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ANDARILHO 7partidas
Poesia Décimas
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Cancioneiro NIASSA

Canto do
ALENTEJO
NOVO(MÉRTOLA)

Canto do CANTE os COROS

 

O CANTO O ENCANTO DAS FONTES

2. NO CANCIONEIRO POPULAR

(ver também: O CANTO e o enCANTO das FONTES 1. NO CANCIONEIRO MEDIEVAL)  

in
-CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, J. Leite de Vasconcelos, vol.
I, 1975, p. 411; 421; 581/3, vol. II, 1979, p. 224-/7
-O CANCIONEIRO POPULAR EM PORTUGAL, M. A. Zaluar Nunes, 1978, p. vár.( as mesmas do anterior)
-Subsídio. para O CANCIONEIRO POPULAR do BAIXO ALENTEJO, M.J.Delgado, I e II, 1980, p.vár.
- ALEGRIAS POPULARES, Jaime Pinto Pereira, Volume II, 1967?, p. 99.
- ETNOGRAFIA DA BEIRA, Dr. Jaime Lopes Dias, vol. I a XI, 1944 - 1971.
(A restante Bibliografia encontra-se na PÁGINA indicada acima...)

QUADRAS de todo o País e vários Cancioneiros...
CANTIGAS - Dá-me uma gotinha d'água... Fui à Fonte beber Água...
- A Água da Ribeira é doce...
- Água leva ao regadinho...
- Fui-te ver 'stavas lavando...
- Dá-m'um copo d'água fresca...
CONTO CUMULATIVO

A mulher (formiga, cabra) e a neve...

Poemas
Zé da Fonte Santa - joraga

Espiral do AMOR
O CANTE das FONTES

Outras a acrescentar... O Fonte das Sete Bicas
As Águas do rio Douro a correr...
Maria é nome de Mar...
A MAR - poema para um título de um livro que não escrevi mas já pari...

 QUADRAS, MODAS E CANTIGAS

do nosso CANCIONEIRO POPULAR

 

(Albufeira)

(CPP II, 227)

'Srevi com tinta roxa,
Minha letra não degenera;
Fui à fonte beber água
Só p'ra estar à tua espera.

  Se fores ao monte,
Leva um pucarito,
Bebe água da fonte
Qu'e p'ra ser's bonito.

(Montargil, c. de Ponte de Sor)

(CPP II, 224)

- Diz-me lá, fonte melina,
Onde tens o teu nascente.
- Debaixo da prata fina,
Em cima do ouro patente. 

(Vale de Nogueira, c. de Bragança)

(CPP II, 224)

A fonte da minha terra
Ao brotar deixa dizer:
- Serei tua até à morte,
Serei tua até morrer.

(Alcáçovas, c. de Viana do Alentejo)

(CPP II, 224)

À fonte dos meus amores
Vou minha bilha levar,
Quero enchê-la só de beijos
p'ró meu amor se banhar.

(S.Pedro  das Cebolas, c. de Bragança)

(CPP II, 224)

Adeus caminho da fonte,
Hei-de-te mandar varrer
C'uma vassoura de prata,
Que de oiro não pode ser!

  Adeus, pedrinha da fonte,
Onde me eu ia assentar,
Onde passei muitas noites
E noitinhas de luar.

  Adeus pedrinha da fonte,
Onde se assentam pimpões;
Donde se rasgam baetas,
Panos finos e bretões.

 

(Barrô, c. de Resende)

(CPP II, 224)

Bota-te daí a baixo,
Pintassilgo, ó ladrão,
Tu és o alcoviteiro
Das moças que à fonte vão.

 

(Sub. CPBA, 102,

Beja, Quintos, Messejana, Aljustrel, Ervidel.)

Dá-me uma gotinha d'água
Dessa que eu ouço correr;
Antre silvas e montrastes
Alguma pinga há-de ver!

 

(Sub. CPBA, 305,

Amareleja e Barrancos.)

Dá-me uma gotinha d'água
Não ma dês pela panela,
Dá-ma pela tua boca
Que eu não tenho nojo dela!

(Sub. CPBA, 506,

Beja)

Dá-me uma gotinha dágua,
Para lavar (Quero molhar) a garganta;
Quero cantar cmo a rola,
Como a rola ninguém canta.

(np.???)

Dá-me uma pinguinha d'água,
Da boca faz 'ma bica;
Quanto mais água me dás
Tanto mais sede me fica.

 

(Alandroal)

(CPP II, 224)

Dá-me uma pinguinha de água
Da raiz do coração;
Dos lados de aonde eu venho
Nem as fontes água dão.

  Da raiz da cana verde
Nasceu água a correr;
Menina que estás na fonte,
Dá-me água, quero beber.

(Sub. CPBA, 418, Barrancos)

Dá-mi uma gotinha dágua,
Deça qu'ê oiçu currê
,
Antre pedraZ i pèdrinhah,
Agunta gôta à-di abê.

(Oliveira do Hospital)

(CPP II, 224)

Entre pedras e pedrinhas
Água deve de nascer:
Menina que vem da fonte,
Dê-me água, quero beber.

+

Dê-me água, quero beber,
Cantarinho vai quebrado;
Menina, que vem da fonte,
Dê água ao seu namorado.

 

(de Descantes: Trigueirinha engraçada,

Rosmaninhal, EB, IV, 59)

Esperei-te no cais da fonte (bis)
Três golos de água bebi. (bis)
Faltaste ao prometido,
Deu-me o sono, dormi. (bis)
Três golos de água bebi.

(Moura)

(CCP I, 581)

Eu 'screvo com tinta verde,
Minha letra não desnera;
Bebo água sem ter sede,
Meu amor, à tua espera.

 

(???)

(CCP I, 581, nota)

Eu 'srevo com tinta verde,
Minha letra não desnera;
Fui à fonte beber água,
Só p'ra estar à tua espera.

 

(Tolosa, c. de Nisa)

(CPP II, 224)

Fostes à fonte descalça,
Só p'ra te verem os pés,
Em manguinhas de camisa,
Co'os dedos cheis de anés.

(Tolosa, c. de Nisa)

(CCP I, 582)

Fostes à fonte descalça,
Só p'ra te verem os pés;
Em manguinhaas de camisa,
Co'os dedos cheios de anés.

 

(Alandroal)

(CPP II,225)

Fui à fonte beber água
Debaixo da flor da murta:
Foi só p'ra ver os teus olhos,
Que a sede não era muita...

(Soutelo, c. de Vila Pouca de Aguiar)

(CPP II,225)

Fui à fonte beber água
Por baixo da folha verde,
Encontrei o meu amor,
Bebi água sem ter sede.

Fui à fonte buber auga,
Bubi auga como terra;
'Stava o meu amor defronte
Arrimou-me c'uma pedra.

+

A pedra era amorosa,
Toda cheia de felores,
Agora posso dizer
Qu'a buber tomei amores

 

(Vila Pouca de Aguiar)

(CCP I, 582)

Fui à fonte beber água
Por baixo da folha verde;
Encontrei o meu amor,
Bebi água sem ter sede.

  Fui à fonte buber auga
Em casca de belancia;
Nem bubi, nem truxe a auga,
Nem falei com quem eu qu'ria.

(Lagos)

(CPP II,225)

Fui à fonte beber água,
Achei a fonte caída;
Mais vale que a fonte caia,
Que o meu amor perca a vida

(Castro Verde)

(CPP II,225)

Fui à fonte beber água,
Achei um raminho verde;
Quem o achou tinha amores,
Quem o perdeu tinha sede.

(Baião, Tolosa, c. de Nisa)

(CPP II, 225)

Fui à fonte beber água,
Achei um ramo de flores;
Quem no perdeu tinha sede,
Quem no achou tinha amores.

(Capareiros, c. de Viana do Castelo)

(CPP II, 225, nota)

Fui à fonte beber água,
Achei um ramo de flores;
Quem as perdeu, tinha penas,
Quem as topou, tem amores

 

(Tolosa, c. de Nisa)

(CPP II, 225)

Fui à fonte beber água,
Bebi, tornei a beber;
Minha boca não se enfada
Nem meus olhos de te ver.

(Baião; Mesão Frio; Ponte de Lima; Tolosa, c. de Nisa)

(CPP II, 225)

Fui à fonte beber água,
Bebi, tornei a beber;
'Stava o meu amor de frente
Muito gostei de o ver!

(Baião; Tolosa, c. de Nisa)

(CCP I, 582)

Fui à fonte beber água,
Achei um ramo de flores,
Quem no perdeu tinha sede,
Quem no achou tinha amores.

 

(Baião; Ponte do Lima)

(CCP I, 582)

Fui à fonte beber água,
Bebi tornei a beber,
'Stava o meu amor defronte
Regalei-me de o ver!

 

(Tolosa, c. de Nisa)

(CCP I, 582, nota)

Fui à fonte beber água,
Bebi tornei a beber,
Minha boca não se enfada,
Nem meus olhos de te ver!

 

(Alandroal, Alcáçovas, c. de Viana do Alentejo)

(CCP I, 582)

Fui à fonte beber água,
Debaixo da flor da murta;
Fui para ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.

(Baião)

(CCP I, 582)

Fui à fonte beber água,
Debaixo da vide branca.
Fui p'ra ver o meu amor,
Que a sede não era tanta...

(Sub. CPBA,.116, Beja e Alvalade)

Fui à fonte beber água,
Achei um raminho
(Encontrei um ramo) verde;

Quem o perdeu, tinha amores,

Quem o achou tinha sede.

 

(Sub. CPBA,.514, Beja)

Fui à fonte beber água,
Achi
um raminho (lencinho) verde.
Quem no perdeu tinha amores,
Quem no achou tinha sede.

(Norte)

(CPP II,225)

Fui à fonte buscar água
Em botinhas de veludo,
Eu quebrei a cantarinha,
Re-ché-chiu que lá foi tudo!

(Bragança)

(CPP II,225)

Fui à fonte buscar água
Na casca da melancia;
Não bebi, não trouxe água,
Nem falei com quem eu qu'ria.

(S. Pedro das Cebolas, c. de Braga)

(CCP I, 582)

Fui à fonte buscar água
Na casca da belancia
Nem bebi, nem trouxe água
Nem falei com quem eu qu'ria.

(Jolda, c. de Arcos de Valdevez)

(CCP I, 582)

Fui à fonte buscar água,
E encontrei-te no caminho;
Ao ouvir as tuas falas
Quebrei o meu cantarinho.

  Fui à fonte com Maria
Encontrei-me com Manuel,
Foi a coisa como eu qu'ria:
Caíu a sopa no mel.

  Fui à fonte das três bicas,
Bebi, tornei a beber:
'Stava lá o meu amor,
Regalei-me de o ver.

(vila Velha de Ródão)

(CPP II, 226)

Fui à fonte com Maria,
Encontrei-me com Manuel,
Foi a coisa como eu qu'ria,
Caíu a sopa no mel.

  Fui à fonte da Garcia
Beber água graciosa,
'Stava lá o meu amor,
Era a folha duma rosa.

(Nogosa, c. de Moimenta da-Beira)

(CPP II,226)

Fui à fonte das três bicas,
Dei a mão à libardade,
'Stava vária do sentido
Quando te fiz a vontade...

 

(Durrães, c. de Guimarães)

(CCP I, 582, nota)

Fui à fonte das três bicas,
Bebi, tornei a beber:
Nem minha boca se enfada,
Nem meus olhos de te ver.

(Arcos de Valdevez; Nisa)

(CPP II,226)

Fui à fonte dos amores
Dar a mão à lealdade;
Enchi o pote de rosas
Fiz a rodilha de cravos.

(Arcos de Valdevez; Nisa)

(CCP I, 582)

Fui à fonte dos amores
Dar a mão à lealdade:
Enchi o pote de rosas,
Fiz a rodilha de cravos.

 

(Cebolais de Cima, c. de Castelo Branco)

(CPP II, 226)

Fui à fonte dos amores,
Encontrei dois namorados:
Enchi a talha de rosas,
Fiz a rodilha de cravos.

(Vila do Conde; Ponte de Lima)

(CPP II,226, nota)

Fui à fonte dos amores,
Passei pela dos cuidados:
Enchi a talha de rosas,
Fiz a rodilha de cravos.

(Cebolais de Cima, c. de Castelo Branco)

(CCP I, 583)

Fui à fonte dos amores,
Encontrei dois namorados;
Enchi a talha de flores,
Fiz a rodilha de cravos.

(Vila do Conde)

(CCP I, 583, nota)

Fui à fonte dos amores,
Passei pela dos cuidados;
Enchi a talha de flores,

Fiz a rodilha de cravos.

(Cinfães)

(CCP I, 583, nota)

Fui à fonte dos amores,
Encontrei dois namorados;
Enchi o o cânt'ro de rosas,
Fiz a rodilha de cravos.

(Lamego)

(CPP II,226)

Fui à fonte p'ra te ver,
Ao rio para te falar,
Nem na fonte nem no rio
Nunca te pude encontrar.

(Lamego)

(CCP I, 583)

Fui à fonte p'ra te ver,
Ao rio p'ra te falar;
Nem na fonte, nem no rio,
Nunca te pude encontrar.

(Alandroal)

(CCP I, 583)

Fui à fonte p'ra ver Ana,
Encontrei-me com Isabel:
Encontrei-me com quem qu'ria,
Caíu-me a sopa no mel...

(Gáfete, c. do Crato)

(CPP II,226)

Fui à fonte por ver Ana,
Vinha meu primo com ela:

Adeus, primo, e adeus, Ana,
Raminho de Primavera!

(rp. ???)

Fui à fonte por ver Ana,
Vinha meu primo com ela:

Adeus, primo, adeus, Ana,

Deus te faça bem com ela.

(Gáfete, c. de Castro)

(CCP I, 583)

Fui à fonte por ver Ana,
Vinha meu primo com ela,

Adeus primo e adeus Ana,

Raminho de Primavera!

(Celorico da Beira)

(CCP I, 583)

Fui à fonte sem ter sede,
bebi água como terra
'Stava o meu amor defronte,
Atirou-me c'uma pedra.

+

a pedra era de vidro,
Toda se encheu de flores:

Agora posso dizer

Que a beber tomei amores.

(Sub. CPBA, 116, Barrancos)

Fui Bebê  a uma fônti,
Pur bàxu da bêrdi murta

Fui para bê uh teu Z ólhu,

Que a çedi não era munta
.

(Sub. CPBA, 118, Amareleja)

Fui beber à clara fonte,
Por baixo da verde murta.
Foi mais por ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.

(Sub. CPBA, 514, Mina da Juliana, Aljustrel)

Fui beber a uma fonte
Debaixo da fresca murta.
Fui só pra ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.

(Sub. CPBA, 514, Beja)

Fui dispor a saudade
Ao pé duma fonte fria.
Mais choravam nos meus olhos
Que a água da fonte corria.

(Ponte de Lima)

(CPP II,226)

Fui sentar-me ao pé da fonte
Para a água ver correr;
Vi correr a dos meus olhos

Para mais penas eu ter.

  Lá no monte aonde eu moro
Há uma fonte na rua:
É de lágrimas que eu choro;
Sabe Deus se a culpa é sua!

  Minha mãe mandou-me à fonte
Eu quebrei a cantarinha:
- Ó minha mãe não me bata,
Que eu inda sou pequenina.

(da Moda: Dá-me um sorriso dos teus,

Beira Baixa, EB, IV, 171)

Fui-me deitar a dormir
Ao pé da água que corre,
A mesma água me disse:
- Quem tem amores não dorme.

(Alcáçovas, c. de Viana do Alentejo)

(CCP I, 421)

Mal sabes quanto me alegro
Quando te vejo defronte!
É como quem morre de sede

E põe a boca na fonte!

(Trás-os-Montes)

(CPP II,226)

Minha mãe mandou-me à fonte
Pela hora do calor;
Eu quebei a cantarinha
A dar água ao meu amor.

  Na pedra da fonte
Achei um lencinho
Com letras que dizem:
- Viva o Francisquinho!

  Não venhas p'ró pé da fonte
Quadras de amor ouvir:

O teu cântaro é de barro,
Bem se poderá partir.

(Baião)

(CCP I, 411)

Não sei que auga me deste
Por um jarro a beber,
Não sei que amor te ganhei,
Que to não posso perder!

(Alcáçovas, C. de Viana do Alentejo; Castelo Branco)

(CPP II,227)

No laijeado da fonte
Caíu semente às urtigas;
Já perdi o norte à terra
E a amizade às raparigas.

+

No laijeado da fonte
Caíu semente ao poejo;
Chegaram-me as saudades
De quem agora não vejo.

  Olhos pretos vão à fonte,
Não sei que lá vão buscar:
Não sei se vão buscar água,
Se penas para me dar.

(CPP II,227, nota)

Olhos pretos vão à fonte,
Que irão eles lá fazer?
Não sei se vão buscar água,

Se penas me vão trazer.

(Ilha de S.Miguel)

(CPP II,227)

Onte' à noite fui à fonte;
Pela brincadeira d'onte,
Não me deixaste encher.

Deixa estar, filho da mãe,

Qu'inda me hás-de pagar bem,

Se algum de nós não morrer.

(Alandroal)

(CPP II, 227)

Púcaro tão delicado
Que água tão saborosa!

Quem na bebe, é um cravo,

Quem na basa, é uma rosa.

(Lisboa)

(CPP II,227)

Pus-me a chorar de saudades
Ao pé duma fonte fria;
Mais choravam os meus olhos
Do que a água que corria!

(Rosmaninhal, EB, VII, 151,153)

S. João para ver as moças,
fez uma fonte de prata,
as moças não vão á fonte
e S.João todo se mata.

  S. João para ver as moças,
fez uma fonte de cortiça,
as moças não vão a ela
e S.João todo se esganiça.

  S. João era bom homem,
se não fora tão velhaco.
Foram três moças à fonte,
foram três e vieram quatro.

  Na fonte lavei a face,
na manhã de S. João,
assim a água me lavasse
as mágoas do meu coração.

(Veiros, c. de Estremoz; Capela com fonte de bicas.)

(CPP II,227)

Todos os dias à tarde
Tenho esta devoção:
De ir buscar 'ma quarta de água
À Senhora da Conceição.

(Cantiga de monda, Beira Baixa, EB, II, 192)

Toma lá se queres água,
os meus olhos ta darão;
Ela é pouca, mas é clara,
Nascida do coração.

(Amarante)

(CPP II,227)

Um dia, ao pé duma fonte,
Por acaso, fui parar.
Vi no fundo o teu retrato,
Quis-me deitar a afogar.

  Vais ao rio, vais à fonte,
Vais encher o cantarinho.
Ai, que alegria que eu sinto
Se te encontro no caminho!


(CANTIGAS)

"Dá-m'uma gotinha d'agua"

para a MODA ALENTEJANA "Dá-m'uma gotinha d'agua"

(Ver a imensidade de QUADRAS de todo o PORTUGAL que começam por:
"Dá-me uma gotinha d'agua..."
e
"Fui à Fonte beber água..."

E, além disso, é possível CANTAR ou/e DRAMATIZAR esta ou outra MODA ou CANTIGA, com TODAS as QUADRAS... É uma sugestão para o desenvolvimento de um tema em várias formas de expressão...

"Dá-m'uma gotinha d'agua
dessa qu'eu oiço correr,
entre pedras e pedrinhas
alguma gota há haver(i)"

 

ÁGUA DA RIBEIRA É DOCE

Água da Ribeira é doce,
Vai de ladeira em ladeira;
Quem tem amores, sempre escapa
A vida doutra maneira.

  A vida doutra maneira,
A vida doutro feitio;

Água da Ribeira é doce,
Faz ondinhas 'té ao rio.

  (sub.CPBA, II, 40; Fornalhas, Vale de Santiago, Odemira

 

ÁGUA LEVA O REGADINHO

(Moda de dança de roda)

  Água leva o regadinho,
Água leva o regador;
Enquanto rega e não rega,
Vou falar ao meu amor.

  Vou falar ao meu amor,
Vou falar ao meu benzinho;

Água leva o regador,

Água leva o regadinho.

  (sub. CPBA II, p.41, Beja)

 

FUI-TE VER, ESTAVAS LAVANDO

Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão;
Lavaste em água de rosas,
Ficou-te o cheiro na mão.

  Ficou-te o cheiro na mão,
Ficou-te o cheiro no fato;
Se eu morrer, e tu ficares,
Adora-me o meu retrato.

  Adora-me o meu retrato,
Adora meu coração;
Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão.

  (sub. CPBA II, p.30, Beja; Salvada, Colos e Odemira)

 

DÁ-ME UM COPO DE ÁGUA FRESCA

(Carragozela, in Alegrias Populares, JPC, II, 1967, p.99)

  Dá-me um copo de água fresca,
Da raiz do rosmaninho;
Que dos lados de onde eu venho
Não há fontes no caminho.

  Ó fonte que vais secando,
E não tardas a secar;

Meus olhos são duas fontes,
Que não cessam de chorar!

  Cantarinha nunca digas,
Nunca digas, por favor;

Às pessoas que encontrares,

Os meus segredos de amor.

  Tenho tanta sede tanta,
Mal tu podes calcular;
Só um copo de água fresca
Ma poderia matar

  Ma poderia matar,
só uma gota mataria;
Que dos lados d'onde eu venho,
Nenhuma fonte corria.

Ó fonte da minha terra,
Ó velha fonte formosa;

Como eu levo na lembrança
A tua imagem saudosa!

Menina se for à fonte,
Ponha o pé na segurança;
Porque a honra é como a água,
- Quem a perde, não a alcança.

Ó que bela cantarinha,
Que água tão saborosa!
Quem a bebe é um cravo,
Quem a dá é uma rosa.

Fui à fonte dos amores,
Tornei pela dos cuidados;
Enchi a bilha de rosas,
Fiz a rodilha de cravos.

(exemplo de CONTOS ACUMULATIVOS ou ENCADEADOS em que o TEMA dominante é o ciclo da ÁGUA...)

 

A MULHER E A NEVE

(Cumeada - Santana - Sertã)

(in EB, V, 18-20)

 

Vinha uma mulher do moinho com um fole de pão à cabeça.
Pegou a cair a neve, e a neve prendeu-lhe o pé.

Ela disse então:

- Ó neve, tu és tão forte que me prendes o pé?

A neve lhe respondeu:
- Mais forte é o sol que me derrete.
- Ó sol, pois tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende?

O sol lhe disse:
- Mais forte é a nuve que me encobre.
- Ó nuve, tu és tão forte que encobres o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o vento que me espalha - respondeu a nuve.
A mulher tornou a dizer:
- Ó vento, então tu és tão forte que espalhas a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é a parede que segura o vento.
- Ó parede, tu és tão forte que seguras o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

A parede respondeu:
- Mais forte é o rato que me fura.
- Ó rato, tu és tão forte que furas a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o gato que me agarra.
- Ó gato, tu és tão forte que agarras o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o cão que me apanha.
- Então tu, ó cão, és tão forte que apanhas o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o pau que bate no cão.
- Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o lume que queima o pau.
- Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é a ÁGUA que apaga o lume.
- Ó ÁGUA, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o boi que bebe a ÁGUA.
- Então, ó boi, tu és tão forte que bebes a ÁGUA, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é a pele que segura a ÁGUA.

(outra versão, vide nota pág. 20, seguiria assim: Em vez de

- Mais forte é a pele que segura a água,
Então, ó pele tu és tão forte, que seguras a ÁGUA, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o ferro que pica o boi.
- Então, ó ferro tu és tão forte que picas o boi, que bebe a ÁGUA, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é o ferreiro que corta o ferro.
- Então, ó ferreiro tu és tão forte que cortas o ferro, que pica o boi, que bebe a ÁGUA, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

- Mais forte é a morte que me mata.
- Então, ó morte tu és tão forte que matas o ferreiro que corta o ferro, que pica o boi, que bebe a ÁGUA, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que apanha o gato,  que agarra o rato, que fura a parede, que segura o vento, que espalha a nuve, que encobre o sol, que derrete a neve e o meu pé prende?

...

( Ver ainda notas da pág. 21, falando de outras versões como A formiga e a neve, talvez mais divulgado, e outra versão em que a cabra substitui a formiga.
Pode ver-se ainda a RIBEIRA MOTA do ciclo do vinho:
«Meus senhores cá 'stá o bote
que vai, que vem,
que vira e que volta;
Leva o vinho à Ribeira Mota...»)

o en/CANTO DAS FONTES

A ESPIRAL DO AMOR

  meu amor, acorda
canta o rouxinol
o sol já nasceu
vem aí o dia
c'uma nova vida
cheia d'alegria...

  já as aves cantam
as flores se levantam
têm cores as plantas...

  as fontes já jorrram
correm para o/a mar
sempre sem parar...

  vamo-nos lavar
na água corrente
para o nosso amor
durar para sempre...

  vamo-nos lavar
na água a jorrar
para que o amar
vá sempre durar...

  olha como é belo
o teu corpo, o meu
cheio de amor
que cresce do teu...

  eu bebi em ti
a fonte da vida
reguei o teu corpo
c'o minh'água viva

  dei-te todo o amor
que havia em mim;
encontrei o amor
que havia em ti...

ao dar-te o amor
que havia em mim
dando sem contar
nada receber...

logo descobri
que ao tudo dar
mais eu recebi
do amor total

e em nós nascia
mais e mais amor
que de dia a dia
sempre em nós crescia

e de nós brotava
e de nós saía
o amor a jorros
que se difundia

a correr em bica
com'água das fontes
a correr pr'ó/à mar
sempre sem parar

dando volta ao mundo
pelos sete mares
sete continentes
fecundando tudo
tudo transformando
levando alegria
levando mudança
as praias beijando
abrançando as ilhas
e beijando o sol
que o vinha beijar
tornar mais fecundo
que depois sorvia
levav'o consigo
a encher as nuvens
de água e vapor
que depois corriam
sobre todo e mundo

e quando chovia
era o nosso amor
que regava tudo...

as nuvens encheram
as nuvens correram
deram volta ao mundo
mais amor acharam...

e prenhes d'amor
tanto, tão carregadas
cairam em chuva
fecundando a terra
fecundando tudo
tudo o que tocavam...

  sobre nós caíu
de novo também
ficámos molhados
cresceu mais amor
que já fora dado

  pudémos dar mais
sempre mais amor...
quanto mais se dava,
mais se recebia...
e assim havia
mais amor p'ra dar...

dando e recebendo
sempre mais amor

  nós tínhamos mais
e os outros tinham
mais amor p'ra dar
até todo o mundo
ficar transformado
e tudo em redor...

correndo no vento
voando fronteiras
subindo nos ares
até às estrelas
enchendo o universo
de Amor, puro Amor
donde já viera...

  é este o Amor
que se lê nos versos
de muitos poetas
que s'ouve nos sons
de muitos cantores
que se vê nas cores
de tantos pintores
que cantam a vida
cheia de alegria
sempre cada dia
sempre a renovar
sempre nova vida
mesmo quando a morte
parece matar
a vida que é viva...

porque a morte é vida
nascida da morte
como é a semente
que é destruída
no ventre da terra...

  com água e calor
depois de morrer
faz nascer a vida
que brotará erva
depois será flor...

 

a flor dará fruto
que tem a semente
que de novo morre
penetra na terra
fecunda o seu ventre
p'ra nascer de novo
brotar verde em flor
com novo vigor
com outro frescor...

  é assim o amor!

É ASSIM, AMOR!

  É ASSIM, AMOR
isto assim seria
se o mundo enfim
aceitasse o AMOR
como rei senhor!

  Mas tu sabes bem
que o Reino do Amor
não reina no mundo
dos homens mulheres
com reis e senhores
com servos escravos
donos opressores...

  o amor é flor
é flor delicada
que a custo floresce
em jardins secretos
seguros discretos
ao abrigo d'olhos
ódios indiscretos
a querer semear
sementes de guerra
sementes d'intriga
jugo e opressão
não deixando abrir
as flores do amor
que teimam florir
mesmo em duro chão
mesmo em chão pisado...

  mesmo assim, amor,
contra tudo e todos
que querem matar
a força do Amor..

... nos frutos do Amor
vamos apostar
e a fundo Amar...
mesmo qu'esse amor
nos provoque a dor,
a DOR e a MORTE
que vai ser semente
de novos amores...
ESPIRAL D'AMOR...

O CANTO, ENCANTO,

O CANTE DAS FONTES...

 

E assim nasceu o canto,
a lenda, encanto das fontes,
que um pouco por todo o lado
e desde os tempos perdidos
vai juntar os namorados
junto às fontes escondidas...
escondidos d'outra gente
que também já se escondeu
a procurar o amor
que entretanto, p'ra mal seu,
já de todo se perdeu...

e, por vingança brutal
ou razão irracional
vai agora vigiar
os amantes confiantes
para os impedir de amar

em vez de, vejam lá bem,
de parar a contemplar
e seus amores recordar
e seu AMOR reviver...
ali, no CANTO das FONTES...
ao SOM do CANTE das FONTES.

FIM

ver também: O CANTO e o enCANTO das FONTES 1. NO CANCIONEIRO MEDIEVAL


 

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