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a
força que tem a ÁGUA...
o poder que tem A MAR
AMAR
(uma evocação do verão 85?
86? recuperada em 96)
...
era uma tarde de verão dum agosto quente tórrido e abafado...
...
era no vale glaciar do Zêzere na Estrela...
...
a tempestade dentro de mim era tão grande que não podendo
fugir de mim
fugi
da gente e do calor asfixiante das ruas e das casas
e
fui-me sentar à beira do rio
para
o ouvir correr...
falar...
saltar
de pedra em pedra...
parar
nos charcos...
descansar...
e
logo tornar a correr...
sem
parar...
...
surpreendentemente não me apeteceu mergulhar
nas
águas frias que corriam numa solidão quase medonha...
...
nem um canto de um pássaro... nem vivalma...
só
eu a água e a montanha imensa...
...
a voz da corrente a correr por entre os pedregulhos
tornou-se-me
ensurdecedora no meio daquele silêncio de solidão...
...
fugi outra vez...
subi
a ladeira pelo carreiro oblíquo que levava a um pequeno bosque...
ali
corria um regato que depois era levada de água que regava
e depois ia cair no rio que já não se ouvia... ali.
...
não vi a fonte... era logo ali, em cima...
subi...
parei
onde a corrente era um pequeno fio...
sentei-me...
deixei-me
rir...
ali
a água não falava d’alto... era uma voz cantante... um murmúrio
apenas...
ri-me...
rio...
ainda
rio...
...
ali, coitada, a água não tinha força...
sentei-me...
senti-me
poderoso como a proteger uma criança indefesa ou um pequeno
animal com quem podemos brincar sem correr riscos...
...distraído...
pus-me
a atirar pedrinhas ao regato... ao desbarato...
depois,
como algumas ficaram perto, comecei a pô-las mais juntas,
a fazer barreira...
...ah!
e se eu parasse a água que corria? tão frágil ali!!!
...
se o conseguir, também a sei parar lá em baixo no rio...
...mais
pedras... depois uns ramos... depois terra...
cada
vez que parava para ver o efeito, já a água saltava ou rompia-me
a barreira...
insisti...
desisti...
de
repente percebi...
mesmo
que ponha pedra sobre pedra sobre pedra sobre pedra...
mesmo
tapando todo o vale...
glaciar...
a
água havia sempre de correr...
é
a sua tendência natural...
é
a sua ânsia irresistível imparável de correr p’ró mar...
...
ah!?... de correr p’rA MAR...
...ah?!
tal como nós
os
ENTES de todo o mundo
que
fomos feitos
irresistivelmente
imparavelmente
p’rAMAR...
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