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MÉRTOLA
in
GUIA DE PORTUGAL
(pareceu-nos
oportuno guardar uma visão do que era Mértola e o
seu termo, nas primeiras décadas do século XX, com
a Mina de S. Domingos em plena laboração e sinal de
prosperidade, para se poder ter uma ideia do labor desenvolvido
nas últimas décadas e começa a desenhar-se
nos alvores do Terceiro MILENIUM...)
In GUIA DE PORTUGAL
- ESTREMADURA, ALENTEJO, ALGARVE, - Colaboração dos
mais ilustres escritores portugueses (nome de referência Raúl
Proença e Conde de Ficalho...) - com 17 mapas e plantas e
numerosas gravuras, Biblioteca Nacional de Lisboa, 1927 - pp. 162
- 166, ALENTEJO - A BEJA E AO ALENTEJO MERIDIONAL
MÉRTOLA

Mértola
(I por Raul Proença), vila de 4.547 hab., sede de conc. e
de com., disposta em anfiteatro sõbre um elevado morro sobranceiro
à marg. dlr. do Guadiana e à esq. da ribeira de Oeiras,
junto da confluência dos dois cursos de água, numa
situação "romântlca" e pitoresca que
concitou os elogios de alguns viajantes estrangeiros. (cf. Estácio
da Veiga, Memorias das antiguidades de Mertola, 1880).
?Hosp.: Santos
e Peneque; Bartolomeu Oliveira; Eufrásia Baptista (tôdas
fracas). - Carreiras de vapores para Vila Real deSanto António
com escala por Pomarão e Alcoutim (p. 165 e 213-214) - Fábricas
de moagens. ?
Pov. muito antiga,
é talvez anterior ao Império, pois que Ptolomeu, no
princípio do séc. II, já lhe chama "opidum
antlquum et praeclarum". Os Romanos, que a conheceram pelo
nome de Myrtilis, deram-lhe vida florescente. Estácio da
Veiga refere-se à "grande quantidade de fustes de colunas,
de bases, de capitéis e de numerosas peças de mármore,
calcáreos, granitos e outros vários materiais de construção
arquitectónicos, que a todo o passo se observam no grosso
e no revestimento das muralhas, da chamada ponte, das igrejas, e
até das habitações particulares, como Indicando
sumptuosos edifícios destruídos por grandes cataclismos
ou por aguerridas invasões". Em 439 foram os Romanos
expulsos pelos Suevos, que deram por sua vez lugar aos Árabes,
até que em 1238 caiu em poder de D. Sancho II de Portugal.
No ano seguinte foi feita doação da vila à
ordem de S. Tiago, confirmada em 1245 por D. Afonso III, ficando
Mértola cabeça da ordem em todo o reino. - O primeiro
foral da vila foi-lhe dado em 1254 por D. Paio Peres Correia, renovando-o
D. Manuel em 1512.
Mértola
faz vista a distância, com a sua casaria apinhoada disposta
em anfiteatro e as suas ruas estreitas e íngremes, cingindo
o monte em sucessivos anéis de despenhadeiros ásperos.
Tem um ar de abandono e de isolamento que não deixa de ser
sugestivo e pitoresco.
A vista para os montes que cercam a ribeira de Oeiras e para o profundo
leito desta, encaixado entre vertentes rápidas, tem o seu
quê de Impressionante e solenemente austero, emquanto o Guadiana
deleita os olhos com as suas curvas acentuadas, a perder-se, como
uma cobra de água, entre os arvoredos e as colinas.
Como monumentos, porém, já pouco resta em Mértola
com que entreter a curiosidade do turista.
De verão
o calor é sufocante, mas a temperatura hibernal, quási
sempre benigna e tépida, aproxima-a mais do Algarve que da
região de duros invernos continentais que é quási
todo o Baixo Alentejo.
A igreja matriz{ (mon. nac.) - de N.ª S.ª da Assunção
ou de Entre-Ambas-as-Águas - ostenta na, frontaria um ameado
denticulado e coruchéus cónicos, coroados também
por seu lado de ameias chanfradas e em pala. O portal, aberto na
parede central do templo (o primitivo abria-se onde hoje é
o baptistério) é no estilo da primeira renascença.
O interior, baixo e largo, como uma mesquita, com colunas robustas
de capitéis clássicos, sofreu um deslocamento axial,
de maneira a parecer ter quatro naves, quando realmente tem cinco.
Uma das abóbadas,
mais ricamente artesoada, assinala o lugar primitivo da capela-mor.
Nos florões que fecham o cruzamento de algumas nervuras uma
divisa heráldica que se observa também na tôrre
do castelo, mandada erigir em 1292 por O. João Fernandes,
permite fixar à actual abóbada a data dos fins do
séc. XIII. "Nas mísulas dos arcos em que assentam
as extremidades do coro, dois letreiros. Um dos quais tem a palavra
Ioannes." Do lado da epístola interessante pia de água
benta de secção estrelada. Os belos azulejos quinhentistas
que forravam as paredes do baptistério desapareceram lá
no último quartel do séc. passado. Entre as alfaias,
existe uma casula de veludo carmesim, dos fins do séc. XVI,
com figuras de centauros e animais, que esteve na Exposição
de Arte Ornamental de 1882. Da mesquita que, segundo a tradição,
teria sido esta igr. no tempo dos Mouros, só se conservam
as proporções e a forma quási em ferradura
dos seus arcos. Haupt não tinha dúvidas, e classificou
a igr. de Mértola como a única verdadeira mesquita
existente no país."
Dos tempos muçulmanos
conserva-se também em Mértola um pequeno edifício
redondo sit. perto da igr., e que alguns arqueólogos
julgam ser uma Kaba mourisca.
O Castelo parece
ter sido ainda constr. pelos mouros, com materiais arquitectónicos
de origem romana, mas a tôrre de menagem foi mandada levantar
em 1292 por D. João Fernandes, primeiro mestre da ordem de
S. Tiago. Nos reinados de Afonso IV e D. Pedro andavam ainda obras
Importantes no castelo, como se infere de uma carta de mercê
de D. Fernando ao mestre de S. Tiago D. Gil Fernandes, em que o
embolsa de "todos os dinheiros que custaram a fazer as obras
e lavores do castelo de Mértola, por mandado de el-rei meu
Padre e meu Avô, para melhoramento, reparamento e forte Iegamento
desse castelo".
Do cimo das
muralhas a vista é bastante interessante: a O. Os terrenos
têm o baleado característico dos terrenos xistosos,
e vêem-se a ribeira de Oeiras de ásperas margens desertas
e a capelinha branca da S.ª das Neves; para o S. a mesma paisagem
ondulada coberta de trigais, e num alto, dominando o Oeiras, os
conventos novo e velho dos franciscanos; ao S. e ao N. a casaria
de Mértola e as curvas caprichosa. do Guadiana.
O mais que há
a ver é bem pouco: uma porta lavrada quinhentista junto à
torre do relógio; uma estátua romana que se guarda
numa arrecadação da R. de 5 de Outubro à espera
dum museu que a recolha, infelizmente sem cabeça, mas bela
pelo estilo e pelo lavor das roupagens; e no Guadiana os restos
de uma ponte (mon- nac.), ou melhor, segundo Estácio da Veiga,
dum extenso cais fortificado que leria sido constr. pelos Árabes
- quer o erguessem a fundamentis, quer se limitassem a reconstruí-lo
ou repará-lo, aproveitando em todo o caso as pedras de antigos
monumentos romanos.
Da marg. fronteira,
na Quinta do Barão, junto ao poço de roldana, goza-se
um curioso aspecto da vila, infelizmente já bastante prejudicado
por algumas casas que desdizem da brancura dominante e por alguns
palacetes novos de horripilante estilo com mansardas de jazigo.
Passeios a recomendar
nos arredores:
a) Ás margens do Oeiras, "cujos panoramas rio acima-
segundo Johnl Murray, dificilmente podem ser excedidos, mesmo em
Portugal.
b) Ao * Pulo
do Lobo, queda de água no Guadiana de
173 m. De alto por 100 de larg., a 2 h. de Mértola por péssimo
caminho.
"Para os que tiverem visto a catadupa do Niagara - escreve
numa página célebre Bulhão Pato - o Puto do
Lobo deve ser uma coisa insignificante. A nós produziu-nos
viva impressão. O rio chega a um ponto em que se precipita
de grande altura, some-se fumegando por lima garganta de rochedos,
e sai depois arredondando-se num lago, que parece estagnado, lá
em baixo, entre as penedias. O estrondo em que se precipita o enorme
estoque de água e a serenidade sombria ao lago adormecido
fazem um contraste notável. Para se formar ideia mais clara
da queda do rio, Imagine-se um arco aberto no centro; a essa abertura
do arco, relativamente grande, é que se dá o nome
de Pulo do Lobo."
Ficalho
também se refere ao fenómeno num dos seus contos:
«Uma
manhã veio ele, dando volta pelos matos dos Russins, até
dar vistas ao Guadiana, por cima da pedra dos Grifos. O dia estava
claro; e na luz ampla e forte o vale parecia ainda mais desolado
e triste. O Guadiana ia baixo, deixando quási a descoberto
o seu vasto leito de pedra, rasgado, roído, lavado pelas
águas. Nas margens, nem uma árvore, nem uma nesga
de várzea relvada - a corrente levara tudo. terra e areia,
ficando só a rocha nua, e as manchas cinzentas dos calhaus,
dos quartzos rolados, entre as quais passava a fita azulada e brilhante
do rio. Pelas moitas pobres de loendro escuro e tamugem ruiva os
palhiços secos, travados, marcavam o nível da última
cheia.
«Uma solidão absoluta.
«Apenas agora, as cabras vermelhas do José Bento vinham
aparecendo, uma a uma, entre o mato da encosta, com as orelhas fitas
e as cabecinhas finas de animais quási selvagens. Em cima,
no azul pálido, dois grifos pretos descreviam num vôo
sereno as suas órbitas intermináveis.
«As cabras vieram descendo, em filas, pelos carreirinhos,
e o José Bento desceu com elas. Ao dobrar um cabeço
descobriu o Pulo do Lobo: todo o rio que se encerrava no canal estreito,
tomando uma velocidade louca; as águas que se apertavam,
atropelando-se em veios sobrepostos; depois a fenda na rocha, tragando
tudo; e, por detrás, a água, pulverizada na queda,
elevando-se num nevoeiro branco, que o sol irisava nos bordos, dando-lhe
tons de opala.
«O José Bento foi seguindo a margem, até o sítio
cm que o rio se despenhava, desaparecendo na funda bacia. Mais adiante,
já para além da queda, viu, solidamente atada a uma
saliência da rocha, uma corda forte de linho, que passava
por cima da aresta e pendia para o abismo.
«- Olha! está cá um, pescando ao sável!
disse ele consigo.
«Teve curiosidade de ver, aproximou-se, e, deitando o chapéu
no chão lançou-se de bruços, passando a cabeça
além da borda. A parede de xisto, irregularmente fracturado,
descia a pique. Em baixo, a água espumava e fervia na queda;
agitava-se, ainda sentida, em largas ondulações; e
tranquilizando-se pouco a pouco, tomava os tons denegridos das rochas
que a cercavam.
«Lá no fundo, na ponta da corda, um homem atado pela
cintura, com os tentos da rede na mão, esperava a pancada
do sável." (Conde de Ficalho).
c) Pelo Guadiana
abaixo até Pomarão (carreiras diárias desde
1 de Julho a 31 de Outubro, e nos outros meses duas vezes por semana).
- A menos de 5 km. de Mértola (que é, como se sabe,
o limite de navegabilidade do rio), a ilhota da Horta do Rei, e
logo depois uma grande rocha quási a pique (Penha da Águia)..
Cêrca de 3 km. mais abaixo a Penha do Vigário. A vista
torna-se muito interessante para ambas as margens. À dir.
aflui o Carreiras, e em seguida há outra rocha, bastante
elevada, conhecida pelo nome de Rocha dos Grifos (p. ). O Guadiana
desvia-se um pouco para E. e vê-se Pomarão pitorescamente
situada sôbre um promontório rochoso na confluência
do Chança e a 14,5 km de Mértola, junto de um dos
mais belos, espelhentos e tranquilos lagos feitos pelo Guadiana
no seu curso placidamente divagante. Pomarão (Hosp. de José
Martins, razoável) é o ponto de embarque do mineral
extraído das minas de S. Domingos, com as quais está
ligado por uma linha férrea privativa (p. 166). Para o trajecto
de Pomarão a Vila Real de Santo António v. p. 213-214.


MINA
DE S. DOMINGOS
In GUIA DE PORTUGAL
- ESTREMADURA, ALENTEJO, ALGARVE, - Colaboração dos
mais ilustres escritores portugueses - com 17 mapas e plantas e
numerosas gravuras, (nome de referência Raúl Proença)
Biblioteca Nacional de Lisboa, 1927 - pp. 162 - 166, ALENTEJO -
A BEJA E AO ALENTEJO MERIDIONAL
d) A Mina de
S. Domingos (17 km.) - É uma importantíssima mina
de pirite cúprica, assente na serra de S. Domingos, na camada
de xistos argilosos que neste ponto atravessam o Alentejo. Descoberta
em 1857 por Nicolau Biava, foi, porém, explorada desde os
tempos mais remotos, e nomeadamente pelos Romanos. (Cf. Revista
de Obras Publicas e Minas, tômo XlV, 1883, p. [I85}-284, [377]-408;
XV, 1884, p. 480-540, [579]-651).
A concessão pertence à Companhia Sabina, mas a exploração
mineira foi arrendada à casa Mason and Barry, de Londres.
Em 1915 a produção bruta foi de 195.837 toneladas,
com um teor médio de 1,11 %, de cobre, produzindo o campo
de cimentação 1.385 toneladas de cimento cúprico,
com o teor de 72,78%.
Em 1859 existia aqui apenas uma única casa, erecta no local
onde se acha hoje a farmácia. Actualmente há cerca
de 2.000, com 3.311 hab., entre os quais 1.575 operários.
O grande número das construções, as avenidas
de saibro e as moitas de eucaliptos dão hoje à grande
aldeia de S. Domingos um aspecto alegre e risonho.
Uma pequena hospedaria tem cómodos para os turistas, que
podem descer à bôca da mina (3 h.), visitar as oficinas,
a central eléctrica, as duas magníficas reprêsas
com a capacidade de 6 e 2 milhões de m. c., e na maior das
quais há barcos de recreio que o visitante pode utilizar.
Há ainda biblioteca, teatro, campos de foot-ball e de tennis,
est. de correio e telégrafos, ete.
Uma linha ferrea privativa, de 18 km., liga a Mina ao Pomarão.
(Transporte gratuito de passageiros em zorras e auto-zorras, respectivamente
em 1 h. e 1/2. h. Percurso pitoresco). A linha atravessa as oficinas
e entra no vale dos Chumbeiros em declive. A primeira est. é
a do Telheiro, deixando-se à esq. o estabelecimento metalúrgico
da Achada do Gamo, ligado à mina por um ramal de 3 km. Depois
sobe-se para Santana de Cambas, pequena aldeia que se vê à
esq. O panorama é amplo e muito belo. Atrás de nós
ficam S. Domingos e os montes de Espanha. Seguimos já perto
da fronteira. Para lá cava-se o Chança, que forma
aqui o limite natural entre os dois países.
A linha desce agora, passando à dir. de outra pov., A dos
Bens.
Trincheiras, viaductos. e entramos na est. dos Salgueiros. Na Espanha
Pueblo de Guzmán. Atravessamos agora uma região mais
acidentada. Depois de um pequeno túnel, a linha segue um
vale entre colinas cobertas de mato. Os terrenos continuam movimentados,
numa forte paisagem alpestre. Veem em seguida seis túneis,
três dêles em curva. Ao sair do último túnel,
damos de cara com a larga toalha de água do Guadiana. Estamos
no Pomaráo (p. 165).

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