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MÉRTOLA
- CONTOS POPULARES
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A COMADRE MORTE
-
MAIS FACILIDADE DE ESCOLHA
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PERGUNTAS DO SENHOR PROFESSOR
-
BOA RESPOSTA
-
A TESOURINHA DA MOURA - Lenda para ligar aos CONTOS
In
CONTOS POPUARES PORTUGUESES - inéditos – estudo Coordenação e Classificação
– Alda da Silva Seromenho e Paulo Caratão Seromenho Vol. I - Centro
de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação Científica,
Lisboa, 1984, pp. 239 – 240 n.º 157
157
[A COMADRE MORTE]
Dois casais vizinhos um do outro, dôs compadres e qualquer deles tinham
um filho. De manêra que assim que apareceu a mulher embaraçada dum,
outra vez disse:
- Agora, nã sê onde hê-de ir convidar
padrinhos, quem me faça o mê filho cristão.
O filho, isso queria ele.
- Eu vou por esse mundo a fora.
A premêra pessoa que encontrar.
E foi.
Encontrou uma velhota (Essa
teve um menino, essa mulher), encontrou uma velhota e disse-lhe:
- Ó comadre, vossemecê quer-me
fazer um favor? Fazer-me um filho cristão?
- Sim, senhor.
Antão, pôs-le, pôs ó afilhado
o «Pouco-Juízo». Más tarde diz o compadre:
- Antão, já baptizou o sê filho?
- Já, sim, senhor.
- Antão, como é que, quem sempre
convidou alguém? - Foi a premêra pessoa qu'encontrei.
- Ora, e a minha agora tá embaraçada
tamém, e ê faço o mesmo. E a premêra pessoa qu'encontrar, se vierem
bem, convido.
Teve uma menina. Foi... encontrou
a dita velhota. Disse-lhe: - Antão, quer-me fazer um favor? - Sim,
senhora.
Baptizou-le a filha, pôs-le
a «Pouca-Vergonha».
De manêra qu'era o «Pouco-JuÍzo»
e a «Pouca-Vergonha». Casaram um com o outro e arrinjaram uma vidinha
boa, viviam bem. Viviam bem. De manêra que um dia, belo dia, pareceu-lhe
a madrinha o pé, em casa. Grande alegria com a visita da madrinha.
- E vai já matar um pinrum -
disse o homem à mulher.
- Matar um pinrum? - diz-le
ela - Não sabes o que venho fazer, afilhado? Venho-te buscar, qu'eu
sou a Morte.
- Nã me diga?! Uma vida tã boa
qu'eu tenho e um homem novo! Antão, que jêto tinha isso?
- Nã sê, isto nã é lá por idades.
Tens que, tens que ir. calhou-te à tua vez.
Tomou o desgosto, mas ó depôji
foi o homem, disse:
- Venha cá. Quero le mostrar
aqui o prédio qu'ê mandei fezêri...
E tinha um alçapão por baxo
do solo e empurrou a Morte. Diz a Morte:
- Nã morre ninguém e é já munta
famila. S. Pedro vêo e disse pra soltar a morte.
- Não, qu'ela quer-me matar e,
atão, nã a solto. Voltou ó Céu e disse:
- O Pouco-Juízo nã solta a morte,
nã quéri. O Divino Mestre diz:
- Vai lá e diz-le que eu que
le dou quenhentos anos de vida. Vêo ele outra vez.
- O Divino Mestre manda dezer
que le dá quenhentos anos, que le soltes a Morte.
-Não, não quero, nã quero. Olhe!
Voltou ó Céu e disse:
- O Pouco-Juízo diz que nã solta
a morte. Por modo que ó fim de quenhentos anos, ela sempre o mata.
- Bom, antão, vai lá e diz-le
qu'é interno. Veio ao Mundo outra vez e disse-le:
- O Divino Mestre diz qu'és
interno más a tua mulher, que soltes a Morte.
E, antão, soltou-a e deu a matar,
antão, a família. E por isso o Pouco-Juízo e a Pouca-Vergonha não
morre. Esses nã morrem. Existem sempre.
[José Raposo, 77 anos de idade,
alfaiate, natural de Facões, f. de S. João dos Caldeireiros, c.
de Mértola, d. de Beja. Colector: Adélia Grade, professora primária.
Ano de recolha: 1976].
In CONTOS POPUARES PORTUGUESES inéditos
– Estudo Coordenação e Classificação – Alda da Silva Seromenho e
Paulo Caratão Seromenho Vol.
II Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação
Científica, Lisboa, 1986, pp. 409 – 410
620
[MAIS FACILIDADE DE ESCOLHA]
Nas
proximidades duma escola, uma menina e um menino também nas proximidades
da mesma escola, que se juntavam a meio caminho, aonde havia duas
veredas, que se juntavam no mesmo caminho, nas proximidades da escola.
Pr'àli
brincavam, pr'àli se entretinham. Às vezes, quando se demoravam
e coisa e tal... Mas a menina, quando chegava a casa, só tinha em
casa, quer dezer, a mãe e a avó, não tinha mais ninguém. E a mãe
perguntava-lhe assim:
-
Menina, minha filha, atão, o menino além da vezinha que diz, quando
se juntam ali, no barranco, quando brincam ali?
-
Ora, ele não diz nada.
-
Atão, e tu o que é que lhe dizes?
-
Ora, eu digo-lhe que tenho aqui umas rendinhas e ele só me responde
que não tem rendinhas, mas que tem outra coisa.
-Atão,
diga lá..:
-
Ora, tenho vergonha de dezer..., vozinha e mãezinha.
-
Atão, diga lá.
-
Ora, ele disse-me assim: «Que tem ali uma pichinha». Diz-lhe a mãe
assim para ela:
-
Pois, atão, minha filha, porte-se bem, veja se pode concluir a escola,
que, quando for uma mulher, há-de ganhar, se se portar bem e tomar
juízo. Aprenda bem as suas letrinhas e essa coisa toda, que se [se]
portar bem e tomar juízo há-de ganhar, quando for mulher, há-de
ganhar uma pichinha, muito boa.
Responde-lhe
a avó assim, porque era solteira, e nã tinha possuído marido
Diz-lhe
ela:
-
Olha, filha, e, se tu te portares mal, se não tomares juízo, ainda
melhor escapas: tens aonde escolhas.
[João
Francisco Palma, encarregado de obras, natural de Tacões, f. de
S. João dos Caldeireiros, c. de Mértola, d. de Beja, 61 anos. Colector:
Adélia Grade, professora primária. Ano de recolha: 1976].
In CONTOS POPUARES PORTUGUESES inéditos
– Estudo Coordenação e Classificação – Alda da Silva Seromenho e
Paulo Caratão Seromenho Vol.
II Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação
Científica, Lisboa, 1986, pp. 418 – 421 Nº 633
633
[AS
PERGUNTAS
DO SENHOR PROFESSOR]
Numa
escola, numa escola primária, aonde se juntavam três vezinhos, ali
do mesmo sítio, que um, um deles, filho duns senhores muito ricos,
o outro filho doutros assim mais remediados, um bocadito mais baixos,
e o outro filho dum pobrezinho, muito pobrezinho. E, atão, acontece
o seguinte. Em qu'eles juntavam-se, antes de chegar à escola, a
brincar, qualquer caminho, qualquer motivo e tal, e que, um dia,
faltaram à escola. Ora, o senhor professor, no dia seguinte, chamou-os
à atenção e perguntando-lhe assim:
-
Por que motivo é que os meninos faltaram ontem à escola? E eles
ficaram-se. Diz ele assim:
-
Pois vocês, amanhã, trazem-me a resposta por que motivo é que faltaram
ontem à escola.
Os
meninos vêm de lá. À noite perguntaram às mães e tal... mas... ora...
aquilo, quando lá chegaram, só quem se lembrava era o filho dos
senhores mais ricos, é que se lembrava. Os outros já se nã lembravam
daquilo que haviam de dizer. E, atão, basearam-se uns noutros. Diz
o senhor professor assim prós meninos. Chamou-os todos à atenção:
«Por que motivo que os meninos, tragam-me lá a resposta e tal dêem-me
lá a resposta».
Diz
o filho dos senhores mais ricos, diz assim:
-
É... tal, Senhor Professor, eu faltei à escola, porque a minha mãe
teve um menino.
Diz
ele:
-
Ah, sim, 'tá bem: a sua mãe teve um menino.
Virou-se
além, pró mais, outro a seguir, filho do outro mais rico, remediado,
a seguir, a descer de escala. Perguntando, diz... e tal...
-
A minha mãe também teve um menino.
Porque
ele nã se lembrava já e disse o mesmo que o outro disse.
-
Bom, 'tá bem, a sua mãe teve um menino.
Sim, muito bem. Atão e agora...
Voltou-se
além, procurou o outro, mais desgraçadinho, mais pobrezinho, perguntou-lhe:
-Atão
e o menino?
Diz
ele assim:
-
Oh, a minha mãe também teve um menino.
Diz
ele:
-
Bom, atão, 'tá bem. Atão, olhe.
O
senhor professor olhou pra eles, mostrou-lhe uma nota de quinhentos
escudos e disse assim:
-Tenho
aqui uma nota de quinhentos escudos pra dar a qualquer dos meninos,
que diga a resposta mais concreta amanhã, quando eu lhe fazer uma
pergunta. Bem, têm-me que dizer donde é que veio o seu menino. Bom,
donde vieram os seus meninos, qu'a mãe teve.
Bem,
ora passado isto, os meninos regressaram à sua casa. Começa o rico,
filho do rico perguntando lá os pais.
-
Atão, ó mãe, e talo senhor professor
zangou-se, coitado. Dá-nos quinhentos escudos, se eu desser lá donde
é que veio o menino, que eu tinha dito que a mãe tinha um menino,
quando eu tinha faltado à escola.
Diz
ela:
-
Ora, diz-Ihe que o menino que veio da Alemanha.
-
Tá bem.
Ora,
na mesma altura, estava o filho do remediado, o outro rico a seguir,
a descer (Não é da classe mais baixa), a perguntar à mãe. E lá disse
que tinha que dar aquela resposta concreta. E diz a mãe assim:
-
Ora, diz-lhe que o menino que veio dali,
da Espanha.
Bom,
deixemos isto. Estava cá o filho do pobrezinho, perguntando à mãe
na mesma altura, à noite, ali o serão.
-
Ó mãe, minha mãezinha, conte lá! O senhor professor diz que dá quinhentos
escudos, se a gente desser bem a verdade e coisa.
E
a mãe toda agoniada de faltas e sacrifícios, dificuldades à vida,
dezia:
-
Ora, deixa-te tar calado, não sejas parvo!
-
Oh! Porque ê disse que a mãe que tinha tido um menino, e agora nã
sê o que hê-de dizer. E ele disse donde é que tinha vindo o menino...
Diz-lhe
a mãe assim:
-
Ora, diz-lhe que veio do olho do cu.
Bom.
Ora, os meninos todos ficaram elucidados da resposta, que a mãe
lhes deu. No outro dia, apresenta-se o senhor professor lá o pé
deles. Chamou-os à atenção. Diz-lhe assim:
-
Também o menino - Derigiu-se ò rico, o mais rico - Atão, donde veio
o sê menino?
-
A minha mãezinha diz que ele veio da Alemanha.
-
Sim... sim, da Alemanha. É uma nação boa, já é uma nação boa. Está
certo. Muito bem. Atão, ali e o menino - que
era o outro a seguir, logo a descer de classe.
-
Olhe, a minha mãezinha diz que ele veio ali, da Espanha.
-
Sim, ‘Tá certo. Olha que também não anda
muito longe, não. Bom, atão e o menino?
Começa
o menino assim:
-
Ora, Senhor Professor, eu tenho vergonha
de dizer.
-
Oh, não, diga lá donde é que a mãe diz que veio o menino. ‘Tá aqui
os quinhentos escudos e, atão, tem que dizer.
-
Ora, senhor professor, ora.
-
Diga lá.
-
Oh, a minha mãe, minha mãe, assim que veio de...
-Vá,
diga lá...
-
Oh! Diz que veio ali, do olho do cu.
Responde-lhe
o senhor professor assim:
-
Olha lá, fostes tu que andastes ali mais
perto. Toma lá, duzentos e cinquenta escudos. Os outros duzentos
e cinquenta ficam pra mim, que não foi bem no sítio donde foi, mas
bom ainda acertastes mais que os outros.
Bom,
e atão, tudo isto se passou.
No
outro dia, chama os três meninos à atenção o mesmo dito professor
e perguntando a eles;
-
Atão - peguntando ò mais rico - Atão
e, òs domingos, o que é que o menino faz com os seus pais, com as
suas famílias, òs domingos? Qual é a sua destracção, e tal..., por
que não vem à escola, bem entendido, claro que têm que...
-
Oh - diz ele assim, o menino diz assim: Oh, eu òs domingos vou com
o meu paizinho, vamos prà televisão e, depois, viemos pra casa,
ouvimos a rádio e...
-
Atão e há mais algum divertimento, que têm em casa?
-
Oh, o divertimento que temos é vamos
pró café, prà pensão, passear com o mê pai; depois, à noite, temos
a rádio. E a nossa destracção, é o nosso divertimento, que temos,
e coisa e tal.
Perguntou
depois ò outro a seguir, a descer, o filho do outro mais rico, a
descer pra baixo.
-
Atão,
e o menino, qual é a sua destracção, a sua música, a sua coisa,
que tem òs domingos, quando o menino, é claro, vá.
Diz
ele:
-
Ora, olha, òs domingos, o mê pai vai
à pesca e ê vou com o mê pai à pesca.
-
Atão e depois, cá à noite, não têm um divertimento, uma destracção,
uma coisa qualquer?
-
Ora, olhe, o mê pai toca lá uma concertina. Atão, é... as coisas
bonitas assim...
-
‘Tá bem, muito bem. ‘Tá bem - dizia ele.
Perguntando
pró mais pobrezinho e disse-lhe assim:
-
Atão e o menino, como é que é que os seus acontecimentos o domingo?
-
Ora, Senhor Professor, ò domingo, o mê pai vai arrancar mato e eu
vou ajudar o mê pai.
-
Atão e à noite, cá ò serão, depois...
Não têm um divertimento?
-
Ah, ah! O mê pai vem derêto à taberna, bebe um copo de vinho e compra-me
cinco tostões de rebuçados e depois viemos pra casa.
-
Atão, e qual é a sua destracção, cá em casa?
-
Ora, ‘tamos ao pé do lume.
-
Atão, e não têm uma música, um divertimento, uma coisa qualquer
pra se rirem?
-
Oh, Senhor Professor, oh, oh, tenho vergonha de dezer...
-
Não, diga lá, diga lá, porque o menino ganhou duzentos e cinquenta
escudos no outro caso, e agora também, claro, tem que dezer a verdade.
-
Ah, o nosso divertimento ora, Senhor Professor!
-
Não, diga lá!
-
Ora, olhe, o nosso divertimento. Olhe, o mê pai dá pêdos e a gente
ri-se.
Diz
ele:
-
Sim, também está uma música muito boa, pois nã podem adquirir outra,
‘tá certo, sim, senhor.
Ficou,
antão, coisa concluída perante os três alunos.
[João
Francisco Palma, encarregado de obras, natural de Tacões, f. de
S. João dos Caldeireiros, c. de Mértola, d. de Beja. Colector: Adélia
Grade, professora primária. Ano de recolha: 1976. Vid. o número
seguinte].
In CONTOS POPUARES PORTUGUESES inéditos
– Estudo Coordenação e Classificação – Alda da Silva Seromenho e
Paulo Caratão Seromenho Vol.
II Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação
Científica, Lisboa, 1986, pp. 422 - 423 - n.º 634
634
[BOA
RESPOSTA!]
Juntaram-se
dois professores e vai um, diz assim pró outro, assim:
-
Eh, pá, tenho lá um aluno. E que gajo tão esperto! Todos as perguntas,
que lhe faço, o gajo responde-me bem. E os outros, é claro, responde-me
sempre bem. Nã sei. Pois, aquele aluno, ‘tou admirado com ele.
Diz
o outro professor, pr'àquele assim:
-
Olha, eu sou capaz de lhe fazer uma pergunta qu'ele não é capaz
de me responder.
Diz
ele:
-
Bom, vamos lá apostar.
E
apostaram. Fizeram a sua aposta. No outro dia, manda chamar o dito
aluno, na presença dos dois professores. Diz o professor assim,
esse tal teimoso, pergunta pró dito aluno:
-
Ouve lá uma coisa. Tu sabes o que é isto? Sabes o que é aquilo?
Responde
e coisa. Atão, pró atacar mais breve e mais possível, mais breve
e pergunta-lhe assim:
-
Sabes o que é um freixo?
-
Pois, sei. Um freixo é uma árvores, nascida aí nas proximidades
dos barrancos, e essa coisa uma árvore, ramuda, um freixeiro.
-
Pois,
sim. Eu tenho um freixeiro, que mandei fazer um santo, mandei cortar
o freixeiro, mandei fazer um santo e mandei fazer uma pia. E, atão,
a pia pu-la ali ó pé do poço, aonde os burros bebem. Bebem os burros
e bebem os cães e bebem aqueles animais, que passam por ali, todos.
E o santo pu-lo lá na igreja. Ora, as mulheres, ali daquelas áreas,
vão prà igreja, passam por a pia; como não têm sede, mesmo que tivessem
sede, nã queriam lá ir beber nem olhem prà pia, mas vão lá adorar
o santo. Pois, se ele é do mesmo pau, porque é que eles não, porque
é qu'elas não ligam à pia, pois só ligam ao santo?
Pergunta-lhe
o aluno., assim pra ele assim:
-
Senhor
Professor, o Senhor Professor é casado ou é solteiro? Diz ele assim:
-
Sou casado e muito bem casado.
-
Atão,
o Senhor Professor, não tem assim ocasiões de sair da sua casa,
fazer uma visita a qualquer parte.
Diz-lhe
o professor:
-
Pois, tenho!
-
E, atão, o que é que lhe acontece com a sua senhora, quando não
se despede dela?
-
Pois, despeço-me.
-
Atão e o que é qu'a sua senhora faz?
Diz
o aluno. Respondeu ao aluno que a sua senhora se despedia dele,
quando ele ia ò seu passeio, que se destanciava dela e ele perguntou:
-
O que é que acontece, quando o senhor vai a qualquer parte com a
sua senhora? Qual é o sistema do despedimento, diz ela?
O
Senhor Profesor disse:
-
Pois,
a minha senhora dá-me um beijo no rosto.
Responde-lhe
o aluno assim:
-
Atão, pois, por qué que a sua senhora não lhe dá um bejo no cu,
pois s'é do mesmo corpo?
[João
Francisco Palma, encarregado de obras, natural de Tacões, f. de
S. João dos Caldeireiros, c. de Mértola, d. de Beja, de 61 anos
de idade. Colector: Adélia Grade, professora primâria. Ano de recolha:
1976. Vid. o número anterior].
In LENDAS PORTUGUESAS – VOL. V - Fernanda
Frazão – Amigos do Livro Editores L.da, Lisboa, s/d pp. 89, 90,
91.
A
TESOURINHA DA MOURA
Ali para os lados de
Mértola, aconteceu, certa vez, um caso fantástico e temeroso provocado por uma moura encantada.
Vinha um homem do amanho do
campo, de enxada ao ombro, quando ao passar pelo sítio da Mortilhera
viu uma cobra que da cintura para cima tinha corpo de mulher. A
cobra, que era uma moura encantada, meteu-se a conversar com o homem,
e o homem cheio de medo, a suar e a limpar o suor com o lenço.
A moura foi perguntando ao homem
como lhe corria a vida, que tal as colheitas, se a seara era dele
ou se tinha patrão, e muitas outras coisas com as quais talvez viesse
a entreter-se nos longos serões que de Inverno era obrigada a passar
sozinha debaixo da terra. Quando acabou de saber tudo o que a interessava,
a moura estendeu ao homem um capacho com figos secos, que estava
a seu lado, dizendo-lhe que tirasse quantos quisesse.
o homem, que durante todo o tempo da conversa suara
frio, de medo e nervos, tirou meia dúzia de figos e meteu-os na
algibeira do colete. Despediu-se da cobra com alguns salamaleques
e partiu aliviado e desejoso de se ver bem longe dali.
Ao chegar a casa contou à mulher o que lhe acontecera
e por fim, quando ia a tirar os figos do bolso do colete, encontrou
no lugar deles seis moedas de ouro. A mulher desatou logo a ralhar
com ele:
-
Ó homem, pois então a moura dá-te figos que são ouro e tu só trazes isto?! Valha-te Deus, que
estás mas é a ficar taralhouco! Vai mas é buscar o resto, antes
que a cobra volte à cova, vai depressa, ouviste?!
O homem, que não sabia bem se havia de temer mais
o bicho ou a mulher, lá foi, dizendo mal à sua vida. E quando passou
pela cobra, disse-lhe, para que ela não desconfiasse:
-
Adeus, senhora moura! Vou outra vez ao campo, que me esqueci de uma coisa!
Mas a moura sabia tudo:
- Não vais, não! Não te esqueceste de nada, o que
tu querias era mais figos, mas já não há! Olha, leva daqui qualquer
coisa que te sirva.
E estendeu ao homem o seu açafate da costura, donde
ele sacou uma tesourinha com cabos de ouro e pedras preciosas. Partiu
e a moura ficou a dizer-lhe adeus com um estranho sorriso.
A caminho de casa, o homem, que ia distraído com
os seus pensamentos, escorregou à beira de uma ladeira, caiu, espetou
a tesoura no peito e morreu.
Assim acontece quando os encontros com mouras não
são mantidos em segredo!
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