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por.
Cremilde de Brito
bisneta do Poeta que foi Professora em S. Matias e residente
em Beja.
...o segredo do POETA
possivelmente naqueles OLHOS sedutores de azul-marinho, inesquecíveis...
  
"Que mistério se encerrava naqueles olhos azuis
para se gravarem indelevelmente na memória de uma criança
de cinco anos?
Havia neles qualquer coisa de tão extraordinariamente
invulgar que nunca mais se esqueciam.
Aos oitenta e cinco anos o seu olhar tinha a cor e o brilho
dos olhos de um jovem, a pureza e a ternura duma criança,
uma cor intensamente azul-marinho que eu nunca antes vira
e jamais esquecerei.
Não era a saudade da sua Terra e dos seus familiares
que lhe transmi-tia aquela ternura porque estava na casa duma
filha rodeado pelos netos e não "num lugar solitário".
Talvez sentisse a nostalgia dos longos e frios serões
de boémia, da "vida reinadia" com companheiros
e amigos, dos imensos horizontes do Alen-tejo que lhe inspiraram
as rimas.
Era o fulgor da paixão pela liberdade (que mostrou
ao recusar o lugar de escrivão do juiz). Como poderia
trocar pela pequenez dum escritório o rubro entardecer
dos dias de Verão, ou o pôr do Sol de uma tarde
de Outono, a terna canção dos passarinhos numa
bela manhã de Primavera, a magnifi-cência dos
"raios purpurinos dourando o cume da serra" ou "a
luz divina as campinas prateando"?
A sua alma sensível que se indignou com o Regicídio
e com a cruel-dade da guerra, com o "desejo de mandar",
"a cegueira de conseguir", a "ambição
de possuir" reflectia-se no seu rosto ainda "alegre
e sedutor".
Pensaria certamente na sua companheira falecida, a esposa
que não cantou enquanto ela viveu, mas que depois homenageou
com um autêntico hino de exaltação ao
seu lugar incomparável no seio da família. Chamou-lhe
"anjo", "ser adorável", "formosa
e bela", lembrando que, sem a sua presença, a
vida é "insuportável", que a mulher
é insubstituível no lar e que, como Mãe,
quando ela falta, a "sorte não sorri", os
filhos são "como cegos", porque onde ela
não mantiver "amor, paz, santa união, é
sempre uma escuridão, dê-lhe o sol onde lhe der".
Nessa casa só há penas e amarguras e falta a
luz da espe-rança.
Não andava "à procura da paz" porque
ele era um homem de paz, sensível e bom e, na luz dos
olhos que eu recordo estava a Paz de Deus, a pureza da sua
Fé na "Virgem Bela".
É assim que eu vejo ainda aquele corpo franzino, aqueles
olhos azuis e doces, aqueles olhos de Poeta."
Cremilde Brito
Beja, 14 de Junho de 1999
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