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Eu
so quero prantear
Este
mal que a muitos toca;
Que
estou já como minhoca
Que
puzerão a seccar.
Triste
desaventurada
Que
tão alta está a canada
Pera
mi como as estrellas;
Oh
coitadas das guelas!
Oh
guelas da coitadas)
Triste
desdentada escura,
Quem
me trouxe a taes mazelas!
Oh
gengivas e arnellas,
Deitae
babas de seccura;
Carpi-vos,
beiços coitados,
Que
já lá vão meus toucados,
E
a cinta e a fraldilha ;
Hontem
bebi a mantilha,
Que
me custou dous cruzados.
Oh
Rua de San Gião,
Assi
stás da sorte mesma
Como
altares de quaresma
E
as malvas no verão.
Quem
levou teus trinta ramos
E
o meu mana bebamos,
Isto
a cada bocadinho?
Ó
vinho mano, meu vinho,
Que
ma ora te gastamos.
O
travéssa zanguizarra
De
Mata-porcos
escura,
Como
estás de ma ventura,
Sem
ramos de barra a barra.
Porque
tens já tantos dias
As
tuas pipas vazias,
Os
toneis postos em pé?
Ou
te tornaste Guiné
Ou
o barco das enguias.
Triste
quem não cega em ver
Nas
carnicerias velhas
Muitas
sardinhas nas grelhas ;
Mas
o demo já de beber.
E
agora que estão erguidas
As
coitadas doloridas
Das
pipas limpas da borra;
Achegou-lhe
a paz com porra
De
crecerem as medidas.
O
Rua da Ferraria,
Onde
as portas erão mayas,
Como
estás cheia de guaias,
Com
tanta louça vazia!
Já
ma mim accoteo
Na
manhan-que Deos naceo,
A
hora do nacimento,
Beber
alli hum de cento,
Que
nunca mais pareceo.
Rua
de Cata-que-farás,
Que
farei e que farás!
Quando
vos vi taes, chorei,
E
tornei-me por detras.
Que
foi do vosso bom vinho,
E
tanto ramo de pinho,
Laranja,
papel e cana,
Onde
bebemos Joanna
E
eu cento e hum cinguinho.
O
tavernas da Ribeira,
Não
vos verá a vós ninguem
Mosquitos,
o verão que vem,
Porque
sereis areeira.
Triste
que sera de mi!
Que
ma ora vos eu vi!
Que
ma ora me vós Vistes!
Que
ma ora me paristes,
Mãe
da filha do ruim!
Quem
vio nunca toda Alfama
Com
quatro ramos cagados,
Os
tornos todos quebrados!
O
bicos de minha mama!
Bem
alli ó Sancto Esprito
Ia
eu sempre dar no fito
N'hum
vinho claro rosete.
Oh
meu bem doce palhete,
Quem
pudera dar hum grito!
O'
triste Rua dos Fornos,
Que
foi da vossa verdura!
Agora
rua d'amargura
Vos
fez a paixão dos tornos.
Quando
eu, rua, per vós vou,
Todolos
traques que dou
São
suspiros de saudade;
Pera
vós ventosidade
Naci
toda como estou.
Fui-me
ó Poço do chão,
Fui-me
á praça dos canos;
Carpi-vos,
manas e manos,
Que
a dezaseis o dão.
O'
velhas amarguradas,
Que
antre três sete canadas
Sohiamos
de beber,
Agora,
tristes! remoer
Sete
raivas apertadas.
Ó
rua da Mouraria,
Quem
vos fez matar a sêde
Pela
lei de Mafamede
Com
a triste d'agua fria?
O'
bebedores irmãos,
Que
nos presta ser christãos,
Pois
nos Deus tirou o vinho?
O'
anno triste cainho,
Porque
nos fazes pagãos?
Os
braços trago cansados
De
carpir estas queixadas,
As
orelhas engelhadas
De
me ouvir tantos brados.
Quero-m'ir
ás taverneiras,
Taverneiros,
medideiras
Que
me dem hua canada,
Sôbre
meu rosto fiada,
A
pagar lá polas eiras.
Pede
fiado á Biscaïnha.
0
Senhora , Biscaïnha,
Fiae-me
canada e meia,
Ou
me dae hua candeia,
Que
se vai esta alma minha.
Acudi-me
dolorida,
Que
trago a madre cahida,
E
çarra-se-me o gorgomilo:
Emquanto
posso engoli-lo,
Soocorei-me
minha vida.
Biscaïnha.
Não
dou eu vinho fiado,
Ide
vós embora, amiga.
Quereis
ora que vos diga?
Não
tendes isso aviado.
Dizem
lá que não he tempo
De
pousar o cu ao vento.
Sangrade-vos,
Maria Parda;
Agora
tem vez a Guarda
E
a raia no avento.
A
João Cavalleiro, Castilhano.
Devoto
João Cavalleiro,
Que
pareceis Isaïas,
Dae-me
de beber tres dias,
E
far-vos-hei meu herdeiro.
Não
tenho filhas nem filhos,
Senão
canadas e quartilhos;
Tenho
enxoval de guarda,
Se
herdardes Maria Parda,
Sereis
fóra d'empecilhos.
João
Cavalleiro.
Amiga,
dicen por villa
Un
ejemplo de Pelayo,
Que
una cosa piensa el bayo
Y
otra quien lo ensilla.
Pagad,
si quereis beber;
Porque
debeis de saber
Que
quien su yegua mal pea,
Aunque
nunca mas la vea,
Él
se la quiso perder.
Vai-se
a Branca Leda.
Branca
mana, que fazedes?
Meu
amor, Deos vos ajude ;
Que
estou no ataude,
Se
me vós não accorredes.
Fiade-me
ora tres meias,
Que
ando por casas alheias
Com
esta sêde tão viva,
Que
ja não acho cativa
Gota
de sangue nas veias.
Branca Leda
0lhade,
mulher de bem,
Dizem
qu'em tempo de figos
Não
ha hi nenhuns amigos,
Nem
os busque então ninguém,
E
diz o exemplo dioso,
Que
bem passa de guloso
O
que come o que não tem.
Muita
agua ha em Boratem
E
no poço do tinhoso.
Vai-se
a João do Lumiar.
Senhor
João do Lumiar,
Lume
da minha cegueira,
Esta
era a verde pereira
Em
que vos eu via estar.
Fiae-me
hum gentar de vinho,
E
pagar-vos-hei em linho,
Que
ja minha lan não presta:
Tenho
mandada hua besta
Por
elle a antre Douro e Minho.
João
do Lumiar.
Exemplo
de mulher honrada,
Que
nos ninhos d'ora a hum anno
Não
ha passaros oganno.
I-vos,
que sois aviada.
Emquanto
isto assi dura,
Matae
coan agua a seccura,
Ou
ide a outremm enganar,
Que
eu não me hei-de fiar
De
mula com matadura.
Indo
para casa de Martim Alho, vai dizendo:
Amara
aqui hei d'estalar
Nesta
manta emburilhada:
Oh
Maria Parda coitada,
Que
não tens ja que mijar!
Eu
não sei que mal foi este,
Peor
sem vezes que a peste,
Que
quando era o trão e o tramo,
Andava
eu de ramo em ramo
Não
quero deste, mas deste.
Diz
a Martim Alho.
Martim
Alho, amigo meu,
Martim
Alho meu amigo,
Tão
secco trago o embigo
Como
nariz de Judeu.
De
sêde não sei que faça;
Ou
fiado ou de graça,
Mano,
soccorrede-me ora,
Que
trago ja os olhos fóra
Como
rala da negaça.
Martim
Alho.
Diz
hum verso acostumado:
Quem
quer fogo busque a lenha;
E
mais seu dono d'acenha
Appella
de dar fiado.
Vós
quereis, dona, folgar,
E
mandais-ane a mim fiar?
Pois
diz outro exemplo antigo,
Quem
quizer comer comigo
Traga
em que se assentar.
Vai-se
á Falula.
Amor
meu, mana Falula,
Minha
gloria e meu deleite,
Emprestae-mne
do azeite,
Que
se me sécca a matula.
Até
que haja dinheiro,
Fiae,
que pouco requeiro,
Duas
canadas bem puras,
Por
não ficar ás escuras.
Que
se m'arde o candieiro.
Falula.
Diz
Nabucodonosor
No
sideraque e miseraque
Aquelle
que dá gran traque
Atravesse-o
no salvanor.
E
diz mais, quem muito pede,
Mana
minha, muito fede.
Sete
mil custou a pipa;
Se
quereis fartar a tripa,
Pagae,
que a vinte se mede.
Maria
Parda.
Raivou
tanto sideraque
E
tanta zarzagania.
Vou-me
a morrer de sequia
Em
cima d'hum almadraque.
E
ante de meu finamento,
Ordeno
meu testamento
Desta
maneira seguinte,
Na
triste era de vinte
E
dous desde o nacimento.
Testamento.
A minha alma encommendo
A
Noé e a outrem não,
E
meu corpo enterrarão
Onde
estão sempre bebendo.
Leixo
por minha herdeira
E
tambem testamenteira,
Lianor
Mendes d'Arruda,
Que
vendeo como sesuda,
Por
beber, at'á peneira.
Item
mais mando levar
Por
tochas cepas de vinha,
E
hUa borracha minha
Com
que me hajão d'encensar,
Porque
teve malvasia.
Encensem-me
assi vazia,
Pois
tambem eu assi vou;
E
a sêde que me matou,
Venha
pola cleresia.
Levar-me-hão
em hum andor
De
dia, ás horas certas
Que
estão as portas abertas
Das
tavernas per hu for.
E
irei, pois mais não pude,
N'hum
quarto por ataude,
Que
não tivesse agua pé
O
sovenite a Noé
Cantem
sempre a meude.
Diante
irão mui sem pejo
Trinta
e seis odres vazios,
Que
despejei nestes frios,
Sem
nunca matar desejo.
Não
digão missas rezadas,
Todas
sejão bem cantadas
Em
Framengo e Allemão,
Porque
estes me levarão
Ás
vnhas mais carregadas.
Item
dirão per dó meu
Quatro
ou cinco ou dez trintairos,
Cantados
per taes vigairos,
Que
não bebão menos qu'eu.
Sejão
destes tres d'Almada,
E
cinco daqui da Sé,
Que
são filhos de Noé,
A
que som encommendada.
Venha
todo o sacerdote
A
este meu enterramento,
Que
tiver tão bom alento,
Como
eu tive ca de cote.
Os
de Abrantes e Punhete,
D'Arruda
e d'Alcouchete,
D'Alhos-Vedros
e Barreiro,
Me
venhão ca sem dinheiro
Atá
cento e vinte e sete.
Item
mando vestir logo
O
frade allemão vermelho
Daquelle
meu manto velho
Que
tem buracos de fogo.
Item
mais, mais mando dar
A
quem se bem embebedar ,
No
dia em que eu morrer,
Quanto
movel hi houver
E
quanta raiz se achar.
Item
mando agasalhar,
Das
orphans estas nó mans
As
que por beber dos paes
Ficão
proves por casar.
Ás
quaes darão por maridos
Barqueiros
bem recozidos
Em
vinhos de mui bôs cheiros;
Ou
busquem taes escudeiros,
Que
bebão coma perdidos.
Item
mais me cumprirão
As
seguintes romarias,
Com
muitas ave-marias,
E
não curem de Monção.
Vão
por mim a Sancta Orada
D'Atouguia
e d'Abrigada,
E
a Curageira sancta,
Que
me derão na garganta
Saude
a peste passada.
Item
mais me prometti
Nua
á pedra da estrema,
Quando
eu tive a postema
No
beiço de baixo aqui.
E
porque gran gloria senta,
Lancem-me
muita agua benta
Nas
vinhas de Caparica,
Onde
meu desejo fica
E
se vai a ferramenta.
Item
me levarão mais
Hum
gran cirio pascoal
Ao
glorioso Seixal,
Senhor
dos outros Seixaes;
Sete
missas me dirão
E
os caliz encherão,
Não
me digão missa sêcca;
Porque
a dor da enchaqueca
Me
fez esta devação.
Item
mais mando fazer
Hum
espaçoso esprital,
Que
quem vier de Madrigal
Tenha
onde se acolher.
E
do termo d'Alcobaça
Quem
vier dem-lhe em que jaça:
E
dos termos de Leirea
Dem-lhe
pão, vinho e candea,
E
cama, tudo de graça.
Os
d'Obidos e Santarem,
Se
aqui pedirem pousada,
Dem-lhes
de tanta pancada
Como
de maos vinhos tem.
Homem
d'Entre Douro e Minho
Não
lhe darão pão nem vinho;
E
quem de riba d'Avia for
Fazê-lhe
por meu amor
Como
se fosse vizinho.
Assi
que por me salvar
Fiz
este meu testamento,
Com
mais siso e entendimento
Que
nunca me sei estar.
Chorae
todos meu perigo,
Não
levo o vinho que digo,
Qu'eu
chamava das estrellas,
Agora
m'irei par'ellas
Com
grande sêde comigo.
|
Amigos,
vamos chorar
E
com vigor protestar
contra esta nova cota
de zero - a taxa alcoólica!
Estes
novos governantes
não se lembram que já dantes
este vinho que bebemos
fará comer, pelo menos
um milhão de portugueses...!?
Mas
a maior desventura
que nos traz mais amargura
é o preço do bom tinto
- e corrijam-me se minto -
nos custa coiro e cabelo...
e barata,
só zurrapa,
dessa que é puro veneno!!!...
E
a desgraça mais rara
que custa os olhos da cara
é ver, que em vez das tabernas
onde se bebia bom tinto
prantam em todas as bermas
duma estrada ou avenida
uns bares, umas "boites pimbas"
onde se bebem mistelas
que nos trazem só mazelas...
Na
vinte e quatro de Julho
aquilo parece um entrudo...
Aquilo é só chinfrineira...
A bebida é estrangeira...
e com drogas à mistura...
Depois andam à porrada
por dá cá aquela palha...
Vêm os chuis: há pancada!
Todos berram: Ó da Guarda!!!
e fica uma festa armada!!!
"já í
stá o balho armado"!!!
... ... ...
Oh
Rua de San Gião,
Assi
stás da sorte mesma
Como
altares de quaresma
E
as malvas no verão.
Quem
levou teus trinta ramos
E
o meu mana bebamos,
Isto
a cada bocadinho?
Ó
vinho mano, meu vinho,
Que
ma ora te gastamos.
O
travéssa zanguizarra
De
Mata-porcos
escura,
Como
estás de ma ventura,
Sem
ramos de barra a barra.
Porque
tens já tantos dias
As
tuas pipas vazias,
Os
toneis postos em pé?
Ou
te tornaste Guiné
Ou
o barco das enguias.
Triste
quem não cega em ver
Nas
carnicerias velhas
Muitas
sardinhas nas grelhas ;
Mas
o demo já de beber.
E
agora que estão erguidas
As
coitadas doloridas
Das
pipas limpas da borra;
Achegou-lhe
a paz com porra
De
crecerem as medidas.
O
Rua da Ferraria,
Onde
as portas erão mayas,
Como
estás cheia de guaias,
Com
tanta louça vazia!
Já
ma mim accoteo
Na
manhan-que Deos naceo,
A
hora do nacimento,
Beber
alli hum de cento,
Que
nunca mais pareceo.
Rua
de Cata-que-farás,
Que
farei e que farás!
Quando
vos vi taes, chorei,
E
tornei-me por detras.
Que
foi do vosso bom vinho,
E
tanto ramo de pinho,
Laranja,
papel e cana,
Onde
bebemos Joanna
E
eu cento e hum cinguinho.
O
tavernas da Ribeira,
Não
vos verá a vós ninguem
Mosquitos,
o verão que vem,
Porque
sereis areeira.
Triste
que sera de mi!
Que
ma ora vos eu vi!
Que
ma ora me vós Vistes!
Que
ma ora me paristes,
Mãe
da filha do ruim!
Quem
vio nunca toda Alfama
Com
quatro ramos cagados,
Os
tornos todos quebrados!
O
bicos de minha mama!
Bem
alli ó Sancto Esprito
Ia
eu sempre dar no fito
N'hum
vinho claro rosete.
Oh
meu bem doce palhete,
Quem
pudera dar hum grito!
O'
triste Rua dos Fornos,
Que
foi da vossa verdura!
Agora
rua d'amargura
Vos
fez a paixão dos tornos.
Quando
eu, rua, per vós vou,
Todolos
traques que dou
São
suspiros de saudade;
Pera
vós ventosidade
Naci
toda como estou.
Fui-me
ó Poço do chão,
Fui-me
á praça dos canos;
Carpi-vos,
manas e manos,
Que
a dezaseis o dão.
O'
velhas amarguradas,
Que
antre três sete canadas
Sohiamos
de beber,
Agora,
tristes! remoer
Sete
raivas apertadas.
Ó
rua da Mouraria,
Quem
vos fez matar a sêde
Pela
lei de Mafamede
Com
a triste d'agua fria?
O'
bebedores irmãos,
Que
nos presta ser christãos,
Pois
nos Deus tirou o vinho?
O'
anno triste cainho,
Porque
nos fazes pagãos?
Os
braços trago cansados
De
carpir estas queixadas,
As
orelhas engelhadas
De
me ouvir tantos brados.
Quero-m'ir
ás taverneiras,
Taverneiros,
medideiras
Que
me dem hua canada,
Sôbre
meu rosto fiada,
A
pagar lá polas eiras.
Pede
fiado á Biscaïnha.
0
Senhora , Biscaïnha,
Fiae-me
canada e meia,
Ou
me dae hua candeia,
Que
se vai esta alma minha.
Acudi-me
dolorida,
Que
trago a madre cahida,
E
çarra-se-me o gorgomilo:
Emquanto
posso engoli-lo,
Soocorei-me
minha vida.
Biscaïnha.
Não
dou eu vinho fiado,
Ide
vós embora, amiga.
Quereis
ora que vos diga?
Não
tendes isso aviado.
Dizem
lá que não he tempo
De
pousar o cu ao vento.
Sangrade-vos,
Maria Parda;
Agora
tem vez a Guarda
E
a raia no avento.
A
João Cavalleiro, Castilhano.
Devoto
João Cavalleiro,
Que
pareceis Isaïas,
Dae-me
de beber tres dias,
E
far-vos-hei meu herdeiro.
Não
tenho filhas nem filhos,
Senão
canadas e quartilhos;
Tenho
enxoval de guarda,
Se
herdardes Maria Parda,
Sereis
fóra d'empecilhos.
João
Cavalleiro.
Amiga,
dicen por villa
Un
ejemplo de Pelayo,
Que
una cosa piensa el bayo
Y
otra quien lo ensilla.
Pagad,
si quereis beber;
Porque
debeis de saber
Que
quien su yegua mal pea,
Aunque
nunca mas la vea,
Él
se la quiso perder.
Vai-se
a Branca Leda.
Branca
mana, que fazedes?
Meu
amor, Deos vos ajude ;
Que
estou no ataude,
Se
me vós não accorredes.
Fiade-me
ora tres meias,
Que
ando por casas alheias
Com
esta sêde tão viva,
Que
ja não acho cativa
Gota
de sangue nas veias.
Branca Leda
0lhade,
mulher de bem,
Dizem
qu'em tempo de figos
Não
ha hi nenhuns amigos,
Nem
os busque então ninguém,
E
diz o exemplo dioso,
Que
bem passa de guloso
O
que come o que não tem.
Muita
agua ha em Boratem
E
no poço do tinhoso.
Vai-se
a João do Lumiar.
Senhor
João do Lumiar,
Lume
da minha cegueira,
Esta
era a verde pereira
Em
que vos eu via estar.
Fiae-me
hum gentar de vinho,
E
pagar-vos-hei em linho,
Que
ja minha lan não presta:
Tenho
mandada hua besta
Por
elle a antre Douro e Minho.
João
do Lumiar.
Exemplo
de mulher honrada,
Que
nos ninhos d'ora a hum anno
Não
ha passaros oganno.
I-vos,
que sois aviada.
Emquanto
isto assi dura,
Matae
coan agua a seccura,
Ou
ide a outremm enganar,
Que
eu não me hei-de fiar
De
mula com matadura.
Indo
para casa de Martim Alho, vai dizendo:
Amara
aqui hei d'estalar
Nesta
manta emburilhada:
Oh
Maria Parda coitada,
Que
não tens ja que mijar!
Eu
não sei que mal foi este,
Peor
sem vezes que a peste,
Que
quando era o trão e o tramo,
Andava
eu de ramo em ramo
Não
quero deste, mas deste.
Diz
a Martim Alho.
Martim
Alho, amigo meu,
Martim
Alho meu amigo,
Tão
secco trago o embigo
Como
nariz de Judeu.
De
sêde não sei que faça;
Ou
fiado ou de graça,
Mano,
soccorrede-me ora,
Que
trago ja os olhos fóra
Como
rala da negaça.
Martim
Alho.
Diz
hum verso acostumado:
Quem
quer fogo busque a lenha;
E
mais seu dono d'acenha
Appella
de dar fiado.
Vós
quereis, dona, folgar,
E
mandais-ane a mim fiar?
Pois
diz outro exemplo antigo,
Quem
quizer comer comigo
Traga
em que se assentar.
Vai-se
á Falula.
Amor
meu, mana Falula,
Minha
gloria e meu deleite,
Emprestae-mne
do azeite,
Que
se me sécca a matula.
Até
que haja dinheiro,
Fiae,
que pouco requeiro,
Duas
canadas bem puras,
Por
não ficar ás escuras.
Que
se m'arde o candieiro.
Falula.
Diz
Nabucodonosor
No
sideraque e miseraque
Aquelle
que dá gran traque
Atravesse-o
no salvanor.
E
diz mais, quem muito pede,
Mana
minha, muito fede.
Sete
mil custou a pipa;
Se
quereis fartar a tripa,
Pagae,
que a vinte se mede.
Maria
Parda.
Raivou
tanto sideraque
E
tanta zarzagania.
Vou-me
a morrer de sequia
Em
cima d'hum almadraque.
E
ante de meu finamento,
Ordeno
meu testamento
Desta
maneira seguinte,
Na
triste era de vinte
E
dous desde o nacimento.
Testamento.
A minha alma encommendo
A
Noé e a outrem não,
E
meu corpo enterrarão
Onde
estão sempre bebendo.
Leixo
por minha herdeira
E
tambem testamenteira,
Lianor
Mendes d'Arruda,
Que
vendeo como sesuda,
Por
beber, at'á peneira.
Item
mais mando levar
Por
tochas cepas de vinha,
E
hUa borracha minha
Com
que me hajão d'encensar,
Porque
teve malvasia.
Encensem-me
assi vazia,
Pois
tambem eu assi vou;
E
a sêde que me matou,
Venha
pola cleresia.
Levar-me-hão
em hum andor
De
dia, ás horas certas
Que
estão as portas abertas
Das
tavernas per hu for.
E
irei, pois mais não pude,
N'hum
quarto por ataude,
Que
não tivesse agua pé
O
sovenite a Noé
Cantem
sempre a meude.
Diante
irão mui sem pejo
Trinta
e seis odres vazios,
Que
despejei nestes frios,
Sem
nunca matar desejo.
Não
digão missas rezadas,
Todas
sejão bem cantadas
Em
Framengo e Allemão,
Porque
estes me levarão
Ás
vnhas mais carregadas.
Item
dirão per dó meu
Quatro
ou cinco ou dez trintairos,
Cantados
per taes vigairos,
Que
não bebão menos qu'eu.
Sejão
destes tres d'Almada,
E
cinco daqui da Sé,
Que
são filhos de Noé,
A
que som encommendada.
Venha
todo o sacerdote
A
este meu enterramento,
Que
tiver tão bom alento,
Como
eu tive ca de cote.
Os
de Abrantes e Punhete,
D'Arruda
e d'Alcouchete,
D'Alhos-Vedros
e Barreiro,
Me
venhão ca sem dinheiro
Atá
cento e vinte e sete.
Item
mando vestir logo
O
frade allemão vermelho
Daquelle
meu manto velho
Que
tem buracos de fogo.
Item
mais, mais mando dar
A
quem se bem embebedar ,
No
dia em que eu morrer,
Quanto
movel hi houver
E
quanta raiz se achar.
Item
mando agasalhar,
Das
orphans estas nó mans
As
que por beber dos paes
Ficão
proves por casar.
Ás
quaes darão por maridos
Barqueiros
bem recozidos
Em
vinhos de mui bôs cheiros;
Ou
busquem taes escudeiros,
Que
bebão coma perdidos.
Item
mais me cumprirão
As
seguintes romarias,
Com
muitas ave-marias,
E
não curem de Monção.
Vão
por mim a Sancta Orada
D'Atouguia
e d'Abrigada,
E
a Curageira sancta,
Que
me derão na garganta
Saude
a peste passada.
Item
mais me prometti
Nua
á pedra da estrema,
Quando
eu tive a postema
No
beiço de baixo aqui.
E
porque gran gloria senta,
Lancem-me
muita agua benta
Nas
vinhas de Caparica,
Onde
meu desejo fica
E
se vai a ferramenta.
Item
me levarão mais
Hum
gran cirio pascoal
Ao
glorioso Seixal,
Senhor
dos outros Seixaes;
Sete
missas me dirão
E
os caliz encherão,
Não
me digão missa sêcca;
Porque
a dor da enchaqueca
Me
fez esta devação.
Item
mais mando fazer
Hum
espaçoso esprital,
Que
quem vier de Madrigal
Tenha
onde se acolher.
E
do termo d'Alcobaça
Quem
vier dem-lhe em que jaça:
E
dos termos de Leirea
Dem-lhe
pão, vinho e candea,
E
cama, tudo de graça.
Os
d'Obidos e Santarem,
Se
aqui pedirem pousada,
Dem-lhes
de tanta pancada
Como
de maos vinhos tem.
Homem
d'Entre Douro e Minho
Não
lhe darão pão nem vinho;
E
quem de riba d'Avia for
Fazê-lhe
por meu amor
Como
se fosse vizinho.
Assi
que por me salvar
Fiz
este meu testamento,
Com
mais siso e entendimento
Que
nunca me sei estar.
Chorae
todos meu perigo,
Não
levo o vinho que digo,
Qu'eu
chamava das estrellas,
Agora
m'irei par'ellas
Com
grande sêde comigo.
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