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o
DESERTOR
Tradução / Adaptação de José
Mário Branco
Le Deserteur de Boris Vian
Ao
Senhor Presidente
E chefe da Nação
Escrevo a presente
p'ra sua informação
Recebi um postal
Um papel militar
Com ordem p'ra marchar
P 'ra guerra colonial
Diga
aos seus generais
Qu' eu não faço essa guerra
Porque eu não vim à terra
p'ra matar meus iguais
E assim digo ao Senhor
Queira o Senhor ou não
Tomei a decisão
De ser um desertor.
Desde
que me conheço
Já vi meu pai morrer
Vi meus irmãos sofrer
Vi meus filhos sem berço
Minha mãe sofreu tanto
Que me deixou sozinho
morreu devagarinho
nas do seu pranto
Já
estive na prisão
Sem razão me prenderam
Sem razão me bateram
Como se fosse um cão
Amanha de madrugada
Pego numa sacola
e na minha viola
e meto-me à estrada...
Irei
sem descansar
P'la terra lusitana
Do Minho ao Guadiana
Toda a gente avisar:
À guerra dizei NÃO
A gente negra sofre
E como nós é pobre
Somos todos irmãos
E
se quer continuar
A explorar essa gente
Vá o Senhor presidente
Tomar o meu lugar...
Se me mandar buscar
Previna a sua guarda
Qu'eu tenho uma espingarda
E que eu sei atirar...
Se
me mandar buscar
Previna a sua guarda
Que eu tenho uma espingarda
E que eu sei atirar
Se
me mandar buscar
Previna a sua guarda
Que eu não tenho arma
E não vou atirar...
Se
nos mandar buscar
Previna os seus guardas
Que temos espingardas
E sabemos atirar... Se nos mandar buscar
Previna os seus guardas
Que nós não temos armas
Nem vamos atirar...
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Le
déserteur
Boris
Vian
Monsieur
le président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps.
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir.
Monsieur le président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens.
C'est pas pour vous fâcher,
Il faut que je vous dise,
Ma décision est prise,
Je m'en vais déserter.
Depuis
que je suis né,
J'ai vu mourir mon père,
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants.
Ma mère a tant souffert
Qu'elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers.
Quand j'étais prisonnier,
On m'a volé ma femme,
On m'a volé mon âme,
Et tout mon cher passé.
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes,
J'irai sur les chemins.
Je
mendierai ma vie
Sur les routes de France,
De Bretagne en Provence
Et je crierai aux gens:
«Refusez d'obéir,
Refusez de la faire,
N'allez pas à la guerre,
Refusez de partir.»
S'il faut donner son sang,
Allez donner le vôtre,
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le président.
Si vous me poursuivez,
Prevenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer.
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15 Fév. 1954 -
Chanson
n° 47 du site http://borisvian.free.fr/
p. 52
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P'RA
NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES
GERALDO VANDRÉ
original
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Pelos
campos a fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão
Vem vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Antigas lições
De morrer pela pátria
E viver sem Razões
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição
Vem vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
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RONDA
DO SOLDADINHO
original
José Mário Branco
Um
e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho
Um
menino lindo
Que nasceu
Num roseiral
O menino lindo
Não nasceu
P'ra fazer mal
Menino cresceu
Já vai à escola
De sacola
Um e dois e três
Já sabe ler
Sabe contar
Menino
cresceu
Já aprendeu
A trabalhar
Vai gado guardar
Já vai lavrar
E semear
Menino cresceu
Mas não colheu
De semear
Os senhores da terra
O mandam p'ra guerra
Morrer ou Matar
Os
senhores da guerra
Não matam
Mandam matar
Os senhores da guerra
Não morrem
Mandam morrer
A guerra é p'ra quem
Nunca aprendeu
A semear
É p'ra quem só quer
Mandar matar
Para Roubar
Dancemos meninos
A roda
No roseiral
Que os meninos lindos
Não nascem
P'ra fazer mal
Soldadinho
lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Morrer na guerra
Soldadinho
lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Matar na guerra
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MENINA
DOS OLHOS TRISTES
Reinaldo Ferreira - José Afonso)
voz: José Afonso
Menina
dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Senhora de olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Anda
bem longe o amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
A Lua, que é viajante.
É que nos pode informar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.
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CANTATA
DE PAZ
(Sophia de Mello Breyner Andresen - Rui Paz)
voz: Francisco Fanhais
Vemos,
ouvimos e lemos
Não podemos Ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos,
ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror
A
bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças
D'Africa
e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados
Nada
pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado
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MÁQUINA
ZERO
RUI VELOSO / CARLOS TÉ
Rui Veloso
Fui à inspecção ao quartel de infantaria
estava no edital da junta de freguesia
depois de inspeccionado deram-me uma guia
com um carimbo chapado dizendo que servia
ainda argumentei e disse que não ouvia
não regulava bem e que tinha miopia
O capitão mirou-me no seu ar de comando
e o sargento mandou-me um sorriso de malandro
do bolso tirou a velha máquina zero
e tugindo gozou PRÓ ANO EU CÁ TE ESPERO
eu
não quero ir à máquina zero
eu não quero ir a maquina zero
um dia na recruta fui limpar a latrina
o rancho veio-me à boca e faltei à faxina
o sargento de dia não me deixou impune
levou-me à companhia e aplicou-me o RDM
aqui nada se aprende odeio espingardas
não fui feito para isto e tenho horror a fardas
eu
não quero ir à máquina zero
eu não quero ir a maquina zero
não me façam guerreiro eu nunca fui audaz
sou um gajo porreiro só quero viver em paz
eu
não quero ir à máquina zero
eu não quero ir a maquina zero
nunca fiz inimigos em nenhum continente
não dividam o mundo em Leste e Ocidente
pactos e Alianças são um bom remédio
para entreter marechais e lhes combater o tédio
eu
não quero ir à máquina zero
eu não quero ir a maquina zero
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