O CANTO DO CANTE
GRUPOS CORAIS ALENTEJANOS

por um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela
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63 PAUTAS MUSICAIS
in TRADIÇÃO de SERPA, publicada entre Janeiro de 1899 e Junho de 1904

06

Ao BAPTISTA - S. JOÃO

Tradição Anno I - Nº 6 - Serpa, Junho de 1899 - série I, p. 89 (pauta) e de 90 a 93 (letra).

e continua em

Tradição Anno I - Nº 8 - Serpa, Agosto de 1899 - série I, p. 89 (pauta no nº 6) e 123 e 124 (letra).

Tradição Anno I - Nº 9 - Serpa, Setembro de 1899 - série I, p. 89 (pauta no nº 6) e 139 a 141 (letra).

O S. JOÃO EM SERPA

Depois de Santo Antonio, o famoso casamenteiro, pertence a S. João Baptista o maior culto popular. A juventude, mórmente, é toda cantares e jubilos e folguedos na tradicional commemoração do santo pegureiro ( ). Pois se elle é invocado, não menos que o nosso thaumaturgo, em eternas questões do eterno amor!

*

14 de Junho: vespera das novenas ao Precursor, que ordinariamente se rezam nas egrejas de Santa Maria, S. Salvador e S. Paulo ( ). Durante a tarde, grupos de raparigas - esbeltas camponezas de seio túmido, respirando saude e alacridade - se entregam á divertida tarefa de "compôr o Santo" com seu diadema de prata bem polido, largas fitas de seda mui garridas, e copiosos ramos d'ouripel.

Das mencionadas egrejas, é claro, cada uma possue o seu Baptista, e a cada imagem corresponde um grupo ou irmandade de raparigas solteiras.

A' noite, numerosa mocidade de ambos os sexos costuma reunir junto á porta dos templos a que alludi, a fim de "dar a alvorada ao Santo".

Nunca assistiu, leitor, a uma alvorada? Pois vale a pena, só para ouvir cantar estas formosissimas quadra( ) em louvor de

S. João Baptista

I

Se o Baptista bem soubesse
Quando era o seu dia,
Descia dos céus á terra
Com prazer e alegria.

II

O Baptista não vem hoje,
Ha-de vir segunda-feira;
Ha-de achar a cama feita,
Coberta de erva cidreira.

III

- D'onde vindes meu Baptista,
Pela calma, sem chapeu?
- Venho de vêr as fogueiras
Que se acenderam no céu.

IV

Oh! que lindo annel d'oiro
Que o BilPtista traz no dedo! ~
Que lhe deu sua madrinha
Santa Clara do Loredo.

V

Do altar de San João
Até ao de San Francisco,
Tudo são cravos e rosas
Postas pela mão de Christo.

VI

Do altar de Santo Antonio
Até ao de San João,
Tudo são cravos e rosas
Postas pela sua mão.

VII

O' Baptista, ó Baptista,
O' Baptista meu compadre
Casastes as moças todas,
Delxastes vossa comadre!...

VIII

Do altar de Santo Antonio
Até ao de San João,
Tudo é verdura e flores
'Spalhadas no meio do chão.

IX
Lá vem San João abaixo,
Vestido d'azul-ferrete:
N'uma mão traz a bandeira,
E na outra um ramalhete.

X

Lá vem o Baptista abaixo,
Dando volta ao rocio,
Dizendo aos inquilinos:
- Vão pagar ao senhorio ( ).

XI

Lá vem o Baptista abaixo
Perguntando uma cadeira.
Se vem p'ra salvar as almas,
A minha seja a primeira.

XII

San João se adormeceu
No collo de sua tia:
Eram tres dias passados,-
San João inda dormia!

XIII

- Onde estará o Baptista,
Que não 'stá no seu altar?
-Foi ao ceu vêr as fogueiras,
Para tornar a voltar.

XIV

San João e mais San Pedro
Ambos vestem um vestido:
San João, prata lavrada,
San Pedro, oiro batido.

XV

Baptista dae-me capella,
E em meu peito fortaleza,
Para poder festejar
Vosso dia com grandeza.

XVI

San João á minha porta?
Eu não sei que lhe hei-de dar!
Darei lhe uma canna verde
Para pôr no seu altar.

XVII

San João á minha porta?
Hei-de lhe dar a capella;
Hei-de pedir ao Baptista
Me faça bôa donzella.

XVIII

Santo Antonio apanha flôres,
San Francisco leva a cesta,
San João faz a capella,
E Christo a põe na cabeça.

XIX

San João apanha flôres
E vae deitando prá cesta;
A Virgem faz a capella
E diz: - ponham na cabeça.

XX

Quinta-feira d' Ascensão
Do ceu caiu uma flôr.
Dizem que a mãe do Baptista
E' prima-irmã do Senhor.

XXI

Lá no rio do Jordão
Passeia Santa Isabel;
Dizem que é mãe do Baptista:
Oh! que dita de mulher!

XXII

O Baptista chora, chora,
Chora sem consolação,
Que perdeu o cordeirinho
Lá no rio do Jordão.

XXIII

Ajuntem-se as moças todas!
Vamos ao rio do Jordão
A buscar o cordeirinho
Para o dar a San João.

XXIV

Vamos moças, vamos todas!
Vamos ao rio do Jordão,
Para vêr baptisar Christo
E Christo baptisar João.

XXV

San Zacharias é mudo;
Por graca de Deus, então:
- Como se chama o menino?
- Ha de chamar-se João.

XXVI

San João comprou um burro
Para pular as fogueiras;
E depois de as pular todas,
Deu-o de presente ás freiras.

XXVII

A treze do mez de Junho
Santo Antonio se demove,
San João a vinte e quatro,
E San Pedro a vinte nove.

XXVIII

San João e mais San Pedro
São dois santos mudadores:
San João muda os casaes,
San Pedro muda os pastores.

XXIX

San João e mais San Pedro
Foram jogar uma lucta:
San Joao ficou por baixo;
San Pedro não teve a culpa.

XXX

Foram deitar uma lucta
San Pedro mais San João;
San Pedro, por ser mais velho,
Caiu-lhe o c. do calção!

XXXI

Meu engraçado Baptista,
Minha joia, meu amor!
Tendes por gloria ser primo
Padrinho do redemptor!

XXXII

O merito do Baptista,
A que gráo Deus o levou,
Que, depois de degollado,
Ainda o Baptista fallou!

XXXIII

Baptista, não permittaes
Que eu vosso deixe de ser!
Baptista cada vez mais,
Baptista até morrer!

XXXIV

O livro do Sacramento
Só o Baptista o abriu;
Aos braços da Virgem pura
Só o Baptista subiu.

XXXV

No altar de San João
'Stá um ramo d'acucenas
Onde os namorados vão
Dar allivio ás suas penas.

XXXVI

No altar de San João
'Stá um lindo damasqueiro:
Dá damascos de milagre,
Não se vendem por dinheiro.

XXXVII

No altarr de San João
'Stá'ma linda cerejeira:
Pode-se dar por ditoso
Quem lhe colher a primeira.

XXXVIII

Alem vem o San João
Alegre como um pombinho:
N'uma mão traz uma cruz,
E na outra o cordeirinho.

XXXIX

Senhoras evangelistas,
Não tenham falta de fé,
Que entre todos os santinhos
O Baptista maior é.

XL

San João me prometteu
De me dar uma capella.
Tambem eu lhe prometti
Toda a vida ser .donzella.

XLI

Lá n'aquellas ervas verdes,
Foi a minha perdição;
Perdi o meu annei d'oiro
Na Iloite de San João.

XLII

No adro do Salvador
'Stá um mastro levantado.
Em campanha do Baptista
'Stá Jesus sacramentado.

XLIII

Entre carroças de oiro
E vidraças de crystal,
Vem a sagrlda Custodia
A San João adorar.

XLIV

Grandes festas ha no ceu
Em dia de San João:
San João baptisa Christo,
Christo baptisa João.

XLV

O Baptista é divino,
Por divino se aclamou;
No ventre de sua mãe,
A Jesus se ajoelhou.

XLVI

San Zacharias é mudo;
Esta noite ha de fallar,
Para dizer que o Baptista,
João se ha-de chamar.

XLVII

O' apostolo San Pedro
Que do céu tindel-as chaves,
Dae-me novas do Baptista,
Que lhe tenho saudades.

XLVIII

Festa que fazem os moiros
Em noite de San João!
Quando os moiros o festeiam,
Que fará quem e christão!

XLIX

O' Baptista, ó Baptista,
O' Baptista no Jordão!
Parente de Jesus Chnsto,
Sois um cravo em botão!

L

Quando a Virgem Maria
Santa Isabel visitou
O Baptista, de contente,
No seu ventre ajoelhou.

LI

Santa Isabel se prepara
P'ra uma grande visita,
Que ahi vem o Santo Verbo
Santificar o Baptista.

LII

O Baptista, no deserto,
Cobriu o rosto de veu.
Quinta feira d'Ascensão
Subiu Jesus Christo ao ceu.

LIII

Não sei que tem o Baptista
No dia em que quer nascer,
Que, sejam velhos ou moços,
Tudo faz endoidecer.

LIV

Que é das moças d'esta terra
Que não as posso encontrar?
Certo é que ellas não querem
O Baptista festejar!

(Conclue) M. DIAS NUNES.

Tradição Anno I - Nº 8 - Serpa, Agosto de 1899 - série I, p. 89 (pauta no nº 6) e 123 e 124 (letra).

O S. JOÃO EM SERPA ( )

(Continuado de pag 93)

LV

Nascei, nascei meu Baptista,
Nascei luz do Evangelho!
Inda que sois pequenino,
Por grande vos considero.

LVI

O Baptista está no ceu,
Na gloria do mesmo Deus;
Mesmo de lá 'stá rogando
Pelos que são servos seus.

LVII

Té os moiros na Moirama
Festejam o San João:
Correm toiros e cavallos,
Com cannas verdes na mão!

No final de cada quadra, e sempre na mesma toada, é da praxe dizer um d'estes dois estribilhos:

Ora viva,
E ora viva!
Viva o Baptista, e viva!
Viva o Baptista, e viva!

Ora viva,
E ora viva!
Viva a gloria mais subida!
Viva a gloria mais subida!

Além da preciosa collecção de cantigas que reproduzimos, existe ainda, referente ao S. João, uma expressiva moda-estribilho, choreographica e de bonita musica, com a seguinte lettra:

San João! San João! San João!
Outro anno não deixeis passar!
Dae-me noivo, San João, dae-me noivo,
Dae-me noivo, que me quero casar!...

*

No decurso das novenas, effectuadas de modo singello e conforme o ritual, nada se nos offerece digno de menção. E' em 23 de Junho, vespera do Baptista, que principalmente se observa o grande numero de costumes populares - alguns bem singulares e curiosos - estreitamente ligados á vetusta festividade do solsticio estivo. N'este dia á tarde se verifica a centenaria usança do passeio ás hortas para "fazer as capellas". Fazer as capellas significa propriamente comer fructa; tão só para as creanças entretecem viridentes corôas de mentrasto e buxo, matisadas de flores várias, e com engraçados pingentes de cerejas, e ginjas, ameixas, soromenhos, etc.
O costume secular de que fallâmos - ao que reza a tradição oral e tambem a tradição escripta - foi outr'ora praticado até pela propria municipalidade serpense, a qual, em meio de ruidosos folguedos, ia fazer suas capellas á horta denominada dos Banhos. D'esta velha solemnisação por parte da camara, era ainda, talvez, um resto persistente, a cerimonia, não ha muito cahida em desuso, de nos paços municipaes ser arvorado o respectivo estandarte em dia de S. João.
***

Em logar das tres badaladas monotonas do estylo, os sinos repicam alegremente Ave-Marias. Prestes é noite e noite de festa. Dentro em poucas horas, quando os sinos de novo repicarem, ao toque d'Almas, bastas fogueiras d'alecrim crepitarão luminosas por essas ruas, e as portas dos templos serão abertas de par em par. Então começa o movimento, o bulicio, a jubilosa animação d'um povo inteiro, que se diverte rendendo culto ao bemaventurado S. João. Grupos de cam-ponezes cantando em côro ao som da viola ou do harmonium, percorrem a villa em todas as direccões. Centenas de pessoas - o elemento feminino predominando - se cruzam nas ruas e largos em visita ás egrejas que expõem o Santo, egrejas lindamente adornadas com vasos de flores e arcos de verdura d'onde pende um sem numero de balões venezianos. Aqui e alli bailes de roda, em que as raparigas se apresentam com os seus melhores trajos domingueiros. Estes bailes populares, que hoje em dia se realisam dentro de casa, eram feitos ao ar livre e em redor dos mastros; mas isto - relatam os velhos - ha bons 40 annos, ainda no tempo em que o adufe se impunha como instrumento da moda.
Por volta da meia-noite encerram-se as egrejas; as fogueiras despedem o ultimo clarão; raream os descantes; o bulicio das ruas é quasi extincto.
Meia-noite é a hora solemne das experiencias feitas sob a religiosa invocação do Santo Precursor.

(Conclue)

M. DIAS NUNES.

Tradição Anno I - Nº 9 - Serpa, Setembro de 1899 - série I, p. 89 (pauta no nº 6) e 139 a 141 (letra).

O S. JOÃO EM SERPA

(Continuado de pag. 124)

Conhecer o desconhecido, devassar os segredos do futuro, descerrar a bruma enigmatica e mysteriosa do porvir, tal é o objecto capital das experiencias (ou experimentações), cujo resultado se antolha infallivel á crença popular.
Multiplas e variadas na fórma, podem classificar-se as experiencias, quanto á sua essencia, em amorosas, economicas, de vida ou morte proxima, e de meteorologia. As do primeiro genero são peculiares das raparigas solteiras; vejamos como estas sóem levantar os horoscopos.
Como e, minuciosamente, para quê.
Em regra, as experimentações teem logar á meia-noite, pouco mais ou menos; agora o resultado do maior numero d'ellas, senão da quasi totalidade, sómente é visivel na manhã de S. João.
Por sua vetustade immemorial, cumpre referir em primeiro logar a classica experiencia da alcachofra ( ).
Despontada á thezoura a flôr do cardo, a cabeça ou alcachofra é passada pela chama da fogueira e depois posta ao relento em toda a noite.
Refloresceu a alcachofra? Se refloresceu é certo o casamento; no caso negativo, o celibato é fatal. E dada a hypothese da reflorescencia, conforme esta foi grande ou pequena, assim o marido ha-de ser homem solteiro ou viuvo.
Outra experiencia, muito similhante á da alcachofra, se pratica com uma planta denominada em vulgar rabo-de-gato. Sacode-se a inflorescencia d'um pedunculo, o qual, depois da sacramental passagem pelo fogo santo, vae depositar-se, a noite inteira, junto a uma infusa cheia d'agoa. A reflorescencia produziu-se? não se produziu? No primeiro caso, vulgarissimo sempre que ficou algum botão prestes a desabrochar, a rapariga póde crer que é amada pelo rapaz que namora; que ella é a preferida, se porventura tem alguma rival; que ha-de casar, indubitavelmente, com o escolhido do seu coração, etc., etc. No segundo caso… adeus ricas esperanças! adeus sonhos d'amor!
A experiencia em questão usa-se tambem, e largamente, fóra da noite do Baptista. Ahi pelos mezes de Março e Abril, em especial, tem ella grande voga entre os ranchos de camponezas que mondam as searas, onde o rabo vegeta abarrisco, como que para tentar, dir-se-hia, a curiosidade feminina. Ha porém a notar uma variante na execução da engraçada experiencia. O pedunculo, previamente despojado de suas flores, é humedecido no labio e em seguida introduzido no seio das raparigas, cujo calor substitue (e vantajosamente… ) a chamma das fogueiras. E' mais rapido e mais… pittoresco, vamos! este modo de fazer a experiencla.
Eis umas rimas populares allusivas, que ha tempo ouvi dizer a uma mulher do campo:

Duas flores (de) perfeição,
A's tenças d'um bem-querer,
Foram 'ambas a fazer
No seio experimentação.

D'estas duas que aqui estão,
Uma era a que experimentava.
Em se ver tão recolhido,
Saíu das moças florido…
Entre as duas rabeava!

Não menos usada e não menos antiga que as duas anteriores, é a experiencia dos credos. Effeitua-se d'est'arte: Com um bochecho d'agoa, reza-se o credo in mente trés vezes successivas, percorren-do o espaço comprehendido entre trés portados que estejam na mesma direcção e dos quaes o ultimo deite para a rua. A' rua se deita o bochecho d'agoa logo que a experiente chegou ao portado ter-minus, perto do qual se quêda "a escutar as vozes do mundo". O primeiro nome masculino que a rapariga ouvir, ê o nome do homem que virá a esposal-a. Succede ás vezes - coisa engraçada! ser d'algum animalejo, que o dono chama, o nome pronunciado…

Experiencia divertida, a da peneira, cujo escôpo consiste, principalmente, em aquilatar das intenções amorosas d'alguem.
Dos biccos d'uma thezoura, que duas raparigas seguram ao de leve com dois unicos dedos, está suspensa pelo aro, verticalmente, a mysteriosa peneira contendo um rosario, uma fatia de pão e uma mãochinha de sal. Acabada de soar a ultima badalada da meia-noite, falla assim uma das raparigas, a mais interessada na operação:

- Em louvor de S. Pedro e S. Paulo, e Jesus Sacramentado, e as Ondas do Mar Salgado, dize-me Peneira, sim ou não: (e aqui se formula expressamente a pergunta do que se deseja). Uma volta ar-rebatada da peneira, que por si só se move (sic), é resposta affirmativa; a immobilidade importa negação.
Ha quem interrogue o prestimoso utensilio caseirinho, elevado á categoria de oraculo, para informar-se da bôa ou má sorte, que espera determinada creatura; para, averiguar se sim ou não apparecerá certa causa perdida, etc., etc. A differença está meramente na pergunta; quanto ao mais, nenhuma alteração.

Três experiencias - seculares, vulgares, e similares entre si: a do ovo, a da cera e a da cinza.

Um ovo, partido e deitado em meio copo d'agoa, fica durante a noite ao relento. Ao outro dia de manhã, ha rapariga que vê nitidamente (sic) desenhar-se na albumina, um ou mais objectos symbolos da profissão do seu noivo ideal.

A cinza, peneirada n'uma taboa e posta ao sereno da noite, bem como a cera derretida, que é da praxe lançar n'uma bacia d'agoa, possuem uma virtude reveladora identica á do ovo. Cera e cinza manifestam, aos olhos das meninas solteiras, quantos symbolos appetece á phantasia juvenil!

Mais trés experiencias populares, que não devêmos esquecer, são as da bacia d'agoa, .5 réis e maçans.

A bacia d'agoa - como de resto todos os objectos empregados nas experimentações - é exposta ao relento e, antes, passada pela fogueira quando bate meia-noite. No dia seguinte, entre meio-dia e uma hora, agoa para a rua! O nome da pessoa do sexo forte que primeiro atravessar o local molhado, será, por sem duvida, o nome do esposo… futuro.

A moeda de 5 réis é arremessada á pyra, de cujas cinzas vae desenterrar-se assim que rompe o dia, para com ella esmolar o primeiro pobre que surge. O noivo chamar-se-ha como o pedinte.

Entre meio-dia e uma hora, jogam-se á rua as maçans, em numero de trés. Se ninguem cubiçar o legendario fructo, a menina irá á cova de palmito e capella, na bem conhecida expressão popular. Pelo contrario, se qualquer indivíduo passando pela rual colher espontaneamente alguma das maçans, o casamento é seguro. E a graça do maridinho? Igual á do transeunte que o acaso deparou.

Que o leitor nos desculpe se começâmos a aborrecel-o; mas já agora mais duas experiencias, para completar a sé. rie das amorosas.

Uma é a dos papelinhos metade em branco, metade inscrevendo diversos nomes - que as raparigas tiram á sorte. Ficará solteira toda aquella a quem couber um papelinho em branco. Papelinho escripto, traduz consorcio e até designa o par da feliz donzella!

A outra experiencia, que falta descrever, é feita com o auxilio de: um livro, um pão, uma canna verde e um mólho de chaves. Estes quatro objectos, ou se collocam em cima d'uma mesa, ou se põem junto aos quatro cantos d'uma casa.

Uma, duas, trés ou quatro raparigas entram na casa ás escuras, e cada uma procura encontrar seu objecto cuja posição particular ellas desconhecem.

Ao livro corresponde o prognostico de morrer donzella;
ao pão, o casamento com um viuvo;
á canna verde, o casamento com um rapaz solteiro.
O mólho de chaves significa que a rapariga é bôa dona de casa, mas que morrerá solteira.

(Conclue)

M. DIAS NUNES.

 

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