|
Uma
célebre Décima (mesmo só dez versos) do PÔTRA
O
senhor Luís Alves, natural de S. Matias, Beja, com
cerca de sessenta anos em 1999, autodidacta, senhor de uma
cultura e de uma memória fora do vulgar, pode passar um dia
inteiro, dizendo por exemplo, factos episódios, datas de nascimento
ou morte de grandes personalidades, começando no dia um de
Janeiro e seguindo por aí fora..., criando e resolvendo problemas
complicadíssimos, dizendo volumes e medidas de rios montanhas
quedas de água...
A
propósito deste fenómeno que foi Inocêncio de Brito, no final
do século dezanove e primeiras décadas do século XX, lembrou-se
de um outro PASTOR DE CABRAS, do tempo de frei Manuel do Cenáculo
(n. 1724, foi Bispo de Beja e arcebispo de Évora; em 1770
renovou a Diocese de Beja que tinha deixado de o ser durante
uns tempo)...
Quando
este sábio pastor andava nas suas vistas e andanças pelo Alentejo,
alguns lavradores que sabiam do seu interesse pela literatura
e pela poesia, falaram-lhe de um pastor de cabras, o PÔTRA
que era um poeta repentista... Cheio de curiosidade quis um
dia pôr à prova o famoso pastor com fama de repentista...
Levado à sua presença, diz o bispo:
-Faz-me
um poema!
-Dê-me,
Senhor, o Mote!
E
no entusiasmo e na galhofa o Bispo bateu as palmas...
E
sai-se o pastor:
Senhor meu, bateu as palmas
Pois nós não somos iguais
Eu sou pastor de animais
E vós sois pastor das almas
Sofro frio e sofro calmas
Sofro do tempo os rigores
Vós brilhais entre os doutores
Servindo aos sábios de exemplo
Eu no prado e vós no templo
Nós ambos somos pastores.
ANEXO
JRG
Nunca
foi possível saber se existiu a DÉCIMA completa do Popular
Poeta – o POTRA. Talvez não tenha mesmo existido, porque não
era disso que se tratava, mas tão só de uma DÉCIMA simples
ao desafio como se usa nas DÉCIMAS silvadas. Apesar disso
e tentando evocar o inspirado Pastor – o POTRA, que gozava
de grande fama em Beja e por todos os seus arredores, onde
havia feiras e grandes despiques, um dia, o poeta menor, José
Penedo, tentou “engendrar” o que seria a DÉCIMA completa,
tendo a QUADRA completa como MOTE...
Um Bispo, Pastor de Almas,
Encara o POTRA, pastor...
O Senhor bateu as palmas:
- Nós ambos somos Pastores
|
Conta
a estória, que, um dia,
O
Frei Manuel do Cenáculo,
Governando
com seu báculo
E
grande sabedoria,
Quando
os montes percorria
Sofrendo
o rigor das calmas
Recebendo
flores e palmas,
Encontra
o POTRA, o pastor
Poeta
de grande valor!
Ele,
um Bispo Pastor de Almas!
|
-
Creio que um analfabeto
Não
pode versos fazer!...
Não
sabes ler, escrever!...
Mas
dizem que és esperto...
- Eles fazem do longe perto!...
Meu
labor não são as almas,
Mas
sofrer, do tempo, as calmas,
Da
chuva e frio, o rigor...
Eu
sou, de animais, pastor...
E
o Senhor bateu as palmas...
|
|
-
Como te chamas, pastor?
Tens
fama de grande bardo!
Faz
um verso a meu agrado
E
terás os meus louvores
Pois
muitos te dão valor...
Pois se o ouviste(s), Senhor
E
o pedis com tal calor
Venha
o MOTE para o verso!...
E
o Bispo de olhar travesso
Encara
o Potra, pastor:
|
-
Senhor meu bateu as palmas!!!
Pois
nós não somos iguais...
Eu
sou pastor de animais
E
vós sois Pastor das almas!
Sofro
frio e sofro as calmas
Sofro,
do tempo, os rigores.
Vós
brilhais entre os Doutores
Servindo,
aos sábios de exemplo!
Eu,
no prado, e vós no Templo...
Nós,
ambos, somos pastores!
|


Frei
Manuel do Cenáculo (pintura de autor desconhecido.
Biblioteca Municipal de Évora)

Frei
Manuel do Cenáculo Vilas-Boas, Arcebispo de
Évora
«O
SAQUE DE ÉVORA PELO EXÉRCITO FRANCÊS
EM 1808»
por
Frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas, Arcebispo
de Évora
«Julgo ser do meu ofício conservar uma
memória exacta, e individual dos acontecimentos
nesta cidade de Évora, principalmente relativos
à minha pessoa, que sucederam desde a intrusão
dos Franceses neste Reino; e tomo por época
o dia 13 de Julho do ano próximo passado 1808.»
|
Frei
Manuel do Cenáculo Vilas Boas
Superior
provincial da Ordem Terceira de São Francisco,
presidente da Real Mesa Censória, bispo de Beja,
arcebispo de Évora (n. Lisboa, 1724-m. Évora,
1814) no conjunto da sua actividade, figura de relevo
do iluminismo em Portugal. Frequentou desde muito jovem
as lições do P. João Baptista,
da Congregação do Oratório. Aos
15 anos veste o hábito de franciscano da Ordem
Terceira da Penitência e um ano depois frequenta
as aulas de Frei Joaquim de São José,
cuja orientação será marcadamente
modernizante, coincidindo, aliás, com uma movimentação
intelectual de crítica da Escolástica,
a qual Cenáculo banzaria como tendo o seu início
precisamente em 1740. Estudante da Universidade de Coimbra,
frequenta o curso de Teologia e obtém o grau
de doutor por aquela instituição, sendo
igualmente nomeado lente de Artes do Colégio
de São Pedro de Coimbra.
Obras
Conclusiones Philosophicas... (1747); Conclusiones Logico-Metaphysicas...
(1748); Speciosissime Sui Factoris Genetrici Mariae
Sanctissime... (1749); Conclusiones Philosophicas Critico-Rationalis
de Historia Logicae... (1751); Advertências Criticas
e Apologéticas sobre o juizo que nas matérias
do B. Raimundo Lullo formou o Dr. Apollonio Philomuso...
(1752); Elogio Fúnebre Do Padre Fr. Joaquim De
S. Joseph, Doutor Theologo Conimbricense... (1757);
Dissertação Theologica, Historica, Critica
Sobre a Definibilidade do Mysterio da Conceição
Immaculada de Maria Santissima... (1758); De repetendis
fontibus doctriae, Moderatoris Provincialis tertii Ordinis
Sancti Francisci... (1770); Continuação
das noticias ecclesiasticas de 5 de Junho de 1771, para
servir de supplemento a obra de Justino Febroni (1771);
Disposições do Superior Provincial para
a Observancia Regular e Literaria da Congregação
da Ordem Terceira de S. Francisco destes reinos... (1776);
Memorias Historicas do Ministerio do Púlpito
por Hum Religioso da Ordem Terceira de S. Francisco
(1776); Instrucção Pastoral (...) Sobre
a Justiça Christã... (1784); Instrução
Pastoral (...) Sobre as Virtudes da Ordem Natural...
(1785); Instrução Pastoral (...) Sobre
os Estudos Fysicos do Seu Clero (1786); Cuidados Literarios...
(1791), Memorias Historicas e Appendix Segundo... (1794).
[Para
uma referência completa, v. F. da Gama Caeiro,
Frei Manuel do Cenáculo ...]
Bibliografia
Hernâni Cidade, Ensaio sobre a crise mental do
século XVIII, Coimbra, 1929; id., Lições
de cultura e literatura portuguesa, 2 vols., Coimbra,
1959; Francisco da Gama Caeiro, «Revivescências
setecentistas do lulismo em Portugal., Rev. Port. Filos.,
XI, fasc. 3-4; id., Frei Manuel do Cenáculo,
aspectos da sua actuação filosófica,
Lisboa, 1959; id., Concepções Historiográficas
Setecentistas na Obra de Frei Manuel do Cenáculo,
Lisboa, 1978; Jacques Marcade, «D. Frei Manuel
do Cenáculo, Provincial du Tiers Ordre Franciscain
de la Province du Portugal. 1768-1777», in Arquivos
do Centro Cultural Português, vol. III, Paris,
1971, pp. 431-458; id., Frei Manuel do Cenáculo
Vilas Boas, Évêque de Beja, Archevêque
D'Évora, Paris, 1978.
Pedro
Calafate
|
O
POTRA no JORNAL da CONFRARIA DO PÃO
Março e junho de 2004



|
|