
Danças populares do Baixo-Alemtejo
In
TRADIÇÃO - (Serpa 1899 - 1904) Volume I de Janeiro
de 1899 a Dezembro de 1901 - Anno I - Nº 2 - Serpa, Fevereiro
de 1899 - Série I, da página 20 a 23; com continuação
no Anno I - Nº 11 - Serpa, Novembro de 1899 - série
I, da página 173 e 174 - e continua ainda no Anno I
- Nº 12 - Serpa, Dezembro de 1899 - série I, da
página 177 - 181;
Edição "fac-simile" - Câmara
Municipal de Serpa - 1982
As
danças populares do Baixo-Alemtejo pertencem, em parte,
á categoria das religiosas, em parte, na maior parte,
à categoria das religiosas, em parte, na maior parte,
na quasi totalidade mesmo, ás denominadas danças
d'amor.
O
primeiro género de danças, embora em manifesta
decadência, ainda pode observar-se em diversas festas
religiosas de arraial, onde valentes mocetões de rosto
crestado, largas espaduas e amplo thorax, súam e tressúam,
n'uma espantosa desenvoltura de gestos e attitudes, ao langoroso
som de tamboril e gaita.
Em
Aldeia Nova de S. Bento, do concelho de Serpa, celebra-se
annualmente, em 11 de Julho, uma ruidosa festa, a do Cirio,
cujo principal attractivo consiste na exhibição
de extraordinaria dança, em que ha complicados movimentos
e passos e volteios; uma dança antiquissima, secular,
executada por sete anjos (assim chamados) - sete robustos
camponezes, vestidos de calção e meia, camisola
branca, faixa de seda a tiracollo, e na cabeça, monstruosos
chapeus de pello, ornados de lãs e fitas e flores e
reluzentes bugigangas de latão!
E
fazem a inveja dos camaradas, e o encanto das camponezas suas
patricias, estes maganões!
Ha
poucos annos ainda e por occasião da festa de S. Pedro,
tambem os numerosos pastores que pertencem a Serpa, realisavam
uma danca devéras interessante, em deredor à
ermida d'aquelle santo, e desde a ermida, atravessando as
ruas da villa, até casa dos festeiros.

Aqui,
os dançadores, todos irmãos do santo, vestiam
o trajo caracteristico do seu mister - calção
e polainas, jaqueta, e larga cinta negra ou escarlate. Dançavam
sempre em cabello - ás vezes debaixo d'um sól
ardentissimo - e com a opa branca da irmandade.
E
mais e mais danças religiosas, nas festas d'arraial,
por este Baixo-Alemtejo fóra: - na festa do Espirito
Santo, em Aldeia Nova de S. Bento; nas festas das Pazes, em
Ficalho; na festa da Tumina, em Santo Aleixo; na festa de
Santa Luzia, em Pias; etc., etc., etc.
E'
de notar que este género de dança, cuja origem
remonta a muitos seculos, era outr'ora executado não
só por homens, tal como hoje acontece, - mas tambem
por mulheres, em algumas solemnidades de caracter religioso
e official.
No
codice de Posturas da Notavel Villa de Serpa, feito em 1686,
e confirmado em auto de correição, no anno de
1687, pelo Ouvidor da cidade de Beja, Mathias Patto Cotta,
vem um artigo, o 100°, com bastas allusões ao assumpto
em questão. Por isso e por nos parecer sobremodo curioso
o referido artigo, vamos transcrevel-o na integra, sublinhando
as phrases que mais interessam ao nosso estudo.
E'
assim concebido (textualmente):
"Por
antiguissimo costume são os hortallois obrigados a
mandarem á procissão do Corpo de Deus de cada
anno um carro muito bem goarnecido de verdura, e os sapateiros
com o drago e diabrete e os alfaiates com a serpe e os mercadores
com dois cavallos fuscos e os marsseiros e tindeiros com hua
toura, e os vendeiros de fruta com duas pellas e os taverneiros
com hua dansa de seis pessoas bem vestidas com violla e toca.tor
della e as padeiras com hua dansa de seis mossas bem vestidas
com viola e tocador della ao que não faltarão
com estas obrigaçois sob pena de pagarem os juizes
dos oficios de sapateiros alfaiates e hortallois dois mil
réis não vindo á dita procissão
como que nesta postura lhe he encarregado, e com suas bandeiras
e de pagarem os mercadores que são obrigados a dar
os cavallinhos fuscos cada hú mil réis não
vindo ambos os ditos cavalinhos fuscos á procissão,
e os marceiros, e tindeiros que são obrigados a dar
a toura pagarão cada hu quinhentos réis faltando
a esta obrigassão, e os taverneiros que forem nomeados
para darem a sua dansa e faltarem com ella pagarão
de penna dois mil réis cada hu e as padeiras que forem
nomeadas para darem outro sim a sua dansa pagaram de penna
mil reis cada hua faltando á sua obrigação
e as vendeiras de frutá pagaram outro sim mil réis
faltando á sua obrigação o que todos
assim pagaram de cadea pela primeira vez que ouvver falta
porque na segunda pagaram as pennas em dôbro com trinta
dias de cadea e os constrangerão pela camera a tudo
terem muito bem preparado para acompanhamento da dita procissão
e assim mandaram se comprisse."
Como
é sabido, a dança religiosa, nas suas várias
fórmas, encontra-se intimamente ligada a certas festas
populares e tradicionaes da egreja. Quando, pois, tratarmos
de cada uma d'essas festas, que todas entram no programma
dos nossos estudos, descreveremos, então, em seus pormenores,
a dança respectiva.
Agora vamos occupar-nos mais detidamente de as - danças
d' amor.
*
* *
(danças
d' amor)
Sem querermos fallar da antiga gavota, das varsovianas, e
do jacé de contradança, que tinham por assim
dizer uma feicão aristocratica, mencionaremos desde
já, como danças populares e amorosas, usadas
no Baixo-Alemtejo, nomeadamente na margem esquerda do Guadiana,
os bailes de roda, o maquinéu, os pinhões, o
seu pésinho, o fandango, os escalhavardos, o sarilho,
e o fogo del fuzil. Depois completaremos a lista.
Excepção
feita para os bailes de roda, ainda em pleno vigor, as demais
danças que citámos, quasi que deixaram de praticar-se
e apenas subsistem na lembrança das pessoas edosas.
D'algumas, conseguimos ainda, não sem grande difficuldade,
recolher a musica propria, que todas possuiam, e reconstituir
a fórma do bailado; d'outras, porém, tão
sómente o nome lográmos conhecer.
*
* *
(Os
bailes de roda)

Baile de Casamento - Bruegel
http://raizeseantenas.blogspot.com/2007/07/andanas-2007-e-sigam-as-danas.html
Os
bailes de roda, como vulgarmente se designa este genero de
dança, ou são ao meio ou aos pares.
Quando
ao meio, homens e mulheres, indistinctamente, formam dando-se
as mãos uma grande cadeia circular. Acto continuo á
formação d'esta" cadeia, vae para o centro
um par, o primeiro que mais lesto andou; e logo irrompe uma
cantiga entoada por uma voz, a que outras e outras e todas
as vozes dos circumstantes, por fim, fazem côro.
Ao
mesmo tempo - obedecendo todos ao rhythmo da cantiga - o par
volteia no centro como a polkar e a cadeia vae rodando, rodando
sempre, em continuo movimento. Finda a cantiga separa-se o
par: o homem procura, d'entre as do circulo, outra mulher,
e a mulher imita o seu primeiro par, substituindo-o por outro
homem. Ficam assim dois pares no meio. Simultaneamente, sem
que os dançadores hajam descançado, começaram
a moda-estribilho, a cuja musica a cantiga obedecera. Terminada
a moda retira-se o primeiro par, que vae encorporar-se na
cadeia, e vem para o centro, em seu logar, um novo par, escolhido
a contento do par que ficou, do mesmo modo por que este já
fôra escolhido pelo que o antecedera.
Depois
volta se ao principio: - nova cantiga rhythmada pela moda
favorita, pares ao centro em movimento de polka, e a grande
cadeia - mãos entre mãos - a rodar, a rodar
continuamente.
A
substituição do par mais antigo faz-se sempre
que a cantiga termina e a moda-estribilho principia.
Do
par que se encontra no meio ao findar o baile, diz-se - que
ficou saramago.
Succede
ás vezes, n'estes bailes, combinarem-se quatro pessôas,
duas de cada sexo, para se preferirem mutuamente na procura
de pares e sempre, d'ess'arte, estarem no meio.
A
isto, que não raro é motivo de grandes discordias,
chama-se aqui - fazer monte-pio; e em tal caso, os homens
e as mulheres que andam na cadela a tirar agoa, segundo a
expressão consagrada, sóem cantar numerosas
quadras allusivas ao facto, ora azédas ora chistosas,
como as que seguem:
Minha
mãe tem lá'ma renda,
Uma renda d'entremeio.
Eu não sirvo aqui d'amparo,
Tambem quero ir ao meio.
Minha
mãe tem lá 'ma renda,
Uma renda d'entremeio.
'Stou-me rentando no balho
Se não me levam ao meio.
Minha
mãe tem lá 'ma renda,
Uma renda de tresmalho.
Se me não levam ao meio.
'Stou-me rentando no balho.
Já
não quero tirar agoa,
Que ia tenho o tanque cheio.
Se meu bem aqui estivesse,
Já eu andava no meio!
Deem
as mãos uns aos outros,
Que me quero ir embora;
Quem quizer agoa tirada,
Compre uma besta p'rá nora.
Eu
não sirvo de parede,
Tambem quero ir balhar;
Se me não levam ao meio,
Salto p'rá rua a chorar.
Minha
mãe tem lá 'ma renda
Toda feita á franceza.
Se me não levam ao meio,
Vou-me embora com certeza.
Quem
tem cabras vende leite,
Quem tem porcos tem presuntos.
Oh moças! levem-me ao meio,-
Por alma de seus defunctos!
O'
moças, levem-me ao meio
Com toda a delicadeza;
Se me não levam agora,
Então fallo com aspereza.
lnd'agora
tinha calma,
Agora já tenho frio.
O meninas lá do meio,
Cautela co'o montepio!
lnd'agora
tinha calma,
Agora já tenho frio.
Se me não levam ao meio,
Vão p'rás mães que as pariu.
Eu
tambem quero balhar;
Já vou estando zangado!
Se me não levam ao meio,
Já me vou embor' p'ró gado.
Vou
a dar a despedida,
Nas costas d'uma vidraça.
Se me não levam ao meio,
Vou a dar coices á praça!
Minha mãe tem lá 'ma renda,
Uma renda que eu lhe fiz.
Se me não levam ao meio,
Vou fazer queixa ao juiz.
Eu
tambem quero balhar I
Oh! Que desgraça é a minha!
Se me não levam ao meio,
Vou fazer queixa á rainha.
O'
moças, levem-me ao meio,
Em que seja uma vez só!
Oh! Que desgraça é a minha!
Nenhuma de mim tem dó!
Semeei
no meu quintal
A semente do repôlho.
Oh mocas, levem-me ao meio,
Que me' está luzindo o olho!
O'
moças, levem-me ao meio,
Quer' balhar um poucochinho;
Quando não, vou-me p'ra casa
A comer pão com toucinho.
O'
moças, levem-me ao meio,
Já vou estando zangado!
Se acaso me não levam,
Parto a canastra ao diabo!
(Continúa.)
M. DIAS NUNES

http://traje-antigo-alentejo.blogspot.com/2009/06/alentejo-campones.html
Danças
populares do Baixo-Alemtejo
(Continuado de pag. 23)
(Os
bailes aos pares)
Os
bailes aos pares começam pela formação
de dois circulos concentricos, de rapazes um e outro de raparigas,
em numero egual, e collocados frente a frente; sendo peculiar
do sexo forte o circulo exterior.
Ao
elevar-se a voz, que entôa a primeira syllaba da primeira
quadra, cada um dos rapazes se acerca, lado a lado, da sua
rapariga e enlaçam as mãos, destra com destra,
sinistra com sinistra. De seguida, todos os pares, uns após
outros, se põem em movimento, caminhando para a direita.
Quando
a cantiga, em côro, finalisa e a moda-estribilho principia
(*(*) Se a moda não tem resquebre (lettra), em lagar
d'este repete-se a cantiga.), desenlaçam-se as mãos,
e a roda estacou. Então tornam os bailadores á
primitiva posição de frente a frente, e cada
um faz balancé com o seu par, arrastando os pés,
arque ando os braços, e dando castanholas com os dedos
pollegar e maximo de ambas as mãos.
Mal
que a moda acabou, ouve-se logo uma nova cantiga, ao som da
qual volta a formar-se, e a movimentar-se, a dupla roda. Vem
depois, uma vez mais, a moda-estribilho, obrigada á
paragem vis-à-vis, balancé, castanholas, etc.
E sempre assim, continuadamente.
A
mudança de pares é coisa obrigatoria ao começar
de cada nova quadra: O circulo feminino avança um passo.
emquanto o circulo dos homens se conserva no mesmo logar;
e d'este modo, o novo par de cada rapariga é o mancebo
immediato ao seu par anterior.
Devo
notar que, hoje em dia, as raparigas vão usando dar
o braço aos rapazes, em vez das mãos, como era
de antiquíssimo costume.
Particularidade
curiosa, de que várias pessoas me informam: a mocidade
de ha sessenta annos dava-se as mãos, não de
frente, mas pelas costas, torcendo os braços e martyrisando
o corpo.
Nos
bailes aos pares, o andamento, em regra, é paulatino
e moroso, em harmonia com as musicas adoptadas n'este genero
de dança - puros e simples "descantes".
*
* *
Reservando
para mais tarde a descripção de certas variantes
dos bailes de roda, taes como as que se observam no "Paspalhão",
-"Triste viuvinha", "Senhora quintaneira),
etc., etc., passamos a registrar diversas praxes e rimas populares,
interessantissimas, que são communs aos bailes em geral.
(tocador
da viola nacional)

http://www.lojadoarco.com/products/jos-alberto-sardinha-viola-campania-o-outro-alentejo
Fallemos
primeiramente do velho: e sympathico , que - mal de nós!
- está sendo eclipsado pelo moderno tangedor do estrangeirissimo
harmonium.
Creatura
indispensavel em todos os bailes, quer publicos, quer de feição
particular e familiar, o tocador de viola
gosou em todos os tempos, e ainda hoje gosa, das
finezas mais caras e gentis por parte do bello sexo. Ora veja
o leitor estas lindas cantigas, repassadas de graça
e bom humor, que as raparigas se permittem dirigir, entre
sorrisos brejeiros, ao maganão do violista:
O
tocador da viola
Merece uma bôa ceia:
Uma data de pasadas,
Trinta dias de cadeia!
O
tocador da viola
Merece uma gravata;
Hei-de mandar fazer-lhe uma
Do rabo da minha gata!
O
tocador da viola
Merece uma gallinha
Mastigada co os meus dentes,
Cá p'rá minha barriguinha!
o
tocador da viola
E' feio
mas toca bem!
Se não casar pela prenda...
Formosura não a tem!
O
tocador da viola,
Oh moças! tratem-n'o bem,
Que elle é de fóra da terra,
Não conhece aqui ninguem.
O
tocador da viola
Merece levar pasadas:
A viola não é sua,
As cordas são emprestadas!
O
tocador da viola
Tem dedos de marafim;
Tem olhos d'enganador...
Não me ha-de enganar a mim!
A
viola tem um S
Por baixo do cavalete;
O tocador que a toca
E' um lindo ramalhete!
O
tocador da viola
Tem dedos de papel pardo
;
Tem olhos d'enganador...
Ha-de enganar o diabo!

E
que não esqueça est'outra quadra, muito favorita
d'um afamado tocador, já fallecido:
Aqui
me vejo apertado,
Sem me poder resolver,
Com esta viola a peitos
Ai! Jesus! Que hei-de eu fazer?!
(Continúa.)
M. DIAS NUNES
Anno
I - Nº 12 - Serpa, Dezembro de 1899 - série I,
da página 177 - 181
Danças
populares do Baixo-Alemntejo
(Continuado de pag 173)
Realisam-se,
de ordinario, os bailes populares na casa de fóra,
ou da entrada, que é por via de regra o melhor e mais
espaçoso compartimento das pobres habitações
terreas dos camponezes.
As raparigas, unicamente, são convidadas para estes
bailes; os rapazes, esses apresentam-se álli sem nenhuma
espeçie de convite.
A' porta da rua, o dono ou a dona da casa - mais vulgarmente
a mulher - recebe prasenteira o bello sexo e vae parlamentando
com os mancebos que chegam.
Dá licença que veja o seu balho? é a
pergunta sacramental de todos os rapazes, ao pisarem garbosos
o limiar.
A dona de casa:
Se é p'ra balhar, entre; agora se é só
p'ra vêr e fazer pouco, - não senhor, - rua!
E' p'ra balhar... - Então, entre.
Quando
o baile é ao meio, o recemchegado pede licença
a qualquer dos individuos que formam a cadeia e n'ella se
incorpora sem mais cerimonias. Agora se o baile é aos
pares a coisa não vae tão facilmente, pois se
faz mistér que algum dos cavalheiros dançantes
esteja disposto, ou se disponha, a ceder a sua dama.
O' amigo, dá licença que eu balhe um poucochinho?
interroga o recemvindo, opportunamente (* A opportunidade,
dá-se no momento em que a moda-estribilho findou e
nova cantiga vae principiar.), dirigindo-se ao mais proximo
par e collocando, ao de leve, a mão direita sobre a
espadua do varão. Desde que este seja realmente amigo,
ou mesmo simples conhecido, de quem solicíta a permissão
de balhar, a cedencia da rapariga é quasi certa; mas
do contrario, é bem vulgar a resposta:
"neste instante mesmo eu entrei", equivalente á
recusa. E tal recusa, embora entre desconhecidos, constitue
sempre uma grave offensa, da qual não raro derivam
grandes questões e serios conflictos.
Dos
bailes populares, o maximo attractivo, por sem duvida, consiste
nas variadissimas quadras, de variadissimo objecto, que a
mocidade canta com profundo enthusiasmo, alegre e ruidosa.
Que
nos permitta, pois, a benevolencia do leitor estamparmos aqui
uns pequenos trechos, inherentes ás diversões
choreográphicas, do nosso vasto e opulento cancioneiro
regional.

E'
do estylo bailarem em cabello, tanto os homens como as mulheres;
e se porventura alguem se esquece de observar similhante preceito,
ha logo quem advirta, n'alguma d'estas cantigas:
Disse-me
a dona da casa
(Assim eu tivera o ceu!):
"Quem quizer aqui balhar
Ha-de tirar o chapeu".
Disse-me
a dona da casa
(Em louvor de San Lourenço):
"Quem quizer aqui balhar
Ha-de tirar o seu lenço".
Cantam
as raparigas quando os respectivos namorados estão
ausentes:
O
meu bem não está aqui,
Mas 'stá quem lh'o vá contar:
Eu, na sua ausencia d'elle,
O meu allivio é chorar.
O
meu bem não está aqui,
Mas 'stá quem Ih'o vá dizer:
Eu, na sua ausencia d'elle,
O meu allivio é morrer!
Onde
estará o meu bem,
Que ha dias que o não vejo?
Qual será o dia alegre
Que eu matarei meu desejo!...
Onde
estará o meu bem,
Que me vem tanto ao sentido?
Se estará na obrigação,
Ou se terá já morrido?...
Onde
estará o meu bem,
Qu'inda o não vi esta tarde?
E' muito certo que esteja
N'alguma sociedade...
Onde
estará o meu bem?
Com quem andará brincando?
Se eu serei lembrada d'elle
Como elle me está lembrando!...
Meu
amor ficou de vir,
Mas, porém... inda não tarda!
O caminho é muito longe,
Tem que dar muita passada.
Este
balho está bom balho,
Agradeço lhe o favor!
Mas não 'stá aqui balhando
Quem estimo por amor.
Todos
veem vêr
O nosso balhinho
Só o meu amor
Não sabe o caminho!
Se
o meu lindo amor
Viesse aqui dar,
Um rosa rio ás almas
Havia eu rezar!
Cantam
ainda as raparigas á chegada aos seus derriços:
Graças
a Deus que chegou
Seja muito bem parecido!
O rigor da sua ausencia
Só eu o tenho sentido.
Graças
a Deus que chegou
Quem eu desejava ver;
A' palavra não faltou:
Assim é que ha-de fazer!
Graças
a Deus que chegou
A alegria da minh'alma:
Olhos de "ranca açucena,
Raminho de verde palma!
Graças
a Deus que chegou,
E' chegado não sei quem
Chegaram dois olhos pretos
A quem os meus querem bem!
Graças
a Deus que já chovem
Pingas d'agua no jardim!
Graças a Deu, que já tenho
Meu amor ao pé de mim!

http://www.attambur.com/Recolhas/Estremadura/Dancas/danca_de_roda.htm
Nos
bailes aos pares, ao enlaçarem as mãos dois
namorados, é muito usual qualquer das seguintes quadras:
Aqui
me tens ao teu lado,
A's tuas disposições!
Vamos a unir se queres,
Os nossos dois corações.
Aqui
me tens ao teu lado,
Meu amor, haja prazer!
Sem comer posso passar;
Sem ti não posso viver!
Aqui
me tens ao teu lado,
Meu amor, haja alegria!
Sem comer posso passar;
Sem te ver
nem só um dia!
Aperta-me
a minha mão
Té que m'estalem os dedos!
Como queres que t'eu ame,
Sê eu não sei os teus segredos?!...

imagem de "Camponez, de çafões e çamarro
(Serpa)"
Aperta-me
a minha mão
Té que eu diga: deixa, amor!
Quem mais aperta, mais quer,
Quem mais quer, mais sente a dor.
Aperta
me a minha mão,
Ajunta palma com palma;
Aqui tens meu coração.
Toma posse da minh'alma!
Aperta-me
a minha mão
Té que eu diga: deixa! deixa!
Quem mais aperta, mais quer,
Quem mais quer, menos se queixa.
Quando
as tuas mãos estreito
E apérto com saudade,
Sinto dizer em meu peito:
'Stá firme a nossa amizade!
Dá-me as tuas mãos de firme,
Dou-te as minhas de leal;
São cartas que ficam feitas
Se algum de nós se ausentar.
Ausente mas sempre firme,
Resolvido a não deixar-te;
Quanto mais ausente eu vivo,
Mais firme sou em amar-te!
Aos
donos de casa:
Esta
casa está bem feita,
Picadinha ao picão;
A' dona, que n'ella mora,
Deus lhe dê a salvação.
Esta
casa está bem feita,
Muito bem emmadeirada.
Muito gósto eu de balhar
Em casa de gente honrada!
Viva
o dono d'esta casa
Mais a sua companheira!
Deus lhe dê muita, saude,
Muita libra na algibeira.
Esta
casa está juncada
Com junquilhos da ribeira.
Viva o dono d'esta casa
Mais a sua companheira!
Lá
no alto da Marreira
'Stá um calvario e tres cruzes.
Viva o dono d'esta casa,
Que o balho tem nove luzes!
Para
acalmar a vozeria que ás vezes se estabelece:
Senhores!
Haja silencio!
Não mando calar ninguém
Disse-me a dona da casa:
"Silencio parece bem".
Despedidas:
Adeus,
que me vou embora!
Adeus, que me quero ir!
Dá-me, amor esses teus braços,
Que me quero despedir.
Dize-me,
amor: Até quando
Ha-de ser a nossa ausencia?
Se ha-de ser por muito tempo
Peço a Deus paciençia.
Vou-me
embora
e tu cá ficas!
Quem te podesse levar!...
Se podesses vir commigo,
Não havias cá ficar!
Vou-me
embora, que nem tanto
M'eu havia demorar,
Que tenho o caminho longe
E ámanhã que trabalhar.
Vou-me
embora, vou-me embora,
Já tenho a roupa no barco.
'Stá chegada a triste hora,
Que eu de ti, amor, me aparto.
Vou
me a dar a despedida,
Já não canto senão esta:
O pouco parece bem,
Tudo o que é de mais não presta.
Despedida,
despedida!
Sabe Deus quem se despede!
Eu, para não ir chorando,
Faço despedida alegre.
Várias:
'Stás
de fóra e não balhas,
Qual é o teu superior?
Quero-lhe ír pedir licença
p'ra balhar comtigo, amor!
Os
senhores que aqui estão,
Uns sentado', outros de pé,
Não veem cá por balhar,
Veem só por darem fé.
Se
me amares a mim só,
Mais do que a rocha sou firme!
Em sabendo que amas outrem
Sou um raio a despedir-me!
O
nosso balhinho
'Stá pápa, 'stá peixe;
Quem não gostar d'elle
Vá-se embora, deixe.
No
nosso balhinho
'Stão pares eguaes.
Fechem là a porta,
Não qu'remos cá mais.
Gósto
muito de quem gosta
O mesmo gôsto que eu tenho.
Se tu em mim fazes gôsto,
Eu em ti dobrado empenho!
Venho
d'aqui tantas leguas
Por te vêr, oh meu amor!
Nem de rastos que tu andes
Me pagas este favor.
Vamos
lá cantando bem,
Para o balho ter valor.
Quem chegou agora aqui
Foi um grande cantador.
M.
DIAS NUNES.
http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2010/03/o-cante-alentejano.html
GRUPO
DE CANTADORES
(criação da barrista Ana Bossa - Estremoz)
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