Serra da Estrela - Manteigas

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um ANDARILHO em viagem pelas
7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

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Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela

José Rabaça Gaspar
C/ o deNÓMIO de José da Serra Gil Vicente da Beira

In Obras de Gil Vicente - uma adaptação decalcada na obra
Com revisão, prefácio e notas de Mendes dos Remedios,
Tomo I, pp. 246 - 267, França Amado Editor, Coimbra, 1907

Tentativa para uma adaptação e Sugestões...


Corroios
Outubro de 2001

DEDICATÓRIA e...

Claro que esta tentativa de tentar registar a oralidade das pessoas da minha terra apoiando-me ao "bordão" magistral de Gil Vicente, o Mestre do Teatro em Portugal..., tinha de ser dedicado aos pastores e às pastoras, às gentes que viviam nos casais no meio da Serra, aos agricultores, moleiros, cavadores de enxada, aos carpinteiros e pedreiros... aos vizinhos e colegas de Escola... com quem tive o privilégio de viver e conviver nos primeiros anos da minha infância...

Andava eu à procura de tempo e inspiração para "povoar a minha STerra de Lendas"... completar a recolha das que procurei durante muitos anos... recriar umas, reinventar outras, criar algumas... quando ouvi falar (2001) que era de Manteigas o/a melhor aluno/a na Cadeira de Língua Portuguesa... Já nos anos 50 (séc. XX) tinha havido a melhor aluna a Inglês!... Uma, esta, porque foi a melhor numa Língua Estrangeira, outra, a do Milénio, porque "... a Professora conseguiu que aprendessem bem... Gil Vicente... Camões... Vieira... Garrett... Pessoa..." Foi o comentário que ouvi...

Pensei outra vez: Nunca vi um aluno ficar em primeiro por dominar, estimar, conhecer e promover a linguagem da sua Região... "O Português do Povo"... "A Língua da Vida..." "O Verbo Falado..."!!!

Fica aí a minha contribuição como um desafio, pelo mergulho que me foi possível dar no "MAR" das minhas raízes... em A MAR... que lamento ter esquecido... ou não ter aprendido como devia ser e daí, talvez, o facto de ter ficado a Saber tão pouco e de ter de tentar tanto para, finalmente, tentar Conhecer-me melhor!!!

Como complementos de Bibliografia, que cito nas diversas OBRAS que fui arquitectando e de que dou conta no final, - e é por isso que esta obra aparece como complemento da JORNADA IV, V, E VIª - a NOMINÁLIA ou FESTA DOS NOMES - Toponímia, Alcunhas e Expressões - quero aqui deixar registados:

PEREIRA, Pe. Jaime Pinto - ALEGRIAS POPULARES (Cancioneiro folclórico de Alvoco da Serra) Vol. I, Coimbra, 1952,

PEREIRA, Jaime Pinto, ALEGRIAS POPULARES (Cancioneiro Folclórico do Concelho de Seia) - BEIRA ALTA, Vol II, Edição do Autor?, s/d (1967 in Intr.). (Pelas incontáveis modas recolhidas numa Zona, da Beira Alta, onde se diz que não há, ou há uma pobre tradição musical...!)

GALLOP, Rodney, CANTARES DO POVO PORTUGUÊS - (Estudo Crítico, Recolha e Comentário de RG), Instituto de alta Cultura, Lisboa, 1950. (Por no conjunto das Províncias, ter mostrado que também há música na Beira alta...)

LEÇA, Armando, MÚSICA POPULAR PORTUGUESA, Editorial Domingos Barreira, Porto, S/ data (posterior a 1942? Ver outras obras) - Por não ter encontrado, ou por não ter conseguido incluir neste volume, nem uma moda da Beira alta nem da Beira Baixa, mas tem da Beira litoral!!!

LOPES GRAÇA, A CANÇÃO POPULAR PORTUGUESA, Publicações Europa América, 1974. (Porque é incontornável, nesta e noutras obras... é o Mestre!)

RIBAS, Tomaz, DANÇAS POPULARES PORTUGUESAS, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, 1983 - (Para se terem as bases fundamentais sobre as Danças Portuguesas...)

GIACOMETTI, Michel - LOPES GRAÇA - CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, Círculo de Leitores, s/data (anos 80? Séc. XX) (Por, evidentemente ser a Obra de Vulto, sobre o Cancioneiro em Portugal que ficou sempre inacabado!!!)

LOPES DIAS, Dr. Jaime - ETNOGRAFIA DA BEIRA - Lendas - Costumes - Crenças e Superstições - Obra em XI volumes, Depositária Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, (I vol. de 1929) 2ª ed. 1944... até ao XI, com o Índíce Geral, em 1971.

BUESCU, Maria Leonor Carvalhão, MONSANTO - Etnografia e Linguagem, Editorial presença, (1ª Ed. 1958), 2ª 1984. (Pela ligação à Serra, devido à Transumância... eu vi fazer os adufes, no Fund'Vila, à porta da minha casa, pelas mulheres dos Pastores que vinham de Monsanto a caminha da Serra, no início da Primavera.

Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela

Obras de Gil Vicente
Com revisão, prefácio e notas de Mendes dos Remedios, Tomo I, pp. 246 - 267, França Amado Editor, Coimbra, 1907


Tragicomedia Pastoril da
Serra da Estrella

FIGURAS

SERRA DA ESTRELLA.

HUM PARVO.

GONÇALO.

FELIPA.

CATHERINA.

FERNANDO.

MADANELA.

RODRIGO.

HUM ERMITÃO.

JORGE.

LOPO.

Tragicomedia pastoril feita e representada ao muito poderoso e catholico Rei D João, o terceiro deste nome em Portugal, ao parto da Serenissima e mui alta Rainha D. Catherina nossa Senhora, e nacimento da Ilustrissima Iffante D. Maria, que depois foi Princesa de Castella, na cidade de Coimbra, na era do Senhor de 1527.

TRAGICOMEDIA PASTORIL

DA

SERRA DA ESTRELLA.

Entra logo a Serra da Estrella com hum Parvo, e diz:

SERRA DA ESTRELLA.
Prazer que fez abalar
Tal serra como eu da Estrella,
Fará engrandecer o mar,
E fará bailar Castella,
E o ceo tambem cantar.
Determino logo essora
Ir a Coimbra assi inteira,
Em figura de pastora,
Feita serrana da Beira,
Como quem na Beira mora.
E levarei lá comigo
Minhas serranas trigueiras,
Cada qual com seu amigo,
E todalas ovelheiras
Que andão no no meu pacigo.
E das vaccas mais pintadas
E das ovelhas meirinhas
Para dar apresentadas
A' Rainha das Rainhas,
Cume das bem assombradas.
Sendo Rainha tamanha,
Veio ca á Serra embora
Parir na nossa montanha
Outra Princeza d'Hespanha,
Como lhe demos agora:
Hua rosa imperial
Como a mui alta Isabel,
Imagem de Gabriel,
Repouso de Portugal,
Seu precioso esperavel.
Bem sabe Deos o que faz.
PAR.- Bofé, não sabe nem isto;
A Virgem Maria si;
Mas quant'elle não he bô,
Nega pera queimar vinhas.
SER- Isso has de tu dizer?

PAR.- Quem? Deos? Juro a Deos
Que não faz nega o que quer.
Lá em Coimbra escava eu
Quando a mesma Rainha
Pario mesmo em cas d'in-Rei:
Eu vos direi como foi.
Ella mesma (benza-a Deos)
Estava mesma no Paço,
Qu'ella quando ha de parir
Poucas vezes anda fóra.
Ora a mesma Camareira,
Porque he mesma de Castella,
Rogou á mesma parteira
Que fizesse delle ella.
(Perequi vai a carreira)
Sabeis porque?
Porque a mesma Imperatriz
Pario mesmo Imperador,
E agora estão aviados,
Mas quando minha mãe paria,
Como a Virgem a livrava,
Tanto se lhe dav'ella
Que fosse aquelle como aquella,
Senão ovos hua vez.

Vem Gonçalo, hum pastor da Serra, que vem da Côrte, e vem cantando.

GONÇALO.
"Volaba la pega y vaise:
"Quem me la tomasse.
"Andaba la pega
"No meu cerrado,
"Olhos morenos
"Bico dourado
"Quem me la tomasse."
Pardeos, mui alvoroçada
Anda a nossa Serra agora!
SER.- Gonçalo, venhas embora
Porque eu estou abalada
Pera sair de mim fóra.
Queria-vos ajuntar
Logo logo, muito asinha,
Para irmos visitar
Nossa Senhora a Rainha,
Querendo Deos ajudar.

GONÇALO.
Eu venho agora de lá,
E segundo o que eu vi,
Que vamos lá bem será.
Isto crede vós qu'he assi;
Porque dizem que a Princeza,
A menina que naceo,
Parece cousa do ceo,
Hua estrella muito accesa
Que na terra apparcceo.

SERRA
Gonçalo, eu te direi!
Ella ja naceo em serra,
E do mais fermoso Rei
Que ha na face da terra,
E de Rainha mui bella.
E mais naceo em cidade
Muito ditosa pera ella,
E de grande autoridade
E mais naceo em bom dia
Martes, deos dos Vencimentos,
E trouxerão logo os ventos
Agua que se requeria
Pera todos mantimentos.
PAR. - Ás vezes faz Deos cousas,
Cousas faz elle ás vezes
A través, como homem diz.
Nega se meu embeleco,
Vai poer as pipas em sécco,
E enche d'agua o Mondego:
Fará mais hum demenesteco?
Engorda os Vereadores,
E sécca as pernas ás moças
De cima bem t'ós artelhos;
E faz os frades vermelhos,
E os leigos amarellos,
E faz os velhos murzellos.
Enruça os mancebelhões,
E não attenta por nada;
Pedem-lhe em Coimbra cevada,
E elle dá-lhe mexilhões
E das solhas em cambada.
GON. - Vós, Serra, se haveis d'ir
Com serranas e pastores,
Primeiro se hão d'avir
Hua manada d'amores,
Que não querem concrudir.
Eu trago na phantesia
De casar com Madanela,
Mas não sei se querrá ella;
Perol eu, bofé, queria.

Vem Felipa, pastora da Serra, cantando.

FELIPA.
"A mi seguem dous açores,
"Hum delles morirá d'amores.
"Dous açores qu'eu havia
"Aqui andão nesta bailia,
"Hum delles morirá d'amores
Gonçalo, viste o m eu gado?
Dize se o viste embora.
GON.- Venho eu da côrte agora,
E diz que lhe dê recado!
FEL. - Pois ja tu ca es casado,
Nega que esperão por ti.
GON.- E sem mi me casão a mi?
Ora estou bem aviado!

FELIPA.
Não ha hi nega casar logo,
E fazer vida com ella,
Se não for com Madanela.
Gon.- Tiro-m'éu fora do jôgo.
FEL.-. Essa he a melhor do jôgo.
GON.- Ess'outra será Alvarenga?
FEL.- Mas Catherina Meigengra.
GON.- Antes me queime mao fogo.
Não vem a Meigengra a conto,
Que he descuidada perdida;
Traz a saia descosida,
E não lhe dará hum ponto.
Oh quantas lendes vi nella,
E pentear nemigalha;
E por dá-me aqulla palha,
He maior o riso qu'ella.
Varre e leixa o lixo em casa,
Come e leixa alli o bacio;
Cada dia a espanca o tio,
Nega porque tão devassa
Madanela mata a braza.
Não cuides de mais arenga, ~ .
E dize tu, mana, a Meigengra
Que va amassar outra massa.

FELIPA.
Ja teu pae tem dada a mão,
E dada a mão feito he.
GON.- Pardeos, dar-lhe-hei eu de pé,
Como a casca de melão.
Raivo eu de coração
D'amores de Madanela.
FEL.-Meigengra he.mais rica qu'ella,
Qu'essa não tem nem tostão.

GONÇALO
Arrenego eu do argem,
Que me vem a dar tormento;
Porque hum so contentamento
Val quanto ouro Deos tem.
Deos me dê quem quero bem,
Ou me tire a vida toda;
Com a Morte seja a voda,
Antes que outrem me dem.

FELIPA.
Eu me vou pé ante pé
Ver. o meu gado onde vai.
GON. - E eu quero ir vér meu pae,
Veremos como isto he.

Vem Catherina Meigengra, cantando.

CATERINA.
"A serra es alta,
"O amor he grande,
"Se nos ouvirane."

FELIPA.
Onde vas, Meigengra mana?
CAT.- A novilha vou buscar:
Viste-m'a tu ca andar?
FEL.- Não na vi esta somana.
Agora estora vai daqui
Gonçalo que vem da côrte:
Mana, pesou-lhe de sorte
Quando lhe fallei em ti,
Como se foras a morte.
Tem-te tamanho fastio!
CAT.- Inda bem, por minha vida;
Porq'eu, mana sam perdida
Por Fernando de meu tio.
S'eu com elle não casar,
D'amores m'hei de finar.
Aborrece-me Gonçalo
Como o cu do nosso gallo;
Não no queria sonhar.

FELIPA.
Se tu não queres a elle,
Nem elle tampouco a ti.
CAT.- Quanta s'elle quer a mi,
Negras más novas vão delle.
Deos me case com Fernando,
E moura logo esse dia,
Porque me mate a alegria
Como o nojo vai matando.
Oh Fernando de meu tio,
Que eu vi polo meu peccado!
FEL.- Fernando, esse teu damado
Casava comigo a furto.
CAT.- Dize, rogo-t'o, ha muito?
FEL.- Este sabado passado.
CAT.- Oh Jesu! como he rnalvado,
E os homens cheios d'enganos;
Que por mi, vai em tres annos,
Que diz que he demoninhado
Felipa, gingras tu ou não?
Isso creio que he chufar;
E se tu queres gingrar
Não me dês no coração,
Que o .que doe não he zombar.
FEL.- Elle veio ter comigo
Bem ó penedo da palma,
E disse: Felipa, minh'alma,
Raivo por casar comtigo.
Digo eu, digo:
Vae, vae nadar que faz calma.

CATERINA.
Olha tu se zombava elle.
FEL.- Bem conheço eu zombaria;
Vi eu, porque eu não queria,
Correr as lagrima delle.
CAT.- Maos choros chorem por elle,
Que assi chora elle comigo,
E vai-se-lhe o gado ó trigo,
E sóis não olha par'elle.

FELIPA.
Eu vou casuso ao cabeço,
Por ver se vejo o meu gado.
CAT.- Tal me deixas por meu fado,
Que do meu toda m'esqueco.
Quem soubesse no comêço
O cabo do que começa,
Porque logo se conheça
O qu'eu j'agora conheço.

Vem Fernando cantando.

FERNANDO.
"Com que olhos me olhaste,
"Que tão bem vos pareci?
"Tão asinha m'olvidaste,
"Quem te disse mal de mi?

CATERINA.
A que vens, Fernando honrado?
Ver Felipa tua senhora?
Venhas muito da ma hora
Pera ti e pera o gado.
FER.- Catalina! Catalina! assi
Tolhes-me a falla, Catalina?
Olha ierama pera mi;
Pois que me tu sês assi
Carrancuda e tão mofina,
"Quem te disse mal de mi,
"Com que olhos me olhaste, &tc."

CATERINA.
Dize, rogo-te, Fernando,
Porque me trazes vendida?
Se Felipa he a tua querida,
Porque m'andas enganando?
FER.- Eu mouro; tu estás zombando.
CAT.- Oh que não zombo ; Jesu!
Não casavas co'ella tu?
FER.- Eu estou della chufando.
Catalina, esta he a verdade,
Não creias a ninguem nada;
Que tu me tens bem atada
A alma e a vida e a vontade.
CAT.- Pois que choraste com ella,
Não ha hi mais no querer.
FER.- De chorar bem póde ser,
Mas não chorava eu por ella.
Felipa avulta-se comtigo,
Vendo-a, foste-me lembrar;
Então puze-me a chorar
As lembranças de meu p'rigo:
Se ella o tomou por si,
Que culpa lhe tenho eu?
Mas este amor quem m'o deu,
Deu-m'o todo para ti,
E bem sabes tu qu'he teu.

CATELINA.
Oh que grande amor te tenho,
E que grande mal te quero.
FER.- Ja de tudo desespero :
Tão desesperado venho,
Que ja mal nem bem não quero.
Teu pae tem-te ja casada
Com Gonçalo d'antemão,
E eu fico por esse chão,
Sem me ficar de ti nada,
Senão dor de coração.
Ver-te-has em outro poder,
Ver-te-has em outro logar,
Eu logo sem mais tardar,
Frade prometto de ser,
Pois os diabos quizerão.
E alli me deixarão
Tanta de maginação,
Quanta teus olhos me derão
Desde o dia d'Acenção.

CATELINA.
Mas casemos, dá ca a mão,
E dir-lhe-hei que sam casada.
FER.- Ja tenho palavra dada
A Deos de religião,
Ja não tenho em mi nada.
CAT.- Oh quantos perigos tem
Este triste mar d'amores,
E cada vez são maiores
As tormentas que lhe vem.
Se tu a ser frade vas,
Nunca me verão marido:
Tu seras frade mettido
Porem tu me metterás
Na fim da Rainha Dido.
FER.- Não se poderá escusar
De casares com Gonçalo;
E querendo tu escusá-lo,
Não no podes acabar,
Que teu pae ha de acabá-lo.

CATELINA.
Sé libera nos a malo!
Nunca Deos ha de querê-lo;
E Gonçalo não me quer,
Nem eu não quero a Gonçalo.
Eilo vem . vê-lo, Fernando? .
Vem em cima na portela;
Diante vem Madanela:
Aquella anda elle buscando.
Vamo-los nós espreitar
Alli detras do vallado;
E veremos seu cuidado
Se te dá em que cuidar,
Ou se falla desviado.

Vem Madanela cantando, e Gonçalo detras della

MADANELA.
"Quando aqui chove e neva,
"Que fará na serra.
"Na serra de Coimbra
"Nevava e chovia,
"Que fará na Serra?
Gonçalo, tu a que vens?
GON.- Madanela, Madanela!
MAD.- Torna-te ma hora e nella
Que tão pouco empacho tens.
GON.- Madanela, Madanela!
MAD.- O' decho dou eu a amargura:
Qu'assi m'agasta, Jesu!
Ora tras mi te vens tu?
GON.- Pois a mi se m'affigura
Que não m'has de comer cru.
Se tu me queres matar
Por t'eu ter boa vontade,
Não póde ser de verdade.
MAD.- Gonçalo, torna a lavrar,
Que isso tudo he vaidade.
GON.- Que rezão me dás tu a mi
Pera não casar comigo?
Eu hei de ter muito trigo,
E hei-te de ter a ti
Mais doce que hum pintisirgo.
Não quero que vas mondar,
Não quero que andes ó sol;
Pera ti seja o folgar,
E pera mim fazer prol.
Queres Madanela?
MAD.- Gonçalo, torna a lavrar,
Porque eu não hei de casar
Em toda a serra d'Estrella,
Nem te presta prefiar.
Catalina he muito boa,
Fermosa quanto lhe basta,
Quer-te bem, he de boa casta,
E bem sesuda pessoa.
Toma tu o que te dão
Em pago do que desejas.
GON.- Ai, rogo-te que não sejas
Aia do meu coração.
MAD.- Vae-te d'hi, que parvoejas.

GONÇALO.
Não quero casar co'ella.
MAD.- Nem eu tampouco comtigo.
Vês? Casuso vem Rodrigo
Tras Felipa, que he aquella
Que não no estima n'hum figo.

Vem Rodrigo cantando

RODRIGO.
"Vayámonos ambos, amor, vayamos,
"vayamos ambos.
"Felipa e Rodrigo passavão o rio
"Amor, vayámonos."
Felipa, como te vai?
FEL.- Que tens tu de ver c'o isso?
Dias ha que t'eu aviso
Que vas gingrar com teu pae.
ROD.- Não estou eu, mana, nisso.
FEL.- Quem te mette a ti comigo?
ROD.- Felipa, olha pera ca,
Dá-me essa mão, ieramá.
FEL.- Tir'-te, tir'-te eramá lá.
Tu que diabo has ?

RODRIGO.
Felipa, ja tu aqui es?
FEL.- Rodrigo, ja tu começas?
Tu tens das mais vans cabeças...
Náo quero ser descortez.
ROD.- Nem queiras tu er ser assi
Gravisca e escandalosa;
Mas tem graça pera mi,
Como tu es graciosa
E fermosa pera ti.

FELIPA.
Cada hum s'ha de regrar
Em pedir o que he rezão:
Tu pedes-me o coração,
E eu não t'o hei de dar,
Porque he mui fóra de mão.
E quanto monta a casar,
Ainda qu'eu guarde gado,
Meu pae he juiz honrado
Dos melhores do logar,
E o mais aparentado.
E andou ja na Côrte assaz,
E fallou-lhe EIRei ja,
Dizendo-lhe: Affonso Vaz,
Em Fronteira e Monçarraz
Como val o trigo lá?
Ora eu pera casar ca,
Rodrigo, não he rezão.
ROD.- Se casasses com páção,
Que grande graça sería
E minha consolação!
Que te chame de ratinha,
Tinhosa cada meia hora,
Inda que a alma me chora,
Folgarei por vida minha,
Pois engeitas quem t'adora:
E te diga, tir-te la,
Que me cheiras a cartaxo.
Pois te desprezas do baxo,
O alto te abaxará.

FELIPA.
Quando vejo hum cortezão
Com pantufos de veludo,
E hua viola na mão,
Tresanda-me o coração,
E leva-me a alma e tudo.
ROD.- Gonçalo vai-me ajudar
A acabar minha charrua,
E eu t'ajudarei á tua,
Que est'outro s'ha d'acabar
Quando a dita vir a sua.

GONÇALO.
Eu sam ja desenganado,
Quanto monta a Madanela.
Rod.- Deve-te lá d'ir com ella
Como a mi vai, mal peccado,
Com Felipa.
GON.- Assi he ella.
ROD.- E tu, Fernando, em que estás?
FER.- Estou em muito e em nada,
Porque a vida namorada
Tem cousas boas e más.

Vem hum Ermitão, e diz:

ERMITÃO.
Fazei-me esmola, pastores,
Por amor do Senhor Deos.
ROD.- Mas faça elle esmola a nós,
E seja qu'estes amores
Se atem com senhos nós.
ERM.- O casar Deos o provê,
E de Deos vem a ventura,
Da ventura a creatura,
Mas com dita he por mercê,
E tambem serve a cordura.
Ponde-vos nas suas mãos,
E não cureis d'escolher;
Tomae o que vos vier,
Porque estes amores vãos
Terão certo arrepender.
Filhas, aqui estais escriptas;
Filhos, tomae vossa sorte,
E cada hum se comporte
Dando graças infinitas
A Deos e a EIRei e á Côrte.

Tirou o Ermitão da manga tres papelinhos escriptos. e os deu aos pastores, que tomasse cada hum sua sorte, e diz o

ERMITÃO.
Rodrigo tome primeiro,
Veremos como se guia.
ROD.- Nome da Virgem Maria!
Lede, padre, esse letreiro,
Se me cega ou alumia.

(Lê o Ermitão o escrito.)
Deos e a ventura manda
Que quem esta sorte houver
Tome logo por mulher
Felipa sem mais demanda.

RODRIGO.
Vencida tenho eu a batalha,
Felipa, mana, vem ca.
FEL.- Tir'-te, tir'.te eramá lá:
E tu cuidas que te valha?
Nunca teu ôlho verá.
GON.- Ora vae, Fernando, tu,
Veremos que te virá.
FER.- Alto, nome de Jesu!
Lede, Padre ; que vai lá?

(Lê o Ermitão.)

A sentença he já dada,
E a sustancia della.
Que cases com Madanela.
MAD.- Fernando, não me dá nada,
Seja muito embora e nella.
FER.- Dias ha que t'o eu digo,
E tu tinhas-me fastio.
CAT.- Oh Fernando de meu tio,
Quem me casára comtigo!

GONÇALO.
Oh Madane!a, ierarná
Se me cahiras em sorte!
CAT.- Ante eu morrêra ma morte,
Que Fernando ficar lá
Tão contrairo do meu norte.
E porém não me dá nada,
Ja me tu a mi pareces bem,
Gonçalo.
GON.- E tu a mi,
Catalina ; muda-te d'hi
E passea per hi alem,
Verei que ar das de ti.

FELIPA.
Estou-t'eu, Rodrigo, olhando,
E vou sendo ja contente.
ROD.- Se de mi não es contente,
Náo t'hei de andar mais rogando:
Eu ando-te namorando,
E tu acossas-me cada dia.
CAT.- Inda qu'eu isso fazia,
Rodrigo, de quando em quando,
Mui grande bem te queria.
E quando eu refusava
De te tomar por amigo,
Não ja porque eu não folgava,
Mas porque t'examinava,
Se eras tu moco atrevido.
ERM.- Agora quero eu dizer
O que aqui venho buscar.
Eu desejo de habitar
N'hua ermida a meu prazer,
Onde podesse folgar.
E queria-a eu achar feita
Por não cansar em fazê-la,
Que fosse a minha cella
Antes bem larga qu'estreita,
E que podesse eu dancar nella:
E que fosse n'hum deserto
D'infindo vinho e pão,
E a fonte muito perto
E longe a contemplação.
Muita caça e pescaria,
Que podesse eu ter coutada
E a casa temperada:
No verão que fosse fria,
E quente na invernada.
A cama muito mimosa.
E hum cravo a cabeceira;
De cedro a sua madeira :
Porque a vida religiosa
Queria eu desta maneira.
E fosse o meu repousar
E dormir ate taes horas,
Que não podesse rezar,
Por ouvir cantar pastoras,
E outras assobiar.
A'cea e jantar perdiz,
O' almoço moxama,
E vinho do seu matiz;
E que a filha do juiz
Me fizesse sempre a cama.
E em quanto eu rezasse
Esquecess'ella as ovelhas
E na cella me abraçasse
E mordesse nas orelhas,
Inda que me lastimasse.
Irmãos, pois deveis saber
Da serra toda a guarida,
Praza-vos de me dizer
Onde poderei fazer
Esta minha sancta vida.

GONÇALO.
Está alli, padre, hum silvado
Vicoso, verde, florido,
Com espinho tão comprido,
E,vós nu alli deitado
Perderieis o proido.
Ja fostes casamenteiro,
I-vos, não esteis hi mais,
Porque a vida que buscais
Náo na dá Deos verdadeiro,
Indaque lh'a vós peçais.

SERRA.
Ora, filhos, logo essora,
Cada hum com sua esposa,
Vamos ver a poderosa
Rainha nossa Senhora,
Sem nenhum de vós pôr grosa,
Porque he forçoso que va,
Que segundo minha fama
Da Rainha hei de ser ama,
E a isso vou eu lá.
Que tal leite como o meu
Não no ha em Portugal;
Que tenho tanto e tal,
E tão fino Deos m'o deu,
Que he manteiga, e não al.
E pois ha de ser senhora
De tão grande gado e terra,
Quem outra ama lhe der, erra,
Porque a perfeita pastora
Ha de ser da minha serra.

GONÇALO.
Ha mister grandes presentes
Das villas, casaes e aldea.
SER.- Mandará a villa de Cea
Quinhentos queijos recentes,
Todos feitos á candea,
E mais trezentas bezerras,
E mil ovelhas meirinhas,
E duzentas cordeirinhas,
Taes, que em nenhuas serras,
Não nas achem tão gordinhas.
E Gouvea mandará
Dous mil sacos de castanha,
Tão grossa, tão san, tamanha,
Que se maravilhará
Onde tal cousa s'apanha.
E Manteigas lhe dará
Leite para quatorze annos,
E Covilhan muitos pannos
Finos que se fazem lá.
Mandarão desses casaes
Que estão no cume da serra,
Penna pera cabeçaes,
Toda de aguias reaes
Naturaes mesmo da terra.
E os do Val dos Penados
E montes dos tres caminhos,
Que estão em fortes montados,
Mandaráo empresentados
Trezentos forros d'arminhos
Pera forrar os brocados.
Eu hei-lhe de presentar
Minas d'ouro que eu sei,
Com tanto que ella ou EIRei
O mandem ca apanhar:
Abasta que lh'o criei.
GON.- E afora ainda os presentes,
Havemos-lhe de cantar,
Muito alegres e contentes,
Pola Deos allumiar,
Por alegria das gentes.

Vem dous foliões do Sardoal, Jorge e Lopo, e diz a

SERRA.
Sois vós de Castella, manos,
Ou lá debaixo do extremo?
JOR.- Agora nos faria o demo
A nós outros Castelhanos:
Queria antes ser lagarto,
Polos sanctos avangelhos.
SER.- Donde sois?
JOR.- Do Sardoal;
E ou bebê-la, ou vertê-la,
Vimos ca desafiar
A toda a Serra d'Estrella
A cantar e a bailar.

RODRIGO.
Soberba he isso perem,
Pois ha aqui tantos pastores,
E tão finos bailadores,
Que não ha hi medo a ninguém.
LOP.- Muitos ratinhos vão lá
De ca da serra a ganhar,
E lá os vemos cantar
E bailar bem como ca,
E he assi desta feição.

Canta Lopo e baila, arremedando os da Serra.

"E se ponerei la mano em vós
"Garrido amor,
"Hum amigo que eu .havia
"Mancanas d'ouro m'envia,
"Garrido amor.
"Hum amigo que eu amava,
"Mançanas d'ouro me manda,
"Garrido amor,
"Mancanas d'ouro m'envia,
"A melhor era partida,
"Garrido amor."
Isso he, ou bem ou mal,
Assi como o vós fazeis.
SER.- Peco-vo-lo que canteis
A' guisa do Sardoal.
LOPO - Esse he outro carrascal;
Esperae ora e vereis.
"Ja não quer minha senhora
"Que lhe falle em apartado
"Oh que mal tão alongado!
"Minha Senhora me disse
"Que me quer fallar hum dia,
"Agora por meu peccado
"Disse-me que não podia:
"Oh que mal tão alongado!
"Minha senhora me disse
"Que me queria fallar,
"Agora por meu peccado
"Não me quer ver nem olhar,
"Oh que mal tão alongado!
"Agora por meu peccado
"Disse-me que não podia.
"Ir-me-hei triste polo mundo
"Onde me levar a dita.
"Oh que mal tão alongado!"

Esta cantiga cantárão e bailárão de terreiro os foliões, e acabada, diz

FELIPA.
Não vos vades vós assi,
Leixae ora a gaita vir,
E o nosso tamboril,
E ireis mortos daqui,
Sem vos saberdes bolir.
CAT.- Em tanto por vida minha
Sera bem que ordenemos
A nossa chacotazinha,
E com ella nos iremos
Ver EIRei e a Rainha.

Ordenárão-se todos estes pastores cm chacota, como lá se costuma, porém a cantiga della foi cantada de canto d'orgão e a letra he a seguinte Cantiga:

"Não me firais, madre,
"Que eu direi a verdade.
"Madre, hum escudeiro
"Da nossa Rainha
"Fallou me d'amores:
"Vereis que dizia,
"Eu direi a verdade.
"Fallou-me d'amores,
"Vereis que dizia:
"Quem te me tivesse
"Desnuda em camisa!
"Eu direi a verdade."

E com esta chacota se sahirão, e assim se acabou.

José Rabaça Gaspar
C/ o deNÓMIO de José da Serra Gil Vicente da Beira

Obras de Gil Vicente - uma adaptação decalcada na obra
Com revisão, prefácio e notas de Mendes dos Remedios,
Tomo I, pp. 246 - 267, França Amado Editor, Coimbra, 1907

Tragicomedia Pastoril da
Serra da Estrella

Tentativa para uma adaptação e Sugestões...

Corroios
Outubro de 2001

FIGURAS

SERRA DA ESTRELLA. - Vestida à moda da Serra, como uma Rainha.

UM PARVO. - para dizer, a brincar, as coisas mais sérias...

GONÇALO. - Pastor que vem de Lisboa, com seu fato domingueiro.

FELIPA. - Pastora da Serra.

CATERINA. - Pastora da Serra.

FERNANDO. - Pastor da Serra.

MADANELA. - Pastora da Serra

RODRIGO. - Pastor da Serra.

UM ERMITÃO.

JORGE. - Um dos "foliões" do "Sardoal" ou "artista de fora" convidado...

LOPO. - O outro "folião" do "Sardoal" ou "artista de fora" convidado...

Nota Geral: Embora a adaptação tenha sido feita sobre o texto de Gil Vicente, a intenção é torná-lo o mais próximo possível da oralidade usada na linguagem comum... Embora se tenha feito um esforço neste sentido, metendo, na medida do possível, alcunhas, nomes e expressões usadas na Serra e em Manteigas, é evidente que no trabalho de adaptação, montagem e realização, tanto o encenador como cada um dos personagens terão toda a liberdade e espaço para recriar e assumir a forma de falar e de interpretar que possa transmitir aos espectadores a imagem fiel de uma cultura, maneira de ser e de falar de uma região ou a nossa Terra... na Serra... Se essa oralidade já se está a perder ou a mudar, será importante ter em conta o estudo do fenómeno e medir até que ponto será importante valorizar os usos e costumes, que eram válidos e pertinentes, ou não?, numa determinada época... Por exemplo a segunda metade do século XX....

Tragicomédia pastoril para ser representada por ocasião de alguma visita importante à nossa terra, na Serra da Estrela... por exemplo a visita do Senhor Presidente da República ou do Senhor Primeiro Ministro, algum Ministro ou outra Pessoa importante, para lhes transmitirmos alguns dos nossos Valores Culturais, desde o Modo do Fualuar... aos problemas que tentamos resolver... aos amores e desamores... às modas e cantigas dos nossos ranchos e grupos... às riquezas e bens naturais e fabricados na Nossa Terra e na Nossa Serra...

TRAGICOMEDIA PASTORIL

DA

SERRA DA ESTRELLA.

Entra logo a Serra da Estrela com um Parvo, e diz:

SERRA DA ESTRELLA (Vestida em belos trajes de Serrana, como se fora uma Rainha):

Tal prazer faz abalar
Quem nos visita na Estrela,
Que pode de lá ver o mar,
E olhar até Castela...
E ver o céu a brilhar
Crivado de mil estrelas...
Assim, determino agora
Que aqui a Serra inteira,
Apareça sedutora
Em figura de pastora,
Feita serrana da Beira,
Andando toda lampeira!
Como quem na Serra mora.

E vão vir aqui comigo
Minhas serranas trigueiras,
Cada qual com seu amigo...
Todas elas ovelheiras
Que andam no meu pacigo.
E guardam vacas malhadas
E as ovelhas meirinhas
P'ra serem apresentadas
Como Mulheres, quais Rainhas
Nesta Serra celebradas
Por sua Arte tamanha,
De criarem com as Mãos
As manteigas da montanha
Os panos de estamanha
Os queijos, o enchido, o pão!...

Têm sabor sem igual
E nutrição sem rival
Pois sabem a creme e mel,
E outros sabem a fel!...
Famosos em Portugal,
Por seu gosto imperial

PARVO:
Vê lá n'o é bem assim!
Há umas coisas que sim,
Têm sabor excelente,
Mas também há muita gente
Que rapa um frio danado
De arreganhar o dente
Quando cai nevão pegado
E fica um taró danado
E passa fome esganada
Se a vinha fica queimada!
E se gelam as levadas
Como os campos e as estradas
Não há cristão que resista!...
Queres que ponha mais na lista?

Talvez te lembres deste uso:
Se comeres caldo de abóbora
Ficam os vizinhos sem pulso
Três dias... ou mais! Essa agora!...

SERRA
Isso és tu a falar
Doutros tempos que lá vão!?

PARVO:
Agora?! É tudo a fartar
Não falta fruta nem pão
Em cada casa ou lugar...
Já não há o pão centeio
Aquele negro, duro, feio?!...
Um bom naco e azeitonas
Era um manjar de donas!!!
C'um migalho de presunto
Ou um pedaço de queijo
Era coisa d'esbarrunto
Para qualquer sujeito!...
Depois, nos tempos de agora
Vieram modas de fora
Vieram regras e leis...
E temos de ser fieis
Se não mandam-nos embora...
Da UE ou dessa "porra"...
O queijo como era outrora
Já não se pode fazer!
E é calar e comer...
Tem de ser autenticado
E em plástico embrulhado
Como nos manda a Europa...
Lembram-me os tempos da tropa!
Os moços qu'iam às sortes!...
Quem eram, deles, os mais fortes
Para andar e alancar
Contra todos os rigores?
Eram, se calha, os doutores?
Ou os moços da cidade?...
Eram os moços da Serra
Que, em chegando a idade,
Das sortes e da "correia"
Eram chamados p'ra guerra
Em França ou qualquer lugar...
Disso já não tens ideia?...

Uns vieram gazeados
E ficaram aviados...
Com'ó Catrâmbias mordaz
Que par'cia um ferrabrás
A pregar nas escaleiras
Nos mercados e nas feiras...
Depois veio a carestia...
Nos pastos foi a razia...
As matas encheram tudo
Os pastores foram ao fundo...
Ficou por i o Malato...
E um tal de J'aquim Sono...
A dar conta do recado...
As famílias numerosas
Tiveram de ser manhosas...
Do Brasil vieram cartas
Que eram Cartas de Chamada...
E lá iam (in)felizes)
Sem nada, para abanar
A grand'"árvore das patacas"!...
Outros mais iam pr'Angola
E outros mundos afora,
Como quem vai de charola...
E os mais foram para a França
Para Espanha e Aragança...
Terras de Santa Maria...
E Terras de todo o Mundo...
E foi aquela sangria...

Vá lá, diz-me lá? Agora
'Inda há gente, como havia
Nos tempos em que se ouvia
O gado correr p'ra serra
Ao mato, ao feto e à lenha
À caruma e ao chamiço
C'um migalho de chouriço...
Ao sargaço e à carqueija
Ao zimbro, à urze... que seja!?

Isto 'stá tudo mudado!
Mas 'stá limpo, Deus louvado!!!
E agora já tem qu'abonde!...

Vem Gonçalo, um pastor da Serra, que vem da Capital, e vem cantando.

GONÇALO.
"Uma gaivota voava, voava
"Asas de vento, coração de mar...
"Como ele, somos livres
"Somos livres de cantar..."
(Em vez desta pode ser "A pomba caiu ao mar"... ou "Lisboa Já tem sol mas cheira a lua... E os rapazes perdem o juízo, Quando lhe dá o cheiro a raparigas..." ou qualquer outra que esteja mais em moda lá pela capital, que, por isso, estará na moda em qualquer aldeola ou lugar, com os meios modernos de comunicação...

(Ao entrar em cena depara com os personagens e ouve o ruído dos preparativos que se fazem nos bastidores, onde há uma azáfama de corre corre e vozes em surdina...)

Mas que surpresa tão boa
P'ra quem chega de Lisboa!!!
Está muito alvorotada
Esta nossa Serra amada!
Toda a gente estreloiçada!

SERRA:
"Nem é tarde nem é cedo,
Chegas mesmo a boa hora..."
Gonçalo, junta-te a nós!
Não temos tempo de sobra!
Temos cá umas Senhoras
E umas ilustres visitas
Gente importante, de fora
Que é preciso saudar
Dando-lhe as "Boas-Vindas"!!!
"Ora, venham lá com Deus..."
"Bem-hajam por terem vindo...!"...
E estou embaraçada
Porque eu estou de abalada
E não temos preparada
Festa d'arromba, animada
P'ra fazer boa figura
E mostrar a esta gente
Como aqui tudo é diferente...
"Como vai a bizarria?"...
"Ora, atão, venham com Deus..."
"Dêem lá nossos recados
a todos os seus... e ao gado...
E mais a toda a famelga..."
Olhem que, aqui, a gente
É rija, é pura, é valente...
Tem tradições e Cultura
E sabe bem receber
Quem de longe nos vem ver...
"'Stejam à vossa vontade
Como estão na vossa casa..."
"Vai um copázio?... Uma pinga?..."
"Tome tento!... Tem qu'abonda!...
Que pode ir ferido na asa..."
Quando for de volta a casa!!!...
Olha lá, Gonçalo amigo,
Qu'eu nem bem pensar consigo...
'Stá aí o Presidente!
Temos de lhe dar de presente
Algo digno singular
P'ra mostrar lá em Lisboa
Que ta'men há coisa boa
Qu'isto aqui é Portugal!!!

GONÇALO:
Ora m'essa é muito boa!
Eu venho agora de lá,
E segundo o que eu lá vi,
Coisa ruim não será!!!
Fazer as coisas assim...
Como eles as fazem por lá,
Também nós fazemos, cá!
Quando querem uma festa
P'r'animar a Capital
Vão buscar ao estrangeiro
Artistas a bom dinheiro
E é assim Tal & Qual...
"'Stá armado o arraial!..."
Aquilo é uma entrudada...
Fica a gente esbodegada
Com aquel'esgudelhados...
De boca aberta, espantados...
Depois, vai d'esmorecer
C'o que lá há p'ra dizer...
Nós que vamos destes lados
Aqui da Beira interior
Ficamos embasbacados
Com todo aquele barburinho...
Anda tudo numa fona
Que parece um "alevante"
Logo vem amarfanhante
O amoujo!... Há dinheirinho?...
E mandam-nos de carrinho
Dar uma volta maior...
Aquilo é um ver se te avias...
Anda tudo em roda viva...
Numa "andaina", aos baldões...
Tudo é "consumições"!...
Mas, s'estes ilustres Senhores
Querem saber como somos
Vamos mostrar o melhor
Do que fazemos e somos...

Tu mostras-te qual Princesa,
Em tua rara beleza
E aqui nestas alturas
Apesar das pedras duras
'Stamos mais perto do Céu
E foi aqui que nasceu,
O nosso herói mais valente
Viriato, independente
Que aos invasores deu luta
E fundou a Terra lusa
Esta onde agora vivemos...
É assim livre que a queremos
Todos iguais e diferentes
Outrora e daqui pr'á frente!!!

SERRA:
Gonçalo, eu te direi!
Nasce aqui na nossa Serra,
E vai à mesa do Rei
A Água mais pura da terra...
Quem dest'água beber
Vai a enxúndia derreter..."
E com poder de curar
Maleitas de espantar!
O reumát'co, a cirrose...
A espinhela caída...
Qualquer coisa avorrecida!
E a Natureza é mais bela.
Do que n'o é na cidade!
A maior virtude dela,
É não ter rivalidade
Com outra qualquer, Mundo afora
Noutros tempos e agora...
E que dizer dos bons ventos,
Que curam doenças más
Como a lepra e com'a tísica!
Até a febre asiática!...
Isso ta'men, n'o t'apraz?
E até dão bons casamentos
E não são como os d'Espanha
Donde vem o ar ruim
E outros males sem fim...!
"Lá de Espanha não esperes
Nem bom vento ou casamento..."
A não ser que desesperes...

PARVO:
- Ás vezes faz Deus cousas,
Cousas faz Ele ás vezes
De través, ou com revezes...
Como acontece co'as lousas
Qu'em riba das portas pousas...
Ou como o arrocho torto
Que mais parece um aborto...
E o vento puro é frio
Para o que não há abrigo...
E ficas arreganhado
Ou até engatanhado...
E a neve branca e pura
É bela, mas quando dura
E fica gelo - sincelo!!!
Já viste algo mais singelo?
Enche as águas do Mondego
Que fica gelado! Seco!...
E depois vem o degelo
E depois vai tudo raso
Campos, lameiros e pasto...
'Té Coimbra fica alagada
Com a tamanha enxurrada!...
E as águas do Tornáqua
E dos outros barrocões
Vão encher, a mais, ribeiras,
Os Ribeiros e Covões...
O Zêzere salta das margens...
Leva tudo na passagem...
Arrasa todas as leiras
É todo um Mar d'aflições!!!
E o Alva, daqui pia cima
Quando vem por i a baixo
Não há quem lhe tenha mão!

GONÇALO:
- Deixa lá falar o mano!
Diz comigo - Haja saúde
E coza o forno! C'o dianho!
Pára lá c'o ataúde!
Dessa arenga de desgraças
Pois se a vida traz pirraças
Também tem suas venturas
Inda mais, cá, nas alturas!...

- E Vós, ó Serra, se queres
mostrar a toda esta gente,
O que de melhor tiveres...
O que tens mais concludente
É pôr todos a falar
E juntamente cantar
Com serranas e pastores...
E falar dos seus amores,
Das coisas boas qu'a cá...
E digam todos: - Olá!
"Ora atão, venham com Deus!"
Ou atão - "Vão lá com Deus"...
E nunca digam "adeus"!!!
"Muito Bem hajam" por 'starem
Cá c'a gente de visita...
E ósdepois: "Até à Vista"
"Deus lhes dê muita Saúde"
Esta é a nossa atitude....
Se comerem do pão nosso
Desse que é centeio negro
"Que lhes faça bom proveito"
"A gente tem "caigenada"
Mas dá de "boa-vontade"
Somos mas é "vontadeiros"
E quando "forem de volta"
"Dêem lá nossos recados
Àqueles que vo'meces mais querem..."
Ou tamém "ós que Lá 'stão!"
"Bote cá a sua benção"
Diz afilhado ao padrinho...
Temos de dar a "salvação"
A toda a gente decente...
P'ra sermos bem educados...
Cá vai "pinga" p'ra que viva"!...
Cá vai Esta p'ra que preste"!...
N'o beba mais que já bonda...
"No têm de quê!" "N'a, Senhora"!
Tenham cuidado ao sair...
Olha c'avantas comigo!...
Não dêem um "carvalhós"
Que as escaleiras são lisas...
Isto é a gente a aldegar
Aqui no cruto da Serra
É para dar à tramela
Aqui em riba no cimo...
C'o demoncre dos infernos
A gente no quer cá nada
E vai uma calhoada
O' atão 'ma tanganhada
E vai mas é tudo raso...

Cá aqui, na nossa terra
O laparoto é caçapo...
'Scava Terra - é a toupeira...
O milhafre é um milhano...
A perdiz é perdigoto...
O gato bravo é papalvo...
Aricu é pirilampo
Tira-Olhos - Libelinha
Louva a Deus - santa Teresinha...
Santo Antoninho - Joaninha!
"Santo Antoninho avoa, avoa,
que t'e pai 'stá em Lisboa
Come a carne e deix o osso
Amanhã p'r'ó teu almoço..."
O javali é javardo...
Perdão c'u'a sua licença!!!
"Esta é de cabo d'esquadra!"
...

Vem Felipa, pastora da Serra, cantando.

FELIPA.
"Tim, tim, sou da Beira Alta,
"Da Beira Alta, terra bravia!
"Em trono 'stou colocada
"Só vejo Serras e penedia!"

"Tim, tim, sou da Beira Alta,
Pois moro aqui na Serra da Estrela!
Em terras de Portugal,
Não há igual, pois é a mais bela!

(Ver estas e outras canções, e a respectiva música, in: "Alegrias Populares" - Cancioneiro Folclórico (I vol. de Alvoco da Serra; II vol. Do Concelho de Seia) da Beira Alta, Jaime Pinto Pereira, 1952, Coimbra.

- Gonçalo, viste o m eu gado
- Aí p'ola Serra fora?

GONÇALO:
- Esta moça é mesmo tola!
Venho, agora, de Lisboa
E quer que lhe dê recado!?
Por onde andará o seu gado?
Essa agora é muito boa!!!

FELIPA:
- Pois se não sabes do gado
E vens lá da capital!,
Fica sabendo, meu parvo,
Que aqui já tu és casado,
Pois teu pai o decidiu
P'ra ti tua prometida...
Isto é a fala geral...

GONÇALO:
- E sem mim me vão casar?
Ora estou bem aviado!
E sabes por um acaso
Quem m'arranjaram p'ra par?

FELIPA:
- Não tens muito qu'iscolher!
Toda a gente fala nela!...
Se não for co'a Madanela,
Com que outra há-de ser?
Já tem o lençol bordado
C'o a racha onde deve ser!...

GONÇALO:
- Tiro-m'eu fora do jogo!
Que eu não caio nesse logro!

FELIPA:
- Lá 'stás tu a disfarçar!
Andas i apaixonado
Por uma e outra ao acaso
E com quantas tens já caso?

GONÇALO:
- Esse é o melhor jogo!
Quem te meteu na cabeça
Qu'ando aí cheio de pressa
E com o rabo no fogo?
Quem é a outra bacana?
Será, por lá, a Muchana?
A Conapa, a Rosmanheira...
Talvez a Pita Gordinha
Que vem lá da Castanheira?
Se me fio na conversa
Com tanta quelha e travessa
Namoro a vila inteira
Do Eirô ao Fund'vila
Das Forcadas, às Sarnadas
Das Lagens até à Lapa
Da Matufa à Enxertada?!!!

FELIPA:
.- Mas a Castanha Pilada
Trazes tu, bem embeiçada!!!

GONÇALO:
- Antes me queime no fogo!
Qu'essa já n'o vem ao conto...
Antes fosse p'ra cadeia!

(Ver, se é oprtuna a intervenção do PARVO...)

FELIPA:
E que tal essa Meijengra?

GONÇALO:
Essa que tu alvitraste
É descuidada, perdida;
Traz a blusa descosida,
E a saia derrabada
E anda feita num traste
E anda toda rabuda!!!

Madanela mata a braza.
Não cuides de mais arenga,
E diz tu, mana, a Meijengra
Que vá amassar outra massa...

FELIPA:
Já teu pai tem dada a mão,
E dada a mão 'tás tramado...
Já não vás a nenhum lado
Sem te acusar de traição!

GONÇALO:
- Par' Deus! Vou dar-lhe c'os pés,
E vou armar tal banzé
Que vai ser um salssifré!...
Ser assim acalcanhado
Não ser tido nem achado?
N'o 'stou p'ra ser engrolado...
Eu ando já azougado
Eu ando é mesmo embeiçado
De amores por Madanela.

FELIPA:
- N'o vês qu'a Rata é mais rica!?
Qu'essa n'o tem nem tostão...
No tem onde cair morta!!!

GONÇALO:
Arrenego Santanás,
Cruzes, Canhoto, Diabo!!!
Não sei quem tanto mal faz
E desses ditos 'stou farto
Que me dão um tal tormento...
Porque um só contentamento
Vale quanto ouro Deus tem.
Deus me dê a quem quero bem,
Ou me tire a vida toda;
Com a Morte seja a boda,
Antes que outra me dêem!!!

FELIPA.
Eu me vou pé ante pé
Ver o meu gado onde vai.

GONÇALO:
- E eu quero ir ver meu pai,
Veremos como isto é.

Vem Catherina Meigengra, cantando.

CATERINA:
"'Inda agora aqui cheguei,
"Mais cedo n'o pude vir,
"Mas ainda venho a tempo
"De vossas falas ouvir...
"Ai de mim que já não posso
"Cantar como já cantei
"Bebi a água no rio
"Minha fala demudei!..."
(Ver esta e outras in "Alegrias Populares", de Jaime Pinto Pereira, Coimbra, 1952.

FELIPA:
Onde vás, Meijengra mana?
"És amiga duma cana"!!!

CATARINA:
- A novilha vou buscar:
Viste-m'a tu cá andar?

FELIPA:
- Não na vi esta somana!
E deixa de ser "farsanta"!
Mesmo agora vai daqui
Gonçalo que vem da côrte!
Se vieras mais a trote
Encontraras teu consorte!

CATERINA:
Esse? Consorte? Ou o Cega
O Espirra Canivetes?
Vê mas é com que te metes...
O Pelado, o Quatro em Vista
O Zulmira e o Fadista
O Pirete o Turva Pipas...
Andam i a'abocanhar
Qu'andam é na tua pista...!

FELIPA:
Mana, 'stás muito arisca!
Mal ouviu falar de ti
Mana, pesou-lhe a sorte
Como se foras a morte...
Tem-te tamanho fastio
Que ficou todo eriçado
Como fora mau olhado!

CATERINA:
- Inda bem, por minha vida;
Porq'eu, mana 'stou perdida
Pelo Fernando Palixa.
S'eu com ele não casar,
D'amores m'hei-de finar.
Aborrece-me o Gonçalo
Como o cu do nosso galo;
Não no quero nem sonhar!

FELIPA.
Se tu não o queres a ele,
Nem ele tampouco a ti
Que é que dizem por i?!!!

CATERINA:
- Quanto a s'ele me quer a mi,
Negras más novas vão dele.
Deus me case com Fernando,
E morra logo esse dia,
Porque me mata a alegria
E nojo me vai matando....
Oh meu Fernando adorado,
Que eu vi por meu pecado!

FELIPA:
- Fernando, esse teu d'amado
Casava comigo a furto!...

CATERINA:
- Diz-me, lá, roga-t'o, há muito?

FELIPA:
- Este sábado passado.

CATERINA:
- Oh Jesus! como é malvado!
Os homens são uns "macanjos"
Uns "machacazes" malandros
Que só cismam em enganos!...
Tenho de me precatar...
Ele por mi, vai em três anos,
Que diz qu'anda "emdemonhado"
Felipa, tu 'stás a gingar!?
Conheço-te de ginjeira!
Tu 'stás, mas é a chufar
E se tu queres caturrar
Não venhas p'rá minha beira...
Não me dês no coração,
Que o que dói não é zombar
É abrir esse alçapão!!!
Tens é um grande paleio
E palheta n'o te falta...


FELIPA:
- Ouve bem o que te digo
Ele veio ter comigo
Na horta da Enxertada,
E disse: Felipa, minh'alma,
Raivo por casar contigo...
É assim como te digo...
Se ficaste amerzundada
Atira-t' aí à levada...
Ao poço do Gidro ao Pego...
Vai mergulhar no Açude
No Poço do Zé d'Avó...
P'la tua rica saúde
Se ficas amofinada
Eu fico cheia de dó!!!

Vai, vai nadar s' isso t'acalma.

CATERINA:
Ele 'stava é a engrolar!
Olha tu, tresvariava?

FELIPA:
- Bem conheço eu tresvaria!
Vi eu, porque eu não queria,
Correr as lágrimas dele!!!

CATERINA:
- Maus olhos chorem por ele,
Que assim ele chora comigo!
E, quando é lá no pascigo
Vai-se-lhe o gado ó trigo!!!
N'o há quem o desaperte
Daqueles braços apertados
Quando 'stamos, à sorrelfa
Lá no lameiro, enlaçados!!!

FELIPA:
P'r'um acaso vou ao cruto
Daquele maninho cabeço,
P´ra onde já foi o meu Ruço
Por ver se vejo o meu gado....
Qu'eu não quero mais tropeço
E com esta me despeço...
Vou recolher a penates...

CATERINA:
- Tal me deixas por meu fado,
De coração maticado!...
Tu tens é cá muita ronha
Muita lábia e paleio...
Será isto qu'eu mereço?
Que do meu toda m'esqueço!
Quem soubesse no começo
O cabo do que começa,
Porque logo se conheça
O qu'eu j'agora conheço
Não tinha agora este enredo!...

Vem Fernando cantando.

FERNANDO.
"Oh, que lindos olhos tem
"A filha da moleirinha!
"Ai, mal empregada é ela,
"Ai, andar ao pó da farinha!

CATERINA:
A que vens, Fernando honrado?
Ver Felipa tua senhora?
Venhas muito na má hora
Para ti e para o gado...

FERNANDO:
- Catalina! Catalina!
Não me fales tu assim!
Tartamudo da goela
Fico ao ver-te, Catalina!
"Ai, mal empregada é ela
"Ai, andar ao pó do farelo!...
"Andar ao pó do farelo
"Ai, andar ao pó da geada
"Ai, a filha da moleirinha
"Há-de ser a minha amada!"
...

CATERINA:
Diz, rogo-te, Fernando,
Porque me trazes vendida?
Se Felipa é tua querida,
Porque m'andas engrulhando?
São todos uns sulipantas
Uns malandrins, malhadios...
Saíste-me um Magarefe!?

FERNANDO:
- Eu juro, e torno a jurar
Que eu seja aqui ceguinho
De gota muda serena...
Destes dois, que tenho aqui...
Que um raio me caia certinho
Se eu não morro por ti!!!

CATERINA:
- Oh! não jures, que é pecado!
N'o 'stás tu arrelampado
Com os favores com qu'a menina
Te tem tido apresilhado?

FERNANDO:
- Eu ando dela chufando!
Catalina, isto'é verdade...
Não creias a ninguém nada,
Que tu me tens bem atada
A alma e a vida e a vontade!!!

CATERINA:
- Pois tu choraste com ela,
Não há aí, mais não querer...
"Dê lá ele por onde der..."
Já conheço o teu jaez
'Stou farta de jiga-jogas!

FERNANDO:
- De chorar bem pôde ser!
Mas não chorava por ela,
Felipa, bem podes querer
aparenta-se contigo...
Vendo-a, foste-m'alembrar;
Então pus-me eu a chorar
Matutando no meu p'rigo!!!
Se ela o tomou por si,
Que culpa lhe tenho eu?
Mas este amor quem m'o deu,
Deu-m'o todo para ti,
E bem sabes tu qu'é teu.

CATELINA:
Oh que grande amor te tenho,
E que grande mal te quero.
É tudo a mesma cambada!
Não quero ser apoucada
Por todos abocanhada!...

FERNANDO:
- Já de tudo desespero:
Tão desesperado venho,
Que já mal nem bem não quero.
Teu pai já te tem casada
Com Gonçalo d' antemão,
E eu fico por este chão,
Sem me ficar de ti nada,
Senão dor de coração!
Ver-te-ás n'outro poder,
Ver-te-ás outro lograr,
Eu, logo, sem mais tardar,
Frade prometo de ser,
Pois os dianhos quiseram
Que para minha desgraça
Eu ficasse alvorotado,
E todo a ti devotado
Desd'a Senhora da Graça!!!

CATELINA:
Vá lá, casemos atão
Dá-me cá a tua mão...
E s'a Felipa apa'rcer
Por aí toda lampeira
Já não tens o que escolher!!!
Dir-lhe-ei que sou casada
E que fico à tua beira...

FERNANDO:
- Já vês que não pode ser
Tenho a palavra dada...
Nem Deus pode dissolver,
A promessa qu'é jurada...
Já não tenho de mim nada...
Nem já é meu o querer...

CATERINA:
- Oh quantos perigos tem
Este triste mar d'amores,
E cada vez são maiores
As tormentas que lhe vêm.
Se tu a ser frade vás,
Nunca me verão marido:
Tu serás frade metido
Porém tu me meterás
No convento como abrigo...

FERNANDO:
- Não te vais tu escusar
A casares com Gonçalo;
E querendo tu escusá-lo,
Não no podes acabar,
Que teu pai há-de acabá-lo
Já 'stá tudo destinado....

CATELINA.
Sé libera nos a malo!
Nunca Deos há-de querê-lo;
E Gonçalo não me quer,
Nem eu não quero a Gonçalo.
Ei-lo vem! Vêz'io (Vê-lo), Fernando?
Vem em cima na portela!...
Diante vem Madanela!...
Tod'ela ancha e lampareira!
Essa anda ele buscando...
Vamo-los nós espreitar,
Ali detrás do valado,
À sorrelfa, à socapa
E veremos seu cuidado:
Se lhe dá em que cuidar,
Ou se fala desviado!?

Vem Madanela cantando, e Gonçalo detrás dela...

MADANELA:
"Chora, ó videira, ó videirinha!
"Chora, ó videira, ó vida minha!
"Chora ó videira, Videirinha chora!
"Chora, meu amor, que me vou embora!"
Gonçalo, tu a que vens?
Com esse ar de três vinténs?
Saíste-me um magarefe!
...Tudo o que dizem te preste...

GONÇALO:
- Madanela, Madanela!
Morro por ti, Madanela!

MADANELA:
- Torna-te mas é lá p'ra ela
Que já te 'stá prometida
E deixa em paz Madanela
Que já 'stá bem ofendida!!!

GONÇALO:
- Madanela, Madanela!
Não vês o meu embaraço?
Isso não te dá empacho?

MADANELA:
- Ó dianho dou a'amargura:
Qu'assim m'agastas, Jesu!
Ora atrás de mim vens tu?

GONÇALO:
- Pois a mi se m'afigura
Que não m'hás-de comer cru.
E se tu me queres matar
Por t'eu ter boa vontade,
Não pode ser de verdade.

MADANELA:
- Gonçalo, torna a lavrar,
Que isso tudo é só vaidade...
Faz dela gato sapato
Andam por i na retouça
E vai ós pois catrapuz
Andam i ós carvalhós
Saíste-me um bom lapuz!...

GONÇALO:
- Que rezão me dás tu a mim
Para não casar comigo?
Eu hei de ter muito trigo,
E centeio engradecido
Os arcazes de cagulo
E todo o comer cabonde...
Comerás à tripa forra
Isto é o que te digo...
E hei-de te ter a ti
Mais doce qu'um pintisirgo
Para andar toda lampeira
Pela Praça e pela Feira...
Não quero que vás mondar,
Não quero que andes ó sol;
Para ti seja o folgar,
E para mim fazer prol
E filhos de cambulhada!.
Queres Madanela? Assim seja
E comigo vais casar...
Teremos de tudo em barda!...

MADANELA:
- Eu já te disse, Gonçalo,
Vai lavrar, torna a lavrar
Porque eu não hei de casar
Em toda a serra d'Estrella,
Nem te presta porfiar...
Catalina é muito boa,
Fermosa quanto lhe basta,
Quer-te bem, é de boa casta,
E bem sesuda pessoa.
Anda aí toda lampeira
Toda emproada, gaiteira...
Toma tu o que te dão
Em pago do que desejas.

GONÇALO:
- Ai, rogo-te, Madanela
Que não sejas a tirana
Que mata o meu coração...

MADANELA:
- Vai-te d'i, qu'esparvoejas.

GONÇALO:
Não quero casar co'ela.

MADANELA:
- Nem eu tampouco contigo.
Olha, lá vem Rodrigo
Trás,... Felipa, que é aquela
Que não no estima nem um cisgo!

Vem Rodrigo cantando

RODRIGO.
"Deus vos salve pastorinha,
"Mais o gado que guardais;
"Sendo tão encantadora
"Não sei como, só, andais?!""
(Pastorinha, Rimance Popular, in Alegrias Populares, Cancioneiro de Alvoco da Serra, Coimbra 1952... - Ver ainda outras...)
Felipa, como te vai?

FELIPA:
- Que tens tu de ver c'o isso?
Dias há que t'eu aviso
Que vás enjorgar t'e'Pai.

RODRIGO:
- Não estou eu, mana, nisso.

FELIPA:
- Porque te metes comigo?

RODRIGO:
- Felipa, olha p'ra mim
E dá-me cá essa mão...

FELIPA:
- Tira aí a mão da fruta
Que tu 'stás endemonhado
E eu não sou nenhuma truta!...

RODRIGO:
- Felipa, já qu'aqui 'stás
Fazemos uma folia
E podemos 'té tirar
Uma bela folostria!?

FELIPA:
- Rodrigo, já tu começas?
Tu tens das mais vãs cabeças
Aqui destas redondezas...
E andas c'uma tineta!...
Mas isso é'ma paixoneta
Que n'o vale'uma caganeta...
Não quero ser descortês
Mas conheço teu jaez....

RODRIGO:
- Nem queiras tu ser assim
Gravisca e escandalosa;
Mas tem graça para mim,
Como tu és graciosa
E fermosa para ti.

FELIPA:
Cada um s'há-de regrar
Em pedir o que é razão:
Tu pedes-me o coração,
E eu não t'o hei de dar,
Que 'stá fora de questão
E muito fora de mão...
E quanto monta em casar,
Ainda qu'eu guarde gado,
Meu pai é juiz honrado
E dos melhores do lugar...
É o mais aparentado
Em tod'esta freguesia
Aqui e em trás de Serra....
E andou também na guerra...
E fala com os ministros
E até c'o Presidente
Ele foi muito concludente
Dizendo-lhe: António Aldeia,
Qual é a tua ideia
Sobre a rega e o pastio
Sobre Fábrica do Rio
Como vai lá a Boqueira
As levadas, os açudes
E os planos cá pr'à Serra?
Ora como vês - Tu cá - Tu lá
Com o nosso Presidente
Isto é coisa que promete
Um lugar lá em Lisboa!...
Já viste? P'ra casar cá
Não daria coisa boa!...
Não vês que tenho razão?

RODRIGO:
- Se casasses com paixão,
Que grande graça seria
E minha consolação!
Que te chame de ratinha
Tinhosa cada meia hora,
Inda que a alma me chora,
Folgarei por vida minha,
Porque enjeitas quem t'adora!?
Deixa mas é que te diga
Se fores de cá p'ra lá,
Ensimesmada nesse tacho
Digo-te: que oxalá
Encontres algum emplastro
Pois te desprezas do baixo,
O alto te abaixará.
Olha vai para o diacho!...
Mais o teu qu'rer todo inteiro...
Pró dianho que o carregue...
Lá vai tudo pr'ó galheiro!...

FELIPA:
Quando vejo um janota
Bem vestido e com paleio
Dou logo uma cambalhota...
Dá-me logo a sulipanta
'Té o coração se m'espanta!!!
E leva-me a alma e tudo.

RODRIGO:
- Gonçalo vai-me ajudar
A acabar minha charrua,
E eu t'ajudarei á tua,
Que est'outra s'há-d'acabar
Quando a dita vir a sua.

GONÇALO:
Eu já 'stou desenganado,
No que monta a Madanela!

RODRIGO:
- Deve-se passar com ela
Como a mi, por meu pecado,
Com Felipa.

GONÇALO:
-Ai, também ela?

RODRIGO:
- E tu, Fernando, em que estás?

FERNANDO:
- Estou em muito e em nada,
Porque a vida namorada
Tem cousas boas e más.

Vem hum Ermitão, e diz:

ERMITÃO:
Fazei-me esmola, pastores,
Por amor do Senhor Deus...

RODRIGO:
- Faça Ele esmola a nós...
Ou seja, qu'estes amores
Que nos dão só dissabores
Se atem com senhos nós.

ERMITÃO:
- O casar Deus o provê,
E de Deus vem a ventura,
Da ventura a criatura,
Mas com dita e por mercê...
E também serve a cordura.
Ponde-vos nas suas mãos,
E não cureis d'escolher;
Tomai o que vos vier,
Porque esses amores vãos
Terão certo arrepender...

- Filhas, aqui estais escritas
Com tinta de água forte...

- Filhos, tomai vossa sorte,
E cada um se comporte
Dando graças infinitas
A Deus, à Celestial Côrte...
- Escolhei vossa consorte!

Tirou o Ermitão da manga três papelinhos escritos e os deu aos pastores, que tomasse cada um sua sorte, e diz o

ERMITÃO:
Rodrigo tome primeiro,
Veremos como se guia....

RODRIGO:
- Nome da Virgem Maria!
Lede, padre, esse letreiro,
Se me cega ou alumia.?!

(Lê o Ermitão o escrito.)
Deus e a ventura manda
Que quem esta sorte houver
Tome logo por mulher
Felipa sem mais demanda.

RODRIGO:
- Vencida tenho eu a batalha,
Felipa, mana, vem cá.

FELIPA: (Faz uma cena!)
- Tira daí a mãozinha
No t'apresses na corrida
Que tens muito que correr
P'ra que me possas mer'cer!!!

GONÇALO:
- Vai, Fernando, agora tu,
Veremos que te virá.

FERNANDO:
- Alto! Nome de Jasus!
Lede, Padre! Que vai lá?

(Lê o Ermitão.)

A sentença é já dada,
E é a sustância dela:
Que cases com Madanela.

MADANELA:
- Fernando sai-me na rifa?!
Ele qu'anda todo embeiçado
Aí daquele cenisga
Piscreta, pespineta!!!
Oh! que rica sorte a minha!

FERNANDO:
- Dias há que t'o eu digo,
E tu sempre na retranca!!!

CATERINA (intervém ciumenta e toda cerigaita)
- Oh Fernando da Palixa,
Quem me casara contigo!
Eu vou armar uma rixa!...

GONÇALO (também de monco caído):
Oh Madanela, qu'azar!
Se me caíras em sorte!
Er'esse meu desejar!...

CATERINA:
- Ante eu morrera de má morte,
Que Fernando ficar lá
Tão contrairo do meu norte!..
Já porém n'o me diz nada,
E tu'já me pareces bem!...
Gonçalo, e tu que dizes?!

GONÇALO:
- Eu digo: E tu também
Me'stás a cair no goto!
Se calha sais ao meu gosto!...
Catalina ; arreda daí
Muda-te daqui para ali
E passeia por aí além...
Vejam bem o ar que tem!!!
Esfenicada! Emproada!!!

FELIPA:
Estou-t'eu, Rodrigo, olhando,
E vou sendo já contente!

RODRIGO:
- Se não gostas do presente,
Não t'hei-de andar mais rogando:
Eu ando-te namorando,
E tu sempre descontente
A refilar!...
Mandriona!!! Resmungona!!!

CATERINA:
- Eu, lá por ser resmungona
E por t'andar enxotando,
Rodrigo, de quando em quando,
Mui grande bem eu te queria.
E quando eu refusava
De te tomar por amigo,
Não era porque eu não folgava,
Mas porque t'examinava,
Se eras tu moço atrevido
Ou se eras malhadio
Com'ós outros: 'ma má rez!!!

ERMITÃO:
- Agora que'stão aviados
E já se podem casar
Cada um com o seu par
quero eu, agora, dizer
O que venho aqui buscar...

Meu desejo é habitar
Numa ermida a meu prazer,
Onde podesse folgar...
E queria-a eu achar feita
Por não me cansar a fazê-la...
Que fosse a minha cela
Antes bem larga qu'estreita,
E podesse eu dançar nela...
E que fosse num deserto
D'infinito vinho e pão...
E a fonte muito perto
E longe a contemplação...
Muita caça e pescaria!...
Que podesse eu ter coutada
E a casa temperada:
No verão que fosse fria,
E quente na invernada!...
A cama muito mimosa
E c'um cravo à cabeceira;
De cedro a sua madeira...
Porque a vida religiosa
Queria eu desta maneira!...
E fosse o meu repousar
E dormir até tais horas,
Que não podesse rezar,
Por ouvir cantar pastoras,
E outras assobiar...

À ceia e jantar, perdiz,
Ó almoço, uma moxana, (?)
E vinho do seu matiz...
E que a filha do juiz
Me fizesse sempre a cama.
E em enquanto eu rezasse
Esquecess'ela as ovelhas
E na cela me abraçasse
E me mordesse as orelhas,
Inda que me lastimasse.
Irmãos, pois deveis saber
Da serra toda a guarida,
Praza-vos de me dizer
Onde poderei fazer
Esta minha santa vida?!!!

GONÇALO.
Está ali, padre, um silvado
Viçoso, verde, florido,
Com espinho tão comprido,
E, vós nu ali deitado
Perderíeis o prurido...

Já fostes casamenteiro,
I-vos, não esteis aí mais,
Porque a vida que buscais
Não na dá Deus verdadeiro,
'Inda que lh'a vós peçais...

SERRA:
Ora, filhos, sem demora,
Cada um com sua esposa,
Vamos fazer uma roda
E aqui não há escusa!...
Venham todos para a boda
Que aqui não falta nada
E segundo minha fama
Todos os que vêm cá
Vão comer à tripa forra
Fartar a moca..., à fartazana
Que tal leite como o meu
Não no há em Portugal;
Que tenho tanto e tal,
E tão fino Deus m'o deu,
Que é manteiga sem igual...
E pois que eu sou senhora
De tão grande gado e terra,
Tendes 'í tais iguarias
Com que forrar a barriga
E por riba uma pinga...
É bober até cabonde
E comer até fartar
Porque a perfeita pastora
Sabe bem pôr a pastar
O gado que tem d'engorda
E sabe dar bom comer
A quem nos visita de fora!!!

GONÇALO:
Mas veio aqui tanta gente
Que é mister grandes presentes
Das vilas, casais, aldeias...
Será que tens uma ideia
Do que podem ofertar?

SERRA:
- Mandará a vila de Ceia
Quinhentos queijos recentes,
Todos feitos á candeia,
E mais trezentas bezerras,
E mil ovelhas meirinhas,
E duzentas cordeirinhas,
Tais, que em nenhumas serras,
Não nas achem tão gordinhas.

E Gouveia mandará
Dous mil sacos de castanha,
Tão grossa, tão sã, tamanha,
Que se maravilhará
Onde tal cousa s'apanha.

E Manteigas lhe dará
Leite para catorze anos,
Com manteigas a fartar...

A Covilhã muitos panos
Finos que se fazem lá.

Mandarão desses casais
Que estão no cume da serra,
Penas para cabeçais,
Toda de águias reais
Naturais mesmo da terra.

E os do Vale d'Amoreira
E tamén da Castanheira
E os do Covão da Ponte
Das Forcadas e Sarnadas...
Que estão em fortes montados,
Mandarão empresentados
Trezentos forros d'arminhos
Pera forrar os brocados...

E Eu hei-lhes de presentar
Minas d'ouro que eu sei,
Em penedos escondidas
Com mil pragas protegidas
Entre fragas bem guardadas
Por mil fadas e por magas...
Quando o seu tempo chegar
D'a Cova da Moura Abrir
Ande'no cá vir apanhar!...
Bem bonda que lh'o criei.

GONÇALO:
- E afora ainda os presentes,
Havemo-lhe de cantar,
Muito alegres e contentes,
P'ra Deus os alumiar,
Para alegria das gentes...

Vêm dois foliões do Sardoal, Jorge e Lopo, e diz a

SERRA.
Sois vós, manos, de Castella
Ou lá debaixo do extremo,
Ou vindes do Além-Tejo
Ou d'um qualquer outro termo?

JORGE:
- Agora! nos faria o demo
A nós outros Castelhanos?
Queria antes ser lagarto,
Polos santos avangelhos!!!

SERRA:
- Donde sois?

JORGE:
Do Sardoal;
E... ou bebê-la, ou vertê-la,
Vimos cá desafiar
A toda a Serra d'Estrela
A cantar e a bailar....

RODRIGO:
Soberba é isso porém,
Já viram este encoucado?
Este de-sem-sal, sem gosto?!
Isto é mesmo 'ma surriada
Tudo a rir à gargalhada
Pois há aqui tantos pastores,
E tão finos bailadores,
Que n'o há medo a ninguém...
Aqui n'o há quem as corta
E se der um bate-cu
Ou por lá um carvalhós,
N'o tem mal... vai catrapuz
E é prantar-se de pé...
E depois aqui em riba
E todos i pi'a cima
É bailar e saltear
Ora c'um pé ou com outro...

LOPO:
- Muitos ratinhos vão lá
De cá da serra a ganhar...
E lá os vemos cantar
E bailar bem como cá,
E é assim desta feição.

Canta Lopo e baila, arremedando os da Serra.

"E hei-de ir, hei-de ir
"Eu hei-de ir se for
"Cantar e bailar
"P'ra ti mê amor!"
...
Isto é, ou bem ou mal,
Assim como o vós fazeis.

SERRA:
- Não há aqui qu'imitar!
Peço-vo-lo que canteis
A' guisa do Sardoal.

LOPO:
- Esse é outro carrascal;
Isso aí é que é falar...
Esperai ora e vereis:
"Eu gosto muito de ouvir
Cantar a quem aprendeu
Se houvera quem m'ensinara
Quem aprendia era eu...

Ó rama ó que linda rama
Ó rama da oliveira
O meu par e o mais lindo
Qu'anda aqui na roda inteira
Qu'anda aqui na roda inteira
Aqui em qualquer lugar
Ó rama óque lida rama
Ó rama do Olival..."

"No m' importa de quem tem
Carros parelhas e montes
Só m'importa de quem bebe
A água fria das fontes!"
...

Esta cantiga cantarão e bailarão de terreiro os foliões, e acabada, diz

FELIPA:
Não vos vades vós assim,
Leixai ora a gaita vir,
E o nosso tamboril,
E ireis mortos daqui,
Sem vos poderdes bulir.

CATERINA:
- Em tanto por vida minha
Será bem que ordenemos
A nossa chacotazinha,
E com ela nos iremos
Fazer nossa despedida:

Ordenam-se todos estes pastores cm chacota, como lá se costuma, porém a música dela pode ser acompanhada de canto d'órgão e a letra é a seguinte Cantiga do rancho:

"Tim Tim sou da Beira Ata
Da Beira Alta terra bravia
Em trono 'stou colocada
Só vejo serras e penedia...

Tim tim olaré tim tim
Você diz que não
Eu digo que sim...
Ao romper da bela aurora
Pelo mar fora
É um jardim...
(Ou outra para cantar e bailar que pode ser encontrada nas obras citadas...)

E com esta chacota se sairão, e assim se acaba....

Estas NOTAS são recolhas e sugestões para permitir re/criar este AUTO pelos que se quiserem re/crear adaptando-o às mais diversas circunstâncias e cada vez mais enraizado nas Tradições populares da nossa STerra...

1 Nota Geral: Embora a adaptação tenha sido feita sobre o texto de Gil Vicente, a intenção é torná-lo o mais próximo possível da oralidade usada na linguagem comum... Embora se tenha feito um esforço neste sentido, metendo, na medida do possível, alcunhas, nomes e expressões usadas na Serra e em Manteigas, é evidente que no trabalho de adaptação, montagem e realização, tanto o encenador como cada um dos personagens terão toda a liberdade e espaço para recriar e assumir a forma de falar e de interpretar que possa transmitir aos espectadores a imagem fiel de uma cultura, maneira de ser e de falar de uma região ou a nossa Terra... na Serra... Se essa oralidade já se está a perder ou a mudar, será importante ter em conta o estudo do fenómeno e medir até que ponto será importante valorizar os usos e costumes, que eram válidos e pertinentes, ou não?, numa determinada época... Por exemplo a segunda metade do século XX....

2. Alguns ditados populares:

"Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão."
"Caldo de abóbora na tua casa, ficam os vizinhos, oito dias sem pulso."
"Vozes de burro não chegam ao céu..."
"Dá Deus o frio, conforme a roupa."
"Quem não pode arreia."
"Capa e merenda nunca fizeram má companhia."
De Lisboa, não vem coisa boa."
"Não é tarde, nem é cedo, / Chegas mesmo a boa hora! / Meu pai já está deitado / minha mãe deitou-se agora!" - Moda Alentejana.

3 - Ver: Formas de cumprimentar e saudar...

"Antes da sopa, molha-se a boca; no meio dela, lava-se a goela; sopa acabada, goela lavada."
"De Lisboa, não vem coisa boa."
"Ninguém é profeta na sua terra."
"Encomendas sem dinheiro, esquecem ao primeiro ribeiro."
"Mais vale um gosto do que cem escudos no bolso."
"Água corrente não mata a gente."
"Água mole em pedra dura, tanto dá ate que fura."
"Ninguém diga: desta água não beberei."
"A água tudo lava, menos a má língua."
"A água da Serra, desfaz o peixe, até ficar só a espinha."
"Os ares da Serra tudo curam!"
"De Espanha não esperes bom vento, ou bom casamento."
"Deus escreve direito, or linhas tortas."
"É torto, que nem um arrocho!"
"Quando abre a boca, ou entra mosca ou sai asneira."
"Vozes de burro, deus não ouve."
"Haja saúde e coza o forno."
"Não há bem que sempre dure, nem mal que sempre ature."

Ver: Formas de cumprimentar e saudar...

"Ser bem educado não custa dinheiro!" a não ser aquele senhor que furava o bico do chapéu, de tanto o tirar para cumprimentar... e tinha de comprar outro...
"Quem muito fala, pouco acerta."
"Teresinha avoa, avoa, que o te pai 'stá em Lisboa; come a cane e deixa o osso, amanhã, p'ró teu almoço."

Ver usos e costumes: Quando se falava em "porcos" tinha-se de dizer antes: "Com sua lecensa!"."
"Vim agora do cortelho e, com sua lecensa, o porco, não vai lá muito em de saúde, pois deixou a vianda na pia...
Lá diz o ditado: "O corno (o interessado) é sempre o último a saber!"

Ver usos e costumes: Fazia parte do bragal da noiva, o lençol rachado ao meio, com o corte debruado, para poderem acasalar sem o homem ver a mulher nua!...

"Andar c'o fogo no rabo." Andar desinquieto... nervoso... com ela fisgada...
"Posso pôr as mãos no fogo... no lume."

Aqui, para aliviar, ou para ter oportunidade de lançar uma Ladainha de Alcunhas recolhidas em Manteigas, pode meter-se, como em outras alturas, uma fala do PARVO, com estas ou outras intervenções, género ditados populares ou expressões correntes... que, ao mesmo tempo que fazem rir, fazem o levantamento e um Universo linguístico que importa recordar e / ou preservar

PARVO:
Não será a Graça Ideia?!
Ou talvez a Ana Aldeia,
A Aurora Carragosela...
Atão a Lurdes Estrela
A Fazenda, ou a Canilha...
A Garra? a Fraga? A Ferrão?
A Fiadeiro? A Canilha?
A Zé de Matos? A Mata?
É talvez a Patriarca?!!!
A Saraiva? A Serra? A Silva'
A Veiga? Viegas? Vinagre?

Qu'rias lá que fosse a Arjoa
Ou a Maria Peteto
A Badana ou a Baiaia?
Talvez a Bichina d'Ouro?!!!
Então, a Graça Caçalha?
Ou é melhor a Canhota?
Alguma das Caravelas?

É a Carriça, a Chaqueto?
Ou a Chiça Bacorinha?
A Coelho Morto? A Condessa?
A Cu de Pita? A Esbica?
A Estrelada? A Faísca?
A Fininha ou a Gancheira?
A Geirinhas? A Garrincha?
A Farnhote ou a Farromba?
A Freches? A Gacho Verde?
A Gancheira ou a Ganilhas?
É a do Gidro? É a Jonja?
A Má Cabelo? Lagarto?
É por lá a Malagueta?
Ou atão a Managite?
A Merda Frita? A Merrinha?
É a Mereira ou a Mocha?
A Olhlá? A Nhó-Nho?
A Palhaça ou a Palixa?
A Passianda? A Passinha?
Ou a Pasta de Couraça?
A Pastana ou a Patacas?
Pataquinho? Patriarcas?
A Pelada ou a Penetra?
A Perneta? Pernadas?
Pernas de Aranha, Pessenha?
A Peteto ou a Piascra?
A Pirra? A Pita Gordinha?
A Poeira ou a Polainas?
A Poupa Negra? A Pópó?
A Pragas? A Quarteladas?
A Pulquéria? A Rato ou Rata?
Pode ser uma Cagatas?
A Reguilha? Ou a Riquinho?
A Sardinha das Sarnadas?
A Sim-Sim? Tarau de Bruxa?
A Trambolhana ou a Trempas?
A Virgem? Ou a Viúva?
A Xexia? ou a Vinagre?
Irra! Tola rapariga
N'o há aí quem te cale?
Antes ficaras de pronto
Surda, muda tartamuda...

"O homem é fogo, a mulher estopa; vem o diabo e assopra."
"A mulher e a sardinha, quer-se da mais pequenina."
"Palavra de rei (de Homem honrado) não volta atrás..."

Ver ditados populares e: "Mais vale um mau acordo que uma boa demanda..."
"Mais vale ter, na vida um gosto, do que cem mil reis no bolso ( na algibeira)."
"Antes que cases, vê o que fazes."
"A falar é que a gente se entende."
"Quem desdenha, quer comprar."
"Antes a morte, que tal sorte."
"Nem por sonhos!"
"Mais vale prevenir, que remediar!"
"O que tens é paleio!... O que tens é gorja!... Tens muita garganta!..."
"Água fria acalma..."
"Com o mal dos outros, posso (aguento, governo-me) eu bem!"
"O que tens é ronha!"
"Se eu soubesse o que sei hoje, outro galo cantaria!"
"Que eu seja ceguinho..." - uma forma de juramento...
"Quem jura e torna a jurar, ao inferno vai parar."
"Ceguinho de gota serena." - Completamente cego, como o cego de nascença!
"É preciso ser cego!" - quando não se vê algo evidente...
"Até um cego via!" "O cego é o que melhor vê!"
"Andar nas bocas do Mundo..."
"Mais vale andar no mar alto, do que as bocas do mundo!"
"Entre marido e mulher, não metas a colher!"
"o prometido é devido."
"Ninguém foge ao seu destino!"
"É o destino!"
"Pelo andar da carruagem, se sabe quem lá vai dentro!"
"Tirar os três."
"Já não tem os três."
"Não vales os três vinténs!" Referência ao tempo em que o noivo pagava três vinténs, na altura em que pedia a mão da filha, ao pai... ela ficava comprometida, ou os outros depreendiam que não ficava virgem por muito tempo... "perdendo os três!"
"Que te faça bom proveito!..."
"As más acções ficam com quem as pratica, as boas, alegram todos."
"Vai lavrar p'ra outro lado qu'este já 'tá ocupado!"
"Vai dar uma volta..."
"Vai dar uma curva ao bilhar grande." "Vai ver se chove!"
"Vai-te lá balhando! - equivalente alentejano.)
"Comer e beber à tripa forra."
"Gastar (ter) à grande e à francesa!"
Tirar a mão da fruta."
"Tira daí o sentido."
"Podes tirar o cavalinho da chuva"
"Não valer um pataco fuado."
"Ser bem aparentado."
"Ter bons padrinhos."
"Ter boa madrinha." - é assoprar com força...
"Quem tem bons padrinhos, não morre mouro..."
"Ser de boas famílias..."
"Quem despreza o baixo, o alto o abaixará!"
"Vai ao demo que o carregue."
"Lá foi tudo p'ró galheiro!" - que deve ser o sujeito mais rico lá da terra pois fica com tudo o que os outros perdem....
"Querer de alma e coração!"
"Não há rosas sem espinhos!"
"Não há bela sem senão!"
"Quem vê a casa do vizinho a arder, põe as barbas de molho!"
"Quem dá aos pobres, empresta a Deus!"
"Quem o feio ama, bonito lhe parece."
"Cada um deve contentar-se, com aquilo que tem."
"quem tudo quer tudo perde!"
"O que sabe bem, ou faz mal ou é pecado!"
"Tristezas não pagam dívidas."
"Quem canta seus males espanta; quem chora, os seus males dobra."
"Na terra aonde fores a ter, faz como vires fazer."

A chacota era dança tradicional por altura do Carnaval e outras festas em que as pessoas se divertiam metendo-se umas com as outras... Ver a "Serração da velha" o "Enterro do bacalhau..."

 

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