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Poesia Décimas
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Cancioneiro NIASSA

Canto do
ALENTEJO
NOVO(MÉRTOLA)

Canto do CANTE os COROS

CANCIONEIRO DO NIASSA

AGORA (2004)

já pode ver em reorganização... e ouvir algumas músicas

devido ao especial contributo dos Amigos Manuel Aleixo, que está a fazer a recuperação de algumas gravações datadas de 1969 e do Manuel Cruz, que vai tentando que eu consiga aplicar alguma coisa destas artes da programação e da internet

Carregue AQUI ou nas NOTAS ao lado

 

 


Lago Niassa - Metangula - 1968

 

O CANCIONEIRO DO NIASSA...

a sua continuação GRITOS DE GUERRA CONTRA A GUERRA

INTRODUÇÃO - EXPLICAÇÃO

GLOSSÁRIO

CANÇÃO ADAPTADA

CANÇÃO de onde foi ADAPTADA

AUTOR/es da ADAPTAÇÃO

VAMPIROS

Zeca Afonso

HINO DO LUNHO

“Vampiros” – Zeca Afonso

Alferes Carvalho Cem da 1ª de Engª e outras achega

AOS “GUERRILHEIROS” (ARTILHEIROS) DO LUNHO

“Muito Boa Noite – Amália

Joaquim Correia

LÁ LÁ LÁ DO LUNHO

“Lá Lá Lá...” Festival EuroVisão 68/69?

Joaquim Correia

FADO DO CHECA

“Rosa Enjeitada” – Fado

Jorge Ferreira c/5.4.2003

RECEPÇÃO AO CHECA

“Povo que Lavas no Rio” – Amália

Jorge Ferreira c/5.4.2003

AOS “CHECAS”

“Júlia Florista”

Jorge Ferreira ?

O TURRA DAS MINAS

“Júlia Florista” - Max

Jorge Ferreira c/5.4.2003

FADO DO TURRA

“Fado Corrido”

Jorge Ferreira

FADO DAS COMPARAÇÕES

“Estranha Forma de Vida”

Jorge Ferreira c/5.4.2003

FADO DO ESTADO MAIOR

“São Caracóis” - Amália

?

FADO DO MILICIANO

“Ser Fadista” – Frei Hermano da Câmara

?

FADO DA RESERVA NAVAL

“Ser Fadista” – Frei Hermano da Câmara

?

FADO DO DESERTOR

"O Cavalo Baio"

PIQUENIQUE NA PICADA

“Piquenic! Piquenic!!!”

Jorge Ferreira

O EMBOSCADO

“Fado do Embuçado”

Furriel Crespo c/5.4.2003

FADO DA ÁGUA

“Ó Tempo, volta p’ra trás” – A. Calvário

Furriel Crespo c/5.4.2003

DAR DE BEBER À SEDE

“Dar de Beber à Dor”

Jorge Ferreira c/5.4.2003

SAUDADE

“Zé Cacilheiro”

Jorge Ferreira c/5.4.2003

FADO DA MESSE DOS SARGENTOS

“A Casinha de Nós Dois”

Furriel Crespo c/5.4.2003

PATRULANDO AS PICADAS

“Fui de Viela em Viela”

?

PRECE COPOFÓNICA

Letra e Música do alferes Miliciano Calvinho

ÂNSIA DE VOLTAR

Música do Quinteto do Bart 2838

Vitorino e Couto

ADEUS METANGULA – Fado da Despedida

“Adeus Mouraria”

Jorge Ferreira?

ALMA RUIM E CRUEL

Soneto

Camões

A HISTÓRIA DO MANUEL

Fado Canção

QUE MAIS QUERES TU ?

Fado Corrido

O CANCIONEIRO DO NIASSA

uma INTRODUÇÃO - EXPLICAÇÃO

        O LUNHO, uma zona quase desconhecida ao Norte de Moçambique, e o HINO DO LUNHO, a partir da CANÇÃO - OS VAMPIROS de ZECA AFONSO, devem ter dado origem, julgamos nós, a um fenómeno dos mais originais, criativos e significativos que aconteceram na GUERRA DO ULTRAMAR. Claro que deve ter começado antes, e continuado depois, mas foi com o nosso BATALHÃO de ARTILHARIA 2838, e a COMPANHIA de ARTILHARIA 2325, que este fenómeno se desenvolveu e depois foi divulgado pela Marinha (a famigerada MARINHA DE ÁGUA DOCE sediada em Metangula que até tinha ar condicionado, rádio e tudo...), que este fenómeno adquiriu a sua projecção especial.

        Foi esta CART 2325 que herdou esta versão dos VAMPIROS do alferes Carvalho da Companhia que fomos render(?!). Consta, conta-se que este rapaz, um tanto forte a dar p’ró gordo, era a calma em pessoa, e, era um génio em aplicações práticas de engenharia. Num atascanso, por exemplo, (Não sabem o que é?) em vez de pôr a malta a puxar à bruta, sentava-se a calcular a força e a posição do pequenos Unimogs e, aí estava uma pesada Berliet fora do buraco!!!. Consta ainda, conta-se, que, enquanto os Unimogs puxavam e não puxavam, se sentava encostado ao tronco de um enorme embondeiro, (Também não sabem o que é?) e no fim, estava mais uma canção feita. Quando lhe vinham trazer a notícia, que ele já sabia, de que a Berliet estava desatascada, ele, displicente, puxava da viola e aí estva mais um fado ou uma canção, uma adaptação! Era uma maneira original e “subversiva”!? de encarar a guerra! Ora isto, creio eu, deu origem a algo singular que, passados vinte anos, vinte e cinco, ainda não foi percebido. Talvez o venha a ser.

        Naquele tempo, e nos anos da revolução, os heróis foram aqueles que desertaram e depois se locupletaram com os louros e proventos da REVOLUÇÃO. Este fenómeno de contestação daqueles que não quiseram ou não puderam “desertar” porque não podiam fugir, e, mesmo assim, não abdicavam do seu poder crítico e da sua maneira de ver as coisas, é algo que é preciso entender como forma “normal” do comportamento humano, em situações de risco e de “irracionalidade” e “injustiça” normalizada, institucionalizada e legalizada.

        Esse acontecimento singular, com a conivência de alguns dirigentes e oficiais (os do 25 de Abril não vieram do nada!), deu origem, passado um ou dois anos, a uma coisa que se chamou - O CANCIONEIRO DO NIASSA -.

        Com as melodias das músicas mais em voga nesse tempo, finais dos anos sessenta, de que nos recordávamos, alguns dos nossos colegas do BATALHÃO e de outros, e os vizinhos da MARINHA, criaram letras que cantámos e punham toda a gente a cantar, tentando gritar a nossa raiva, insatisfação e impotência, e, ao mesmo tempo, nos proporcionaram momentos de inesquecível convívio que teriam repercussões e efeitos imprevisíveis!

        Não raro, passou mesmo a ser de bom tom, (ali no mato aconteciam coisas estranhas!!!), convidar um BALADEIRO (soldado, furriel, sargento, oficial...!) que se apresentava estoirado de uma operação no mato, para cantar aquela versão do fado (...!?), ao ao senhor General, Almirante ou Brigadeiro que estavam ali de passagem, para inspecção ou em viagem de rotima...!

        A maior parte dos autores, sobretudo na altura como é compreensível, eram ou ficavam desconhecidos. Era natural. Todos ali sabíamos quem eram, mas o facto de terem saído umas letras nuns jornais com nomes e tudo e o zelo da PIDE e outras organizações, recomendavam que aquilo aparecesse como um fenómeno colectivo e expontâneo como acontece com a poesia popular e tradicional que, sendo de todos, não são de ninguém como as “Cantigas da Rua...”

        Foram muitos os que contribuiram para este CANCIONEIRO. Não temos sequer a pretensão de estar convencidos que temos todas e as mais profundas.

        Estamos no entanto convencidos de que, pela variedade de autores, temas e melodias facilmente identificáveis pelos que têm acesso ao que estava em voga nos anos sessenta, setenta, temos, de facto algo de valor documental que pode mostrar o retrato de uma época e de uma maneira de ser e estar própria de um número significativo de pessoas que, não tendo posições de relêvo, têm a sua maneira de intervir na história.

        Quem tiver oportundade de ouvir uma famigerada cassete que circulou “clandestina” de mão em mão com o CANCIONEIRO DO NIASSA e ter acesso a uma recolha como esta ou outras similares, pode aperceber-se do cuidado que tinham, em não ofender “ouvidos atentos” e perigosos que sempre estavam por perto!

        E não eram só os da PIDE ou similares. Eram até os zelosos defensores dos “bons costumes”, das boas maneiras e da linguagem! Claro! A linguagem é que revela os “bons” ou os “maus” costumes ou modos de pensar e estar na vida! É de notar entretatanto, que, quase todos os palavrões, (a coisa mais natural nos meios castrenses!) têm, quase sempre, uma palavra suave e digna (como “corra” em vez de “porra”, “leões” ou “colchões” em vez de “colhôes” ou “carvalho” em vez de “caralho” ou até “perriupiupiu” em vez de “puta que os pariu”) para que tudo isto pudesse ser apresentado e cantado nos salões do mais elevado requinte!!!

        É por isso, e por muito mais, que, passados VINTE E CINCO ANOS!!!, (desde 1968 – 1970) - (outro fenómeno que dara para um enorme estudo... Porquê? mais de vinte anos?) aqui fica uma recuperação daquilo que conseguimos recordar ou recuperar.

        Seguimos as recolhas feitas pelo Jornal do Batalhão de Artilharia 2838, “OS LOBOS” que esteve em comissão em Moçambique entre Janeiro, Fevereiro de 1968 e Março Maio de 1970. Até certa altura foi publicando o que aparecia, depois?... Depois, mudou o comandante! Seguimos ainda  o “HIT PARADE DO NIASSA - DESABAFOS- ” umas folhas com a menção de “REPRODUÇÃO PROIBIDA” que guardamos desde 1970 e uma cassete com o “CANCIONEIRO DO NIASSA” que, clandestina, toda a gente desse tempo sabe que só a MARINHA QUE ESTEVE EM METANGULA tinha meios e possibilidades de a realizar, até o/s cantor/es, o homem das partituras e das letras e o homem das gravações, que tiveram de fazer várias maratonas!!!

        Tentámos “dar o seu a seu dono” e identificar o maior número possível de autores das letras. Mesmo sem conseguir tudo, deixamos espaço para cada um fazer esse trabalho.

        Aí fica pois, a recolha de que fomos capazes e a hipótese de cada um a completar da melhor maneira possível.

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VAMPIROS

Zeca Afonso 

No céu cinzento, sob o astro mudo,

Batendo as asas p’la noite calada,

Vêm em bandos, com pés de veludo,

Chupar o sangue fresco da manada.

 

Se alguém se engana com seu ar sisudo

E lhes franqueia as portas, à chegada:

Eles comem tudo, Eles comem tudo,

Eles comem tudo e não deixam nada.

A toda a parte chegam os vampiros,

Poisam nos tectos, poisam nas calçadas...

Trazem no ventre despojos antigos

E nada os prende às vidas acabadas.

Eles comem tudo, Eles comem tudo,

Eles comem tudo e não deixam nada.

No chão do medo, tombam os vencidos,

Ouvem-se os gritos, na noite abafada,

Jazem nos fossos vítimas de um credo

E não se esgota o sangue da manada.

Se alguém s engana com seu ar sisudo

e lhes franqueia as potas à chegada!

Eles comem tudo, Eles comem tudo,

Eles comem tudo e não deixam nada.

HINO DO LUNHO

“Vampiros” – Zeca Afonso

Alferes Herculano de Carvalho (O Carvalho Cem da 1ª de Engª) e outras achegas

No céu cinzento, sob o astro mudo

Batem as hélices na tarde esquentada,

Vêm em bandos, com pés de veludo

Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com o seu sorrir

E lhes franqueia as portas, à chegada:

Só mandam vir, só mandam vir,

Só mandam vir e não fazem nada.

A toda a parte chegam helicópteros,

(Vêm em bandos) Poisam nos tandos, poisam nas picadas...

Trazem no ventre “os cabeças d’ouro”

Que de guerrilhas não percebem nada.

São os reizinhos do Niassa todo.

Senhores por escolha, mandadores sem punho,

Aceitam cunhas e dizem que não,

Passam a ronda sobre os céus do Lunho.

‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,

Só mandam vir e não fazem nada.

Quantos “mercedes”, senhor capitão,

Até agora foram fornicadas?!

Eu bem lhe disse que pusesse os homens

Detectando minas, fazendo emboscadas.

Lendo os papéis, lá na sua ZAC,

Gritam p’ra nós, mui enfurecidos:

- Foi de propósito, foi de propósito,

Foi de propósito que ela foi estoirada.

No chão do medo tombam os vencidos,

Ouvem-se os tiros (gritos) na noite abafada,

Jazem nos fossos vítimas d’um credo

E não se esgota o sangue da manada.

‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,

Só mandam vir e não fazem nada.

Comem cabrito, comem cabrito,

Comem cabrito e n´s feijoada.

Fazendo a estrada sobre um chão de greda

Fazem-se aterros, pontes e pontões,

Ouvem-se os tiros lá na emboscada

Aqui no Lunho é que há leões!!! (colchões!)

Ouve-se um estrondo, todo o chão tremendo,

Saltam as chispas com grande estupor,

Soam as tubas: - O que terá sido?

- Mudou o chefe deste sector.

Acaba a guerra, eu cá sou bom

Sou candeeiro e também fogão! (fogom!)

 NOTA:(O novo comandante era qualquer coisa com HIPÓLITO!)

- Só quero feridos à segunda-feira!...

- Não quero mais evacuações!...

- O inimigo deve conhecer-se,

Vamos chamá-lo para as inspecções.

Agora queriam arrasar o LUNHO,

Deixar a estrada e largar a pista!

...Ele é que é bom, já ninguém duvida,

Deixa contente qualquer terrorista.

Encher o peito de metal brilhante,

É essa a sua aspiração.

Por isso deixa os turras sózinhos

Dentro a linha de contenção.

- Deixem crescê-los,organizar-se,

Depois eu vou deitar-lhes a mão!

Tremem as paredes de qualquer quartel,

Falam militares, anda tudo à bulha!...

Ri-se o capitão, ri-se o coronel,

Com esta merda (moda) da mini-patrulha!

Estranha maneira de tratar o cancro,

Que se propaga por nossa nação!...

Ele será leigo ou talvez ceifeiro.

Mas nunca médico cirurgião.

‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,

Só mandam vir e não fazem nada.

Senhor comandante de batalhão,

Invente mais uma operação

E distribua mais uma ração,

Mais quatro noites a dormir no chão...

‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,

Só mandam vir e não fazem nada.

Por uma ponte sem terminação,

O nosso sangue foi sacrificado,

Mas aleluia!, não será lembrada,

Pelos cabeças de ar condicionado.

‘Stou farto deles, ‘stou farto deles,

Só mandam vir e não fazem nada.

(repetido os VAMPIROS do ZECA, para comparação)

 

 

 

No céu cinzento, sob o astro mudo,

Batendo as asas p’la noite calada,

Vêm em bandos, com pés de veludo,

Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com seu ar sisudo

E lhes franqueia as portas, à chegada:

Eles comem tudo, Eles comem tudo,

Eles comem tudo e não deixam nada.

A toda a parte chegam os vampiros,

Poisam nos tectos, poisam nas calçadas...

Trazem no ventre despojos antigos

E nada os prende às vidas acabadas.

Eles comem tudo, Eles comem tudo,

Eles comem tudo e não deixam nada.

No chão do medo, tombam os vencidos,

Ouvem-se os gritos, na noite abafada,

Jazem nos fossos vítimas de um credo

E não se esgota o sangue da manada.

Se alguém s engana com seu ar sisudo

e lhes franqueia as potas à chegada!

Eles comem tudo, Eles comem tudo,

Eles comem tudo e não deixam nada.

AOS “GUERRILHEIROS” (ARTILHEIROS) DO LUNHO

“Muito Boa Noite – Amália

Joaquim Correia

Muito boas noites, senhoras, senhores,

Os homens do Lunho são bons lutadores.

São bons lutadores,

São bons guerrilheiros,

Fazem horas extra sem ganhar dinheiro.

Sem ganhar dinheiro, e a nada se fica;

No dia da folga, vai a pá e pica.

LÁ LÁ LÁ...

Fazemos machambas e nasce o que é bom;

No rancho, comemos sopa de feijão.

Sopa de feijão

E algum com cristas

E p’ra variar temos os ciclistas.

Temos os ciclistas, com molho e salada.

Fome não passamos, mas fartura? Nada.

LÁ LÁ LÁ...

Conforto não falta, a verdade é uma,

Até colchão temos e de lusospuma.

Para o não estragar,

Fazem o esforço

De mandar p’ró mato ou pôr de reforço.

Pondo de reforço, já sabem que são

colchões p’ra durar outra comissão.

LÁ LÁ LÁ....

LÁ LÁ LÁ DO LUNHO

“Lá Lá Lá...” Festival EuroVisão 68/69?

Joaquim Correia

Eu canto p’r’a minha terra,

Já que não posso lá estar!

E canto p’ra distrair

Quem passa o tempo a chorar!