INOCÊNCIO de BRITO

Poeta Popular de S. Matias, Beja, MESTRE em DÉCIMAS e QUADRAS

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3.
QUADRAS
& curtas estórias
VI. Esboço para um estudo por José Rabaça Gaspar
Esboço para um ESTUDO do HOMEM, do POETA e das suas DÉCIMAS...
S. MATIAS, uma terra de POETAS?!

José Rabaça Gaspar

O que dizer de ou sobre Inocêncio de Brito?
Já ouvi de tudo. Até ouvi dizer que ele não existia, enquanto uma povoação inteira como S. Matias, uma freguesia do concelho de Beja, sabe as suas Décimas de cor, conta imensas histórias da sua atribulada vida e lhe dedicou uma rua para não ser esquecido. Até já ouvi-ram na rádio e na televisão dizer Quadras dele como sendo de outros e Décimas dele como se fossem de outros autores. Porquê?
Creio que foi um economista recém formado ou doutorado que mo explicou. O ar como é abundante e toda a gente precisa fundamentalmente dele não tem valor, não tem preço. Não está à venda.
De Inocêncio de Brito, depois de durante alguns anos ouvir falar das suas aventuras e das suas Décimas apetece-me dizer que como o ar ou como a água das fontes, não tem valor, não tem preço. Enquanto não conspurcaram a água que bebemos e não apareceu um "Cintra" qualquer a meter a água numas garrafas de plástico e vendê-las pelo dobro do preço da gasolina, a água não tinha valor. Não tinha preço.

Tal como, por vezes, a água, que corre nas veias do ventre da terra, brota em fontes e rios, nos lugares mais inesperados, escondidos ou abertos...
Tal como a água dos rios corre sempre, sempre para o mar...
Tal como as árvores e as plantas, por vezes, abrem o ventre da terra, para darem a co-nhecer as fecundas potencialidades que a Terra mãe guarda no seu seio...

Por vezes, e inesperadamente, sem licença dos ditos donos das letras, ou dos ditos donos da cultura, surge no deserto uma Voz de Poeta que fala da vida, que fala da sua terra, que fala da sua família, do pai, da mulher, dos filhos, dos problemas nacionais que ecoam no mundo, dos problemas internacionais que abalaram o mundo, exalta uma figura de mulher de rara beleza e majestade, interpela o "Kaizer déspota orgulhoso" que provocou a I Grande Guerra Mundial, interpela o Rei, escreve ao sucessor do Rei, geme na sua solidão onde "Brado ninguém me responde / Olho não vejo ninguém" foi ou "Já fui senhor Professor", "Agora sou não sei quê", "Partiu a tola à Maria" e depois fizeram as pazes, interpela o "Vinho cruel inimigo" e logo a seguir defende-o dos adversários "Tu não clames contra o vinho", afinal "Trabalho não tenho achado" e "se a fome a roubar me obriga / Serei preso por ladrão"; escolhe o Sol como mensageiro "No teu giro Sol brilhante", invectiva "A Rainha das potências" passa um diploma de mau comportamento a ministros e doutores e denuncia a falta de instrução e o abuso que os instruídos fazem dela "A instrução é precisa / A instrução não convém": desafia os génios, os artistas e os inventores a "Que faça chover, escampar"; manda tirar o chapéu ao rico que se banqueteia e diverte: "Descobre-te milionário / Vai um eterro a passar"; procura a Paz e só a encontra no cemitério e canta a Virgem como um inspirado teólogo "No ventre da Virgem Bela / O Verbo encarnou por graça / Entrou e saiu por ela / Como o Sol pela vidraça"...

E, inesperadamente, este poeta que ninguém conhece, este poeta que não existe, nunca ninguém ouviu falar dele, inesperadamente, sessenta anos depois da sua morte (morreu em 1938), podemos ter a inesperada feliz surpresa de entrarmos num café da aldeia, pararmos na esquina duma rua, sentarmo-nos em frente de uma mesa duma família diante de uma tigela de azeitonas pisadas, tirando um petisco e... inesperadamente ouvir um jovem neto de Inocêncio de Brito com 91 anos, ou uma neta de oitenta, ou uma bisneta de sessenta e cinco, ou um velho companheiro de lides dos trabalhos pelos montes, ou até alguns jovens que ainda não tinham nascido quando o Ti Inocêncio morreu... inesperadamente, num lugar qualquer de S. Matias, basta puxar a conversa, e as histórias os ditos, as saídas repentistas, os Motes e as Quadras e as Décimas de Inocêncio de Brito jorram em borbotões como se o estivessem a ver e a ouvir o poeta desconhecido e ignorado, o poeta que, para conhecedores do Alentejo, não existe, nunca existiu!!!

Deste Poeta, atrevo-me a dizer, na nossa modesta, respeitável e discutível opinião - ensinaram-me há pouco, e já vou nos sessenta, que era assim que devia, por ser politicamente correcto, emitir as minhas respeitáveis opiniões que bruscamente eu dizia que eram, só, respeitáveis e discutíveis - de Inocêncio de Brito, repito, atrevo-me a dizer, pelo que me foi dado ouvir e ver, pelo que tenho ouvisto, que é indubitavelmente um poeta da Língua Portuguesa. Um poeta desconhecido? Um poeta menor? Um poeta de que ninguém fala? Um poeta que nem os folhetos volantes da feira fazia, como os outros e nem os deixava fazer?

Creio poder dizer que Inocêncio de Brito é a prova viva de que um Poeta, na imensa solidão da planície alentejana, "Onde brado ninguém me responde / Olho não vejo ninguém" longe de tudo e de todos, até da imprensa e dos meios de difusão, embora ele fosse dos raros poetas "analfabetos" que naquele tempo sabia ler e escrever como uma letra cuidada, desenhada e esmerada como deixou nos seus manuscritos, Inocêncio de Brito é a prova viva de que, mesmo sessenta anos depois de morto e enterrado, esquecido e ignorado, afinal ESTÁ VIVO, porque as pessoas da sua família, as pessoas da sua terra S. Matias, Beja, sabem de cor os seus poemas, os discutem, os copiam à socapa, os deturpam, os emendam como acontece com toda a literatura Oral e a sua poesia fala, canta, grita temas e problemas que vão da Terra ao Sol, da Vida à Morte, dos problemas locais aos Universais...

Merecia porventura o Prémio Nobel? Talvez.
Entretanto, graças a Deus e à minha modéstia, não preciso, nunca precisei da modesta, respeitável e discutível opinião da Real Academia Sueca, nem do peso dos seus cento e setenta mil contos, para emitir as minhas opiniões. Atenção. Neste ano da graça de todas as graças como a Expo98 e do Prémio Nobel para o Saramago, eu não sou contra. Antes pelo contrário. Na Expo não pus os pés. Do Saramago disse, alto e bom som, nas aulas e no jardim público da cidade de Beja, rodeado de doutores, em 83/84, quando tive oportunidade de ler "O Memorial" que me emprestaram porque não tinha dinheiro para o comprar, que, pela sua estrutura, pela cadência da narrativa, pela fluidez do texto, pelo visualismo do invisível, pelo simulacro de fundamento histórico, pela riqueza de personagens "levantados" do imaginário, o livro de Saramago era melhor, muito melhor, do que o badalado, na altura "Nome da Rosa" de Humberto Eco. Só que o Eco vendia aos milhares nos Estados Unidos e o Saramago tinha o azar de ser português. Enganei-me graças a Deus! Passados uns anos ele vendia milhares nos "States" e na Itália deu Ópera!!! Ainda me recordo dos olhares de comiseração e dos comentários venenosos dos meus justamente indignados e ilustrados colegas sabedores, a dizerem: - Pois é! É por isso que os alunos de professores como este não sabem nada de português nem de literatura. É por isso que o ensino em Portugal está como está!!! Estou a vê-los, agora em finais de 98, a correr às livrarias a comprar Saramago, e a correrem aos críticos para saberem da originalidade, criatividade e riqueza estrutural e simbólica dos livros de Saramago.
Que pode valer a minha opinião, enquanto não "falarem três doutores" ou enquanto não se pronunciar a Real Academia Sueca?

O que é preciso para ser Poeta? O que é a Poesia? O reconhecimento da Academia? Ou a Arte e o Génio, a capacidade de olhar e captar a realidade com olhos e ouvidos de Poeta para nos levar a entrar noutra dimensão.

O que é a Inspiração? O que são as Musas? O que são as Tágides e as Ninfas do Mondego de Camões? E o simbolismo da Ilha dos Amores? E a intervenção dos Deuses do Olimpo?

Estou a lembrar-me da intervenção "aflita" e trémula do meu querido e saudoso amigo Doutor Manuel Viegas Guerreiro, em 1996, em Portel, no colóquio Artes da Fala, talvez, não sei, pressionado pelos "donos do Colóquio" a tentar contrariar as minhas heresias sobre litera-tura e poesia, por ter intitulado o meu trabalho "AS DÉCIMAS - OU A MAGIA DA POESIA POPULAR" para afirmar à douta assembleia que considerava esta Arte de Poetas "Analfabe-tos" das lides literárias, tanto pela complexidade da sua estrutura, como na aparente facilidade da sua comunicação a que poucos se atrevem, como uma peça de rara beleza e um "prodígio de arquitectura narrativa e de estrutura simbólica e significativa" semelhante a uma jóia ou um diamante, semelhante a um esmerado trabalho de lapidador, que, para além da perfeição formal, deixa na obra uma carga de simbolismo que poucos podem alcançar, sugerindo que a Décima, em que o Mote de quatro versos de redondilha maior se espraiam por quatro décimas que vão desaguar em cada verso, criam, do quadrado do Mote e do quadrado das quatro décimas, uma espiral de leitura em círculo que desafia os sábios que desde sempre procuram conseguir a quadratura do círculo, ou, melhor dizendo, "a circulatura do quadrado". Pois é mesmo disso que eu estou convencido.

Não é possível pedir, apesar de todos os defeitos de grande número de Décimas, apesar das falhas de vocabulário e das rimas forçadas, considerando que é uma arte eminentemente oral e repentista, não é possível conceber, que uma arte que poucos eruditos conseguem, mesmo escrevendo e emendando, que sem uma INSPIRAÇÃO ESPECIAL, sem uma ligação su-perior, sem uns "olhos" especiais, sem uns "ouvidos" que ouçam para além dos ruídos comuns, sem uma "fé" que os leve a acreditar que a palavra dita é criadora e pode ser mais forte que a escrita, não é possível, dizia, acreditar que Poetas como Inocêncio de Brito, dizerem o que dizem, e, passados sessenta anos de morte e esquecimento sejam repetidos e ditos, comentados por novos, velhos e a mais "desvairada" Gentes...

Aliás não é a minha teoria, ou as minhas teorias que me preocupam. O que eu não percebo é o que é que é afinal a inspiração. É ou não é uma forma diferente do comum de ver as coisas? É ou não é o resultado de uma capacidade invulgar de "captar" o mundo que nos ro-deia? E isso é privilégio só dos aprovados pelas altas sumidades ou dos bafejados pela sorte da publicação?

Que não senhor, que dizer que os poetas poderão ter um dom especial e uma ligação a outras dimensões, isso não é científico e literário!!!...
Aconselho-o a que não se meta em coisas parecidas como ciências ocultas ou esoterismos porque por exemplo o Pessoa e o Camões, grandes poetas nunca se meteram nisso...
As pessoas que não sabem o que estão a dizer deviam, no mínimo estar caladas!!! Isto era a sentença de um puto iluminado que já sabe tudo só que tinha a vantagem de poder escrever num jornal onde com certeza lhe pagavam e aos vintes e tantos anos já aprendeu tudo!!! Eu que ando nos sessenta ainda tenho algumas coisa para aprender e só admiti que a sabedoria de muita gente do povo pode ir mais longe e ter outros meios de informação e comunicação que os ditos eruditos não percebem nem lhes admitem... Isso de ocultismos e esoterismos ou exoterismos deixo por conta dos que acham que percebem dessas coisas!!!

Remeto os estudiosos para os trabalhos de Jorge de Sena sobre os Lusíadas e as possíveis implicações que a hermenêutica e a cabala podem fornecer para uma compreensão e estudo de "Os Lusíadas" para conseguir articular a leitura dos seus Ciclos e Níveis com as analepses e prolepses que isso implica; remeto para os trabalhos de Vitalina Leal de Matos e de Vasco da Graça Moura sobre por exemplo as redondilhas de "Sobolos Rios" que pode implicar a aplicação do teorema de Pitágoras ao comentário do Salmo 136, ou será o 137, conforme a numeração das Bíblias, um exercício literário que era proibido pela Santa Inquisição e que organizando os 365 versos em quintilhas ou em décimas nos podem fornecer uma leitura e uma interpretação completamente diferente?!!!

Aliás, como diz Jorge de Sena, a respeito dos Lusíadas, essa obra ele considera-a "como um prodígio de arte narrativa e como um prodígio de arquitectura significativa" (Ver Jorge de Sena in "Estrutura de "Os Lusíadas" p. 67).

Sem querer comparar uma simples Décima com obra de tamanha dimensão, atrevo-me no entanto em insistir em comparar, como já fiz noutras tentativas de estudo, a estrutura da construção de uma simples Décima a prodígios de arte em arquitectura, tendo em conta as devidas proporções. Já em trabalhos anteriores sugeri que se olhasse para o que dizem ter sido uma das maravilhas do mundo, o Templo de Diana, uma construção imensa que nascia de quatro grandiosos cubos vistos por fora, encimados por uma majestosa abóbada circular e, de tal maneira construída que quem a via por dentro, ao entrar nela, ficava com a ilusão-verdade de que estava imerso numa magnífica abóbada como inserido no Universo ou no imenso Cosmos. Aventei ainda a semelhança ou paralelismo com a construção da Torre de Belém que, segundo dizem entendidos na matéria, terá guardados para quem os sabe ler prodígios de simbolismos que passam despercebidos à maioria. Falei ainda duma pequena igreja de Terena, o Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, mandada edificar pela Formosíssima Maria, que "embora de proporções miniaturais, tem imponência e o maior valor artístico e histórico". Falei ainda da capela de S. João, na entrada Norte de Beja, cuja forma rectangular é como que rodeada por dez pequenos torreões que a adornam e completam a forma quadrada da fachada elegantemente aberta em arcos. Avanço neste trabalho, e para quem está habituado a olhar dos vários ângulos a cidade de Beja, quando nos aproximamos vindos da planície, encimada com o seu imponente Castelo e Torre de Menagem. É ver bem o quadrado cimeiro a culminar as quatro paredes que se erguem esguias e altaneiras, como se as quatro décimas que se erguem do mote, sustentassem por sua vez os quatro versos do mote e lhe dessem outro brilho e outra visibilidade. É ver como os fundamentos seguem e obedecem às curvaturas do terreno, como acontece com as construções de muitos montes alentejanos que enchem as paisagens do Alentejo, quando passamos por ele com olhos de ver.

Talvez não saibamos quem são nem o que sabiam os mestres construtores destas obras. Quando o soubermos, talvez saibamos um pouco mais desta Arte Maior de fazer Poesia "que não se aprende, nem se ensina", mas que leva um simples "Analfabeto" ou assim considerado, a erguer com pedras que são palavras, a arquitectura de uma Décima que é um desafio inglório para os "senhores" da Literatura que não lhe reconhecem o valor, que não a percebem, que não a sabem construir, que a menosprezam como arte menor própria só de gente menos culta, que a ignoram, que não a estudam e portanto a não consideram nem promovem. Apesar de tudo, mesmo sem vir nos manuais das escolas, mesmo sem ser estudada nos "templos" do saber, ela aí está viva, essa Arte Maior de fazer Poesia, e pronta a ser dita, para quem tiver ouvidos para ouvir, numa praça ou numa rua de uma qualquer terra desconhecida, por poetas ignorados que carregam este glorioso fardo de Saber Rimar como herança de séculos.

Aceito as críticas dos mestres. Devolvo os conselhos dos "iluminados" que, mal se vêem com um qualquer "canudo", já tiveram tempo para aprender tudo depois dos seus "estudos longos e aprofundados"! Que fiquem com as suas "certezas" que eu não tenho nem quero. Só me confunde a "curteza" de vistas dos que não admitem que os outros possam ver um pouco mais do que eles, ou um pouco diferente!

Deixo-lhes a DEIXA do Mestre Inocêncio: "Francisco Campos não penses / Que és sábio sem ter segundo / Mais tolo é quem se persuade / Ser o único no mundo."

"Lá do assento etéreo onde subiste", ó Mestre, nós que não somos divinos, não lhes perdoes porque eles pensam que sabem o que fazem!!!

Experimentem ler os seus versos e imaginar o Ti Inocêncio numa roda de amigos sem saberem ler nem escrever, a pregar como um profeta contra guerras a invectivar imperadores e criminosos e doutores que usam a instrução como arma para praticar injustiças...
ou comovido a mandar "as suas condolências" à viúva do rei...
seja para ganhar a grande popia na Festa do S. João em Ervidel "Que lindo Arco Celes-te...", "A manteiga nutritiva",
seja para se meter com o Manuel de Castro "Ser passarinho e tu laço"..
ou com o Francisco Campos "Tolo é quem se considera / Ser o único no Mundo"...
ou brincar com as personificações que se transformam em prosopopeias "No teu giro Sol brilhante" para fazer do Sol o seu mensageiro junto da família... ou "Os anjos do céu me levem"... "Trabalho não tenho achado / Peço esmola não ma dão" "Aos céus pergunto. - o que faço?"...
"De dia mando o sentido / Levar novas e trazer" ..."À noite um sonho atrevido" ... "Que os estou vendo e ouvindo"... "E tu, Sol... Traz-me novas dos meus filhos... Recomenda-me ao meu pai"... e tu "Pedrógão... Enorme a tua riqueza... vives na maior pobreza"... não é a síntese, a sinédoque ou a metonímia do retrato das terras do interior do país explorado só para benefício de alguns com ou sem regionalização? ...
"... como o alimento / A instrução é precisa" "Mas se com orgulho ou desdém... / A instrução não convém" porque "Faltando-lhe a consciência... A instrução embrutece"... !!!
ou ouvindo "Descobre-te milionário" para mostrar o valor do "Que morreu a trabalhar" e "Não foi alta personagem / Nem pessoa titular" aí estão todos os deserdados do Mundo... ou "Ser rico e andar à esmola" ou "Ter boa vista e não ver" são antíteses e contradições jogadas com uma justeza sibilina e mordaz "Num homem sem saber ler"...
e a mulher' "Que a casa onde ela não lida / É como o corpo sem alma"!!! Já alguém exaltou desta maneira o trabalho desprezado da mulher que não faz nada em casa? Ou afinal basta a sua presença e "lida" para evitar que o frio gele, que a calma afronte, para que a vida seja suportável, para que a "casa sem ter mulher" deixe de ser "Um covil de malfeitores" para que haja luz... para que haja ordem e graça, para que se afastem "as cruéis desventuras, as pe-nas, as amarguras, para haver "Amor paz, santa união" para fugir a escuridão! É ver o jogo de palavras os anaculutos e anástrofes, as ironias, as negativas a enaltecerem a mulher pelas antíteses e contradições, figuras de estilo a esmo e processos de enriquecimento literário que os literatos inventaram e este poeta usa como quem respira...

Será possível ver tudo isto e muito mais, ou será que só os considerados bons poetas, já consagrados é que usam as figuras de estilo?

E o poder d' "Os olhos, órgãos da vista" e d' "As pingas de água chorosas" que "Brotam de olhos femininos", não são perífrases? Não "Custam pouco e são rendosas"?... quantos jogos de palavras, na poesia deste ignorado poeta popular "analfabeto"!!!

Até uma peça de teatro, como um auto, podemos encontrar no "Vinho cruel inimigo"... "Tu és réu, eu sou queixoso" ... "Ninguém duvida que és / Um completo criminoso". Isto ao longo de quarenta versos... para depois o sujeito da enunciação se transmudar em destinatário: Tu "Não clames contra o vinho" ... "A culpa é toda do homem" ... A quem não é criminoso / Não manda, a lei, castigar"... Podíamos experimentar?

Para ver a adjectivação abundante podemos pegar no "Nobre Terreiro do Paço... nas cenas que são horríveis... no João Franco malvado... na infeliz realeza... a terrível surpresa... o fero laço... a triste nova... maus intentos... intento malvado... cruel morte... ímpio... traidor... sangue inocente (ver a hipálage em que inocente é a pessoa e ele chama inocente ao sangue)... digna vitória... feras hienas... (além de fera a hiena é fera ou os assassinos são ferozes com comparações e metáforas avassaladoras...)... Até nem falta a dupla adjectivação com aliteração com a ênfase dos erres: no português reino honrado... teatro de horríveis cenas...

Ver, na carta a "Dona Amélia de Orleães, ver um EU "que "Não tenho instrução pra mais" ... "Vos mando, mártir Rainha / As mais sérias condolências", ficamos a ver aquele alentejano do Torga que "Enverga o gibão como o manto de um rei, e o cajado como um ceptro" cheio de dignidade e respeito por si para respeitar os outros! Isto é qualquer coisa de magnífico.

Mais do que sermos representados pelos nossos "eleitos" à força de propaganda, eu sinto-me honrado por este Homem, este Poeta, ter mandado esta carta à Rainha que nunca a leu nem soube da sua existência. Nem da carta, nem do homem, nem do Poeta. E se o soubesse?
A tese de teologia de "No ventre da Virgem Bela" "Entrou por graça o Altíssimo" como "No vidro penetra a luz", "Como a luz o vidro passa" "Conceber, ficar donzela" e assim exaltar a "Sua exceta honestidade"!!!, pronto, esta tese escuso-me a comentar. Não lhe bastava entrar pelo campo das filosofias e nas reflexões de descobrir quem somos, donde vimos e para onde vamos, entra ainda pelas teologias e, apesar de me terem dito que foi o padre lá da terra que ensinou este homem a ler e escrever, duvido que o teólogo fosse capaz de explicar deste modo a "Senhora da Conceição"!!!

Pronto. Por aqui me fico. Não quero desiludir os "doutores" que não vão ler patranhas destas, ou dizer que isto não é análise nenhuma. "Eu sinto, tenho emoções, choro, rio, tenho raivas... logo existo... logo penso." Eu vou pelo "Erro de Descartes" do nosso António Damásio. Eles que continuem as análises e a educação pela razão, pelo "penso logo existo" e depois continuem a acusar-me que os males da "imbecilidade diplomada" dos "iluminados que nunca têm dúvidas e raramente se enganam" é toda por culpa destes professores atrevidos sem cultura que até já estão para os lados da reforma e escrevem coisas como "O Ensaio sobre a Cegueira" e até desprestigiam a cidade do "Convento"!!! Na tua Inocência, perdoa-lhes Inocêncio de Brito.

Só agora, perante isto, é que percebi o comentário "maldoso" de um grupo de "ilustres letrados" em Beja, que comentavam um convívio de "poesia popular" ali numa aldeola em que "havias de ver... aquilo era uma data de gente analfabeta que aprenderam uma palavras difíceis e depois, sem saberem o que querem dizer metem-nas nuns versos, ainda por cima a rimar!!!" Lembrei-me de facto do porteiro do colégio onde estudei que, uma vez que convivia todos os dias com estudantes e professores, a certa altura, em vez de nos dar os "bons dias" ou "as boas tardes" metia os palavrões que nos apanhava nas conversas e brindava-nos com um "inopinadamente" com um "pertinente" um "inóspito" e coisas no género, o que entre os estudantes era conhecido pelo "falar ao difícel" para nos mostrar que, mesmo porteiro, e sem estudos, estava a aproveitar a escola mais do que muitos de nós! Creio que esses "ilustres letrados", meus amigos ainda por cima, nem sequer agora sabem o que é uma Décima. E daí? E eu sei?

Têm-me chamado à atenção de que gasto muitas energias a bradar contra doutores e autoridades e instituições e religiões e credos e seitas! É possível que tenham todos razão mas o certo é que ou não brado o suficiente ou não adianta de facto porque não sou ouvido. Aliás, como já expliquei e como todos os que me conhecem estão fartos de saber, eu que pareço do contra como aquele "que llegava a um pueblo..." eu nem sequer contra sou contra o Deus Único, sou contra os deuses únicos de cada religião ou cada seita ou cada academia, sobretudo quando não estão ao serviço da ciência, ou da cultura, ou das pessoas... nem sequer sou contra a autoridade; só contra a autoridade que é só autoridade e não sabe o que está a fazer!!! É por isso, talvez que imaginar este homem a bradar ao vento, na solidão, me anima e limpa a alma!

Mestre Inocêncio, não te proponho para o Nobel, pois "Não tenho méritos para isso" não tenho essas "eloquências", mas do alto da minha pequenez de amante da Língua e da Literatura Portuguesa, nela incluída a chamada Literatura Popular, eu proponho que sejas tratado e lido e dito como Homem e como Poeta que prestigia uma Família, um Povo, uma Região, um País...

Se em vez de uma Rua com o seu nome, ou para além disso, o seu nome e os seus versos passarem para alguma associação Cultural, forem integrados no cancioneiro do Grupo Coral, se se promoverem convívios onde os seus versos e "sentenças" sejam lembrados, se se promover uma publicação com os seus escritos juntamente com os outros poetas desta terra, talvez estejamos a abrir caminhos para que esta terra de poetas e artistas se desenvolva ainda mais.

Este é um trabalho sobre Inocêncio de Brito que não tem a pretensão de ser pioneiro. Já outros antes de mim tiveram a preocupação e o trabalho de recolher os seus versos e tentaram dar a conhecê-lo/s...

Sabemos também que não é um trabalho completo e acabado. Temos plena consciência disso e daí as inúmeras reticências e interrogações ao longo de muitas páginas. Ficam muitas pessoas por contactar e, muitos que guardam escritos deste poeta e guardam os seus versos na memória, muito terão ainda que contar...

É esse exactamente o nosso desejo. Que apareçam e os dêem a conhecer.

José Rabaça Gaspar
11/11/1998

 

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