MOURA
visto por um Cigano Castanho vindo
da Serra da Estrela
viagens do Cigano Castanho e da Cigana Mariana através do maravilhoso
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Uma visita a MOURA
a CONVITE da

ALGUNS EXEMPLOS DO MODO DE FALAR(I) (Ê) do ALENTEJO

canta: António Pinto Basto
Letra de José de Vasconcellos e Sá (Fado corrido)

Carta de um Pastor Alentejano, de Vila de Frades, ao seu amigo Fialho d’Almeida

O FALAR ALENTEJANO in À DESCOBERTA DE PORTUGAL - Rider's Digest - 1982

 


José de Vasconcellos e Sá, Évora, 1926

Terras de grandes barrigas
Onde há muita gente gorda,
À sopa, chamam açorda,
E à açorda, chamam-lhe migas...
Às razões, chamam cantigas;
Milhaduras, são gorgetas;
Maleitas dizem maletas
E em vez de encostas, chapadas;
Em vez de açoites, nalgadas;
E as bolotas são boletas...

Terra mole é atasquero;
Ir embora é abalare;
Deitar fora é aventare;
Fita de coiro é atêro;
Vaso com planta é cravero;
Carpinteiro é abegão;
E a choupana é cabanão;
Às hortas chamam hortejos;
Os cestos, são cabanejos;
E ao trigo, chama-se pão!

No resto de Portugal(e)
Ninguém diz palavras tais:
As terras baixas, são vais;
Monte de feno é frascal(e)
Vestir bem, parece mal(e);
À aveia, chamam cevada;
E ao bofetão, orelhada;
Alcofa grande é gorpelha;
A ?....." é vermelha;
Broas de mel é melada!...

Quando um tipo está doente
Logo dizem que está morto;
E a todo o vau, chamam porto;
Chamam gajo, a toda a gente;
Vestir safões é corrente;
Por acaso é por adrego;
Ao saco, chamam talego...
E até nas classes mais ricas,
Ser janota é ser maricas;
Ser beirão, é ser galego!

Os porcos, medem-se às varas;
E o peixe vende-se aos quilos...
E a gente pasma de ouvi-los
usar maneiras tão raras!
Chamam relvas, às searas,
Às vezes, não sei porquê?...
E tratam por vomecê
Pessoas a quem venero!...
Não quero, diz-se: Nã quero!
Eu não sei, diz-se: Ê nã sê!

Mê caro Zé Valentim:

Nô ôtro dia ‘tava ê ali à bêra do maticuenho de palaio, ali memo onde o barranco bate c’oa semeada...

‘Tava assim a modos qu’esmorraçando...

Ajitei-me dentro do gabinardo e assenti-me no marco.

Enroli um cigarro e cando ia a puxar do zarapatusco de modo a acender, di c’os olhos numa velhaca...

Era um rego cheio de carne, ó cumpadre!!!

Imaparelhê-me cum ela e meti o ferro à cara...

Fiz-le dois fogachos, mas a mangana foi-se-me imbora mais a p. que a pariu!!!

Texto ditado pelo professor Manuel Pedro, num café, em Beja, 1981

 

M'nina que tá à j'nela
Regand'o lind'caravêro
Ó há-de ser para mim
Ó p'ró mê rico pracêro.

Ê nã sô p'ra vocêi
Nê (ein) p'ró sê rico pracêro
Que me tá mê pai criendo
P'ró más lind'o sapatêro.

 

Ó m'nina, ê sô sapatêro
Hê-d'ir p'rá sapataria
Hê-d'le fazer uns sapatos
C'a maior galantaria.

Ê nã quer'os sês sapatos
Dê-os lá a quê(ein) qu'séra
Qu'o marot' que tal diz
Nã merec' uma mulhéra.

 

Entes qu'ria ser carnêro
Enxertado na raiz
E nã qu'ria ser marido
Da magana que tal diz.

Entes ê qu'ria ser porco
Que fossasse num valado
E nã qu'ria ser ispôsa
Dum tã frac' namorado.

 

 

UM ALENTEJANO EM LISBOA com o DINHEIRO da CORTIÇA:

Um alentejano, que tinha e vendia cortiça, resolve um dia mandar o filho depositar o dinheiro, no banco, a Lisboa.

Este pega num taçalho de pão com linguiça, monta no seu burro e lá vai para Lisboa.

Chegando a Lisboa, visto estar cheio de fome, senta-se, na relva, junto do Marquês de Pombal(i), a comer o seu taçalho de pão.

Por ali, andavam dois ardinas a vender jornais e apregoavam:
- óóólhó sééééééclo (Olha o Século)...
- é u diáááário d'notíííííííícias (É o Diário de Notícias)...
O nosso bom alentejano, mal ouve isto,

pega nas suas coisa monta-se no burro e lá vem ele a caminho do Alentejo.
Quando chega a casa, o pai pergunta-lhe:

- 'tão filho! porque foste tão depressa? O banco stava fechado?
- cal banco! cal quê? atão um home vai a Lisboa, assenta-se a comer o seu taçalho de pão cum linguiça, muto descansado, vêm logo dois homes e gritam:

- óólhó, cerquem-no... óóólhó céérquem-no ...é o d'nheiro da cortiça... ele tem o dinheiro da cortiça...

 

 

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