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NOMINÁLIA I
NOMINÁLIA
é a festa
são OS NOMES DOS LUGARES
da minha terra na serra
das pedras dos acidentes...
dos cantos e dos recantos...
dos montes dos vales e fontes...
de tudo o que é ser na serra
que sendo tão grande e vasta
tão pequena tão singela
com as grandes comparada
contém em si dentro dela
a imensidão das estrelas
tenho
na serra da estrela
muitos nomes pra cantar
eles são palavras são letras
e são contos de encantar
são lendas e são histórias
do passado e do presente
e toda a serra é memória
da vida da minha gente
que nasceu lá da semente
e lá jaz e é semente...
quando
começo a lembrar
os nomes que a serra tem
pareço estar a voar
por esses mundos além...
quem
lhes deu nomes ao certo?
quem lhes deu os nomes certos?
quem os pode enumerar?
ninguém o sabe decerto
ninguém os sabe contar
é como contar estrelas
ou letras que os livros têm
cada
pedra cada canto
tem um conto pra contar
um nome que pode tanto
ser pagão santo de altar
ou evocar algum feito
uma história de espantar
uma sorte ou um azar
que os nomes que a serra tem
são aqueles que a mente tem
da gente que mente e sente
aquilo que lhe convém
aquilo que crê e vê
com os sentidos e o siso
a imaginação também
são cerros cabeços serras
encostas vales e montes
com covas que são secretas
e penhas ao sol abertas
rios que nascem das fontes
que são mais de mil dispersas
em todo o redor da serra
naves
lagoas e lagos
que é só um, do Viriato
sem o ser
poios fragas e fragões
cabeças currais covões
ribeiros ribeiras charcos
que pelos nomes revelam
algum mistério que encerram
vamos
primeiro aos gerais
que dão nome a muitas coisas
que depois virão os mais
altos
e arcas de pão
barrocas e barrocões
barros e barcas e chãos
mais malhadas e malhões
cimos campos e calçadas
casas casais e cascatas
calhaus penedos fraguedos
fráguas lapas e lajedos
lajes lombas e lapões
mais mirantes e pedrões
penhascos e pedregulhos
paradelas portos portas
portelas poços e hortas
rochedos seixos e rochas
soitos sítios e lugares
e varandas p'ra abarcar
horizontes infinitos
com nomes formas e mitos
sonhos lendas de encantar
na mente sempre a girar
que mente p'ra s'enganar
e enganando e mentindo
vai criando um mundo novo
dando nomes como aos filhos
chamando-a montes hermínios
ou então serra da estrela
que é o berço deste povo
e é sua sepultura
por isso é mãe que dá vida
dá comida e dá bebida
dá a roupa o agasalho
em troca do seu trabalho
e quando recebe o corpo
dos que partem desta vida
que vivemos cá na terra
volta a ser a mãe fecunda
que recebendo a semente
dos nossos corpos mortais
os transforma em cinza e barro
em terra que tudo gera
e assim a serra também
é criação deste povo
que sempre a cria de novo
este
é o coro da serra
da serra da minha terra
onde canta cada pedra
e até calada grita
os segredos que ela encerra
cada
fonte cada charco
cada ribeira ou cascata
ribeiro rio ou lagoa
cada represa ou levada
são várias vozes que entoam
uma estranha melodia
duma sublime poesia
em dissonante harmonia
os
rios saltam barrancos
pedregulhos e penedos
em revoltos remoinhos
de espuma branca veloz
que faz girar grossas mós
de azenhas e de moinhos
ou enchem grandes represas
que vão fecundar os campos
e vão correndo entre corgos
barrocas currais e chãos
abrindo vales desenhados
com lameiros e tapadas
correndo em grandes levadas
que regam quintas quintais
prédios covões e casais
cercados por altos montes
encimados por cabeços
cabeças e cabeções
por penhas penas fragões
por fragas seixos lapões
por lapas lajes malhões
por poios cerros mirantes
e
pelos leitos dos rios
e pelo mar que é a serra
navegam naves paradas
e correm barcas fantasmas
à neve ao vento e ao sol
em tempestades bravias
em mares de lendas douradas
com fantasmas misturados
que dos rios vão para o mar
e metidas nas correntes
que correm os continentes
trazem lá do mundo inteiro
regressando em nuvens chuva
ou em neve branca e leve
muitas lendas encantadas
notícias da terra inteira
que fazem cantar a serra
em tremendas trovoadas
e medonhos vendavais
ou caindo de mansinho
vão regando a serra toda
e vão tornando o seu ventre
mais fecundo criativo
assim
por este motivo
eu canto o canto da serra
que encanta como as estrelas
que cintilam lá ao longe
e em cada canto tem contos
ou lendas de mouras belas
de feras santos pastores
que encantam quem gostar delas
e cantadas ao luar
ou contadas à lareira
encantam todos aqueles
que têm olhos e sentem
têm ouvidos e cheiram
têm cheiro e tudo ouvem
e com as mãos e o corpo
podem ver e perceber
com muita imaginação
com a sua fantasia
todo o seu ser a cantar
como canta a serra toda
de Á a Z sem parar
vamos
então começar
soletrando letra a letra
a lenga-lenga da serra
que tem o nome de estrela
primeiro
cantam os áaaaaaas
argenteira
avessadinha
alfátima e azinheira
o aguilhão e a azinha
alto tovio e da torre
de são jorge e da portela
da predice ou da perdiz
azimbres albergaria
abitureira abrunhosa
a abuceira a acinza
água alta e aguilhão
aguincho ajax alardo
albagueira e albardeiros
albergaria assedace
a alqueidosa e alforfa
alrote alva alvarrões
alverca alvercas arcazes
e também arcas do pão
arcasos e apertado
argemela argenciana
avesseira atoleiros
azeiteiro de azeite
aldeias
há mesmo aldeias
e aldeia do carvalho
que depois passou a vila
e a aldeia do mato
que passou a vale formoso
mas há aldeia da serra
aldeia de S.Miguel
aldeia viçosa, do souto
dos ferreiros e do bispo
há alvoco ameixoeira
arcozelo e arganil
arrifana e assamassa
assanhados e assanhas
e avô e azimbrais
...
são muitos os áaaaaaas da estrela
pra dizer em ladainha
e podes acrescentar
todos os mais que encontrares
em redondilha maior
com sete sílabas certas
tão ao gosto português
que fala como quem canta
pra melhor dizer de cor
todos os nomes que vês
por toda a serra em redor
nos
bbbbbbbês há barcas barrocas
e barros e barroqueiras
a
boqueira a barroqueira
o boqueirão do inferno
belo de verão e inverno
ou medonho de fugir
a barroca das lameiras
dos espinhos porto novo
a da moura e a do lírio
barroca alta da água
da cruz barrocal do conde
os bacelos e beijames
os brejos barros vermelhos
e os bairros de cada terra
que vive dentro da serra
um baleizão no teixoso
baralha no tortosendo
uma barca de noé
outra barca dos hermínios
barreira e barreosa
beco e bico do corvo
belarteira beringueira
e borralheira (3) em verdelhos
no teixoso e covilhã
e ainda temos a bouça
brejo bugalho e bulde
para os lados da teixeira
barco belmonte e boiça
e ainda a boidobra
mas
os cccccccês do cimo são
mais de cem ou mais que as mães
cabeços cabeças chãos
casas cascatas covões
cerros covas e currais
e os casais e os cântaros
os charcos e os cabeções
comecemos
pelas cabeças
uma que é nome de terra
depois três mais conhecidas
do preto do velho e velha
a darem suas sentenças
a dos velhos do moreira
cabeça gorda e a alta
vem
depois a cabeçada
e mais cabeços sem conta
cabeço da carne azeda
da ereira de s.bento
cabeço de s.joão
do calvário frade e freira
o do ferreiro e do bode
do moreira do maroiço
do monte souto e tolão
do vale da barca dos corvos
cabeço gordo e queimado
há
cadaval e calado
cagarraz e cagãozito
e calçada do inferno
e caldas que têm termas
uma cambaia que é roda
um camelo destruído
campo romão e canada
canariz e candeeira
caniça e carapita
carrapatel carrapata
carreiras e carregal
mais carreira dos cavalos
carreiros de D.Sancha
carreteira carriceiras
carvalha e carvalhal
um é longo outro é do porco
carvalheira carvalhinhos
carvalhos carvalhos juntos
casas
casais mais de cem
por essas serras além
a casa alta e da águia
a da fraga a do penedo
e o casal da ribeira
o da serra e da lameira
de S.pedro do barreiro
do frade do rei reigoso
dos covões do vale do mouro
dos tojos ribas viegas
a
cascata da fervença
caldeirão covão do urso
e do poço do inferno
castanheira
castelão
castelo castro romano
o caxaril e catraia
e os cântaros da serra
são o magro gordo e raso
há a terra centeeira
e centrais que são eléctricas
e o cerrado dos frades
e
com cccccccês também há cerros
da correia da coruja
das taloeiras do gato
e o cerro rebolado
de arcasos e os charcos
e
chãos que dão bom cultivo
há o chão de celorico
da estalagem da poça
da gafaria das barcas
das eiras e da pelota
de s.pedro e do galego
há
o chorido a coitada
o colcorinho os conqueiros
os conchos e a contenda
a corga o corgo das mós
mais os corgos d'argenção
e um corredor dos mouros
a corredoura e o corvo
cova da moura da neve
cova do cepo covais
e
os covões? meu deus são tantos
os covões que são covões
os covões do vale da barca
de loriga e os sarrados
e o covão atravessado
cimeiro da albergaria
da ametade e da areia
da caldeira da clareza
da candeeira da espada
covão da loba parida
do homem e da mulher
covão da ponte da estrela
covão da nave e da palha
o da ronca e da romana
das lagoas e das lapas
covão das quelhas das vacas
de aljubarrota e canelas
o covão de esteveanes
do alva santa maria
covão do boi do boeiro
do braceijo e do bicho
do concelho e do costa
o do ferro e do inferno
o do forno e o do jorge
o do meio e do palheiro
do picoto porto novo
do vidoal do sabá
o do urso e o dos conchos
o fino o grande o pequeno
é covão até mais não
o
covelo o coxaril
e a cruz de vasqueanes
o cume e a cumeada
a cumeada da nave
cumeada da coitada
os currais curral da nave
das mancas e da portela
do vento martins e velho
aldeias
vilas cidades
há covilhã cova lhana
cova da lã conhecida
pela lã e lanifícios
e também ter muitos fios...
e há o cubo ea cabeça
e o cabeço de eiras
calado e cadafaz
carrapichana canhoso
carapita carvalhal
casegas e cativelos
celorico chãos e corga
corujeira e cortiçô
com
o dddddddê só encontrámos
a dobreira e dominguiso
que é terra de farrapeiros
que corriam toda a serra
mas -Dê- entra em todo o nome
desde os altos às varandas
às fragas e aos covões
para cada um ter nome
e os deuses e diabos
os duendes os demónios
dominam a fantasia
que nesta serra se cria
com
os éeeeeees é a estercada
as eiras e ensemil
eira velha escangarinhas
e o espinhaço do cão
da nave e da candeeira
o espinho e os espinhos
há terras:
eirô erada
estevas de baixo e de cima
e há a estrela cantada
que em vez de luzir no céu
se tornou serra encantada
com
éffffffs favão ferreiras
fervença e feteirinhas
flandres fojo fontainhas
fornhas fontão e fábricas
e fontes até mais não
como a fonte do balaio
do barreiro do carvalho
e do chafariz d'el-rei
fonte coitada cortiço
fonte da arca da lapa
da urgueira velha paiva
das furnas e das galinhas
do espinho canariz
do bude e do gorgulão
do maduro e do palheiro
do pires do selim dos charcos
a fonte dos formosinhos
dos perús dos luzianos
fonte fontana dos tardos
fonte santa fonte fria
fonte geleira palheiro
de paulo luís martins
fonte de são sebastião
e
há (i) água em todo o lado
mas nem sempre onde é preciso
mas isso é já outro fado
porque lá diz o ditado
que mais tarde foi canção
ó minha terra tão linda
ó serra dos meus encantos
tens água por todo o lado
e merda em todos os cantos
e
ainda há mais efes
as forcadas o formigo
o foro o forno da moura
o frade a freira as fradigas
e fragas em todo o lado
que escondem bruxas ou fadas
ou pragas de mau olhado
vem a fraga da batalha
fraga batoto da estrela
da malhada dos torrões
fraga da cruz e da morte
pena ruiva pena negra
a da risca da bezerra
das gralhas e da varanda
das penas das navesinhas
das penhas e do carvalho
do mourisco e do lírio
a do rato e do rodeio
fraga grande fraga negra
do b(u)icho e a sobreposta
mais as fragas do amor
as fragas da lapaceira
fragão da estrela da ronca
das moitas e do balaio
do corvo e do passarão
fragão do poio dos cães
fragão da cinza fragões
fragões das penhas douradas
com
efe inda há o freixo
freixeiro e freixial
mais a frágua e o furtado
pró efe estar acabado
e'inda
faltam as terras
a faia e famalicão
fernão joanes e ferro
ferro fontão folgosinho
folgosa da madalena
e também do salvador
fonte arcada e furtado
e mais o freixo da serra
e
no fim do efe aqui
repito pra recordar
os cinco cimos da serra
que guardam vêem manteigas
e vêem o sol surgir
para o ver desaparecer
fragão da estrela da cinza
fraga da cruz e da morte
com mais o fragão do corvo
de olhos bem luminosos
abertos ao pôr do sol
são muralha de respeito
com trovões a ribombar
e são borda do alguidar
ou a pega do penico
que está virado pró ar
com
ggggggguês
há gache e galhardo
há a garganta dos cântaros
e a garganta de loriga
há galhardos e galiza
há gavião e galrado
a geleira e gibraltar
golias e o gorgulão
a granja e a gravancinha
a gruta da candeeira
o gravanho e a grila
o gamão e as gieiras
e pra registar também
as terras que têm -G-
guarda gaia e galisteus
o ginjal e girabolhos
e gouveia pr'acabar
com
agás hhhhhhhs há os hermínios
dos montes ermos antigos
homízio de muitos homens
honrados e perseguidos
como o luso viriato
púnico tântalo lísias
que ali se refugiaram
e dali fizeram guerra
a muitos seus inimigos
da serra e da liberdade
fenícios cartagineses
romanos e muçulmanos
castelhanos e franceses
e até a portugueses...
com
iiiiiiis há vários infernos
o covão
e a calçada
o barrocão
e o poço
aquele que é feio e é belo
mas de um belo meio estranho
repelente e sedutor
na primavera ou no verão
no outono ou no inverno
e igrejas aos milhares
há várias em cada povo
pra venerar nos altares
os santos mais afamados
da corte celestial
o
jota é de tal jaez
gê que se escreve com jjjjjjj
um jagodes ou judeu
uma jóia ou um joio
uma jiga ou jigajoga
que não existe na serra
é tão raro ou é tão belo
que para o encontrar
é preciso ir ao jarmelo
ou aos juncos junto ao rio
mas
com éles llllllls
há lagarinhos
lajeosa do mondego
lajes lapa dos dinheiros
há linhares e há loriga
e há também laboreira
a ladeira do siquô
lagarinhos lage antiga
outras lajes lajoeiras
mais as lajes das lareiras
em cada lar cada casa
onde se acende a fogueira
pró comer pró aquecer
para olhar e pra sonhar
ouvindo lendas sem fim
e estranhas ladainhas
nos longos serões de inverno
mais o lago viriato
e lagoas mais de vinte
ver a lagoa comprida
a lagoa da caldeira
da clareza candeeira
da francelha e da fava
a da quelha e a do cântaro
do curral covão do forno
do pachão
covão do quelhas
e a dos corgos de argenção
lagoa escura redonda
lagoas secas são três
e as lagoas salgadeiras
lagoa rija e serrana
inda
há os lagoachos
mais o lagoacho d'Ângelo
e o lagoacho das relas
os lamaçais as lameiras
a lameira o lameirão
a lapa e a lapa branca
e a lapa da caldeira
lapão da ronca lapinha
lapões e lágeas que é lájeas
lírio leandres lomba
lomba dos poios lombardo
lombardo e lombo louseiro
lozenza e luzianos
e com lllllllês inda há o leite
de toda a espécie de gado
que se apascenta na serra
em rebanhos e manadas
vigiadas pelos pastores
que depois de ordenhado
dá pra beber e comer
em várias formas sabores
como queijos e manteigas
com
émmmmmmms há a maceira
a madeira e maiorais
o malha pão e malhadas
malhada alta e da área
a malhada castelhana
malhada chã e das zebras
da porta das tropecinhas
de cascais do espinheiro
a do cume e do sameiro
a redonda a tramagueira
malhadinha malhadinhas
malhão e malhão da estrela
malhão da torre e o grande
grosso fino e malhoeira
o marco e marinhelas
o maroiço e a matufa
mais as matas nacionais
com os nomes dos locais
meal redondo menoitas
as minas dos azimbrais
miradoiros e mirantes
pra ver vistas deslumbrantes
alguns até são varandas
a moita as moitas mondego
e o mondeguinho onde nasce
e montes... o monte ajax
monte arroio e coitada
monte do castro e serrano
os castelhanos e claros
e os montes ermos hermínios
a moreira do apertado
mortórios morro das águias
o mosqueiro e a muralha
e a mouta do malícia
que é uma de muitas moitas
e maceira e maçainhas
a de baixo e a de cima
mangualde meios e melo
a mizarela e minados
as minas da panasqueira
muro e a vila de manteigas
um
nome bem singular
por só se usar no plural
pra chamar a esta terra
e às lendas que ela encerra
sem ninguém saber ao certo
quem lho pôs e o porquê
gastaram já muita tinta
muitos notáveis doutores
a dizer que é de manteca
que era uma manta pequena
que a gente usava na serra
como a capucha e a capa
e mais outros agasalhos
ou então que é manteigas
o plural não singular
por a terra se espalhar
em várias partes dispersa
como acontece com todas
coisa que é bem singular
pela estupidez que encerra...
!
ora a terra que tem leite
ou leites
de vacas cabras ovelhas
usa o leite como leite
e principal alimento
e depois daquele que sobra
noutros tempos e inda agora
fazem-se soros e queijos
e manteigas pra barrar
o pão centeio ou pão branco
de mistura ou de primeira
que era de trás de orelha
de comer gritar por mais
o queijo mais afamado
como não há outro igual
nas terras de portugal
é o bom queijo de ovelha
queijo mole amanteigado
ou curado tanto faz
que é como o queijo serpa
mais os pastos e o clima
porque pastores e rebanhos
desde os tempos mais remotos
iam prà serra de verão
passar férias pois então
e curar suas mazelas
como depois aprenderam
as pessoas mais espertas
e depois que a neve vinha
desciam até à campina
pra montemor pra monsanto
até serpa até ourique
como nos conta a história
das transumâncias viagens
dos gados e dos pastores
e
além do famoso queijo
com francelhas e acinchos
pra'escorrer a coalhada
faziam-se outros queijos
queijos frescos e curados
mais pequenos ou maiores
menos mais apimentados
e em cestinhos rendilhados
fazia-se um de excepção
que era o belo requeijão
que a ti clotilde vendia
de porta em porta a pregão
quem compra o bom requeijão
fresquinho de trás de serra
e vinha tudo à janela
às portas e aos postigos
pra mercar o requeijão
que a ti clotilde vendia
e depois da volta dada
pra trás de serra voltava
levando trazendo novas
do eirô santa marinha
no seu burro sua montada
como uma moura encantada
que com suas mãos de fada
e a varinha de condão
pra nossa consolação
transformava aquela aguada
que dalguns queijos sobrava
no mais belo dos manjares
só digno de reis e nobres
e de santos dos altares
mas por suas magas artes
chegava à mesa dos pobres
somente por uns tostões
depois um dia já velha
quando voltava pra casa
à tardinha ao fim do dia
passando a serra toda
apareceu só a montada
nas ruas da sua terra
correu o povo à procura
e encontrou o que restava
dum festim bem pobre e parco
que os lobos naquela noite
tiveram desiludidos
pois só teriam achado
pele e ossos e farrapos
que a ti clotilde vestia
muito limpa muito esguia
triste e nobre senhoria
com
énnnnnnnes há a nordia
negruin e as nateiras
e as naves que são só naves
as naves da candeeira
a nave da albergaria
da argenteira da areia
da mestra e da gadelha
das travessas e das rãs
de dom pedro santo antónio
nave descida do arco
do esporão santo estevão
do tornáqua do gamão
do valongo vidoeiro
e
depois as santas todas
da corte celestial
pra dizer em ladainha
nossa senhora da ajuda
senhora da anunciação
estrela apresentação
conceição boa viagem
da graça e da piedade
da guia e da saúde
das cabaças das cabeças
das dores das luzes das preces
de fátima e d'assedace
de la salette do amparo
do desterro e do carmo
do espinheiro do encontro
a do porto e do rosário
do souto e do socorro
dos carneiros dos pastores
dos remédios dos prazeres
nossa senhora dos verdes
da conceição e da estrela
a
nogueira do lugar
nabainhos e nabais
nespereira e novelães
e énes já não há mais
que constem nestes anais
e
assim chegamos aos óoooooos
de orjais e dos outeiros
que os há até de mais
em cada terra e lugares
como o da siquô da vinha
de pero mendes do rei
de s.miguel da ribeira
da outra terra e daquela
e depois há o orgal
a olheira e ouradinho
as ovelhas que dão leite
e aquele queijo saboroso
como não há outro igual
e dão a lã pr'aquecer
os invernos rigorosos
e -Ós- procurem outros
que são da cultura oral
porque já dizia o outro
que dizia saber tudo
nada disto está completo
fica completo contigo
quando tu acrescentares
tudo aquilo que encontrares
e aquilo que criares
pois nestes anais orais
que são os nomes da serra
e os contos tradicionais
ou os cantos populares
cada um de sua lavra
mete ponto tira ponto
próprio de quem conta um conto
rapa tira deixa põe
como o jogo
e assim se mantém viva
sempre nova
a nossa cultura oral
que ainda por ser escrita
não vai perder a frescura
e a alegria de ser dita
e redita e desdita
depois tornada a dizer
a dizer e a ser escrita
e assim enriquecida
vai ganhar um novo alento
escrevendo para ler
pra rasgar e deitar fora
cada um acrescentando
aquele segredo que ouviu
ouviu contar descobriu
e vai sonhando e criando
deixando que os outros criem
e assim pode perdurar
sempre sempre sem parar
este tesouro impar
que é a tradição oral
se isto não acontecer
e vierem os doutores
os sábios que sabem tudo
aqueles que têm os livros
cagar postas de pescada
pois eles é que sabem tudo
os outros não sabem nada
dizer-nos que eles é que sabem
o que é tradição oral
e eles é que a vão escrever
pra ficar definitiva
e guardarem a cultura
pra seu proveito e provento
aquela que é popular
e se vai criando oral
sempre sempre original
sempre sempre a renovar
em cada espaço e idade
em criação permanente
e a fecharem nos livros
pra ficar guardada e salva
oh! desgraça nacional
ia perder-se o tesouro
da nossa cultura oral
e pppppppês são a dar pr'um pau
ou a dar por paus e pedras
a palmatória e o pandil
paramol e paradela
a de baixo e a de cima
a pardieira e pateiro
as pedras
pedra aguda pedra alta
a da figueira e a da loba
da mesa do galo urso
pedra pensil dos abraços
pedra longa sobreposta
pedras gieiras lavradas
pedras vermelhas pedrão
o pedregal e pedreiras
pedreira fina pedriça
pedrigueiro ou perdigueiro
pena negra pena ruiva
pendil pendilhe e pião
o penedo das pedrinhas
o penedo do ladário
penedo furado e gordo
penedos altos e penhas
penha ângela do gato
dos abutres e furada
penha longa penha rasa
e as penhas da saúde
também as penhas douradas
penesinhos percavada
peso da lã e pelourinho
o picoto e o piloto
picacino piornal
picos vários
o da maruja e da agulha
outros muitos tudo é pico
como é da lagoa seca
planalto da expedição
planície da marinela
piornos poças e poços
poço da várzea das eiras
poço negro do inferno
do gidro do zé d'avó
e o pego
e os poços de loriga
poios?
poios brancos poios negros
poio da morte das águias
do judeu do mata-cães
o negro do passarão
pomar de judas e pontes
ponte cabaça de ourique
da caniça de cabaços
de leandres de pai diz
de manta em collo do rato
ponte dos frades dos garfos
ponte jugais ponte longa
ponte pedrinha são duas
lagarinhos covilhã
ponte nova em todo o lado
onde a velha ficou velha
porqueiras pousos e prado
portas do covão do boi
e as portas dos hermínios
portela d'arão da cruz
porto cabrita da roda
porto novo do cabrito
pousada de s.lourenço
pousadinha e pragueiro
paços da serra paranhos
paçoinhas pardieira
pero soares passarela
paúl peso pêra boa
peroviseu e pinhanços
porcas pomares e prados
a póvoa a nova e a velha
e os -PPPpês- ficam por qui
mais
os pastores e os pinhais
com as pinhas e os pinhões
que foram sempre rivais
c'os das matas nacionais
por variadas razões
- que tiram o pasto ao gado
- que a serra assim é mais rica
e enche os cofres do estado
e até é mais sossegado
ter riqueza dos pinheiros
do que andar atrás do gado
e houve muitas questões
e até houve prisões
porque as florestas ardiam
- é que foram os pastores
- porque torna e porque deixa
- foram sim os madeireiros
- foi o tempo do calor
- os caçadores é que foram
ou então os passeantes
que deitam fora o cigarro
ou fizeram um magusto
foi o povo descuidado...
e foi aquele reboliço
e veio a guarda e a tropa
e lá vieram as matas
uma riqueza afinal
que é pra todos nacional
mas os pastores que o eram
e lá ficaram sem pastos
foram ficando mais pobres
mais ainda do que eram
p'rós outros ficarem ricos
pois a riqueza do estado
co'as matas que matam fome
vai por lá dar tantas voltas
que nunca chega a acudir
ao povo que foi roubado
e quando vier
se vier
são outras fomes que matam
as matas
nunca aquelas que matou
com
qqqqqqquês
queijeiras queijos e quintas
queijeiras que são de pedra
perto do cume da serra
ali pró covão do boi
a ver o cântaro magro
mas escondidas de quem
não tem pernas para correr
nem tem olhos para ver
os cantos que a serra ten
mas
há aquelas queijeiras
e essas não são de pedra
são mulheres com mãos de fada
que fazem em portugal
o queijo mais saboroso
que ainda não tem rival
com fama internacional
além
dos queijos queijeiras
há queiroz e há quintela
quintãs de baixo e de cima
e QUINTAS
que ladainha...
quinta branca cá e lá
a da abadia de baixo
a da abadia de cima
da alogoa e da alverca
a da bica e da baiuca
a da boiça e da cabeça
carrapata carvalheira
da cerdeira castanheira
a quinta da corticeira
da cova da cruz da estrela
da flandres frança de baixo
da ínsua da lajeosa
da medronheira maceira
da panasqueira olivosa
da portela ponte nova
da pousada da raposa
a da rasa e da ribeira
da salguera da samela
da serra taberna e várzea
das lajes da veringueira
das lameiras laranjeiras
das moutas e das morenas
das rochas rosas e vinhas
das trigueiras de cesteiros
de ferreiros lamaçais
moreirinhas s.miguel
de são pedro santo antónio
do algarvio alvercão
do arangonha arcipreste
do arco de são joão
do azeiteiro do azevo
do baleizão do brancal
do carrapatelo e braz
carregal e cabecinho
do chorão do carvalhal
do cigano do cipreste
ou será do acipreste
do corges e do covelo
do crestelo do malhô
do ouradinho do mogo
do mirante do mondego
do ourandinho do paço
do pisco pombal e prazo
do pinheiro do pombal
a do ribeiro e do rio
do rochoso do salgueiro
do tapado do toural
do sarradelo valbom
dos alferes do vale pereiro
dos chões dos coutos covais
dos covões e dos expostos
dos fidalgos e dos freixos
e as quintas da ribeira
nossa senhora do carmo
do almargem e do pena
e a do pinheiro de luzes
quintas novas quintas velhas
quintais grandes e pequenos
que podes ficar cantando
sem nunca mais acabar
o
érrrrrrre é letra corrente
nas terras que tem a serra
nas ruas rios ribeiras
nos ribeiros ribanceiras
que são mais de mil correndo
cantando por entre os montes
abrindo vales em viagem
desde as fontes ou nascentes
até chegarem ao mar
até serem UM A MAR
o grande MAR sete mares
que banham os continentes
as
terras rapa rabaça
as rabaças o refúgio
e ainda ribamondego
e rio que não é rio
é rio torto que é terra
e
os rios que são rios
são o zêzere que em constança
se lança ao tejo pr'Á mar
e correndo lá da serra
corre o alva numa fúria
que finda feroz na raiva
morrendo no outro rio
o mondego
mondeguinho mondegão
que ora é manso e discreto
mas logo é aluvião
cobrindo inundando as terras
fecundas que davam pão
deixando a fome a miséria
entre as gentes consternadas
que logo a seguir milagre
vêem as terras mais ricas
cheias de seiva e de vida
transformando o que era estéril
o que era morte e desgraça
de novo em vida e esperança
para ser cantado em coimbra
por poetas e doutores
estudantes e amantes
que chorando seus amores
em cantos fados dolentes
lançam nas águas correntes
suas mágoas suas dores
que por arte ou por magia
se transformam em sementes
que vão perder-se no mar
que vão mudar-se em A MAR
os
rios levam da serra
com ribeiros e ribeiras
lagoas fontes cascatas
as águas quanta riqueza
ela tem e ela encerra
fecundando toda a terra
através dos oceanos
depois
sugadas pelo sol
vão voar pelo universo
em nuvens fumo vapor
e cair de novo em terra
em manto branco de neve
ou cordas de chuva fria
que são lágrimas sentidas
que na terra tudo criam
ou matam na sua fúria
ribeiras
que vão pr'ós rios
e dos rios para o mar
a ribeira da avesseira
ribeira da água alta
da caniça candeeira
barroqueira carpinteira
da degoldra da carvalha
da erada e da estrela
a da fervença e da nave
a da fragueira das naves
a da malhada da cova
a da serra da esperança
da mondaria das cortes
e a das penhas douradas
a das lameiras de alforfa
de alvoco e de balocas
de beijames de caria
de casegas e de corges
de loriga e de pandil
de pendilhe de s.bento
de s.paio e de sazes
de seia de unhais da serra
de valezim do malhão
a do barrocão do lobo
e a do covão do urso
que será do vale do urso
a do minho e do paúl
da rabaça do seixal
a do teixo e da teixeira
do tornáqua dos castelos
dos negros do vale do conde
também do vale do buraco
das forcadas da fragueira
depois
vêm os ribeiros
ribeiro branco da granja
do torno da lobagueira
aquele da fraga do bicho
das fôrneas furnas ou fornhas
será furnhas?
de cabaços de leandres
do careto s.tiago
do valongo dos siqueiros
e os ribeiros e ribeiras
de cada vila e lugar
e as regadas
que em levadas são levadas
guiadas plo almotacel
pr'à guardar e distribuir
pois
em toda a roda da serra
linhas de água que são rios
corgos ribeiras ribeiros
contadas são mais de mil
a correr e a girar
em rodas fabris azenhas
em moinhos e outros engenhos
que tanta riqueza dão
além das flores e do pão
e
com -Éérre a ribeirinha
as rabitas e o rafeiro
a rosa negra o roncão
e a relva do cambaia
que é roda ou é só curva
e
a rua das roseiras
do inferno dos conqueiros
a rua dos mercadores
e as ruas direitas tortas
que há em todas as terras
com os nomes mais diversos
com
éssssssses há sanatórios
covilhã manteigas guarda
nas puras penhas douradas
e nas penhas da saúde
e
há seixos serras sítios
e soutos por todo o lado
os
seixos são seixos brancos
e também seixos vermelhos
serras
de dentro da serra
da alvoaça da lucrécia
serra de bois de crestados
serra de mor e do boi
do espinhaço do cão
que sei eu de tanta serra
que há por dentro desta serra
a serra chamada da estrela
serra que todas abraça
e
os sítios
do troval e do pandil
o da casinha e do vale
e
o soutos
da peçonha de s.pedro
e o souto do concelho
e
depois com Éésses são
nomes de santos e santas
que são a corte celeste
que se mudou lá do céu
enchendo a serra de festas
de capelas romarias
que quase podemos crer
nesta ingénua heresia
de que há mais santos na serra
que no céu! quem o diria!
mas é ver a freguesia
que há em cada freguesia
em cada igreja ou capela
c'um altar em cada canto
e em cada canto de altar
há sempre mais um lugar
pra venerar mais um santo
santa
filomena foi
e depois deixou de ser
santa de muitos lugares
santa eufêmia há em melo
e também em videmonte
e outros lugares da serra
como há santa luzia
pra curar o mal dos olhos
e santos
há santo andré
santo antão e santo antónio
santo estevão e são bento
são domingos são geão
são gabriel são joão
são lourenço são romão
e o santo são sebastião
e ainda são tiago
são marcos e o são jorge
e há são romão e são paio...
e
o senhor do calvário
de manteigas e gouveia
e de mais terras sei lá...
como há senhor dos passos
em toda a terra cristã
que tem de chorar os pecados...
e o senhor da ribeira
o senhor jesus jesus
e a senhora do calvário
e a senhora do desterro
mais a senhora da lomba
e a senhora do monte
e a senhora dos verdes
que pode matar o b(u)icho
e
com Éésses inda há mais
siquô e sete capotes
sete
cabeços lendários
sentinelas de loriga
luzianos e s.bento
cumeada da coitada
a torre e o malhão grosso
a penha do gato abutres
e
inda há salgadeiras
samella e salgueiral
sanfaneiras e salgueiro
o de baixo e o de cima
e o siquô e o sumo
e a pedra sobreposta
e a santinha o sapateiro
a sargaceira as sarnadas
sarraçais de baixo e cima
e o seixal de muitos seixos
mais
Éésses¯ inda há nas terras
nas povoações e lugares
são cosmado são geães
são gabriel e são paio
são romão
são martinho santa comba
santo amaro santiago
santa marinha sameiro
sabugueiro salgueirais
sameiche e sandomil
sarzedo sazes da beira
seia e seixo amarelo
mais o sobral de casegas
e souto e o soutinho
o
tttttttê tem na torre o alto
talegres e as taliscas
taloeiras taloeiro
taloeiros e tapadas
tapada do gidro isidro
tarlamonte ou terlamonte
terroeiro ou terroeiros
terras vermelhas trapique
o tornáqua ou torna ágoa
o trancosinho e o touro
o troval e os trianos
trigueiras troncha e trocha
e tázem a vila nova
a teixeira e o teixoso
terlamonte e torroselo
o tortosendo e tourais
e os trinta pra tirar
rapa tira deixa põe
o
uuuuuuu uiva com os lobos
uivavam que já não uivam
e os ursos que não houve
mas há na pedra e covão (do urso)
com
vvvvvvvê há um vasto mundo
vales varandas e várzeas
vale boalis do castelo
vale d'adega d'argenteira
vale da barca candeeira
vale da nave da guedelha
vale da moira vale das éguas
vale das lapas vale de cabra
vale de cida (decida?) de perdiz
o vale de santo antónio
vale de unhais vale do buraco
vale do conde do rocim
do facarão vale do zêzere
vale formoso vale mourisco
o vale da barca fundeiro
vale da idanha dos criados
e valongo um vale longo
e inda o vale do toráqua
e os vales dos grandes rios:
o do zêzere glaciar
dos mais antigos do mundo
o vale do mondego do alva
que correm juntos p'róAMAR
depois de juntos na raiva...
a
varanda de pilatos
varanda dos carqueijais
varandas e vasqueanes
a várzea a várzea do crasto (ou do castro?)
e a várzea do galego
veringueira vidoeiro
vila de mouros e volta
e
vales nome de terras
como é vale de amoreira
vale de azares vale de estrela
vale formoso vales do rio
valezim e vasco esteves
valhelhas vela verdelhos
vide entre vinhas e vodra
videmonte vila chã
e vila cortês da serra
vila cortês do mondego
vila cova à coelheira
e vila nova de tázem
e vila soeiro e vinhó
com
xxxxxxxis só XO que é o som
que dá efeito contrário
se diz XÓ: o burro pára
se diz XÔ a pita foge
e é de xis pê tê ó
ou é de cabo d'esquadra
quando está ao pé dum rio
quer dizer
despe-te e nada
com
zzzzzzzê o rio zêzere
há zebrais e o zorrão
e os zés e os zeferinos
dando
volta às letras todas
consoantes e vogais
são os nomes desta serra
que soam como uma festa
uma ladainha um hino
uma infinda lengalenga
a nominália da serra
que canta por todo o lado
e com os nomes das terras
sua origem e destino
e
como os nomes da serra
como os nomes do universo
são nunca mais acabar
mesmo cantados em verso
com o Zzê é que é de vez
um dois três vou terminar
ESTE É O CORO DA SERRA
DA SERRA DA MINHA TERRA
QUE SE CHAMA DA ESTRELA
E NOS NOMES QUE ELA GRITA
POR TANTOS LUGARES E TERRAS
MUITOS SEGREDOS ENCERRA
A REVELAREM MISTÉRIOS
QUE SE PERDERAM NO TEMPO
OU QUEM SABE? SÓ ESPERAM
QUEM OS DESCUBRA E DECIFRE
E AO LÊ-LOS, QUEM DIRIA
PODEREMOS DESCOBRIR
QUEM FOMOS E O QUE SOMOS
O QUE SERÁ O FUTURO
DESTA SERRA, DESTAS TERRAS
E DA GENTE QUE A HABITA...
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NOMINÁLIA
II
A
NOMINÁLIA segunda
é a festa com OS NOMES
DAS GENTES DA MINHA TERRA
da minha terra na serra
lengalenga ladainha
das alcunhas dos apelidos
cognomes com signo ou selo
que o povo dá a si mesmo
chamando-se uns aos outros
nomes que revelam bem
algum defeito ou feitio
uma aptidão ou tendência
e como os sítios da serra
as gentes da minha terra
como em muitas outras terras
ou todas pra ser exacto
têm nomes quais sinais
que não vêm nos anais
do registo ou da história
mas que revelam por certo
algo pra ser descoberto
eles
são palavras são letras
e são contos de encantar
são lendas e são histórias
do passado e do presente
e toda a serra é memória
da vida da minha gente
que nasceu lá da semente
e lá jaz e é semente...
nomes
que são de registo
no batismo e no civil
são por certo mais de mil
se os contarmos bem insisto
e revelam também eles
a origem destas gentes
que vêm do ventre da terra
tal como os nomes da serra
são
matos silvas pinheiros
pinhos serras e cravinos
fragas rabaças e pereiras
duartes estrelas ferreiras
carvalhos rosas almeidas
biscaias direitos esteves
capelos cletos e neves
domingos massanos leitões
mondegos bastos ferrões
cunhas e pratas e brancos
gaspares melos e mamedes
paivas pintos oliveiras
registos santos e veigas
mais viegas e tacanhos
e direitos que são tortos
os de deus que são diabos
velhos que ainda são novos
e novos mesmo já velhos
...
há
de certo muitos mais
mas estes que aqui registo
são exemplos são sinais
dos mais que estão no registo
nos livros e nos jornais
no civil e no batismo
herdados dos nossos pais
e por isso aqui desisto
pra cada um aumentar
os mais que podem faltar
mas
outros nomes há mais
que não vêm nos anais
nem se lêem nos jornais
que se fazem normalmente
mas todos sabem demais
no seu bairro ou sua rua
são nomes próprios banais
desses que não reza a história
existem só na memória
do povo pra sua glória
que por amor à verdade
ou por pura arte ou manha
faz o seu retrato próprio
apontando ao seu vizinho
aquilo que o caracteriza
por um defeito ou feitio
mais defeito que virtude
por uma simples tendência
ou particularidade
que revela ou revelou
ou simplesmente a herdou
às vezes sem saber como
são
nomes que todos sabem
sem saber como ou porquê
ditos quase sempre em segredo
sem se saber quem os pôs
mas se tais nomes chamais
áquele que tem esse nome
o que pode acontecer
como nos casos fatais
dos dramas e das tragédias
é o que houvera de ser
se não fugirdes levais
pra ficardes a saber
que não são nomes legais
em nenhum certo registo
da igreja ou do civil
e se o diz por distracção
deve dizer de seguida
desde já peço perdão
ou então com s'ua licença
bastando até muitas vezes
simplesmente um salvo-seja
com permissão dos presentes
mas
acontece por vezes
curiosa situação
chega alguém a esta terra
forasteiro ou viajante
que não conhece os costumes
usados por esta gente
e pergunta por um nome
do batismo ou do civil
que recebeu numa carta
ou conheceu nos estudos
ou na tropa ou no trabalho
e que pode acontecer?
vêm logo mais de mil
a dizer não pode ser
não sabemos quem ele é
esse nome que dizeis
não é conhecido aqui
pra saber quem indagais
é preciso saber mais
sabeis acaso ou por manha
o nome do "parecer"
que a gente de cá lhe chama
espere aí vamos ver
vem
então toda inteirinha
uma enorme ladainha
é
talvez o zé d'avó
alaú ou albardeiro
o bísaro ou o biló
o peteto ou o boeiro
é da maria pópó
ó por lá o brasileiro
ou da maria nhó-nhó
afasta fogo ou agé
se não for menina amélia
um laricas invertido
macho ou fêmea não se sabe
ou então um femeeiro
um machão um prevertido
pode
ser zé alegria
um primo do zé tristeza
zé babéu ou zé béubéu
zé agonia ou arjão
ou arjoa ou amarelo
ou bichas ou caganeta
ou então é malagueta
o tó francês ou o cardas
o cardépia ou o mereira
o tripa negra o facadas
o zulmira ou o poeira
se é que não é perneta
ou talvez seja penetra
pode
ser um acaxi
o badana o trinca espinhas
acerta augusto caçalha
calçana bamba bandinha
cácágramasso conapa
talvez
seja cafagé
o canholas o baiaia
e o carapanta não é
o da relva do cambaia
será
acaso o farnhote
que fez fugir os franceses
será chamba ou é chaqueto
é o léria ou é o bamba
bandeira da paz batata
bácaro que será bácoro
ou baracinha ou borracho
ou borracha já bebida
que já de tanto beber
directamente da pipa
agora basta beber
água boa e abanar
pra ficar abananado/a
então
é joão dos bairros
caravela gordo ou pote
e se for pote de nome
pode ser pote das migas
ou pote das azeitonas
se não for pote das iscas
ou até pote das nicas
é
chiloa ou é benfica
o brasileiro ou bugalhas
o brilho do cemitério
dos brutos ou caga tacos
é cagatas ou café
é canelas ou caldaz
é carqueja ou cara d'aço
é champa ou é chichàpão
é churro ou é chocalhão
coelho de casta ou colega
cornélia cruto cruzita
ou cruzinha digoela
é
talvez nome de bicho
mocho mocha passarelo
cu de pavão cu de pita
coelho morto zé da coelha
pode ser touro ou bezerro
zé das vacas ou bezerra
é chibadorro ou cão negro
é chibinha grilo ou grila
olho de grilo reguila
ou lagarto ou lagarticha
ou mil bicos rato ou rata
ou então pita gordinha
é carriça ou é carraça
ou é chicha bacorinha
ou é peixeiro ou setenta
é lebrinha ou passarão
é marrão ou é merrinha
cuco abelha ou andorinha
...
ou pelo sinal do pêlo
fica logo sem apelo
e pode ser má-cabelo
pêlo na venta sem pêlo
que é careca ou é capelo
o lourinho ou o marrafa
ou o ruço de má pêlo
o mancha negra ou o franja
penteadinho com risca
o poupa negra ou arisca
o pestanudo ou pestana
e a teresinha das ondas
e
terá certa mazela
e logo se dá com ela
seja escondida ou à vista
pois como diz o rifão
vê-se melhor o argueiro
lá no olho do parceiro
do que no próprio isto é sina
ou então é maldição
e ninguém toma lição
de tão evidente ensino
e toca de ver no outro
aquilo que tem mais torto
se é farromba ou é maroto
e como quem torto nasce
tarde ou nunca se endireita
cada qual vê um aborto
onde quer que a vista deita
então
é o quatro em vista
é coxo mudo olhalá
é bucha estica pernadas
ou é palito ou fininha
meia nalga magrizela
meia leca managite
ou espirra canivetes
é redanho ou é pirete
pelado paloio paloia
o nalguinhas e o cega
mas o cega não é cego
é cega por ouvir mal
o que é mais original
é tição gago ou ticito
ou cego de gota serena
pasta couraça ou pisquinha
ou pode ser maravilha
é coto lila ou chibinha
porque é corcunda com chiba
que não a cabra montêz
é da comadre sechia
quatro copos merda frita
garrafão ou o ganilhas
o galhetas ou a laide
a lili ou o palmeiro
o póvoas que era o póvas
ou o zé da fonte santa
é gacho verde maranhas
chupa rolhas o pinguinhas
o chifres do rei d'itália
que um dia foi ao doutor
com sífilis hereditária
é pirra piernes nhó-nhó
zé da cleta tá canhota
feveia pacha fadocas
catrâmbias ou trambolhana
é polainas revoltoso
diabo ruim galhetas
corta rabos e pelada
o metralha zé pequeno
o passianda varisco
ou então o joaquim sono
pernas de aranha de guita
picete pichas picetas
pirolau piça piascra
rela pintelho redolho
reipreto tocha torrado
tarau de bruxa sité
o trempas o turva pipas
triciclo trangalha danças
o tudinho o varatojo
as virgens e o da joana
o vida nova o porli
o mocas e o muchana
o pilatos o passinha
o passos e a palhaça
a migar os macavencos
o santa rita o sabonete
o padre cardas o nega
os gaspares e os gasparões
a jonja freches ferral
o zé viúvo e o concho
um nunca mais acabar
também
pode ter o nome
que lhe vem da profissão
e isso não é senão
se não virem que se pode
pegar nela sem razão
quartelas
e quarteladas
por medir ou guardar quartas
ou então joão pilão
se a sua profissão
é andar às marteladas
e o peixeiro era setenta
vá-se lá saber porquê
e o ferreiro é ferrador
e o cardas é cardador
por meter cardas nas botas
ou tirar cardas dos fardos
ou por pregar as janelas?...
pião das nicas se gira
a fazer muitos recados
é lapaincha ou riquinho
que é o jaquim requinho
pode ser comendador
por receber a comenda
ser comedor ou dador
que dá depois de tirar
para assim tudo mandar
ou é o manel das couves
que traz à praça fresquinhas
as alfaces das forcadas
onde foram bem regadas
mas como não dava nada
e a fome já apertava
emigrou para os brasis
e diz a a gente espantada
lá se vai a horta toda
no barco pela borda fora
é guerrilha pataquinho
guita castanha pilada
o zé da rosa ou esbica
ou é zuefa estrelada
ou então é zefa pica
é manelão ou manina
rosmanheira lambe pratos
lambe botas corta rabos
afoga almas aflitas
ou então afoga pitas
endireita almotacel
que é também almotacé
geirinhas e gerandim
jaqueta curta gravatas
zézinho da loja nova
a condessa e a marquesa
o marra e o mata lobos
o matorro o martelão
o mestre serra o metralha
também o rei do petróleo
o sapateiro a forneira
clotilde dos requeijões
o sim-sim veste senhoras
o cabreiro e o pastor
o moleiro e o vaqueiro
o carteiro o cobrador
o gaitas amola tesouras
o farrapeiro o peleiro
o dos tomates de fora
o mercador ferro velho
o faz tudo e o feirante
o homem dos sete ofícios
e o dos sete instrumentos
o palhaço o saltimbanco
o coveiro e o recoveiro
o cesteiro e o latoeiro
o barbeiro o joão semana
o feirante o lenhador
o sacristão o vigário
regente mestre da música
a queijeira e o queijeiro
almocreve maioral
o cavador cortador
o capador matador
o professor o doutor
lavadeira costureira
o operário o cantoneiro
...
e tanta gente sem nome
que todos bem conheciam
por aquilo que faziam
...
e
pra todo o pessoal
que não tem um nome certo
neste imenso festival
de alcunhas arraial
a nominália concerto
festa de nomes geral
tem pra eles um nome certo
é macarraonco ou chaveco
ou então é macavenco
se é de baixo ou se é de cima
de acordo c'oa freguesia
são pedro santa maria
em alegre romaria
e então se metia a banda
de cima a música velha
de baixo a música nova
e a tocar não convencia
a de cima aos de s.pedro
de baixo santa maria
era ver a festa rija
com cornetas a voarem
os bombos a rebentarem
e as mocas a acertarem
no lombo da outra banda
aqui d'el rei ó da guarda
e a festa ia acabar
para alguns no hospital
e os outros numa enxerga
ou então no chelindró
ou na adega do vizinho
jurando vingança certa
logo na próxima festa
mas
ali tudo é amigo
quando não é inimigo
indiferente é que não é
nem passa despercebido
e
ninguém se fica a rir
porque algum nome há-de ter
além daquele do registo
da igreja ou do civil
do notário ou do batismo
como acima ficou dito
quem
lho põe como é crismado
ou porquê ninguém o sabe
por
ter crença ou por ter
por ser novo ou costumeiro
ou por chorar ou por rir
por andar sério ou folgar
sossegado ou folgazão
na ssossega ou na folia
metido em casa calado
ou andar sempre metido
em altas cavalarias
por fazer mil tropelias
ou metido no seu canto
por ter encanto ou não ter
por andar em aventuras
ou na lida rotineiro
por ter cão ou por ter gato
por ter rafeiro ou não ter
por fazer gato sapato
ou por o deixar fazer
por ter sapato ou ter chancas
botifarras ou botinhas
por ser galo dum poleiro
se deixar empoleirar
por ter lá no galinheiro
uma galinha pedrês
ou nada disso lá ter
seja
de dentro ou de fora
venha por mau ou bom tempo
em malvada ou boa hora
venha pr'ali veranear
ou uns anos trabalhar
uns dias umas semanas
pra ficar ou ir embora
ou então se isso sabe
e pra não ser nomeado
nem sequer lá põe os pés
mas isso for constatado
é coisa certa e sabida
que algum nome há-de levar
nem que seja vou de volta
como aquele que foi de volta
pois ia pra outros lados
e não quis ser batizado
ou
é lá de trás de serra
se é dos lados de gouveia
do eirô santa marinha
de são romão ou loriga
ou das encostas de seia
...
se vier da outra encosta
dos lados da covilhã
ou terra dali ao pé
lanzudo é o que ele é
dê lá para onde der
quer saiba o que é a lã
ou mesmo sem o saber
pode ser um tecelão
gerente debuxador
que trabalha nessa arte
mas se até é engenheiro
doutor médico ou barbeiro
um pobretana ou ricaço
lanzudo é que ele há-de ser
se não houver outro nome
que vá quadrar a preceito
e
se é de outro lado
ou é raiano danado
ou cigano desterrado
venha lá donde vier
é mouro se é o algarve
ou do sul do alentejo
é galego se é do norte
alfacinha de lisboa
tripeiro se é do porto
e
então se tem defeito
uma arte uma virtude
uma mania ou um jeito
boa pinta ou má saúde
mesmo só vindo no verão
às caldas pra se curar
nas águas da fonte santa
ou nas águas sulfurosas
leva ali logo bem feito
um nome bem a preceito
que diz gozo ou diz respeito
em geral diz ironia
que em regra acerta em cheio
no retrato do sujeito
tirado a corpo inteiro
mais de dentro que de fora
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