|
SERPÍNEA
UMA LENDA que fala das origens de SERPA
ligada
às origens de MÉRTOLA
1.
SERPÍNEA e a FUNDAÇÃO de SERPA - por C.
Gonçalves Serpa
2.
SERPÍNEA - por João Cabral
3.
SERPÍNEA - por Maria Rita Ortigão Pinto Cortez
4.
A TESOURINHA DA MOURA - por Fernanda Frazão
SERPÍNIA
E A FUNDAÇÃO DE SERPA
POR C. Gonçalves Serpa

Texto
digitalizado da fotocópia de uma Brochura de 32 páginas
in Biblioteca Municipal de Beja
A
Expedição
- Além...
Além... - exclamou uma graciosa voz de mulher de olhos castanhos,
cabelos louros e faces rosadas como pétalas da mais esquisita
flor.
- Além... Além, naquela zona verde e de reconfortante
frescura, enquanto com o braço delicado apontava um morro
de mediana altitude a emergir de entre árvores frondosas
dum verde cínzeo e rochedos plúmbeos.
- Alto!... Ficamos aqui... gritou uma voz potente de homem que parecia
ser o chefe da expedição.
- Serpínia agradou-se do lugar, a terra parece fértil
em água e fecunda em produtividade.
- Alto!... Ficamos aqui... clamaram outras vozes secundando a do
chefe. A caravana parou envolvida numa densa nuvem de poeira levantada
pelo trotear dos cavalos. Todos levantaram os olhos cansados da
caminhada e notaram que, de facto, a região agradava e estava
bem localizada quer para o povoamento, quer para a defesa.
- Ficamos então aqui.
Os cavalos parados relinchavam, escavavam a terra vermelha com as
patas grossas enquanto alguns, de cabeça baixa, tasquinhavam
nos pequenos arbustos nascidos à beira do caminho.
O cavaleiro que dera a primeira ordem, corpo agigantado, barba espessa
e hirsuta, músculos de atleta, tornou a imperar:
- Cargas ao chão, comecemos o acampamento antes que anoiteça.
Num zape, todos se apearam com ligeireza homens, mulheres e crianças.
O chefe, nada menos que o general Cófilas, rei dos Túrdelos,
explicou:
- Serpínia, minha dilecta filha e vossa muito linda e amada
princesa achou lindo este local e muito apropriado para a construção
da nova capital túrdela. A terra tem muita água, basta
vegetação, matagais densos e um clima aprazível,
um céu azul como não vimos outro na Ibéria.
Ficaremos, pois aqui e amanhã iniciaremos já a construção
da nova cidade a qual, em honra de Serpínia, que escolhera
o local, será chamada Serpe (Serpa).
- Viva Serpínia!...Viva Serpe a nova capital da Turdetânia
- exclamou um coro de vozes.
E o eco repetia-se pelas quebradas dos montes até diluir-se
e perder-se ao longe através duma planície que
parecia intérmina: - Serpínia... ínia... ínia!
Serpe... erpe... erpe!...
Ia
entardecendo mais e mais. O sol fazia descer uma bola de fogo na
linha clara do horizonte, ameaçando mergulhá-la, para
além dos montes fronteiros, nas águas do Atlântico.
O calor sufocante daquele dia de Junho havia passado e uma brisa
acariciadora e refrigerante soprava agora das bandas do mar.
-Já, assentar o acampamento. Desapetrecham-se os cavalos
e os carros de transporte; deitam-se ao chão as cargas; desenrolam-se
os panos; abrem-se covas; arrumam-se pedras; arranca-se mato; espetam-se
estacas; batem martelos; esticam-se as cordas; estendem-se os panos
e surgem as barracas. Está armado o acampamento.
A tarde esmorece.
Na linha do horizonte, por cima do solo, a poente, algumas nuvens
riscam o céu em tom afogueado. É o primeiro pôr
do sol que os olhos lindos de Serpínia contemplam nestas
paragens ocidentais.
Alma bela sensível ao bucolismo da natureza, à poesia
paisagística deseja então desfrutar melhor o panorama
ambiencial. Para isso, acompanhada duma aia, a fiel Galiosa, sobe
acima dos rochedos que, na coroa do monte, emergem do solo, como
cabeças monstruosas de gigantes descomunais.
- Que lindo!... murmura.
Que poesia bucólica e austera!...
- Isto é superior ao vale do Guadalquivir, interveio Galiosa.
- Muito
superior!...
E contempla.
A região não muito acidentada estende-se, desdobra-se
em cabeços sucessivos que se empurram uns aos outros sempre
mais para além, num desafio titânico a ver quem primeiro
chega ao mar. Em baixo a depressão do rio Ana que vai correndo...
correndo, pleno de ilhotas verdes pelo meio, rodeado de margens
rochosas, ásperas, agressivas na sua secular solidão.
Até ao presente aquela terra era virgem de presença
humana. Só caça, muita caça por ali existe.
Os coelhos são em bando. Dali mesmo os vêem entrar
e sair dos buracos, saltitar na pradaria verde pálida que
se nota através dos matagais densos. Depois mais a distância
habita o lobo, o veado, o javali, o gamo e a raposa. As aves são
em chusma e cobrem a ramagem coposa das árvores. Umas saltitam
de ramo em ramo mostrando sua plumagem multicor, outras mais corpulentas
cortam o espaço em voo sereno ou em caprichosas evoluções
circulares. As matas tem grande variedade de tonalidades de verde
no seu arvoredo. Aqui o verde triste, bronzeado dos montados; ali
a cor cinzo-prateada das oliveiras, a árvore predilecta de
Eliote deus dos Túrdelos, o
qual teria nascido no meio dum olival, quando sua mãe a deusa
Eliaste estava a veranear num acampamento bélico. Mais para
além, árvores de porte alto e esbelto mostram um verde
álacre, exuberante, às vezes tirando um tanto para
amarelo: são os álamos, os freixos, as faias e a amendoeira
muito abundante na região. Depois é ainda o verde
terroso do mato denso onde predomina a esteva viscosa, o sargaço
de cheiro acre, a rosela de flor carmezim, o piorno amargo, a medronheira
carregada de rubis, o lentisco resistente, o tojo espinhoso. A flora,
alta ou meã, é colorida e variada na sua austeridade
regional. O solo atapetado dum verde pálido, que dá
ao panorama um tom axadrezado, mostra muitas flores e gramíneas
de feitura e colorido diferente. O azul do céu, sobretudo
o azul safírico deste céu é o que mais impressiona
Serpínia. Nunca vira um céu tão anilado. Não
cessa de o
contemplar.
A noite vai caindo. O sol escondera-se por detrás dos cabeços
esfumados e as sombras começaram a adensar-se.
Levanta-se uma brisa mais álgida que harpeja e assobia nas
tranças do arvoredo. A celeste abóbada criva-se de
olhos luminosos a piscar na escuridão como a saudar os novos
habitantes que naquela noite encontraram nas margens agrestes do
Ana .
Serpínia e sua aia recolheram-se ao acampamento. Espesso
manto de trevas cobre a terra a qual parece
sorrir por ver terminada sua eterna solidão.
Fundação
de Serpa
Os
Túrdelos eram um povo que vinha dos Pirenéus e tomara
rumo ao ocidente através das planícies do sul entre
o planalto castelhano e o Mediterrâneo. Primeiro estabeleceram-se
entre a bacia do Ebro e do Guadalquivir, não tendo ainda
propriamente uma fixidez determinada. O aglomerado que lhe servira
de primeira capital chamava-se Eliana, dedicada a Eliote o grande
deus dos Túrdelos. Ao presente o seu chefe era Cófilas
a quem davam a dignidade de rei. Era um guerreiro esforçado,
astuto, duro sem deixar de ser bom, compreensivo e justo para com
todos.
Ao norte da Península dominavam os Celtas comandados por
Rolarte, homem fera, esforçado mas despótico, cruel
e vingativo. A princípio Túrdelos e Celtas deram-se
bem. Faziam intercâmbio e mercadejavam. Um dia Rolarte viu
Serpínia em uma caçada e ficou esmagadoramente apaixonado
pela princesa túrdela. Nunca tinha visto beleza assim. Aqueles
olhos castanhos duma viveza rutilante magnetizavam-no tiranicamente.
Julgava-se o homem mais feliz da Terra se chegasse a possui-la.
Aquela paixão tornou-se fogueira crepitante. Por outro lado
sonhava ambiciosamente com a unificação da Ibéria
pela amálgama de Celtas e Túrdelos através
do seu casamento. Cófilas chegou a ter conhecimento dos projectos
imperialistas do chefe Celta e preferiria que a filha não
casasse com ele. No entanto deixava-lhe inteira liberdade para evitar
males maiores.
Serpínia abominava Rolarte já por ser fisicamente
antipático, já por ser um carácter péssimo,
violento e déspota.
E dizia para si:
- Poderá haver maior martírio para uma mulher do que
casar e viver a vida inteira com um homem de que não
e gosta!... Antes perder mil tronos. E ruminava:
- Não, não casarei com ele. Em virtude de certo tacto
diplomático mandou-o esperar mais tempo, quando ele lhe fez
propostas, alegando a sua pouca idade.
Rolarte, embora contrariado, resolveu esperar.
Galiosa ao saber dos intentos de Rolarte e da repugnância
de Serpínia por ele, advertiu:
- Senhora: vê o que recusas... Rolarte é rico, é
poderoso, é rei...
- Fosse ele um deus, retorquiu a princesa em tom de censura.
- Senhora, tereis um grande trono, riquezas e jóias e jóias
incontáveis!...
- Cala-te, cala-te: o amor não tem preço. Onde não
há amor, nada pode dar a felicidade.
- Lá isso é, mas...
- Esse mas... seria uma traição ao amor.
- E se vier a guerra?
- Prefiro a guerra a um amor iludido.
Por aqueles dias Cófilas recebeu a visita de Orosiano, príncipe
duma tribo de guerreiros que viviam no sul das Gálias, entre
os Pirenéus. Este sim, que era o predilecto de se Serpínia.
Cófilas tratou com ele o casamento de sua filha e firmaram
uma aliança contra posáveis represálias de
Rolarte.
Este soube do sucedido e, ardendo em cólera, jurou vingar-se
duramente.
Serpínia seria dele viva ou morta ainda que a tivesse ia
de ir raptar à mansão dos deuses.
Depois, caindo de improviso sobre as terras de Orosiano desprevenido
foi atacar Periânia sua pequena capital construída
na garganta de duas altas montanhas. Travou-se dura batalha em que
o noivo de Serpínia - Orosiano - perdera a vida.
Rolarte,
também gravemente ferido, regressou a suas terras disposto
a prosseguir a luta contra os Túrdelos logo que lhe fosse
possível. Alguns contingentes de pirenaicos vieram pôr-se
às ordens de Cófilas e informá-lo de tudo quanto
se passava. Este então tomou rumo às terras de Oeste
mais longe das fronteiras célticas e em lugares e situações
mais propícias a boas defesas. Sabendo depois que os barcos
fenícios navegavam pelo Mediterrâneo e buscavam o "finis
terrae" na costa atlântica esperava a oportunidade de
lhes pedir auxílio por meio duma aliança.
Foi neste remar para ocidente que chegaram à "Planície
Fresca" onde deviam fundar Serpe.
Ai ficaria o maior reduto da defesa turdetania.
No
dia seguinte ao despontar do sol, Cófilas chamou Serpínia
e seus mais próximos subalternos para lhes narrar um sonho
misterioso havido naquela noite. Vira, disse, naquele mesmo sítio
levantar-se do solo, por mão invisível,
um grande templo em cujo altar estava a estátua do seu deus
Eliote. Este tinha na mão direita um sol nascente e na outra
uma flor de loendreira. E apontando ambas para Serpínia dizia-lhe:
- neste local, está a tua felicidade. Em seguida acrescentou:
"Depois da batalha a vitória; ocidente e oriente buscam-se".
- Eis
o sonho, concluiu.
Portanto, embora envolvido em sombra de mistério Eliote mostra,
por este aviso, que este lugar lhe agrada e aqui devemos ficar.
Mãos à obra e vamos levantar os muros de Serpe.
- Serpe...
Serpe... Serpe... gritaram todos. Serpínia propôs.
Comecemos por lançar a primeira pedra do templo dedicado
a Eliote, ali no topo do morro rochoso. Depois iremos à "Pedra
Longa", lugar onde começamos a avistar este sítio
e ai faremos o primeiro altar, oferecendo ao nosso deus um sacrifício
de acção de graças ( ).
Principiaram
a emergir do solo vermelho os muros de Serpe. Mais uma cidade nascia
para a história. Haviam de rolar séculos sobre séculos,
sucederem-se as gerações umas às outras e até
cavalgadas de povos conquistadores haviam de calcar duramente este
solo.
Porém, Serpe, uma vez nascida havia de continuar. Nascera
para viver. Seus muros fortes, feitos de granito e calcário
em que a região é abundante haviam de resistir com
fúria leonina às vicissitudes dos tempos e aos ataques
de futuros inimigos. Sobre ela paira um carácter sagrado
visto ter nascido à sombra dum templo. Bárbaros, Romanos,
Árabes e Cristãos Visigóticos, mais tarde Lusitanos
haviam de continuar a venerá-la conservando-lhe intacto o
nome que recebera desde a primeira hora, caso único nas povoações
da antiguidade que passaram para o domínio português.
Serpe é uma linha de intercepção e cruzamento
da Turdetânia com a Lusitânia, e mais tarde da Bética
onde o carácter da sua população constitui
curiosa excepção na Lusitanidade.
Agora
Gês: - Pax Júlia à vista - Beja actual
Cófilas
não se esquece de que Rolarte era seu figadal inimigo. Não
perdoaria a Serpínia tê-lo preterido e nunca veria
com bons olhos a grandeza da Turdetânia. Por isso, enquanto
os muros de Serpe vão subindo à claridade doirada
do céu transtagano ele dá-se à tarefa de tomar
todas as terras até ao mar, e construir novos castros.
Atravessou o Ana e explorou toda a planura da margem direita. Ao
atingir o vértice do alti-plano reparou que a terra era ubérrima
e a situação privilegiada para nova construção
defensiva.
Cófilas impera:
- Aqui mais uma fortaleza... aqui... e afincou a lança no
ponto mais elevado do planalto. Aqui será Gês - cidade
vigia, sentinela da planície. E logo, do solo vermelho, principiam
a subir os muros de Gês, a quem os Romanos chamariam mais
tarde: Pax Júlia, os Árabes: Paca, os Portugueses:
- Beja.
Uma
aliança com os Fenícios - nasce Mírtilis
Cófilas
domina já toda a vasta região da bacia do Ana e daqui
até ao Atlântico. Gês e Serpe são os dois
pontos concêntricos de maior população e os
dois mais fortes baluartes de defesa. Ele sabia, porém, que
Rolarte, seu inimigo figadal rondava, como abutre de garras aduncas,
suas fronteiras e não perdoaria a Serpínia tê-lo
preterido no amor. Mais tarde ou mais cedo ele voltaria à
carga, viria incomodá-lo de novo e por isso havia que prevenir
tudo. Começara, pois, a construir novos aldeamentos, novos
castros, pontos de defesa e muitas vias de comunicação.
A terra era muito plana mas de difíceis possibilidades de
comunicação. No Verão, muito pó; no
Inverno, caminhos lamacentos em que o barro atolava e pegava tudo
por causa da sua constituição argilosa.
Neste entrementes Cófilas soube que umas naus fenícias
vindas do Mediterrâneo haviam entrado a foz do Ana até
onde a maré dava acesso e pretendiam fundar uma feitoria
comercial.
Ledo e confiante foi-lhes ao encontro. Estudaram o sítio
e acordaram em que seria construída nova cidade fortificada
no cimo de alto e escarpado morro a cair abrupto sobre ao margens
do Ana e na confluência do rio Rochoso com estes. A região
é áspera, escalvada, cálida e pronta a boa
defesa. A povoação ficaria dependurada de escarpas
quase abruptas e de difícil acesso ao inimigo.
Como foram os Fenícios que quiseram construir a povoação
deram-lhe o nome de Mírtilis (Mértola) por ser dedicada
à sua principal divindade - Mirto.
Nessas primeiras naus vinha o príncipe fenício Polípio,
espírito navegador e sedento de aventuras, homem do mar e
esforçado guerreiro.
E se este se apaixonasse por sua filha Serpínia e assim acordassem
numa aliança de mútuo auxílio e defesa? Pensava
Cófilas.
Nesta esperança convidou-o a visitar Serpe.
Não se enganara.
Quando Polípio viu Serpínia, disse, surpreendido,
para Cófilas:
- Aquilo é mulher ou deusa?
- Se a quiseres, pode ser para ti!... - foi a resposta.
O príncipe aceitou a proposta. Estava diante duma beldade
como outra não tinha encontrado nas terras misteriosas do
sol nascente. Aqueles olhos castanhos e vivos eram ímans
que atraíam; aqueles cabelos loiros eram cadeias que prendiam.
Serpínia afinava pelo mesmo diapasão. Polípio
agradou-lhe à primeira vista e viu nele um príncipe
encantado das terras orientais. Foi chamado ao palácio o
sacerdote de Eliote para assistir ao contrato dos esponsais. Este
então recordou a Cófilas:
- Lembras-te do sonho que tiveste a primeira noite que dormiste
nesta terra que o destino nos reservou? Aqui tens a sua confirmação.
O ocidente e o oriente juntaram-se sob as bênçãos
de Eliote.
Cófilas
e Polípio firmaram um tratado de amizade e mútua defesa.
Além do casamento com Serpínia estipulou-se que os
fenícios estabelecessem uma feitoria comercial em Mírtilis.
Nesse porto ficariam sempre equipados com homens e material dois
navios fenícios que ao mesmo tempo patrulhariam o litoral
da Turdetânia, pelo menos enquanto o perigo não passasse.
Em caso de guerra com qualquer adversário cada um dos contratantes
prestaria mútuo auxilio.
Outrosim era estabelecida em Mírtilis uma escola naval onde
os túrdelos aprenderiam dos fenícios a arte de navegar,
e de se familiarizarem com as ondas. Assim, à face de tal
acordo ficavam inteiramente frustrados os intentos imperialistas
do chefe celta Rolarte, e a linda Serpínia ficava liberta
do seu mais terrível pesadelo.
O
castelo das loendreiras
Polípio
voltou para o oriente com a promessa de tornar breve, pois já
não podia viver muito tempo sem a presença de Serpínia
e a luz do seu fascinante olhar. O seu centro de gravidade estava
agora na Turdetânia. Quem lhe diria que tinha vindo encontrar
no "finis terrae" uma sereia mais sedutora de quantas
infestam os altos mares!...
Polípio partiu dividido em dois: no navio iria o seu corpo
apenas; sua alma e o seu coração amante ficariam em
Serpe.
O mar que separa continentes, divide terras, afasta reinos, não
é capaz de separar o amor; a distância, que tudo faz
esquecer, torna o amor mais próximo e mais vivo. Parece que
a saudade foi inventada por Serpínia quando, ao despedir-se
de Polípio, lhe ofereceu uma prenda constando de dois corações
de oiro entrelaçados por um S que tanto podia significar
Serpínia, como solidão de onde vem a palavra: saudade.
Na ausência do príncipe, todos os dias, quando o sol
despontava de manhã na orla do horizonte, Serpínia
subia a uma torre da fortaleza e dialogava com ele pedindo-lhe novas
do seu amado. E à tarde, quando o mesmo se escondia por detrás
das montanhas, na direcção do mar, ela enviava-lhe
uns beijos, recordando:
- Não te esqueças de os entregares ao Polípio
quando amanhã passares pela Fenícia.
De igual modo, sempre que o vento soprava das bandas do Levante,
Serpínia punha-se à escuta parecendo-lhe ouvir. nas
asas da brisa, a voz doce e maviosa do seu príncipe.
*
Serpínia
tinha uma grande formação e cultura para o seu tempo.
Já tinha viajado pelas Gálias e havia estado em Roma.
Tinha uma alma extremamente sensível à beleza. Amava
a arte, a poesia, a natureza. Cuidava de flores e dialogava com
elas. Parecia compreenderem-se maravilhosamente. Um de seus desportos
preferidos era a caça. Sabia manejar o arco e a flecha como
o mais hábil caçador de feras. Também no seu
tempo já se usava a espada com que ela sabia igualmente lidar.
O pai, conhecendo-lhe estas boas qualidades, alimentava-lhas, promovendo
de quando em quando uma caçada nas terras da Serra.
Vendo que a filha adorava a vida campestre e pretendia sair sempre
da cidade nas estações calmosas, mandou-lhe construir
um palácio acastelado no campo, na região da serra
onde o terreno, apesar de agreste tinha um clima agradável
e onde a caça abundava. A construção fizera-se
à borda do rio Limosino, afluente do Ana e o público
bem depressa a baptizara com o nome de "Castelo das Loendreiras"
em virtude dos muitos arbustos desta espécie que ali abundavam.
O palácio era rodeado de altos e fortes torreões que
lhe serviam igualmente de defesa além duma forte cintura
de muralha que o rodeava. Grandes portões de ferro davam
acesso ao palácio e ao jardim. Tinha uma vista panorâmica
maravilhosa. De seus torreões ameiados avistava-se grande
extensão de planície e de serra para todos os pontos
cardeais, divisando-se toda a depressão da bacia do no Ana,
de Serpe até Mírtilis.
As águas do Limosino eram represas por um açude e
alimentavam o castelo e o jardim. No jardim, amplo e bem cuidado,
sentia-se bem visivelmente a mão e o bom gosto da princesa.
Este tinha grandes alamedas e ruas curvilíneas rodeadas de
muitas e variadas espécies arbóreas. Ai se via o álamo,
a faia, o loureiro, o cedro, a palmeira e a oliveira, 'árvore
sagrada de Eliote. As flores abundavam por toda a parte onde grandes
trepadeiras se enleavam umas nas outras e às grandes árvores
dando ao conjunto uma visão de sonho.
Para além dos muros do jardim desdobrava-se a serra em montículos
sucessivos formando na paisagem, áspera e solene, gracioso
desenho, como se fossem gigantes entretidos em jogo de xadrez.
O mato
abundava salientando-se a esteva viscosa e o rosmaninho penitente,
cujo perfume acre embalsamava o espaço. As noites de luar
revestiam-se de graciosa majestade e nostálgica poesia quando
a chuva de prata incidia sobre as campinas em silêncio. As
estrelas brilhavam sempre com meigas cintilações.
De dia o céu encantava com o seu azul turquesino, puro e
translúcido, onde quase se não distinguia um leve
esfumado de neblina.
Serpínia,
além das flores, do céu azul, das estrelas e da caça
amava também os passarinhos. Possuía gaiolas com
várias espécies. As filomelas , pareciam conhecer-lhe
este fraco pois vinham com frequência entre as trepadeiras
que
estavam junto à sua janela trinar seus concertos orfeónicos.
Certa
vez uma andorinha lembrou-se de fazer o ninho no pátio do
castelo, sob um beiral que muito lhe agrada. Serpínia achava
graça e risonha poesia à maneira engenhosa como as
industriosas andorinhas construíam suas curiosas habitações.
Primeiro água no bico e borrifavam o lugar onde pretendiam
fazer o ninho. Depois eram pedacinhos de barro atrás uns
dos outros: - põe aqui, põe ali, deita acolá,
ajeita agora, ajeita logo e dentro de pouco tempo estava um autêntico
palácio aviário. Depois era a prole. Que lições
de paternidade, que lições de amor para os homens!...
Em dada altura, quando as novas andorinhas estavam já crescidas,
Serpínia mandou apanhar uma e atou-lhe ao pescoço
uma placazinha de madeira muito fina, quase transparente, com estes
dizeres: - "Serpínia envia recados a Polípio".
Enquanto
esteve no ninho as irmazinhas desta entre- tinham-se a debicar na
placa. Chegou a altura de levantar voo. E a privilegiada da mensagem
por ali volitou algum tempo com o seu adorno a que a princesa achava
imensa
o graça. Depois veio a emigração. Diz-se que
no ano seguinte os passaritos voltaram ao mesmo local e lá
vinha a mensageira trazendo ainda a mesma placa. Teria volitado
pelas terras do oriente? Ter-se-ia desempenhado do seu recado? Se
outra lição não tivesse ficado deste episódio
bastava a sua poesia, a sua delicadeza amorosa, o sabor de bucolismo
que ele contém para o tornar simpático.
*
Já
dissemos algures que Serpínia tinha deliciosa predilecção
pela caça.
De quando em vez convidava cortesãos e altas dama. para uma
batida aos lobos e javalis. A's vezes as empresas venatórias
tornavam-se perigosas, quando os arcos e as flechas não andavam
por mãos hábeis.
Em
dada ocasião um caçador feriu corpulento javali que
não conseguira abater. O animal, furioso como um leão,
desbocou enraivecido e atira-se a tudo que encontrava. Dava saltos,
afiava as cortantes presas e até estripou dois cavalos e
muitos cães. Entre os caçadores estabeleceu-se pânico.
Havia já senhoras desmaiadas e cavalheiros empoleirados em
cima das árvores. Serpínia apercebeu-se do que havia
e resolveu enfrentar o perigo.
O javali tomou rumo ao seu grupo. A princesa correu para cima dum
rochedo, onde não era fácil ser atingida pelo animal.
Este, cada vez mais furioso, empoleira-se ao rochedo a tentar trepar.
Foi nesta conjuntura que Serpínia, com admirável sangue
frio, desfechou com êxito feliz, duas setas que atingiram
o javali na cabeça, entre os olhos, dando-lhe morte rápida.
Foi
uma sensação de alívio para os caçadores
e um autêntico triunfo para a princesa, a qual foi muito aclamada
pela sua admirável proeza que, durante muito tempo, andou
de boca em boca.
O corpulento javali foi oferecido em holocausto a Eliote em acção
de graças, ficando a cabeça embalsamada numa das salas
do castelo.
Cófilas, quando soube da proeza venatória da filha
mandou-lhe os parabéns, com esta missiva laudatória:
- "Nada tens que invejares a Diana. O teu arco tornou-se terrivelmente
fulminante!".
Sonho de amor
O amor
é o mais doce e o mais tirano dos verdugos. Tanto beija como
fere; tanto louva, como vitupera; tanto enobrece, como mata.
As maiores criações do mundo e as mais aviltantes
tragédias do Homem costumam ter por base e inspiração
o amor. É o amor que funda nações e destrói
impérios; faz os santos e até gera os criminosos e
facínoras. É que o amor tem várias facetas
e opera em diversas direcções. Pode vir do céu
ou desentranhar-se do meio da lama; pode ser perfume balsâmico
ou hálito pestífero; pode presidir a uma ressurreição
ou gerar uma carnificina; pode ser mar de virtudes ou então
furacão impetuoso de paixões.
Tudo depende da qualidade do amor: se do céu, se da terra;
se dom de Deus; se produto do mundo inferior do homem.
Sim... o amor é um anjo de asas brancas que acaricia... .e
pode ser demónio que flagela em antros escuros.
Serpínia sentiu este martírio do amor.
*
Era
uma tarde emoliente de primavera. O céu, por entre nesgas
de nuvens esbranquiçadas, parecia mais azul do que vez nenhuma.
No espaço corriam manchas de algodão impelidas pelo
vento tépido da tarde. No jardim, intensamente florido, volitavam
doidamente borboletas multicores, enquanto abelhas industriosas
iam de pétala em pétala sugando o saboroso néctar.
O cheiro acre da esteva florida e do penitente rosmaninho chegava
até ao castelo das Loendreiras. À beira do Limosino
alinhavam-se, frondosas e cheias de majestade, renques de árvores
esbracejando generosamente ao vento da tarde. A cabeleira basta
dos chorões ondulava ao capricho da brisa enquanto o ciciar
das faias formavam sibilante cadência de dança orfeónica.
Além,
entre silvedos e madressilvas cheirosas, uma filomela repenicava
seus trinados aliciantes. Era uma tarde de poesia repassada de lirismo
caldeado com suspiros de cupido.
Toda a natureza parecia orquestra suave e harmoniosa a entoar laudes
ao Amor invisível.
Serpínia
sentiu-se transportada às plagas do Oriente. A silhueta doce,
risonha de Polípio desenhava-se vivamente
na tela da sua imaginação viva e escaldante, fazendo
pulsar-lhe o coração em ritmos mais acelerados.
O sol da meia tarde, coado por algumas nuvens de arminho, havia
diminuído suas ardências. A princesa loira sentia necessidade
de expandir, com a natureza, seus colóquios de amor.
Chama, por isso, Galiosa, a aia fiel de todas as horas, para uma
deambulação pelos jardins.
Depois de alguns passos ao acaso foram ambas sentar-se num banco
de pedra sito debaixo de frondosa palmeira rodeada de cedros odoríferos.
Pelas abas destes trepavam grinaldas de roseiras dos canteiros próximos.
Mesmo em frente, para além dum pequeno parapeito de pedra
tosca, deslizavam, plácidas e claras, as águas do
Limosino.
Serpínia
foi a primeira a quebrar o religioso silêncio daquela tarde
de amores.
- Que lindo está tudo, minha boa Galiosa... tudo isto é
vida, beleza e poesia.
- Tens razão, linda princesa. Tudo são dons de Eliote.
Mas porque olhas tanto na direcção do oriente?
- Lembro-me de Pol1pio.
- Olha mais para o sul. mais na direcção de África.
A estas horas já ele vem em pleno Mediterrâneo ou talvez
já tenha ultrapassado as Colunas de Hércules.
- Dizes bem, Galiosa: ele deve chegar a Mírtilis por estes
dias. Vem ultimar os preparativos para o nosso casamento.
E Serpínia
sorri com delicioso bom humor.
- Ficas entre nós ou vais para o Oriente? - interrogou Galiosa.
- Não sei. Tanto se me dá, contanto que goze a presença
de Polípio.
- Connosco, os turdetanos, já não acontece o mesmo,
insistiu Galiosa. Se te retiras, temos a impressão que na
nossa doce pátria passará a ser sempre tarde ou manhã...
Sem a luz dos teus olhos castanhos já não haverá
para nós pleno meio dia!
- Muito obrigada pela amabilidade, retorquiu a princesa, volvendo
de novo os olhos para Leste.
Depois:
- Sabes, Galiosa: Sinto-me a mulher mais feliz do Mundo. Quando
me vi livre das garras de Rolarte senti a felicidade da avezinha
que sai da gaiola e se arremessa ao espaço. Era, porém,
ainda só meia felicidade. A felicidade inteira, completa,
encontrei-a quando encontrei Polípio. Os olhos felinos do
chefe celta já não tornarão a poisar sobre
mim. Passou a era das apreensões e dos pesadelos.
Galiosa
contraiu o rosto, como se fora vergastada por uma chicotada maldita.
Fica silenciosa, olhando a distância.
- Duvidas, minha boa aia?
- Não duvido, temo.
- Temes o quê?!...
- A vingança de Rolarte.
- Sonhas, Galiosa, retorquiu Serpínia, rindo com certa desenvoltura.
- Não sonho: estou até muito acordada. E acrescentou:
- Não te lembras do Juramento de Rolarte:
- Hei-de apoderar-me de Serpínia morta ou viva?!...
A princesa
estremeceu e sentiu calafrios ao recordarem-lhe um juramento maldito.
Depois, disfarçando:
- Antes da aliança com os Fenícios temia, agora não.
- Mas a Fenícia está para além dos mares, em
terras da Ásia...
- Mas as suas naus patrulham as águas do Ana, e daqui lá
a distância não é grande.
E a princesa, com o braço estendido, onde se via uma mão
de açucena, aponta, ao longe, o cimo dos montes que circundam
Mírtilis, a perderem-se na neblina esfumada da tarde.
- É além!...
- Bem vejo, Serpínia, bem vejo. E a prudente aia, insistiu:
- É perto, relativamente perto, mas para um rapto basta uma
hora.
- Estás hoje muito pessimista, Galiosa.
- Diz realista. Estou a ver as coisas como elas são ou podem
vir a ser.
- Rolarte está longe. . .
- Que Eliote te oiça e nos defenda.
- A propósito de Eliote... recorda Serpínia, que um
criado vá hoje a Serpe e leve para o seu altar uns ramos
de oliveira e umas flores de loendreira. Simbolizam paz e amor.
- Já os mandei, como ontem tinhas indicado.
- Agradeço os teus cuidados.
- Porque olhas tanto para aquela palmeira em frente do meu quarto...
interrogou de novo Serpínia.
- Lembro-me...
- Do quê?
- Queres que diga?
- Já...
- Esta noite acordei ao piar sinistro dum mocho agoirento que, poisado
naquela palmeira piava... piava... piava...
e isto por mais duma hora. Quando ele voou, uma coruja passou grasnando
também pelo mesmo sítio. Isto não é
bom sintoma nem presságio consolador dizem os aurúspices.
- Olha - Galiosa - nunca fui supersticiosa e em vez de temer o canto
das avezinhas alegro-me com ele.
- Também eu, quando elas são canoras. Agora estas.
. . estas... estas são piadeiras.
- Bom. .. disse Serpínia com ar desenvolto: falemos de coisas
alegres. Repara naqueles canteiros de flores. Que inebriante perfume
balsamiza este ambiente.
- Aquelas. .. além... foram plantadas por mim.
- Lá estás tu com essas vaidades espevitadas... não
tas quero roubar; mas são do meu jardim...
Era
já meia tarde. O sol iam rodando para o ocaso através
do manto azul da celeste abóbada. As sombras alongavam-se.
A grande alameda onde ambas se encontravam, e que ia desembocar
no rio, parecia agora um túnel, tão cerradas eram
as sombras. Lá em baixo ouvia-se o rumorelhar das águas
do Limosino, cuja serpente prateada as interlocutoras viam dali.
Serpínia tornou a olhar na direcção do nascente
e cortou o silêncio, apontando o rio:
- Sabes, Galiosa: quando estas águas juntas às do
Ana chegarem à foz para se misturarem às do oceano,
talvez já lá encontrem as naus fenícias com
Polípio. Sim... ele deve vir já perto.
- Se assim é deixa-me saudá-lo: quero que ele ao tocar
águas turdetanas encontre logo os nossos cumprimentos e vivas
saudações. Levanta-se, com surpresa de Serpínia
e vai para um lindo canteiro de flores.
- Que vais fazer?
- Espera. . .
Galiosa, entre sorrisos e ditos engraçados, colheu um braçado
de flores e, debruçando-se sobre o parapeito do muro que
dava paro o rio, começou a atirar as flores à água,
dizendo:
- Ide... ide... saudar Polípio.
- Ide... ide... saudar Polípio.
Serpínia achou profundamente original a ideia de Galiosa
e foi imitá-la. Colheu algumas das flores mais perfumadas:
lírios, rosas, açucenas, cravos, amores perfeitos
e começou também a deitá-los ao rio. Naquele
momento a chama do amor ausente, acende-lhe o estro poético
e ela principia, qual boa discípula de orfeu, a cantar:
- Correi, pétalas, correi...
- Ao encontro do amado,
Que vem nas águas do mar,
Em lindas naus embarcado.
Algumas
flores noa eram obedientes. Boiando ao cimo das águas algumas
faziam reentrância, queriam voltar atrás, redemoinhavam;
outras ficavam presas e enlaçadas a madres- silvas, loendreiros
e outros arbustos pendentes sobre as águas. Ela então,
com uma comprida vara, desprendia-as, acelerava- lhes a marcha:
- Correi todas...
- Correi...
- Correi...
A veia
poética aflora em catadupa; o amor vibra nas cordas mais
sensíveis da alma; a paixão é tempestade...
por isso os lábios ardem e ela continua a cantar:
Águas,
flores, ventos, brisas...
Sêde-me bons, por favor;
Levai ao meu bem amado,
Meus ternos beijos de amor.
Beijava
as flores e atirava.
De
novo, uma e outra vez, com a varinha acelerava as mais retardatárias,
repetindo:
Levai...
Levai...
Levai...
O
primeiro assalto
O idílio
continuava entre risos e poesias, quando vieram dizer à princesa
que estavam ali uns comerciantes de pérolas com lindas prendas
de noivado. Montavam a cavalo e pareciam ser celtas, pois falavam
mal o túrdelo.
Galiosa sobressaltou-se logo e Serpíia ficou surpresa:
- Mercadores?.. Vamos ver.
De
facto as mercadorias eram lindas, mesmo tentadoras. Comprou para
si um colar de finas pérolas e um alfinete com diamantes
para o noivo.
Vendido
o peixe, os três mercadores deram de esporas aos cavalos e,
com uma grande vénia, retiraram na direcção
leste, internando-se no mato, para além dum cabeço,
em frente.
Galiosa estava presente e examinava com extrema curiosidade as palavras
e os gestos dos adventícios. Desaparecidos estes, diz para
Serpínia:
- Não me sorri o dia. Oxalá estas prendas não
nos venham a ficar demasiado caras...
- Porque dizes isso?!...
- Porque digo? Talvez tenha razões...
- Explica-te...
- Por ventura, princesa, não notaste nada de estranho nestes
inesperados?
Eles eram celtas e eu notei que o terceiro não se aproximou
fingindo segurar os cavalos. Reparei que ele tinha na mão
um estilete e tábua encerada. Tirava não sei que apontamentos
e fazia uma espécie de planta do castelo. Quando me aproximei,
guardou... e, para disfarçar, perguntou-me:
- Gosta das prendas?
- Eu interroguei por minha vez:
- - Gosta do nosso castelo?
E ele:
- Maravilhoso!... E está bem defendido... não há
perigo de assalto.
- Notaste isso?! . . .
- É como te digo.
- Mais ainda: não tens estranhado essa chusma de mercadores
do mesmo género que nos últimos tempos tem enxameado
as nossas terras, indo até Serpe? Eu estou em crer que isto
são espiões celtas às ordens de Rolarte.
- Que me dizes?!...
- Nem mais nem menos. Ele ronda as nossas fronteiras e não
esqueças o seu ímpio juramento.
- Serpínia corou e sentiu-se um tanto trémula.
Depois:
- Não será isso pessimismo?
- Não é pessimismo, é prudência.
- Sendo assim, que me aconselhas então?
- Olha, a guarnição do castelo noa é muito
forte; manda vir ainda esta noite reforços e envia ramos
de oliveira ao templo de Eliote pedindo ao sacerdote que ore...
que ore por nós.
Serpílnia, embora estivesse optimista, achou prudente transmitir
ordens.
*
A noite
caíra sobre a planície erma. Noite pesada e triste.
Espessas nuvens se tinham levantado ao pôr do sol cobrindo
o céu duma placa de chumbo. A custo cintilava uma estrela
por entre os interstícios das nuvens. A lua só muito
de madrugada havia de nascer, e era quarto minguante.
Um vento agreste sussurra fortemente na copa ramuda das árvores
que se torcem e gemem. O ambiente sabe a música desafinada,
áspera e importuna. A escuridão cerra-se mais e mais.
No ar pesado parecem vaguear medos e pesadelos. Nem se ouve ao longe
qualquer rugir de fera. Os próprios irracionais, temendo
a tempestade jazem acoitados em seus covis. Sopra mais o vento,
assobia nas ameias do castelo, silva com estridência nas frinchas
das portas, rebolam folhas de árvores pelos telhados. É
uma dança macabra. O ambiente é de enervante nostalgia.
É noite tétrica... Noite de assassinos... Noite de
bandidos... Noite de crimes.
Serpínia olhando através da janela a paisagem escura
e solitária na direcção do sul só pede
a todos os deuses que a nau de Polípio não seja surpreendida
por qualquer tormenta.
A noite avança. Os membros estão entorpecidos de lassidão;
os cérebros pesados da atmosfera densa; o sono ronda os pobres
mortais.
Para além do mato há olhos que não piscam de
sono porque são olhos de traidores e a traição
age de preferencia na calada da noite.
Serpínia recolhera-se a seus aposentos. Ainda não
adormecera. Vagueia com o pensamento ao ritmo do soprar do vento.
O pai deve estar em Mírtilis, Polípio já deve
navegar em águas túrdelas.
De
repente Galiosa bate-lhe à porta.
- Que há, interroga.
- Tenho um mau pressentimento. Há momentos estava na torre
mais alta do castelo a sondar o panorama e parece-me ter visto na
direcção de leste muitas luzes.
-Talvez fossem olhos de feras...
- Depois ouvi como um trotear de muitos cavalos...
- Deve ser o vento a fustigar as árvores...
- Por sim, por não, Serpínia, manda às sentinelas
que estejam bem de vela e vigiem. Olha, quase que jurava ter ouvido,
no meio do mato o relinchar de cavalos.
- Talvez fossem os nossos próprios. Confia: Eliote está
connosco. O sacerdote ora no templo. Cerrou-se mais a noite. Além
das paredes do castelo nada mais se vê. Só lá
em baixo, à beira do jardim se percebe o gorgorejar das águas
do açude.
Alta
madrugada, antes da lua despontar, ouviu-se um inquietante alerta
da sentinela. Acorrem os reforços. Inimigos estavam a pretender
assaltar o castelo. Organiza-se a defesa em volta de todo o edifício.
O primeiro embate foi duro, felino, confuso. Relincham cavalos,
atiram-se setas, partem-se escudos e ouvem-se gritos de desespero.
Já há mortos e feridos. O atacante busca uma porta
por onde possa entrar.
Em vão; está tudo bem defendido.
Os defensores do castelo defendem-se com fúria leonina. Serpínia
e Galiosa acordaram ao som do alarido e estridor das armas. Informadas
do que se passava encheram-se de bravura e queriam sair para fora,
de armas na mão, mas os soldados não permitiram. Subiram
então às torres e de lá atacavam com pedras
e matérias inflamáveis. O inimigo atacava, vociferava,
praguejava.
Saíram-lhe errados os planos. Julgavam o castelo sem defesa.
Passado tempo diminuíram de impetuosidade, enfraqueceram
a resistência, recuaram.
Vinha rompendo a manhã. Vendo a impossibilidade de tomar
o castelo os sitiantes empreenderam a fuga e internaram-se no mato,
sendo perseguidos até longe. Tinha-se frustrado o assalto.
Por confissão dos prisioneiros soube-se que eram soldados
de Rolarte. Este, conhecedor da aliança de Cófilas
com os Fenícios e os esponsais de Serpínia com Polípio,
há muito que projectava raptar a princesa túrdela.
Sabendo-a, pelos seus espiões disfarçados em mercadores
que ela se encontrava naquele palácio de campo, longe de
Serpe, achou asado o momento. Infiltrando-se pela fronteira da serra
onde não era fácil encontrar resistência veio
a acampar no meio do mato, a alguns quilómetros de distância.
O primeiro assalto foi uma tentativa de seus homens mais audaciosos
que prometeram levar a efeito o rapto, sem o chefe expor a sua vida.
Frustrada esta primeira tentativa eles voltarão. Rolarte
agora ardendo em cólera e consumido de vergonha planeará
nova vingança. Não é homem que desista ao primeiro
fiasco.
Serpínia, conhecedora destes planos, mandou a todo o galope
emissários a Mírtilis dar conhecimento a Cófilas
do que se passava ao mesmo tempo que prevenia a fortaleza de Serpe.
Os emissários caminhando em marcha forçada, depressa
galgaram a distância que separa Mírtilis do Castelo
das Loendreiras. Por felicidade Polípio havia chegado nessa
madrugada com homens e navios. Cófilas e futuro genro, com
grande contingente de homens, puseram-se a caminho e, ao anoitecer
estavam à vista do castelo. Serpínia foi recebê-los
por entre grande alvoroço e lágrimas de alegria. Não
contava com Polípio ali em tal contingência. Este respondeu:
- "O amor não sabe esperar e é nos perigos onde
mais se aquilata o seu vigor.
Serpínia agradeceu-lhe e caiu-lhe nos braços plena
de emoção. Cófilas abençoou a filha
e louvou-a pela sua grande coragem. Agora estava salva a situação.
De Serpe já haviam também chegado reforços.
Cófilas, ouvidos também os prisioneiros celtas, logo
se apercebeu da situação e dispôs tudo para
uma resistência forte e eficaz. Serpínia tornou ainda
a mandar essa noite ramos de oliveira e flores de loendro para o
altar de Eliote.
A
derrota
Os
génios do mal são fecundos em planos perversos e por
via de regra são vitimas do seu orgulho. O orgulho é
um vírus que mata sempre seus próprios senhores. Rolarte
era mau e orgulhoso. Tinha as duas qualidades mais perversas do
génio do mal.
Ao ter conhecimento do fracasso do primeiro assalto ao castelo das
Loendreiras desmaiou de indignação, rangeu felinamente
os dentes, crispou as mãos de cólera e, fora de si,
gritou:
- Vingança... Vingança... não há vingança
bastante para eu me poder vingar. E logo planeou o segundo assalto
para aquela noite afim de não dar tempo a organizar-se uma
defesa eficiente. Não sabia o que se passava no castelo,
desconhecia a chegada de Polípio. O dia passou-se em planos
de estratégia à face dos dados colhidos pelos falsos
mercadores.
O tempo estava tempestuoso e por isso favorável a um assalto
desta natureza. Sobretudo o que importava era:
- Vingança.. Vingança...
Anoitecera.
De novo um denso céu de crepes tornou a envolver a terra.
Escuro cerrado; vento irritante; aliança das trevas... e
eis alguns de seus aliados para aquela noite. Choveu muito durante
o dia e a noite estava, por igual, densamente nublada. Rolarte dividira
seus homens em quatro grupos afim de atacarem o castelo por todos
os lados dando assim ao adversário a impressão de
que eram legião.
Cerra-se mais atreva; adensa-se a noite; carregam-se mais as nuvens;
o vento assobia.
Cófilas tinha emboscado seus homens a centenas de metros,
em pontos estratégicos exactamente na direcção
dos quatro pontos cardeais. Mandou que no castelo nem uma luz acesa,
tudo às escuras afim de dar ao inimigo a impressão
ou que tinha sido abandonado ou que estavam desprevenidos. As horas
passam lentas, angustiosas, apreensivas.
Alta madrugada a assaltante aproxima-se. Nas torres do castelo vigia-se
bem desperto.
Rolarte, aceso em cólera, exclama ao dar ordens de atacar:
- "Ó deuses: - que o ódio realize o que não
conseguiu o amor!..."
No momento oportuno saíram de seus esconderijos os túrdelos
que, de improviso, carregaram sobre o inimigo.
Espalha-se a confusão, o desespero. Há vítimas
e destroços pelo chão. O escuro da noite, a lama do
terreno, devido à chuva, emprestam ao cenário mais
lugubridade, tetrismo e pavor. A dor e a morte encontravam-se frente
a frente. Os atacantes viram-se envolvidos por uma resistência
tenaz com que não contavam. Desesperam, a vitória
foge-lhes momento a momento.
Rolarte
é mortalmente ferido. Os seus homens recuam, cedem terreno,
debandando. É a derrota. A fuga precipitada está diante
deles como única solução de salvamento.
Cófilas foi impelindo o inimigo para as margens do Limosino.
Este rio levava uma cheia formidável em virtude das chuvas
torrenciais que haviam caído em certas regiões. Rolarte
julgando ainda uma possibilidade de escapar às mãos
de Cófilas meteu-se à água tentando atravessar
o rio. Cavalo e cavaleiro iam muito feridos. Em tão má
hora se meteu à água que o cavalo escorregou nas pedras
roliças deixando cair o cavaleiro que foi arrastado pela
torrente impetuosa.
Cófilas e Polípio presenciaram a cena e queriam havê-lo,
às mãos, vivo. Ainda fizeram tentativas para o salvar,
mas em vão. Rolarte submergiu-se na torrente e desapareceu
para sempre. Estava terminado o drama doloroso. A tragédia
pusera termo a uma louca aventura.
O
CONSÓRCIO
Ocidente e Oriente de mãos dadas
Polípio,
o príncipe fenício de olhos azuis, barba ruiva e tez
morena fizera boa estreia para conquistar definitivamente Serpínia.
Era um amor e um herói. Sabia amar, lutar e combater. Herói
no mar e na terra, ia ser também herói nos segredos
do amor. Serpínia, a mulher mais linda que até ali
havia visto, estava-lhe destinada. Túrdelos e Fenícios
podiam regozijar-se com a estrondosa vitória, ocidente e
oriente podiam dar as mãos num simbolismo histórico
que os séculos futuros haviam de registar como predomínio
do ocidente sobre toda a face do globo. O Castelo das Loendreiras
fora eterna testemunha da dupla vitória duma mulher singular:
acabar com o pesadelo dum monstro apaixonado que fazia tremer as
pedras e conquistar um amor que enlaçava duas nações,
unia dois continentes. Serpínia ficava uma heroína
para a história.
A dupla
vitória foi largamente festejada. Os vencedores entraram
em Serpe por entre arcos e festões, palmas e flores, no meio
de aclamações ruidosas como a capital túrdela
nunca tinha presenciado.
Num luxuoso carro puxado a quatro cavalos Serpínia seguia
no meio de Cófilas e de Polípio. Sorrisos, ovações,
acenar de braços, vivas, aclamações eis o ambiente
que reinava por toda a parte. O cortejo triunfal seguiu pelas ruas
principais e foi terminar no templo de Eliote onde Serpínia
depôs ramos de oliveira e de loendreira e se ofereceu um sacrifício
solene.
As festividades continuaram no dia seguinte com o casamento real
e prolongaram-se por duas semanas.
*
No
meio de tanto regozijo uma nuvem de tristeza cobria o coração
de todos. Por certo iam ficar sem a sua idolatrada princesa a quem
a Turdetânia já tanto devia. O oriente esperava por
ela.
A os clamores da vitória, ao incenso dos sacrifícios
juntavam-se já as tristezas da próxima separação
e as lágrimas ardentes duma saudade infinda.
Serpínia é uma radiosa estrela do ocidente que vai
iluminar as terras do oriente; é uma beldade destinada a
ofuscar todas as beldades das terras dos beduínos, onde vagueiam
civilizações e passam caravanas admirando os arcos
desmantelados de Palmira, os templos soterrados dos Hititas, as
ruínas monstruosas de Balbek.
Diante da beleza de Serpínia, havia de desmaiar a beleza
de Artemisa de Palmira; os Egípcios haviam de achar demasiado
feia sua admirada Cleópatra e Helena de Troia cairia em eterno
desespero.
Mais ainda: quando Serpínia aparecesse no oriente não
mais Salomão olharia para os encantos da Rainha de Sabá.
Depois as formosas: Célia dos Hititas, Zeliana dos Babilónios,
Artésia dos Assírios, ficariam arrumadas a um canto
como gente sem valor, corno beldades ultrapassadas.
Se tais pensamentos regozijavam os turdetanos a ideia da separação
atormentava-os.
o
ADEUS
Entre os Europeus e a Ásia
O destino
é sempre o destino: tem de cumprir-se. Não é
um cego fatalismo, é um selo da providência; não
é uma coincidência fortuita é, sim, o sinal
da mão de Deus a marcar a fronte do homem. Serpínia
está destinada a ser rainha de Tiro e Sidónia.
Para além do Mediterrâneo, confinando com as terras
que um dia o Cristo transitará na sua passagem pelo nosso
planeta, está o seu trono.
A partida aproxima-se. O reinar é também um dever,
um serviço que tem de cumprir-se. Os navios estão
já surtos no porto de Mírtilis. Está firmada
uma aliança forte e duradoira entre a Fenícia e a
Turdetânia que dão as mãos por cima do Mediterrâneo.
Mírtilis, embora no território turdetâneo, é
uma faceta do rosto da Fenícia e fica a servir de ponto de
enlace, rota de cruzamento entre os dois povos amigos.
Serpínia vai partir.
Como piedosa e crente quis na véspera da partida, ir ao templo
de Eliote oferecer um sacrifício e entregar um ex-voto. Este
constava da seguinte oferta: uma preciosa rosa de loendreira feita
de oiro e pedras preciosas dádiva de seu pai e que lhe adornava
o gracioso cabelo no dia do casamento. Numa das pétalas da
rosa estava gravado o nome de Serpínia, noutra o castelo
das Loendreiras. Na base do castelo via-se a cabeça dum dragão
representando a vitória sobre Rolarte. Assentava tudo sobre
um escudo rodeado de folhas de oliveira, a árvore sagrada
de Eliote.
Este brasão ficaria a ser as armas de Serpe e conservou-se
no templo até à sua destruição nas inquietas
vicissitudes da história.
*
Chegou
por fim o dia da partida. Aproximava-se a hora do embarque. O sol
radioso duma serena tarde de primavera iluminava com revérberos
de oiro o casario de Mírtilis construída em anfiteatro
na encosta do alto morro, bem como as campinas circunjacentes e
as águas plácidas do Ana.
Era bem uma tarde de amorosa saudade.
Serpíia e Polípio acompanhados de Cófilas e
grande comitiva chegavam a Mírtilis. As naus estavam surtas
nas águas do rio todas embandeiradas.
Sorria a natureza, choravam os corações. Uma separação,
ainda quando para melhor, é sempre dolorosa.
A fortaleza de Mírtilis erguida no cimo do morro escarpado
pelos homens de Polípio, espelha-se agora nas águas
do rio.
Serpfnia desce ao cais.
A multidão ovaciona e chora. Vai-se a luz da Turdetânia.
Os mareantes fazem os últimos preparativos. Polípio,
como elegante surpresa, havia posto o nome de Serpe àquele
navio que devia levar a princesa. Este voltaria muitas vezes às
águas da Turdetânia afim de mitigar as saudades dos
turdelos.
A princesa ajoelha-se aos pés de seu pai carinhoso e bom.
É a hora amarga da despedida. Depois sobe para o navio e
acena à multidão. No ar há lenços e
braços a saudar e nos olhos abundância de lágrimas.
- Adeus... Adeus... era o grito que irrompia de todas as bocas e
ecoava pelas quebradas dos montes.
A emoção atinge o seu auge quando o navio inicia a
marcha. Serpínia, de pé, acena à multidão.
Já não pisa terra da Turdetânia, mas ainda lhe
pertence. Galiosa, a aia sempre fiel acompanha-a ao Oriente.
- Adeus!... Boa Viagem!... Felicidades! - continua a gritar a multidão
em coro. Serpínia sorri na plenitude da sua felicidade. Tiro
e Sidónia esperam por ela.
Vai entardecendo cada vez mais. O ambiente é de emoção
e de saudade. Respira-se a dor da despedida com a glória
duma exaltação. O Serpe, que leva a pérola
da Turdetânia, é seguido por muitos barcos de recreio
engalanados. Desliza agora sobre as águas plácidas.
Ao longe ainda se vê a silhueta esguia e bela de Serpínia,
a quem o povo continua a dizer:
-Adeus!...
E o navio desliza até desaparecer numa curva do rio.
NOTA
Quisemos
oferecer aos Serpenses esta leve brochura e modesto trabalho sobre
uma das graciosas lendas acerca da fundação da sua
terra. Fomos bebê-la a velhos documentos perdidos, esquecidos
no pó dos arquivos. Não há dúvida de
que Serpa "histórica e velhinha, berço da minha
vinda ao mundo, é uma das povoações mais antigas
da Ibéria. É certo que a sua fundação
imerge nas sombras densas da pré-história. Ninguém
poderá saber ao certo qual o dia, o ano em que do solo vermelho
em que assenta emergiu o primeiro muro de suas casas e se delineou
a sua primeira rua. Os tempos guardaram para si este mistério
que o génio do passado arquivou nos subterrâneos das
idades.
Uma
coisa singular: os tempos e as vicissitudes históricas respeitaram
sempre inalterável seu nome primitivo com
que fora baptizada, caso único, estamos em crê-lo,
nas velhas terras da Lusitânia. Isto parece confirmar o carácter
sagrado que presidiu à sua fundação. Esperemos
que no último dia do Mundo, se Serpínia ressuscitar,
ela nos desvende esses mistérios.
Sempre
me interessei vivamente pelos problemas de Serpa e não quis
deixar de lhe ofertar este pequeno obséquio que Ela, provavelmente,
saberá agradecer.
Sim.
.. a fundação de Serpa ter-se-á dado como aqui
se descreve.
Qualquer
outra lenda é inverosímil.
O AUTOR,
C.
J. GONÇALVES SERPA
Composto
e impresso na Oficina Torriana - Torres Vedras.
Serpínia,
A Princesa Feliz
«Cófilas,
Rei dos Túrdulos, fez aliança com os chefes Fenícios e, naquele
porto, construíram uma cidade a que deram o nome de Mirtilis, em
honra da Deusa Mirto, sua mãe que o teve de Mercúrio.»
In
- http://www.alentejodigital.pt/serpa/lendas.htm
- in ARQUIVOS de SERPA – (Câmara Municipal), de João Cabral, Serpa
1971, pp.165 -167
|
|
Serpínia,
A Princesa Feliz
Era
uma Vez.... uma jovem e linda Princesa, muito linda, chamada
Serpínia, que vivia nas longes terras do outro lado da Ibéria,
lá para os altos Pirineus. Seu pai, Cófilas, rei dos túrdulos,
tribo da Ibéria, era um homem bom.
Num
País vizinho, vivia um outro rei, de raça, celta, que era
cruel e muito ambicioso, Rolarte de seu nome, que quando viu
a formosa princesa quis casar com ela. Mas a princesa não
se agradou dele.
Um
dia um Príncipe, Orosiano, visitou o Rei Cófilas e a
sua filha Serpínia. Os dois príncipes gostaram um do outro
e combinaram casar.
|
Mas
o rei Rolarte, quando soube, não gostou que Serpínia fosse dada
em casamento a Orosiano e jurou vingar-se tratando logo de reunir
os seus soldados e de fazer guerra a Orosiano.
O
Noivo de Serpínia morreu e Rolarte ficou ferido.
O
Rei dos Celtas não ficou satisfeito com a morte de Orasiano a jurou
fazer guerra ao pai de Serpínia, mas este, informado do que Rolarte
preparava, abalou para as longínquas paragens da outra banda da
Península Ibérica.
E
andaram, andaram até chegarem a um sítio onde a Princesa se sentiu
encantada com as formosas Terras que seus belos olhos avistavam.
Campos recorbertos de luxuriantes verduras, flores campestres a
perfumarem os ares que respirava, tudo prenunciando abundância de
água, de terras férteis, ubérrimas.
Serpínia
logo deu parte a seu pai de que gostava destes sítios.
Cófilas
examinou a região. Tudo aparentava terras fartas e amenidade de
clima. Perto corria o Ana. Por toda a parte se viam Oliveiras,
muitas Oliveiras, a garantir alimento, untura, tempero e luz
na candeia.
E
logo ali acamparam e escolheram local para construir uma cidade
que ficou a ser a capital de novo reino.
E
em homenagem a Serpínia, a formosa filha do Rei Cófilas, à
nova cidade se ficou chamando Serpe. Esta seria a capital da Turdetânia,
o novo reino criado na região do Ana, hoje chamado Guadiana, e que
se estendia até ao mar.
Tempos
depois chegou a Serpe a notícia da vinda até um Porto do Ana,
aonde chegavam as águas salgadas do mar, de barcos Fenícios - povo
de navegadores que vivia no Norte de África.
Cófilas,
Rei dos Túrdulos, fez aliança com os chefes Fenícios e, naquele
porto, construíram uma cidade a que deram o nome de Mirtilis, em
honra da Deusa Mirto, sua mãe que o teve de Mercúrio.
Em um dos
barcos vinha um Príncipe, jovem , guerreiro e bem parecido, que
ao ver Serpínia se apaixonou por ela. E Serpínia amou Polípio, o
belo Príncipe Fenício. E logo ficaram noivos.
Polípio regressou
à Fenícia. E Serpínia, enquanto esperava o seu noivo, dedicava-se
à caça pelo que seu pai lhe construiu, à beira do Rio Limosine,
que ia desaguar no Ana, um castelo onde ela ficava quando
ia caçar. Ali havia muitos loendros e Serpínia deu à sua
nova casa o nome de Castelo de Loendros.
Serpínia
já tinha esquecido Rolarte, mas Rolarte não esquecera Serpínia,
nem a vingança de que lhe jurara.
E uma noite,
noite escura como breu, o Castelo dos Loendros foi atacado por Rolarte
e os seus soldados. Mas o Rei dos Celtas foi vencido pelos soldados
de Cófilas que guardavam o castelo de Serpínia.
Com medo
de novos ataques a princesa mandou aviso ao pai, que estava em Mirtilis,
que hoje se chama Mértola, o qual regressou com muitos soldados,
e que esporeando os seus corcéis corriam a toda a brida na companhia
de Polípio, o príncipe noivo, que já tinha regressado da Fenícia
para as bodas com Serpínia.
Rolarte voltou
a assaltar o castelo mas este, que tinha agora muita tropa, venceu
os soldados de Rolarte e o Rei dos Celtas fugiu e foi morrer afogado
no Ana.
Serpínia
casou com Polípio e os noivos foram para a Fenícia.
Serpe, que recorda a linda princesa Serpínia e que sempre manteve
o seu nome, é hoje a serpa em que vivemos.
“
Arquivos de Serpa - Edição Câmara Municipal de Serpa”
(
João Cabral)
|
Nota
in: ARQUIVOS de SERPA – (Câmara
Municipal), de João Cabral, Serpa 1971 - «Contada também por
C. Gonçalves Serpa em “Serpínea e a Fundação de Serpa"
que diz ter ido “... bebe-la a velhos documentos perdidos,
esquecidos no pó dos tempos”.»
|
A
LENDA DE SERPÍNEA
in
CANCIONERO DE SERPA, Maria Rita Ortigão Pinto Cortez, Edição
da Câmara Municipal de Serpa, 1994 - pp. 347 - 349.
Baseada, segundo a autora, que escreve todo este livro à
mão, com uma caligrafia deliciosamente legível e com
muitas ilustrações, que vale a pena admirar, em «SERPÍNEA
E A FUNDAÇÃO DE SERPA» de C. Gonçalves
Serpa.

Não
se sabe ao certo em que época foi fundada Serpa. Ela já
existia com este nome no tempo dos Romanos, e durante a dominação
árabe chamou-se Sheberina. Diz uma lenda que esta vila foi
fundada pelos Túrdelos, um povo da antiga Bética,
proveniente dos Pirinéus.
Havia
um rei dos Túrdelos, Cófilas, que tinha uma filha
de rara beleza chamada Serpínea. Esta era requestada por
Rolarte, rei dos Celtas, de quem não gostava e cuja proposta
de casamento recusou, preferindo Orosiano, príncipe de um
reino vizinho. Rolarte, despeitado, atacou esse reino, matando Orosiano,
e jurou obter Serpínea, viva ou morta.
Cófilas
resolveu fazer uma expedição para o Ocidente, procurando
instalar-se longe dos Celtas e conseguir uma aliança com
os Fenícios, que sabia frequentarem o litoral da Península.
Acompanhado
dos seus homens e levando a filha consigo, chegaram uma tarde a
uma colina verdejante e arbotizada, no sopé da qual se estendia
uma imensa planície.
Serpínea
gostou tanto do local, que pediu ao pai para ali armarem o acampamento
nessa noite, e para ali fundarem uma cidade que viesse a ser a nova
capital da Turdetânia.
Nessa
noite, Cófilas teve um sonho profético, em que o Ocidente
e o Oriente se uniriam em Serpínea.
No
dia seguinte os construtores lançaram mãos à
obra, e assim nasceu Serpe. Daqui, Cófilas partiu para novas
expedições, dominando toda a região vizinha,
e fundou outras cidades a Ocidente, atravessando o rio Ana, e encontrando-se
finalmente com os Fenícios, que nos seus navios subiam este
rio até ao ponto em que vieram a fundar Mirtilis. Estabeleceu-se
um tratado de amizade, e em breve Serpínea ficava noiva do
belo príncipe fenício Polípio. Porém,
este teve de partir novamente em viagem, prometendo à inconsalável
Serpínea regressar depressa para o casamento.
O
rei Cófilas mandou construir para a filha, que era exímia
caçadora, um castelo na serra que se estende ao Sul de Serpe,
onde ela passava longas temporadas, passeando pelo campo e caçando.
O
palácio ficava situado na margem de uma ribeira. Chamava-se
Castelo das Loendreiras, e possuia lindos jardins.
 
Foi
ali que o cruel Rolarte, nunca esquecido do seu jurmento, foi atacar
os guerreiros de Cófilas, pretendendo raptar Serpínea.
Esta, prevenida pela sua aia fiel que desconfiava de uns mercadores
celtas recém-chegados, mandou pedir reforços a Serpe.
Polípio também chegou providencialmente, salvando
a noiva do seu perseguidor que, ferido de morte, foi arrastado pelas
águas da ribeira.
Serpínia
e Polípio casaram, o que foi motivo para grandes festejos.
porém, não puderam ficar aqui para sempre. Um dia,
despediram-se da terra onde tinham sido tão felizes, e embarcaram
em mirtilis a caminho da longínqua Fenícia, onde viveram
longos anos, muito felizes.

A
TESOURINHA DA MOURA
In
LENDAS PORTUGUESAS – VOL. V - Fernanda Frazão – Amigos do Livro
Editores L.da, Lisboa, s/d pp. 89, 90, 91.
Ali para os lados de Mértola,
aconteceu, certa vez, um caso fantástico e temeroso provocado por uma moura encantada.
Vinha um homem
do amanho do campo, de enxada ao ombro, quando ao passar pelo sítio
da Mortilhera viu uma cobra que da cintura para cima tinha corpo
de mulher. A cobra, que era uma moura encantada, meteu-se a conversar
com o homem, e o homem cheio de medo, a suar e a limpar o suor com
o lenço.
A moura foi
perguntando ao homem como lhe corria a vida, que tal as colheitas,
se a seara era dele ou se tinha patrão, e muitas outras coisas com
as quais talvez viesse a entreter-se nos longos serões que de Inverno
era obrigada a passar sozinha debaixo da terra. Quando acabou de
saber tudo o que a interessava, a moura estendeu ao homem um capacho
com figos secos, que estava a seu lado, dizendo-lhe que tirasse
quantos quisesse.
O homem, que durante todo o tempo da conversa suara
frio, de medo e nervos, tirou meia dúzia de figos e meteu-os na
algibeira do colete. Despediu-se da cobra com alguns salamaleques
e partiu aliviado e desejoso de se ver bem longe dali.
Ao chegar a casa contou à mulher
o que lhe acontecera e por fim, quando ia a tirar os figos do bolso
do colete, encontrou no lugar deles seis moedas de ouro. A mulher
desatou logo a ralhar com ele:
-
Ó homem, pois então a moura dá-te figos que são ouro e tu só trazes isto?! Valha-te Deus, que
estás mas é a ficar taralhouco! Vai mas é buscar o resto, antes
que a cobra volte à cova, vai depressa, ouviste?!
O homem, que não sabia bem se havia de temer mais
o bicho ou a mulher, lá foi, dizendo mal à sua vida. E quando passou
pela cobra, disse-lhe, para que ela não desconfiasse:
-
Adeus, senhora moura! Vou outra vez ao campo, que me esqueci de uma coisa!
Mas a moura sabia tudo:
- Não vais, não! Não te esqueceste
de nada, o que tu querias era mais figos, mas já não há! Olha, leva
daqui qualquer coisa que te sirva.
E estendeu ao homem o seu açafate
da costura, donde ele sacou uma tesourinha com cabos de ouro e pedras
preciosas. Partiu e a moura ficou a dizer-lhe adeus com um estranho
sorriso.
A caminho de casa, o homem, que
ia distraído com os seus pensamentos, escorregou à beira de uma
ladeira, caiu, espetou a tesoura no peito e morreu.
Assim acontece quando os encontros
com mouras não são mantidos em segredo!


|