PRÉMIOS IX Jogos AA

 

IX JOGOS FLORAIS da ALMA ALENTEJANA
QUADRA - POEMAS - CONTO

PATRONO

JOSÉ MANUEL MAIA NUNES DE ALMEIDA
2009 10 25
ALMADA
FÓRUM ROMEU CORREIA - AUDITÓRIO LOPES GRAÇA
15H00

uma APRESENTAÇÃO por JORAGA
um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela

 

 

 

 

contacto © joraga ®

 

 

ALMADA – GENTE NOSSA - Entrevistas

José Manuel Maia

Autor: ARTUR VAZ

PUBLICAÇÃO: Almada: Junta de Freguesia, 2001

pp. 122 – 131

Entrevista realizada em DEZEMBRO de 1999

José Manuel Maia

Figura emblemática do município de Almada, José Manuel Maia é um homem simples, afável e possuidor de uma profunda simpatia, mesmo no seio de forças politicas contrárias à sua, o Partido Comunista Português, onde é militante desde 1974.

Escondendo-se na singularidade das coisas que acontecem, tem sido, ao longo de todos estes anos de vida política, uma voz activa no desenvolvimento e progresso do distrito de Setúbal, tanto no Parlamento, onde marcou uma presença de profunda militância, bem como autarca; norteando a sua acção como interveniente na transformação da sociedade, nos mais genuínos valores de honestidade e da verticalidade.

José Manuel Maia nasceu em Lisboa, a 23 de Setembro de 1945, onde viria a concluir o Curso Industrial na Escola Afonso Domingues.

Desde muito cedo, a política foi para si algo de grande influência na sua formação. Aos 16 anos já era um atento ouvinte das célebres emissões das rádios Moscovo e Argel. Entretanto, influenciado por um grupo de jovens mais velhos da área da sua residência (Areeiro-Lisboa), integrou-se, nos anos de 1962 - 1963, num Gabinete de Estudos Económicos, como inquiridor, onde lhe permitiu o contacto com muitas situações de miséria e discriminação social.

Nessa altura, vem para Almada e entra para o ensino, sendo Mestre de Trabalhos Manuais na Escola Preparatória (actual 2° Ciclo) D. António da Costa, durante o período de 1963-1966, onde viria a criar laços de grande afectividade entre a juventude.

José Manuel Maia prestaria o Serviço Militar, entre os anos de 1967 e 1971, como Sargento Sapador de Infantaria e Minas e Armadilhas. Dois anos dos quais em Africa, no norte de Moçambique, onde participa, como toda a juventude do seu tempo, num dos maiores flagelos da então política portuguesa: a Guerra Colonial.

Mas o facto mais decisivo para a sua actividade política e partidária foi, sem dúvida, a sua entrada nos quadros dos estaleiros da Lisnave, em 1971, como operário especializado metalúrgico. Acompanhando toda a sua evolução, em Maio de 1974 é eleito delegado dos trabalhadores perante a Administração, sendo membro da primeira comissão de trabalhadores.

Membro da Comissão Concelhia de Almada do PCP, desde 1975, entra para o seu Comité Central, em 1978. Deputado à Assembleia da Republica, pelo distrito de Setúbal, durante os anos de 1975 a 1995, José Manuel Maia desempenhou no parlamento, entre outras funções, para além de deputado, a de secretário da Mesa ( 1976 a 1987) e a de Vice-Presidente da Assembleia (1987-1995) e a de membro da Direcção do Grupo Parlamentar do seu Partido. Em Dezembro de 1985 é eleito Presidente da Assembleia Municipal de Almada, cargo que ainda desempenha e ao qual tem dedicado muito de si próprio.

Medalha de Ouro de Mérito do Município de Almada, pela sua persistente dedicação e pelos serviços prestados, tanto como cidadão, como autarca. José Manuel Maia é o exemplo de como deve ser a intervenção de um político, pois como ele próprio definiu há anos numa entrevista: «política no é um espectáculo, é um trabalho sério, minucioso, continuado.»

* * *

ENTREVISTA

— Aos dezoito anos começa a dar aulas em Almada, podemos, portanto, considerar essa data como o ponto de referência à sua ligação e vivência neste município?

— É verdade. A partir dessa altura venho ensinar para Almada, como Mestre de Trabalhos Manuais, hoje chamado 2º ciclo, sendo na época as chamadas Escolas Preparatórias, onde mantive um excelente contacto com o professor David Lopes, permitindo-se estabelecer os primeiros contactos com a realidade do ensino e com Almada.

Foi com ele que visitei algumas colectividades, como a Incrível, Academia, a S.F.U.A.P., as Cooperativas Almadense e Piedense. Era de facto, uma personalidade de grande cariz antifascista, marcando-me profundamente e abrindo todas as condições para o gosto de Almada e sentir-me de certa forma incluído no seu movimento trabalhador e associativo.

 

— Quando, em 1967, vai para a Guerra Colonial, já é possuidor de uma consistência política bem definida. Nunca pensou fugir ao cumprimento da imposição de lutar por uma causa que a maioria dos portugueses não concordava?

— Foi realmente um tempo da minha vida muito difícil, de muitas contradições e de muito pensar. Acredite Artur Vaz e falo-lhe sinceramente. Primeiramente tentei livrar-me através do hospital, ainda tive algum tempo com baixa no Hospital Militar da Estrela, tentando não voltar ao serviço militar, mas não consegui.

Por outro lado, ainda se criou condições por intermédio de alguns amigos para a minha saída de Portugal No entanto, pesou muito as condições familiares e em particular de minha mãe. Na altura vivia sozinha e pediu-me que não fizesse isso, porque eu era filho único. Acabei por embarcar para Africa, mas digo-lhe, sem qualquer complexo, que foi também uma grande experiência na minha vida e aprendi muito. Direi que não tenho grandes problemas de consciência, no ponto de vista de Guerra Colonial, embora tenha passado momentos muito difíceis. Contactei com a morte muito de perto, vi camaradas a morrerem, no entanto, foi um tempo de grande solidariedade entre todos, incentivando coragem e ânimo nos momentos mais duros, procurando, acima de tudo, estabelecer uma união e ajuda mútua.

 

— No entanto, a guerra colonial deixou grandes traumas e certamente nesse tempo houve algum episódio que o sensibilizou.

— Sim. Lembro-me que um dia fui chamado para socorrer uma viatura emboscada, acerca de 20 quilómetros do aquartelamento onde estava. Nela seguiam três pessoas que faziam parte da assistência médica, eram um branco e dois negros que estavam com as pernas esfaceladas, em virtude de terem sido apanhados por uma mina. Trouxemo-los para o aquartelamento afim de lhes prestar os primeiros socorros e, por incrível que pareça, aqueles homens passaram a noite toda a cantar tentando enganar a dor. Isso demonstra o sofrimento destes e de muitos outros, de uma guerra injusta como são todas as guerras.

 

— Depois da Guerra entra, em 1971, nos quadros da Lisnave, como operário, mais tarde especializado. Passados poucos anos dá-se a revolução de Abril, que instaurou a democracia. Como é que viveu esse inesquecível dia como operário e como cidadão? 

— Sabe, a minha entrada na Lisnave é interessante, pois, ela deve-se ao seguinte factor. Eu venho do Serviço Militar e tenho três hipóteses de entrar no mundo do trabalho: continuar a dar aulas em Almada na Escola António da Costa, ir para a Central de Cervejas ou para a Lisnave. Na Lisnave com as horas extras o salário era maior e também por outra razão, que pesou bastante, foi uma certa ansiedade em contactar com a classe operária, meio praticamente desconhecido, mas que galvanizava. Assim, juntando o útil ao agradável, acabei por entrar para a Lisnave. Devo dizer, sem qualquer exagero, que representou uma grande escola para mim. Sabe, foi como que o encontro com a essência do verdadeiro conceito de classe operária. Ali estava o espírito de classe, de luta pelos ideais de justiça e de liberdade.

Sobre o dia 25 de Abril, devo dizer que vivi de uma forma inesquecível, com lágrimas nos olhos, com sorrisos, com uma grande fraternidade e acima de tudo com aquela sensação que está vamos prontos para encetar um processo colectivo de transformação em Portugal, no sentido de se instaurar um regime verdadeiramente democrático e de liberdade, envolvido numa grande participação popular.

 

— Foi na Lisnave, com esse contacto com a classe operária, que o motivou a uma maior continuidade na intervenção politica?

— É verdade, sabe, eu comecei muito cedo a despertar, a interessar-me pela política. Aliás, devo dizer que foi através de um homem que era encarregado da ferraria da Lisnave, na Rocha de Conde Óbidos, em Lisboa, que me incitou a ouvir à noite as emissões das rádios Argélia e Moscovo. Com um certo ideal anarquista, ele era muito paciente no ponto de vista da explicação política. Outra consequência foi a minha participação num grupo de jovens com perspectivas ideológicas de esquerda que paravam em Lisboa, na zona do Areeiro, nos cafés Paço Alentejano e nas Pastelarias S. João e Todi, estabelecimentos muito frequentados por estudantes do Instituto Superior Técnico.

Esse grupo era constituído por jovens mais velhos que eu, aliás, eu nessa altura tinha quinze anos, (1960) era portanto o mais novo. Outra coisa também muito interessante, no aspecto de conviver com a realidade social e económica do país dessa altura, foi a minha entrada num gabinete de estudos económicos, (1962 / 1963) fazendo inquéritos deporta aporta. Os inquéritos permitiam questionar as pessoas de quanto ganhavam, quantos filhos tinham, como viviam, qual o tipo de habitação, enfim, toda uma série de contactos com as mais diversificadas classes sociais, desde a criada que chamava a senhora para responder ao inquérito à simples dona de casa, mãe de inúmeros filhos descalços, onde a pobreza e a miséria eram uma realidade constante. A par disto tudo, tinha também a minha vida familiar, de origem rural e pobre, pois a minha mãe era vendedeira de hortaliça no mercado Forno Tijolo e mais tarde de Arroios, trabalhando doze horas seguidas para arranjar uns magros dinheiros. Foi, sem dúvida, todas estas vivências, que me deram a conhecer as grandes clivagens que havia na sociedade, onde uns tinham tudo, enquanto que os outros não tinham nada.

 

— Já como deputado, na Assembleia da República, numa entrevista dada por si a um semanário, em 1992, dizia que “Pena é que a Assembleia seja surda ao que se passa à sua volta”. Decorridos todos estes anos e agora já não fazendo parte da Assembleia ainda tem a mesma opinião?

— Em primeiro lugar deixe dizer o seguinte: eu tive mais de vinte anos na Assembleia da República e tem sido sempre minha conduta tirar o máximo de saber e experiências dos órgãos políticos onde intervenho e, de facto, minha passagem por esse epicentro da democracia foi, sem dúvida, uma grande experiência da minha vida.

No entanto considero que a Assembleia da República ainda não corresponde à sua verdadeira função como órgão representativo de todos os portugueses, sendo ainda, muitas vezes, surda ao que se passa à sua volta. E quando eu digo que é surda, é porque ela continua governamentalizada, ou seja, os governos continuam a abafar a Assembleia, deixando para segundo lugar o debate das grandes questões com os representantes de todo o povo português. Por outro lado, o prestigio da Assembleia defende-se quando se aprovam leis justas e que tenham como o principal objectivo o bem estar de todo o povo, ora o que agente vê, na maioria das vezes, é que são aprovadas leis que, no ponto de vista de sua justiça, deixam muito a desejar, principalmente, aqueles que são os mais desfavorecidos. Por vezes, na Assembleia discute-se o ‘sexo dos anjos’ em vez de se dar atenção aos reais problemas e carências do próprio povo, dos trabalhadores.

 

‑ Não acha que as razões e motivos para a defesa dos interesses do círculo que elegem um deputado são por vezes esquecidas, ou melhor, preteridas pelos eleitos, quando se sentam na bancada da Assembleia, em defesa de uma politica mais centralista do que regional?

‑ Existe verdade na questão que me coloca, embora o deputado não seja somente um deputado do seu distrito, mas sim da nação — é um deputado da República. Agora o que não se admite é que, independentemente disso e até por isso mesmo, os deputados esqueçam os problemas do círculo onde foram eleitos. Eu defendo que o deputado deve prestar contas no seu distrito, deve incentivar a participação dos eleitores, deve informar sobre o trabalho que desenvolve, aliás, foi sempre assim que procedi cumprindo uma orientação de sempre do meu Partido e do meu Grupo Parlamentar. Assim deve ser a intervenção de um deputado, num regime democrático. Porque toda a classe política, desde o simples Presidente de Junta de Freguesia, passando pelo Primeiro Ministro até ao Presidente da República, são acima de tudo servidores públicos, essa é, para mim, o cerne da questão.

 

— José Manuel Maia como vê, presentemente, o distrito de Setúbal. Ainda comunga da opinião que o seu crescimento económico não significa desenvolvimento?

— Na verdade, o crescimento económico é uma condição necessária, mas não a suficiente para haver desenvolvimento. Para haver desenvolvimento tem que haver crescimento económico, mas só por si o crescimento económico não traduz a desenvolvimento. Atente-se no que respeita á evolução do tecido económico distrital, tal como o nacional, e das condições de vida dos portugueses, que o crescimento económico não foi suficiente para garantir o desenvolvimento harmonioso da economia e da sociedade e, em especial, não foi capaz de pôr fim às desigualdades económicas e sociais existentes. Ao contrário estas agravavam-se ao mesmo tempo que aumenta a dependência do exterior como comprova o défice da balança de transacções correntes - cada vez produzimos menos. Como sabe Artur Vaz o desenvolvimento tem várias vertentes, como político, o económico, o cultural, o ambiental e o social.

Ou seja, um desenvolvimento ao serviço do Homem — um desenvolvimento humanizado que contribua para elevar o nível e qualidade de vida dos trabalhadores e das populações, contribuindo para o fim das desigualdades sociais e económicas.

Ora no caso concreto do distrito de Setúbal, tem sido prejudicado fortemente pela falta ou com o tipo de investimentos do Poder Central. Por exemplo o não financiamento das estações de tratamento de águas residuais importantíssimas para o ambiente. Direi mesmo que existe uma política no sentido de atrasar a resolução dos inúmeros problemas existentes e de alguma maneira deixar para segundo plano o aproveitamento das riquezas e dos recursos e potencialidades da nossa região. Citarei como exemplo o investimento industrial que continua a concentrar-se num núcleo reduzido de actividades (quase tudo é canalizado para a indústria dos transportes — a industria automóvel — se vem uma crise, que é cíclica, lá vai tudo por “água abaixo” ao mesmo tempo que se assiste ao declínio e crise de muitas outras indústrias onde temos mão de obra altamente especializada como é por exemplo os casos das indústrias naval, siderúrgica, corticeira e química. A agricultura e as pescas continuam em enfraquecimento acelerado; o sector de serviços, embora registe uma evolução, continua a não dar a resposta necessária ás solicitações de algumas das novas unidades industriais surgidas e assim como de serviços de proximidades às populações — continua tudo muito concentrado em Lisboa. Em consequência, continua uma elevada taxa de desemprego, mantém-se os baixos salários e intensificam-se as situações de trabalho precário e de desrespeito pelos direitos dos trabalhadores, pelo que crescem as manchas de pobreza e a marginalização de camadas sociais, aumenta a delinquência a criminalidade.

Outra grande falha no desenvolvimento económico é, sem dúvida, o desaproveitamento das nossas potencialidades. Somos por natureza uma região de potencial para dar aos turistas algo de muito rico e diversificado e estou certo que teríamos, com uma política de forte incentivo nesta área, um sector âncora do desenvolvimento económico.

Mas torna-se necessário a promoção, valoração e requalificação das áreas de aptidão turística e do turismo com o aproveitamento sustentável das enormes riquezas paisagísticas, patrimoniais, ambientais, culturais, gastronómicas, das áreas ribeirinhas, da frente litoral atlântica e do interior.

O distrito para o verdadeiro desenvolvimento exige a diversificação e coerência da estrutura produtiva, a sua especialização equilibrada pelo conjunto de território com respeito pelo equilíbrio ecológico e ambiental— uma outra e nova política.

 

— Ainda ligada ao aproveitamento turístico, bem há pouco tempo, toda a zona ribeirinha e frente atlântica de Almada foi motivo de reconversão e qualificação, sendo, por esse facto, recentemente estabelecido um acordo entre a Câmara e o Governo com vista à criação de uma sociedade anónima de capitais públicos, afim de se concretizar o projecto. Pode-nos desvendar um pouco sobre tão importante investimento?

— Almada tem duas zonas importantes e de grandes potencialidades para o turismo e lazer. A zona ribeirinha que vai desde Cacilhas — Ginjal e Almada Velha até ao Porto Brandão e Trafaria e a zona da Costa Atlântica que desde a Trafaria se desenvolve pelas praias, matas, arribas e a urbe da Costa de Caparica até à Fonte da Telha. Relativamente à área ribeirinha cujo programa está em franco desenvolvimento, o objectivo é potenciar a desenvolvimento sustentável da Cidade de Almada enquanto centralidade metropolitana, revitalizando o relacionamento urbano com o estuário do Tejo, em parceria com agentes do desenvolvimento — entidades públicas e privadas, empresas e instituições — em acções e projectos variados para o património cultural e natural o lazer e o turismo, a animação urbana, a formação profissional e o emprego. Todas estas iniciativas integram-se no denominado projecto “NOVALMADAVELHA” onde a obra avança — as habitações continuam a serem recuperadas e alindadas, estudam-se novas áreas, o elevador panorâmico da Boca do Vento está pronto, o jardim do rio já floresce, a Fonte da Pipa e o Espelho de Água estão prontos, o Jardim Botânico “Chão das Artes” constrói-se a bom ritmo, o Museu do Sítio abre brevemente, a Quinta do Almara foi adquirida pela Câmara Municipal e constituirá um pólo importante de estudo da nossa história mas também de usufruto da população, o ninho de empresas está a ser implementado, o passeio ribeirinho de Cacilhas ao Olho Boi e o caís flutuante para os táxis do rio constituirá um espaço óptimo de fomento de actividades de recreio, lazer e restauração, animação urbana está a ser realizada e será reforçada — o que proporciona a esta zona ribeirinha uma área valorizada e requalificada, renovada e desenvolvida e com o Tejo a chegar ao coração de Almada.

Quanto à Costa Atlântica é já hoje, com as suas praias, matas, arriba fóssil, hotéis, campos de golfe e outros equipamentos, uma importante oferta turística e de lazer. No entanto muito há a fazer nesta zona privilegiada pela natureza e com enormes potencialidades, pelo que o Município e em particular a Câmara Municipal além da abra realizada em que se destaca a Alameda Atlântica e ultimamente o lançamento da Estação de Tratamento de Águas Residuais do Portinho da Casta e da drenagem de águas da Bacia de Vale Cavala permitindo um saneamento de qualidade das praias e da Vila, tem vindo, desde há muitos anos a apresentar propostas e a dialogar com a Administração Central realizando-se mais de sessenta reuniões nos últimos seis anos, tendo em conta que o Estado é proprietário de 60% do território e tem jurisdição em 80%. Foi neste quadro ele preocupações e propostas que em 1998, a Câmara Municipal apresentou ao Governo o “‘Pacto para o Desenvolvimento Turístico de Almada Costa de Caparica” na sequência do qual apareceu a “COSTA GEST”, empresa de capitais públicos, e ultimamente a integração no Programa Polis para a renovação urbana e valorização ambiental da Costa de Caparica, uma parceria entre a Administração Central e as Autarquias Locais que, esperamos, dará frutos no ano 2000.

Há assim excelentes condições para um futuro risonho e harmonioso da Costa de Caparica. Ainda por iniciativa autárquica está em constituição uma Agência de Desenvolvimento Local que tem por objecto contribuir para o desenvolvimento integrado da frente Atlântica do Concelho enquanto área privilegiada para o Turismo, Recreio e Lazer no contexto local regional e nacional, reforçando o papel do eixo Costa de Caparica / Trafaria e a sua centralidade metropolitana especializada, através de iniciativas, acções e projectos que envolvam os agentes públicos e privados, empresariais e sociais, em domínios vários, com particular incidência no património natural e paisagístico, no turismo, no recreio e no lazer, na animação desportiva, recreativa e cultural, na formação profissional, no emprego e na divulgação e marketing.

 

— Portanto a razão de Almada estar muito perto de Lisboa e de ser, por vezes, considerado um dos seus dormitórios, não representa um tampão ao seu desenvolvimento e crescimento social.

— Não. Já é tempo de se acabar com a falsa ideia de Almada ser um centro periférico de Lisboa, um dormitório, e que alguns poucos chegam a dizer não ter vida própria. Aliás, existe um dado concreto, que prova a sua identidade, as suas origens culturais, a sua história. Almada sempre foi, mesmo antes do 25 de Abril, um pólo importantíssimo do ponto de vista cultural e democrático. Almada sempre teve vida própria, nunca foi um apêndice de Lisboa. Agora existe, de facto, uma complementaridade entre ambas as cidades, como em relação ao Seixal.

Atente-se na realidade concelhia. Ao nível desportivo, por exemplo, somos apontados pelos organismos do sector a nível nacional, como uma das capitais do desporto nacional — temos uma rede de infra-estruturas composta por doze pavilhões gimnodesportivos e uma pista de atletismo em tartan, piscinas, entre as quais uma com dimensões olímpicas na Costa de Caparica, do Inatel, campos de ténis e diversas realizações de carácter internacional no surf, andebol, basquetebol, etc.

Temos milhares de praticantes nas variadíssimas modalidades de ginástica e campeões. Estamos a preparar as condições para Almada vir a ter o seu Estádio Municipal, um centro Internacional de Surf e Um Centro de Estágio Desportivo.

A nível da educação e ensino, temos mais de sessenta estabelecimentos de ensino básico e secundário e cerca de doze mil alunos universitários distribuídos pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, pelo Instituto Superior Jean Piaget, pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde e pela Escola Naval. Acresce ainda a UNINOVA — Instituto Específico para a área da investigação e desenvolvimento e em fase de instalação do Maden Parque — Parque da Ciência e Tecnologia onde já se encontram várias empresas e que certamente induzirá um novo tecido empresarial mais dinâmico, empenhado e qualificado.

Culturalmente Almada não passa despercebida. E um centro importante de criação, produção e fruição cultural sobretudo ao nível do teatro, da música e das artes plásticas. Os eventos de nível nacional e ate internacional multiplicam-se. Temos a prestigiada Companhia de Teatro de Almada residente no Concelho e o prestigiado Festival Internacional de Teatro, a que se juntam três grupos profissionais e uma dúzia de grupos amadores. Na música além da grande referência que é o Festival de Música dos Capuchos, florescem quatro bandas filarmónicas, mais de cem “bandas de garagens” e a Escola Regional de Música. Na dança Almada tem já a sua Companhia Profissional. Dispomos de um movimento associativo com grande dinamismo e pujança desportiva e cultural, com várias Colectividades centenárias, no campo cultural se destacam a Imargem, a SCALA, a Associação Manuel da Fonseca. Temos equipamentos culturais de nível superior como o Centro de Arte Contemporânea — Palácio da Cerca, a Galeria Municipal de Arte, a Oficina da Cultura, o Centro Cultural do Solar dos Zagallos, o Teatro Municipal e dentro de pouco mais de um ano o novo Teatro, o Fórum Romeu Coreia e Biblioteca Municipal Central.

A par desta grande dinâmica e provando a vida própria do Concelho os últimos dados estatísticos nacionais referem que trabalham em Almada, 55% da sua população activa.

Em suma o concelho de Almada afirma-se, no contexto das Cidades Portuguesas, empreendedor, pujante, protagonista e solidário.

 

— Como última questão nesta nossa agradável conversa, gostaria que me respondesse: Se lhe fosse posta a questão, em liderar a lista da CDU, nas próximas eleições autárquicas, como candidato à presidência do município de Almada, aceitaria?

‑ Com toda a franqueza, Artur Vaz devo-lhe dizer que uma pessoa deve ter algum cuidado e dizer que “daquela água não beberei, porque de vez em quando há secas e um dia temos que dela beber”. No entanto, no caso concreto de Almada existe uma grande equipe, composta por pessoas que, certamente, com algumas deficiências, porque são seres humanos, tem tido ao longo dos anos uma intervenção de grande brio e dinâmica em prol do desenvolvimento de Almada, liderada por uma pessoa de grande protagonismo, humanidade e amor ao Concelho.

 

— Pensa que não possui protagonismo para liderar a autarquia?

Não é isso. Cada um deve reconhecer as suas aptidões e limitações e eu penso que sou um homem mais virado para os deliberativos, para o debate de ideias e menos para a área do executivo. Eu tenho grandes dificuldades em dizer não e quem está num executivo tem que dizer muitas vezes sim, mas algumas vezes tem que dizer não. Considero-me mais preparado para a procura de consensos, perspectivas estratégicas. Deforma inequívoca lhe digo que não sou candidato à presidência da autarquia municipal executiva.

 

— Podemos então e segundo as suas palavras, considerá-lo um homem certo num lugar certo?

De certa forma sim. No quadro da Assembleia Municipal, penso que tenho desempenhado o mandato de uma forma razoável, dentro das minhas possibilidades e limitações, com deficiências e também com erros, mas sempre procurando intervir e contribuir para o desenvolvimento do Concelho e na qualidade de vida da população. Mas por concepção da cidadania considero que o trabalho individual é importante, mas acima de tudo conta a acção colectiva — a grandiosa volta, o grande salto de progresso operado no Concelho de Almada nestes vinte e cinco anos de Sol de Abril representa um esforço generoso e um empenhamento profundo na causa e no bem público dos eleitos, de todos os eleitos nas Assembleias e Juntas de Freguesias, na Câmara e Assembleia Municipal, mas também de muitos milhares cidadãos. Foram todos, em conjunto que transformaram o Concelho num espaço humanizado, de progresso e desenvolvimento, de liberdade, e onde cada vez dá mais gosto viver.

DEZEMBRO DE 1999

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