MÉRTOLA - NOMES FALAS & LENDAS...
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2.
as LENDAS
a MITOLOGIA
& os Contos...

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o CANTO do Riso AlentejANEDOTAS
& outras falas...

4
a POESIA:
Quadras- Cantigas DÉCIMAS RIMANCES...

5
o CANTE
Gr. Corais
& Modas

SERPÍNEA UMA LENDA que fala das origens de SERPA

ligada às origens de MÉRTOLA

1. SERPÍNEA e a FUNDAÇÃO de SERPA - por C. Gonçalves Serpa

2. SERPÍNEA - por João Cabral

3. SERPÍNEA - por Maria Rita Ortigão Pinto Cortez

4. A TESOURINHA DA MOURA - por Fernanda Frazão

 

SERPÍNIA E A FUNDAÇÃO DE SERPA
POR C. Gonçalves Serpa


Texto digitalizado da fotocópia de uma Brochura de 32 páginas in Biblioteca Municipal de Beja

A Expedição

- Além... Além... - exclamou uma graciosa voz de mulher de olhos castanhos, cabelos louros e faces rosadas como pétalas da mais esquisita flor.
- Além... Além, naquela zona verde e de reconfortante frescura, enquanto com o braço delicado apontava um morro de mediana altitude a emergir de entre árvores frondosas dum verde cínzeo e rochedos plúmbeos.
- Alto!... Ficamos aqui... gritou uma voz potente de homem que parecia ser o chefe da expedição.
- Serpínia agradou-se do lugar, a terra parece fértil em água e fecunda em produtividade.
- Alto!... Ficamos aqui... clamaram outras vozes secundando a do chefe. A caravana parou envolvida numa densa nuvem de poeira levantada pelo trotear dos cavalos. Todos levantaram os olhos cansados da caminhada e notaram que, de facto, a região agradava e estava bem localizada quer para o povoamento, quer para a defesa.
- Ficamos então aqui.
Os cavalos parados relinchavam, escavavam a terra vermelha com as patas grossas enquanto alguns, de cabeça baixa, tasquinhavam nos pequenos arbustos nascidos à beira do caminho.
O cavaleiro que dera a primeira ordem, corpo agigantado, barba espessa e hirsuta, músculos de atleta, tornou a imperar:
- Cargas ao chão, comecemos o acampamento antes que anoiteça. Num zape, todos se apearam com ligeireza homens, mulheres e crianças.
O chefe, nada menos que o general Cófilas, rei dos Túrdelos, explicou:
- Serpínia, minha dilecta filha e vossa muito linda e amada princesa achou lindo este local e muito apropriado para a construção da nova capital túrdela. A terra tem muita água, basta vegetação, matagais densos e um clima aprazível, um céu azul como não vimos outro na Ibéria. Ficaremos, pois aqui e amanhã iniciaremos já a construção da nova cidade a qual, em honra de Serpínia, que escolhera o local, será chamada Serpe (Serpa).
- Viva Serpínia!...Viva Serpe a nova capital da Turdetânia - exclamou um coro de vozes.
E o eco repetia-se pelas quebradas dos montes até diluir-se e perder-se ao longe através duma planície que
parecia intérmina: - Serpínia... ínia... ínia! Serpe... erpe... erpe!...

Ia entardecendo mais e mais. O sol fazia descer uma bola de fogo na linha clara do horizonte, ameaçando mergulhá-la, para além dos montes fronteiros, nas águas do Atlântico. O calor sufocante daquele dia de Junho havia passado e uma brisa acariciadora e refrigerante soprava agora das bandas do mar.
-Já, assentar o acampamento. Desapetrecham-se os cavalos e os carros de transporte; deitam-se ao chão as cargas; desenrolam-se os panos; abrem-se covas; arrumam-se pedras; arranca-se mato; espetam-se estacas; batem martelos; esticam-se as cordas; estendem-se os panos e surgem as barracas. Está armado o acampamento.
A tarde esmorece.
Na linha do horizonte, por cima do solo, a poente, algumas nuvens riscam o céu em tom afogueado. É o primeiro pôr do sol que os olhos lindos de Serpínia contemplam nestas paragens ocidentais.
Alma bela sensível ao bucolismo da natureza, à poesia paisagística deseja então desfrutar melhor o panorama ambiencial. Para isso, acompanhada duma aia, a fiel Galiosa, sobe acima dos rochedos que, na coroa do monte, emergem do solo, como cabeças monstruosas de gigantes descomunais.
- Que lindo!... murmura.
Que poesia bucólica e austera!...
- Isto é superior ao vale do Guadalquivir, interveio Galiosa.

- Muito superior!...
E contempla.
A região não muito acidentada estende-se, desdobra-se em cabeços sucessivos que se empurram uns aos outros sempre mais para além, num desafio titânico a ver quem primeiro chega ao mar. Em baixo a depressão do rio Ana que vai correndo... correndo, pleno de ilhotas verdes pelo meio, rodeado de margens rochosas, ásperas, agressivas na sua secular solidão. Até ao presente aquela terra era virgem de presença humana. Só caça, muita caça por ali existe. Os coelhos são em bando. Dali mesmo os vêem entrar e sair dos buracos, saltitar na pradaria verde pálida que se nota através dos matagais densos. Depois mais a distância habita o lobo, o veado, o javali, o gamo e a raposa. As aves são em chusma e cobrem a ramagem coposa das árvores. Umas saltitam de ramo em ramo mostrando sua plumagem multicor, outras mais corpulentas cortam o espaço em voo sereno ou em caprichosas evoluções circulares. As matas tem grande variedade de tonalidades de verde no seu arvoredo. Aqui o verde triste, bronzeado dos montados; ali a cor cinzo-prateada das oliveiras, a árvore predilecta de Eliote deus dos Túrdelos, o
qual teria nascido no meio dum olival, quando sua mãe a deusa Eliaste estava a veranear num acampamento bélico. Mais para além, árvores de porte alto e esbelto mostram um verde álacre, exuberante, às vezes tirando um tanto para amarelo: são os álamos, os freixos, as faias e a amendoeira muito abundante na região. Depois é ainda o verde terroso do mato denso onde predomina a esteva viscosa, o sargaço de cheiro acre, a rosela de flor carmezim, o piorno amargo, a medronheira carregada de rubis, o lentisco resistente, o tojo espinhoso. A flora, alta ou meã, é colorida e variada na sua austeridade regional. O solo atapetado dum verde pálido, que dá ao panorama um tom axadrezado, mostra muitas flores e gramíneas de feitura e colorido diferente. O azul do céu, sobretudo o azul safírico deste céu é o que mais impressiona Serpínia. Nunca vira um céu tão anilado. Não cessa de o
contemplar.
A noite vai caindo. O sol escondera-se por detrás dos cabeços esfumados e as sombras começaram a adensar-se.
Levanta-se uma brisa mais álgida que harpeja e assobia nas tranças do arvoredo. A celeste abóbada criva-se de olhos luminosos a piscar na escuridão como a saudar os novos habitantes que naquela noite encontraram nas margens agrestes do Ana .
Serpínia e sua aia recolheram-se ao acampamento. Espesso manto de trevas cobre a terra a qual parece
sorrir por ver terminada sua eterna solidão.

Fundação de Serpa

Os Túrdelos eram um povo que vinha dos Pirenéus e tomara rumo ao ocidente através das planícies do sul entre o planalto castelhano e o Mediterrâneo. Primeiro estabeleceram-se entre a bacia do Ebro e do Guadalquivir, não tendo ainda propriamente uma fixidez determinada. O aglomerado que lhe servira de primeira capital chamava-se Eliana, dedicada a Eliote o grande deus dos Túrdelos. Ao presente o seu chefe era Cófilas a quem davam a dignidade de rei. Era um guerreiro esforçado, astuto, duro sem deixar de ser bom, compreensivo e justo para com todos.
Ao norte da Península dominavam os Celtas comandados por Rolarte, homem fera, esforçado mas despótico, cruel e vingativo. A princípio Túrdelos e Celtas deram-se bem. Faziam intercâmbio e mercadejavam. Um dia Rolarte viu Serpínia em uma caçada e ficou esmagadoramente apaixonado pela princesa túrdela. Nunca tinha visto beleza assim. Aqueles olhos castanhos duma viveza rutilante magnetizavam-no tiranicamente. Julgava-se o homem mais feliz da Terra se chegasse a possui-la. Aquela paixão tornou-se fogueira crepitante. Por outro lado sonhava ambiciosamente com a unificação da Ibéria pela amálgama de Celtas e Túrdelos através do seu casamento. Cófilas chegou a ter conhecimento dos projectos imperialistas do chefe Celta e preferiria que a filha não casasse com ele. No entanto deixava-lhe inteira liberdade para evitar males maiores.
Serpínia abominava Rolarte já por ser fisicamente antipático, já por ser um carácter péssimo, violento e déspota.
E dizia para si:
- Poderá haver maior martírio para uma mulher do que casar e viver a vida inteira com um homem de que não
e gosta!... Antes perder mil tronos. E ruminava:
- Não, não casarei com ele. Em virtude de certo tacto diplomático mandou-o esperar mais tempo, quando ele lhe fez propostas, alegando a sua pouca idade.
Rolarte, embora contrariado, resolveu esperar.
Galiosa ao saber dos intentos de Rolarte e da repugnância de Serpínia por ele, advertiu:
- Senhora: vê o que recusas... Rolarte é rico, é poderoso, é rei...
- Fosse ele um deus, retorquiu a princesa em tom de censura.
- Senhora, tereis um grande trono, riquezas e jóias e jóias incontáveis!...
- Cala-te, cala-te: o amor não tem preço. Onde não há amor, nada pode dar a felicidade.
- Lá isso é, mas...
- Esse mas... seria uma traição ao amor.
- E se vier a guerra?
- Prefiro a guerra a um amor iludido.

Por aqueles dias Cófilas recebeu a visita de Orosiano, príncipe duma tribo de guerreiros que viviam no sul das Gálias, entre os Pirenéus. Este sim, que era o predilecto de se Serpínia. Cófilas tratou com ele o casamento de sua filha e firmaram uma aliança contra posáveis represálias de Rolarte.
Este soube do sucedido e, ardendo em cólera, jurou vingar-se duramente.
Serpínia seria dele viva ou morta ainda que a tivesse ia de ir raptar à mansão dos deuses.
Depois, caindo de improviso sobre as terras de Orosiano desprevenido foi atacar Periânia sua pequena capital construída na garganta de duas altas montanhas. Travou-se dura batalha em que o noivo de Serpínia - Orosiano - perdera a vida.

Rolarte, também gravemente ferido, regressou a suas terras disposto a prosseguir a luta contra os Túrdelos logo que lhe fosse possível. Alguns contingentes de pirenaicos vieram pôr-se às ordens de Cófilas e informá-lo de tudo quanto se passava. Este então tomou rumo às terras de Oeste mais longe das fronteiras célticas e em lugares e situações mais propícias a boas defesas. Sabendo depois que os barcos fenícios navegavam pelo Mediterrâneo e buscavam o "finis terrae" na costa atlântica esperava a oportunidade de lhes pedir auxílio por meio duma aliança.
Foi neste remar para ocidente que chegaram à "Planície Fresca" onde deviam fundar Serpe.
Ai ficaria o maior reduto da defesa turdetania.

No dia seguinte ao despontar do sol, Cófilas chamou Serpínia e seus mais próximos subalternos para lhes narrar um sonho misterioso havido naquela noite. Vira, disse, naquele mesmo sítio levantar-se do solo, por mão invisível,
um grande templo em cujo altar estava a estátua do seu deus Eliote. Este tinha na mão direita um sol nascente e na outra uma flor de loendreira. E apontando ambas para Serpínia dizia-lhe: - neste local, está a tua felicidade. Em seguida acrescentou: "Depois da batalha a vitória; ocidente e oriente buscam-se".

- Eis o sonho, concluiu.
Portanto, embora envolvido em sombra de mistério Eliote mostra, por este aviso, que este lugar lhe agrada e aqui devemos ficar. Mãos à obra e vamos levantar os muros de Serpe.

- Serpe... Serpe... Serpe... gritaram todos. Serpínia propôs. Comecemos por lançar a primeira pedra do templo dedicado a Eliote, ali no topo do morro rochoso. Depois iremos à "Pedra Longa", lugar onde começamos a avistar este sítio e ai faremos o primeiro altar, oferecendo ao nosso deus um sacrifício de acção de graças ( ).

Principiaram a emergir do solo vermelho os muros de Serpe. Mais uma cidade nascia para a história. Haviam de rolar séculos sobre séculos, sucederem-se as gerações umas às outras e até cavalgadas de povos conquistadores haviam de calcar duramente este solo.
Porém, Serpe, uma vez nascida havia de continuar. Nascera para viver. Seus muros fortes, feitos de granito e calcário em que a região é abundante haviam de resistir com fúria leonina às vicissitudes dos tempos e aos ataques de futuros inimigos. Sobre ela paira um carácter sagrado visto ter nascido à sombra dum templo. Bárbaros, Romanos, Árabes e Cristãos Visigóticos, mais tarde Lusitanos haviam de continuar a venerá-la conservando-lhe intacto o nome que recebera desde a primeira hora, caso único nas povoações da antiguidade que passaram para o domínio português. Serpe é uma linha de intercepção e cruzamento da Turdetânia com a Lusitânia, e mais tarde da Bética onde o carácter da sua população constitui curiosa excepção na Lusitanidade.

Agora Gês: - Pax Júlia à vista - Beja actual

Cófilas não se esquece de que Rolarte era seu figadal inimigo. Não perdoaria a Serpínia tê-lo preterido e nunca veria com bons olhos a grandeza da Turdetânia. Por isso, enquanto os muros de Serpe vão subindo à claridade doirada do céu transtagano ele dá-se à tarefa de tomar todas as terras até ao mar, e construir novos castros.
Atravessou o Ana e explorou toda a planura da margem direita. Ao atingir o vértice do alti-plano reparou que a terra era ubérrima e a situação privilegiada para nova construção defensiva.
Cófilas impera:
- Aqui mais uma fortaleza... aqui... e afincou a lança no ponto mais elevado do planalto. Aqui será Gês - cidade vigia, sentinela da planície. E logo, do solo vermelho, principiam a subir os muros de Gês, a quem os Romanos chamariam mais tarde: Pax Júlia, os Árabes: Paca, os Portugueses: - Beja.

Uma aliança com os Fenícios - nasce Mírtilis

Cófilas domina já toda a vasta região da bacia do Ana e daqui até ao Atlântico. Gês e Serpe são os dois pontos concêntricos de maior população e os dois mais fortes baluartes de defesa. Ele sabia, porém, que Rolarte, seu inimigo figadal rondava, como abutre de garras aduncas, suas fronteiras e não perdoaria a Serpínia tê-lo preterido no amor. Mais tarde ou mais cedo ele voltaria à carga, viria incomodá-lo de novo e por isso havia que prevenir tudo. Começara, pois, a construir novos aldeamentos, novos castros, pontos de defesa e muitas vias de comunicação. A terra era muito plana mas de difíceis possibilidades de comunicação. No Verão, muito pó; no Inverno, caminhos lamacentos em que o barro atolava e pegava tudo por causa da sua constituição argilosa.
Neste entrementes Cófilas soube que umas naus fenícias vindas do Mediterrâneo haviam entrado a foz do Ana até onde a maré dava acesso e pretendiam fundar uma feitoria comercial.
Ledo e confiante foi-lhes ao encontro. Estudaram o sítio e acordaram em que seria construída nova cidade fortificada no cimo de alto e escarpado morro a cair abrupto sobre ao margens do Ana e na confluência do rio Rochoso com estes. A região é áspera, escalvada, cálida e pronta a boa defesa. A povoação ficaria dependurada de escarpas quase abruptas e de difícil acesso ao inimigo.
Como foram os Fenícios que quiseram construir a povoação deram-lhe o nome de Mírtilis (Mértola) por ser dedicada à sua principal divindade - Mirto.
Nessas primeiras naus vinha o príncipe fenício Polípio, espírito navegador e sedento de aventuras, homem do mar e esforçado guerreiro.
E se este se apaixonasse por sua filha Serpínia e assim acordassem numa aliança de mútuo auxílio e defesa? Pensava Cófilas.
Nesta esperança convidou-o a visitar Serpe.
Não se enganara.
Quando Polípio viu Serpínia, disse, surpreendido, para Cófilas:
- Aquilo é mulher ou deusa?
- Se a quiseres, pode ser para ti!... - foi a resposta.
O príncipe aceitou a proposta. Estava diante duma beldade como outra não tinha encontrado nas terras misteriosas do sol nascente. Aqueles olhos castanhos e vivos eram ímans que atraíam; aqueles cabelos loiros eram cadeias que prendiam.
Serpínia afinava pelo mesmo diapasão. Polípio agradou-lhe à primeira vista e viu nele um príncipe encantado das terras orientais. Foi chamado ao palácio o sacerdote de Eliote para assistir ao contrato dos esponsais. Este então recordou a Cófilas:
- Lembras-te do sonho que tiveste a primeira noite que dormiste nesta terra que o destino nos reservou? Aqui tens a sua confirmação. O ocidente e o oriente juntaram-se sob as bênçãos de Eliote.

Cófilas e Polípio firmaram um tratado de amizade e mútua defesa. Além do casamento com Serpínia estipulou-se que os fenícios estabelecessem uma feitoria comercial em Mírtilis.
Nesse porto ficariam sempre equipados com homens e material dois navios fenícios que ao mesmo tempo patrulhariam o litoral da Turdetânia, pelo menos enquanto o perigo não passasse. Em caso de guerra com qualquer adversário cada um dos contratantes prestaria mútuo auxilio.
Outrosim era estabelecida em Mírtilis uma escola naval onde os túrdelos aprenderiam dos fenícios a arte de navegar, e de se familiarizarem com as ondas. Assim, à face de tal acordo ficavam inteiramente frustrados os intentos imperialistas do chefe celta Rolarte, e a linda Serpínia ficava liberta do seu mais terrível pesadelo.

O castelo das loendreiras

Polípio voltou para o oriente com a promessa de tornar breve, pois já não podia viver muito tempo sem a presença de Serpínia e a luz do seu fascinante olhar. O seu centro de gravidade estava agora na Turdetânia. Quem lhe diria que tinha vindo encontrar no "finis terrae" uma sereia mais sedutora de quantas infestam os altos mares!...
Polípio partiu dividido em dois: no navio iria o seu corpo apenas; sua alma e o seu coração amante ficariam em Serpe.
O mar que separa continentes, divide terras, afasta reinos, não é capaz de separar o amor; a distância, que tudo faz esquecer, torna o amor mais próximo e mais vivo. Parece que a saudade foi inventada por Serpínia quando, ao despedir-se de Polípio, lhe ofereceu uma prenda constando de dois corações de oiro entrelaçados por um S que tanto podia significar Serpínia, como solidão de onde vem a palavra: saudade.
Na ausência do príncipe, todos os dias, quando o sol despontava de manhã na orla do horizonte, Serpínia subia a uma torre da fortaleza e dialogava com ele pedindo-lhe novas do seu amado. E à tarde, quando o mesmo se escondia por detrás das montanhas, na direcção do mar, ela enviava-lhe uns beijos, recordando:
- Não te esqueças de os entregares ao Polípio quando amanhã passares pela Fenícia.
De igual modo, sempre que o vento soprava das bandas do Levante, Serpínia punha-se à escuta parecendo-lhe ouvir. nas asas da brisa, a voz doce e maviosa do seu príncipe.

*

Serpínia tinha uma grande formação e cultura para o seu tempo. Já tinha viajado pelas Gálias e havia estado em Roma. Tinha uma alma extremamente sensível à beleza. Amava a arte, a poesia, a natureza. Cuidava de flores e dialogava com elas. Parecia compreenderem-se maravilhosamente. Um de seus desportos preferidos era a caça. Sabia manejar o arco e a flecha como o mais hábil caçador de feras. Também no seu tempo já se usava a espada com que ela sabia igualmente lidar.

O pai, conhecendo-lhe estas boas qualidades, alimentava-lhas, promovendo de quando em quando uma caçada nas terras da Serra.
Vendo que a filha adorava a vida campestre e pretendia sair sempre da cidade nas estações calmosas, mandou-lhe construir um palácio acastelado no campo, na região da serra onde o terreno, apesar de agreste tinha um clima agradável e onde a caça abundava. A construção fizera-se à borda do rio Limosino, afluente do Ana e o público bem depressa a baptizara com o nome de "Castelo das Loendreiras" em virtude dos muitos arbustos desta espécie que ali abundavam. O palácio era rodeado de altos e fortes torreões que lhe serviam igualmente de defesa além duma forte cintura de muralha que o rodeava. Grandes portões de ferro davam acesso ao palácio e ao jardim. Tinha uma vista panorâmica maravilhosa. De seus torreões ameiados avistava-se grande extensão de planície e de serra para todos os pontos cardeais, divisando-se toda a depressão da bacia do no Ana, de Serpe até Mírtilis.
As águas do Limosino eram represas por um açude e alimentavam o castelo e o jardim. No jardim, amplo e bem cuidado, sentia-se bem visivelmente a mão e o bom gosto da princesa. Este tinha grandes alamedas e ruas curvilíneas rodeadas de muitas e variadas espécies arbóreas. Ai se via o álamo, a faia, o loureiro, o cedro, a palmeira e a oliveira, 'árvore sagrada de Eliote. As flores abundavam por toda a parte onde grandes trepadeiras se enleavam umas nas outras e às grandes árvores dando ao conjunto uma visão de sonho.
Para além dos muros do jardim desdobrava-se a serra em montículos sucessivos formando na paisagem, áspera e solene, gracioso desenho, como se fossem gigantes entretidos em jogo de xadrez.

O mato abundava salientando-se a esteva viscosa e o rosmaninho penitente, cujo perfume acre embalsamava o espaço. As noites de luar revestiam-se de graciosa majestade e nostálgica poesia quando a chuva de prata incidia sobre as campinas em silêncio. As estrelas brilhavam sempre com meigas cintilações. De dia o céu encantava com o seu azul turquesino, puro e translúcido, onde quase se não distinguia um leve esfumado de neblina.

Serpínia, além das flores, do céu azul, das estrelas e da caça amava também os passarinhos. Possuía gaiolas com
várias espécies. As filomelas , pareciam conhecer-lhe este fraco pois vinham com frequência entre as trepadeiras que
estavam junto à sua janela trinar seus concertos orfeónicos.

Certa vez uma andorinha lembrou-se de fazer o ninho no pátio do castelo, sob um beiral que muito lhe agrada. Serpínia achava graça e risonha poesia à maneira engenhosa como as industriosas andorinhas construíam suas curiosas habitações. Primeiro água no bico e borrifavam o lugar onde pretendiam fazer o ninho. Depois eram pedacinhos de barro atrás uns dos outros: - põe aqui, põe ali, deita acolá, ajeita agora, ajeita logo e dentro de pouco tempo estava um autêntico palácio aviário. Depois era a prole. Que lições de paternidade, que lições de amor para os homens!...
Em dada altura, quando as novas andorinhas estavam já crescidas, Serpínia mandou apanhar uma e atou-lhe ao pescoço uma placazinha de madeira muito fina, quase transparente, com estes dizeres: - "Serpínia envia recados a Polípio".

Enquanto esteve no ninho as irmazinhas desta entre- tinham-se a debicar na placa. Chegou a altura de levantar voo. E a privilegiada da mensagem por ali volitou algum tempo com o seu adorno a que a princesa achava imensa
o graça. Depois veio a emigração. Diz-se que no ano seguinte os passaritos voltaram ao mesmo local e lá vinha a mensageira trazendo ainda a mesma placa. Teria volitado pelas terras do oriente? Ter-se-ia desempenhado do seu recado? Se outra lição não tivesse ficado deste episódio bastava a sua poesia, a sua delicadeza amorosa, o sabor de bucolismo que ele contém para o tornar simpático.

*

Já dissemos algures que Serpínia tinha deliciosa predilecção pela caça.
De quando em vez convidava cortesãos e altas dama. para uma batida aos lobos e javalis. A's vezes as empresas venatórias tornavam-se perigosas, quando os arcos e as flechas não andavam por mãos hábeis.

Em dada ocasião um caçador feriu corpulento javali que não conseguira abater. O animal, furioso como um leão, desbocou enraivecido e atira-se a tudo que encontrava. Dava saltos, afiava as cortantes presas e até estripou dois cavalos e muitos cães. Entre os caçadores estabeleceu-se pânico. Havia já senhoras desmaiadas e cavalheiros empoleirados em cima das árvores. Serpínia apercebeu-se do que havia e resolveu enfrentar o perigo.
O javali tomou rumo ao seu grupo. A princesa correu para cima dum rochedo, onde não era fácil ser atingida pelo animal. Este, cada vez mais furioso, empoleira-se ao rochedo a tentar trepar. Foi nesta conjuntura que Serpínia, com admirável sangue frio, desfechou com êxito feliz, duas setas que atingiram o javali na cabeça, entre os olhos, dando-lhe morte rápida.

Foi uma sensação de alívio para os caçadores e um autêntico triunfo para a princesa, a qual foi muito aclamada
pela sua admirável proeza que, durante muito tempo, andou de boca em boca.
O corpulento javali foi oferecido em holocausto a Eliote em acção de graças, ficando a cabeça embalsamada numa das salas do castelo.
Cófilas, quando soube da proeza venatória da filha mandou-lhe os parabéns, com esta missiva laudatória:
- "Nada tens que invejares a Diana. O teu arco tornou-se terrivelmente fulminante!".

Sonho de amor

O amor é o mais doce e o mais tirano dos verdugos. Tanto beija como fere; tanto louva, como vitupera; tanto enobrece, como mata.
As maiores criações do mundo e as mais aviltantes tragédias do Homem costumam ter por base e inspiração o amor. É o amor que funda nações e destrói impérios; faz os santos e até gera os criminosos e facínoras. É que o amor tem várias facetas e opera em diversas direcções. Pode vir do céu ou desentranhar-se do meio da lama; pode ser perfume balsâmico ou hálito pestífero; pode presidir a uma ressurreição ou gerar uma carnificina; pode ser mar de virtudes ou então furacão impetuoso de paixões.
Tudo depende da qualidade do amor: se do céu, se da terra; se dom de Deus; se produto do mundo inferior do homem.
Sim... o amor é um anjo de asas brancas que acaricia... .e pode ser demónio que flagela em antros escuros.
Serpínia sentiu este martírio do amor.

*

Era uma tarde emoliente de primavera. O céu, por entre nesgas de nuvens esbranquiçadas, parecia mais azul do que vez nenhuma. No espaço corriam manchas de algodão impelidas pelo vento tépido da tarde. No jardim, intensamente florido, volitavam doidamente borboletas multicores, enquanto abelhas industriosas iam de pétala em pétala sugando o saboroso néctar.
O cheiro acre da esteva florida e do penitente rosmaninho chegava até ao castelo das Loendreiras. À beira do Limosino alinhavam-se, frondosas e cheias de majestade, renques de árvores esbracejando generosamente ao vento da tarde. A cabeleira basta dos chorões ondulava ao capricho da brisa enquanto o ciciar das faias formavam sibilante cadência de dança orfeónica.

Além, entre silvedos e madressilvas cheirosas, uma filomela repenicava seus trinados aliciantes. Era uma tarde de poesia repassada de lirismo caldeado com suspiros de cupido.
Toda a natureza parecia orquestra suave e harmoniosa a entoar laudes ao Amor invisível.

Serpínia sentiu-se transportada às plagas do Oriente. A silhueta doce, risonha de Polípio desenhava-se vivamente
na tela da sua imaginação viva e escaldante, fazendo pulsar-lhe o coração em ritmos mais acelerados.
O sol da meia tarde, coado por algumas nuvens de arminho, havia diminuído suas ardências. A princesa loira sentia necessidade de expandir, com a natureza, seus colóquios de amor.
Chama, por isso, Galiosa, a aia fiel de todas as horas, para uma deambulação pelos jardins.
Depois de alguns passos ao acaso foram ambas sentar-se num banco de pedra sito debaixo de frondosa palmeira rodeada de cedros odoríferos. Pelas abas destes trepavam grinaldas de roseiras dos canteiros próximos. Mesmo em frente, para além dum pequeno parapeito de pedra tosca, deslizavam, plácidas e claras, as águas do Limosino.

Serpínia foi a primeira a quebrar o religioso silêncio daquela tarde de amores.
- Que lindo está tudo, minha boa Galiosa... tudo isto é vida, beleza e poesia.
- Tens razão, linda princesa. Tudo são dons de Eliote. Mas porque olhas tanto na direcção do oriente?
- Lembro-me de Pol1pio.
- Olha mais para o sul. mais na direcção de África. A estas horas já ele vem em pleno Mediterrâneo ou talvez já tenha ultrapassado as Colunas de Hércules.
- Dizes bem, Galiosa: ele deve chegar a Mírtilis por estes dias. Vem ultimar os preparativos para o nosso casamento.

E Serpínia sorri com delicioso bom humor.
- Ficas entre nós ou vais para o Oriente? - interrogou Galiosa.
- Não sei. Tanto se me dá, contanto que goze a presença de Polípio.
- Connosco, os turdetanos, já não acontece o mesmo, insistiu Galiosa. Se te retiras, temos a impressão que na nossa doce pátria passará a ser sempre tarde ou manhã... Sem a luz dos teus olhos castanhos já não haverá para nós pleno meio dia!
- Muito obrigada pela amabilidade, retorquiu a princesa, volvendo de novo os olhos para Leste.

Depois:
- Sabes, Galiosa: Sinto-me a mulher mais feliz do Mundo. Quando me vi livre das garras de Rolarte senti a felicidade da avezinha que sai da gaiola e se arremessa ao espaço. Era, porém, ainda só meia felicidade. A felicidade inteira, completa, encontrei-a quando encontrei Polípio. Os olhos felinos do chefe celta já não tornarão a poisar sobre mim. Passou a era das apreensões e dos pesadelos.

Galiosa contraiu o rosto, como se fora vergastada por uma chicotada maldita. Fica silenciosa, olhando a distância.
- Duvidas, minha boa aia?
- Não duvido, temo.
- Temes o quê?!...
- A vingança de Rolarte.
- Sonhas, Galiosa, retorquiu Serpínia, rindo com certa desenvoltura.
- Não sonho: estou até muito acordada. E acrescentou:
- Não te lembras do Juramento de Rolarte:
- Hei-de apoderar-me de Serpínia morta ou viva?!...

A princesa estremeceu e sentiu calafrios ao recordarem-lhe um juramento maldito.
Depois, disfarçando:
- Antes da aliança com os Fenícios temia, agora não.
- Mas a Fenícia está para além dos mares, em terras da Ásia...
- Mas as suas naus patrulham as águas do Ana, e daqui lá a distância não é grande.
E a princesa, com o braço estendido, onde se via uma mão de açucena, aponta, ao longe, o cimo dos montes que circundam Mírtilis, a perderem-se na neblina esfumada da tarde.
- É além!...
- Bem vejo, Serpínia, bem vejo. E a prudente aia, insistiu:
- É perto, relativamente perto, mas para um rapto basta uma hora.
- Estás hoje muito pessimista, Galiosa.
- Diz realista. Estou a ver as coisas como elas são ou podem vir a ser.
- Rolarte está longe. . .
- Que Eliote te oiça e nos defenda.
- A propósito de Eliote... recorda Serpínia, que um criado vá hoje a Serpe e leve para o seu altar uns ramos de oliveira e umas flores de loendreira. Simbolizam paz e amor.
- Já os mandei, como ontem tinhas indicado.
- Agradeço os teus cuidados.
- Porque olhas tanto para aquela palmeira em frente do meu quarto... interrogou de novo Serpínia.
- Lembro-me...
- Do quê?
- Queres que diga?
- Já...
- Esta noite acordei ao piar sinistro dum mocho agoirento que, poisado naquela palmeira piava... piava... piava...
e isto por mais duma hora. Quando ele voou, uma coruja passou grasnando também pelo mesmo sítio. Isto não é bom sintoma nem presságio consolador dizem os aurúspices.
- Olha - Galiosa - nunca fui supersticiosa e em vez de temer o canto das avezinhas alegro-me com ele.
- Também eu, quando elas são canoras. Agora estas. . . estas... estas são piadeiras.
- Bom. .. disse Serpínia com ar desenvolto: falemos de coisas alegres. Repara naqueles canteiros de flores. Que inebriante perfume balsamiza este ambiente.
- Aquelas. .. além... foram plantadas por mim.
- Lá estás tu com essas vaidades espevitadas... não tas quero roubar; mas são do meu jardim...

Era já meia tarde. O sol iam rodando para o ocaso através do manto azul da celeste abóbada. As sombras alongavam-se. A grande alameda onde ambas se encontravam, e que ia desembocar no rio, parecia agora um túnel, tão cerradas eram as sombras. Lá em baixo ouvia-se o rumorelhar das águas do Limosino, cuja serpente prateada as interlocutoras viam dali.
Serpínia tornou a olhar na direcção do nascente e cortou o silêncio, apontando o rio:
- Sabes, Galiosa: quando estas águas juntas às do Ana chegarem à foz para se misturarem às do oceano, talvez já lá encontrem as naus fenícias com Polípio. Sim... ele deve vir já perto.
- Se assim é deixa-me saudá-lo: quero que ele ao tocar águas turdetanas encontre logo os nossos cumprimentos e vivas saudações. Levanta-se, com surpresa de Serpínia e vai para um lindo canteiro de flores.
- Que vais fazer?
- Espera. . .
Galiosa, entre sorrisos e ditos engraçados, colheu um braçado de flores e, debruçando-se sobre o parapeito do muro que dava paro o rio, começou a atirar as flores à água, dizendo:
- Ide... ide... saudar Polípio.
- Ide... ide... saudar Polípio.
Serpínia achou profundamente original a ideia de Galiosa e foi imitá-la. Colheu algumas das flores mais perfumadas: lírios, rosas, açucenas, cravos, amores perfeitos e começou também a deitá-los ao rio. Naquele momento a chama do amor ausente, acende-lhe o estro poético e ela principia, qual boa discípula de orfeu, a cantar:
- Correi, pétalas, correi...
- Ao encontro do amado,
Que vem nas águas do mar,
Em lindas naus embarcado.

Algumas flores noa eram obedientes. Boiando ao cimo das águas algumas faziam reentrância, queriam voltar atrás, redemoinhavam; outras ficavam presas e enlaçadas a madres- silvas, loendreiros e outros arbustos pendentes sobre as águas. Ela então, com uma comprida vara, desprendia-as, acelerava- lhes a marcha:
- Correi todas...
- Correi...
- Correi...

A veia poética aflora em catadupa; o amor vibra nas cordas mais sensíveis da alma; a paixão é tempestade... por isso os lábios ardem e ela continua a cantar:

Águas, flores, ventos, brisas...
Sêde-me bons, por favor;
Levai ao meu bem amado,
Meus ternos beijos de amor.

Beijava as flores e atirava.

De novo, uma e outra vez, com a varinha acelerava as mais retardatárias, repetindo:
Levai...
Levai...
Levai...

O primeiro assalto

O idílio continuava entre risos e poesias, quando vieram dizer à princesa que estavam ali uns comerciantes de pérolas com lindas prendas de noivado. Montavam a cavalo e pareciam ser celtas, pois falavam mal o túrdelo.
Galiosa sobressaltou-se logo e Serpíia ficou surpresa:
- Mercadores?.. Vamos ver.

De facto as mercadorias eram lindas, mesmo tentadoras. Comprou para si um colar de finas pérolas e um alfinete com diamantes para o noivo.

Vendido o peixe, os três mercadores deram de esporas aos cavalos e, com uma grande vénia, retiraram na direcção leste, internando-se no mato, para além dum cabeço, em frente.
Galiosa estava presente e examinava com extrema curiosidade as palavras e os gestos dos adventícios. Desaparecidos estes, diz para Serpínia:
- Não me sorri o dia. Oxalá estas prendas não nos venham a ficar demasiado caras...
- Porque dizes isso?!...
- Porque digo? Talvez tenha razões...
- Explica-te...
- Por ventura, princesa, não notaste nada de estranho nestes inesperados?
Eles eram celtas e eu notei que o terceiro não se aproximou fingindo segurar os cavalos. Reparei que ele tinha na mão um estilete e tábua encerada. Tirava não sei que apontamentos e fazia uma espécie de planta do castelo. Quando me aproximei, guardou... e, para disfarçar, perguntou-me:
- Gosta das prendas?
- Eu interroguei por minha vez:
- - Gosta do nosso castelo?
E ele:
- Maravilhoso!... E está bem defendido... não há perigo de assalto.
- Notaste isso?! . . .
- É como te digo.
- Mais ainda: não tens estranhado essa chusma de mercadores do mesmo género que nos últimos tempos tem enxameado as nossas terras, indo até Serpe? Eu estou em crer que isto são espiões celtas às ordens de Rolarte.
- Que me dizes?!...
- Nem mais nem menos. Ele ronda as nossas fronteiras e não esqueças o seu ímpio juramento.
- Serpínia corou e sentiu-se um tanto trémula.
Depois:
- Não será isso pessimismo?
- Não é pessimismo, é prudência.
- Sendo assim, que me aconselhas então?
- Olha, a guarnição do castelo noa é muito forte; manda vir ainda esta noite reforços e envia ramos de oliveira ao templo de Eliote pedindo ao sacerdote que ore... que ore por nós.
Serpílnia, embora estivesse optimista, achou prudente transmitir ordens.

*

A noite caíra sobre a planície erma. Noite pesada e triste. Espessas nuvens se tinham levantado ao pôr do sol cobrindo o céu duma placa de chumbo. A custo cintilava uma estrela por entre os interstícios das nuvens. A lua só muito de madrugada havia de nascer, e era quarto minguante.
Um vento agreste sussurra fortemente na copa ramuda das árvores que se torcem e gemem. O ambiente sabe a música desafinada, áspera e importuna. A escuridão cerra-se mais e mais. No ar pesado parecem vaguear medos e pesadelos. Nem se ouve ao longe qualquer rugir de fera. Os próprios irracionais, temendo a tempestade jazem acoitados em seus covis. Sopra mais o vento, assobia nas ameias do castelo, silva com estridência nas frinchas das portas, rebolam folhas de árvores pelos telhados. É uma dança macabra. O ambiente é de enervante nostalgia. É noite tétrica... Noite de assassinos... Noite de bandidos... Noite de crimes.
Serpínia olhando através da janela a paisagem escura e solitária na direcção do sul só pede a todos os deuses que a nau de Polípio não seja surpreendida por qualquer tormenta.
A noite avança. Os membros estão entorpecidos de lassidão; os cérebros pesados da atmosfera densa; o sono ronda os pobres mortais.
Para além do mato há olhos que não piscam de sono porque são olhos de traidores e a traição age de preferencia na calada da noite.
Serpínia recolhera-se a seus aposentos. Ainda não adormecera. Vagueia com o pensamento ao ritmo do soprar do vento. O pai deve estar em Mírtilis, Polípio já deve navegar em águas túrdelas.

De repente Galiosa bate-lhe à porta.
- Que há, interroga.
- Tenho um mau pressentimento. Há momentos estava na torre mais alta do castelo a sondar o panorama e parece-me ter visto na direcção de leste muitas luzes.
-Talvez fossem olhos de feras...
- Depois ouvi como um trotear de muitos cavalos...
- Deve ser o vento a fustigar as árvores...
- Por sim, por não, Serpínia, manda às sentinelas que estejam bem de vela e vigiem. Olha, quase que jurava ter ouvido, no meio do mato o relinchar de cavalos.
- Talvez fossem os nossos próprios. Confia: Eliote está connosco. O sacerdote ora no templo. Cerrou-se mais a noite. Além das paredes do castelo nada mais se vê. Só lá em baixo, à beira do jardim se percebe o gorgorejar das águas do açude.

Alta madrugada, antes da lua despontar, ouviu-se um inquietante alerta da sentinela. Acorrem os reforços. Inimigos estavam a pretender assaltar o castelo. Organiza-se a defesa em volta de todo o edifício. O primeiro embate foi duro, felino, confuso. Relincham cavalos, atiram-se setas, partem-se escudos e ouvem-se gritos de desespero. Já há mortos e feridos. O atacante busca uma porta por onde possa entrar.
Em vão; está tudo bem defendido.
Os defensores do castelo defendem-se com fúria leonina. Serpínia e Galiosa acordaram ao som do alarido e estridor das armas. Informadas do que se passava encheram-se de bravura e queriam sair para fora, de armas na mão, mas os soldados não permitiram. Subiram então às torres e de lá atacavam com pedras e matérias inflamáveis. O inimigo atacava, vociferava, praguejava.
Saíram-lhe errados os planos. Julgavam o castelo sem defesa. Passado tempo diminuíram de impetuosidade, enfraqueceram a resistência, recuaram.
Vinha rompendo a manhã. Vendo a impossibilidade de tomar o castelo os sitiantes empreenderam a fuga e internaram-se no mato, sendo perseguidos até longe. Tinha-se frustrado o assalto. Por confissão dos prisioneiros soube-se que eram soldados de Rolarte. Este, conhecedor da aliança de Cófilas com os Fenícios e os esponsais de Serpínia com Polípio, há muito que projectava raptar a princesa túrdela.
Sabendo-a, pelos seus espiões disfarçados em mercadores que ela se encontrava naquele palácio de campo, longe de Serpe, achou asado o momento. Infiltrando-se pela fronteira da serra onde não era fácil encontrar resistência veio a acampar no meio do mato, a alguns quilómetros de distância.
O primeiro assalto foi uma tentativa de seus homens mais audaciosos que prometeram levar a efeito o rapto, sem o chefe expor a sua vida. Frustrada esta primeira tentativa eles voltarão. Rolarte agora ardendo em cólera e consumido de vergonha planeará nova vingança. Não é homem que desista ao primeiro fiasco.
Serpínia, conhecedora destes planos, mandou a todo o galope emissários a Mírtilis dar conhecimento a Cófilas do que se passava ao mesmo tempo que prevenia a fortaleza de Serpe. Os emissários caminhando em marcha forçada, depressa galgaram a distância que separa Mírtilis do Castelo das Loendreiras. Por felicidade Polípio havia chegado nessa madrugada com homens e navios. Cófilas e futuro genro, com grande contingente de homens, puseram-se a caminho e, ao anoitecer estavam à vista do castelo. Serpínia foi recebê-los por entre grande alvoroço e lágrimas de alegria. Não contava com Polípio ali em tal contingência. Este respondeu:
- "O amor não sabe esperar e é nos perigos onde mais se aquilata o seu vigor.
Serpínia agradeceu-lhe e caiu-lhe nos braços plena de emoção. Cófilas abençoou a filha e louvou-a pela sua grande coragem. Agora estava salva a situação. De Serpe já haviam também chegado reforços. Cófilas, ouvidos também os prisioneiros celtas, logo se apercebeu da situação e dispôs tudo para uma resistência forte e eficaz. Serpínia tornou ainda a mandar essa noite ramos de oliveira e flores de loendro para o altar de Eliote.

A derrota

Os génios do mal são fecundos em planos perversos e por via de regra são vitimas do seu orgulho. O orgulho é um vírus que mata sempre seus próprios senhores. Rolarte era mau e orgulhoso. Tinha as duas qualidades mais perversas do génio do mal.
Ao ter conhecimento do fracasso do primeiro assalto ao castelo das Loendreiras desmaiou de indignação, rangeu felinamente os dentes, crispou as mãos de cólera e, fora de si, gritou:
- Vingança... Vingança... não há vingança bastante para eu me poder vingar. E logo planeou o segundo assalto para aquela noite afim de não dar tempo a organizar-se uma defesa eficiente. Não sabia o que se passava no castelo, desconhecia a chegada de Polípio. O dia passou-se em planos de estratégia à face dos dados colhidos pelos falsos mercadores.
O tempo estava tempestuoso e por isso favorável a um assalto desta natureza. Sobretudo o que importava era:
- Vingança.. Vingança...
Anoitecera.
De novo um denso céu de crepes tornou a envolver a terra. Escuro cerrado; vento irritante; aliança das trevas... e eis alguns de seus aliados para aquela noite. Choveu muito durante o dia e a noite estava, por igual, densamente nublada. Rolarte dividira seus homens em quatro grupos afim de atacarem o castelo por todos os lados dando assim ao adversário a impressão de que eram legião.
Cerra-se mais atreva; adensa-se a noite; carregam-se mais as nuvens; o vento assobia.
Cófilas tinha emboscado seus homens a centenas de metros, em pontos estratégicos exactamente na direcção dos quatro pontos cardeais. Mandou que no castelo nem uma luz acesa, tudo às escuras afim de dar ao inimigo a impressão ou que tinha sido abandonado ou que estavam desprevenidos. As horas passam lentas, angustiosas, apreensivas.
Alta madrugada a assaltante aproxima-se. Nas torres do castelo vigia-se bem desperto.
Rolarte, aceso em cólera, exclama ao dar ordens de atacar:
- "Ó deuses: - que o ódio realize o que não conseguiu o amor!..."
No momento oportuno saíram de seus esconderijos os túrdelos que, de improviso, carregaram sobre o inimigo.
Espalha-se a confusão, o desespero. Há vítimas e destroços pelo chão. O escuro da noite, a lama do terreno, devido à chuva, emprestam ao cenário mais lugubridade, tetrismo e pavor. A dor e a morte encontravam-se frente a frente. Os atacantes viram-se envolvidos por uma resistência tenaz com que não contavam. Desesperam, a vitória foge-lhes momento a momento.

Rolarte é mortalmente ferido. Os seus homens recuam, cedem terreno, debandando. É a derrota. A fuga precipitada está diante deles como única solução de salvamento.
Cófilas foi impelindo o inimigo para as margens do Limosino. Este rio levava uma cheia formidável em virtude das chuvas torrenciais que haviam caído em certas regiões. Rolarte julgando ainda uma possibilidade de escapar às mãos de Cófilas meteu-se à água tentando atravessar o rio. Cavalo e cavaleiro iam muito feridos. Em tão má hora se meteu à água que o cavalo escorregou nas pedras roliças deixando cair o cavaleiro que foi arrastado pela torrente impetuosa.
Cófilas e Polípio presenciaram a cena e queriam havê-lo, às mãos, vivo. Ainda fizeram tentativas para o salvar, mas em vão. Rolarte submergiu-se na torrente e desapareceu para sempre. Estava terminado o drama doloroso. A tragédia pusera termo a uma louca aventura.

O CONSÓRCIO
Ocidente e Oriente de mãos dadas

Polípio, o príncipe fenício de olhos azuis, barba ruiva e tez morena fizera boa estreia para conquistar definitivamente Serpínia. Era um amor e um herói. Sabia amar, lutar e combater. Herói no mar e na terra, ia ser também herói nos segredos do amor. Serpínia, a mulher mais linda que até ali havia visto, estava-lhe destinada. Túrdelos e Fenícios podiam regozijar-se com a estrondosa vitória, ocidente e oriente podiam dar as mãos num simbolismo histórico que os séculos futuros haviam de registar como predomínio do ocidente sobre toda a face do globo. O Castelo das Loendreiras fora eterna testemunha da dupla vitória duma mulher singular: acabar com o pesadelo dum monstro apaixonado que fazia tremer as pedras e conquistar um amor que enlaçava duas nações, unia dois continentes. Serpínia ficava uma heroína para a história.

A dupla vitória foi largamente festejada. Os vencedores entraram em Serpe por entre arcos e festões, palmas e flores, no meio de aclamações ruidosas como a capital túrdela nunca tinha presenciado.
Num luxuoso carro puxado a quatro cavalos Serpínia seguia no meio de Cófilas e de Polípio. Sorrisos, ovações, acenar de braços, vivas, aclamações eis o ambiente que reinava por toda a parte. O cortejo triunfal seguiu pelas ruas principais e foi terminar no templo de Eliote onde Serpínia depôs ramos de oliveira e de loendreira e se ofereceu um sacrifício solene.
As festividades continuaram no dia seguinte com o casamento real e prolongaram-se por duas semanas.

*

No meio de tanto regozijo uma nuvem de tristeza cobria o coração de todos. Por certo iam ficar sem a sua idolatrada princesa a quem a Turdetânia já tanto devia. O oriente esperava por ela.
A os clamores da vitória, ao incenso dos sacrifícios juntavam-se já as tristezas da próxima separação e as lágrimas ardentes duma saudade infinda.
Serpínia é uma radiosa estrela do ocidente que vai iluminar as terras do oriente; é uma beldade destinada a ofuscar todas as beldades das terras dos beduínos, onde vagueiam civilizações e passam caravanas admirando os arcos desmantelados de Palmira, os templos soterrados dos Hititas, as ruínas monstruosas de Balbek.
Diante da beleza de Serpínia, havia de desmaiar a beleza de Artemisa de Palmira; os Egípcios haviam de achar demasiado feia sua admirada Cleópatra e Helena de Troia cairia em eterno desespero.
Mais ainda: quando Serpínia aparecesse no oriente não mais Salomão olharia para os encantos da Rainha de Sabá. Depois as formosas: Célia dos Hititas, Zeliana dos Babilónios, Artésia dos Assírios, ficariam arrumadas a um canto como gente sem valor, corno beldades ultrapassadas.
Se tais pensamentos regozijavam os turdetanos a ideia da separação atormentava-os.

o ADEUS
Entre os Europeus e a Ásia

O destino é sempre o destino: tem de cumprir-se. Não é um cego fatalismo, é um selo da providência; não é uma coincidência fortuita é, sim, o sinal da mão de Deus a marcar a fronte do homem. Serpínia está destinada a ser rainha de Tiro e Sidónia.
Para além do Mediterrâneo, confinando com as terras que um dia o Cristo transitará na sua passagem pelo nosso planeta, está o seu trono.
A partida aproxima-se. O reinar é também um dever, um serviço que tem de cumprir-se. Os navios estão já surtos no porto de Mírtilis. Está firmada uma aliança forte e duradoira entre a Fenícia e a Turdetânia que dão as mãos por cima do Mediterrâneo. Mírtilis, embora no território turdetâneo, é uma faceta do rosto da Fenícia e fica a servir de ponto de enlace, rota de cruzamento entre os dois povos amigos.
Serpínia vai partir.
Como piedosa e crente quis na véspera da partida, ir ao templo de Eliote oferecer um sacrifício e entregar um ex-voto. Este constava da seguinte oferta: uma preciosa rosa de loendreira feita de oiro e pedras preciosas dádiva de seu pai e que lhe adornava o gracioso cabelo no dia do casamento. Numa das pétalas da rosa estava gravado o nome de Serpínia, noutra o castelo das Loendreiras. Na base do castelo via-se a cabeça dum dragão representando a vitória sobre Rolarte. Assentava tudo sobre um escudo rodeado de folhas de oliveira, a árvore sagrada de Eliote.
Este brasão ficaria a ser as armas de Serpe e conservou-se no templo até à sua destruição nas inquietas vicissitudes da história.

*

Chegou por fim o dia da partida. Aproximava-se a hora do embarque. O sol radioso duma serena tarde de primavera iluminava com revérberos de oiro o casario de Mírtilis construída em anfiteatro na encosta do alto morro, bem como as campinas circunjacentes e as águas plácidas do Ana.
Era bem uma tarde de amorosa saudade.
Serpíia e Polípio acompanhados de Cófilas e grande comitiva chegavam a Mírtilis. As naus estavam surtas nas águas do rio todas embandeiradas.
Sorria a natureza, choravam os corações. Uma separação, ainda quando para melhor, é sempre dolorosa.
A fortaleza de Mírtilis erguida no cimo do morro escarpado pelos homens de Polípio, espelha-se agora nas águas do rio.
Serpfnia desce ao cais.
A multidão ovaciona e chora. Vai-se a luz da Turdetânia. Os mareantes fazem os últimos preparativos. Polípio, como elegante surpresa, havia posto o nome de Serpe àquele navio que devia levar a princesa. Este voltaria muitas vezes às águas da Turdetânia afim de mitigar as saudades dos turdelos.
A princesa ajoelha-se aos pés de seu pai carinhoso e bom. É a hora amarga da despedida. Depois sobe para o navio e acena à multidão. No ar há lenços e braços a saudar e nos olhos abundância de lágrimas.
- Adeus... Adeus... era o grito que irrompia de todas as bocas e ecoava pelas quebradas dos montes.
A emoção atinge o seu auge quando o navio inicia a marcha. Serpínia, de pé, acena à multidão. Já não pisa terra da Turdetânia, mas ainda lhe pertence. Galiosa, a aia sempre fiel acompanha-a ao Oriente.
- Adeus!... Boa Viagem!... Felicidades! - continua a gritar a multidão em coro. Serpínia sorri na plenitude da sua felicidade. Tiro e Sidónia esperam por ela.
Vai entardecendo cada vez mais. O ambiente é de emoção e de saudade. Respira-se a dor da despedida com a glória duma exaltação. O Serpe, que leva a pérola da Turdetânia, é seguido por muitos barcos de recreio engalanados. Desliza agora sobre as águas plácidas. Ao longe ainda se vê a silhueta esguia e bela de Serpínia, a quem o povo continua a dizer:
-Adeus!...
E o navio desliza até desaparecer numa curva do rio.

NOTA

Quisemos oferecer aos Serpenses esta leve brochura e modesto trabalho sobre uma das graciosas lendas acerca da fundação da sua terra. Fomos bebê-la a velhos documentos perdidos, esquecidos no pó dos arquivos. Não há dúvida de que Serpa "histórica e velhinha, berço da minha vinda ao mundo, é uma das povoações mais antigas da Ibéria. É certo que a sua fundação imerge nas sombras densas da pré-história. Ninguém poderá saber ao certo qual o dia, o ano em que do solo vermelho em que assenta emergiu o primeiro muro de suas casas e se delineou a sua primeira rua. Os tempos guardaram para si este mistério que o génio do passado arquivou nos subterrâneos das idades.
Uma coisa singular: os tempos e as vicissitudes históricas respeitaram sempre inalterável seu nome primitivo com
que fora baptizada, caso único, estamos em crê-lo, nas velhas terras da Lusitânia. Isto parece confirmar o carácter sagrado que presidiu à sua fundação. Esperemos que no último dia do Mundo, se Serpínia ressuscitar, ela nos desvende esses mistérios.
Sempre me interessei vivamente pelos problemas de Serpa e não quis deixar de lhe ofertar este pequeno obséquio que Ela, provavelmente, saberá agradecer.
Sim. .. a fundação de Serpa ter-se-á dado como aqui se descreve.
Qualquer outra lenda é inverosímil.

O AUTOR,
C. J. GONÇALVES SERPA
Composto e impresso na Oficina Torriana - Torres Vedras.

Serpínia,  A Princesa Feliz

«Cófilas, Rei dos Túrdulos,  fez aliança com os chefes Fenícios e, naquele porto, construíram uma cidade a que deram o nome de Mirtilis, em honra da Deusa Mirto, sua mãe que o teve de Mercúrio.»

In - http://www.alentejodigital.pt/serpa/lendas.htm - in ARQUIVOS de SERPA – (Câmara Municipal), de João Cabral, Serpa 1971, pp.165 -167

Serpínia,  A Princesa Feliz

 

Era uma Vez.... uma jovem e linda Princesa, muito linda, chamada Serpínia, que vivia nas longes terras do outro lado da Ibéria, lá para os altos Pirineus. Seu pai, Cófilas, rei dos túrdulos, tribo da Ibéria, era um homem bom.

Num País vizinho, vivia um outro rei, de raça, celta, que era cruel e muito ambicioso, Rolarte de seu nome, que quando viu  a formosa princesa quis casar com ela. Mas a princesa não se agradou dele.

 

  Um dia um Príncipe, Orosiano, visitou o Rei Cófilas e  a sua filha Serpínia. Os dois príncipes gostaram um do outro e combinaram casar.

Mas o rei Rolarte, quando soube, não gostou que Serpínia fosse dada em casamento a Orosiano e jurou vingar-se tratando logo de reunir os seus soldados e de fazer guerra a Orosiano.

O Noivo de Serpínia morreu e Rolarte ficou ferido.

O Rei dos Celtas não ficou satisfeito com a morte de Orasiano a jurou fazer guerra ao pai de Serpínia, mas este, informado do que Rolarte preparava, abalou para as longínquas paragens da outra banda da Península Ibérica.

E andaram, andaram até chegarem a um sítio onde a Princesa se sentiu encantada com as formosas Terras que seus belos olhos avistavam. Campos recorbertos de luxuriantes verduras, flores campestres a perfumarem os ares que respirava, tudo prenunciando abundância de água, de terras férteis, ubérrimas.

Serpínia logo deu parte a seu pai de que gostava destes sítios.

Cófilas examinou a região. Tudo aparentava terras fartas e amenidade de clima. Perto corria o Ana.  Por toda a parte se viam Oliveiras, muitas Oliveiras,  a garantir alimento, untura, tempero e luz na candeia.

E  logo ali acamparam e escolheram local para construir uma cidade que ficou a ser a capital de novo reino.

E em homenagem a Serpínia,  a formosa filha do Rei Cófilas, à nova cidade se ficou chamando Serpe. Esta seria a capital da Turdetânia, o novo reino criado na região do Ana, hoje chamado Guadiana, e que se estendia até ao mar.

Tempos depois chegou  a Serpe a notícia da vinda até um Porto do Ana, aonde chegavam as águas salgadas do mar, de barcos Fenícios - povo de navegadores que vivia no Norte de África.

Cófilas, Rei dos Túrdulos,  fez aliança com os chefes Fenícios e, naquele porto, construíram uma cidade a que deram o nome de Mirtilis, em honra da Deusa Mirto, sua mãe que o teve de Mercúrio.

Em um dos barcos vinha um Príncipe, jovem , guerreiro e bem parecido, que ao ver Serpínia se apaixonou por ela. E Serpínia amou Polípio, o belo Príncipe Fenício. E logo ficaram noivos.

Polípio regressou à Fenícia. E Serpínia, enquanto esperava o seu noivo, dedicava-se à caça pelo que seu pai lhe construiu, à beira do Rio Limosine, que ia desaguar no Ana, um castelo onde ela  ficava quando ia  caçar. Ali havia muitos loendros e Serpínia deu à sua  nova casa o nome de Castelo de Loendros.

Serpínia já tinha esquecido Rolarte, mas Rolarte não esquecera Serpínia, nem a vingança de que lhe jurara.

E uma noite, noite escura como breu, o Castelo dos Loendros foi atacado por Rolarte e os seus soldados. Mas o Rei dos Celtas foi vencido pelos soldados de Cófilas que guardavam o castelo de Serpínia.

Com medo de novos ataques a princesa mandou aviso ao pai, que estava em Mirtilis, que hoje se chama Mértola,  o qual regressou com muitos soldados,  e que esporeando os seus corcéis corriam a toda a brida na companhia de Polípio, o príncipe noivo, que já tinha regressado da Fenícia para as bodas com Serpínia.

Rolarte voltou a assaltar o castelo mas este, que tinha agora muita tropa, venceu os soldados de Rolarte e o Rei dos Celtas fugiu e foi morrer afogado no Ana.

Serpínia casou com Polípio e os noivos foram para  a Fenícia.  Serpe, que recorda a linda princesa Serpínia e que sempre manteve o seu nome, é hoje a serpa em que vivemos.

“ Arquivos de Serpa - Edição Câmara Municipal de Serpa”

( João Cabral)

Nota in: ARQUIVOS de SERPA – (Câmara Municipal), de João Cabral, Serpa 1971 - «Contada também por C. Gonçalves Serpa em “Serpínea e a Fundação de Serpa" que diz ter ido “... bebe-la a velhos documentos perdidos, esquecidos no pó dos tempos”.»

A LENDA DE SERPÍNEA

in CANCIONERO DE SERPA, Maria Rita Ortigão Pinto Cortez, Edição da Câmara Municipal de Serpa, 1994 - pp. 347 - 349.
Baseada, segundo a autora, que escreve todo este livro à mão, com uma caligrafia deliciosamente legível e com muitas ilustrações, que vale a pena admirar, em «SERPÍNEA E A FUNDAÇÃO DE SERPA» de C. Gonçalves Serpa.

Não se sabe ao certo em que época foi fundada Serpa. Ela já existia com este nome no tempo dos Romanos, e durante a dominação árabe chamou-se Sheberina. Diz uma lenda que esta vila foi fundada pelos Túrdelos, um povo da antiga Bética, proveniente dos Pirinéus.

Havia um rei dos Túrdelos, Cófilas, que tinha uma filha de rara beleza chamada Serpínea. Esta era requestada por Rolarte, rei dos Celtas, de quem não gostava e cuja proposta de casamento recusou, preferindo Orosiano, príncipe de um reino vizinho. Rolarte, despeitado, atacou esse reino, matando Orosiano, e jurou obter Serpínea, viva ou morta.

Cófilas resolveu fazer uma expedição para o Ocidente, procurando instalar-se longe dos Celtas e conseguir uma aliança com os Fenícios, que sabia frequentarem o litoral da Península.

Acompanhado dos seus homens e levando a filha consigo, chegaram uma tarde a uma colina verdejante e arbotizada, no sopé da qual se estendia uma imensa planície.

Serpínea gostou tanto do local, que pediu ao pai para ali armarem o acampamento nessa noite, e para ali fundarem uma cidade que viesse a ser a nova capital da Turdetânia.

Nessa noite, Cófilas teve um sonho profético, em que o Ocidente e o Oriente se uniriam em Serpínea.

No dia seguinte os construtores lançaram mãos à obra, e assim nasceu Serpe. Daqui, Cófilas partiu para novas expedições, dominando toda a região vizinha, e fundou outras cidades a Ocidente, atravessando o rio Ana, e encontrando-se finalmente com os Fenícios, que nos seus navios subiam este rio até ao ponto em que vieram a fundar Mirtilis. Estabeleceu-se um tratado de amizade, e em breve Serpínea ficava noiva do belo príncipe fenício Polípio. Porém, este teve de partir novamente em viagem, prometendo à inconsalável Serpínea regressar depressa para o casamento.

O rei Cófilas mandou construir para a filha, que era exímia caçadora, um castelo na serra que se estende ao Sul de Serpe, onde ela passava longas temporadas, passeando pelo campo e caçando.

O palácio ficava situado na margem de uma ribeira. Chamava-se Castelo das Loendreiras, e possuia lindos jardins.

Foi ali que o cruel Rolarte, nunca esquecido do seu jurmento, foi atacar os guerreiros de Cófilas, pretendendo raptar Serpínea. Esta, prevenida pela sua aia fiel que desconfiava de uns mercadores celtas recém-chegados, mandou pedir reforços a Serpe. Polípio também chegou providencialmente, salvando a noiva do seu perseguidor que, ferido de morte, foi arrastado pelas águas da ribeira.

Serpínia e Polípio casaram, o que foi motivo para grandes festejos. porém, não puderam ficar aqui para sempre. Um dia, despediram-se da terra onde tinham sido tão felizes, e embarcaram em mirtilis a caminho da longínqua Fenícia, onde viveram longos anos, muito felizes.

A TESOURINHA DA MOURA

In LENDAS PORTUGUESAS – VOL. V - Fernanda Frazão – Amigos do Livro Editores L.da, Lisboa, s/d pp. 89, 90, 91.

Ali para os lados de Mértola, aconteceu, certa vez, um caso fantástico e temeroso provocado por uma moura encantada.

  Vinha um homem do amanho do campo, de enxada ao ombro, quando ao passar pelo sítio da Mortilhera viu uma cobra que da cintura para cima tinha corpo de mulher. A cobra, que era uma moura encantada, meteu-se a conversar com o homem, e o homem cheio de medo, a suar e a limpar o suor com o lenço.

  A moura foi perguntando ao homem como lhe corria a vida, que tal as colheitas, se a seara era dele ou se tinha patrão, e muitas outras coisas com as quais talvez viesse a entreter-se nos longos serões que de Inverno era obrigada a passar sozinha debaixo da terra. Quando acabou de saber tudo o que a interessava, a moura estendeu ao homem um capacho com figos secos, que estava a seu lado, dizendo-lhe que tirasse quantos quisesse.

  O homem, que durante todo o tempo da conversa suara frio, de medo e nervos, tirou meia dúzia de figos e meteu-os na algibeira do colete. Despediu-se da cobra com alguns salamaleques e partiu aliviado e desejoso de se ver bem longe dali.

  Ao chegar a casa contou à mulher o que lhe acontecera e por fim, quando ia a tirar os figos do bolso do colete, encontrou no lugar deles seis moedas de ouro. A mulher desatou logo a ralhar com ele:

  - Ó homem, pois então a moura dá-te figos que são ouro e tu só trazes isto?! Valha-te Deus, que estás mas é a ficar taralhouco! Vai mas é buscar o resto, antes que a cobra volte à cova, vai depressa, ouviste?!

  O homem, que não sabia bem se havia de temer mais o bicho ou a mulher, lá foi, dizendo mal à sua vida. E quando passou pela cobra, disse-lhe, para que ela não desconfiasse:

  - Adeus, senhora moura! Vou outra vez ao campo, que me esqueci de uma coisa!

  Mas a moura sabia tudo:

  - Não vais, não! Não te esqueceste de nada, o que tu querias era mais figos, mas já não há! Olha, leva daqui qualquer coisa que te sirva.

  E estendeu ao homem o seu açafate da costura, donde ele sacou uma tesourinha com cabos de ouro e pedras preciosas. Partiu e a moura ficou a dizer-lhe adeus com um estranho sorriso.

  A caminho de casa, o homem, que ia distraído com os seus pensamentos, escorregou à beira de uma ladeira, caiu, espetou a tesoura no peito e morreu.

  Assim acontece quando os encontros com mouras não são mantidos em segredo!

 

 

 

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