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Esboço
para um ESTUDO do HOMEM, do POETA e das suas DÉCIMAS...
S. MATIAS, uma terra de POETAS?!
José
Rabaça Gaspar

O
que dizer de ou sobre Inocêncio de Brito?
Já ouvi de tudo. Até ouvi dizer que ele não
existia, enquanto uma povoação inteira como
S. Matias, uma freguesia do concelho de Beja, sabe as suas
Décimas de cor, conta imensas histórias da sua
atribulada vida e lhe dedicou uma rua para não ser
esquecido. Até já ouvi-ram na rádio e
na televisão dizer Quadras dele como sendo de outros
e Décimas dele como se fossem de outros autores. Porquê?
Creio que foi um economista recém formado ou doutorado
que mo explicou. O ar como é abundante e toda a gente
precisa fundamentalmente dele não tem valor, não
tem preço. Não está à venda.
De Inocêncio de Brito, depois de durante alguns anos
ouvir falar das suas aventuras e das suas Décimas apetece-me
dizer que como o ar ou como a água das fontes, não
tem valor, não tem preço. Enquanto não
conspurcaram a água que bebemos e não apareceu
um "Cintra" qualquer a meter a água numas
garrafas de plástico e vendê-las pelo dobro do
preço da gasolina, a água não tinha valor.
Não tinha preço.
Tal
como, por vezes, a água, que corre nas veias do ventre
da terra, brota em fontes e rios, nos lugares mais inesperados,
escondidos ou abertos...
Tal como a água dos rios corre sempre, sempre para
o mar...
Tal como as árvores e as plantas, por vezes, abrem
o ventre da terra, para darem a co-nhecer as fecundas potencialidades
que a Terra mãe guarda no seu seio...

Por
vezes, e inesperadamente, sem licença dos ditos donos
das letras, ou dos ditos donos da cultura, surge no deserto
uma Voz de Poeta que fala da vida, que fala da sua terra,
que fala da sua família, do pai, da mulher, dos filhos,
dos problemas nacionais que ecoam no mundo, dos problemas
internacionais que abalaram o mundo, exalta uma figura de
mulher de rara beleza e majestade, interpela o "Kaizer
déspota orgulhoso" que provocou a I Grande Guerra
Mundial, interpela o Rei, escreve ao sucessor do Rei, geme
na sua solidão onde "Brado ninguém me responde
/ Olho não vejo ninguém" foi ou "Já
fui senhor Professor", "Agora sou não sei
quê", "Partiu a tola à Maria"
e depois fizeram as pazes, interpela o "Vinho cruel inimigo"
e logo a seguir defende-o dos adversários "Tu
não clames contra o vinho", afinal "Trabalho
não tenho achado" e "se a fome a roubar me
obriga / Serei preso por ladrão"; escolhe o Sol
como mensageiro "No teu giro Sol brilhante", invectiva
"A Rainha das potências" passa um diploma
de mau comportamento a ministros e doutores e denuncia a falta
de instrução e o abuso que os instruídos
fazem dela "A instrução é precisa
/ A instrução não convém":
desafia os génios, os artistas e os inventores a "Que
faça chover, escampar"; manda tirar o chapéu
ao rico que se banqueteia e diverte: "Descobre-te milionário
/ Vai um eterro a passar"; procura a Paz e só
a encontra no cemitério e canta a Virgem como um inspirado
teólogo "No ventre da Virgem Bela / O Verbo encarnou
por graça / Entrou e saiu por ela / Como o Sol pela
vidraça"...

E,
inesperadamente, este poeta que ninguém conhece, este
poeta que não existe, nunca ninguém ouviu falar
dele, inesperadamente, sessenta anos depois da sua morte (morreu
em 1938), podemos ter a inesperada feliz surpresa de entrarmos
num café da aldeia, pararmos na esquina duma rua, sentarmo-nos
em frente de uma mesa duma família diante de uma tigela
de azeitonas pisadas, tirando um petisco e... inesperadamente
ouvir um jovem neto de Inocêncio de Brito com 91 anos,
ou uma neta de oitenta, ou uma bisneta de sessenta e cinco,
ou um velho companheiro de lides dos trabalhos pelos montes,
ou até alguns jovens que ainda não tinham nascido
quando o Ti Inocêncio morreu... inesperadamente, num
lugar qualquer de S. Matias, basta puxar a conversa, e as
histórias os ditos, as saídas repentistas, os
Motes e as Quadras e as Décimas de Inocêncio
de Brito jorram em borbotões como se o estivessem a
ver e a ouvir o poeta desconhecido e ignorado, o poeta que,
para conhecedores do Alentejo, não existe, nunca existiu!!!
Deste
Poeta, atrevo-me a dizer, na nossa modesta, respeitável
e discutível opinião - ensinaram-me há
pouco, e já vou nos sessenta, que era assim que devia,
por ser politicamente correcto, emitir as minhas respeitáveis
opiniões que bruscamente eu dizia que eram, só,
respeitáveis e discutíveis - de Inocêncio
de Brito, repito, atrevo-me a dizer, pelo que me foi dado
ouvir e ver, pelo que tenho ouvisto, que é indubitavelmente
um poeta da Língua Portuguesa. Um poeta desconhecido?
Um poeta menor? Um poeta de que ninguém fala? Um poeta
que nem os folhetos volantes da feira fazia, como os outros
e nem os deixava fazer?

Creio
poder dizer que Inocêncio de Brito é a prova
viva de que um Poeta, na imensa solidão da planície
alentejana, "Onde brado ninguém me responde
/ Olho não vejo ninguém" longe de tudo
e de todos, até da imprensa e dos meios de difusão,
embora ele fosse dos raros poetas "analfabetos"
que naquele tempo sabia ler e escrever como uma letra cuidada,
desenhada e esmerada como deixou nos seus manuscritos, Inocêncio
de Brito é a prova viva de que, mesmo sessenta anos
depois de morto e enterrado, esquecido e ignorado, afinal
ESTÁ VIVO, porque as pessoas da sua família,
as pessoas da sua terra S. Matias, Beja, sabem de cor os seus
poemas, os discutem, os copiam à socapa, os deturpam,
os emendam como acontece com toda a literatura Oral e a sua
poesia fala, canta, grita temas e problemas que vão
da Terra ao Sol, da Vida à Morte, dos problemas locais
aos Universais...
Merecia
porventura o Prémio Nobel? Talvez.
Entretanto, graças a Deus e à minha modéstia,
não preciso, nunca precisei da modesta, respeitável
e discutível opinião da Real Academia Sueca,
nem do peso dos seus cento e setenta mil contos, para emitir
as minhas opiniões. Atenção. Neste ano
da graça de todas as graças como a Expo98 e
do Prémio Nobel para o Saramago, eu não sou
contra. Antes pelo contrário. Na Expo não pus
os pés. Do Saramago disse, alto e bom som, nas aulas
e no jardim público da cidade de Beja, rodeado de doutores,
em 83/84, quando tive oportunidade de ler "O Memorial"
que me emprestaram porque não tinha dinheiro para o
comprar, que, pela sua estrutura, pela cadência da narrativa,
pela fluidez do texto, pelo visualismo do invisível,
pelo simulacro de fundamento histórico, pela riqueza
de personagens "levantados" do imaginário,
o livro de Saramago era melhor, muito melhor, do que o badalado,
na altura "Nome da Rosa" de Humberto Eco. Só
que o Eco vendia aos milhares nos Estados Unidos e o Saramago
tinha o azar de ser português. Enganei-me graças
a Deus! Passados uns anos ele vendia milhares nos "States"
e na Itália deu Ópera!!! Ainda me recordo dos
olhares de comiseração e dos comentários
venenosos dos meus justamente indignados e ilustrados colegas
sabedores, a dizerem: - Pois é! É por isso que
os alunos de professores como este não sabem nada de
português nem de literatura. É por isso que o
ensino em Portugal está como está!!! Estou a
vê-los, agora em finais de 98, a correr às livrarias
a comprar Saramago, e a correrem aos críticos para
saberem da originalidade, criatividade e riqueza estrutural
e simbólica dos livros de Saramago.
Que pode valer a minha opinião, enquanto não
"falarem três doutores" ou enquanto não
se pronunciar a Real Academia Sueca?

O
que é preciso para ser Poeta? O que é a Poesia?
O reconhecimento da Academia? Ou a Arte e o Génio,
a capacidade de olhar e captar a realidade com olhos e ouvidos
de Poeta para nos levar a entrar noutra dimensão.
O
que é a Inspiração? O que são
as Musas? O que são as Tágides e as Ninfas do
Mondego de Camões? E o simbolismo da Ilha dos Amores?
E a intervenção dos Deuses do Olimpo?
Estou
a lembrar-me da intervenção "aflita"
e trémula do meu querido e saudoso amigo Doutor Manuel
Viegas Guerreiro, em 1996, em Portel, no colóquio Artes
da Fala, talvez, não sei, pressionado pelos "donos
do Colóquio" a tentar contrariar as minhas heresias
sobre litera-tura e poesia, por ter intitulado o meu trabalho
"AS DÉCIMAS - OU A MAGIA DA POESIA POPULAR"
para afirmar à douta assembleia que considerava esta
Arte de Poetas "Analfabe-tos" das lides literárias,
tanto pela complexidade da sua estrutura, como na aparente
facilidade da sua comunicação a que poucos se
atrevem, como uma peça de rara beleza e um "prodígio
de arquitectura narrativa e de estrutura simbólica
e significativa" semelhante a uma jóia ou um diamante,
semelhante a um esmerado trabalho de lapidador, que, para
além da perfeição formal, deixa na obra
uma carga de simbolismo que poucos podem alcançar,
sugerindo que a Décima, em que o Mote de quatro versos
de redondilha maior se espraiam por quatro décimas
que vão desaguar em cada verso, criam, do quadrado
do Mote e do quadrado das quatro décimas, uma espiral
de leitura em círculo que desafia os sábios
que desde sempre procuram conseguir a quadratura do círculo,
ou, melhor dizendo, "a circulatura do quadrado".
Pois é mesmo disso que eu estou convencido.

Não
é possível pedir, apesar de todos os defeitos
de grande número de Décimas, apesar das falhas
de vocabulário e das rimas forçadas, considerando
que é uma arte eminentemente oral e repentista, não
é possível conceber, que uma arte que poucos
eruditos conseguem, mesmo escrevendo e emendando, que sem
uma INSPIRAÇÃO ESPECIAL, sem uma ligação
su-perior, sem uns "olhos" especiais, sem uns "ouvidos"
que ouçam para além dos ruídos comuns,
sem uma "fé" que os leve a acreditar que
a palavra dita é criadora e pode ser mais forte que
a escrita, não é possível, dizia, acreditar
que Poetas como Inocêncio de Brito, dizerem o que dizem,
e, passados sessenta anos de morte e esquecimento sejam repetidos
e ditos, comentados por novos, velhos e a mais "desvairada"
Gentes...
Aliás
não é a minha teoria, ou as minhas teorias que
me preocupam. O que eu não percebo é o que é
que é afinal a inspiração. É ou
não é uma forma diferente do comum de ver as
coisas? É ou não é o resultado de uma
capacidade invulgar de "captar" o mundo que nos
ro-deia? E isso é privilégio só dos aprovados
pelas altas sumidades ou dos bafejados pela sorte da publicação?
Que
não senhor, que dizer que os poetas poderão
ter um dom especial e uma ligação a outras dimensões,
isso não é científico e literário!!!...
Aconselho-o a que não se meta em coisas parecidas como
ciências ocultas ou esoterismos porque por exemplo o
Pessoa e o Camões, grandes poetas nunca se meteram
nisso...
As pessoas que não sabem o que estão a dizer
deviam, no mínimo estar caladas!!! Isto era a sentença
de um puto iluminado que já sabe tudo só que
tinha a vantagem de poder escrever num jornal onde com certeza
lhe pagavam e aos vintes e tantos anos já aprendeu
tudo!!! Eu que ando nos sessenta ainda tenho algumas coisa
para aprender e só admiti que a sabedoria de muita
gente do povo pode ir mais longe e ter outros meios de informação
e comunicação que os ditos eruditos não
percebem nem lhes admitem... Isso de ocultismos e esoterismos
ou exoterismos deixo por conta dos que acham que percebem
dessas coisas!!!

Remeto
os estudiosos para os trabalhos de Jorge de Sena sobre os
Lusíadas e as possíveis implicações
que a hermenêutica e a cabala podem fornecer para uma
compreensão e estudo de "Os Lusíadas"
para conseguir articular a leitura dos seus Ciclos e Níveis
com as analepses e prolepses que isso implica; remeto para
os trabalhos de Vitalina Leal de Matos e de Vasco da Graça
Moura sobre por exemplo as redondilhas de "Sobolos Rios"
que pode implicar a aplicação do teorema de
Pitágoras ao comentário do Salmo 136, ou será
o 137, conforme a numeração das Bíblias,
um exercício literário que era proibido pela
Santa Inquisição e que organizando os 365 versos
em quintilhas ou em décimas nos podem fornecer uma
leitura e uma interpretação completamente diferente?!!!
Aliás, como diz Jorge de Sena, a respeito dos Lusíadas,
essa obra ele considera-a "como um prodígio de
arte narrativa e como um prodígio de arquitectura significativa"
(Ver Jorge de Sena in "Estrutura de "Os Lusíadas"
p. 67).

Sem
querer comparar uma simples Décima com obra de tamanha
dimensão, atrevo-me no entanto em insistir em comparar,
como já fiz noutras tentativas de estudo, a estrutura
da construção de uma simples Décima a
prodígios de arte em arquitectura, tendo em conta as
devidas proporções. Já em trabalhos anteriores
sugeri que se olhasse para o que dizem ter sido uma das maravilhas
do mundo, o Templo de Diana, uma construção
imensa que nascia de quatro grandiosos cubos vistos por fora,
encimados por uma majestosa abóbada circular e, de
tal maneira construída que quem a via por dentro, ao
entrar nela, ficava com a ilusão-verdade de que estava
imerso numa magnífica abóbada como inserido
no Universo ou no imenso Cosmos. Aventei ainda a semelhança
ou paralelismo com a construção da Torre de
Belém que, segundo dizem entendidos na matéria,
terá guardados para quem os sabe ler prodígios
de simbolismos que passam despercebidos à maioria.
Falei ainda duma pequena igreja de Terena, o Santuário
de Nossa Senhora da Boa Nova, mandada edificar pela Formosíssima
Maria, que "embora de proporções miniaturais,
tem imponência e o maior valor artístico e histórico".
Falei ainda da capela de S. João, na entrada Norte
de Beja, cuja forma rectangular é como que rodeada
por dez pequenos torreões que a adornam e completam
a forma quadrada da fachada elegantemente aberta em arcos.
Avanço neste trabalho, e para quem está habituado
a olhar dos vários ângulos a cidade de Beja,
quando nos aproximamos vindos da planície, encimada
com o seu imponente Castelo e Torre de Menagem. É ver
bem o quadrado cimeiro a culminar as quatro paredes que se
erguem esguias e altaneiras, como se as quatro décimas
que se erguem do mote, sustentassem por sua vez os quatro
versos do mote e lhe dessem outro brilho e outra visibilidade.
É ver como os fundamentos seguem e obedecem às
curvaturas do terreno, como acontece com as construções
de muitos montes alentejanos que enchem as paisagens do Alentejo,
quando passamos por ele com olhos de ver.

Talvez
não saibamos quem são nem o que sabiam os mestres
construtores destas obras. Quando o soubermos, talvez saibamos
um pouco mais desta Arte Maior de fazer Poesia "que não
se aprende, nem se ensina", mas que leva um simples "Analfabeto"
ou assim considerado, a erguer com pedras que são palavras,
a arquitectura de uma Décima que é um desafio
inglório para os "senhores" da Literatura
que não lhe reconhecem o valor, que não a percebem,
que não a sabem construir, que a menosprezam como arte
menor própria só de gente menos culta, que a
ignoram, que não a estudam e portanto a não
consideram nem promovem. Apesar de tudo, mesmo sem vir nos
manuais das escolas, mesmo sem ser estudada nos "templos"
do saber, ela aí está viva, essa Arte Maior
de fazer Poesia, e pronta a ser dita, para quem tiver ouvidos
para ouvir, numa praça ou numa rua de uma qualquer
terra desconhecida, por poetas ignorados que carregam este
glorioso fardo de Saber Rimar como herança de séculos.
Aceito as críticas dos mestres. Devolvo os conselhos
dos "iluminados" que, mal se vêem com um qualquer
"canudo", já tiveram tempo para aprender
tudo depois dos seus "estudos longos e aprofundados"!
Que fiquem com as suas "certezas" que eu não
tenho nem quero. Só me confunde a "curteza"
de vistas dos que não admitem que os outros possam
ver um pouco mais do que eles, ou um pouco diferente!
Deixo-lhes
a DEIXA do Mestre Inocêncio: "Francisco Campos
não penses / Que és sábio sem ter segundo
/ Mais tolo é quem se persuade / Ser o único
no mundo."
"Lá
do assento etéreo onde subiste", ó Mestre,
nós que não somos divinos, não lhes perdoes
porque eles pensam que sabem o que fazem!!!

Experimentem
ler os seus versos e imaginar o Ti Inocêncio numa roda
de amigos sem saberem ler nem escrever, a pregar como um profeta
contra guerras a invectivar imperadores e criminosos e doutores
que usam a instrução como arma para praticar
injustiças...
ou comovido a mandar "as suas condolências"
à viúva do rei...
seja para ganhar a grande popia na Festa do S. João
em Ervidel "Que lindo Arco Celes-te...", "A
manteiga nutritiva",
seja para se meter com o Manuel de Castro "Ser passarinho
e tu laço"..
ou com o Francisco Campos "Tolo é quem se considera
/ Ser o único no Mundo"...
ou brincar com as personificações que se transformam
em prosopopeias "No teu giro Sol brilhante" para
fazer do Sol o seu mensageiro junto da família... ou
"Os anjos do céu me levem"... "Trabalho
não tenho achado / Peço esmola não ma
dão" "Aos céus pergunto. - o que faço?"...
"De dia mando o sentido / Levar novas e trazer"
..."À noite um sonho atrevido" ... "Que
os estou vendo e ouvindo"... "E tu, Sol... Traz-me
novas dos meus filhos... Recomenda-me ao meu pai"...
e tu "Pedrógão... Enorme a tua riqueza...
vives na maior pobreza"... não é a síntese,
a sinédoque ou a metonímia do retrato das terras
do interior do país explorado só para benefício
de alguns com ou sem regionalização? ...
"... como o alimento / A instrução é
precisa" "Mas se com orgulho ou desdém...
/ A instrução não convém"
porque "Faltando-lhe a consciência... A instrução
embrutece"... !!!
ou ouvindo "Descobre-te milionário" para
mostrar o valor do "Que morreu a trabalhar" e "Não
foi alta personagem / Nem pessoa titular" aí estão
todos os deserdados do Mundo... ou "Ser rico e andar
à esmola" ou "Ter boa vista e não
ver" são antíteses e contradições
jogadas com uma justeza sibilina e mordaz "Num homem
sem saber ler"...
e a mulher' "Que a casa onde ela não lida / É
como o corpo sem alma"!!! Já alguém exaltou
desta maneira o trabalho desprezado da mulher que não
faz nada em casa? Ou afinal basta a sua presença e
"lida" para evitar que o frio gele, que a calma
afronte, para que a vida seja suportável, para que
a "casa sem ter mulher" deixe de ser "Um covil
de malfeitores" para que haja luz... para que haja ordem
e graça, para que se afastem "as cruéis
desventuras, as pe-nas, as amarguras, para haver "Amor
paz, santa união" para fugir a escuridão!
É ver o jogo de palavras os anaculutos e anástrofes,
as ironias, as negativas a enaltecerem a mulher pelas antíteses
e contradições, figuras de estilo a esmo e processos
de enriquecimento literário que os literatos inventaram
e este poeta usa como quem respira...
Será
possível ver tudo isto e muito mais, ou será
que só os considerados bons poetas, já consagrados
é que usam as figuras de estilo?
E
o poder d' "Os olhos, órgãos da vista"
e d' "As pingas de água chorosas" que "Brotam
de olhos femininos", não são perífrases?
Não "Custam pouco e são rendosas"?...
quantos jogos de palavras, na poesia deste ignorado poeta
popular "analfabeto"!!!
Até
uma peça de teatro, como um auto, podemos encontrar
no "Vinho cruel inimigo"... "Tu és réu,
eu sou queixoso" ... "Ninguém duvida que
és / Um completo criminoso". Isto ao longo de
quarenta versos... para depois o sujeito da enunciação
se transmudar em destinatário: Tu "Não
clames contra o vinho" ... "A culpa é toda
do homem" ... A quem não é criminoso /
Não manda, a lei, castigar"... Podíamos
experimentar?
Para
ver a adjectivação abundante podemos pegar no
"Nobre Terreiro do Paço... nas cenas que são
horríveis... no João Franco malvado... na infeliz
realeza... a terrível surpresa... o fero laço...
a triste nova... maus intentos... intento malvado... cruel
morte... ímpio... traidor... sangue inocente (ver a
hipálage em que inocente é a pessoa e ele chama
inocente ao sangue)... digna vitória... feras hienas...
(além de fera a hiena é fera ou os assassinos
são ferozes com comparações e metáforas
avassaladoras...)... Até nem falta a dupla adjectivação
com aliteração com a ênfase dos erres:
no português reino honrado... teatro de horríveis
cenas...

Ver,
na carta a "Dona Amélia de Orleães, ver
um EU "que "Não tenho instrução
pra mais" ... "Vos mando, mártir Rainha /
As mais sérias condolências", ficamos a
ver aquele alentejano do Torga que "Enverga o gibão
como o manto de um rei, e o cajado como um ceptro" cheio
de dignidade e respeito por si para respeitar os outros! Isto
é qualquer coisa de magnífico.
Mais
do que sermos representados pelos nossos "eleitos"
à força de propaganda, eu sinto-me honrado por
este Homem, este Poeta, ter mandado esta carta à Rainha
que nunca a leu nem soube da sua existência. Nem da
carta, nem do homem, nem do Poeta. E se o soubesse?
A tese de teologia de "No ventre da Virgem Bela"
"Entrou por graça o Altíssimo" como
"No vidro penetra a luz", "Como a luz o vidro
passa" "Conceber, ficar donzela" e assim exaltar
a "Sua exceta honestidade"!!!, pronto, esta
tese escuso-me a comentar. Não lhe bastava entrar pelo
campo das filosofias e nas reflexões de descobrir quem
somos, donde vimos e para onde vamos, entra ainda pelas teologias
e, apesar de me terem dito que foi o padre lá da terra
que ensinou este homem a ler e escrever, duvido que o teólogo
fosse capaz de explicar deste modo a "Senhora da Conceição"!!!
Pronto.
Por aqui me fico. Não quero desiludir os "doutores"
que não vão ler patranhas destas, ou dizer que
isto não é análise nenhuma. "Eu
sinto, tenho emoções, choro, rio, tenho raivas...
logo existo... logo penso." Eu vou pelo "Erro de
Descartes" do nosso António Damásio. Eles
que continuem as análises e a educação
pela razão, pelo "penso logo existo" e depois
continuem a acusar-me que os males da "imbecilidade diplomada"
dos "iluminados que nunca têm dúvidas e
raramente se enganam" é toda por culpa destes
professores atrevidos sem cultura que até já
estão para os lados da reforma e escrevem coisas como
"O Ensaio sobre a Cegueira" e até desprestigiam
a cidade do "Convento"!!! Na tua Inocência,
perdoa-lhes Inocêncio de Brito.

Só
agora, perante isto, é que percebi o comentário
"maldoso" de um grupo de "ilustres letrados"
em Beja, que comentavam um convívio de "poesia
popular" ali numa aldeola em que "havias de ver...
aquilo era uma data de gente analfabeta que aprenderam uma
palavras difíceis e depois, sem saberem o que querem
dizer metem-nas nuns versos, ainda por cima a rimar!!!"
Lembrei-me de facto do porteiro do colégio onde estudei
que, uma vez que convivia todos os dias com estudantes e professores,
a certa altura, em vez de nos dar os "bons dias"
ou "as boas tardes" metia os palavrões que
nos apanhava nas conversas e brindava-nos com um "inopinadamente"
com um "pertinente" um "inóspito"
e coisas no género, o que entre os estudantes era conhecido
pelo "falar ao difícel" para nos mostrar
que, mesmo porteiro, e sem estudos, estava a aproveitar a
escola mais do que muitos de nós! Creio que esses "ilustres
letrados", meus amigos ainda por cima, nem sequer agora
sabem o que é uma Décima. E daí? E eu
sei?
Têm-me
chamado à atenção de que gasto muitas
energias a bradar contra doutores e autoridades e instituições
e religiões e credos e seitas! É possível
que tenham todos razão mas o certo é que ou
não brado o suficiente ou não adianta de facto
porque não sou ouvido. Aliás, como já
expliquei e como todos os que me conhecem estão fartos
de saber, eu que pareço do contra como aquele "que
llegava a um pueblo..." eu nem sequer contra sou contra
o Deus Único, sou contra os deuses únicos de
cada religião ou cada seita ou cada academia, sobretudo
quando não estão ao serviço da ciência,
ou da cultura, ou das pessoas... nem sequer sou contra a autoridade;
só contra a autoridade que é só autoridade
e não sabe o que está a fazer!!! É por
isso, talvez que imaginar este homem a bradar ao vento, na
solidão, me anima e limpa a alma!

Mestre
Inocêncio, não te proponho para o Nobel, pois
"Não tenho méritos para isso" não
tenho essas "eloquências", mas do alto da
minha pequenez de amante da Língua e da Literatura
Portuguesa, nela incluída a chamada Literatura Popular,
eu proponho que sejas tratado e lido e dito como Homem e como
Poeta que prestigia uma Família, um Povo, uma Região,
um País...
Se
em vez de uma Rua com o seu nome, ou para além disso,
o seu nome e os seus versos passarem para alguma associação
Cultural, forem integrados no cancioneiro do Grupo Coral,
se se promoverem convívios onde os seus versos e "sentenças"
sejam lembrados, se se promover uma publicação
com os seus escritos juntamente com os outros poetas desta
terra, talvez estejamos a abrir caminhos para que esta terra
de poetas e artistas se desenvolva ainda mais.
Este
é um trabalho sobre Inocêncio de Brito que não
tem a pretensão de ser pioneiro. Já outros antes
de mim tiveram a preocupação e o trabalho de
recolher os seus versos e tentaram dar a conhecê-lo/s...
Sabemos
também que não é um trabalho completo
e acabado. Temos plena consciência disso e daí
as inúmeras reticências e interrogações
ao longo de muitas páginas. Ficam muitas pessoas por
contactar e, muitos que guardam escritos deste poeta e guardam
os seus versos na memória, muito terão ainda
que contar...
É
esse exactamente o nosso desejo. Que apareçam e os
dêem a conhecer.
José
Rabaça Gaspar
11/11/1998
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