Cagando
pr'ó... (Pode ouvir AQUI...)
Cagando
pr'ó PPD
Cagando pr'ó CDS
Eu caguei Pr'ó PCP
E também caguei pr'ó PS
Eu
caguei pr'ó Balsemão!
Pr'ó Freitas do Amaral
Eu caguei para o Cunhal
E o Bochechas fecha a mão!
Vai o maior cagalhão
Que em toda a vida caguei!
E também caguei pr'ó rei
O senhor Ribeiro Teles!
Cago pr'a todos eles!
Cagando pr'ó PPD
Eu
caguei pr'ó presidente!
Caguei pr'as Forças Armadas!
Eu faço as minhas cagadas!
Cagando pr'a toda a gente!
E quem não estiver contente
Ainda mais me enobrece!
Porque eu nunca me esquece!
Lá debaixo do sobreiro
Caguei pr'ó senhor Saleiro
Cagando pr'ó CDS
Eu
caguei para o ministro
Cá da nossa agricultura!
Cago sempre com fartura!
Porque eu no cagar estou bem visto
E ainda correm o risco!
D'eu cagar pra quem não sei
Cago pr'a quem fez a lei
Que me proibiu de cagar
Mandando o cinto apertar
Eu caguei pr'ó PCP
Caguei
pr'a democracia!
Caguei pr'ó socialismo
Caguei para o comunismo
E caguei para a monarquia!
E mais cagar já não podia!
Mesmo que eu cagar quisesse!
O muito cagar aquece/
As bordas dum cu bendito!
Que cagou cozido e frito
E também caguei pr'ó PS
(remate)
Porque
eu caguei a bem cagar
Como há muito não cagava
E não pude cagar mais
Porque a merda já não deixava
Nota
PLima
Os textos versificados escatológicos não têm
sido, infelizmente, estudados em Portugal, não existindo,
inclusivé, qualquer espécimen bibliográfico
para a sua análise. A extrema raridade com que surgem,
quer nas antologias quer nos estudos, dão uma ideia
de inexistência que deve apenas ser entendida como
um fenómeno de invisibilidade provocado pela pretensa
moral científica que tem raízes na ideia de
que o 'povo' é criança e não tem maldade
alguma, logo o palavrão e a pornografia são
algo de exterior, pensado por muitos como que introduzidos
no século passado pelos estudantes de Coimbra.
A quadra de Francisco Horta Cagando pr'o... [gravo 16] é
não só o primeiro texto editado em gravação
como é aquele, que entre todos, o que mais se aproxima
do título dado a este trabalho. Esta quadra de Francisco
Horta, é de muito interesse, no aspecto formal e
de conteúdo, não só porque é
uma adaptação de uma quadra muito antiga:
"Puz-me a cagar ferros quentes" (Tengarrinha 1999:
161-'63], como também porque faz uso de um quinto
corpo versificatório, o remate, espécie de
conclusão.