Serra da Estrela - Manteigas

in joraga.net aminhaTEIAinterminávelnaREDEilimitada

um ANDARILHO em viagem pelas
7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

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Viagem à minha STerra - Serra da Estrela - Manteigas

A NOMINÁLIA I - II - III

ou a FESTA dos NOMES

1. Nomes dos Lugares ou Toponímia Nomes de Terras, Sítios e Lugares...

2. de Gentes e Alcunhas, Nomes de PESSOAS, nomes de registo, oficiais e NOMES que são máNomes ou Alcunhas ou Ápodos,

3. e algumas expressões saborosas, do modo do "FALAR", da "fuala das Gentes da Muinha Tuerra - Mantueigas"...

(em eBOOK, em breve nesta PÁGINA da minha TEIA na REDE joraga.net )
...para além deste exercício em REDONDILHAS brincando com os nomes, vou tentar apresentar os bancos de DADOS que deram origem ao registo, estudo e divulgação deste trabalho...

 

TOPONÍMIA

NOMES DE GENTE E ALCUNHAS!...

FALA / EXPRESSÕES



Os NOMES típicos dos LUGARES... PICOS, FONTES, CURSOS DE ÁGUA... são um GLOSSÁRIO fascinante... ou um retrato falado da SERRA...

Há muitos NOMES próprios e APELIDOS de Famílias que têm a marca enraizada da SERRA... mas as ALCUNHAS ou MÁ-NOMES, serão, por malícia ou ingenuidade popular, o NOME que define muitos personagens, da minha Terra na Serra, que, devido à delicadeza do assunto, procuramos não identificar...

EXPRESSÕES - O MODO DE FALAR rude, das Gentes de Manteigas, tem, porventura, uma relação com a rudeza dos envolventes e a dureza do clima... Ver tb. CARTA imaginada, de um PASTOR imaginado


NOMINÁLIA I

NOMINÁLIA é a festa
são OS NOMES DOS LUGARES
da minha terra na serra
das pedras dos acidentes...
dos cantos e dos recantos...
dos montes dos vales e fontes...
de tudo o que é ser na serra
que sendo tão grande e vasta
tão pequena tão singela
com as grandes comparada
contém em si dentro dela
a imensidão das estrelas

tenho na serra da estrela
muitos nomes pra cantar
eles são palavras são letras
e são contos de encantar
são lendas e são histórias
do passado e do presente
e toda a serra é memória
da vida da minha gente
que nasceu lá da semente
e lá jaz e é semente...

quando começo a lembrar
os nomes que a serra tem
pareço estar a voar
por esses mundos além...

quem lhes deu nomes ao certo?
quem lhes deu os nomes certos?
quem os pode enumerar?
ninguém o sabe decerto
ninguém os sabe contar
é como contar estrelas
ou letras que os livros têm

cada pedra cada canto
tem um conto pra contar
um nome que pode tanto
ser pagão santo de altar
ou evocar algum feito
uma história de espantar
uma sorte ou um azar
que os nomes que a serra tem
são aqueles que a mente tem
da gente que mente e sente
aquilo que lhe convém
aquilo que crê e vê
com os sentidos e o siso
a imaginação também


são cerros cabeços serras
encostas vales e montes
com covas que são secretas
e penhas ao sol abertas
rios que nascem das fontes
que são mais de mil dispersas
em todo o redor da serra

naves lagoas e lagos
que é só um, do Viriato
sem o ser
poios fragas e fragões
cabeças currais covões
ribeiros ribeiras charcos
que pelos nomes revelam
algum mistério que encerram

vamos primeiro aos gerais
que dão nome a muitas coisas
que depois virão os mais

altos e arcas de pão
barrocas e barrocões
barros e barcas e chãos
mais malhadas e malhões
cimos campos e calçadas
casas casais e cascatas
calhaus penedos fraguedos
fráguas lapas e lajedos
lajes lombas e lapões
mais mirantes e pedrões
penhascos e pedregulhos
paradelas portos portas
portelas poços e hortas
rochedos seixos e rochas
soitos sítios e lugares
e varandas p'ra abarcar
horizontes infinitos
com nomes formas e mitos
sonhos lendas de encantar
na mente sempre a girar
que mente p'ra s'enganar
e enganando e mentindo
vai criando um mundo novo
dando nomes como aos filhos
chamando-a montes hermínios
ou então serra da estrela
que é o berço deste povo
e é sua sepultura
por isso é mãe que dá vida
dá comida e dá bebida
dá a roupa o agasalho
em troca do seu trabalho
e quando recebe o corpo
dos que partem desta vida
que vivemos cá na terra
volta a ser a mãe fecunda
que recebendo a semente
dos nossos corpos mortais
os transforma em cinza e barro
em terra que tudo gera
e assim a serra também
é criação deste povo
que sempre a cria de novo

este é o coro da serra
da serra da minha terra
onde canta cada pedra
e até calada grita
os segredos que ela encerra

cada fonte cada charco
cada ribeira ou cascata
ribeiro rio ou lagoa
cada represa ou levada
são várias vozes que entoam
uma estranha melodia
duma sublime poesia
em dissonante harmonia

os rios saltam barrancos
pedregulhos e penedos
em revoltos remoinhos
de espuma branca veloz
que faz girar grossas mós
de azenhas e de moinhos
ou enchem grandes represas
que vão fecundar os campos
e vão correndo entre corgos
barrocas currais e chãos
abrindo vales desenhados
com lameiros e tapadas
correndo em grandes levadas
que regam quintas quintais
prédios covões e casais
cercados por altos montes
encimados por cabeços
cabeças e cabeções
por penhas penas fragões
por fragas seixos lapões
por lapas lajes malhões
por poios cerros mirantes

e pelos leitos dos rios
e pelo mar que é a serra
navegam naves paradas
e correm barcas fantasmas
à neve ao vento e ao sol
em tempestades bravias
em mares de lendas douradas
com fantasmas misturados
que dos rios vão para o mar
e metidas nas correntes
que correm os continentes
trazem lá do mundo inteiro
regressando em nuvens chuva
ou em neve branca e leve
muitas lendas encantadas
notícias da terra inteira
que fazem cantar a serra
em tremendas trovoadas
e medonhos vendavais
ou caindo de mansinho
vão regando a serra toda
e vão tornando o seu ventre
mais fecundo criativo

assim por este motivo
eu canto o canto da serra
que encanta como as estrelas
que cintilam lá ao longe
e em cada canto tem contos
ou lendas de mouras belas
de feras santos pastores
que encantam quem gostar delas
e cantadas ao luar
ou contadas à lareira
encantam todos aqueles
que têm olhos e sentem
têm ouvidos e cheiram
têm cheiro e tudo ouvem
e com as mãos e o corpo
podem ver e perceber
com muita imaginação
com a sua fantasia
todo o seu ser a cantar
como canta a serra toda
de Á a Z sem parar

vamos então começar
soletrando letra a letra
a lenga-lenga da serra
que tem o nome de estrela

primeiro cantam os áaaaaaas

argenteira avessadinha
alfátima e azinheira
o aguilhão e a azinha
alto tovio e da torre
de são jorge e da portela
da predice ou da perdiz
azimbres albergaria
abitureira abrunhosa
a abuceira a acinza
água alta e aguilhão
aguincho ajax alardo
albagueira e albardeiros
albergaria assedace
a alqueidosa e alforfa
alrote alva alvarrões
alverca alvercas arcazes
e também arcas do pão
arcasos e apertado
argemela argenciana
avesseira atoleiros
azeiteiro de azeite

aldeias há mesmo aldeias
e aldeia do carvalho
que depois passou a vila
e a aldeia do mato
que passou a vale formoso
mas há aldeia da serra
aldeia de S.Miguel
aldeia viçosa, do souto
dos ferreiros e do bispo
há alvoco ameixoeira
arcozelo e arganil
arrifana e assamassa
assanhados e assanhas
e avô e azimbrais
...
são muitos os áaaaaaas da estrela
pra dizer em ladainha
e podes acrescentar
todos os mais que encontrares
em redondilha maior
com sete sílabas certas
tão ao gosto português
que fala como quem canta
pra melhor dizer de cor
todos os nomes que vês
por toda a serra em redor

nos bbbbbbbês há barcas barrocas
e barros e barroqueiras

a boqueira a barroqueira
o boqueirão do inferno
belo de verão e inverno
ou medonho de fugir
a barroca das lameiras
dos espinhos porto novo
a da moura e a do lírio
barroca alta da água
da cruz barrocal do conde
os bacelos e beijames
os brejos barros vermelhos
e os bairros de cada terra
que vive dentro da serra
um baleizão no teixoso
baralha no tortosendo
uma barca de noé
outra barca dos hermínios
barreira e barreosa
beco e bico do corvo
belarteira beringueira
e borralheira (3) em verdelhos
no teixoso e covilhã
e ainda temos a bouça
brejo bugalho e bulde
para os lados da teixeira
barco belmonte e boiça
e ainda a boidobra

mas os cccccccês do cimo são
mais de cem ou mais que as mães
cabeços cabeças chãos
casas cascatas covões
cerros covas e currais
e os casais e os cântaros
os charcos e os cabeções

comecemos pelas cabeças
uma que é nome de terra
depois três mais conhecidas
do preto do velho e velha
a darem suas sentenças
a dos velhos do moreira
cabeça gorda e a alta

vem depois a cabeçada
e mais cabeços sem conta
cabeço da carne azeda
da ereira de s.bento
cabeço de s.joão
do calvário frade e freira
o do ferreiro e do bode
do moreira do maroiço
do monte souto e tolão
do vale da barca dos corvos
cabeço gordo e queimado

há cadaval e calado
cagarraz e cagãozito
e calçada do inferno
e caldas que têm termas
uma cambaia que é roda
um camelo destruído
campo romão e canada
canariz e candeeira
caniça e carapita
carrapatel carrapata
carreiras e carregal
mais carreira dos cavalos
carreiros de D.Sancha
carreteira carriceiras
carvalha e carvalhal
um é longo outro é do porco
carvalheira carvalhinhos
carvalhos carvalhos juntos

casas casais mais de cem
por essas serras além
a casa alta e da águia
a da fraga a do penedo
e o casal da ribeira
o da serra e da lameira
de S.pedro do barreiro
do frade do rei reigoso
dos covões do vale do mouro
dos tojos ribas viegas

a cascata da fervença
caldeirão covão do urso
e do poço do inferno

castanheira castelão
castelo castro romano
o caxaril e catraia
e os cântaros da serra
são o magro gordo e raso
há a terra centeeira
e centrais que são eléctricas
e o cerrado dos frades

e com cccccccês também há cerros
da correia da coruja
das taloeiras do gato
e o cerro rebolado
de arcasos e os charcos

e chãos que dão bom cultivo
há o chão de celorico
da estalagem da poça
da gafaria das barcas
das eiras e da pelota
de s.pedro e do galego

há o chorido a coitada
o colcorinho os conqueiros
os conchos e a contenda
a corga o corgo das mós
mais os corgos d'argenção
e um corredor dos mouros
a corredoura e o corvo
cova da moura da neve
cova do cepo covais

e os covões? meu deus são tantos
os covões que são covões
os covões do vale da barca
de loriga e os sarrados

e o covão atravessado
cimeiro da albergaria
da ametade e da areia
da caldeira da clareza
da candeeira da espada
covão da loba parida
do homem e da mulher
covão da ponte da estrela
covão da nave e da palha
o da ronca e da romana
das lagoas e das lapas
covão das quelhas das vacas
de aljubarrota e canelas
o covão de esteveanes
do alva santa maria
covão do boi do boeiro
do braceijo e do bicho
do concelho e do costa
o do ferro e do inferno
o do forno e o do jorge
o do meio e do palheiro
do picoto porto novo
do vidoal do sabá
o do urso e o dos conchos
o fino o grande o pequeno
é covão até mais não

o covelo o coxaril
e a cruz de vasqueanes
o cume e a cumeada
a cumeada da nave
cumeada da coitada
os currais curral da nave
das mancas e da portela
do vento martins e velho

aldeias vilas cidades
há covilhã cova lhana
cova da lã conhecida
pela lã e lanifícios
e também ter muitos fios...
e há o cubo ea cabeça
e o cabeço de eiras
calado e cadafaz
carrapichana canhoso
carapita carvalhal
casegas e cativelos
celorico chãos e corga
corujeira e cortiçô

com o dddddddê só encontrámos
a dobreira e dominguiso
que é terra de farrapeiros
que corriam toda a serra
mas -Dê- entra em todo o nome
desde os altos às varandas
às fragas e aos covões
para cada um ter nome
e os deuses e diabos
os duendes os demónios
dominam a fantasia
que nesta serra se cria

com os éeeeeees é a estercada
as eiras e ensemil
eira velha escangarinhas
e o espinhaço do cão
da nave e da candeeira
o espinho e os espinhos
há terras:
eirô erada
estevas de baixo e de cima
e há a estrela cantada
que em vez de luzir no céu
se tornou serra encantada

com éffffffs favão ferreiras
fervença e feteirinhas
flandres fojo fontainhas
fornhas fontão e fábricas
e fontes até mais não
como a fonte do balaio
do barreiro do carvalho
e do chafariz d'el-rei
fonte coitada cortiço
fonte da arca da lapa
da urgueira velha paiva
das furnas e das galinhas
do espinho canariz
do bude e do gorgulão
do maduro e do palheiro
do pires do selim dos charcos
a fonte dos formosinhos
dos perús dos luzianos
fonte fontana dos tardos
fonte santa fonte fria
fonte geleira palheiro
de paulo luís martins
fonte de são sebastião

e há (i) água em todo o lado
mas nem sempre onde é preciso
mas isso é já outro fado
porque lá diz o ditado
que mais tarde foi canção
ó minha terra tão linda
ó serra dos meus encantos
tens água por todo o lado
e merda em todos os cantos

e ainda há mais efes
as forcadas o formigo
o foro o forno da moura
o frade a freira as fradigas
e fragas em todo o lado
que escondem bruxas ou fadas
ou pragas de mau olhado
vem a fraga da batalha
fraga batoto da estrela
da malhada dos torrões
fraga da cruz e da morte
pena ruiva pena negra
a da risca da bezerra
das gralhas e da varanda
das penas das navesinhas
das penhas e do carvalho
do mourisco e do lírio
a do rato e do rodeio
fraga grande fraga negra
do b(u)icho e a sobreposta
mais as fragas do amor
as fragas da lapaceira
fragão da estrela da ronca
das moitas e do balaio
do corvo e do passarão
fragão do poio dos cães
fragão da cinza fragões
fragões das penhas douradas

com efe inda há o freixo
freixeiro e freixial
mais a frágua e o furtado
pró efe estar acabado

e'inda faltam as terras
a faia e famalicão
fernão joanes e ferro
ferro fontão folgosinho
folgosa da madalena
e também do salvador
fonte arcada e furtado
e mais o freixo da serra

e no fim do efe aqui
repito pra recordar
os cinco cimos da serra
que guardam vêem manteigas
e vêem o sol surgir
para o ver desaparecer
fragão da estrela da cinza
fraga da cruz e da morte
com mais o fragão do corvo
de olhos bem luminosos
abertos ao pôr do sol
são muralha de respeito
com trovões a ribombar
e são borda do alguidar
ou a pega do penico
que está virado pró ar

com ggggggguês
há gache e galhardo
há a garganta dos cântaros
e a garganta de loriga
há galhardos e galiza
há gavião e galrado
a geleira e gibraltar
golias e o gorgulão
a granja e a gravancinha
a gruta da candeeira
o gravanho e a grila
o gamão e as gieiras
e pra registar também
as terras que têm -G-
guarda gaia e galisteus
o ginjal e girabolhos
e gouveia pr'acabar

com agás hhhhhhhs há os hermínios
dos montes ermos antigos
homízio de muitos homens
honrados e perseguidos
como o luso viriato
púnico tântalo lísias
que ali se refugiaram
e dali fizeram guerra
a muitos seus inimigos
da serra e da liberdade
fenícios cartagineses
romanos e muçulmanos
castelhanos e franceses
e até a portugueses...

com iiiiiiis há vários infernos
o covão
e a calçada
o barrocão
e o poço
aquele que é feio e é belo
mas de um belo meio estranho
repelente e sedutor
na primavera ou no verão
no outono ou no inverno
e igrejas aos milhares
há várias em cada povo
pra venerar nos altares
os santos mais afamados
da corte celestial

o jota é de tal jaez
gê que se escreve com jjjjjjj
um jagodes ou judeu
uma jóia ou um joio
uma jiga ou jigajoga
que não existe na serra
é tão raro ou é tão belo
que para o encontrar
é preciso ir ao jarmelo
ou aos juncos junto ao rio

mas com éles llllllls
há lagarinhos
lajeosa do mondego
lajes lapa dos dinheiros
há linhares e há loriga
e há também laboreira
a ladeira do siquô
lagarinhos lage antiga
outras lajes lajoeiras
mais as lajes das lareiras
em cada lar cada casa
onde se acende a fogueira
pró comer pró aquecer
para olhar e pra sonhar
ouvindo lendas sem fim
e estranhas ladainhas
nos longos serões de inverno
mais o lago viriato
e lagoas mais de vinte
ver a lagoa comprida
a lagoa da caldeira
da clareza candeeira
da francelha e da fava
a da quelha e a do cântaro
do curral covão do forno
do pachão
covão do quelhas
e a dos corgos de argenção
lagoa escura redonda
lagoas secas são três
e as lagoas salgadeiras
lagoa rija e serrana

inda há os lagoachos
mais o lagoacho d'Ângelo
e o lagoacho das relas
os lamaçais as lameiras
a lameira o lameirão
a lapa e a lapa branca
e a lapa da caldeira
lapão da ronca lapinha
lapões e lágeas que é lájeas
lírio leandres lomba
lomba dos poios lombardo
lombardo e lombo louseiro
lozenza e luzianos
e com lllllllês inda há o leite
de toda a espécie de gado
que se apascenta na serra
em rebanhos e manadas
vigiadas pelos pastores
que depois de ordenhado
dá pra beber e comer
em várias formas sabores
como queijos e manteigas

com émmmmmmms há a maceira
a madeira e maiorais
o malha pão e malhadas
malhada alta e da área
a malhada castelhana
malhada chã e das zebras
da porta das tropecinhas
de cascais do espinheiro
a do cume e do sameiro
a redonda a tramagueira
malhadinha malhadinhas
malhão e malhão da estrela
malhão da torre e o grande
grosso fino e malhoeira
o marco e marinhelas
o maroiço e a matufa
mais as matas nacionais
com os nomes dos locais
meal redondo menoitas
as minas dos azimbrais
miradoiros e mirantes
pra ver vistas deslumbrantes
alguns até são varandas
a moita as moitas mondego
e o mondeguinho onde nasce
e montes... o monte ajax
monte arroio e coitada
monte do castro e serrano
os castelhanos e claros
e os montes ermos hermínios
a moreira do apertado
mortórios morro das águias
o mosqueiro e a muralha
e a mouta do malícia
que é uma de muitas moitas
e maceira e maçainhas
a de baixo e a de cima
mangualde meios e melo
a mizarela e minados
as minas da panasqueira
muro e a vila de manteigas

um nome bem singular
por só se usar no plural
pra chamar a esta terra
e às lendas que ela encerra
sem ninguém saber ao certo
quem lho pôs e o porquê
gastaram já muita tinta
muitos notáveis doutores
a dizer que é de manteca
que era uma manta pequena
que a gente usava na serra
como a capucha e a capa
e mais outros agasalhos
ou então que é manteigas
o plural não singular
por a terra se espalhar
em várias partes dispersa
como acontece com todas
coisa que é bem singular
pela estupidez que encerra...
!
ora a terra que tem leite
ou leites
de vacas cabras ovelhas
usa o leite como leite
e principal alimento
e depois daquele que sobra
noutros tempos e inda agora
fazem-se soros e queijos
e manteigas pra barrar
o pão centeio ou pão branco
de mistura ou de primeira
que era de trás de orelha
de comer gritar por mais
o queijo mais afamado
como não há outro igual
nas terras de portugal
é o bom queijo de ovelha
queijo mole amanteigado
ou curado tanto faz
que é como o queijo serpa
mais os pastos e o clima
porque pastores e rebanhos
desde os tempos mais remotos
iam prà serra de verão
passar férias pois então
e curar suas mazelas
como depois aprenderam
as pessoas mais espertas
e depois que a neve vinha
desciam até à campina
pra montemor pra monsanto
até serpa até ourique
como nos conta a história
das transumâncias viagens
dos gados e dos pastores

e além do famoso queijo
com francelhas e acinchos
pra'escorrer a coalhada
faziam-se outros queijos
queijos frescos e curados
mais pequenos ou maiores
menos mais apimentados
e em cestinhos rendilhados
fazia-se um de excepção
que era o belo requeijão
que a ti clotilde vendia
de porta em porta a pregão
quem compra o bom requeijão
fresquinho de trás de serra
e vinha tudo à janela
às portas e aos postigos
pra mercar o requeijão
que a ti clotilde vendia
e depois da volta dada
pra trás de serra voltava
levando trazendo novas
do eirô santa marinha
no seu burro sua montada
como uma moura encantada
que com suas mãos de fada
e a varinha de condão
pra nossa consolação
transformava aquela aguada
que dalguns queijos sobrava
no mais belo dos manjares
só digno de reis e nobres
e de santos dos altares
mas por suas magas artes
chegava à mesa dos pobres
somente por uns tostões
depois um dia já velha
quando voltava pra casa
à tardinha ao fim do dia
passando a serra toda
apareceu só a montada
nas ruas da sua terra
correu o povo à procura
e encontrou o que restava
dum festim bem pobre e parco
que os lobos naquela noite
tiveram desiludidos
pois só teriam achado
pele e ossos e farrapos
que a ti clotilde vestia
muito limpa muito esguia
triste e nobre senhoria

com énnnnnnnes há a nordia
negruin e as nateiras
e as naves que são só naves
as naves da candeeira
a nave da albergaria
da argenteira da areia
da mestra e da gadelha
das travessas e das rãs
de dom pedro santo antónio
nave descida do arco
do esporão santo estevão
do tornáqua do gamão
do valongo vidoeiro

e depois as santas todas
da corte celestial
pra dizer em ladainha
nossa senhora da ajuda
senhora da anunciação
estrela apresentação
conceição boa viagem
da graça e da piedade
da guia e da saúde
das cabaças das cabeças
das dores das luzes das preces
de fátima e d'assedace
de la salette do amparo
do desterro e do carmo
do espinheiro do encontro
a do porto e do rosário
do souto e do socorro
dos carneiros dos pastores
dos remédios dos prazeres
nossa senhora dos verdes
da conceição e da estrela

a nogueira do lugar
nabainhos e nabais
nespereira e novelães
e énes já não há mais
que constem nestes anais

e assim chegamos aos óoooooos
de orjais e dos outeiros
que os há até de mais
em cada terra e lugares
como o da siquô da vinha
de pero mendes do rei
de s.miguel da ribeira
da outra terra e daquela
e depois há o orgal
a olheira e ouradinho
as ovelhas que dão leite
e aquele queijo saboroso
como não há outro igual
e dão a lã pr'aquecer
os invernos rigorosos
e -Ós- procurem outros
que são da cultura oral
porque já dizia o outro
que dizia saber tudo
nada disto está completo
fica completo contigo
quando tu acrescentares
tudo aquilo que encontrares
e aquilo que criares


pois nestes anais orais
que são os nomes da serra
e os contos tradicionais
ou os cantos populares
cada um de sua lavra
mete ponto tira ponto
próprio de quem conta um conto
rapa tira deixa põe
como o jogo
e assim se mantém viva
sempre nova
a nossa cultura oral
que ainda por ser escrita
não vai perder a frescura
e a alegria de ser dita
e redita e desdita
depois tornada a dizer
a dizer e a ser escrita
e assim enriquecida
vai ganhar um novo alento
escrevendo para ler
pra rasgar e deitar fora
cada um acrescentando
aquele segredo que ouviu
ouviu contar descobriu
e vai sonhando e criando
deixando que os outros criem
e assim pode perdurar
sempre sempre sem parar
este tesouro impar
que é a tradição oral
se isto não acontecer
e vierem os doutores
os sábios que sabem tudo
aqueles que têm os livros
cagar postas de pescada
pois eles é que sabem tudo
os outros não sabem nada
dizer-nos que eles é que sabem
o que é tradição oral
e eles é que a vão escrever
pra ficar definitiva
e guardarem a cultura
pra seu proveito e provento
aquela que é popular
e se vai criando oral
sempre sempre original
sempre sempre a renovar
em cada espaço e idade
em criação permanente
e a fecharem nos livros
pra ficar guardada e salva
oh! desgraça nacional
ia perder-se o tesouro
da nossa cultura oral


e pppppppês são a dar pr'um pau
ou a dar por paus e pedras
a palmatória e o pandil
paramol e paradela
a de baixo e a de cima
a pardieira e pateiro
as pedras
pedra aguda pedra alta
a da figueira e a da loba
da mesa do galo urso
pedra pensil dos abraços
pedra longa sobreposta
pedras gieiras lavradas
pedras vermelhas pedrão
o pedregal e pedreiras
pedreira fina pedriça
pedrigueiro ou perdigueiro
pena negra pena ruiva
pendil pendilhe e pião
o penedo das pedrinhas
o penedo do ladário
penedo furado e gordo
penedos altos e penhas
penha ângela do gato
dos abutres e furada
penha longa penha rasa
e as penhas da saúde
também as penhas douradas
penesinhos percavada
peso da lã e pelourinho
o picoto e o piloto
picacino piornal
picos vários
o da maruja e da agulha
outros muitos tudo é pico
como é da lagoa seca
planalto da expedição
planície da marinela
piornos poças e poços
poço da várzea das eiras
poço negro do inferno
do gidro do zé d'avó
e o pego
e os poços de loriga
poios?
poios brancos poios negros
poio da morte das águias
do judeu do mata-cães
o negro do passarão
pomar de judas e pontes
ponte cabaça de ourique
da caniça de cabaços
de leandres de pai diz
de manta em collo do rato
ponte dos frades dos garfos
ponte jugais ponte longa
ponte pedrinha são duas
lagarinhos covilhã
ponte nova em todo o lado
onde a velha ficou velha
porqueiras pousos e prado
portas do covão do boi
e as portas dos hermínios
portela d'arão da cruz
porto cabrita da roda
porto novo do cabrito
pousada de s.lourenço
pousadinha e pragueiro
paços da serra paranhos
paçoinhas pardieira
pero soares passarela
paúl peso pêra boa
peroviseu e pinhanços
porcas pomares e prados
a póvoa a nova e a velha
e os -PPPpês- ficam por qui

mais os pastores e os pinhais
com as pinhas e os pinhões
que foram sempre rivais
c'os das matas nacionais
por variadas razões
- que tiram o pasto ao gado
- que a serra assim é mais rica
e enche os cofres do estado
e até é mais sossegado
ter riqueza dos pinheiros
do que andar atrás do gado
e houve muitas questões
e até houve prisões
porque as florestas ardiam
- é que foram os pastores
- porque torna e porque deixa
- foram sim os madeireiros
- foi o tempo do calor
- os caçadores é que foram
ou então os passeantes
que deitam fora o cigarro
ou fizeram um magusto
foi o povo descuidado...
e foi aquele reboliço
e veio a guarda e a tropa
e lá vieram as matas
uma riqueza afinal
que é pra todos nacional
mas os pastores que o eram
e lá ficaram sem pastos
foram ficando mais pobres
mais ainda do que eram
p'rós outros ficarem ricos
pois a riqueza do estado
co'as matas que matam fome
vai por lá dar tantas voltas
que nunca chega a acudir
ao povo que foi roubado
e quando vier
se vier
são outras fomes que matam
as matas
nunca aquelas que matou

com qqqqqqquês
queijeiras queijos e quintas
queijeiras que são de pedra
perto do cume da serra
ali pró covão do boi
a ver o cântaro magro
mas escondidas de quem
não tem pernas para correr
nem tem olhos para ver
os cantos que a serra ten

mas há aquelas queijeiras
e essas não são de pedra
são mulheres com mãos de fada
que fazem em portugal
o queijo mais saboroso
que ainda não tem rival
com fama internacional

além dos queijos queijeiras
há queiroz e há quintela
quintãs de baixo e de cima
e QUINTAS
que ladainha...
quinta branca cá e lá
a da abadia de baixo
a da abadia de cima
da alogoa e da alverca
a da bica e da baiuca
a da boiça e da cabeça
carrapata carvalheira
da cerdeira castanheira
a quinta da corticeira
da cova da cruz da estrela
da flandres frança de baixo
da ínsua da lajeosa
da medronheira maceira
da panasqueira olivosa
da portela ponte nova
da pousada da raposa
a da rasa e da ribeira
da salguera da samela
da serra taberna e várzea
das lajes da veringueira
das lameiras laranjeiras
das moutas e das morenas
das rochas rosas e vinhas
das trigueiras de cesteiros
de ferreiros lamaçais
moreirinhas s.miguel
de são pedro santo antónio
do algarvio alvercão
do arangonha arcipreste
do arco de são joão
do azeiteiro do azevo
do baleizão do brancal
do carrapatelo e braz
carregal e cabecinho
do chorão do carvalhal
do cigano do cipreste
ou será do acipreste
do corges e do covelo
do crestelo do malhô
do ouradinho do mogo
do mirante do mondego
do ourandinho do paço
do pisco pombal e prazo
do pinheiro do pombal
a do ribeiro e do rio
do rochoso do salgueiro
do tapado do toural
do sarradelo valbom
dos alferes do vale pereiro
dos chões dos coutos covais
dos covões e dos expostos
dos fidalgos e dos freixos
e as quintas da ribeira
nossa senhora do carmo
do almargem e do pena
e a do pinheiro de luzes
quintas novas quintas velhas
quintais grandes e pequenos
que podes ficar cantando
sem nunca mais acabar

o érrrrrrre é letra corrente
nas terras que tem a serra
nas ruas rios ribeiras
nos ribeiros ribanceiras
que são mais de mil correndo
cantando por entre os montes
abrindo vales em viagem
desde as fontes ou nascentes
até chegarem ao mar
até serem UM A MAR
o grande MAR sete mares
que banham os continentes

as terras rapa rabaça
as rabaças o refúgio
e ainda ribamondego
e rio que não é rio
é rio torto que é terra

e os rios que são rios
são o zêzere que em constança
se lança ao tejo pr'Á mar
e correndo lá da serra
corre o alva numa fúria
que finda feroz na raiva
morrendo no outro rio
o mondego
mondeguinho mondegão
que ora é manso e discreto
mas logo é aluvião
cobrindo inundando as terras
fecundas que davam pão
deixando a fome a miséria
entre as gentes consternadas
que logo a seguir milagre
vêem as terras mais ricas
cheias de seiva e de vida
transformando o que era estéril
o que era morte e desgraça
de novo em vida e esperança
para ser cantado em coimbra
por poetas e doutores
estudantes e amantes
que chorando seus amores
em cantos fados dolentes
lançam nas águas correntes
suas mágoas suas dores
que por arte ou por magia
se transformam em sementes
que vão perder-se no mar
que vão mudar-se em A MAR

os rios levam da serra
com ribeiros e ribeiras
lagoas fontes cascatas
as águas quanta riqueza
ela tem e ela encerra
fecundando toda a terra
através dos oceanos
depois
sugadas pelo sol
vão voar pelo universo
em nuvens fumo vapor
e cair de novo em terra
em manto branco de neve
ou cordas de chuva fria
que são lágrimas sentidas
que na terra tudo criam
ou matam na sua fúria

ribeiras que vão pr'ós rios
e dos rios para o mar
a ribeira da avesseira
ribeira da água alta
da caniça candeeira
barroqueira carpinteira
da degoldra da carvalha
da erada e da estrela
a da fervença e da nave
a da fragueira das naves
a da malhada da cova
a da serra da esperança
da mondaria das cortes
e a das penhas douradas
a das lameiras de alforfa
de alvoco e de balocas
de beijames de caria
de casegas e de corges
de loriga e de pandil
de pendilhe de s.bento
de s.paio e de sazes
de seia de unhais da serra
de valezim do malhão
a do barrocão do lobo
e a do covão do urso
que será do vale do urso
a do minho e do paúl
da rabaça do seixal
a do teixo e da teixeira
do tornáqua dos castelos
dos negros do vale do conde
também do vale do buraco
das forcadas da fragueira

depois vêm os ribeiros
ribeiro branco da granja
do torno da lobagueira
aquele da fraga do bicho
das fôrneas furnas ou fornhas
será furnhas?
de cabaços de leandres
do careto s.tiago
do valongo dos siqueiros
e os ribeiros e ribeiras
de cada vila e lugar
e as regadas
que em levadas são levadas
guiadas plo almotacel
pr'à guardar e distribuir
pois
em toda a roda da serra
linhas de água que são rios
corgos ribeiras ribeiros
contadas são mais de mil
a correr e a girar
em rodas fabris azenhas
em moinhos e outros engenhos
que tanta riqueza dão
além das flores e do pão

e com -Éérre a ribeirinha
as rabitas e o rafeiro
a rosa negra o roncão
e a relva do cambaia
que é roda ou é só curva

e a rua das roseiras
do inferno dos conqueiros
a rua dos mercadores
e as ruas direitas tortas
que há em todas as terras
com os nomes mais diversos

com éssssssses há sanatórios
covilhã manteigas guarda
nas puras penhas douradas
e nas penhas da saúde

e há seixos serras sítios
e soutos por todo o lado

os seixos são seixos brancos
e também seixos vermelhos

serras de dentro da serra
da alvoaça da lucrécia
serra de bois de crestados
serra de mor e do boi
do espinhaço do cão
que sei eu de tanta serra
que há por dentro desta serra
a serra chamada da estrela
serra que todas abraça

e os sítios
do troval e do pandil
o da casinha e do vale

e o soutos
da peçonha de s.pedro
e o souto do concelho

e depois com Éésses são
nomes de santos e santas
que são a corte celeste
que se mudou lá do céu
enchendo a serra de festas
de capelas romarias
que quase podemos crer
nesta ingénua heresia
de que há mais santos na serra
que no céu! quem o diria!
mas é ver a freguesia
que há em cada freguesia
em cada igreja ou capela
c'um altar em cada canto
e em cada canto de altar
há sempre mais um lugar
pra venerar mais um santo

santa filomena foi
e depois deixou de ser
santa de muitos lugares
santa eufêmia há em melo
e também em videmonte
e outros lugares da serra
como há santa luzia
pra curar o mal dos olhos
e santos
há santo andré
santo antão e santo antónio
santo estevão e são bento
são domingos são geão
são gabriel são joão
são lourenço são romão
e o santo são sebastião
e ainda são tiago
são marcos e o são jorge
e há são romão e são paio...

e o senhor do calvário
de manteigas e gouveia
e de mais terras sei lá...
como há senhor dos passos
em toda a terra cristã
que tem de chorar os pecados...
e o senhor da ribeira
o senhor jesus jesus
e a senhora do calvário
e a senhora do desterro
mais a senhora da lomba
e a senhora do monte
e a senhora dos verdes
que pode matar o b(u)icho

e com Éésses inda há mais
siquô e sete capotes

sete cabeços lendários
sentinelas de loriga
luzianos e s.bento
cumeada da coitada
a torre e o malhão grosso
a penha do gato abutres

e inda há salgadeiras
samella e salgueiral
sanfaneiras e salgueiro
o de baixo e o de cima
e o siquô e o sumo
e a pedra sobreposta
e a santinha o sapateiro
a sargaceira as sarnadas
sarraçais de baixo e cima
e o seixal de muitos seixos

mais Éésses¯ inda há nas terras
nas povoações e lugares
são cosmado são geães
são gabriel e são paio
são romão
são martinho santa comba
santo amaro santiago
santa marinha sameiro
sabugueiro salgueirais
sameiche e sandomil
sarzedo sazes da beira
seia e seixo amarelo
mais o sobral de casegas
e souto e o soutinho

o tttttttê tem na torre o alto
talegres e as taliscas
taloeiras taloeiro
taloeiros e tapadas
tapada do gidro isidro
tarlamonte ou terlamonte
terroeiro ou terroeiros
terras vermelhas trapique
o tornáqua ou torna ágoa
o trancosinho e o touro
o troval e os trianos
trigueiras troncha e trocha
e tázem a vila nova
a teixeira e o teixoso
terlamonte e torroselo
o tortosendo e tourais
e os trinta pra tirar
rapa tira deixa põe

o uuuuuuu uiva com os lobos
uivavam que já não uivam
e os ursos que não houve
mas há na pedra e covão (do urso)

com vvvvvvvê há um vasto mundo
vales varandas e várzeas
vale boalis do castelo
vale d'adega d'argenteira
vale da barca candeeira
vale da nave da guedelha
vale da moira vale das éguas
vale das lapas vale de cabra
vale de cida (decida?) de perdiz
o vale de santo antónio
vale de unhais vale do buraco
vale do conde do rocim
do facarão vale do zêzere
vale formoso vale mourisco
o vale da barca fundeiro
vale da idanha dos criados
e valongo um vale longo
e inda o vale do toráqua
e os vales dos grandes rios:
o do zêzere glaciar
dos mais antigos do mundo
o vale do mondego do alva
que correm juntos p'róAMAR
depois de juntos na raiva...

a varanda de pilatos
varanda dos carqueijais
varandas e vasqueanes
a várzea a várzea do crasto (ou do castro?)
e a várzea do galego
veringueira vidoeiro
vila de mouros e volta

e vales nome de terras
como é vale de amoreira
vale de azares vale de estrela
vale formoso vales do rio
valezim e vasco esteves
valhelhas vela verdelhos
vide entre vinhas e vodra
videmonte vila chã
e vila cortês da serra
vila cortês do mondego
vila cova à coelheira
e vila nova de tázem
e vila soeiro e vinhó

com xxxxxxxis só XO que é o som
que dá efeito contrário
se diz XÓ: o burro pára
se diz XÔ a pita foge
e é de xis pê tê ó
ou é de cabo d'esquadra
quando está ao pé dum rio
quer dizer
despe-te e nada

com zzzzzzzê o rio zêzere
há zebrais e o zorrão
e os zés e os zeferinos

dando volta às letras todas
consoantes e vogais
são os nomes desta serra
que soam como uma festa
uma ladainha um hino
uma infinda lengalenga
a nominália da serra
que canta por todo o lado
e com os nomes das terras
sua origem e destino

e como os nomes da serra
como os nomes do universo
são nunca mais acabar
mesmo cantados em verso
com o Zzê é que é de vez
um dois três vou terminar


ESTE É O CORO DA SERRA
DA SERRA DA MINHA TERRA
QUE SE CHAMA DA ESTRELA
E NOS NOMES QUE ELA GRITA
POR TANTOS LUGARES E TERRAS
MUITOS SEGREDOS ENCERRA
A REVELAREM MISTÉRIOS
QUE SE PERDERAM NO TEMPO
OU QUEM SABE? SÓ ESPERAM
QUEM OS DESCUBRA E DECIFRE
E AO LÊ-LOS, QUEM DIRIA
PODEREMOS DESCOBRIR
QUEM FOMOS E O QUE SOMOS
O QUE SERÁ O FUTURO
DESTA SERRA, DESTAS TERRAS
E DA GENTE QUE A HABITA...


NOMINÁLIA II

A NOMINÁLIA segunda
é a festa com OS NOMES
DAS GENTES DA MINHA TERRA
da minha terra na serra
lengalenga ladainha
das alcunhas dos apelidos
cognomes com signo ou selo
que o povo dá a si mesmo
chamando-se uns aos outros
nomes que revelam bem
algum defeito ou feitio
uma aptidão ou tendência
e como os sítios da serra
as gentes da minha terra
como em muitas outras terras
ou todas pra ser exacto
têm nomes quais sinais
que não vêm nos anais
do registo ou da história
mas que revelam por certo
algo pra ser descoberto

eles são palavras são letras
e são contos de encantar
são lendas e são histórias
do passado e do presente
e toda a serra é memória
da vida da minha gente
que nasceu lá da semente
e lá jaz e é semente...

nomes que são de registo
no batismo e no civil
são por certo mais de mil
se os contarmos bem insisto
e revelam também eles
a origem destas gentes
que vêm do ventre da terra
tal como os nomes da serra

são matos silvas pinheiros
pinhos serras e cravinos
fragas rabaças e pereiras
duartes estrelas ferreiras
carvalhos rosas almeidas
biscaias direitos esteves
capelos cletos e neves
domingos massanos leitões
mondegos bastos ferrões
cunhas e pratas e brancos
gaspares melos e mamedes
paivas pintos oliveiras
registos santos e veigas
mais viegas e tacanhos
e direitos que são tortos
os de deus que são diabos
velhos que ainda são novos
e novos mesmo já velhos
...

há de certo muitos mais
mas estes que aqui registo
são exemplos são sinais
dos mais que estão no registo
nos livros e nos jornais
no civil e no batismo
herdados dos nossos pais
e por isso aqui desisto
pra cada um aumentar
os mais que podem faltar

mas outros nomes há mais
que não vêm nos anais
nem se lêem nos jornais
que se fazem normalmente
mas todos sabem demais
no seu bairro ou sua rua
são nomes próprios banais
desses que não reza a história
existem só na memória
do povo pra sua glória
que por amor à verdade
ou por pura arte ou manha
faz o seu retrato próprio
apontando ao seu vizinho
aquilo que o caracteriza
por um defeito ou feitio
mais defeito que virtude
por uma simples tendência
ou particularidade
que revela ou revelou
ou simplesmente a herdou
às vezes sem saber como

são nomes que todos sabem
sem saber como ou porquê
ditos quase sempre em segredo
sem se saber quem os pôs
mas se tais nomes chamais
áquele que tem esse nome
o que pode acontecer
como nos casos fatais
dos dramas e das tragédias
é o que houvera de ser
se não fugirdes levais
pra ficardes a saber
que não são nomes legais
em nenhum certo registo
da igreja ou do civil
e se o diz por distracção
deve dizer de seguida
desde já peço perdão
ou então com s'ua licença
bastando até muitas vezes
simplesmente um salvo-seja
com permissão dos presentes

mas acontece por vezes
curiosa situação
chega alguém a esta terra
forasteiro ou viajante
que não conhece os costumes
usados por esta gente
e pergunta por um nome
do batismo ou do civil
que recebeu numa carta
ou conheceu nos estudos
ou na tropa ou no trabalho
e que pode acontecer?
vêm logo mais de mil
a dizer não pode ser
não sabemos quem ele é
esse nome que dizeis
não é conhecido aqui
pra saber quem indagais
é preciso saber mais
sabeis acaso ou por manha
o nome do "parecer"
que a gente de cá lhe chama
espere aí vamos ver

vem então toda inteirinha
uma enorme ladainha

é talvez o zé d'avó
alaú ou albardeiro
o bísaro ou o biló
o peteto ou o boeiro
é da maria pópó
ó por lá o brasileiro
ou da maria nhó-nhó
afasta fogo ou agé
se não for menina amélia
um laricas invertido
macho ou fêmea não se sabe
ou então um femeeiro
um machão um prevertido

pode ser zé alegria
um primo do zé tristeza
zé babéu ou zé béubéu
zé agonia ou arjão
ou arjoa ou amarelo
ou bichas ou caganeta
ou então é malagueta
o tó francês ou o cardas
o cardépia ou o mereira
o tripa negra o facadas
o zulmira ou o poeira
se é que não é perneta
ou talvez seja penetra

pode ser um acaxi
o badana o trinca espinhas
acerta augusto caçalha
calçana bamba bandinha
cácágramasso conapa

talvez seja cafagé
o canholas o baiaia
e o carapanta não é
o da relva do cambaia

será acaso o farnhote
que fez fugir os franceses
será chamba ou é chaqueto
é o léria ou é o bamba
bandeira da paz batata
bácaro que será bácoro
ou baracinha ou borracho
ou borracha já bebida
que já de tanto beber
directamente da pipa
agora basta beber
água boa e abanar
pra ficar abananado/a

então é joão dos bairros
caravela gordo ou pote
e se for pote de nome
pode ser pote das migas
ou pote das azeitonas
se não for pote das iscas
ou até pote das nicas

é chiloa ou é benfica
o brasileiro ou bugalhas
o brilho do cemitério
dos brutos ou caga tacos
é cagatas ou café
é canelas ou caldaz
é carqueja ou cara d'aço
é champa ou é chichàpão
é churro ou é chocalhão
coelho de casta ou colega
cornélia cruto cruzita
ou cruzinha digoela

é talvez nome de bicho
mocho mocha passarelo
cu de pavão cu de pita
coelho morto zé da coelha
pode ser touro ou bezerro
zé das vacas ou bezerra
é chibadorro ou cão negro
é chibinha grilo ou grila
olho de grilo reguila
ou lagarto ou lagarticha
ou mil bicos rato ou rata
ou então pita gordinha
é carriça ou é carraça
ou é chicha bacorinha
ou é peixeiro ou setenta
é lebrinha ou passarão
é marrão ou é merrinha
cuco abelha ou andorinha
...
ou pelo sinal do pêlo
fica logo sem apelo
e pode ser má-cabelo
pêlo na venta sem pêlo
que é careca ou é capelo
o lourinho ou o marrafa
ou o ruço de má pêlo
o mancha negra ou o franja
penteadinho com risca
o poupa negra ou arisca
o pestanudo ou pestana
e a teresinha das ondas

e terá certa mazela
e logo se dá com ela
seja escondida ou à vista
pois como diz o rifão
vê-se melhor o argueiro
lá no olho do parceiro
do que no próprio isto é sina
ou então é maldição
e ninguém toma lição
de tão evidente ensino
e toca de ver no outro
aquilo que tem mais torto
se é farromba ou é maroto
e como quem torto nasce
tarde ou nunca se endireita
cada qual vê um aborto
onde quer que a vista deita

então é o quatro em vista
é coxo mudo olhalá
é bucha estica pernadas
ou é palito ou fininha
meia nalga magrizela
meia leca managite
ou espirra canivetes
é redanho ou é pirete
pelado paloio paloia
o nalguinhas e o cega
mas o cega não é cego
é cega por ouvir mal
o que é mais original
é tição gago ou ticito
ou cego de gota serena
pasta couraça ou pisquinha
ou pode ser maravilha
é coto lila ou chibinha
porque é corcunda com chiba
que não a cabra montêz
é da comadre sechia
quatro copos merda frita
garrafão ou o ganilhas
o galhetas ou a laide
a lili ou o palmeiro
o póvoas que era o póvas
ou o zé da fonte santa
é gacho verde maranhas
chupa rolhas o pinguinhas
o chifres do rei d'itália
que um dia foi ao doutor
com sífilis hereditária
é pirra piernes nhó-nhó
zé da cleta tá canhota
feveia pacha fadocas
catrâmbias ou trambolhana
é polainas revoltoso
diabo ruim galhetas
corta rabos e pelada
o metralha zé pequeno
o passianda varisco
ou então o joaquim sono
pernas de aranha de guita
picete pichas picetas
pirolau piça piascra
rela pintelho redolho
reipreto tocha torrado
tarau de bruxa sité
o trempas o turva pipas
triciclo trangalha danças
o tudinho o varatojo
as virgens e o da joana
o vida nova o porli
o mocas e o muchana
o pilatos o passinha
o passos e a palhaça
a migar os macavencos
o santa rita o sabonete
o padre cardas o nega
os gaspares e os gasparões
a jonja freches ferral
o zé viúvo e o concho
um nunca mais acabar

também pode ter o nome
que lhe vem da profissão
e isso não é senão
se não virem que se pode
pegar nela sem razão

quartelas e quarteladas
por medir ou guardar quartas
ou então joão pilão
se a sua profissão
é andar às marteladas
e o peixeiro era setenta
vá-se lá saber porquê
e o ferreiro é ferrador
e o cardas é cardador
por meter cardas nas botas
ou tirar cardas dos fardos
ou por pregar as janelas?...
pião das nicas se gira
a fazer muitos recados
é lapaincha ou riquinho
que é o jaquim requinho
pode ser comendador
por receber a comenda
ser comedor ou dador
que dá depois de tirar
para assim tudo mandar
ou é o manel das couves
que traz à praça fresquinhas
as alfaces das forcadas
onde foram bem regadas
mas como não dava nada
e a fome já apertava
emigrou para os brasis
e diz a a gente espantada
lá se vai a horta toda
no barco pela borda fora
é guerrilha pataquinho
guita castanha pilada
o zé da rosa ou esbica
ou é zuefa estrelada
ou então é zefa pica
é manelão ou manina
rosmanheira lambe pratos
lambe botas corta rabos
afoga almas aflitas
ou então afoga pitas
endireita almotacel
que é também almotacé
geirinhas e gerandim
jaqueta curta gravatas
zézinho da loja nova
a condessa e a marquesa
o marra e o mata lobos
o matorro o martelão
o mestre serra o metralha
também o rei do petróleo
o sapateiro a forneira
clotilde dos requeijões
o sim-sim veste senhoras
o cabreiro e o pastor
o moleiro e o vaqueiro
o carteiro o cobrador
o gaitas amola tesouras
o farrapeiro o peleiro
o dos tomates de fora
o mercador ferro velho
o faz tudo e o feirante
o homem dos sete ofícios
e o dos sete instrumentos
o palhaço o saltimbanco
o coveiro e o recoveiro
o cesteiro e o latoeiro
o barbeiro o joão semana
o feirante o lenhador
o sacristão o vigário
regente mestre da música
a queijeira e o queijeiro
almocreve maioral
o cavador cortador
o capador matador
o professor o doutor
lavadeira costureira
o operário o cantoneiro
...
e tanta gente sem nome
que todos bem conheciam
por aquilo que faziam
...

e pra todo o pessoal
que não tem um nome certo
neste imenso festival
de alcunhas arraial
a nominália concerto
festa de nomes geral
tem pra eles um nome certo
é macarraonco ou chaveco
ou então é macavenco
se é de baixo ou se é de cima
de acordo c'oa freguesia
são pedro santa maria
em alegre romaria
e então se metia a banda
de cima a música velha
de baixo a música nova
e a tocar não convencia
a de cima aos de s.pedro
de baixo santa maria
era ver a festa rija
com cornetas a voarem
os bombos a rebentarem
e as mocas a acertarem
no lombo da outra banda
aqui d'el rei ó da guarda
e a festa ia acabar
para alguns no hospital
e os outros numa enxerga
ou então no chelindró
ou na adega do vizinho
jurando vingança certa
logo na próxima festa

mas ali tudo é amigo
quando não é inimigo
indiferente é que não é
nem passa despercebido

e ninguém se fica a rir
porque algum nome há-de ter
além daquele do registo
da igreja ou do civil
do notário ou do batismo
como acima ficou dito

quem lho põe como é crismado
ou porquê ninguém o sabe

por ter crença ou por ter
por ser novo ou costumeiro
ou por chorar ou por rir
por andar sério ou folgar
sossegado ou folgazão
na ssossega ou na folia
metido em casa calado
ou andar sempre metido
em altas cavalarias
por fazer mil tropelias
ou metido no seu canto
por ter encanto ou não ter
por andar em aventuras
ou na lida rotineiro
por ter cão ou por ter gato
por ter rafeiro ou não ter
por fazer gato sapato
ou por o deixar fazer
por ter sapato ou ter chancas
botifarras ou botinhas
por ser galo dum poleiro
se deixar empoleirar
por ter lá no galinheiro
uma galinha pedrês
ou nada disso lá ter

seja de dentro ou de fora
venha por mau ou bom tempo
em malvada ou boa hora
venha pr'ali veranear
ou uns anos trabalhar
uns dias umas semanas
pra ficar ou ir embora
ou então se isso sabe
e pra não ser nomeado
nem sequer lá põe os pés
mas isso for constatado
é coisa certa e sabida
que algum nome há-de levar
nem que seja vou de volta
como aquele que foi de volta
pois ia pra outros lados
e não quis ser batizado

ou é lá de trás de serra
se é dos lados de gouveia
do eirô santa marinha
de são romão ou loriga
ou das encostas de seia
...
se vier da outra encosta
dos lados da covilhã
ou terra dali ao pé
lanzudo é o que ele é
dê lá para onde der
quer saiba o que é a lã
ou mesmo sem o saber
pode ser um tecelão
gerente debuxador
que trabalha nessa arte
mas se até é engenheiro
doutor médico ou barbeiro
um pobretana ou ricaço
lanzudo é que ele há-de ser
se não houver outro nome
que vá quadrar a preceito

e se é de outro lado
ou é raiano danado
ou cigano desterrado
venha lá donde vier
é mouro se é o algarve
ou do sul do alentejo
é galego se é do norte
alfacinha de lisboa
tripeiro se é do porto

e então se tem defeito
uma arte uma virtude
uma mania ou um jeito
boa pinta ou má saúde
mesmo só vindo no verão
às caldas pra se curar
nas águas da fonte santa
ou nas águas sulfurosas
leva ali logo bem feito
um nome bem a preceito
que diz gozo ou diz respeito
em geral diz ironia
que em regra acerta em cheio
no retrato do sujeito
tirado a corpo inteiro
mais de dentro que de fora
pois passada aquela hora
de ver bem o que ele é
por uma palavra ou dito
ou por dar a salvação
ou então por não a dar
com o devido respeito
pumba
acerta augusto já está
e sai o nome correcto
que a maior parte das vezes
muito em segredo ao ouvido
todos ficam a saber
e se dois ou três aprovam
o nome pega já está
corre nas asas do vento
e nem são pedro lhe vale
nem tão pouco são joão
e assim fica conhecido
pelo nome recebido
mais que o da pia ou registo
como atrás já foi escrito

não acabariam mais
os nomes originais
destes estranhos anais
que nunca foram escritos
andam só de ouvido a boca
é tudo de ouvir dizer
e isto não acontece
só por aqui afinal
são iguais a tantos outros
por essas terras além
no reino de portugal
e nos outros por'i fora
tanto aquém como além mar

quem conhecer outros mais
e gostar da ladainha
que complete ou mude letra
porque aqui já são demais
pra ficarem na memória
do povo que os inventou
sem dar conta ou dando conta
que com cada letra ou nome
com que pinta o seu vizinho
vai pintando o seu retrato
retrato da sua terra
sempre inteiro inacabado
e se os nomes que chamar
às coisas e às pessoas
não muda o ser das coisas
nem a essência das pessoas
revelam a sua ideia
o seu pensar mais profundo
sobre a gente e sobre o mundo

já vai longo o relatório
dos velhos nomes de outrora
e dos bons tempos de agora
e os do futuro? talvez
sejam outros
por serem outros os olhos
e os pensamentos que os lêem
mas por ora desta vez
um dois três era uma vez
aqui se acabou a história

interrogação final
que pode ser crucial

e no fim de tanto ler
tantos nomes desta serra
de ouvir contar escrever
tantos nomes desta terra
e da gente que cá erra
...
aquilo que mais me intriga
e me tem feito pensar
é eu ficar sem saber
no fim desta ladainha
que devoto peregrino
vou rezando plo caminho
de incansável caminheiro
que correu o mundo inteiro
com seu bordão de romeiro
lembrando suas raízes
a gente a serra os rios
...
é afinal perguntar
para que serve afinal
toda esta arte e engenho
que a gente da serra tem
e a dos outros lados também
...
queria saber no final
se afinal é mal ou bem
e se o nome verdadeiro
o nome que nos convém
é o da pia ou registo
ou se por arte ou defeito
o nome que leva ao peito
dado pelos seus iguais
é ele que faz afinal
o seu retrato perfeito
e aquele retrato inteiro
desta terra que é a minha
e revela bem ou mal
quem sou eu ou quem és tu
quem somos nós afinal
se
dar o nome é ser senhor
ser o dono
ter um nome é aceitar
ser um servo ou ser um par
quem somos nós afinal?
quem és tu?
és os nomes que tu dás
és os nomes que te dão
acabou
PONTO FINAL...


NOMINÁLIA III

A nominália terceira
tem de ser, está mesmo a ver-se
a festa daquele falar
da gente rude da serra...
pra juntar à dos seus nomes
a nominália de alcunhas
e à nominália dos nomes
que foram dados às pedras
e aos lugares que há na serra
pela gente que a habita
que a canta e a fecunda...
nela nasce e nela morre
gerando outra vez a vida...

pra poder admirar
as belezas que há na serra...
dum belo feio e agreste
diferente doutras belezas...
entre morros e penedos
covões naves e fragões
penhas penas poios pedras
com fragas que guardam pragas
e crutos com seus mirantes
varandas e miradouros
que levam o nosso olhar
até a vista alcançar...

é preciso nomeá-las
com os nomes acertados
que ali lhe foram dados
pelos que lá foram nados...
porque quem nasceu na serra
brotou do ventre da terra
como o pão e como as fontes...
como os corgos e os rios
as ribeiras os ribeiros...
como as ervas e as árvores...
como os animais... as aves...

e sendo assim como irmãos
nascidos da mesma terra
nascidos na mesma serra...
podem, por dom ou condão
alumiar...ou chamar...
(sem andar a abocanhar...)
os nomes certos que dão
vida, comunicação
às coisas, aos seres e à gente...

e a outra gente que os ouve
falar daquele jeito e arte
logo os distigue e entende
quando ouvem...

ora atão venha com deus...
para dar a salvação...
no tem de quê mê senhor..
para dizer obrigado
ou então. muito bem-haja...
a gente fez caigenada...
dizem a pedir escusa...
somos mas é vontadeiros
que é dar de boa-vontade...
dê lá os nossos recados...
para mandar cumprimentos...
farei presente... bem haja
quem nos traz e quem nos manda...
seja tudo pelas almas
que já la estão à espera...
bocemecê mê padrinho
bote cá a sua bençã...
cá vai pra que viva..., esta pinga,
bom proveito... que lhe preste...
mas que grande lavarinto...
toda a gente em movimento
numa grande barafunda...
era tudo uma retouça...
aquele deu um carvalhós,
ou então um bate cu...
que é dar uma palhaça...
e ficar de cu pr'o ar...
ou deu c'o rabo no chão...
porque deu a cambalhota...
e ficou amerzundado...
por ficar um pouco tonto
espera aí um migalho...
para esperar um bom bocado...
anda meio agraviado...
por ficar esgroviado
ou então aparvalhado
isto é a gente a aldegar...
a dizer coisas á toa...
é para dar-à-taramela
desenfurrujar a língua...
qu'aqui no cruto da serra
e lá inriba no cimo
é só fragas com as pragas
a meterem medo às gente
com cocas e maus olhados
uns demoncres dos infernos
qu'isto é de andar sesudo
a pascer os animais
e vai uma calhoada...
ou atão uma tanganhada...
pra ingrolar os sentidos...
mas também se você quer
vamos falar à polítega
comá gente da cidade..
...

estas são algumas falas
que a gente da minha terra
e das terras que há na serra
dizem para enunciar
o dia a dia da vida...
os nomes que dão às coisas
os nomes que dão à gente
os seus ditos e provérbios
os rifões os seus ditados
a salvação o bom dia
boas tardes boas noites
venha com deus deus o salve
que tudo lhe corra bem
como mo deseja a mim...
vai um copo ou uma pinga
não se acanhe
não deite mais que já bonda...
steja à sua vontade
como estar em casa sua...
e se fala do trabalho.
há a terra p'r'ámanhar
e o gado p'ra guardar
para levar a pascer
p'ra ordenhar recolher
lá no curral ou na corte...

e
todo este falar vem a ser
quem o diria ou sonhara
uma estranha melodia
a formar a sinfonia
de mil sons mil instrumentos
de mil vozes doutras eras
que rolando pelos tempos
pelas faldas da montanha
em ecos sons repetidos
pelas encostas dos montes
gritados ou deformados
se juntam a estes tempos
rolando como avalanches
ou eternos glaciares..

e estes falares e sons
agrestes como o granito
ora agudos como um grito
ou suaves como as fontes
ou tremendos turbilhões
ecoando entre os fraguedos
ora em silêncio de morte...
nada se move ou se ouve...
são, também eles, a serra
as terras altas da estrela
os montes ermos - hermínios
forma e som
pedra e letra
a formam um livro - obra prima
onde tudo em movimento
está completo e acabado
sem nunca estar terminado
num perfeito monumento
onde a tradição oral
a fala o som e o gesto
são também parte da serra
com seu mistério e grandeza
-montes ermos - os hermínios -...
e são também - a estrela -
estrela que brilha ao longe
com sua luz bem visível
bem clara a brilhar na noite...
mas como as magas estrelas
embora falando claro
como letras luminosas
há muitos que as não entendem
não sabem sua linguagem...

assim
este rude falar
que é o bom falar da serra
pode sem querer ir chocar
os ouvidos delicados
dos estranhos viandantes
ou das gentes das cidades
ou até doutros lugares
que ao ouvirem tal falar
logo dizem:
esta gente é lá da serra...
e aqui não se fala bem
como lá nos nossos lados...
pois pudera! são da serra
que não há em outro lado...

e se é gente do algarve
ou das terras dalém- tejo
que ali nos ouvem falar
na sua terra que é deles...
dizem logo:
vomecê vem lá do norte
é galego com certeza
e tanto puode suer ele
de mantueigas ou da guarrda
da covilhãen ou be(é)elmonte
ou doutra terra da serra...
que para o sul é galego
dê-lhe lá por onde der...

mas ali tudo é diferente
em cada terra lugar
em cada buraco ou monte
como a serra é toda serra
em cada canto diferente...
de manteigas pode ouvir:
uolha qu'avuantas cuomigo
vue luá buem se tuens cuiduado...
ou uentão na Cuovilhãen
quando fuoi uau futibol
ouviu de cuerto dizzer:
zei peidro vuai de cabeiça...
uou entuão se vai i à guarrda
terra frrria farrrta e forrrte
s'é alguém que vem do norte
de braga ou dali abaixo
diz logo.
puorra cumpadre, carago,
o pior nesta cidade
nem é o frio ou a nebe
o pior aqui - são os bentos
que nem nos deixam falar
e até cortam as orelhas
ou a ponta do nariz
se não metemos o gorro
que chegue mesmo ao pescoço...
puorra carago car(v)alho
nem se pode andar na rua
sem s'isticar ao cumprido
duas ou mais bez(es) por dia...
isto acontece na terras
onde dizer palavrões
aquelas expressões fortes
que dão paladar à fala
como o sal e a pimenta
metem logo dois ou três
pró tempero ser seguro...
para ouvir dua palavras
seguidas e sem tempero
tem de pedir: por favor
ó meu senhor, diga lá
Nossa Senhora
prá gente poder ouvir
duas palavras seguidas
sem um porro e um carago...

mas pode ssser doutro lado
talvez lá do SShSabugal
co'a língua no scéu da boca
bem enrolada a bater
que schega àsss raiasss d'essspanha...
ou então é de Bisjeu
vindo eu, vindo eu
lá das bandas de bisjeu
inconteri o meu amor
ai Sjejus que lá vou eu...
isssto sssão terras do demo
do aquilino malhadinhas
por uonde os luobos uibaram
e assim começa a fala
das pessoas leá due nueorte
que trocam os v(ês) por b(ês)
ou não bês que i é assim
que i é fino falar bem
como se fala em Madrid:
arriba franco, biba espanha
isto é qui é o bom falar
que não é o de lisssboa
unde os tius vão pró riu
ou p'rá puta qu'i'os pariu...

mas isto não é assim
em todo o lado afinal
porque em coimbra ou ao redor
oliveira d'hospital
lousã, luso ou mealhada
aí é qui é o falar
padrão do bom português
e quem não falar assim
não é doutor... nem burguês
burro sim...e pode ser
um aldeão ou vilão
ou até bom cidadão
duma cidade qualquer
ou então é montanhês
lá da serra da estrela
terra de conquistadores
de guerreirods viriatos
que disputam sua cova
a cava de viriato
que uns dizem é aqui...
e fazem uma caverna
nos jardins duma cidade
com pedras atamancadas
como dizem em bisjeu
pois ali há sinais claros
das vias largas romanas
que vinham de norte e sul
e corriam para roma
pois como diz o ditado
desde o império romano
tudo aquilo que é caminho
vai dar a roma cidade
à capital do império
maior que já existiu...

mas esta terra foi sempre
uma terra de pastores
de zagais e de zagalas
que pasciam seus rebanhos
nos vales se era inverno
ou subiam à montanha
em chegando a primavera
com cães de guarda valentes
de dentes bem aguçados
e de pêlo eriçado
e com coleiras de ferro
de bicos ponteagudos
para enfrentarem os lobos
em lutas de vida e morte
pelas reses dos rebanhos
que tinham à sua guarda...

terra de agricultores
curtidores e artesãos
que teciam suas lãs
e faziam panos fortes
que os protegiam da sortes
que o mau tempo lhes trazia...

em terra de caçadores
tens de falar como eles...
um laparoto é caçapo
escava-terra é toupeira...
o furão vai apichar...
um milhano é um milhafre
um perdigoto é perdiz
desde que seja pequena...
paspalhão é codorniz
em várias terras da serra...
um papalvo é gato bravo...
um javardo é javali...

e terra onde há caçadores
há também como é das regras
uns, que em vez de caçadores,
são tão só uns caçarretas...
um chibo em cada caçada!...
sempre de mãos a abanar...
os que gostavam de caçar!...
diziam à boca cheia!
mas caçar? só no bornal
a merenda recheada
à beira duma ribeira...

os cães cadelas rafeiros
os cadelos e furões
toda aquela cãozoada...
que os caçadores ajudavam
tinham nomes singulares.
a catraia e a diana...
digoela pró senhor...
a seta o nero a garrida...
a ligeira a violeta...
a cadela perdigueira
que não falhava uma amarra...

e os caçadores por seu lado
também tinham os seus nomes
que soavam bem na serra:
era o paibarba, o cangote
casado co'a torquiné...
o caganeta o penetra
o canhoto, o carapanta
o metralha, o revoltoso...

eles corriam vales e montes
de centeio e de cevada
que ora estão a maninho
deixados ao deus dará
pois foi tudo p'rá cidade...
agora'?
não dão a ponta dum corno
ou como têm que dar
que a natureza é fecunda
são campos cheios de ervas
onde o mato nasce a eido
cheios de calhaus a rodo
cheios de fetos e urzes
de estevas giestas e cardos
de sargaços e azimbres
de carquejas saramagos
diabelas e cervum
e outras plantas que tais
que se não servem pr'a gente
são boas pr'ós animais...

AVES Bichos animais...

...

quando a gente se arrenega
atira-se á valentona...
anda ali à zanguizarra...
foi ali um alevante...
anda tudo na retouça...
foi um grande barburinho...

ou então se vai um copo
já raso sem poder mais
tem cabonde... vai à nossa...
que lhe preste... bom proveito...
ou então comem cabonde
ou tamén à tripa-forra


amanha-se à três pancadas...
com a saia aconapada...
ou então toda rabuda...
vai toda perlequitetes...
toda fina, não me toques...
és mesmo uma cenisga...
uma dessensal, sem gosto...
pareces uma megengra...
a rapariga é magrinha!
ou então anda encoucado
para dizer enfezado
ou é todo esfenicado
para não dizer magrinho...
é mesmo um ingremenço
aquele bebé de magrinho
é mesmo uma aboiz...
ou já anda acarcavelado
se é velho ou velha de anos...
alanca aí qu'inda és novo...
aquilo é que é um bandulho
sempre de bucho bem cheio
uma barriga de truz...
o outro é bisgo dos olhos
é embisgo
se é vesgo, de olhos tortos...
aquilo é um calmeirão
e tem borregas nas mãos
tanto na canha ou na dextra
que é como quem diz: tem calos...
apanhou uma camaçada
outro é um patarreco
se é baixo atarracado...
se apanhou uma doença
que o faz cair à cama...
um apanhou um cobrão
se tem zona pelo corpo...
ou apanhou uma gípla
ou então um gipelão...
para dizer erisipela...
ou chifres do rei d'itália
que é sífilis hereditária...
apanhou um catarral
que pode ser pneumonia...
olha aquela catarreira!
é do vício do tabaco
ou então ded forte gripe...
anda com umas dores nas cruzes...
que são as ancas pr'os outros..
apanhou uma cobradura
e anda ali todo cobrado
se uma hérnea apanhou...
tem as mãos engatinhadas,
enregeladas de frio...
tem a espinhela caída...
anda ali todo esganido...
aquele espetou uma escádea...
tra-me esse mija-cão
com chá de raiz de urtiga...
(se é frúnculo dos grandes)...
sará uma varruma má...
tem uma lasca encravada...
foi ali a dar de corpo...
anda c'oa mari-ligeira...
que é andar de ligeirinha...
até andar de vareta...
foi ali a lançar fora...
levas cinco mandamentos...
assoa-te bem assoado
co' lenço de cinco pontas...
aquela já alcançou...
já está prenha, acupada...
não tarda vai estar de ordens
ou parir um belo moço
e fica de quarentena
fechada em casa a comer
papas, caldos de galinha...
p'ra se livrar da quebreira...
mas que grande rabadilha
quando tem nádegas grandes
e um sesso de respeito...
levou uma ranhadela
ou anda todo ranhoso...
ou é redolho se é fraco...
anda reles, adoentado...
ficou com uma roadura...
por descer o pau de sebo...
ou anda com terçolho...
apanhou o trasorelho...
ou então o tesorelho...
que pode ser só zarelho
que é só uma papeira
para ficar vascinado...
apanhou uma testeirada...
levou uma no toutiço...
ficou com um tromedário...

Das DOENÇAS que há na serra?
e não encontramos na lista
dos doitores que lhes acudem...
são tantas que nem se contam...
não anda muito católico
o que não se sente bem...
o bebé nasceu aguado...
apanhou um aguamento
pelos desejos da mãe
que não foram satisfeitos...
aquele apanhou uns ares...
apanhou uma bretoeja
uma alergia na pele...
as bexigas é varíola...
um cabrúnculo é um carbúnculo...
um carnagão, carnicão
é um frúnculo de respeito
ou pode ser um carbúnculo...
catarral é pneumonia...
cholreta?... andar de vareta...
é andar de diarreia
ou então de ligeirinha...
ter gasgalheira ou papeira...
ou então o trasorelho
é ficar desorelhado...
ter a espinhela caída...
deu-lhe um fanico ou um flato
é só ficar desmaiado...
uma carga de reumático
é andar com reumatismo...
anda cum terçol num olho...
ou nasceu-lhe algum unheiro
como já diz a mãe de Inês
no auto de Gil Vicente...
tem verrugas que são cravos
espalhados pela cara?...
tem gipla? que é eripsela?
ou talvez algum cobrão
que é zona... nervo inflamado
que se cura cum ensalmo
e as costas de uma faca...
ou pra curar o cobranto...
ou então o mau-olhado...
ou para atalhar o zagre
empolas com aguadilha
e com muita comichão...
-vamos o zagre atalhar
com unto sem sal
e cinza do lar...

quando canta a NATUREZA
a terra as plantas e os frutos ...

no céu por cima de nós
passa caminho de luz
estrada de santiago...
o sete estrelo vai alto...
ou tamén as três marias
ainda o arco-da-velha

arco da velha quem te pintou
foi uma bruxa que aqui passou...
...
nunca vi o cerco à lua
que ós três dias no chovesse...

ó linda estrela do norte
diz-me p'ronde navegais...

o sol cando nasce doira
as pedras do mê anel...

à aurora me alevanto...
ao sol posto eu m'incosto...

por detrás daquela serra
nasce o sol e põe-s'a lua...

os ANIMAIS e as AVES
são tantos e tão diferentes
iguais aos outros que há
espalhados plo país...
que recordamos alguns
para outros recordar
e são tantos que podemos
fcar aqui sem parar...

o vivo é a bicharada
que anda à volta da gente
são os cães... a cãzoada...
botche, botche!
tomaqui!... martcha daqui
busca busca... boca o ferido...
são os gatos... sape sape

...bechinha à gata
comeste já hoje
sopinhas de leite?
comi comi.
guardaste pra mim?
guardei, guardei.
onde as guardaste?
atrás da arca.
com que as cobriste?
com o rabo da gata.
Sape sape... Sape sape...
e o bebé foge aflito
desta lengalenga tola
que mete o rabo na boca...

o porco marrano bácoro
cotche cotche... fcá fcá...
corritcho lá no cortelho
na furda que é curral
na loja térrea da casa...
marrancho também se chama...
à espera da vianda
que noutros lados é carne...
no chambaril pendurado
que pode ser um arrocho
de apertar a carga ao burro
com as pontas bem chanfradas...
guardado na salgadeira
em banha e entremeada
transformada pra guardar
em presuntos e enchidos
em salpicões e morcelas
em farnhotes e em paios...
são o sustento de um ano
a aconchegar a família
para a fome ou invernia...

há as chibas e redolhos
os redanhos as malatas...
há a potra e o burreco...
os cagaitas os boiriscos
os castanhos os galantes
os motchos... não têm corno...
pachorrentos bois de carga
a puxar carros que chiam
com fueiros e fogueiros
para sustentar a carga...

há os coelhos e as pitas
onde há sempre um cantador
reino das donas de casa
que toma conta do vivo
para acudir à família
que grita com a larica...
alguns piruns e marrecos
a formar o galinheiro
pra render pr'o ano inteiro...

há depois a bicharada
as bespras os alacraus
que alguns chamam alacrários
gafanhoto é saltareco
ou cavalinho d'el rei...
aricú é pirilampo...
santo antoninho é carocha
e também é joaninha...

santo'antoninho avoa avoa
que o teu pai stá em lisboa
come a carne e deixa o osso
amanhã p'ró teu almoço

santa teresa põe a mesa
c'oa vela acesa

tira-olhos - libelinha...
varjeira é mosca varejeira...
o tabardo pica o gado...
a agudia é formiga
luzidia a caçar pássaros...
bicha áltéria e bicho macho
é a cobra e é a víbora
alfaiates, cegarregas,
ralos e lagartichas
são insectos que povoam
as hortas e os lameiros
a rastejar e voar...

e os pardais, santo deus!
tudo o que chamamos pardais
AVES que riscam os céus
são tantas que não encontro
quem as saiba nomear...

a bufa, a águia real
que nos via das alturas!
fugiu pra longe... pra nunca...
talvez, na sua nobreza,
deixou-nos presos ao chão...
os milhanos, peneireiros,
as popas, rolas e pegas...
as carriças e os pisco...
pisco chibreiro é dom fafe
o outro pisco é noiteiro...
papa-figo, pintassilgo...
melro de bico amarelo...
chendra é cheldra,...
o noitibó é cavaio
que canta. cá vai... cá vai
e na fuga pr'o egipto
denunciando o menino
nossa senhora o fadou
pra não ver a luz do dia
e voar só rente ao chão...
conta a lenda, a mesma lenda
qu'entretanto a cotovia
cantava. não vi... não vi...
e ao cá vai do noitibó
dizia: mentira... mentira...
e apagava as pegadas
que os fugitivos deixavam...
pitinhas de nossa senhora
ficaram assim conhecidas
para alguns as cotovias
para outros codornizes...
ervilheira, escravadeira,
trepa-gatos, bico gordo,
lavradeira que é alvéola,
milharó e andorinhas
pintarrocho - milheirinha
são tantas são tantas aves
que lhe perdemos o conto...

e os JOGOS?

para escolher o que se esconde:

pico pico seranico
quem te deu tamanho bico?
tu que vais e eu que fico
deita a pulga pró penico
do penico prá balança
disse o rei que vai prá frança
os cavalos a correr
as meninas a aprender
qual será a mais bonita
que se irá a esconder

sola sapato
rei rainha
vai ao mar
buscar sardinha
para a filha do juiz
que está presa pelo nariz...

minha mãe mandou-me à mestra
a aprender o b-á-bá
minha mestra me ensinou:
quero esta que aqui está!

varre varre vassourinha
varre bem esta casinha
se varreres bem dou-te um vintém
se varreres mal dou-te um real
vai-te pôr naquele altar.

à ronda à ronda
quem quer que se esconda
bem escondidinho...
já lá vooouuuuu

o jogo dos punhos
é co' as mãos fechadas
e diz o primeiro:
o que é isto?
diz o segundo:
pimpolinha.
o que é isto?
diz o último.
arquinha fechada
que tem por dentro?
pão bolorento.
e por fora?
cordas de viola.
aquele que se rir
leva na padiola.
e quando a pilha chega ao fim
olham todos uns p'rós outros zumbindo zzzzzzz
a ver quem dá mais caroladas
àquele que se atreve a rir
ou foge das caroladas
por se rir dos que levaram...

ciclité ciclité
quantos dedos stão de pé?
(e o que amocha diz um número
que em princípio errado é
ou passa a ser por ser trocado...)
ALANCA! e salta um para o lombo.
se disseses três (?)
nem perdias nem ganhavas
adivinha machacaz
quantos dedos stão pra trás?
cinco ou sete tanto faz...
ALANCA com outro em cima
e segue o jogo até acertar
ou então, até arrear.

e então a cabra-cega?
? cabra-cega donde vens?
? de Castela.
? que trazes para a merenda?
? pão e canela.
? e o sarrão?
? ficou lá pr'o verão.
? vá ver dele seu mandrião...
e de braços estendidos
vai rodando
a agarrar os fugidos
que o empurram e dizem:
ferrolho ferrolho
se vires pela venda, tiro-te um olho...
chafariz, chafariz
se vires pela venda
corto-te o nariz...
armela, armela
se te pões a ver
que te caia uma perna...

LENGA-LENGAS, ANFIGURI?
HISTÓRIAS SEM PÉS NEM CABEÇA?
ou HISTÓRIAS COM PÉS E CABEÇA?

càcaràcá
põe-te na pá
faz um bolinho
pr'o nosso menino
(pr'o nosso paizinho)
que anda na arada
sem comer nada

a pitinha pôs o ovo
veio a menina comeu-o todo...
ela coze, ela amassa,
ela o vai vender à praça.

senhora vizinha
o seu galo deu
uma sapatada
na cara do meu...
senhora vizinha
repreenda o seu galo
que a minha galinha
anda a namorá-lo...
senhora vizinha
repreenda o seu frango
que vem cá pra casa
bailar o fandango...

anel anel
aqui vai na mão...
anel anel
vai cair ou não...
vai cair, não vai cair...
vai cair, não vai cair...

se a minha boca
fosse uma panela
o que é que metias nela?

era uma vez
um gato maltez
cagou-te na boca
não sei que te fez...

queres que te conte um conto?
camisa velha tem muito ponto.

? ó senhor manel do cabo
o que está naquele telhado'
? Stá um homem enforcado.
? e o que é que o homem tem?
? tem uma mulher.
? e o que tem a mulher?
? tem uma filha.
? e o que tem a filha'
? tem uma campainha.
? e o que faz a campainha?
? tlim tlim tlim... dlim dlim dlim...

e que tal?
arroz de pardal.

sabes o que te digo?
que cevada não é trigo.

quem vai ao ar
perdeu o lugar.
quem vai ao vento
perdeu o assento.

stás c'o frio?
embrulha-te na capa do teu tio
e vai-te deitar ao rio.

e o batismo dos ciganos?
eu te batizo neste ribeiro
para que tenhas olho fino e pé ligeiro.

e pra beber?
antes da sopa, molha-se a boca.
no meio dela lava-se a goela.
sopa acabada, goela lavada.

abre a boca e fecha os olhos
que te hei-de lá meter
ao menos dez mil reis d'ovos...
e
pode meter amendoas
deixá-lo de boca aberta
ou meter lá uns malhões
ou uma coisa muito amarga...
assim se paga aos gulosos
ou se dá mimo aos mimados...

à morte ninguém escapa
nem o rei nem o bispo nem o papa
mas hei-de escapar eu
compro uma panela
que me custa um vintém
meto-me dentro dela
e tapo-me muito bem
vem a morte e diz
hum! aqui não há ninguém
boas noites meus senhores
e passem por cá muito bem.

era e no era
andava na serra
seu pai era morto
sua mãe por nascer
deitou o arado às costas
e pôs-se a cavar
subiu por uma ladeira abaixo
e foi a correr...
subiu por uma oliveira acima
colheu maças...

lagarto pintado
quem te pintou?
foi uma velha
que aqui passou
no tempo da eira
havia poeira
salta lagarto
pra esta orelha.

era uma vez um rei e um bispo,
acabado o conto, não sei mais do que isto.

e pronto,
acabou-se o conto.

novelo enrolado
conto acabado

meada dobada
história acabada

e óspois?
morreram as vacas e ficaram os bois.

já vai longa a hora
acabou-se a história


Bruegel Carnaval

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