AGORA
(2004)
já
pode ver em reorganização... e ouvir algumas
músicas
devido
ao especial contributo dos Amigos Manuel Aleixo, que está
a fazer a recuperação de algumas gravações
datadas de 1969 e do Manuel Cruz, que vai tentando que
eu consiga aplicar alguma coisa destas artes da programação
e da internet
Carregue
AQUI
ou nas NOTAS ao lado
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Lago Niassa
- Metangula - 1968
O
CANCIONEIRO DO NIASSA...
a
sua continuação GRITOS DE GUERRA CONTRA A GUERRA
INTRODUÇÃO
- EXPLICAÇÃO
GLOSSÁRIO
uma
INTRODUÇÃO - EXPLICAÇÃO
O LUNHO, uma
zona quase desconhecida ao Norte de Moçambique, e o HINO DO LUNHO,
a partir da CANÇÃO - OS VAMPIROS de ZECA AFONSO, devem ter dado
origem, julgamos nós, a um fenómeno dos mais originais, criativos
e significativos que aconteceram na GUERRA DO ULTRAMAR. Claro
que deve ter começado antes, e continuado depois, mas foi com
o nosso BATALHÃO de ARTILHARIA 2838, e a COMPANHIA de ARTILHARIA
2325, que este fenómeno se desenvolveu e depois foi divulgado
pela Marinha (a famigerada MARINHA DE ÁGUA DOCE sediada em Metangula
que até tinha ar condicionado, rádio e tudo...), que este fenómeno
adquiriu a sua projecção especial.
Foi esta CART
2325 que herdou esta versão dos VAMPIROS do alferes Carvalho da
Companhia que fomos render(?!). Consta, conta-se que este rapaz,
um tanto forte a dar p’ró gordo, era a calma em pessoa, e, era
um génio em aplicações práticas de engenharia. Num atascanso,
por exemplo, (Não sabem o que é?) em vez de pôr a malta a puxar
à bruta, sentava-se a calcular a força e a posição do pequenos
Unimogs e, aí estava uma pesada Berliet fora do buraco!!!. Consta
ainda, conta-se, que, enquanto os Unimogs puxavam e não puxavam,
se sentava encostado ao tronco de um enorme embondeiro, (Também
não sabem o que é?) e no fim, estava mais uma canção feita. Quando
lhe vinham trazer a notícia, que ele já sabia, de que a Berliet
estava desatascada, ele, displicente, puxava da viola e aí estva
mais um fado ou uma canção, uma adaptação! Era uma maneira original
e “subversiva”!? de encarar a guerra! Ora isto, creio eu, deu
origem a algo singular que, passados vinte anos, vinte e cinco,
ainda não foi percebido. Talvez o venha a ser.
NOTA IMPORTANTE:
(A pedido (ameaça!?)
registado no eMail que se segue aí fica a reposição
da VERDADE HISTÓRICA do Senhor Amadeu que foi uma testemunha
ao vivo.)
De:
Amadeu Neves da Silva
Data: 02/03/09 22:26:24
Para: joraga@netcabo.pt
Assunto: Hino do Lunho
Olá
Joraga
Sou,
Amadeu Neves da Silva, Ex. Furriel Milº da CCAÇ 1558
do BCAÇ 1891.
Vivo em Almada, o meu contacto é 965407583.
Há meses entrei no seu blog ???) e constatei a inverdade
e a versão romanceada sobre o Ex. Alferes Carvalho 100.
Já o alertei para repor a verdade.
Digo e repito não foi a CART 2325 que divulgou o Hino do
Lunho. Ele foi feito na picada entre Nova Coimbra e o Lunho.
Em Março de 1967, estava estacionada em Nova Coimbra uma
CENGª, comandada pelo Cap. Cepêda que tinha por missão
fazer a picada para o Lunho e o aquartelamento em Miandica. De
Março a Junho quem fez a segurança à Engenharia
foi a 1558 e em Miandica e 1 Grupo de Combate da 1559.
Em Junho de 67 chegou a N. Coimbra a 1ª Cª do BCAÇ
16 do recrutamento da Província. Esta Compª rendeu
a 1558 na segurança à Engª. ficando a 1558
com a missão de quadricula e com os destacamentos de Messumba
e de Miandica.
E é aqui entre Nova Coimbra e o Lunho, em Bivaque, que
é na minha presença que é feito o Hino do
Lunho.
Quando o então Brigadeiro Costa Gomes e a sua comitiva
foram ver a picada o Hino foi-lhe cantado.
Em Novembro de 1967 chegam ao fim as obras da picada e em paralelo
a construção do aquartelamento do Lunho. Nele ficaram
instalados a 1ªCª do BCAÇ 16 e a 2ª CENGª
do recrutamento da Província.
Nos finais de Dezembro de 1967 aquando do regresso do meu G.Combate
a N. Coimbra vindo de Miandica, estas 2 Companhias ainda estavam
no Lunho e ainda não tinha começado a obra da ponte
sobre o Rio Lunho.
Na época a 2ª Cª. Comandos, comandada pelo Falecido
Capº Valente, andava muito por aquelas paragens e levou consigo
o Hino para Vila Cabral e daqui expandiu-se por todo o Niassa.
Quando
fomos rendidos pela CARTª 2324, em Fevereiro de 1968, regressámos
à Zambézia e em todo o trajecto ouvíamos
e cantámos o Hino. Ele já era bem popular entre
os Militares, talvez não entre os Checas.
Em
Maio de 1968 regressámos ao Niassa. Tivemos algum tempo
em Vila Cabral onde o sucesso do Hino era enorme.
No
mesmo mês fomos fazer intervenção a Nova Viseu,
onde estavam os checas da CARTª 2374, eles gostaram do Hino
do Lunho e do "TOMBE LA NEIGE". Esta canção
não lhe deve dizer nada.
A
respeito da força do Alf. Carvalho 100 ele era um homem
obeso, não tinha nem pouco mais ou menos a força
e o poder que o JORAGA quer fazer crer.
Mais
uma vez lhe peço: reponha a verdade histórica.
Um
abraço
Amadeu
Silva
Por
favor consulte o blog www.bcac1891.blogspot
e
abra os livros da 1558 e 1559 e vai reviver algumas coisas e algo
sobre a morte do soldado Fernandes.
Naquele tempo,
e nos anos da revolução, os heróis foram aqueles que desertaram
e depois se locupletaram com os louros e proventos da REVOLUÇÃO.
Este fenómeno de contestação daqueles que não quiseram ou não
puderam “desertar” porque não podiam fugir, e, mesmo assim, não
abdicavam do seu poder crítico e da sua maneira de ver as coisas,
é algo que é preciso entender como forma “normal” do comportamento
humano, em situações de risco e de “irracionalidade” e “injustiça”
normalizada, institucionalizada e legalizada.
Esse acontecimento
singular, com a conivência de alguns dirigentes e oficiais (os
do 25 de Abril não vieram do nada!), deu origem, passado um ou
dois anos, a uma coisa que se chamou - O CANCIONEIRO DO NIASSA
-.
Com as melodias
das músicas mais em voga nesse tempo, finais dos anos sessenta,
de que nos recordávamos, alguns dos nossos colegas do BATALHÃO
e de outros, e os vizinhos da MARINHA, criaram letras que cantámos
e punham toda a gente a cantar, tentando gritar a nossa raiva,
insatisfação e impotência, e, ao mesmo tempo, nos proporcionaram
momentos de inesquecível convívio que teriam repercussões e efeitos
imprevisíveis!
Não raro, passou
mesmo a ser de bom tom, (ali no mato aconteciam coisas estranhas!!!),
convidar um BALADEIRO (soldado, furriel, sargento, oficial...!)
que se apresentava estoirado de uma operação no mato, para cantar
aquela versão do fado (...!?), ao ao senhor General, Almirante
ou Brigadeiro que estavam ali de passagem, para inspecção ou em
viagem de rotima...!
A maior parte
dos autores, sobretudo na altura como é compreensível, eram ou
ficavam desconhecidos. Era natural. Todos ali sabíamos quem eram,
mas o facto de terem saído umas letras nuns jornais com nomes
e tudo e o zelo da PIDE e outras organizações, recomendavam que
aquilo aparecesse como um fenómeno colectivo e expontâneo como
acontece com a poesia popular e tradicional que, sendo de todos,
não são de ninguém como as “Cantigas da Rua...”
Foram muitos
os que contribuiram para este CANCIONEIRO. Não temos sequer a
pretensão de estar convencidos que temos todas e as mais profundas.
Estamos no
entanto convencidos de que, pela variedade de autores, temas e
melodias facilmente identificáveis pelos que têm acesso ao que
estava em voga nos anos sessenta, setenta, temos, de facto algo
de valor documental que pode mostrar o retrato de uma época e
de uma maneira de ser e estar própria de um número significativo
de pessoas que, não tendo posições de relêvo, têm a sua maneira
de intervir na história.
Quem tiver
oportundade de ouvir uma famigerada cassete que circulou “clandestina”
de mão em mão com o CANCIONEIRO DO NIASSA e ter acesso a uma recolha
como esta ou outras similares, pode aperceber-se do cuidado que
tinham, em não ofender “ouvidos atentos” e perigosos que sempre
estavam por perto!
E não eram
só os da PIDE ou similares. Eram até os zelosos defensores dos
“bons costumes”, das boas maneiras e da linguagem! Claro! A linguagem
é que revela os “bons” ou os “maus” costumes ou modos de pensar
e estar na vida! É de notar entretatanto, que, quase todos os
palavrões, (a coisa mais natural nos meios castrenses!) têm, quase
sempre, uma palavra suave e digna (como “corra” em vez de “porra”,
“leões” ou “colchões” em vez de “colhôes” ou “carvalho” em vez
de “caralho” ou até “perriupiupiu” em vez de “puta que os pariu”)
para que tudo isto pudesse ser apresentado e cantado nos salões
do mais elevado requinte!!!
É por isso,
e por muito mais, que, passados VINTE E CINCO ANOS!!!, (desde
1968 – 1970) - (outro fenómeno que dara para um enorme estudo...
Porquê? mais de vinte anos?) aqui fica uma recuperação daquilo
que conseguimos recordar ou recuperar.
Seguimos as
recolhas feitas pelo Jornal do Batalhão de Artilharia 2838, “OS
LOBOS” que esteve em comissão em Moçambique entre Janeiro, Fevereiro
de 1968 e Março Maio de 1970. Até certa altura foi publicando
o que aparecia, depois?... Depois, mudou o comandante! Seguimos
ainda o “HIT PARADE DO
NIASSA - DESABAFOS- ” umas folhas com a menção de “REPRODUÇÃO PROIBIDA” que guardamos desde 1970 e uma cassete com o “CANCIONEIRO
DO NIASSA” que, clandestina, toda a gente desse tempo sabe que
só a MARINHA QUE ESTEVE EM METANGULA tinha meios e possibilidades
de a realizar, até o/s cantor/es, o homem das partituras e das
letras e o homem das gravações, que tiveram de fazer várias maratonas!!!
Tentámos “dar
o seu a seu dono” e identificar o maior número possível de autores
das letras. Mesmo sem conseguir tudo, deixamos espaço para cada
um fazer esse trabalho.
Aí fica pois,
a recolha de que fomos capazes e a hipótese de cada um a completar
da melhor maneira possível.
Agora na minha TEIA na REDE http://www.joraga.net
o Site na WEB – http://www.geocities.com/joraga2000
com os contactos E-Mail: joraga@netcabo.pt
e joraga@netc.pt
ou joraga@iol.pt
VAMPIROS
No
céu cinzento, sob o astro mudo,
Batendo
as asas p’la noite calada,
Vêm
em bandos, com pés de veludo,
Chupar
o sangue fresco da manada.
Se
alguém se engana com seu ar sisudo
E
lhes franqueia as portas, à chegada:
Eles comem tudo, Eles comem
tudo,
Eles comem tudo e não deixam
nada.
A
toda a parte chegam os vampiros,
Poisam
nos tectos, poisam nas calçadas...
Trazem
no ventre despojos antigos
E
nada os prende às vidas acabadas.
Eles comem tudo, Eles comem
tudo,
Eles comem tudo e não deixam
nada.
No
chão do medo, tombam os vencidos,
Ouvem-se
os gritos, na noite abafada,
Jazem
nos fossos vítimas de um credo
E
não se esgota o sangue da manada.
Se
alguém s engana com seu ar sisudo
e
lhes franqueia as potas à chegada!
Eles comem tudo, Eles comem
tudo,
Eles comem tudo e não deixam
nada.
|
|
|
No
céu cinzento, sob o astro mudo
Batem
as hélices na tarde esquentada,
Vêm
em bandos, com pés de veludo
Chupar
o sangue fresco da manada.
Se
alguém se engana com o seu sorrir
E
lhes franqueia as portas, à chegada:
Só mandam vir, só mandam vir,
Só mandam vir e não fazem nada.
A
toda a parte chegam helicópteros,
(Vêm em bandos) Poisam nos
tandos, poisam nas picadas...
Trazem
no ventre “os cabeças d’ouro”
Que
de guerrilhas não percebem nada.
São
os reizinhos do Niassa todo.
Senhores
por escolha, mandadores sem punho,
Aceitam
cunhas e dizem que não,
Passam
a ronda sobre os céus do Lunho.
‘Stou farto deles, ‘stou farto
deles,
Só mandam vir e não fazem nada.
Até
agora foram fornicadas?!
Eu
bem lhe disse que pusesse os homens
Detectando
minas, fazendo emboscadas.
Lendo
os papéis, lá na sua ZAC,
Gritam
p’ra nós, mui enfurecidos:
- Foi de propósito, foi de
propósito,
Foi de propósito que ela foi
estoirada.
No
chão do medo tombam os vencidos,
Ouvem-se
os tiros (gritos) na noite abafada,
Jazem
nos fossos vítimas d’um credo
E
não se esgota o sangue da manada.
‘Stou farto deles, ‘stou farto
deles,
Só mandam vir e não fazem nada.
Comem cabrito, comem cabrito,
Comem cabrito e n´s feijoada.
Fazendo
a estrada sobre um chão de greda
Fazem-se
aterros, pontes e pontões,
Ouvem-se
os tiros lá na emboscada
Aqui
no Lunho é que há leões!!! (colchões!)
Ouve-se
um estrondo, todo o chão tremendo,
Saltam
as chispas com grande estupor,
Soam
as tubas: - O que terá sido?
-
Mudou o chefe deste sector.
Acaba a guerra, eu cá sou bom
Sou candeeiro e também fogão!
(fogom!)
NOTA:(O
novo comandante era qualquer coisa com HIPÓLITO!)
-
Só quero feridos à segunda-feira!...
-
Não quero mais evacuações!...
-
O inimigo deve conhecer-se,
Vamos
chamá-lo para as inspecções.
Agora
queriam arrasar o LUNHO,
Deixar
a estrada e largar a pista!
...Ele
é que é bom, já ninguém duvida,
Deixa
contente qualquer terrorista.
Encher
o peito de metal brilhante,
É
essa a sua aspiração.
Por
isso deixa os turras sózinhos
Dentro
a linha de contenção.
- Deixem crescê-los,organizar-se,
Depois eu vou deitar-lhes a
mão!
Tremem
as paredes de qualquer quartel,
Falam
militares, anda tudo à bulha!...
Ri-se
o capitão, ri-se o coronel,
Com
esta merda (moda) da mini-patrulha!
Estranha
maneira de tratar o cancro,
Que
se propaga por nossa nação!...
Ele
será leigo ou talvez ceifeiro.
Mas
nunca médico cirurgião.
‘Stou farto deles, ‘stou farto
deles,
Só mandam vir e não fazem nada.
Senhor
comandante de batalhão,
Invente
mais uma operação
E
distribua mais uma ração,
Mais
quatro noites a dormir no chão...
‘Stou farto deles, ‘stou farto
deles,
Só mandam vir e não fazem nada.
Por
uma ponte sem terminação,
O
nosso sangue foi sacrificado,
Mas
aleluia!, não será lembrada,
Pelos
cabeças de ar condicionado.
‘Stou farto deles, ‘stou farto
deles,
Só mandam vir e não fazem nada.
|
(repetido
os VAMPIROS do ZECA, para comparação)
No
céu cinzento, sob o astro mudo,
Batendo
as asas p’la noite calada,
Vêm
em bandos, com pés de veludo,
Chupar
o sangue fresco da manada.
Se
alguém se engana com seu ar sisudo
E
lhes franqueia as portas, à chegada:
Eles comem tudo, Eles comem
tudo,
Eles comem tudo e não deixam
nada.
A
toda a parte chegam os vampiros,
Poisam
nos tectos, poisam nas calçadas...
Trazem
no ventre despojos antigos
E
nada os prende às vidas acabadas.
Eles comem tudo, Eles comem
tudo,
Eles comem tudo e não deixam
nada.
No
chão do medo, tombam os vencidos,
Ouvem-se
os gritos, na noite abafada,
Jazem
nos fossos vítimas de um credo
E
não se esgota o sangue da manada.
Se
alguém s engana com seu ar sisudo
e
lhes franqueia as potas à chegada!
Eles comem tudo, Eles comem
tudo,
Eles comem tudo e não deixam
nada.
|
|
Muito
boas noites, senhoras, senhores,
Os
homens do Lunho são bons lutadores.
São
bons lutadores,
São
bons guerrilheiros,
Fazem
horas extra sem ganhar dinheiro.
Sem
ganhar dinheiro, e a nada se fica;
No
dia da folga, vai a pá e pica.
LÁ
LÁ LÁ...
Fazemos
machambas e nasce o que é bom;
No
rancho, comemos sopa de feijão.
Sopa
de feijão
E
algum com cristas
E
p’ra variar temos os ciclistas.
Temos
os ciclistas, com molho e salada.
Fome
não passamos, mas fartura? Nada.
LÁ
LÁ LÁ...
Conforto
não falta, a verdade é uma,
Até
colchão temos e de lusospuma.
Para
o não estragar,
Fazem
o esforço
De
mandar p’ró mato ou pôr de reforço.
Pondo
de reforço, já sabem que são
colchões
p’ra durar outra comissão.
LÁ
LÁ LÁ....
|
|
|
Eu
canto p’r’a minha terra,
Já
que não posso lá estar!
E
canto p’ra distrair
Quem
passa o tempo a chorar!
Canto
também, até
mesmo
sem rima;
Eu
canto porque já estou
apanhado
pelo clima!
(Coro)
LÁ LÁ LÁ LÁ...
No
Lunho, Todos nós temos
Uma
missão a cumprir:
“LERPAR”
de tacho e correio
E
de resto, toca a rir...
Passo,
também aqui,
Tempos
felizes,
Vendo
corridas aéreas
De
patos e de perdizes.
(Coro)
LÁ LÁ LÁ LÁ...
Temos
também, como capa,
Oficiais
e sargentos,
Que
em vez de pé, dizem pata
E
são todos rabujentos.
O
capitão, porém,
É
nosso amigo;
A
quem souber cumprir bem,
Dá
reforços de castigo.
(Coro)
LÁ LÁ LÁ LÁ...
|
|
|
Benvindo,
checa
P’ra
esta guera
Que
cá te espera.
Não
estejas triste
Que
a guerra é linda
Só
fazes cera.
Vais
ter saudades
De
mulheres brancas,
Ai,
que tormento!
Aqui
há pretas
Mas
tem cuidado
C’os
esquentamentos!
Checa
danado
P’la
tropa muito lixado,
Não
chores, ó desgraçado,
Não
vale a pena chorar.
Checa,
benvindo,
Chegaste
a horas,
eu
já vou indo.
Afinal,
mal encavado,
Que
vieste cá fazer?!
Checa,
danada,
Vieste
p’ra me render.
Vais
“lerpar” muito,
Mas
com o aumento
Vais
ficar rico.
Dá-o
às pretas.
Pois
assim, fazes
A
tus “Psico”;
Mas
tem cuidado,
Checa
danado,
Sê
pouco anjinho;
Manda-os
lixar
E
faz a tua
Guerra
sozinho.
|
|
|
Checa,
que vens para cá,
Toma
lá cuidado, ó pá,
Porque
isto não interessa a ninguém.
Põe-te
a pau com toda a estrada
E
também com a emboscada,
Se
quiseres viver cá bem.
Quando
as ouvires zumbir,
Nunca
deixes de sorrir,
Mas
fica sempre calado.
Se
fores ferido, não te omportes,
Pois
- só - demoras dez horas,
Para
seres evacuado.
Quando
fores, de noite, p’ró mato,
Tem
cuidadinho contigo
E
cola-te bem à terra.
Se
fores ferido, estás lichado,
Porque,
após as quatro horas,
O
helicóptero “fecha a guerra”!
Com
minas, é tudo mau.
Rapazes,
ponham-se a pau,
Não
sejam lá muito tontos.
Vocês
não valem um chavo
E
cá uma berliet
Custa
quatrocentos contos.
Nesta
tua recepção,
Eu
aceno com a mão,
Dizendo
adeus, ao NIASSA.
Tem
paciência, amigo checa,
Porque
eu já estou farto disto.
Aguenta
tu com a passa.
|
|
|
Bem
vestidinhos!
Tão
lavadinhos!
Qual
Rosalina!
Com
fardas novas,
Medo
das covas,
Cheiro
a naftalina!
Mas
esse cheiro.
No
ano inteiro,
Há-de
acabar.
São
vossas sinas,
Rebentar
minas
E
muito andar.
Turras,
granads
Minas,
emboscadas?!
Sempre,
para a frente!
C0’as
fardas novas,
Fazei,
´CHECAS,
Figura
de gente!
Checas
chegados,
Copos
e fados
É
vossa esteira...
Seguir
os rumos...
“Não
beber sumos.”
“Só
bebedeira!...”
Afinal,
desventurados,
Que
vêm (vieram), cá, fazer?
Vocês,
são os CHECAS... (Checas danados)
Vêm
p’ra nos render!
|
|
|
O
turra das minas
Pequeno
e traquinas
Lá
vai na picada;
E
a malta escondida
Na
mata batida
Monta
a emboscada.
O
turra passou,
A
malta esperou
Já
toda estafada;
Não
o viu passar
E
a berliet
Sempre
foi estoirada.
Oh
turra das minas,
Tua
vida, agora,
É
pôr as “marmitas”,
Pela
estrada fora!!!
Oh
turra das minas,
Tua
arma soa,
Por
léguas e léguas,
Aqui
no Niassa,
Onde
a guerra entoa!
Há
mortos e feridos
E
os mais fodidos (comidos)
Somos
sempre nós.
Vamos
pelos ares
Gritando
por todos,
Até
p’los avós.
Oh
turra bairrista,
Mas
pouco fadista,
Já
é tradição,
Ser
paraquedista
Sem
tirar o curso?
Ai,
isso é que não.
Oh
turra das minas...
|
|
|
Se,
de mim, nada consegues,
Não
sei porque me persegues
Constantemente,
no mato.
Sabes
bem que eu sou ladino,
Tenho
o andar muito fino
E
que escapo como um rato.
Lá
porque és branco e pedante,
Pretendes
ser arrogante,
Por
capricho e altivez.
Eu,
que tenho sido pobre,
Mas
que tenho a alma nobre,
Talvez
te lixe, de vez.
Como
ando sempre ALERTA,
Tua
arma não me acerta,
Nem
me deixa atrapalhado;
E
assim, num breve instante,
Por
mais que andes vigilante,
Tu
serás, sempre, emboscado.
Por
isso toma cuidado
E
não me venhas com teu fado,
Dizer
que “branco é melhor”;
Eu,
já muito codilhado,
Estou
sempre desconfiado.
Irás
desta, p’ra melhor
|
|
|
Que
estranha forma de vida!
Que
estranha comparação!
Vive-se,
em Lourença Marques,
Cá,
arrisca-se o coirão!
Vida
boa! Vida airada!
E
boites! É só festança!
Lá,
não se fala em matança,
Nem
turras. Há só borgada!
Niassa?
Pura olvidança!
Guerra,
como és ignorada!
Conversa
que é evitada
P’los
que vivem n’abastança!
Falar,
da nossa desdita,
Fica
mal e aborrece!
E,
como lembrar irrita,
Toda
a gente a desconhece!
Ao
passar, pela cidade,
Com
tanta tranquilidade,
Deu-me
para comparar...
Meninas
de mini-saias!?
Mandai-as
p’rás nossas praias,
P´ra
“manobra de atracar”.
Pipis
com carros GT’s!?
Mandai-os
p’rás berliets!
Tirai-lhes
as modas finas!
Melenudos
efeminados
Eram
bem utilizados
P’ra
fazer rebentar minas!
Bem
como essas tais meninas,
Que
apesar de enfezadinhas,
Mas
com ar de sua graça,
Serviriam,
muito a jeito,
P’r’aliviar
(acalmar) a dor de peito,
Cá
da malta do Niassa.
Mas
não! Foi só por pirraça.
Hão-de
lá continuar,
E
nós temos de lerpar!
Invertem-se
as posições
E
trocam-se as situações!?
Continuamos
a aguentar!
Nós,
sem sermos desejados,
Ficamos
cá “APANHADOS”,
Aos
urros, num desvario!
Eles,
os daqui naturais,
Gastando
dinheiro aos pais,
Vão
para o Matola-Rio!
Acabe-se
com a tradição!
Entre-se
em mobilização!
Utilize-se
a manada!
Dentro
de poucas semanas,
Como
quem come bananas,
Estará
a guerra acabada!
|
|
|
Cheguei,
vindo de Lisboa!
Desci,
apanhei calor!
Não
vinha p’ra coisa boa!
Passei
ao Estado Maior!
A
vida que aqui julgava,
Nem
sempre será da pior!
Mas
logo, a coisa estava,
Não
pensar ser o melhor.
O
SITREP (diga SITERREPE) O SITREPEZINHO
É
O RELIM E O ORDOPEZINHO,
E
ORDEMOVEé coisa já sabida
Nada
mais lindo p’ra fazer na vida.
Passei
a ser meticuloso
Estudei
e vi qual era a norma.
A
guerra assim até dá gozo
Pois
tudo é só questão de “forma”.
Não
tenho que usar coragem,
No
papel é que está a glória,
Pois
só interessa a percentagem
P’ra
quem quiser ficar p’rá história.
O
SITREP (diga SITERREPE) O SITREPEZINHO
É
O RELIM E O ORDOPEZINHO,
E
ORDEMOVEé coisa já sabida
Nada
mais lindo p’ra fazer na vida.
|
|
|
“Ser Fadista” – Frei Hermano da Câmara
Ser miliciano foi meu sonho,
Mas não foi esse o meu fado;
Deus me deu outra mania,
De entrar p’ra Academia,
Ser oficial do quadro.
Abandonei os milicianos,
Ai deixei a honestidade,
Passei a ser calaceiro,
Sabujo do mundo inteiro,
Deixei de falar verdade.
Hei-de ir p’ró Estado Maior,
Cagar postas de pescada,
Dedicar-me à quele estudo:
“Eles é que sabem tudo,
Os outros não sabem nada”.
Não chorem pelo meu fado!
Ai amigos, não levem a mal;
Se eu aldrabar um bocado,
Se eu aldrabar um bocado,
‘Inda chego a General!
|
|
|
Ser “eRRe” “eNe” foi meu sonho,
Mas não foi esse o meu fado;
Deus me deu outro ideal,
De ir p’ra Escola Naval,
Ser oficial do quadro.
Abandoneia RESERVA,
Ai deixei a honestidade,
Passei a ser calaceiro,
Sabujo do mundo inteiro,
Deixei de falar verdade.
Hei-de ir p’ró Estado Maior,
Cagar postas de pescada,
Dedicar-me àquele estudo:
“Eles é que sabem tudo,
Os outros não sabem nada”.
Não chorem pelo meu fado!
Do meu fado eu sou amante;
Se eu aldrabar um bocado,
Se eu aldrabar um bocado,
‘Inda chego a Almirante!
|
|
|
“Fado
Canção”
?
Estava
eu, na minha terra,
Disseram-me:
-Vais p’rá guerra,
Toma
lá uma espingarda;
Um
bilhete pr’ó navio,
Uma
medalha num fio
E
uma velha, velha farda.
Após
dias de caminho,
Estava
já muito magrinho,
Esfomeado
como um rato,
Olhei
e vi as palmeiras,
macacos
e bananeiras!!!
Entendi.
Estava no mato.
Foi
então, que o nosso cabo
Disse
que eu era um bom nabo,
Por
, à noite, a Deus rezar.
Para
ele, um bom magala
Vai
à noite p’rá sanzala
Para
uma preta arranjar.
O
furriel e o sargento
Chamavam-me
fedorento,
Porque
me queria lavar.
O
alferes e o capitao
Diziam
que era calão,
Se
me viam descansar.
Estava
já farto da guerra,
A
lembrar a minha terra,
Fui
um dia passear...
Numa
palhota, sozinha,
Estava
uma preta girinha,
Que
ao ver-me, pôs-se a chorar.
E,
fiquei com tanta pena
Dessa
mocinha morena,
Que
fugimos para o mato.
Somos
um casal feliz
E
já temos um petiz,
Que,
por sinal, é mulato.
|
|
|
Piquenique
fazemos todos os dias
P’la
estrada fora carregados como burros.
Em
pirilau, lá vamos nós
Calcando
minas, em vez de caçar os turras.
(Estribilho)
Piquenique,
Piquenique!?
Ai
se isto é piquenique
antes
quero estar quieto!
Piquenique,
Piquenique!?
Nem
na caserna estou bem
pois
pode cair o tecto.
P’lo
mato fora, vamos abrindo caminho
Sem
demonstrar o nosso forte cansaço.
De
tanto andar, temos de prémio,
Uma
camada do belo feijão macaco.
(Estribilho)
Piquenique,
Piquenique!?...
Até
de noite, patrulhamos o capim,
Àluz
da lua sem temer a bicharada.
Vimos
palhotas com sentinelas
E
regressámos sem ter apanhado nada.
(Estribilho)
Piquenique,
Piquenique!?
|
|
|
Em
tempos, tive a mania
que
não havia emboscadas,
Até
que, num lindo dia,
Toda
a minha companhia,
P’los
turras, foi avisada.
A
história, que eu vou contar,
contou-ma
certo velhinho,
Quando
eu vim p’ró Ultramar.
Disse-me
ele, a sussurrar:
-
“Checa toma juizinho,
senão
podes-te lixar”.
E,
lá no mato, cansado,
De
aspecto feio e sério,
Ia
sempre um soldado
Prestes
a ser emboscado
E
a ir p’ró cemitério.
P’ró
Niassa, veio alguém,
Com
uma ideia aferrada:
-
Ouve, turra, escuta bem
Que
nós não queremos ninguém
Emboscado,
na picada.
Perante
a admiração de todos,
Acabou-se
a emboscada!
Foi
o batalhão dos “LOBOS”
Que
lhes deu porrada a rodos,
Temos
a guerra acabada.
|
|
|
Isto,
já não é como outrora!
Só
temos água a certa hora.
Já
não é como o passado,
Que
havia água em todo o lado!
As
horas p’ra mim são dias...
As
horas p’ra mim são dias...
Os
dias p’ra mim são meses...
Recordação
é saudade;
Agora
há só sujidade;
Só
nos lavamos, às vezes.
Ó
tempo, volta p’ra trás,
Traz-me
tudo o que eu perdi;
Tem
pena e dá-me a água,
A
água que eu não bebi.
Ó
tempo, volta p’ra trás,
Olha
a minha esperança vã,
Porque
eu preciso de água
P’ra
me lavar, de manhã.
Abrem-se
poços, à toa,
À
procura da nascente,
Mas,
se não fosse a lagoa,
O
que seria desta gente?!
O
tempo vai passando
E
nós vamos lerpando.
O
que será de nós agora?
Não
poderemos esquecer
Aquela
água, de beber,
Que
nós tínhamos, outrora.
Ó
tempo, volta p’ra trás...
|
|
|
|
|
|
Foi no Batalhão dos “LOBOS”, que encontrei,
Depois de já ter andado às voltinhas,
Um belo e rico bar;
- E quem lá fui encontar?
Os “LOBOS” a beber umas “bazuquinhas”!
Da entrada até ao balcão,
Vi-os todos, todos, todos,
Com copinhos e garrafas, tão lindinhas!
E um “manga” embebedado, lá no chão,
Abraçado às garrafinhas.
Entrei lá e vi ao fundo dessa sala,
No balcão, um sujeito que é pinguinhas.
Vi também homens de garra,
vi violas e guitarras,
Vi bebedeiras das finas, de ginginhas.
O tempo, aqui, sempre passa
Para esta rapaziada,
Que, já muito, tem andado às voltinhas,
Cá nas terras do NIASSA, com cachaça,
Fazendo caça aos TURRINHAS.
As janelas tão garridas, que ficavam
Com cortinados de saca às rendinhas,
Tinham mesmo muita graça,
Que ninguém pensa em desgraça,
Com os jogos inocentes das “LERPINHAS”.
Tem as paredes pintadas,
De bonecas engraçadas,
Belas ruivas e morenas, mais loirinhas.
Para mim, é recordada esta casa,
A nascente das pinguinhas.
Foi bom, fazer, lá, do bar o que fizeram:
Uma cerca enfeitada com caninhas...
Com violas e guitarras
P’ra se ouvir as desgarradas
E dar de beber, a nós, as cervejinhas...
Recordando o passado,
Vivendo e cantando o fado!...
Procurar tudo esquecer!...
Nas garrafinhas.
Pois, - dar de beber à sede é o melhor
- ,
Já dizia o ZÉ PINGUINHAS.
|
|
|
“Zé Cacilheiro”
Aqui,
no Lago NIASSA,
Onde
a malta toda passa,
Falta
cá mais um passante...
Aqui,
nesta guerra fria,
Sentimos
a nostalgia!...
Falta
o nosso Comandante!
Quando
da sua presença,
Desde
o Lunho a Olivença,
Tudo
gostou dele, cá.
Mas,
nestes tempos de agora,
Toda
a malta ainda chora,
Pois
ele já cá não está!
(outra
versão, 1ª, da sextilha anterior)
Quando
da sua presença,
Do
Bandece a Olivença,
Todos
deu sua bondade!
Agora,
está em Nampula.
Em
nós, saudade pulula
Da
sua velha amizade.
Aqui, na guerra,
Distantes da nossa terra
No peito, a saudade encerra,
Cá, por esta vida errante...
Mas há certeza,
Da malta andar em beleza,
Mas com uma certa tristeza,
Falta o nosso Comandante.
E,
por esta vida fora,
Cá
vamos andando, agora,
Sempre
com a esperança em vão.
Nós
sentimos a ausência
Da
saudosa permanência
Do
comandante Falcão.
Como
a vida tem que andar,
Temos
que nos conformar
Aqui,
na Pátria distante;
Mas
a saudade permanece
E
a “malta” nunca esquece
O
Primeiro Comandante.
“A Casinha de Nós Dois”
A
messe de nós todos é pequenina
E
entra vento por todo o lado.
O
pequeno almoço é café com margarina,
com
pão e leite condensado.
Tem
as paredes decoradas
De
desenhos feitos à mão;
As
cadeiras despregadas;
E
as mesas desengonçadas,
E
sem gelo p’rá refeição.
Um
prato fino, na mesa,
Ao
almoço e ao jantar
Tem
arroz com peixe, de certeza,
E
um cheirinho de enjoar;
E
o primeiro bebe caldinho,
Porque
já não tem dentes;
Mas
tem sorte, porque o Toninho
Lhe
arranja coisinhas quentes.
Nossa
messe é bestial!
Até
tem vida animal,
Embalsamada
pelo Leal.
Quando
fico a descansar, pela semana,
Em
lindas noites sonhadoras,
É
tão lindo, os percevejos lá na cama
E
as baratas voadoras!!!
É
tão linda a nossa messe! Tem beleza.
Tenho
dela presunção.
O
Costa, a servir à mesa,
É
a maior riqueza,
Desta
nossa corporação.
|
|
|
“Fui de Viela em Viela”
Fui,
de picada em picada,
Andei
muito e não vi nada
E
andava atarantado...
Sob
a árvore da estrada,
Um
turra, com uma granada,
ali,
estava bem armado.
Fui,
com grande precaução!
Fiz
das tripas coração
E
mandei, logo, avançar...
Pois
eram três, bem armados,
que
ali foram raptados
E
acabei por os matar.
Toda
a malta está contente.
Caminhámos
sempre em frente,
Não
parámos um só momento...
E
com a malta já cansada,
Depois
de tanta maçada,
Entrámos
no acampamento.
No
rosto da rapaziada,
Só
vi desgosto e descrença!
Era
a guerra!... Mas a GUERRA
Não
é, sempre, o que se pensa.
|
|
|
Ao
longo dum caminho pedregoso,
Depois
de expor, às balas, minha vida,
meus
lábios, num desejo sequioso,
Rogam,
a Deus, a benção da bebida.
E,
quando a distância aumenta sempre mais
E,
no mato, pernoitamos escondidos,
Lembrando
ferozes animais,
E
recordando os copos já bebidos...
Eis
que acaba a noite e surge o dia,
E,
com ele, a esperança de voltar!
Meus
lábios, loucos de alegria,
Antevêem,
já, a chegada ao bar.
E,
logo que o regresso tem lugar,
Toda
a minha gente está contente,
Pois
o regresso significa: “Não lerpar!”.
E
“Não lerpar” significa; AGUARDENTE!!!
|
|
|
Vivo
esperando
O
dia em que voltar.
Chegará
o dia
De
meus pais abraçar.
A
felicidade
Que
eu vou sentir.
Ao
vê-los, de novo,
Para
mim, sorrir!...
E,
ao voltar,
Chorando
de alegria,
Beijar
o mar,
Que
me trouxe um dia.
|
|
|
“Adeus Mouraria”
Adeus,
Cóbue e Manhais
E
Lipoche, “Good bye”,
A
zona que é mais pachola.
Adeus,
ó ondas malucas,
Que,
daqui às Molulucas,
É
sempre a bater cachola.
(estribilho)
Adeus,
Metangula!
Adeus,
comissão!
Já
vou p’rá cidade
E
até me dá vontade
De
m’amandar p’ró chão!
O
farol da torre,
(Deixei
o farol)
Que
o “control” regula,
Vou,
pelo caminho,
Dizendo,
baixinho:
-
Adeus, Metangula
Adeus,
ó Lago Niassa,
Onde
se apanha uma passa
(Só
conhece quem lá passa)
E
se dorme ao luar.
Adeus,
recantos banais;
A
mim, não me lixais mais.
Agora,
vou descansar.
Adeus,
Metangula...
|
|
|
Do
Soneto de Camões: “Alma Minha e Gentil...”
Alma
ruim e cruel, que enfim partiste,
Tão
tarde, diz o povo descontente,
Fica,
lá, no inferno eternamente,
Que
nenhum português ficará triste.
Se,
lá no inferno, onde caíste,
Memória,
deste mundo, se consente,
Que
te não esqueça, nunca, a lusa gente,
A
quem, tantos maus tratos, infligiste.
E
se vires, que te é dado compesar,
De
alguma forma, a dor que nos legaste,
Nestes
quarenta anos de penar!!!,
Roga
a Deus, em quem sempre acreditaste,
Que,
bem cedo, te mande acompanhar
Pela
corja de bandidos, que criaste.
|
|
|
Manuel
era feliz,
Numa
aldeia, lá da serra,
A
guardar o seu rebanho
Não
sabia o que era a guerra.
SE EM TODA A TERRA TODOS OS HOMENS
DISSESSEM NÃO! DISSESSEM NÃO!
NUNCA, OS JOVENS, COMO O MANEL,
TERIAM MORTO O SEU IRMÃO.
Mas
os homens, que são maus,
Vão
tirar a paz, à serra,
E
o Manuel deixa o rebanho
E,
um dia, parte para a guerra.
(Coro
1)
Morrem
homens, aos milhares,
Está
de luto, toda a terra,
E
o Manel, que era pastor,
Sabe,
agora, o que é a guerra.
(Coro1)
Manuel
parte p’r’a guerra,
Leva,
em paz, o coração.
Manuel
parte, chorando;
Manuel
parte, rezando:
Não
matarei meu irmão.
(Coro
1)
Manuel,
pelo mar fora,
Vai
pensando em sua mãe!...
Lá
na aldeia, onde o criou,
DE
menino, lhe ensinou,
A
ser um homem de bem.
PENSA NAS MÃES QUE, EM TODA A TERRA,
VÊEM SEUS FILHOS PARTIR P’RA MATAR...
ELAS QUE, SEMPRE, OS ENSINARAM
A SER FIÉIS A LEI DE AMAR.
Manuel,
na noite escura,
Sabe
que a hora chegou.
Não
tem medo de lutar,
Pois
sabe que foi p’ra amar
Que
sua mãe o criou.
(Coro
2)
Manuel
não usa arma,
Tem,
no corpo, o frio chão,
Olha
o outro, à sua frente,
Diz-lhe,
baixo e tristemente,
Porque
me mataste, irmão?
(Coro
2)
(Coro
1)
|
|
|
Fado Corrido
Que
mais queres, tu?
Que
mais queres, tu?
No
país do sol,
Podes
andar nu!
Tens
um sol doirado,
Que
até dá nas vistas
P’ra
comeres com fados,
Olhando
os turistas...
Com
sol e com fados,
Com
toiros e bola,
Que
mais queres, ingrato,
Para
encheres a tola?!
Quartos
alugados?
Para
cinco ou para seis!...
Três
assoalhadas?
Dois
contos de reis!...
E
os bairros de lata
Que
lindos que são!
Alguns,
até, têm televisão!
Podes
fazer filhos,
Que
o abono é chorudo,
Pois
dã-te cem paus
por
cada miúdo!
Vê
que a Previdência
Por
ti se depena
Agora
a doença
Até
vale a pena.
Se
perderes um braço
Nalguma
batalha
No
Dia da Raça
Dão-te
uma medalha...
Se
morreres na guerra,
Os
teus chefes ‘stão prontos
A
pôr-te, na terra,
Por
catorze contos.
E
assim vai a vida,
Neste
mar de rosas!...
E
se alguém protesta
Contra
este bem-estar?!!!
‘Inda
há solução:
A PIDE, eficiente,
Retira
o doente
Da
circulação...
|
|
|
|
|
|
GLOSSÁRIO:
|
Palavras
e expressões que tiveram e têm um significado especial.
|
|
Apanhado
pelo clima
|
Era ficar maluco ou varrido da tola.
|
|
Bandece
|
Pequena povoação perto do Lago Niassa ou do Malawi da
Administração de Maniamba.
|
|
Bazuca
|
A bazuca era a arma de fogo de cano largo que seria o
canhão transportável (isto para leigos)...
|
|
bazuquinhas
ou bazzokinhas
|
Por analogia(!?), no bar, a Bazuca, que até dava para
escrever à estrangeiro, era a a garrafa de cerveja grande
acima das minis e médias....
|
|
Berliet
|
O grande carro pesado para transporte de carga e, com
bancos, para transporte de um pelotão ou?...
|
|
Cabeças
d’oiro
|
Os brigadeiros e generais... os chefes.
|
|
Capim
|
Erva alta. Termo já percebido pela maior parte.
|
|
Checa
|
Era o caloiro que chegava para a guerra... fresquinho,
idealista e/ou cagado de medo...
|
|
Cóbue
|
Pequena povoação a Norte do Niasa em frente(Este) à ilha
de Likoma.
|
|
é
mato
|
“Gente aqui é mato.” Há muita gente.
|
|
Esquentamento
|
As doenças venéreas derivadas da prostituição. A sífilis
era o terror que esgotava os stokcs ded penincilina.
|
|
Jogar
à lerpa
|
O jogo da batota, às cartas, em que se perdiam ordenados
inteiros...
|
|
lerpar
|
Significava desde perder até morrer...
|
|
Licoma
|
Ilha em pleno Lago Niassa.
|
|
Lunho
|
Região interior o Oeste do Niassa que nos anos sessenta
era considerada a zona isolada e de grande risco.
|
|
Machamba
|
Tereno de cultivo, desde o pequeno quintal à grande propriedade.
|
|
Malema
|
Povoação interior na ponta do triângulo do Cabo Delgado.
|
|
Marmita
|
Era o equipamento de cada soldado para poder receber o
comer, mas aqui eram as minas anti-carro e anti-pessoal
que eram o terror das deslocações que tínhamos de fazer.
|
|
Matabicho
|
Em princípio era o pequeno almoço à inglesa, mas pode
ser um bagaço ou bebida branca ou até gorgeta... Tudo era
Matabicho!
|
|
Meponda
|
Praticamente o porto do Lago Niassa que servia Vila Cabral,
actual Lichinga.
|
|
Mutuáli
|
Povoação perto de Malema.
|
|
Nacala
|
Porto de mar ao Norte de Moçambique acim da Ilha de Moçambique.
|
|
Olivença
|
a última povoação a Norte do Moçambique cerca do Lago
Niassa, com grande dificuldades de acesso. Só pelo Lago
ou de avião.
|
|
ORDEMOVE
|
Termos militares para diversas ordens de serviço.
|
|
ORDOP
|
Termos militares para diversas ordens de serviço.
|
|
os
ciclistas
|
O feijão frade.
|
|
Picada
|
Os caminhos os estradas de terra batida.
|
|
Psico
|
A chamada acção psicológica para aliciar as populações.
|
|
RELIM
|
Termos militares para diversas ordens de serviço.
|
|
RN
|
Reserva Naval - o equivalente aos milicianos na Marinha?
|
|
Sanzala
|
Qinta, propriedade, basicamente rural mas que podia ir
desdde a casa de residência senhorial até oficinas, armazéns...
|
|
SITREP
|
Termos militares para diversas ordens de serviço.
|
|
Turra
|
Era o termo prático para denominar o “inimigo” ou o que
se entendia por “inimigo”... como dizia um oficial de operações
o que vale é que cada país tem o inimigo que merece... à
nossa escala e proporção!!!” Se não!? Perante a falta de
meios e falta de operacionalidade, era um autênticomilagre
haver, apesar de tudo, tão poucas baixas nas fileiras do
exército colonial.
|
|
Unimog
|
O pequeno carro, todo o terreno de caixa aberta a que
se adaptaram bancos para transporte de uma patrulha.
|
ÍNDICE DO CANCIONEIRO DO NIASSA
numas memórias de Guerra feita para a Cart 2325
|
nome de guerra
|
adaptação de
|
canção conhecida
|
pág.
|
|
CANCIONEIRO
|
|
|
69
|
|
Uma
introdução
|
|
|
70
|
|
Hino
do LUNHO
|
alf.
Carvalho Cem da...
|
Vampiros do Zeca Afonso
|
72
|
|
Aos
ARTILHEIROS, “Guerrilheiros” do LUNHO
|
Joaquim
Correia, Sol. transm. da 2325
|
Muito boa noite..., Amália
|
74
|
|
LÁ
LÁ LÁ do LUNHO
|
Joaquim
Correia, Sol. transm.
|
LÁ LÁ LÁ, fest.Eurov. 68/69?
|
74
|
|
Fado
do Checa
|
Jorge
Ferreira, Furriel sapador c/5.4.2003
|
Rosa enjeitada
|
75
|
|
Recepção
ao Checa
|
Jorge
Ferreira, Furriel sapador c/5.4.2003
|
Povo que lavas no rio
|
75
|
|
Aos
“Checas”
|
|
?Júlia Florista
|
76
|
|
O
Turra das minas
|
Jorge
Ferreira, Furriel sapador c/5.4.2003
|
Júlia Florista
|
76
|
|
Fado
do turra
|
??
(Herdada dos anteriores)Jorge Ferreira c/5.4.2003
|
|
77
|
|
Fado
das comparações
|
Jorge
Ferreira, Furriel sapador c/5.4.2003
|
Estranha forma de vida e Cavalo baio
|
77
|
|
Fado
do Estado Maior
|
?
|
Caracóis, Amália
|
78
|
|
Fado
do Miliciano
|
?exército
|
Ser fadista... Frei H. Câmara
|
78
|
|
Fado
da Reserva Naval
|
?marinha
|
Ser fadista... Frei H. Câmara
|
78
|
|
Fado
do desertor
|
?
|
O Cavalo Baio
|
79
|
|
Povo
que cagas no Lago
|
?
|
Povo que lavas no rio, Adriano
|
79
|
|
Piquenique
na picada
|
??
(Herdada dos anteriores)Jorge Ferreira c/5.4.2003
|
Piquenique
|
80
|
|
O
Emboscado
|
Furriel Crespo c/5.4.2003
|
O Embuçado
|
80
|
|
Fado
da Água
|
Furriel Crespo c/5.4.2003
|
Ó tempo volta p’ra tr’as
|
81
|
|
Dar
de beber à sede
|
Adp.
Jorge Ferreira, L, nº3, Dez.68
|
Dar de beber à dor
|
81
|
|
Saudade
|
Jorge
Ferreira, frl. sp. in L, Nº2, p.4
|
Zé Cacilheiro
|
82
|
|
Fado da Messe de Sargentos
|
Furriel Crespo c/5.4.2003
|
A casinha de nós dois
|
82
|
|
Patrulhando
as picadas
|
in
L, Nº2, P.4, Set.68
|
Fui de viela em viela
|
83
|
|
Prece
copofónica
|
in
L, Nº2, P.4, Set.68
|
Letra e música:Al.m. Calvinho
|
83
|
|
Ânsia
de voltar
|
Vitorino
e Couto
|
música: Quinteto do 2838
|
83
|
|
Fado
da Despedida - Adeus Metangula
|
?Jorge
Ferreira
|
Adeus Mouraria
|
83
|
|
Alma
ruim e cruel...
|
(à
morte do António da Calçada)
|
Soneto: Alma minha e gentil...
|
84
|
|
História
do MANUEL
|
|
|
84
|
|
Que
mais queres tu?
|
|
|
85
|
|
um
pequeno GLOSSÁRIO
|
|
|
87
|
|
ÍNDICE DO CANCIONEIRO
|
|
|
89
|
|
|
|
|
|
NOTA FINAL: Isto é um
índice que tentava dar o seu a seu dono e identificar os autores.
De algumas foi possível, de outras não. Acontece também que, muitos,
atribuiam a autoria àqueles a quem as ouviam cantar e já não se
lembravam nem perguntavam quem é que tinha feito a adaptação.
Outros ainda, a partir de uma adaptação, mudavam-na ao sabor do
seu gosto ou das circunstâncias da guerra que viviam. É um fenómeno
parecido com o que sucede com algumas expressões da Tradição Oral
e mesmo cantigas, anedotas...etc.. De qualquer maneira, fica aí
o espaço para cada um “DAR O SEU A SEU DONO” e, se mo quiserem
comunicar, até os próprios autores, terei muito gosto em escrever
o seu nome no seu lugar próprio. Um abraço.
o CANCIONEIRO DO NIASSA
e dos VAMPIROS DE zECA AFONSO
remetem-nos para uma série
de CANTORES e CANÇÕES de intervenção
Portuguesas e estrangeiras que vamos tentar manter em constante
actualização...
Vá vendo as que já
recolhemos e envie-nos as que conhece e gostaria de ver aqui recordadas...
(Clik aqui ou na imegem)

Francisco Fanhais - Capa do LP
Ver
a continuação em GRITOS DE GUERRA CONTRA A GUERRA
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