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III MILÉNIO  12 - A PEDRA DE VER A MAR... AMAR...

   A PEDRA DE VER A MAR... AMAR...

José d'Amar
Dezembro de 1990

do cimo da minha serra

mais alta de Portugal

que tem o nome de estrela

por parecer delas rival

avista-se meio mundo

deste reino sem igual!!!

...

em dias claros sem névoa

quem do alto perscrutar

os lados do ocidente

onde o sol vai mergulhar

pode ver sobre o Bussaco

que faz arco como um dorso

de um fantástico animal

uma fita verde escuro

que é o mar visto de longe

e nós chamamos A MAR

...

quem somos nós que chamamos

tal nome ao que já tem nome

e todos chamam O MAR?

somos nós, são os poetas

os artistas, os amantes

que trocam todos os nomes

que os outros já inventaram

porque o dom de ser poeta

ser artista e ser amante

é um dom que lhes permite

transgredir todas as regras

inventar a realidade

e mostrar que o real

não é real é ficção

e a ficção que eles inventam

e outros chamam ficção

é essa a realidade

que deslumbra e que fascina

a ânsia que o homem tem

de ver mais e mais além

daquilo que os olhos vêem

e os sentidos apreendem

...

mas o comum dos mortais

que chega ao alto da Estrela

um planalto desolado

sem uma planta, uma flor

- a não ser a tão discreta

duma cor quase violeta

 a campânula dos hermínios

que chamamos campainha

e ninguém vê nem conhece... -

coberto de rocha dura

que se vai desagregando

exposto ao sol e à chuva

ao calor e frio intenso

aos vendavais temerosos

que varrem tudo o que é vida

ficam a olhar espantados

a Torre de nove (sete?) metros

que El-Rei D. João o sexto

ali mandou construir

para completar os metros

que faltavam para dois mil

...

como é que a mãe Natureza

se esqueceu de lá chegar

e ficou ali por perto

parando em noventa e um (noventa e três?)

depois de mil novecentos

mas onde já se mediram

mais dois, os noventa e três

e o último satélite

já avisa que há mais

e passa de três e meio

a atingir noventa e quatro?

...

toca a escalar a pirâmide

com cordas e outros meios

para dizerem aos amigos

que estiveram já mais altos

que todos em Portugal

e subiram dois mil metros

coisa rara nunca vista

que alguém pode alcançar

neste pequeno jardim

aqui plantado à beira mar

...

ou se há neve? então há gelo!

vento e frio de rachar...

então é ver desportistas

pelos barrancos esquiar

com esquis ou sem esquis

com botas ou de sapatos

em pé ou de Cu no chão

rebolar escorregar

com plástico ou numa tábua

ou nos trenós inventados

para as calças não rasgar

...

foi à serra.? tem direito

a ter diploma a atestar

de ter estado mais alto

que ninguém em Portugal

...

e pode comprar de tudo

queijos presuntos e peles

pão cajados e bengalas

casacos safões garruços

cães da serra com coleira

mil coisas artesanais

das que há em todas as feiras

até já feitas de plástico

que é melhor e dura mais

mesmo sem serem da serra

tudo ali pode comprar

pois já que subiu à Serra

mais alta de Portugal

tem direito a atestar

em todo o tempo e lugar

o privilégio que teve

de ter estado mais alto

e ninguém lhe leva a mal

...

mas há os que vão às Serra

mais alta de Portugal

para se perder nas alturas

e fugir à barafunda

do mundo pobre e vulgar

e então

correm a serra

à procura dos lugares

onde podem descansar

e longe de tudo e todos

podem enfim sós sonhar

e perante a imensidão

ficar mudos e quietos

olhando sem perceber

sem saber descortinar

o que vêem o que sentem

com os seus sete sentidos

porque não podem contar

o que vêem o que sentem

o que ouvem o que cheiram

os mil sabores que lhe chegam

em lufadas de ar leve

e então a fantasia

nas asas do imaginar

vai voando pelo espanto

de tanto belo encontrar

deslumbrado com a grandeza

dos espaços infinitos

que se abrem ao olhar

mas que a vista não alcança

por não poder abarcar

...

dali tu podes voar

até á vizinha Espanha

correr a Cova da Beira

sobrevoar a Gardunha

rodando desde o nascente

seguindo o sol pelo sul

e depois pelo poente

onde o sol vermelho morre

tens a serra da Abuaça

e a outra da Lousã

e por sobre o dorso desta

muito ao longe em dia claro

podes ver se a vista alcança

uma linha verde escuro

que pode ser azul claro

a confundir-se com o céu

que é, quer queiras quer não,

o mar que já banha Espinho

que enche a ria de Aveiro

se espraia pela Figueira

da Foz que é do Mondego

que parte do Mondeguinho

e leva nas suas águas

as alegrias e mágoas

todas as dores e as raivas

das gentes da minha STerra

que bordam as margens do Alva

e do Mondego também

...

dizem os mestres que sabem

que podes, se puderes ver,

as águas que se encapelam

no Sítio da Nazaré

e fizeram o penhasco

onde, segundo o poeta,

a Terra acaba, o Mar começa

e tem a marca o sinal

do cavalo a ferradura

do cavaleiro fogoso

que seguia atrás da caça

a corça que mergulhou das alturas para o mar...

e julgava, em seu delírio

que a terra não acabava

...

aí, poetas, artistas,

amantes e sonhadores

deixam os sete sentidos

voar por cima do Mar

e apesar de o Mar ser grande

tão grande que é maior

muito maior do que a Terra

que Ele abraça em toda a roda

...

então poetas artistas

amantes e sonhadores

pobres que têm riquezas

tão grandes que ninguém tem

...

pedem mais, pedem maior,

querem'inda ir mais além

e como o Mar é pequeno

apesar de ser tão grande

transformam O Mar em A MAR

AMAR

e voam no Universo

e pelo Cosmos infinito

à procura do AMOR

que criou as maravilhas

que podemos contemplar

e ainda as outras todas

que só pode imaginar

aquele que vivendo AMOR

é capaz de O criar

e assim tudo criar

porque vive só de AMAR

...

onde podes isto ver

tudo isto imaginar

como se fosse só um sonho

impossível de alcançar?

???

isso é segredo seguro

que não posso revelar...

ou o descobres sozinho

ou nunca o vis encontrar...

...

ali no alto da SERRA

caminhando devagar

pelas cristas das alturas

sempre andando sem parar

...

 

vais parando pelas penhas

bebendo a água das fontes

mergulhando nas lagoas

olhando o longe e o perto

saindo daqueles lugares

onde pára a multidão

...

e depois, devagarinho,

sem ninguém o perceber

vais por de certo encontrar

aquele secreto lugar

que é um mirante varanda

que os poetas e artistas

e os pobres e amantes

guardam como um tesouro

com riquezas de encantar

...

se um dia o encontrares

sabe que estás a sonhar

naquele secreto lugar

que ninguém pode encontrar

se não souber procurar

...

é mesmo aí onde estás

A PEDRA DE VER o MAR

A PEDRA DE VER A MAR

PEDRA D'A'PRENDER A AMAR

!!!

PEDRA DE PRENDER O AMOR

P'RA NUNCA MAIS ACABAR

...

e quem o segredo ouvir

e o não souber guardar

e for a outros contar...

tão certo como se diz

lá para os lados da Serra

como p'rás bandas do Mar

por mais que queira fugir

EM PEDRA SE HÁ-DE TORNAR...

isto é claro como a água

a clara água d'AMAR...

...

e assim se acaba a história

DA PEDRA DE VER AMAR.

.

assim se acaba este livro

que era p'ra cantar O MAR

passou a cantar A MAR

acaba a cantar

AMAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Foto in Manteigas - Boletim Municipal - Maio de 1995
1º Prémio IX Concurso Fotográfico, 4 de Março de 1995 - José da Cruz Paixão

 

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