MOURA
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Uma visita a MOURA
a CONVITE da

01 - Prefácio - O TEXTO

 
Prefácio para A/s LENDA/s da/de MOURA,
por José Rabaça Gaspar ou José Penedo de Moura (deNÓMIO)

Para um REGRESSO AO FUTURO
Saudação à MOURA SALÚQUIA - as MULHERES do Concelho de MOURA

Era uma vez, há muitos, muitos anos… mais de 800!!!...
- Foi em 1865 ou 1866, no tempo de D. Afonso Henriques ou talvez depois. A dúvida permanece e pode ir até D. Afonso II ou D. Sancho II, mas neste caso esta istória deixaria de ser uma "lenda" para passar a ser um episódio "épico" da nossa História, como vários e bons autores defendem, mas é a lenda ou istória como o Povo a conta e a aceita e as possíveis leituras do seu simbolismo, aquilo que nos interessa partilhar. Podemos ou não apoiar-nos na história ou na istória, para construir um Futuro melhor? Eu acho que devemos.

Uma istória de há mil anos…

Era uma vez… um dia, em que toda a população se preparava para uma grande FESTA! A terra era Aruci-a-Nova ou Jelmaniah, e era governada por uma mulher jovem, formosa e dinâmica, adorada pelo povo… Era Salúquia filha adorada do poderoso Abuassan. O povo era o Povo. Havia mouros e cristãos e até já havia os moçárabes, todos em convivência, e, certamente, criando e superando os seus conflitos… Era o dia dos esponsais de Salúquia. O noivo, Brafama, poderoso guerreiro árabe e chefe, chegaria de Arouce, ou Aruci-a-Velha e a festa teria o esplendor e a fantasia das grandes festas só sonhadas nas Mil e Uma Noites!...
Subitamente, em vez do cortejo do nobre Noivo, aparecem os ferozes inimigos que tomam a povoação e se vão apoderar das Chaves da Cidade!
Não contavam com a as "Armas" Secretas e Invencíveis daquela Mulher, que "dando a VIDA", "vence os Vencedores", "os Vencedores são Vencidos pelo seu Nobre Gesto". "Uma ROSA BRANCA, logo tinta de SANGUE, cai sobre o seu corpo morto" e aquela terra ficará a chamar-se, pelos séculos, a mui Nobre e Notável VILA DA MOURA!
É importante tomar nota que há uma diferença entre "morrer" ou "matar-se" e "dar a Vida". Reparemos que a mulher tem esse privilégio único: o de "dar a Vida", quando gera e, em casos extremos, o de "dar a Vida" para defender os que gerou! Todos conhecemos muitas destas histórias. É ver a associação poderosa destas três palavras: A MOURA - AMOR - A MORTE! A MORTE por AMOR gera VIDA…

Uma istória para daqui a mil anos…

Era uma vez, daqui a muitos, muitos anos, talvez amanhã quem sabe, num daqueles filmes de ficção, como REGRESSO AO FURURO, em 2840, MOURA era governada por uma empreendedora e sábia MULHER, que trabalhava com toda a população no seu desenvolvimento e progresso… Subitamente, num dia de Feira… ou nas Festas da Cidade… a vila é cobiçada e invadida por um bando de inúteis invejosos, que se pavoneavam pelo Reino fingindo governar as suas terras onde havia carências de toda a ordem e não encontravam solução para os seus problemas, que eram muitos… Pretendiam, pura e simplesmente apoderar-se deste território onde reinava a Paz e o Progresso, para se locupletarem com o sucesso dos outros!
Estando todos ocupados nos preparativos e no desenrolar das festividades, quando o bando invasor se aproximou, pensaram tratar-se de mais um grupo de forasteiros que vinham ver e participar na FESTA. Não foi dado qualquer alarme. As "atalaias" só tinham olhos para os diversos "acontecimentos" que se desenrolavam e esperavam que lhes chegasse também a vez de participar nos "comes & bebes" e nos "petiscos" que eram larga e generosamente distribuídos…
Subitamente, como há quase dois mil anos antes, soa um grito inusitado de guerra há muito não ouvido, por se ter tornado desnecessário e caem os primeiros habitantes perante a fúria despropositada e incrível dos invasores!
Ao princípio foi o pânico…, mas, de repente, a "Governadora" da Cidade, atenta e determinada, rodeada de todas as Mulheres que se empenhavam alegre e prazerosamente nas múltiplas tarefas que iam da cozinha, ao arranjo das mesas e salões e estavam distribuídas pelas mais diversas actividades, que se desenrolavam… usando as suas "armas" secretas que, os homens muito bem conhecem, mas fingem ignorar, armadas com a sua "coragem" e "poder de sedução" e de "comando", discreto talvez, mas eficaz… dispersam os "inimigos", cativam-nos com os seus "jogos", envolvem-nos nas mais diversas actividades, que se desenrolavam, convidam-nos para as "mesas" abundantemente recheadas, mostram-lhes o grande BANQUETE, em que há "comida", "espaço" e "trabalho", enfim a "abundância" para todos… E foi a PAZ… e foi o PROGRESSO… e o DESENVOLVIMENTO…para TODOS…

Esta será a História ou a Ficção, como quiserem, daqui a MIL ANOS, que pode ser Amanhã se todos quisermos!!!

Não temos nada contra os Homens, muito menos contra os Governantes e os Políticos que se empenham no "Bem-Estar" das populações e seus envolventes. Antes pelo contrário. Temos SIM é talvez de descobrir e contar com o trabalho e empenho e com o Papel que a Mulher tem na Sociedade em evolução e compreender o seu Lugar indispensável, insubstituível, decisivo e integrante na Vida da Comunidade.

Quando, nos anos oitenta, um grupo de alunos e alunas, aliás mais alunas do que alunos, da região de Moura e Vila Verde de Ficalho, com quem tive o privilégio e gosto de trabalhar em Beja, me contaram a Lenda da Moura Salúquia, eu fiquei incrédulo. Eu que procurava levar estas coisas da tradição oral e dos valores culturais a sério, tanto que, em vez das lendas e das "coisas" que vinham nos livros oficiais eu pedia as "coisas" e as lendas que os avós e os pais lhes contavam, creio que terei ofendido alguém… Não sei se me ri divertido ou se fiz algum comentário "machista" do género:
Então, em pleno século XX, as mulheres árabes não têm direitos nem se podem mostrar e são mutiladas no que têm de mais íntimo e precioso, e são escravizadas e exploradas e impedidas de usar a sua liberdade, e vocês trazem-me uma LENDA de há mil anos em que uma MULHER é a Governante de uma importante Cidade!!! Isto só em ficção!!!

Depois, ao longo de anos e anos, depois de me mostrarem que estas istórias, mesmo sendo lendas ou histórias podiam ser "lidas" a sério, tive a sorte ou a felicidade de encontrar, quase por acaso, muitas outras versões da mesma lenda…
Creio que comecei a perceber melhor a razão da perenidade e imortalidade das Lendas e dos Valores Culturais guardados pelo Povo…
Aquilo que me ensinaram, como dogma quase indiscutível, de que a tradição era algo de "velho" e quase "morto", "coisas" dos nossos antepassados, que podiam "cheirar a mofo" e podiam afastar ou não interessar às gerações jovens, afinal estava ali patente diante dos meus olhos… Cada geração que ouviu e guardou os "valores tradicionais" pega neles, assimila-os, e passa-os como herança ou troféu ou tesouro à geração seguinte.
Quando propus estas minhas "descobertas" às pessoas "crescidas", a maior parte riram-se e não ligaram.

Nos anos noventa tentei fazer deste tema a base do estudo do meu ano sabático… Em 1997, a Revista Arquivo de Beja, através do seu director executivo o Professor, Doutor José Orta permitiu que publicasse uma parte desse trabalho. Em Maio de 2004 tive a sorte de conseguir uma publicação "virtual", na Internet, que também pode ser feita em papel, das dez versões da LENDA de MOURA…

Quando agora, em finais de 2004, princípios de 2005, a "MOURA SALÚQUIA" - Associação das Mulheres do Concelho de Moura, me contactam, para me convidar, para fazer um prefácio, para uma obra, que muito queriam publicar, pois tinham conseguido uma recolha de mais de duas dezenas de versões da mesma LENDA e até mais alguns trabalhos sobre a Lenda, mostrando que, afinal, isto não é uma LENDA, mas um feito histórico de notável grandeza épica, eu não sei, se já consegui sair do meu estado de "assombro" ou "deslumbramento". Não podia acreditar no que os meus ouvidos "viam". "Mesmo sem o conhecermos, queremos que seja o senhor a fazer o prefácio deste trabalho das Mulheres." Não dá para perceber, mas senti-me um privilegiado "… bendito entre as Mulheres"! Aliás, Ana Benedita, na nota introdutória já diz tudo: o papel da mulher no passado, no presente e no futuro e no desafio que faz aos investigadores e aos apaixonados por estes temas que podem transformar a nossa sociedade.

Mas o comovente e honroso convite, cria-me uma responsabilidade tremenda e coloca-me, afinal, numa situação melindrosa e delicada. Moura tem pessoas notáveis e ilustres escritores que eu muito admiro. Qualquer deles, ou delas, saberia tratar este assunto, muito melhor do que eu, como aliás se pode ver pelas mais de duas dezenas de autoras/es que apresentam a sua versão desta LENDA, neste magnífico trabalho de A/s LENDA/s de MOURA. A minha homenagem a todos e espero poder partilhar com "elas" e "eles" muitas ideias e ensinamentos, agora que alcancei a minha aposentação e posso finalmente voltar ao meu "estado" de "estudante" e "aprendiz" que nunca deixei.

Como, a seguir ao meu trabalho publicado "A MOURA" - "A Moura Amor a Morte ou a Utopia da Convivência (im)possível", de José Penedo de Moura, e-libro, Buenos Aires, Maio de 2004, tive a felicidade de PODER publicar o livro "ALFÁTIMA" "viagem à minha STerra - Uma Lenda de Manteigas Serra da Estrela, de José da Serra do Vale do Zêzere, e-libro, Buenos Aires, Agosto de 2004, para mostrar que aprendi a "gostar da Cultura da vossa Terra por apreciar e dar valor à minha" peço licença para finalizar com três ideias, três pontos de um possível diálogo, sobre o que eu penso deste tema.

Contam as pessoas da minha STerra, que a Moura Alfátima, desde a reconquista, vive num Palácio encantado, rodeada de mil tesouros, à espera do dia em que "mouros" e "cristãos" se entendam e descubram que são um só Povo.
Neste Mundo conturbado de guerras e loucuras e até de desastres naturais, em que tudo isto parece "ficção" ou pura "utopia" deixo aqui registadas as três utopias impossíveis, às quais poderemos tirar o IM, desde que queiramos e se seguirmos os "passos" desta "MOURA SALÚQUIA" - "Associação das Mulheres do Concelho de Moura":

1ª UTOPIA

Primeiro: Como as Mulheres e Mães são as Guardiãs dos Tesouros das Famílias e, portanto, das Comunidades, o Tesouro mais precioso que têm a guardar e divulgar é o destas LENDAS e dos Valores Culturais Tradicionais. Ainda nem tinha dito isto e tinha em cima da mesa a esplêndida obra "MULHERES" "Modos de Vida Lidas e Saberes", de 13 Autoras como colaboradoras, com um magistral prefácio de Maria Augusta Silva, jornalista e escritora, com uma notável e sábia Nota Introdutória e Coordenação de Ana Benedita, que envolve todas as Mulheres do Povo como protagonistas; uma Publicação de "Moura Salúquia - Associação das Mulheres do Concelho de Moura, Moura 2003. Pensei, na minha ingenuidade, que podia dar conselhos ou ideias novas às Mulheres e Homens de Moura. Este "tesouro", feito e recolhido por estas mulheres, é a garantia de que estes valores vão ser transmitidos às gerações futuras, com o pão e a educação, que está primordial e teluricamente entregue, por direito e natureza, ao especial encargo das Mulheres-Mães-Educadoras. E "educar", para mim é "Ser Criador/a de Criadoras/es". Não duvido de que o trabalho vai ser continuado e há muito a continuar. Cada tema dessa obra dá um novo livro, um projecto, um programa a desenvolver… Além disso, o livro é uma "obra de arte" em apresentação, grafismo, ilustração, com todas as "seduções" para uma leitura agradável e interpelativa.
Pelo seu simbolismo e actualidade futura, esta lenda ou história tem de ser considerada Património Nacional e Mundial.

2ª UTOPIA

Segundo - Do alto da minha autoridade, que não é nenhuma, mas como "aos poetas e loucos tudo é permitido" e como a minha primeira incursão no mundo da Poesia foi publicar uma obra a que chamei "A MAR", mostrando que o planeta em que vivemos não é a Terra, mas A MAR e não o masculino O MAR, e que "as vidas, todas as vidas, como a água dos rios e das fontes, correm sempre, sempre para A MAR AMAR, eu decreto que MOURA, dentro de mil anos que pode ser amanhã, será proclamada a Capital Mundial / Universal da Convivência, da Tolerância, onde se podem encontrar e colaborar todas as Pessoas de todos os Credos, Religiões e Políticas, porque Todos empenhados na construção do Bem Comum.
Uma Terra cristã, com Nome de Moura, só pode ser um disparate ou o reconhecimento da possibilidade utópica da unidade pela diferença. A riqueza da diferença, das divisões, dos partidos está na possibilidade de se potenciar a visão global dos diferentes aspectos da verdade e da sociedade, e só tem sentido, quando permitem uma visão mais alargada ou se possível global e encontrar as melhores soluções em conjunto. O nosso corpo é composto de partes diferentes, complementares, indispensáveis. Separadas não servem para nada.

3ª UTOPIA

Terceiro - Para que se realize um autêntico Regresso ao Futuro, para que a Tradição desta tão inverosímil, como incrível LENDA ou Episódio épico não se perca e MOURA possa recuar aos tempos da "reconquista" e da "criação da nossa nacionalidade" avançando MIL ANOS, eu prevejo e vejo já, que MOURA passará a ser "Governada" por uma "Moura Salúquia". Não me estou, nem quero meter-me em "politicas" muito menos em "politiquices" embora saiba e tenha consciência de que "todos os meus gestos e atitudes sejam, necessária e indiscutivelmente políticos, como os de todas as pessoas", nem tão pouco estou a sugerir "cotas" de participação ou "favores" ou, muito menos "modas" para dar alguns "lugares" representativos às "mulheres". Estou a dizer que a Sociedade precisa das Mulheres nos Lugares e Postos, que lhes competem. Elas fazem parte da nossa sociedade; e serão ou são em maior número e então a esse jogo da representatividade, de pelo menos um terço, está tremendamente errada; a proporção, em democracia é em proporção; e elas são mais e têm um papel primordial na gestação. Então, o que estou a dizer é que a Sociedade do Futuro só tem, e muito, a ganhar com a Arte, a Sabedoria, o Poder de Criação indesmentível e as "Armas" diferentes das dos Homens, que as Mulheres detêm. Como eu, também todas as Pessoas, que me lerem, conhecem o papel das Mulheres, Alentejanas ou Serranas ou de Todas as Regiões, que, mesmo nos tempos de miséria e de fome, souberam "pôr a mesa" e inventaram as "migas" e as "açordas" e as "sopas"… e criaram os "Filhos" que foram e são dos melhores soldados em todas as frentes. Esperemos que não sejam precisos para serem enviados para mais "guerras" das que matam, mas que com a sua Arte e Armas preparem as gerações vindouras para a "guerra" do Futuro em que todos se mobilizam para a PAZ e Prosperidade.

A minha homenagem à "Moura Salúquia - AMCM", a todas as Mulheres e População de Moura, agradecido e comovido com o vosso convite.

Corroios, a evocar o Dia da Mulher, em 8 de Março de 2005.

José Rabaça Gaspar
Professor de Língua e Literatura Portuguesa, na aposentação e de novo Estudante.

 

DÉCIMA a SALÚQUIA, por José Penedo de Moura
In "A Moura Amor a Morte ou a Utopia da Convivência (im)possível", de José Penedo de Moura, e-libro, Buenos Aires, Maio de 2004

A MOURA VIVEU AMANDO
E MORRENDO QUIS MOSTRAR
QUE MESMO O CORPO MATANDO
TODO O SER VIVE P'RA AMAR

Em Aruci castelã,
A vila que o pai lhe deu
E com a vida defendeu,
Ela teve a esperança vã
Sonhando cada manhã
Que podia, governando
E sua gente encantando,
Bem mandar e ser feliz,
Pois como a LENDA nos diz:
A MOURA VIVEU AMANDO.

Em tempo de guerras feras
Entre Mouros e Cristãos
Bem sabia como vãos
Eram os dias sem guerra,
Pois os homens eram feras...
E viver sempre a lutar,
Sempre em armas a pegar
Não era vida, era morte
E para mudar a sorte
MORRENDO O QUIS MOSTRAR.

O mundo pode mudar,
Se houver alguém que souber
Amá-lo como mulher
E amando governar
E governar para amar...
E pois, assim governando
E todos os seus amando
Um dia, veio a provar
Que os podia salvar
MESMO SEU CORPO MATANDO.

No dia dos esponsais,
Mataram-lhe o noivo amado
Pois o viram desarmado...
Entre os gemidos e ais
De seu servos, suas aias,
Ela, sem poder chorar,
Decide o MUNDO MUDAR...
Proclama então esta senha:
Que, mesmo que a morte venha
TODO O SER VIVE P'RA AMAR

 

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