252
- 08 - Esta Noite é de Janeiras
(Canto de peditório)


Esta
Noite é de Janeiras
(Canto de peditório)
Esta
Noite é de Janeiras
e dum grande mer'cimento,
por ser a noite primeira
em que Deus passou tormento.
Os
tormentos que passou,
eu lhes digo a verdade:
o seu sangue derramou
pra salvar a Cristandade.
Um
raminho, dois raminhos,
um raminho de salsa crua, \ bis
ao pé da tua cama
nasce o Sol e põe-se a Lua \ bis
Daqui
d'onde eu 'stou bem vejo
um canivete a bailar \ bis
para cortar a choiriça
que a senhora me há-de dar. \ bis
Nota
da página 305 e 306 do CPP:
27. ESTA NOITE É DE JANEIRAS
- Espécime inédito da nossa recolha. Entoado
no estilo polifónico próprio à região,
apresenta um texto fragmentado de romance religioso, bastante
vulgarizado, com a particularidade, contudo, de ser acompanhado
da chamada desgarrada, ou seja, quadra do peditório.
Com efeito, os cantos de Janeiras e de Reis, e as Orações
das almas, tinham por fim (não especificamente declarado,
mas não menos prioritário nos tempos de mais
acentuada penúria) a colheita de víveres,
em geral distribuídos pelos cantadores ou destinados
a um repasto coliectivo. A recompensa era por certo merecida,
já que a cerimónia obrigava a longas caminhadas
pela noite fora, através dos vários lugares
da freguesia.
Bib. César das Neves e Gualdino de Campos (80/1,
pp. 96-97, m) fornecem dados com interesse sobre Janeiras,
no último quartel do século XIX:
Com esta música (que vem arquivada com o título
Noite de Natal) cantam-se também as Janeiras. É
nas noites de 31 de Dezembro e 1.° de Janeiro, costume
antiquíssimo o darem-se as boas-festas por meio de
descantes, a gente do povo, e para isso reúne-se
um grupo de homens e mulheres (quatro, cinco ou seis indivíduos,
às vezes mais) e vão à porta das pessoas
das suas relações cantar as Janeiras[...].
Estes AA. assinalam ainda que, depois das cantigas ditas
de Janeiras, que têm relação com o Menino
Jesus, seguem-se outras (Vivas) dirigidas às pessoas
da casa, com música de Chula ou Cana Verde e com
letra improvisada, pelo que «andamento (é)
muito lento, e com compasso de espera de verso a verso»
[...]
Por fim, escrevem eles, numa nota de rodapé (p. 100):
Os rapazes menores, também formam grupos para ir
cantar as Janeiras [...] O
instrumental, de que se servem é extravagante:
compõe-se de ferrinhos, ou qualquer coisa de ferro
que imita o som do triângulo, castanholas ou conchas,
campainhas e tambores feitos de pequenas barricas, ou panelas
velhas tapadas com pele de carneiro [...]
Observe-se que nada tem de extravagante o instrumental mencionado,
já que o seu uso é tradicional em vastas regiões
do país, sobretudo no que respeita aos chamados tambores,
que possivelmente seriam as roncas ou sarroncas, instrumentos
rituais de longínqua origem e larga difusão,
relacionados em numerosos países cristãos
com o chamado ciclo dos doze dias (do Natal aos Reis).
Francisco Serrano (112, pp. 97-98, m) nota que os rapazes
que «pedem janeiradas.. não se utilizam do
produto da recolha, mas vendem tudo e mandam dizer missas
pelas almas do Purgatório.
Disc.
Laura Boulton (IX)
M. Giacometti/F. Lopes-Graça (1/2), (1/4), (XVIII),
(XIXI5) e (XXI)
Artur Santos (XVIII)
-----------
http://www.joraga.net/gilvicente/pags/043janeiras.htm#J08
-----------

http://pocovelho.blogspot.com/2009_01_01_archive.html
ver
também - 4 AO SUL - em almodôvar
http://www.youtube.com/watch?v=Ljc1vzWSF0s
