MÉRTOLA - NOMES FALAS & LENDAS...
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Algumas recolhas de "rezas"

TABELA DE RECEITAS

Era nossa intenção dedicar esta PÁGINA a Expressões mais vulgarizadas: Saudações, formas de tratamento...MÉRTOLA

 

Outro aspecto importante a desenvolver e que pode ajudar a definir a identidade de uma população pela consagração de fórmulas sedimentadas ao longo dos tempos, mas que, mais ainda do que todas as outras, só poderá ser levada a cabo por quem esteja perfeitamente inserido no meio...

 

Como este aspecto não é realizável à distância, decidimos recorrer a outro aspecto do quotidiano que pode ser estudado em conjunto.

 

COMIDAS DE MÉRTOLA – AROMAS E SABORES, Nádia Torres, Alunos, Professores e Funcionários da Escola C + S de Mértola, Edição da Escola C + S de Mértola, Câmara Municipal de Mértola, 1997.

 

As receitas distribuídas pelas quatro estações é uma decisão notável e ficamos a saber, como sugere Fernão Lopes:

 

«Outra cousa gera ainda esta conformidade e natural inclinação segundo sentença de alguns, dizendo que o pregoeiro da vida que é a fame, recebendo refeição pera o corpo, o sangue e espíritos gerados de tais viandas têm uma tal semelhança antre si que causa esta conformidade.»

 

Afinal, somos, também, aquilo que comemos!

 

E como tão bem diz aquele “saboroso” livro paciente e “amorosamente” feito por tanta gente, “COMER”, em português (e também em castelhano e galego), ao contrário do que acontece nas outras línguas, vem de “cum” + “edere”. Ora “edere” já significa “comer” só por si e assim, para as gentes da Península Ibérica, comer era já um acto social – “comer com... alguém”... e como se afirma no mesmo livro, «Fazer este livro sobre a gastronomia do quotidiano mertolense foi também... um acto de generosidade, de partilha e de convívio.», e portanto, além do social e do convívio, implica “partilha”, talvez solidariedade, amizade, fraternidade... e a distribuição das receitas pelas estações do ano, revela, para além da culinária, a vida das pessoas com a sua ligação à Terra, a sua inserção com os “envolventes” – o que a terra produz..., o que a terra dá..., a sabedoria secular de saber colher, “caçar”, “pescar”, “apanhar”, conservar os vários tipos de alimentos e condimentos... e “ao ritmo das estações”..., revelando a maneira de ser de uma região e denunciando até, como observam os anexos finais, do médico e do arqueólogo, o “estatuto social” de quem come o quê... e da “sabedoria” das donas de casa que sabiam substituir por exemplo o arroz com feijão, quando não havia carne ou peixe e assim mantinham a família bem alimentada, recorrendo também à migas e açordas para que não dissessem: “saco vazio não se pode erguer... saco cheio não se pode dobrar...”; para não falarmos já da comida que é o centro das festas que marcam a vida social das famílias – os baptizados, casamentos e até a morte... e onde a “fala”, os “cumprimentos”, a diversão, os “discursos” e até os “tratos” e “negócios” se firmavam à mesa, por vezes bem “comida” e bem regada...

 

Como pistas de trabalho fica-nos uma vontade de fazer um levantamento completo dos nomes dos ingredientes, temperos e “rituais”, mas deixamos isso para alguém mais habilitado como os que realizaram este “saboroso” livro de “aromas e sabores” ou como diz outra obra de “sabores e saberes”.

 

Algumas recolhas como exemplo:

 

Oração, quando se deixa a massa do pão a fintar:

Deus te acrescente no alguidar

Como Deus Nosso Senhor está no altar”...

 

Importante é saber também como algumas padeiras conheciam “o som de pão” para reconhecer que a massa estava “lêveda” ou não!

 

E depois de meter todo o pão no forno:

Deus te acrescente,

que é para muita gente

 

E no ritual, final, depois de pedir aos homens para saírem: «Faz-se um benzido com o sinal da cruz. Uma mulher vira-se de costas para o forno, levanta as saias e diz:

«Cresças tu, pão

Como as saias afastadas do cu estão».

 

A matança do porco é outro ritual até com vários significados no decorrer do tempo... desde o tempo dos arábes em que para eles seria proibido, até ao tempo dos cristãos novos em que seria obrigatório como mostra pública de conversão convicta, até ao tempo em que significava casa farta ou em que não haveria fome durante todo o ano e “entre-ajuda” entre várias famílias e a sabedoria do tempo próprio, as luas... e das preparações a fazer... saber se as porca “ressaem” (estão com o cio) e se é preciso capa-las... a distribuição das tarefas entre os homens e as mulheres, “aos homens cabe matar, musgar e desmanchar...” e “do porco tudo se aproveita menos as castanholas (unhas)” que até podem servir de amuletos.

O fel serve para curar as chagas das patas dos animais”...

A passarinha (baço) junta-se à cachola para engrossar o molho

Os lombinhos eram para o padre”.

 

Dos muitos termos usados podemos ainda tentar um pequeno levantamento.

 

As acelgas – (Beta vulgaris L. Ssp. Maritima l.)

Tingarrinhas – (Scolymus Maculatus L.)

Túberas – (Terfezia leonis tul.) Fungo subterrâneo, carnudo aromático e comestível que se colhe de Janeiro a Março, segundo as condições climatéricas. Podem encontrar-se junto das raízes das estevas ou dos sargaços, com as quais vivem em relação de simbiose ou parasitismo.

Na caldeirada de peixe encontramos a lista dos peixes do rio:

Lampreia – Sável – Enguia – Muge – Safio – Picão – Carpas...

Até as rãs... cobras... lagarto... cágado... ouriços servem ou serviam para petiscos, além das cabeças de carneiro...

Para os caçadores os passarinhos fritos metem: POMBO – TORDO – MELRO TARAMBOLA...

 

E o doce da primavera é o NÓGADO!

No Verão. O GASPACHO – SOPAS DE TOMATE – TOMATADA – SOPA DE BELDROEGAS...

 

Encontramos ainda no final, (Santiago Macías)

O CHÍCHARO – “... vegetal.... que se consumiria cozido... e na região até há uma dezena de anos.

 

E tudo isto envolvido numa deliciosa história ... do rei que tinha três filhas... e a mais nova, afinal a que gostava mais disse: «Eu gosto tanto do meu pai como a comida gosta do sal...» ... como o célebre bispo de Viseu dizia da religião «Nem de mais, nem de menos... mas como o sal na comida.» Como nós dizemos das palavras e conversas: Nem de mais, nem de menos... para um bom convívio e comunicação sã entre as pessoas!

  

Tabela das RECEITAS

distribuídas ao longo do tempo, de acordo com o ciclo das estações, com pistas para um passado distante e para o futuro dos “congelados” e “fast-food”

 

O PÃO alentejano – igual diferente de todos os outros...

 

INVERNO

PRIMAVERA

PRIMAVERA / VERÃO

VERÃO

OUTONO

PETISCOS de CAÇADORES

Matança do porco

Ensopado de borrego

Sopa de peixe

Gaspacho

Javali assado

Perdiz

Moleja

Borrego à pastora

Caldeirada de peixe do rio[1]

Sopas de tomate

Javali estufado

Ovos de perdiz com ceseirão[2]

Fritada de Entrecosto

Cabeças de carneiro assadas no forno

Caldeirada `moda de Mértola

Tomatada

Coelho bravo à alentejana

Passarinhos[3] fritos *3

Costas de Torresmos

Cabrito assado no forno

Caracóis * 2

Sopa de beldroegas[4]

Sopa de lebre

Coelho frito

Sopa de pão com poejos

Favas com chouriço

Eirós

Lebre com feijão branco

 

Cozido de couve

Ervilhas com chouriços e ovos

Pezinhos de rã *2

Ensopado de enguias

Lebre à caçador

 

Enchidos

Folares de Páscoa

Cobra frita

Galinha de cabidela

Arroz de tardos

 

Linguiça

 

Lagarto

Empada de frango fricassé

Perdiz estufada

 

Tripas

 

Cágado

 

Perdiz nos pimentos

 

Recheio

 

Ouriço

 

 

 

Pimentão caseiro

 

Ouriço frito *2

 

 

 

Chouriço preto

 

 

 

 

 

Cozido de grão com massa

 

 

 

 

 

Cozido de feijão

 

 

 

 

 

Feijão com ovos

 

 

 

 

 

Feijão com acelgas[5]

 

 

 

 

 

Jantar de azeite[6]

 

 

 

 

 

Feijão branco com tingarrinhas[7]

 

 

 

 

 

Migas de carne

 

 

 

 

 

Migas de bacalhau

 

 

 

 

 

Bacalhau à alentejana

 

 

 

 

 

Carne de porco à alentejana

 

 

 

 

 

Arroz de túberas[8]

 

 

 

 

 

Túberas

 

 

 

 

 

Sopas de túberas

 

 

 

 

 

Túberas com ovos

 

 

 

 

 

Espargos com ovos[9]

 

 

 

 

 

Salada

 

 

 

 

 

Orelha de porco

 

 

 

 

 

Lampreia

 

 

 

 

 

DOCES

DOCES

DOCES

 

 

 

Pastéis de grão

Costas doces

Nógado[10]

 

 

 

Filhós *2

Bolo podre

 

 

 

 

Filhós de entrudo

Pudim de mel

Papas de Arroz

 

 

 

Pudim de queijo fresco

Torta Alentejana

Papas de milho

 

 

 

Pudim de requeijão

 

 

 

 

 

 



[1] Lampreia – Sável – Enguia – Muge – Safio – Picão - Carpas

[2] Ceseirão – é uma ervilhaca que pertence à família das leguminosas. Semeia-se com o pasto, aparecendo espontaneamente no meio das searas.

[3] Pássaros – Pombo – Tordo – Melro – Tarambola.

[4] Beldroega – Erva hortense da famíliadas portulacáceas, de valoe medicinal, usada também na alimentação, geralmente em saladas.

[5] Acelga – Beta vulgaris L., ssp. Maritima l. – Planta de folha larga semelhante à beterraba, mas de raiz mais delgada utilizada na alimentação. (in DLPC – Verbo – 2001.

[6] Azeite – ver tb. DARO – “... espécie de arbusto, a que os moradores chamam daro, que produz por fruto humas bagas de que fazem azeite, que serve para as candeias, e dá uma luz muito clara, e não falta quem use também delle para o prato.” In «As Memórias Paroquiais de 1758» ver Bibliografia

[7] Tingarrinha – Scolimus Maculatus L. – Espécie de cardo branco rasteiro.

[8] Túberas – Terfenia leonis Tul. –  Fungo subterrâneo, carnudo aromático e comestível que se colhe de Janeiro a Março, segundo as condições climatéricas. Podem encontrar-se junto das raízes das estevas ou dos sargaços, com as quais vivem em relação de simbiose ou parasitismo.

[9] Espargos – Aspargus acutifolios L. – Planta da família das liliáceas, subespontânea e cultivada em Portugal, donde nascem talos carnudos, turiões, cujas pontas são comestíveis.

[10] NÓGADO – ver NOGADO – (DLPC) – Doce feito essencialmente com nozes, amêndoas ou pinhões misturados com açúcar e mel.

 

 

 

 

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