demo já de beber.

E agora que estão erguidas

As coitadas doloridas

Das pipas limpas da borra;

Achegou-lhe a paz com porra

De crecerem as medidas.

   O’ Rua da Ferraria,

Onde as portas erão mayas,

Como estás cheia de guaias,

Com tanta louça vazia!

Já m’a mim accoteo

Na manhan-que Deos naceo,

A’ hora do nacimento,

Beber alli hum de cento,

Que nunca mais pareceo.

   Rua de Cata-que-farás,

Que farei e que farás!

Quando vos vi taes, chorei,

E tornei-me por detras.

Que foi do vosso bom vinho,

E tanto ramo de pinho,

Laranja, papel e cana,

Onde bebemos Joanna

E eu cento e hum cinguinho.

   O’ tavernas da Ribeira,

Não vos verá a vós ninguem

Mosquitos, o verão que vem,

Porque sereis areeira.

Triste que sera de mi!

Que ma ora vos eu vi!

Que ma ora me vós Vistes!

Que ma ora me paristes,

Mãe da filha do ruim!

   Quem vio nunca toda Alfama

Com quatro ramos cagados,

Os tornos todos quebrados!

O’ bicos de minha mama!

Bem alli ó Sancto Esprito

Ia eu sempre dar no fito

N'hum vinho claro rosete.

Oh meu bem doce palhete,

Quem pudera dar hum grito!

   O' triste Rua dos Fornos,

Que foi da vossa verdura!

Agora rua d'amargura

Vos fez a paixão dos tornos.

Quando eu, rua, per vós vou,

Todolos traques que dou

São suspiros de saudade;

Pera vós ventosidade

Naci toda como estou.

   Fui-me ó Poço do chão,

Fui-me á praça dos canos;

Carpi-vos, manas e manos,

Que a dezaseis o dão.

O' velhas amarguradas,

Que antre três sete canadas

Sohiamos de beber,

Agora, tristes! remoer

Sete raivas apertadas.

   Ó rua da Mouraria,

Quem vos fez matar a sêde

Pela lei de Mafamede

Com a triste d'agua fria?

O' bebedores irmãos,

Que nos presta ser christãos,

Pois nos Deus tirou o vinho?

O' anno triste cainho,

Porque nos fazes pagãos?

   Os braços trago cansados

De carpir estas queixadas,

As orelhas engelhadas

De me ouvir tantos brados.

Quero-m'ir ás taverneiras,

Taverneiros, medideiras

Que me dem hua canada,

Sôbre meu rosto fiada,

A pagar lá polas eiras.

Pede fiado á Biscaïnha.

   0’ Senhora , Biscaïnha,

Fiae-me canada e meia,

Ou me dae hua candeia,

Que se vai esta alma minha.

Acudi-me dolorida,

Que trago a madre cahida,

E çarra-se-me o gorgomilo:

Emquanto posso engoli-lo,

Soocorei-me minha vida.

Biscaïnha.

Não dou eu vinho fiado,

Ide vós embora, amiga.

Quereis ora que vos diga?

Não tendes isso aviado.

Dizem lá que não he tempo

De pousar o cu ao vento.

Sangrade-vos, Maria Parda;

Agora tem vez a Guarda

E a raia no avento.

A João Cavalleiro, Castilhano.

   Devoto João Cavalleiro,

Que pareceis Isaïas,

Dae-me de beber tres dias,

E far-vos-hei meu herdeiro.

Não tenho filhas nem filhos,

Senão canadas e quartilhos;

Tenho enxoval de guarda,

Se herdardes Maria Parda,

Sereis fóra d'empecilhos.

João Cavalleiro.

   Amiga, dicen por villa

Un ejemplo de Pelayo,

Que una cosa piensa el bayo

Y otra quien lo ensilla.

Pagad, si quereis beber;

Porque debeis de saber

Que quien su yegua mal pea,

Aunque nunca mas la vea,

Él se la quiso perder.

Vai-se a Branca Leda.

   Branca mana, que fazedes?

Meu amor, Deos vos ajude ;

Que estou no ataude,

Se me vós não accorredes.

Fiade-me ora tres meias,

Que ando por casas alheias

Com esta sêde tão viva,

Que ja não acho cativa

Gota de sangue nas veias.

Branca Leda

   0lhade, mulher de bem,

Dizem qu'em tempo de figos

Não ha hi nenhuns amigos,

Nem os busque então ninguém,

E diz o exemplo dioso,

Que bem passa de guloso

O que come o que não tem.

Muita agua ha em Boratem

E no poço do tinhoso.

Vai-se a João do Lumiar.

Senhor João do Lumiar,

Lume da minha cegueira,

Esta era a verde pereira

Em que vos eu via estar.

Fiae-me hum gentar de vinho,

E pagar-vos-hei em linho,

Que ja minha lan não presta:

Tenho mandada hua besta

Por elle a antre Douro e Minho.

João do Lumiar.

   Exemplo de mulher honrada,

Que nos ninhos d'ora a hum anno

Não ha passaros oganno.

I-vos, que sois aviada.

Emquanto isto assi dura,

Matae coan agua a seccura,

Ou ide a outremm enganar,

Que eu não me hei-de fiar

De mula com matadura.

Indo para casa de Martim Alho, vai dizendo:

   Amara aqui hei d'estalar

Nesta manta emburilhada:

Oh Maria Parda coitada,

Que não tens ja que mijar!

Eu não sei que mal foi este,

Peor sem vezes que a peste,

Que quando era o trão e o tramo,

Andava eu de ramo em ramo

Não quero deste, mas deste.

Diz a Martim Alho.

   Martim Alho, amigo meu,

Martim Alho meu amigo,

Tão secco trago o embigo

Como nariz de Judeu.

De sêde não sei que faça;

Ou fiado ou de graça,

Mano, soccorrede-me ora,

Que trago ja os olhos fóra

Como rala da negaça.

Martim Alho.

   Diz hum verso acostumado:

Quem quer fogo busque a lenha;

E mais seu dono d'acenha

Appella de dar fiado.

Vós quereis, dona, folgar,

E mandais-ane a mim fiar?

Pois diz outro exemplo antigo,

Quem quizer comer comigo

Traga em que se assentar.

Vai-se á Falula.

   Amor meu, mana Falula,

Minha gloria e meu deleite,

Emprestae-mne do azeite,

Que se me sécca a matula.

Até que haja dinheiro,

Fiae, que pouco requeiro,

Duas canadas bem puras,

Por não ficar ás escuras.

Que se m'arde o candieiro.

Falula.

   Diz Nabucodonosor

No sideraque e miseraque

Aquelle que dá gran traque

Atravesse-o no salvanor.

E diz mais, quem muito pede,

Mana minha, muito fede.

Sete mil custou a pipa;

Se quereis fartar a tripa,

Pagae, que a vinte se mede.

Maria Parda.

   Raivou tanto sideraque

E tanta zarzagania.

Vou-me a morrer de sequia

Em cima d'hum almadraque.

E ante de meu finamento,

Ordeno meu testamento

Desta maneira seguinte,

Na triste era de vinte

E dous desde o nacimento.

 

Testamento.

 

   A minha alma encommendo

A Noé e a outrem não,

E meu corpo enterrarão

Onde estão sempre bebendo.

Leixo por minha herdeira

E tambem testamenteira,

Lianor Mendes d'Arruda,

Que vendeo como sesuda,

Por beber, at'á peneira.

   Item mais mando levar

Por tochas cepas de vinha,

E hUa borracha minha

Com que me hajão d'encensar,

Porque teve malvasia.

Encensem-me assi vazia,

Pois tambem eu assi vou;

 E a sêde que me matou,

Venha pola cleresia.

   Levar-me-hão em hum andor

De dia, ás horas certas

Que estão as portas abertas

Das tavernas per hu for.

E irei, pois mais não pude,

N'hum quarto por ataude,

Que não tivesse agua pé

O sovenite a Noé

Cantem sempre a meude.

   Diante irão mui sem pejo

Trinta e seis odres vazios,

Que despejei nestes frios,

Sem nunca matar desejo.

Não digão missas rezadas,

Todas sejão bem cantadas

Em Framengo e Allemão,

Porque estes me levarão

Ás vnhas mais carregadas.

   Item dirão per dó meu

Quatro ou cinco ou dez trintairos,

Cantados per taes vigairos,

Que não bebão menos qu'eu.

   Sejão destes tres d'Almada,

E cinco daqui da Sé,

Que são filhos de Noé,

A que som encommendada.

   Venha todo o sacerdote

A este meu enterramento,

Que tiver tão bom alento,

Como eu tive ca de cote.

Os de Abrantes e Punhete,

D'Arruda e d'Alcouchete,

D'Alhos-Vedros e Barreiro,

Me venhão ca sem dinheiro

Atá cento e vinte e sete.

   Item mando vestir logo

O frade allemão vermelho

Daquelle meu manto velho

Que tem buracos de fogo.

Item mais, mais mando dar

A quem se bem embebedar ,

No dia em que eu morrer,

Quanto movel hi houver

E quanta raiz se achar.

   Item mando agasalhar,

Das orphans estas nó mans

As que por beber dos paes

Ficão proves por casar.

Ás quaes darão por maridos

Barqueiros bem recozidos

Em vinhos de mui bôs cheiros;

Ou busquem taes escudeiros,

Que bebão coma perdidos.

   Item mais me cumprirão

As seguintes romarias,

Com muitas ave-marias,

E não curem de Monção.

Vão por mim a Sancta Orada

D'Atouguia e d'Abrigada,

E a Curageira sancta,

Que me derão na garganta

Saude a peste passada.

   Item mais me prometti

Nua á pedra da estrema,

Quando eu tive a postema

No beiço de baixo aqui.

E porque gran gloria senta,

Lancem-me muita agua benta

Nas vinhas de Caparica,

Onde meu desejo fica

E se vai a ferramenta.

   Item me levarão mais

Hum gran cirio pascoal

Ao glorioso Seixal,

Senhor dos outros Seixaes;

Sete missas me dirão

E os caliz encherão,

Não me digão missa sêcca;

Porque a dor da enchaqueca

Me fez esta devação.

   Item mais mando fazer

Hum espaçoso esprital,

Que quem vier de Madrigal

Tenha onde se acolher.

E do termo d'Alcobaça

Quem vier dem-lhe em que jaça:

E dos termos de Leirea

Dem-lhe pão, vinho e candea,

E cama, tudo de graça.

   Os d'Obidos e Santarem,

Se aqui pedirem pousada,

Dem-lhes de tanta pancada

Como de maos vinhos tem.

Homem d'Entre Douro e Minho

Não lhe darão pão nem vinho;

E quem de riba d'Avia for

Fazê-lhe por meu amor

Como se fosse vizinho.

   Assi que por me salvar

Fiz este meu testamento,

Com mais siso e entendimento

Que nunca me sei estar.

Chorae todos meu perigo,

Não levo o vinho que digo,

Qu'eu chamava das estrellas,

Agora m'irei par'ellas

Com grande sêde comigo.

 

 

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