Serra da Estrela - Manteigas

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um ANDARILHO em viagem pelas
7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

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Carta Inventada de um PASTOR inventado SERRA DA ESTRELA

 

CARTA (imaginada)

de um PASTOR (imaginado)

ao autor destas letras que é pura ficção...

 

Cuarta invuentuada dum puastuor invuentuado da Suerra da Estruela avuantada no luixo e duirigiuda ao senuor Zué dua Suerra do Vuale do Zeuzuere... Carta inventada dum Pastor inventado, da Serra da Estrela, aventada ou deitada no lixo e dirigida ao senhor Zé da Serra do Vale do Zêzere...

Mantueigas, 1978, Natual

 (Nota: Este senhor não é o Jaquim Sono mas o Malato...)

            Muituo Exuluentuíssimo senhuor duoutuor:

 

original tradução

estueja vuossumuecê cum dueus e nua cumpanhuia dus que muais cuere qu’eu i muais a muinha puatriuarca estuamos buem, cuando a buocuarra dos cuântaros e muais a du suouto du conçuelho luá puás buandas da luapa, nu nuos muostra os duentes arrueganhuados e nuão nus avuanta pelos uares cuomo umua puena ou nuos vuem cuma tuempestuade de nueves ou de granuizo caté pulas nuesgas das puedras dua cuaubana se muete e a muodos c’abuala com o demónho dua cubuertura du cuolmo pru a ribueira aciuma... atué pra lá duas luamueiras ou inda pra ciuma duos cuovuões...

tuempo duanuado ueste que nu nuos dueixa tumuar tuento nu guado que nuem um puouco se puode dueixar da muão, pur vuia dus luobos que suão luobos e por vuia dus uoutros que suão juente muas uainda muto piuore cós luobos...

a muinha puatriarca uma anduadueira buenza a dueus, uanda cu as muãos chueiinhas de fruieiras cu muais puaruecem as chuagas do nuosso senhuor nu çuéu stueja...

uó senhuor duoutor!

nem puor um muomuento uê me puosso olviduar duacuele duia nua suerra cum fruio duos diuanhos i a juente a cunversuar e a butar fumuarada pur a buoca que puareçuia muesmo as paluavras a tumuarem a fuorma do buafo... e vuai duaí ós puois ueu juá muorduia a últimua piruisca e nuem a uonça nuem o cuárduápio duas murtualhas tuinha nuem cutuão...

ueu nu tuiruava us uolhos duacueles ciuguarros uinrruluaduinhos tuoduos fueitos juá vuenduidos tuodos reduondos e cuma ruolhua de cuortiça nua puonta cua juente nuem lhu tuoma o guosto um migualho... e vuai duaí, suó pra m’arrenuegar vuocemuecê duisse, uanda luá, ó Juacuim, q’eu duou-te um puacuote duestes... e tu duás-me umua uvuelha... i suou ueu qu’iscuolhe...

uora buenzuó dueus que vuomecê buem suabe o puduer cu vuício tuem nua cuabueça dum uhomem... ueu de cabueça puerdida... uinda ó muenos se fuesse dum duaqueles defuinituivos ou duos provisuórius ou ó muenos uma uonça muais ua murtualha cu duão cuá uma sustuância à buarriuga dum uhomem cu nuem um caldudo de cuastuanhas puiluadas, uinda vuá... aguora desses!!! ...muas a ceguueira uera tuanta dum ciuguarrinho e cu senhuor me perduoe muas saíu-meu acuela sem mais acuelas... duiabus luevem a chuiba cu sualva a vuida dun uhomem... ós puois, cuando ume uestrevi a cuntar uá muinha ué cue fuoram o cuabo dos trabualhos... aguora juá suei que vómucês a industruíram muto buem prua puxuar uinda muais puor muim e de cuntuar ua duos ciguarros de cuaixa e de puontas de cuortiça i uela aguetuou-se uali sim arreuar, muais duma sumana cu a cuabra buem escundida numa cuorte du luado uonde vósmecês ua dixuaram...

uessa fuoi muesmo de cuabo d’isquuadra suim senhuora, i intué juá a cuntei nu fundevuila uó juão dua puachueca e u cu nuos fuartámos du ruir cu caguatuas cu’incuntruámos luá pruá cuastanhueira... intué cu jacuim cúcu... uinda cum fruio de muil demoncres e uas paluavras a suaírem dua buoca e a fazuerem aqulas buolas de nuvem e a misturuarem-se co nevueiro qu’estuava levuado dum ruaio...

vuai duaí uós puois atué cuntuaram uaquuela du cuatrâmbias  cu fuoi prueso puor muor danduar a dueituar o fuogo uás muatas i intué u levuram ao injuinhueiro da mutas, o burjuona... uaí u injuinhueiro dissu-lhu cu tuoda a juente suabia q’era uele cu buotuava uos fuogos... e uele q’era muau d’assuar uassim ua muodos carreluampuado da cubeça puor muor dus guases da guuerra cu tuoda a juente o cunheçuia a fualuar suózinho pulas escualueiras de suão puedro a buaixo cu souvuia uem tuodo o fund’vuila e uaté nua inxertuada e nas ruabitas... e uintué nuas luajens a pruegar cuontra tuudo u cuera autoriduade e tuduo quera suanto... e duizem que duessa vuez ficou uali mazuombo de tuodo... cuerem vuer quindua lueva uma tuosa... ueles uaté suó u cruiam acuagaçuar... e uele mudo e cuedo... e vuai duaí... espuera luá que vuais aguaçar uesta... puois fuoi ó buarjuona... ueu juá mua luembro... intué uestá uali o muestre suerra cu nu um dueixa muentuir... uintão uinté fuoste tu que m’impruestuaste os fuósferes...

uessa uinda uera o muenos puois tuodos suabiam a ualma qu’uele tuinha uós duas muatas cu dueram cuabo duos puastos... i uá cuonta duos fuogos uinda luvou muesmo uma tuosa luá na guardua muas uele mudo e cuedo que nuem um puenedo...

muas ua uoutra do catruâmbias cando uele  uia p´ruós luados da ruibueira dos sicueiros uá mualhuada e nua estruada nuova ao valazuedo juá despuois de passuar as barrueiras uá empresa puassa pur uele u senhuor cruz um uhomuem pur tuodos muto respueituado quintué era o secretuário da cuambra e inté lhu chuamuavam o muanga dualpuaca e o luetra fuina e uele luvuava uns luivros luá da cuambra e uia uà sua vuida... e vuai o catuâmbias e o muodos quia fualuando cu burruo... uanda luá burruo cus domoncres quiscruesves tu muelhor cu ruabo e espuantuar muoscas du que mutuos tuoda ua viuda a ecrevuer cum canueta e apuaro de tuinta...

 Uora uesta juá vuai luonga menuino zué muas uisto duas paluavras queu num suei ecrevuer i dituei uó mueu nueto cuanda nua ecuola àum ruor d’anuos e nu puassa da çuepa tuorta... muas cumo uia dizuendo uisto duas paluavras suão cumás cereijuas ca juente cubiçuava nu cuintal da cuasa dua gurdua dua muata de suão sabastiuão... muas cum uesta um fico e nu suei muais u que duiga... puor uhoje abuonda... muto buem uhaja puor tuduo puela esmuolinha que ume fuez e cando quijer tuer o incómoduo de um cueruer fualuar tuem uali ua muinha cuasa uás uórdens puobre muas cum buocuado de centuei nuegro e um cueijo...

...i uisto uera um nu muais acabuar... nuem me cuero a lembruar duacuela do Afuonso Cuosta a me procurar o que se dizuia do Afuonso Cuosta que intué uera de Sueia i tuem uma cuasa nas puenhas douruadas... oH! atuão duizem que uele ué um gruande maluandro que nuem acreduita im dueus e nuossa senhuora!!!

vuou acabuar.

Uinté muais vuer... u sueu criaduo...

 Mantueigas, muil nuoveçuentos ui stuenta ui uoito, 

Juaquim Suono.

Esteja vocemecê com Deus e na companhia dos que mais quer que eu e mais a minha Patriarca estamos bem, quando a bocarra dos Cântaros e mais a do Souto do Concelho lá para as bandas da lapa, não nos mostra os dentes arreganhados e não nos aventa pelos ares como uma pena ou nos vem com uma tempestade de neves ou de granizo que até pelas nesgas das pedras da cabana se mete e a modos que abala com o demónio da cobertura de colmo pela ribeira acima... até para lá das Lameiras ou ainda para cima dos Covões...

 

Tempo danado este que não nos deixa tomar tento no gado que nem um pouco se pode deixar da mão, por via dos lobos que são lobos e por via dos outros que são gente mas ainda muito pior cós lobos...

 

A minha Patriarca uma andadeira, benza-a Deus, anda com as mãos cheiinhas de frieiras que mais parecem as chagas do Nosso Senhor, no Céu esteja...

Ó senhor doutor!

Nem por um momento eu me  posso olvidar daquele dia na serra com um frio dos diachos e a gente a conversar e a botar fumarada pela boca que parecia mesmo as palavras a tomarem a forma do bafo... e vai daí ós pois eu já mordia a última pirisca e nem a onça nem o cardápio das mortalhas tinha nem cotão...

Eu não tirava os olhos daqueles cigarros enroladinhos todos feitos já vendidos todos redondos e com uma rolha de cortiça na ponta que a gente nem lhe toma o gosto uma migalha... e vai daí, só para m’arrenegar vocemecê disse, anda lá, ó Joaquim, q’eu dou-te um pacote destes... e tu dás-me uma ovelha... e sou eu que escolhe...

Ora, benza-o Deus que vocemecê bem sabe o poder que o vício tem na cabeça dum homem... e eu, de cabeça perdida... ainda ao menos se fosse dum daqueles definitivos ou dos provisórios ou ao menos uma onça mais uma mortalha que dão cá uma sustância à barriga dum homem que nem um caldudo de castanhas piladas, ainda vá... agora desses!!! ...mas a cegueira era tanta dum cigarrinho... e que o Senhor me perdoe mas saiu-me aquela sem mais aquelas... diabos levem a chiba que salva a vida dum homem... e de  pois, quando me atrevi a contar á minha é que foram o cabo dos trabalhos... agora já sei que vocemecês a industriaram muito bem para puxar ainda mais por mim e de contar a dos cigarros de caixa e de pontas de cortiça e ela aguentou-se ali sem arrear, mais duma semana com a cabra bem escondida numa corte do lado onde vocemecês a deixaram...

Essa foi mesmo de cabo de esquadra, sim senhor! e até já a contei no Fundevila ao João da Pacheca e o que nos fartámos de rir com o Cagatas que encontrámos lá prá Castanheira... até com o Joaquim Cuco... ainda com um frio de mil demónios e as palavras a saírem da boca e a fazerem aquelas bolas de nuvem e a misturarem-se com o nevoeiro qu’estava levado dum raio...

Vai daí depois até contaram aquela do Catrâmbias que foi preso por causa de andar a atear o fogo ás matas e até o levaram ao engenheiro das matas, o Barjona... Aí o Engenheiro disse-lhe que toda a gente sabia q’era ele que botava os fogos... e ele q’era mau d’assoar assim a modos arrelampado da cabeça por mor dos gases da guerra que toda a gente o conhecia a falar sozinho pelas escaleiras de S. Pedro a baixo que se ouvia em todo o Fundevila e até na Enxertada e nas Rabitas... e até nas Lajes, a pregar contra tudo o que era autoridade e tudo que era santo... e dizem que dessa vez ficou ali mazombo de todo... querem ver que ainda leva uma tosa... eles até só o queriam acagaçar... e ele mudo e quedo... e vai daí... espera lá que vais agarrar esta... pois foi, ó Barjona... eu já me lembro... até está ali o Mestre Serra que não me deixa mentir... Então até foste tu que me emprestaste os fósforos...

Essa ainda era o menos pois todos sabiam a alma que ele tinha aos das Matas que deram cabo dos pastos... e à conta dos fogos ainda levou mesmo uma tosa lá na Guarda mas ele mudo e quedo que nem um penedo...

Mas a outra do Catrâmbias, quando ele ia prós lados da Ribeira dos Siqueiros, à malhada, e na Estrada Nova, ao Valazedo, já depois de passar as Barreiras, à Empresa passa por ele o senhor Cruz um homem por todos muito respeitado que até era o secretário da Câmara, e até lhe chamavam o Manga d’Alpaca e o Letra Fina e ele levava uns livros lá da Câmara e ia à sua vida... e vai o Catrâmbias e a modos que ia falando com o burro... anda lá burro, C’os domoncres que escreves tu melhor com o rabo a espantar moscas do que muitos que passam toda a vida a escrever com caneta e aparo de tinta!...

 

Ora esta já vai longa menino Zé mas isto as palavras que eu não sei escrever e ditei ao meu neto que anda na escola há um ror de anos e não passa da cepa torta... mas como ia dizendo isto das palavras são como as cerejas que a gente cobiçava no quintal da casa da guarda da mata de S. Sebastião... Mas com esta me fico e não sei mais o que diga... Por hoje abonda... Muito bem haja por tudo, pela esmolinha que me fez e quando quiser ter o incómodo de me querer falar tem ali a minha casa às ordens... Pobre mas com um bocado de centeio negro e um queijo...

...E isto era um não mais acabar... Nem me quero lembrar daquela do Afonso Costa a me procurar o que se dizia do Afonso Costa que até era de Seia e tem uma casa nas Penhas Douradas... Oh! Atão, o que haviam de dizer... dizem que ele é um grande malandro que nem acredita em Deus e Nossa Senhora!!!

 Vou acabar.

Até mais ver... O seu criado...

 Manteigas, mil novecentos e setenta e oito. 

 

Jaquim Sono...

 

 

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