Gil Vicente 500

Vida GV de 1460/70 a 1502 a 1536/38
500 anos de GV - de 1960 - 2002 - 2038

78 anos a celebrar o 5ºCGV como reNASCIMENTO de um TEATRO a partir da RAIZ
por José Gil Vicente da Beira e outros deNÓMIOS...

Obras de Gil Vicente:
PANORÂMICA

as 47 uma a uma

S . MARTINHO - para uma COMUNIDADE EM FESTA (Página anterior)

OUTROS ELEMENTOS & CURIOSIDADES (Continuação do anterior)

brindes... quadras... despiques... lengalengas...curiosidades... uma exposição ao Ministro da Agricultura, de 1934 sobre a urgência de bem aproveitar a M.... produzida no país... - a Lenda da Descoberta do Vinho... - canções... BD...


Desenho de PG, 10º Ano, Escola Secundária Nº 2 (D. Manuel I) de Beja, 1989

  Curiosidades sobre o VINHO
Brindes & Saúdes...

em português e outras línguas... Inglês, Alemão, Espanhol...

Quadras  
Despiques... in J. Leite de Vasconcelos
Lengalengas... Antes da sopa... Por cima de pêras... O 1º por inteiro... Era e no era... Ribeira Mota...
2 Poemas de Fenando Pessoa Fernando Pessoa
Aos Irmãos de S. Martinho José Manuel Landeiro, in Mensário das Casa do Povo Ano XXIV, Nov. 1969
Padre nosso dos bêbados e... Numa Teberna de Beja / anos 80
Exposição sobre a urgente necessidade de aproveitar toda a M. nacional... JOÃO DE VASCONCELOS E SÁ
A Lenda da Descoberta do Vinho in MJ Delgado
  CANÇÕES
Não se me dá que vindimem  
Videirinha  
Ó Videira  
Videira  
Chora a videira  
Chora, Bideira  
Ora Venha Vinho para os nossos copos...  
Rapazes, Meninos...  
Chevaliers de la Table Ronde  
What shall we do with the drunken sailor  
The wild rover  


BRINDES, SAÚDES & SAUDAÇÕES QUADRAS & DITOS...
que se dizem de copo na mão para acompanhar a bebida...

 

(Talvez os mais conhecidos e usados...)
Vai acima,
Vai a baixo
Vai ao Centro
Bota abaixo
...

P'ra mim és um bom companheiro (x3)
E não há ninguém melhor (x3)

QUADRAS

(in Música Popular portuguesa, de Armando Leça)
"o vinho é ainda presente, e festivo, com que se rematam as adiafas, as ceifas, descamisadas, etc. Havia no Minho, zona de Riba-Ave, o costume de após a malha do centeio, o dono da seara oferecer um cântaro de vinho aos trabalhadores, e, quando este aparecia na eira, cantava-se:

Viva o dono da malhada,
que ela bem malhada fica,
que nos deu pão da caixa
e mais o vinho da pipa.

Em terras montesinhas de Sernancelhe, ainda ao estraçar da palha na eira, cantam:
Venha o vinho, beberemos,
molharemos a garganta,
eu sou como o rouxinol
quanto mais bebe mais canta.

e quando acabam de cruar a palha:
Se o vinho não vem
não bebe ninguém.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Enumeremos, como andeiro, o que sobre o "calendário do vinho", se nos deparou em 1939-40. Dum coro de mirandeses:
Quien ten parreiras tem ubas,
quien ten ubas ten qui dar
... ... ... ... ... ... ... ...

A vindima no Alto-Douro, mesmo com o azougado formigueiro de tanta gente que ela movimenta, é murcha de cantares. Aqueles socalcos sob sol fervente e com o carrego dos cestos, a vastidão da paisagem, de cerros acastelados, imponentes, vertentes declivosas, com os meandros espacejados do Douro entre lombas petrificadas, tudo isto é grandioso, sugestivo, mas doloroso para os que aí trabalham com o suor do seu rosto:
Não se me dá da vindima
nem de andar a vindimar;
dá-se-me das tristes noites
que se passam no lagar.

(Variante da Azinhaga do Ribatejo)
Não si mi dá que vindimes,
Vinha que eu já vendimei,
Nem si mi dá que outros logrem
Amores que eu rejeitei.

(Barqueiros)
Fui ao Doiro às bêndimas,
não achei que bêndimar;
bêindimaram-me as costelas.
- olha o qu'eu lá fui ganhar.


E ao tempo das vindimas, descem das terras frias às terras quentes, ranchos de vindimadores vindos das lonjuras de Barroso, entoando coros, modas da roga (1) que se ouvirão para lá de Armamar.
Vindimas, vindiminhas,
as vindimas boas são;
saí de casa c'um pataco
e entrei com meio tostão.

A Vindima minhota é a de mais flostria - ramadas com esteios de granito cachos trepadiços nas árvores - mas o seu cancioneiro é falho em tal assunto, principalmente na musica.
(1) "Estas geiras a que chamam de rogo recebem moços e moças, para vindimar, apanhar a azeitona, ou castanhas..." - Sousa Viterbo.

OUTRAS QUADRAS E MÚSICAS

 

(do Douro Litoral)
Ó milagroso São Paio,
Ó milagroso santinho.
A promessa que vos devo
É de vos regar com vinho.

O vinho é coisa santa
Que nasce da cepa torta;
A uns faz perder o tino
A outros errar a porta.

O meu amor já vem torto
Já se perdeu no caminho;
Já se não lembra de mim,
Mas não se esquece do vinho.

Diabos levem os homens,
Àqueles que bebem vinho;
Ao meu guarde-m'o Deus,
Que bebe tão poucochinho.

(de Amares)
Chora ó bideira,
Bideirinha chora
Chora o seu amor,
Que se vai embora.

(Teixoso)
Ó vindima, dá-me um catcho,
Ó catcho dá-me um beijinho;
A quem vós dais os abraços
Dai-lhe também os beijinhos.

(Beira Litoral)
Eu hei-de morrer na adega,
O tonel é o meu coração:
Hei-de ir amortalhado
Cum copo cheio na mão.

(Baixo Alentejo)
Venha o copo, venha a pinga,
Venha mais meia canada;
Eu sem o copo não bebo,
Sem o vinho, não sou nada.

 

OUTRAS CURIOSIDADES:

«É no dia 11 de Novembro que, por tradição já muito antiga, se realiza a prova do vinho novo...
Estraleja a castanha na fogueira, salta o vinho nas canecas...»

Consta-se que foi um burro que ensinou os homens a podar a vinha... Um camponês, que deixou o burro junto de uma videiras, foi dar com ele a comer a rama e os caules mais tenros... o certo é que essa videira deu melhores uvas do que as outras e assim aprendeu a podar a vinha para que desse melhores frutos e poder fazer vinho...

Em Gil Vicente, no PRANTO DA MARIA PARDA (1521) lê-se logo no início: "Pranto da Maria Parda, porque viu as ruas de Lisboa com tão poucos ramos nas tavernas e o vinho tão caro, e ela não podia viver sem ele...

Ainda em Gil Vicente, na Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela (1527), com as palavras "Agora quero eu dizer..." começa uma série de 34 versos versando sobre o vinho...

Em várias versões da NAU CATRINETA que traz muito que contar... "as meninas" avistadas pelo gajeiro estão, normalmente "debaixo de um laranjal", mas em várias versões, aparecem "debaixo de um parreiral"...

Na Bíblia, a invenção do vinho é atribuída a Noé - LIVRO do GÉNESIS, 9,20. Depois do Dilúvio, "Noé, que era agricultor, começou a lavrar a terra e plantou a primeira vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se e..."

 

SAUDAÇÕES & BRINDES em várias LÍNGUAS...

"toasts" - BRINDES em inglês

«O Oxford Dictionary of Quotations, edição de 1962, traz extenso capítulo dedicado aos "toasts", do qual extraímos alguns, anónimos, do folclore popular.» (Ver obra citada na BIBLIOGRFIA: O FOLCLORE DO VINHO, de Whitaker Penteado, Ed. Centro do Livro Brasileiro, Dez, 1980)

em Inglês:

À saúde dos casados e dos solteiros:
To the bachelor
Who is always free!
To the husband
Who sometimes mal be!

Ao solteiro,
que é sempre livre!
Ao casado,
que é livre às vezes!

Uma imagem poética para os corações generosos:
Here's to the heart that fills,
As the bottle empties!

À saúde deste coração, que se enche
enquanto a garrafa se esvazia!

Um brinde à fortaleza de ânimo:
Here's to the man who can smile through his tears
And laugh in the midst of a sigh,
Who can mingle his youth with advanced years,
And be happy to live or to die!

À saúde do homem que pode rir das suas lágrimas
e divertir-se com os sofrimentos,
que pode impregnar de juventude a velhice,
e ser igualmente feliz na vida e na morte!

Uma evocação ao "inventor do vinho":
Here's a bumper of wine:
Fill thine, fill mine!
Here' s a health to old Noah,
who planted the wine!

1 À saúde destes copos,
Enche os nossos, com carinho,
E viva o velho Noé
O primeiro a fazer vinho!

Um toast que reúne os desejos que, para os Ingleses, constituem a base da felicidade:
Here's to a long file and a merry one,
A guick death and a happy one,
A good girl and a pretty one,
A good bottle and another one!"

À saúde de uma longa e alegre vida,
de uma morte rápida e feliz,
de uma bela garota e bonita,
de uma boa garrafa e mais outra!


E o último, um galanteio à mulher amada:
Here's to this water
Wishing it were wine,
Here's to you, my darling,
Wishing you were mine!

À saúde desta água
Quem me dera fosse vinho!
Bebo à tua, minha querida,
Desejando fosses minha!

uma em ALEMÃO:

Parece estranho como apareça, uma das mais tradicionais "trinken lieden" alemãs a fazer parte do folclore brasileiro, pois foi recolhida, por Guilherme Santos Neves, no Estado do Espírito Santo, e registrada como cantiga tradicional teutocapichaba. Vianna Moog já se havia referido a essa canção báquica alemã, popularíssima nos estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, cantadas pelos descendentes brasileiros dos imigrantes teutos:

Trink, Trink, Brüderlein, trink,
Lass doch die Sorgen zu Haus
Meide den Kummer
Und meide den Schmerz.
Dann ist das Leben ein Scherz!

Bebe, bebe, irmãozinho, bebe,
Deixa as preocupações em casa.
Esquece os problemas.
Esquece a dor,
Só assim é que a vida é feliz!

de ESPANHA:

E, também do Norte da Espanha, é este coreto contraditório, alegre e fúnebre:

Cuando yo me muera
tengo ya dispuesto en el testamento
que me han de enterrar
en una bodega, dentro de una cuba,
con un grana de uva en el paladar.

A mi me gusta el pin, pirin, pin, pin,
de la bota empinar paraban, pan, pan,
con el pin, piribin, pin, pin,
con el pan, paraban, pan, pan,
el que no le gusta el vino
es un animal
o no tiene un real!

Quando eu morrer
já dispus no testamento
que me hão-de enterrar
em uma taverna, dentro de um barril,
com um bago de uva no céu da boca.

Eu gosto do pin. pirin. pin. pin.
do copo virar paraban. pan. pan.
com o pin. pirin, pin. pin.
com o pan. paraban. pan. Pan,
quem não gosta de vinho
é uma besta (animal)
ou não tem vintém.

PADRE NOSSO DOS BÊBADOS

(Copiado numa taberna de Beja - anos 80)
Santa uva que estais na parreira,
Santificado seja o vosso fruto,
Venha a nós o vosso liquido,
Embriaga-nos a nossa vontade
Assim em casa como na taberna;
O vinho de cada dia nos dai hoje;
Perdoai-nos, senhor, quando bebermos de mais{?de menos)
Assim como nós perdoamos ao taberneiro quando baptiza o vinho;
Não nos deixeis cair na tentação de não beber;
e livrai-nos das garras das autoridades;
e do mal que nos possa fazer,
AMEN


DESPIQUES

Leite de Vasconcelos recolheu, no Porto, cantiga ao desafio pertencente ao folclore do vinho.
Parodia as alterationes Idade Média, pois enfrentam-se a água e o vinho:

 

O VINHO E A ÁGUA

O VINAGRE & O VINHO

Vinho:

Sou o luxo das tabernas,
Dou grandeza aos arraiais,
E também prazer a muitos
Dentro de finos cristais.

Água:
Sejam vasos de madeira,
De louça fina ou cristal,
A todos eu dou limpeza,
Deixa a todos por igual.

Outra virtude mais tenho,
De tão grande estimação:
Que foi Cristo batizado
Com a água da Jordão.

São João baptizou Cristo,
Cristo baptizou João;
Todo a império cristalino
Ficou cheio de bênção.

E com a mesma virtude
Aos racionais eu baptizo,
Para que possam entrar
No celeste Paraíso.

Vinho:

Basta que andes de rastro,
Como a cobra no espinhado;
Vagueias só pelo mundo,
E eu estou arrecadado.

É ditado bem antigo
E costuma-se diz.er:
- Aquele que anda de rastro,
Pouco valor pode ter!

Água:

No mundo nada se cria
Sem a minha protecção;
E tu me és obrigado
Se conheces a razão.

Não vês provas e mais provas
Desta razão verdadeira?
Que deixavas de ser vinha
Se eu não regasse a videira.

 

O VINAGRE

Nós somos dois irmãozinhos
Ambos de uma mãe mascidos,
Ambos iguais nos vestidos,
Porém, não na condição.
Para gostos e temperos
A mim me procurarão.
Para mesas e banquetes
Falem lá com meu irmão,
Que a uns faz perder o tino,
E, a outros, a estimação.

O VINHO

Somos iguais no nome
Desiguais no parecer;
Meu irmão não vai à missa,
Eu não a posso perder.
Entre bailes e partidas,
Lá me encontrarão;
Nos labores da cozinha,
Osso é lá com meu irmão.

Algumas lengalengas...

Antes da sopa, molha-se a boca...
Sopa começada, goela molhada...
No meio dela, lava-se a goela...
Sopa acabada, goela lavada.

Por cima de pêras, vinho bebas;
E tanto bebas, que nadem as pêras,
Mas não bebas tanto,
Que nadem as pêras, de canto para canto.

Nota: Enquanto se recomenda que o vinho vai bem com as pêras, há quem avise que o vinho, por exemplo com pêssegos e/ou melancia, fazem um mal terrível... como fomos avisados que, beber leite depois de comer MANGA, pode ser até mortal...

Para o vinho ficar bem provado, observam os amigos de Baco a seguinte regra:

O primeiro (copo) bebe-se inteiro,
O segundo, até ao fundo,
O terceiro, como o primeiro;
O quarto, como o segundo;
O quinto bebe-se todo;
O sexto, do mesmo modo;
O sétimo bebe-se cheio;
O oitavo, duas vezes meio...

Há quem beba mais que a conta, mas daí para diante, já não é provavél que se possam contar...

Era e não era…

Era e no era
Andava na serra
Atrás do arado
Chegou-lhe o recado
Que seu pai era morto
E a mãe por nascer
O que é que ele havia de fazer?
Deitou os bois às costas
E o arado a pastar
Foi por ali a baixo
Achou um ninho de cartaxo,
Foi à porta de um outeiro
Logo viu um castanheiro
Carregado de avelãs
E ameixas temporãs
E com nozes barrigudas
Foi por li acima
Encontrou uma vinha
Foi à vinha e encheu a barriga de uvas
Vem lá o dono dos marmelos:
- Ó seu ladrão, estás a comer os meus figos,
Que o meu pai tem
para dar aos seus amigos.

Para divertir o garoto, o contador de lengalengas muda à vontade os nomes das frutas: uvas que se transformam em marmelos, marmelos em figos, e assim por diante.

RIBEIRA MOTA

«Em Torres Vedras canta-se a "Ribeira Mota". Como a maioria das lengalengas é muito comprida, e o seu tamanho pode aumentar ou diminuir de acordo com o auditório... Sua transcrição integral justifica-se para o folclore do vinho em Portugal:»

Nota: Esta é mais uma CANTIGA por acumulação que pode não ser considerada um LENGALENGA, mas como, para alguns, é evidente, a finalidade, como exercício de memória e desenvolvimento do vocabulário, por relação lógica ou pelo "disparate" (ver Era e no era) é o mesmo...

Meus senhores,
Aqui está a corda
Que prende a bota
Que leva o vinho À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o pau
Que bate no cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o lume
Que queima o pau
Que bate no cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está a água
Que apaga o lume
Que queima o pau
Que bate no cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o boi
Que bebe a água
Que apaga o lume
Que queima o pau
Que bate no cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está a faca
Que mata o boi
Que bebe a água
Que apaga o lume
Que queima o pau
Que bate no cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está o homem
Que faz a faca
Que mata o boi
Que bebe a água
Que apaga o lume
Que queima o pau
Que bate no cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Meus senhores,
Cá está a morte
Que leva o homem
Que faz a faca
Que mata o boi
Que bebe a água
Que apaga o lume
Que queima o pau
Que bate no cão
Que morde no gato
Que papa o rato
Que rói o sebo
Que unta a corda
Que prende na bota
Que leva o vinho
À ribeira Mota.

Dois Poemas de Fernando Pessoa:

o Poeta "apanhado em flagrante de litro"

o JARRINHO

Levava eu um jarrinho
Pra ir buscar vinho,
Levava um tostão
p'ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro pra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia!.

POEMA PIAL

Casa Branca - Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)

Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só uma vez.

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!!


Além de "O Poeta em flagrante de litro", aqui "Os Amigos no Martinho da Arcada"

AOS IRMÃOS DE S. MARTINHO
in Mensário casas do Povo - José Manuel Landeiro - (11 de Novembro)

Estamos em plena época de S. Martinho, do ciclo outonal etnográfico, uma das festas bacanais herdadas dos pagãos.
Sem receio de errar, podemos afirmar ser o S. Martinho uma das festas mais comemoradas do mundo cristão.
No nosso Pais, esta festa atinge um apogeu de solenidade e, para isso, muito contribuem os "magustos", acompanhados de vinho novo ou de jeropiga, também conhecida por jerovita, a bebida predilecta das senhoras, principalmente das das Beiras.
A propósito das festas do S. Martinho, vamos transcrever de uma revista antiga a seguinte poesia publicada quando a filoxera atacou as vinhas do nosso País:

"Eis o dia, Irmãos, da festa
Do padroeiro do vinho!
É chegado o dia alegre
Do nosso bom S. Martinho.

Dia votado às moafas
Aos pilões e cabeleiras.
Carraspanas, bicos, turcas
Sumatras e bebedeiras.

Reúna-se a irmandade;
Nomeemos um Juiz;
Celebremos este dia,
Bebendo como funis.

Façamos da nossa pança
Armazém grande de vinho;
Só assim celebraremos
O dia de 8. Martinho.

Venha Porto e Carcavelos
Também o Madeira seco,
E no enxugar de garrafas
Nenhum de nós seja peco.

Do nosso patrono a festa
Deve ser bem festejada;
Esqueçamos as tristezas.
De nossa vida passada.

Metamos para o bandulho
Quanto lá caiba de vinho
Para honrarmos a memória
Do patrono S. Martinho.

Mil brindes e mil saudades
Em nome da confraria
Quem riquezas não possui
Possua paz e alegria.

Se os bens da tortura avara
Duro fado nos legou
Deu-nos boca: eia! Bebamos
O vinho que Deus nos criou.

Roguemos ao nosso Santo,
Em nome do bem geral,
Finalize o mal das vinhas
Ao menos em portugal.

Que acabe com essa praga,
Ruína dos lavradores
Que tento aterra e ameaça
Os seus fiéis bebedores

Sim, morramos abrigados
Dentro d'imenso tonel
Pois morrer de boca seca
É morte dura e cruel!

Se o milagre faz o Santo,
Como devemos esp'rar,
Com boa festa pra o ano
Pode o Santo contar.

Vamos beber no entanto
Do que há, ou mal ou bem
Esp'rançosos na colheita
Do futuro ano que vem

 

 

EXPOSIÇÃO
do falecido poeta lavrador
JOÃO DE VASCONCELOS E SÁ
pedindo adubos ao ministro da agricultura,
Dr. QUEIMADO DE SOUSA
em Fevereiro de 1934

(Por se tratar de um documento cheio de ironia e verve e assim a MERDA poder contribuir para o desenvolvimento da Agricultura em Portugal e por conseguinte para o crescimento das VINHAS e o aumento do VINHO e assim se poder celebrar com mais entusiasmo o S. Martinho, aqui fica esta EXPOSIÇÃO)

Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, Sr. Ministro, a erguemos,
a erguemos até vós, humildemente,
em toada uníssona e plangente
em que evitamos o menor deslize
e em que damos razão à nossa crise.

Senhor! Em vão esta Província inteira
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa,
na terra que é delgada e sempre fraca!
A matéria, em questão, chama-se CACA.

PRECISAMOS DE MERDA, SR. SOISA,
E NUNCA PRECISÁMOS D'OUTRA COISA!

Se, os membros desse ilustre Ministério,
querem tomar o vosso cargo a sério,...
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
Mijem-nos também, por caridade.

O Sr. Oliveira Salazar,
quando tiver vontade de cagar,
venha até nós, solícito, calado,
busque um terreno que esteja lavrado,
deite as calças abaixo, com sossego,
ajeite o cu, bem apontado ao rego
e... como Presidente do Conselho,
queira espremer-se, até ficar vermelho!
A Nação confiou-lhe os seus destinos?
Então, comprima, aperte os intestinos.
Se lhe escapar um traque, não se importe!
Quem sabe se, o cheirá-lo, nos dá sorte?!

Quantos porão as sua esperanças
num traque do Ministro das Finanças?
E, quem viver aflito, sem recursos,
Já não distingue um traque, dos discursos.

Nem precisamos de falar, tenho a certeza,
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntamos nelas.

PRECISAMOS DE MERDA, SR. SOISA,
E NUNCA PRECISÁMOS D'OUTRA COISA!

Adubos de potassa? Cal? Azote?
Tragam-nos merda pura do bispote!...
e todos os penicos portugueses,
durante, pelo menos, uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente, nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas,
desespero dos arados e charruas,
quem os compra, arrenda, ou quem os herda
sente a paixão nostálgica da merda!...

PRECISAMOS DE MERDA, SR. SOISA,
E NUNCA PRECISÁMOS D'OUTRA COISA!

Ah! merda grossa e fina, merda boa,
das inúteis retretes de Lisboa!
Como é triste saber que, todos vós,
andais cagando, sem pensar em nós!
Se querem fomentar a agricultura,
mandem vir muita gente com soltura...
Nós daremos trigo, em larga escala,
pois, até nos faz jeito, a merda rala!
Venham todas as merdas à vontade,
formas naturais ou esquisitas...
e, desde o cagalhão às caganitas,
desde o grande poio, à pequena bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta...


PRECISAMOS DE MERDA, SR. SOISA,
E NUNCA PRECISÁMOS D'OUTRA COISA!

P'la junta corporativa SRNCS,
O Presidente D.Tancredo - o Trovador
Évora, 1934

A LENDA DA DESCOBERTA DO VINHO
In A ETNOGRAFIA E O FOLCLORE NO BAIXO ALENTEJO - Manuel Joaquim Delgado, Edição da Assembleia Distrital de Beja, 1985 - pp. 238/9

Diz-se que, logo a seguir ao Dilúvio Universal, certo homem morava com sua mulher e muitos filhos, numa rústica cabana feita de paus e colmo, no campo. Consigo vivia também um seu irmão casado que, como aquele, tinha numerosa prole.
Nesses tempos recuados o primitivo homem não sabia cultivar as terras e, assim, cresciam, espontâneas, por toda a parte, as mais diversas e variadas plantas, algumas das quais, como o trigo, o centeio e o arroz, as árvores de fruto, a figueira, a laranjeira, e arbustos como a vinha, produziam frutos de que ele se alimentava.
Era o mês de Setembro. Aqui e acolá, entremisturadas com outras plantas, agarradas à terra brava e inculta, desenvolviam-se as cepas ou videiras carregadas de roxos e abundantes cachos de uvas.
Para satisfazerem as necessidades instintivas de alimentação, as indígenas mulheres daqueles dois homens tinham acorrido a certo lugar um tanto afastado da cabana a procurar alguns frutos e raízes com que se alimentar e dar de alimento à prole, enquanto que os homens, levando consigo alguns instrumentos mortais, procuravam caça para comer.
Aconteceu que as ditas mulheres ao colherem os frutos que procuravam viram roxos e maduros cachos de uvas a que elas acharam muito graça pela forma dos frutos. Surpreendeu-as ainda, quando, ao comerem alguns bagos, os acharam tão saboroso e doces.
Comeram até fartar e deram de comer a seus filhos.
Não se contentando com as uvas que comeram, entenderam por bem colher e levar para a sua cabana alguns cachos.
As trevas caíam sobre a terra que cobriam com seu manto escuro. Logo que os maridos dessas mulheres regressavam a casa com alguns animais que haviam caçado, elas, pressurosas, correram a dar a provar os engraçados frutos (as uvas), de que elas desconheciam o nome, e eles, provando-os, acharam-nos doces e bons.
Guardaram alguns cachos numa tosca vasilha de madeira cavada de um tronco de árvore, que taparam com uma tampa também de madeira sobre a qual colocaram algumas pedras para se não destapar facilmente.

Passaram-se dias e, até, semanas. Entretidas com outras coisas que lhe despertavam a atenção, as ditas mulheres não mais se lembraram dos estranhos frutos (os cachos de uvas) seus desconhecidos. E sucedeu que a tampa, que cobria a vasilha onde haviam guardado os cachos, era frágil, e as pedras pesadas, partindo-a, caíram sobre as uvas depositadas no fundo daquela, as quais ficaram esmagadas com o peso das pedras.
Passado algum tempo, uma das ditas mulheres indo verificar se a vasilha de madeira estava limpa para nela depositar frutos silvestres e outros alimentos, viu, com espanto, no fundo da vasilha, certo líquido e esmagadas, apenas com os engaços secos, as uvas de que não mais se lembrara.
Cheia de curiosidade, provou o estranho líquido e achou-o doce e bom. Espantada, foi chamar a cunhada, a quem deu a provar o líquido desconhecido. Esta também o achou bom e gostou.
Em face do que presenciavam, logo pensaram as rudes mulheres que esse líquido era proveniente das uvas que as pedras, caindo sobre elas, haviam esmagado e produzido aquele líquido.
De prova em prova, ora uma, ora outra das mulheres, sucedeu que elas, bebendo o líquido de que tanto gostaram, se foram tornando tontas e em desequilíbrio. Com a tontura crescia nelas uma alegria íntima e estranha que não sabiam explicar. Vai daí, a certa altura, já riam às gargalhadas e sentiam que estavam tontas.
Não podendo ter-se em pé, que as pernas vergavam como canas verdes, foram deitar-se mas continuaram a rir e a dizer coisa, disparatadas e sem nexo.
O seu estado anormal e esquisito manteve-se até à noite quando os maridos regressaram da caça.
Qual não foi o espanto deles vendo-as naquele estado e jeito de riso e de tontura. Logo pensaram que alguma coisa de grave lhes havia acontecido. Parecia-lhes que tinham sido tomadas de espírito diabólico ou possesso.
O quer que fosse tinha passado por elas - pensaram eles - e perguntaram-lhes a razão por que estavam assim. As mulheres tudo lhes contaram.
Mal se tendo em pé, uma delas levou o marido a ver a vasilha, no fundo da qual estava depositado o desconhecido líquido.
Com efeito, provando-o, gostou dele e deu-o a provar ao, irmão que também gostou.
Havia sido feita uma grande descoberta, é que aquele líquido proveniente das uvas que havia fermentado, era vinho. Estava descoberto o vinho.
Depois disso, este só veio a aperfeiçoar-se com o processo de o fabricar.


CANÇÕES

NÃO SE ME DÁ QUE VINDIMEM

Não se me dá que vindimem
Vinhas que eu já vindimei;
Não se me dá que outros logrem
Amores que eu rejeitei.

Fui um ano à vindima
Pagaram-me a trinta reis;
Dei um vintém ao barqueiro,
Fui pra casa com dez réis.

Pela folha da videira
Conheço eu a latada;
Faço-me desentendida,
A mim não me escapa nada.

Estou debaixo da latada,
Nem à sombra, nem ao sol;
Estou ao pé do meu amor,
Não há regalo maior.


in: A CANÇÃO POPULAR PORTUGUESA, de Fernando Lopes Graça, PEA, s/d

A VIDEIRINHA

 

Ó videira, dá-me um cacho,
Ó cacho, dá-me um baguinho;
Meu amor, dá-me um abraço,
Que eu te darei um beijinho!

Ó videira, dá-me um cacho,
Ó cacho, dá-me um baguinho;
Quero fazer água-pé,
Que o meu pai não tem vinho.

Ó José, ó cacho d'uva,
Ai quem te depenicara:
De baguinho, em baguinho,
Que nem um só te deixara.

 

1º coro:
Chora a videira,
A videirinha chora
Chora a videira
Ó rosa linda.

2º coro:
Chora a videira,
Ela está a chorar;
Chora o meu amor,
Que me quer deixar.

2º coro:
Chora a videira,
A videirinha chora
Chora a minha amada,
Que se vai embora.


in: ALEGRIAS POPULARES, Cancioneiro Folclórico do Concelho de Seia, BA, Jaime Pinto Correia, vol. I, 1952, vol. II, 1967

Ó VIDEIRA

 

Beira - vila Verde

Chora a videira,
A videirinha chora
Pela rosa branca,
Que se vai embora.

Ó videira, dá-me um cacho,
Ó cacho, dá-me um baguinho;
Meu amor, dá-me um abraço,
Que eu te darei um beijinho!

Deixa-te estar cacho de uva
Na videira, a reluzir;
Quem por mim perdia o sono,
Agora pode dormir.

 

 

Outra versão

Chora a videira,
A videirinha chora
Pela rosa branca,
Que se vai embora.

Tens a videirinha à porta,
Não a sabes vindimar;
Tens o amor a teu lado,
Não o sabes namorar

Não o sabes namorar,
Não lhe sabes dar carinhos;
Tens o amor a teu lado,
Dá-lhe abraços e beijinhos.

 


in: ALEGRIAS POPULARES, Cancioneiro Folclórico do Concelho de Seia, BA, Jaime Pinto Correia, vol. I, 1952, vol. II, 1967

VIDEIRA

O meu amor é David,
Ai! é parente da videira;
Dá voltinhas para me ver,
Ai! como o peixe na ribeira.

Os meus olhos, quando choram,
Nem graça, nem vista têm;
Já os tenho repreendido,
Que não chorem por ninguém.

Quando eu nasci, chorava,
Não era por ter nascido;
Era só em me lembrar,
Que estva o mundo perdido.

Ó mar, que nas ondas levas,
Um bem que eu tanto adoro;
Se levas fartura de água,
É das lágrimas que eu choro.

A videira sempre chora,
Quando a corta o podador;
Também eu tenho chorado,
Com penas do meu amor.

Vós dizeis aparta, aparta,
O vinho tinto do branco;
Também a mim me apartaram,
De quem eu gostava tanto.

Não cortes o cacho verde,
Da videira cerceal;
Não contes os teus segredos,
A quem não te for leal.

 


Chora a videira,
Ó videirinha;
Chora a videira
Ó rosa minha.

2º coro:
Chora a videira,
Ó videirosa;
Chora a videira,
Ó linda rosa.


in: ALEGRIAS POPULARES, Cancioneiro Folclórico do Concelho de Seia, BA, Jaime Pinto Correia, vol. I, 1952, vol. II, 1967

CHORA Ó VIDEIRA

Antoninho,cacho d'uva,
Oh quem te depenicara:
De baguinho, em baguinho,
Que nem um só te deixara.

Ó meu amor, vinho, vinho
Que eu água não sei beber;
A água tem sanguessugas,
Tenho medo de morrer.

Vinho feito a martelo,
Bebe-se de qulquer maneira;
Mas para animar a malta,
Não há como o da videira.

A videira muito alta
Faz sombra, não dá mais nada;
Mas para dar belas uvas
Precisa de ser podada.

Menina que anda na vinha,
Dê-me um cachinho alvar;
Que eu lhe darei um arinto,
Quando o meu pai vindimar.

Não quero ricos cavalos,
Nem os palácios reais;
Queria ter uma adega
Com trinta pipas ou mais.

Chora a videira,
Chora a videirinha;
Chora a videira
Olha a rosa minha.

Chora a videira,
Chora, chora, chora;
Pelo vinho mosto,
Que se vai embora.


in: ALEGRIAS POPULARES, Cancioneiro Folclórico do Concelho de Seia, BA, Jaime Pinto Correia, vol. I, 1952, vol. II, 1967

CHORA, BIDEIRA
Cantiga das Vindimas

 

Bós dizeis: aparta, aparta
O Binho tinto do branco;
Tamén a min m'apartaro
De quen eu gostaba tanto.

A bideira sempre chora
Quando a corta o podador;
Também eu tenho chorado
Cun penas do meu amor.

 

Chora, bideira,
Ó bideirinha;
Chora, bideira
Ó prenda minha.


in: Cancioneiro Popular Português, Michel Giacometti c/ Col. Fernando Lopes Graça, Círculo de Leitores, s/d

ORA VENHA VINHO PARA OS NOSSOS COPOS
Cantiga de bebedores

- Mulher minha não bebas mais vinho
Que eu hei-de te dar uns socos.
- Os pés tortos não querem socos,
Ora venha vinho para os nossos copos!

- Mulher minha não bebas mais vinho
Que eu hei-de dar-t'umas meias.
- As pernas feias não querem meias,
os pés tortos não querem socos,
ora venha vinho pra os nossos copos!

- Mulher minha não bebas mais vinho
Que eu hei-de dar-t'um mantéu.
- O mantéu não leva ao céu,
as pernas feias não querem meias,
os pés tortos não querem socos,
ora venha vinho pra os nossos copos!

- Mulher minha não bebas mais vinho
Que eu hei-de dar-t'uma touca.
- A mulher louca não quere a touca,
o mantéu não leva ao céu,
as pernas feias não querem meias,
os pés tortos não querem socos,
ora venha vinho pra os nossos copos!.

 

Os pés tortos
Não querem os socos
Ora venha vinho
Para os nossos copos.


in: Cancioneiro Popular Português, Michel Giacometti c/ Col. Fernando Lopes Graça, Círculo de Leitores, s/d

 

RAPAZES, MENINOS
Cantiga de Bebedores

Rapazes, meninos
fazem de santinhos
ebebem os vinhos
na venda, Senhor.

Nizas e casacos,
capas e capotes
entornam aos potes
na venda, senhor.

Soldados, paisanos,
mulheres, raparigas
bebem jeropigas
na venda, senhor.

Também o Quintela
com fama de rico,
vi molhar o bico
na venda, senhor.

Até o sacrista,
gordinho e contente,
emborca aguardente
na venda, Senhor.

 

Vêem-se os fradinhos
co seu cantochão,
ir ao cangirão
na venda, Senhor.

E mesmo os Almeidas,
que são figurões,
bebem aos tostões
na venda, Senhor.

Freiras e frades
repicam os sinos
e bebem dos finos
na venda, Senhor.

De manhã e à noite,
vinho ou aguardente,
bebe toda a gente
navenda, Senhor.


in: Cancioneiro Popular Português, Michel Giacometti c/ Col. Fernando Lopes Graça, Círculo de Leitores, s/d

CHEVALIERS DE LA TABLE RONDE

Chevaliers de la table ronde,
Goûtons voir si le vin est bon.
Goûtons voir, oui, oui, oui.
Goûtons voir, non, non, non.
Goûtons voir si le vin est bon.

S'il est bon, s'il est agréable,
J'en boirai jusqu'a mon plaisir.
J'en boirai, oui, oui, oui...

J'en boirai cinq à six boutteilles,
Une femme sur mes genoux.
Une femme, oui, oui, oui...

Si je meurs je veux qu'on m'enterre
Dans une cave où y?a du bon vin.
Dans une cave, oui, oui, oui...

Les deus pieds contre la muraille
Et la tête sous le robinet.
Et la tête, oui, oui, oui...

Sur ma tombe, je veux qu'on inscrive
«Ici gît le roi des buveurs».
Ici gît oui, oui, oui...

(Com uma música simples e viva, qualquer grupo:
Companheiros dos velhos tempos
Companheiros da minha escola
Companheiros da minha turma
Companheiros do nosso rancho
Companheiros da Alegria
Companheiros da BEBEDEIRA
Companheiros da BORRACHEIRA
Companheiros da PETISQUEIRA
Companheiros da CONFRARIA
Companheiros desta folia
Companheiros da Romaria
Companheiros da COMPANHIA...
pode adaptar esta canção, para alegrar ainda mais uns bons momentos de petisqueira...

Pistas para uma tradução portuguesa:

Companheiros da Petisqueira
Vamos ver se o vinho é BOM...
Se é BOM, sim, sim, sim...
Se ele é MAU, não, não, não
Vamos ver se o vinho é BOM

Se é BOM, se é agradável,
Beberemos até cair (fartar)...
A beber, sim, sim, sim
A provar, não, não, não
Beberemos até cair.

Beberemos cinco / seis copos
Bem chegados à bem amada.
Abraçados, sim, sim, sim
Encostados, não, não, não
Abraçados à bem amada.

Se eu morrer quero que m'enterram
Numa adega bem recheada.
Numa adega, sim, sim, sim
Se eu morrer, não, não, não
Numa adega bem recheada.

Os dois pés virados pra porta
E a boca junto ao barril.
Com a boca, sim, sim, sim
e os dois pés, não, não, não
Com a boca junto ao barril.

E na tumba quero que escrevam
"AQUI JAZ UM BOM BEBEDOR"
E na tumba, não não, não
Aqui jaz, sim, sim, sim
"AQUI JAZ UM BOM BEBEDOR"

Les vrais connaisseurs de vin ne le boivent pas avant d'en sentir le bouquet, en le respirant. Quand ils le boivent, ils pourront le trouver chaud ou plein de feu, nerveux, vif, généreux, équilibré, séveux, corsé, souple, tendre, velouté...

On chante "Chevaliers de la table ronde" pendant ou à la fin d'un repas bien arrosé (où l'on a bu une considérable quantité de vin).

"Les Chevaliers de la Table Ronde" était une organisation légendaire du Moyen Age, formée par un certain nombre de chevaliers, dont le principal était le roi Arihur. Lors des repas, ils se mettaient devant une table ronde, pour montrer l'égalité fondamentale qui était commmune à tous.

in Dossier Gastronomie, B. A. L.

 

Os verdadeiros bebedores, apreciadores de bom vinho, não o bebem, antes de lhe sentir o aroma, respirando-o.

Quando o bebem, poderão achá-lo quente, ou ardente, nervoso, vivo, generoso, equilibrado, suave, encorpado, leve, mole, aveludado...

Costuma-se cantar"Chevaliers de la table ronde" durante ou no fim duma refeição bem regada (em que se bebeu uma considerável quantidade de vinho).

"Os Cavaleiros da Mesa Redonda" era uma organização lendária da Idade Média, formada por um certo número (12?) de cavaleiros, liderados pelo Rei Artur. Nas suas reuniões e nas refeições (?), sentavam-se à volta de uma MESA REDONDA, para mostrar a igualdade fundamental, comum a todos.

DRUNKEN SAILOR

What shall we do with the drunken sailor?
What shall we do with the drunken sailor?
What shall we do with the drunken sailor?
Early in the morning

Hoo-ray, and up she rises
Hoo-ray, and up she rises
Hoo-ray, and up she rises
Early in the morning

Put him in the long boat util he's sober

Pull out the plug and wet him all over

(Vem na linha das canções que se usavam durante os trabalhos mais pesados, por exemplo, entre os mineiros, pedreiros, lenhadores, assentadores de rails de caminho de ferro e marinheiros, quando içavam a âcora ou estendiam as velas, para coordenação de movimentos num grande grupo...


in ? World's Songs - Lonhman Group Limited, 1. 1979 8. 1986, Essex CM20 2JE, England

THE WILD ROVER

The wild rover

I've been a wild rover for many's the year
And I've spent all my money on whisky and beer;
But now I'm returning with money in great store
And I never will play the wild rover again.

And it's no nay never,
No nay never no more
Will I play the wild rover,
No never, no more.

I went into ale-houseI used to frequent
And I told the landlady my money was spent.
I asked her for credit, she answeredme: "Nay,
Such a costum as yours i can have every day".

I then took from my pocket ten sovereigns bright
And the landlady's eyes opened wide with delight;
She said: "I have whisky and wines of the best
And the words that you told me were only in jest.

I'll go home to my parents confess what I have done
And I'll ask them to pardon the prodigal son,
And when they caress me as off-times before,
I never will play the wild rover no more.


in ? World's Songs - Lonhman Group Limited, 1. 1979 8. 1986, Essex CM20 2JE, England


Desenho de João Guerreiro, 7º 2ª, Escola Secundária Nº2 (D. Manuel I), Beja, 1989

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