Serra da Estrela - Manteigas

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7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

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CONTOS e LENDAS da minha STerra - Manteigas e da SERRA da ESTRELA

UMA LENDA de MANTEIGAS

A LENDA DE MANTEIGAS

por José da Serra

- diz Lucas Batista que diz Barjona de Freitas... "... passou um touro que lhe arrebatou a criança..." ..."e só parou onde está edificada a vila..."

- Lenda de Manteigas - o refúgio de Hermes, que explica o nome e as características...

- As referências à Mitologia Greco Latina - Hope Moncieff e Edith Hamilton

 

UMA LENDA de como foi descoberto o lugar onde hoje é

MANTEIGAS

e do PORQUÊ de ser este nome usado, contrariamente ao uso corrente, no plural - manteigas... & o que são os ribeiros e ribeiras que serpenteiam pela Serra...

vide: In Manteigas, llogar metido no meio da Serra da Estrela honde as gentes areceavem acentar vivenda
Uma resenha histórica de José David Lucas Batista, investigador de História local
In Boletim Municipal, Nº 5, 1996.

"Em face deste quase vácuo documental não admira que o aparecimento de Manteigas tenha passado a constituir matéria mítica, dela tratando A. Sanches Barjona de Freitas (3).

Assim ele escreve que a lenda conta a fundação desta povoação do seguinte modo.

«O povo mais antigo das proximidades desta região era o povo Cimeiro, hoje freguesia de Sameiro, do Concelho de Manteigas. Numa ocasião em que estava à porta de casa uma mulher daquele, tendo consigo uma filhinha, passou um touro que lhe arrebatou a criança e fugiu. A mulher perseguiu o animal e só onde está edificada a vila é que pôde reaver a criança,...
Em perseguição do touro vieram também outras pessoas, e reconhecendo que o sítio era azado para viver, construíram algumas cabanas onde habitaram...»

«Deixando de lado a sugestão mitológica clássica contida na criança arrebatada por um touro, cujo paralelismo com o rapto de Europa perpetrado por Júpiter que tomou a forma desse animal como disfarce, e ainda a menção, sem dúvida de influência literária, dos "férteis prados do vale do Zêzere", onde apascentavam cabras, ovelhas e vacas, um aspecto muito relevante, do ponto de vista do isolamento há a considerar, e tenho em mente a passagem, por etimologia popular, talvez intencional, de Sameiro a Cimeiro. Esta evolução justifica-se pela circunstância de tal agregado ser realmente o último e o de maior altitude antes de Manteigas, no vale do Zêzere, de jusante para montante. Esta notação de fim do mundo encontra-se reforçada pelo reconhecimento de ser o sítio azado para viver "e com a afirmação de que" construíram algumas cabanas onde habitaram (4) consentânea com o surto espontâneo de povoamento inicialmente registado. O carácter bucólico de "locus amoenus", que aqui se nos depara, revela-se único, porquanto ao longo de vários séculos os dados documentais que apontam Manteigas como "locus horrendus" são em número bastante maior.»

 

Ora, neste meu humilde árduo e feliz ofício de servidor das azeréirides - as deliciosas brincalhonas ninfas desse vale glaciar do zêzere coube-me em sorte ir apanhar o que o ilustre escriba deixou de lado... «Deixando de lado a sugestão mitológica clássica contida na criança arrebatada por um touro, cujo paralelismo com o rapto de Europa perpetrado por Júpiter que tomou a forma desse animal como disfarce...» e contar-vos de novo aquilo que muitas vezes já haveis ouvido desde tempos imemoriais, para de novo encontrar as ligações do nascimento de Manteigas ao nascimento da Europa e à fundação de Tebas...

Cantam assim a LENDAS ANTIGAS:

UMA LENDA DE MANTEIGAS

Ora, exactamente no ponto em que o ilustre investigador da história local deixa de lado a sugestão mitológica do engenheiro sivicultor, é exactamente aí que o pobre poeta contador de petas e istórias decide interessar-se pelo assunto.

O velho jovem figura de mulher, sentado na sua centenária cadeira de baloiço na sua varanda aberta sobre o vale do zêzere, deixou pender a cabeça branca de neve sobre o peito arfante e, de olhos velados pelo cansaço dos anos, começou a divisar a azeréirides, que em forma de libelinhas - teresinhas, borboletas e tira-olhos lhe apareciam a zunir aos ouvidos como a centenas de crianças do tempo da sua meninice, em que as nossas avós nos contavam deliciosas istórias à lareira, donde pendiam os apetitosos enchidos...

Como Ovídio, o poeta latino do tempo de Augusto, que era "um autêntico compêndio de mitologia" ele sabia que "os mitos não passavam de meros disparates", mas, como ele percebeu que "Não importa serem absurdos..." se forem servidos ao povo com aqueles artifícios apropriados que o levem a gostar deles como se se tratasse de um irrecusável manjar acompanhado de uma inebriante e preciosa bebida irresistível a paladar...

As azeréirides, ninfas zoomórficas do rio que corria ali ao pé, zuniram ao seu redor vezes sem conta e mostraram-lhe a velha istória do Zeus, que do seu trono lobrigou a jovem Europa a acordar descuidada naquela manhã junto à praia e, apanhando a sua ciumenta Hera - Juno distraída a vingar os seus ciúmes numa outra qualquer das suas amantes anteriores, decide tomar a forma de um enorme belo e manso toiro... deixa-se acariciar e enfeitar pelas belas companheiras da jovem Europa que se divertiam e mal apanha a jovem sentada no seu dorso, voa sobre o mar e leva-a até ao "locus amoenus" onde havia de nascer o novo agora velho continente... Era Creta.

Mas, naquele sonho verdadeiro, que, agora, o velho jovem, figura de mulher via nitidamente diante dos seus olhos, não se tratava decididamente de Zeus, do pai dos deuses, mas do seu astuto rebento, filho dele e de Maya, que era filha de Atlas, o titã que suporta o mundo nos seus ombros... Era, nem mais nem menos que Hermes - o Mercúrio dos romanos - o ágil e arguto mensageiro e arauto dos deuses do Olimpo, que executava as suas ordens mais veloz que o pensamento... com sandálias aladas nos pés... um chapéu mágico com asas... um caduceu como bastão encimado, também por duas asas... ele era o deus dos rebanhos... dos pastores... e "no tempo em que o gado era o padrão dos preços"... era, sem contestação ou reparo, o deus dos comerciantes e ladrões... aliás, era um dote nato, já que "Nasceu ao despontar do dia / E, antes da noite cair, já tinha roubado / Os rebanhos de Apolo."

Zeus irritado e orgulhoso por aquele desplante, do seu filho, que tivera de Maya, sobre o seu filho que tivera de Leto juntamente Artemisa, a temível Diana, obrigou-o a restituir tudo ao seu legítimo proprietário, que furioso, estava disposto a liquidar o importuno irmão, mas logo fazem as pazes perante uma prenda inesperada... Hermes presenteia Apolo "com a lira que acabara de inventar e fizera com uma concha de tartaruga..." Também, mais tarde, havia de ensinar os pastores dos Hermínios a fazer sonoras flautas a partir de uma simples cana...

Ora Hermes - o Mercúrio alado dos romanos - contaram as azeréirides, desgostoso com as invejas dos seus companheiros da Corte do Olimpo e conhecedor das artimanhas do seu poderoso pai Zeus - o Júpiter do raio fulminante - que de uma vez fora cisne para enganar a sua fiel esposa Hera ou Juno e cativar Leda... e depois tomou a forma de toiro para conquistar Europa... além de outros disfarces infantis e menos dignos do senhor de todos os deuses... Hermes, como diziam as azeréirides, decidiu esconder-se no local mais ermo e inacessível aos homens e aos deuses e escolheu como sua morada preferida os Montes Hermínios lá para os lados do grande Mar, onde não chegavam as intrigas dos senhores da civilização da bacia mediterrânica... Para ele não era qualquer problema. Como se deslocava mais veloz que o pensamento as suas ausências nem sequer eram notadas pelos seus divinos consócios...

Um dia, Hermes acordou desgostoso... Tinha assistido ao lento deslizar do glaciar que abriu o profundo vale dos Hermínios e ao fundo, o "locus amoenus" mais belo que imaginar se podia... muito mais belo e sedutor do que a ilha encantada - Creta - onde as Horas receberam o par amoroso e o toiro tomando a sua forma confessou seu amor à encantadora jovem..., esse lugar permanecia desabitado... Ora, é aqui mesmo que eu quero fundar a terra dos meus seguidores mais fiéis...

Mas aí Hermes lembrou-se das aventuras de Cadmo, o irmão da jovem que, para consolar o choroso pai, Agenor, rei de Tiro, decidiu procurara irmã por todo o lado...

«... o rei de Tiro nunca deixou de chorar a filha perdida. Então, com alguns servos fiéis, Cadmo, seu filho, atravessou o mar e chegou à Grécia; mas aí também não lhe deram notícias da irmã, de maneira que, por fim, perdeu toda a esperança de a encontrar com vida. Sem ela, ele não conseguiria encarar o pai, e não sabia onde poderia instalar-se. Visitando o famoso oráculo délfico de Apolo, pediu-lhe conselho e foi-lhe dito que seguisse uma vaca que encontraria a pastar sozinha num prado ali perto: no primeiro sítio onde a vaca se deitasse, ele deveria construir uma cidade e chamar-lhe Tebas. Depressa encontrou a vaca que caminhava à sua frente, conduzindo-o e aos seus homens por muitas léguas através de campos e vales até uma terra de montanhas e planícies que veio a chamar-se Beócia. Aí a vaca, mugindo aos céus, deitou-se finalmente na relva, como sinal para Cadmo de que a sua longa viagem terminara. Agradecido, ajoelhou-se para beijar a terra estranha que parecia ter-lhe sido dada por um deus para ser sua."

Foi então que o nosso herói Hermes, o senhor solitário dos Montes mais secretos até desconhecidos dos deuses, desgostoso da sua solidão, decidiu atrair para o seu recanto secreto os pastores mais destemidos e ousados que havia à face da terra conhecida...

Descobriu no povo Cimeiro uma jovem ainda criança que a mãe embalava no seu colo... Como deus dos rebanhos, mandou que um dos seus toiros apanhasse a mãe desprevenida e lhe arrebatasse a criança levando-a à desfilada sem ser alcançado até que a deixou à beira de uns azereiros e outras espécies de salgueiros, juncos e flores que bordejavam o rio, onde, depois da fúria que trazia desde os Cântaros onde nascia até depois do vale entre os mais altos montes, se começava a transformar em serpente coleante e a transformar as margens em terras fecundas de prados verdejantes ricas paraos pastos de todos os seus rebanhos e flores das mais variegadas cores...

Foi aí que acorreram os mais valentes vizinhos da desesperada mãe que vira a filha arrebatada por um toiro, o que parecia o mais feroz daquela manada de castanhos reluzentes.. e, ao verem aquele toiro feroz, depositar carinhosamente a criança que se chamava Hermínia, entre tufos de ervas e de flores, e aquecê-la com o seu bafo, decidiram ali criar toda a espécie de gados e rebanhos nas mais abundantes e nutritivas pastagens que imaginar se pode...

... e, passado pouco tempo, vinham legiões de gentes dos mais variados lugares e povos à procura de animais e do leite que as reluzentes vacas e luzidias cabras e ovelhas produziam...

... e como o leite corria abundante, quase como a água do rio e ribeiras que o alimentavam... passaram a guardá-lo em forma de creme para que chegasse abundante para todos e durante todo o tempo, passaram a fazer outra espécie de creme delicioso e a um chamaram queijo e a outro manteiga... e como havia creme delicioso, transformado em queijo e manteiga de todos aqueles variados leites, cada um com o seu sabor mais requintado e saboroso, foi daí que as Hermínias e Hermínios que se seguiram passaram a ser procurados como os fornecedores dos mais deliciosos manjares que só tinham comparação com o néctar e a ambrosia a comida só conhecida dos deuses do Olimpo e chamaram-lhe então: MANTEIGAS!

E foi assim que "Em face deste quase vácuo documental não admira que o aparecimento de Manteigas tenha passado a constituir matéria mítica..."

Mas não se ficaram por aqui os encantamentos e os mistérios daquela terra na serra a que se ergue mais alto a seguir ao grande mar...

As azeréirides e o arguto Hermes conheciam bem o resto da istória de Cadmo o irmão da bela Europa.

«Mas o local (onde Cadmo, agradecido ajoelhou como terra dada pelos deuses para ser sua e dos seus descendentes) tinha um senhor temível com quem Cadmo teve de ajustar contas. Propondo-se oferecer um sacrifício a Palas-Ateneia para que ela lhe fosse favorável, mandou os servos tirar água de um riacho que brotava de uma caverna escura e cuja foz se escondia num bosque de carvalhos musgosos nunca tocados por um machado. Os homens entraram no bosque mas não voltaram; e ele ouviu o som de um assobio vindo de dentro, lá de longe, e viu rolos de fumo malcheiroso espalhando-se por entre as árvores. Avançou e encontrou os servos mortos à frente da caverna, queimados pelo bafo de um enorme dragão que estendia para ele as suas três cabeças de fogo, cada uma com três filas de dentes que rangiam, e através dos quais exalava vapores venenosos, com os olhos brilhando como fogo e a crina vermelha faiscando na sombra da abertura da caverna, à medida que avançava o pescoço comprido para lamber os corpos dos mortos.

Destemido, o herói enterrou nele a espada tão directa e fortemente que do peito do dragão jorrou sangue negro, que se misturava com a espuma da sua fúria. Agora ele desenrolava todo o seu monstruoso corpanzil e, saindo da caverna, levantava as horríveis cabeças, como árvores que iam cair sobre o homem que ousara enfrentar a sua fúria. Mas Cadmo aguentou a investida batendo com toda a força nas fauces de fogo, até que lhe enterrou a espada pela garganta cheia de veneno, pregando-o ao tronco de um carvalho. O monstro torceu os pescoços e agitou o rabo como se quisesse dobrar a grande árvore, mas as raízes não cederam e a espada ficou firme; assim, ali ficou ele contorcendo-se em desespero, enquanto o bafo de fogo era apagado pelo seu próprio sangue.

Ileso, Cadmo ficou em cima do corpo sem vida, quando reparou que Palas estava a seu lado, vinda do Olimpo para fundar uma cidade que iria desenvolver-se sob a sua égide.

"Planta os dentes do dragão na terra", mandou ela. "Deles nascerá uma raça de guerreiros que ficarão às tuas ordens."

Muito admirado com este conselho, Cadmo não lhe desobedeceu. Cavou sulcos profundos com a espada; arrancou os dentes do dragão morto e plantou-os na terra ensopada de sangue. Logo a terra começou a mexer, a inchar e a eriçar-se de pontas de espadas; e então, de repente, surgiu uma seara de homens armados cujas espadas se entrechocavam como trigo batido pelo vento. Mal os guerreiros recém-nascidos estavam completamente crescidos e fora dos sulcos, atiraram-se uns aos outros na sua ânsia de pelejar. E tão ferozmente se bateram que, antes do pôr do Sol, todos tinham morrido excepto cinco. Estes cinco, cansados de derramar sangue, puseram de lado as armas e ofereceram-se para servir Cadmo no lugar dos seus companheiros mortos pelo dragão.Com o seu auxílio, ele construiu a cidadela que veio a chamar-se Tebas. A nova cidade prosperou, mas o seu primeiro senhor teve de sofrer por causa dos inimigos, tanto no céu como na terra. O dragão-serpente que ele matou era sagrado para o deus Ares que, durante muito tempo, teve má vontade contra Cadmo por causa dessa morte. Sobre a sua casa foi lançada uma maldição. Os filhos e os filhos dos filhos tiveram tristes fins, e entre eles Ino, que se afogou depois de o marido, num ataque de loucura, ter assassinado o filho de ambos e Sémele, consumida pela feroz glória de Zeus, quando se tornou mãe de Dioniso. O próprio Cadmo, diz-se, foi destronado pelo neto Penteu. Quando velho, o rei que tantos infortúnios sofrera, teve mais uma vez de partir, apátrida mas não sozinho, pois com ele foi a sua fiel esposa Harmonia. Vaguearam pelas florestas setentrionais, até que este outrora destemido herói, derrotado pelas doenças e esmagado pela praga do sangue do dragão, murmurou resignado:

"Se uma serpente é tão querida dos deuses, quem me dera ser serpente em vez de homem!"

E imediatamente caiu sobre o peito com a pele transformada em escamas e o corpo em anéis pintalgados. Quando Harmonia viu como o marido se transformara, rezou para que também ela passasse a ser uma serpente; e a sua prece também teve resposta. E ali vivem ainda sem fazer mal a ninguém, e sem se esconder da vista dos homens seus antigos companheiros.»

Aqui não foi Cadmo e Harmonia que se transformaram em serpentes... foram as Hermínias e Hermínios que sofreram tormentos para erguer esta Terra e se transformaram em serpentes que aí se estendem desde os altos montes até ao rio grande, ora correndo mansos e cantantes alimentando os campos verdejantes que depois os árabes ensinaram a multiplicar em açudes poços e levadas... ora correm furiosas e imparáveis arrastando tudo... mas para tornar tudo de novo limpo e belo e fecundo... de outras vezes, nas estações mais amenas, quase desaparecem tornando-se invisíveis ou passando despercebidas como a garganta do Tornáqua que oculta mil mistérios e segredos... e onde os "sonhadores" já puderam assistir a rituais fantásticos de fantasmas que olhados por desconhecidos mais parecem orgias idescritíveis...

E é assim a istória mítica de uma terra, a minha terra na serra, que se chama Manteigas, ligada pelas lendas, à cultura mais antiga e rica, que enche a Terra de poesia, encanto e fantasia...

José da Serra do Vale Glaciar do Zêzere

Ano - dois mil e três metros de altitude...

Lugar - onde CORRem arrOIOIS para A MAR...

... a remeter para ontras lendas e "falas", contos, cantos e encantos que se apresentam noutros "espaços" desta TEIA que se tece e desfaz sucessivamente... ao sabor dos artesãos, poetas e contadores que, no seu deslumbramento, as vão tecendo e desfazendo ao sabor dos tempos e do fascínio dos conta/ouvidores de istórias...

 


Para que não haja confusão a respeito dos MITOS e das LENDAS, ou antes pelo contrário, para que que essa confusão seja alimentada de um modo criativo e povocador e para que cada um as possa LER e reinventar à sua maneira, eis

Alguns dados sobre A MITOLOGIA:

In MITOLOGIA CLÁSSICA - Guia Ilustrado - A. R. Hope Moncrieff - editorial Estampa / Círculo de Leitores, Lisboa, 1992

INTRODUÇÃO
«Este volume é uma versão abreviada da obra de A. R. Hope Moncrieff Classic Myth and Legend. Como afirma o autor no prefácio original, "trata das célebres ficções lendárias da Grécia Antiga que tantos temas e alusões proporcionaram aos autores modernos".
Transmitidas por via oral de geração em geração durante milhares de anos, estas antigas histórias foram eventualmente postas por escrito e depois aproveitadas pelos poetas e dramaturgos gregos do último período, e assim transmitidas através dos séculos até nós.
Hope Moncrieff declara que a sua tarefa foi "reproduzir as características principais desta mitologia, geralmente segundo a versão mais conhecida, mas por vezes tendo em conta o gosto dos leitores que não digeririam facilmente as grosserias que não ofendiam os ouvintes de outros tempos. Uma certa selecção ou supressão praticadas justificam-se pelo exemplo clássico; mas a intenção é, na medida do possível, apresentar o espírito grego tal como se revela nas suas famosas fábulas, e tornar familiares os nomes e caracteres tantas vezes citados em poesia, em oratória e na história".
Não há dúvida de que a mitologia grega, com o seu vasto elenco de deuses e semideuses, heróis e mortais, ninfas dos bosques e das águas, monstros da terra e do mar, as alturas do Olimpo e as profundezas do Hades, muito deve ao génio e à imaginação dos Gregos. A própria tradição destas histórias remonta ao tempo em que ainda não tinham sido contadas pela primeira vez, isto é, a um passado pré-helénico.
Os dois grandes feitos épicos da mitologia grega são evidentemente os relatados por Homero na sua Ilíada, onde descreve a guerra de Tróia, e na Odisseia, que conta as aventuras de Ulisses na sua perigosa viagem de regresso à pátria. Homero escreveu estas histórias no ano 800 a. C. - quatrocentos anos depois da guerra de Tróia. Extraídos de Homero e do seu contemporâneo Hesíodo, estes temas e muitos outros mitos clássicos de fontes desconhecidas foram relatados nas peças de Ésquilo e Sófocles, nas Metamorfoses de Ovídio, nas Vidas Paralelas de Plutarco, nas Odes de Píndaro e nas Descrições da Grécia de Pausânias, entre outras.
O resultado, escreve Hope Moncrieff, foi que "podemos encontrar feitos semelhantes atribuídos a personagens diferentes e versões diversas, por vezes contraditórias, do que parece ser a, mesma história. Claro que isto não é novo em mitologia. Os escritores clássicos que tinham de lidar com esta confusão de tradições eram mais ou menos livres para as "deturpar" segundo os seus próprios gostos e preconceitos... Hércules aparece como contemporâneo de muitos heróis, alguns dos quais deviam ser demasiado velhos ou demasiado jovens para terem alguma utilidade entre os Argonautas, de quem ele era companheiro de bordo".
O estilo lírico de Hope Moncrieff nestas histórias faz-se eco do próprio lirismo e da poesia com que os mitos épicos eram originariamente tratados. Com toda a sua natureza fantástica e a ausência de incrudelidade que a sua leitura requer, são histórias cujos temas ainda hoje dizem muito - o esforço, a perseverança e o espírito aventureiro dos homens, o amor e o ódio, a bravura e a cobardia, o ciúme, a tentação, a vingança e até o mérito.
»


in A MITOLOGIA, Edith HAMILTON, Publicações Dom Quixote, 2ª ed. Lisboa, 1979

pp. 22 a 26

OS MITÓGRAFOS GREGOS E ROMANOS
«A maioria das obras referentes aos mitos clássicos fundamenta-se principalmente no poeta latino Ovídio, que escreveu durante o reinado de Augusto. Ovídio é um autêntico compêndio de mitologia. Deste ponto de vista, nenhum escritor antigo pode equiparar-se a ele. Contou quase todas as histórias e de modo bastante desenvolvido. Ocasionalmente, algumas das mais conhecidas, nos campos da literatura e da arte, chegaram até nós apenas através da sua pena. Evitámos, no caso presente, recorrer a ele tanto quanto possível. Não há dúvida de que foi um bom poeta e um fabulista seguro, capaz de apreciar devidamente os mitos, compreendendo, portanto, o material de qualidade que lhe ofereciam; Ovídio, no entanto, estava realmente muito afastado deles, mais do que nós hoje. Para ele os mitos eram meros disparates e, segundo esta linha de pensamento, escreveu:

Eu canto as monstruosas mentiras dos poetas antigos
Nunca vistas, quer agora quer então, por olhos humanos.

Com efeito, dirigindo-se ao leitor, afirma: "Não importa serem absurdos; apresentar-vo-los-ei com tão belos artifícios que haveis de gostar." E, na realidade, fá-lo frequentemente muito bem; nas suas mãos, contudo, os assuntos que eram verdade de facto e verdade solene para os poetas primitivos, Hesíodo e Píndaro, e veículos de autênticos dogmas religiosos para os tragediógrafos gregos, tornam-se contos fúteis, algumas vezes espirituosos e divertidos até, outras sentimentais e desoladoramente retóricos, e mantêm-se notável e perfeitamente alheios a qualquer forna de sentimentalismo.

Não é longa a lista dos principais escritores através de quem os mitos chegaram até nós. Homero surge em primeiro lugar, naturalmente. A Ilíada e a Odisseia são, ou melhor, contêm os escritos gregos mais antigos, muito embora não haja possibilidade de se datar com exactidão qualquer passagem desses poemas. Os eruditos têm opiniões muito díspares quanto a esse ponto; no entanto uma das datas a que não se levantam muitas objecções é o ano 100 a. C. - no que respeita à Ilíada, que é o mais antigo.
A partir deste momento, todas as datas da presente obra devem entender-se como anteriores ao nascimento de Cristo, a não ser que se faça qualquer referência em contrário.
Hesíodo, o segundo escritor, logo depois de Homero, é algumas vezes situado entre os séculos IX e VIII; levava uma vida dura e amarga de camponês. Não pode haver maior contraste do que aquele que se verifica entre o seu poema "Os Trabalhos e os Dias" (mediante o qual pretende mostrar ao homem o processo de se conseguir ter uma vida razoável num mundo inóspito) e o esplendor cortês que transparece da Ilíada; e da Odisseia. Mas Hesíodo tem muito que dizer sobre os deuses e, por isso, dedica à mitologia todo um segundo poema, que habitualmente lhe é atribuído, a "Teogonia". Se Hesíodo é realmente o seu autor, então podemos afirmar que esse camponês humilde, vivendo numa quinta solitária, longe da cidade, foi o primeiro homem na Grécia que ponderou sobre o modo como tudo aconteceu, o Mundo, o Céu, os deuses, a humanidade, e foi também o primeiro que tentou elaborar uma explicação adequada. Homero nunca se debruçou sobre tal problema. A "Teogonia", uma narrativa da criação do Universo e das gerações de deuses, assume, pois, grande importância para o estudo da mitologia.
A seguir aparecem os "Hinos Homéricos", poemas escritos em honra de vários deuses. Não podem ser datados com carácter definitivo, mas os mais antigos são considerados pela maioria dos especialistas como pertencendo aos fins do século VIII, princípios do século VII. Aquele que se considera menos importante (são trinta e três ao todo) refere-se à Atenas do século V, ou provavelmente do século IV.
Píndaro, o maior poeta lírico da Grécia, começou a escrever por volta dos fins do século VI. Compôs odes homenageando os vencedores dos jogos realizados por ocasião dos grandes festivais nacionais gregos e, em todos os seus poemas, surgem narrativas ou meras alusões aos mitos; é, portanto, um autor tão importante para o conhecimento da mitologia como Hesíodo.
Ésquilo, o mais antigo dos três poetas trágicos, foi contemporâneo de Píndaro. Os outros dois, Sófocles e Eurípides, eram um pouco mais novos. Eurípides, o mais jovem, morreu nos fins do século V. À excepção de Os Persas, de Ésquilo, escrita para celebrar a vitória dos Gregos sobre os Persas em Salamina, todas as peças versam temas mitológicos. Juntamente com a obra de Homero constituem a fonte mais importante dos estudos desses temas.
O grande comediógrafo Aristófanes, que viveu durante os últimos anos do século V e começos do IV, faz muitas vezes referências aos mitos, bem como dois outros grandes prosadores, Heródoto, o primeiro historiador da Europa, que foi contemporâneo de Eurípides, e Platão, o filósofo, que pertenceu à geração seguinte.
Os poetas alexandrinos viveram por volta do ano 250. Esta designação provém do facto de, na altura, o centro da literatura grega ter sido transferido para Alexandria, no Egipto. Apolónio de Rodes contou pormenorizadamente a Demanda do Velo de Oiro e uma série de outros mitos relacionados com essa história. Juntamente com outros três poetas alexandrinos, que também se debruçaram sobre os temas da mitologia, os poetas pastoris Teócrito, Bíon e Mosco perderam a simplicidade da crença nos deuses, que caracteriza Hesíodo e Píndaro, e apresentam-se, pois, já muito afastados da profundidade e da gravidade das ideias religiosas dos poetas trágicos; ainda não tocam, porém, a frivolidade de Ovídio.
Dois escritores já do fim dessa época, Apuleio, latino, e Luciano, grego, ambos do século II da era cristã, vêm trazer um contributo bastante notável. A célebre história de Cupido e Psique é contada por Apuleio, que escreve bastante à maneira de Ovídio. Luciano, por seu turno, tem um estilo muito pessoal, muito sui generis: satirizou os deuses, que, na sua época, se tinham tornado já assunto jocoso. Não obstante, dá, a propósito, muitas indicações úteis.
Apolodoro, grego também, é, depois de Ovídio, o mitógrafo antigo de produção mais vasta; no entanto, ao contrário do que acontece com Ovídio, é muito terra a terra, chegando a ser, por vezes, um tanto enfadonho. A data em que viveu tem sido fixada diferentemente ao longo do período que medeia entre o século I a. C. e o século IX da era cristã. Segundo a opinião do erudito inglês Sir J. G. Frazer, as suas obras terão sido escritas muito provavelmente no século I ou no Século II da nossa era.
O grego Pausânias, viandante entusiasta, autor do primeiro guia escrito, tem muito que dizer sobre os acontecimentos mitológicos que constava terem ocorrido nos locais que visitou. Viveu já nos derradeiros anos do século II d. C., mas não põe em discussão quaisquer dos argumentos das histórias relatadas, e a sua obra tem um carácter de absoluta seriedade.
Virgílio ocupa posição proeminente em relação a todos os escritores romanos, não que acreditasse mais nos mitos do que Ovídio, de quem foi contemporâneo, mas achou que havia neles algo característico da natureza humana e, por isso, deu vida a determinadas personagens mitológicas como ninguém antes dele conseguira, desde os tragediógrafos gregos.
Outros poetas romanos versaram o tema dos mitos. Catulo narra várias histórias e Horácio alude com frequência a esta ou àquela, mas nem um nem outro tem grande importância para o estudo da mitologia. Para todos os romanos as histórias eram infinitamente remotas, meras sombras. Os melhores guias para o conhecimento da mitologia grega são, pois, os autores gregos, que acreditavam no que escreveram.»


p. 29 "Os gregos não acreditavam que os deuses tivessem criado o Universo; pensavam precisamente o contrário - o universo criara os deuses..."

 

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