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(Mondego,
Alva e Zêzere)
"O
Mondego, o Alva e o Zêzere, nascidos da mesma mãe serpeando
pelas vertentes da Serra da Estrela, em santa irmandade, amigos
e camaradas, viviam tranquilos e alegres, mirando-se cada qual na
limpidez das suas águas, e escondendo-se nas gargantas, furnas
e sorvedoiros da gigantesca Serra.
Uma tarde, já quase boca da noite, envolveram-se em azeda
conversa porque se arrogaram valentias, ao que parece, prometeram
romper as prisões que os detinham, trovejavam rivalidades,
e acabaram por desafiar-se para corrida vertiginosa, cuja meta seria
o corpo enormíssimo do mar.
Era o que ia ver-se.
O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou
a correr brandamente para não fazer barulho e não
levantar suspeitas, é de crer, desde as vizinhanças
da Guarda, nos territórios de Celorico, Gouveia, Manteigas,
Canas de Senhorim, e dirigiu-se, depois de se ter robustecido com
a ajuda dos colegas que vieram cumprimentá-lo à "Raiva",
na direcção de Coimbra, depois de ter atravessado,
ofegante, as duas Beiras.
O Zêzere, que também estava alerta, entrou de mover-se
ao mesmo tempo que o Mondego, ocultando-se até certa distância
nas anfractuosidades do seu leito penhascoso. Foi direito propriamente
a Manteigas, onde perdeu de vista o colega, passou também
os terrenos da Guarda, correu para o Fundão, desnorteou obliquando
para Pedrógão Grande e, finalmente, depois de ter
atravessado três províncias, deu consigo em Constância,
na Extremadura, abraçando-se ao Tejo, a quem ofereceu as
suas águas, já cansado de caminhar umas 40 léguas,
e desesperançado de alcançar o mar.
O Alva, dorminhôco e poeta, embora esses atributos não
sejam sinónimos, entreteve-se a contemplar as estrelas, mais
do que era prudente, adormeceu confiado no seu génio insofrido
e nervoso, e quando despertou, alto dia, estremunhado, em sobressalto,
avistou os colegas a correr sobre distâncias a perder de vista!
Um desastre, não havia que ver! Uma imprevidência que
era forçoso remediar.
O Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou
furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros, bradou
vingança temerosa, rugiu, e, quando julgou que estava a dois
passos do triunfo, foi esbarrar com o seu principal antagonista,
o Mondego, que lá ia, havia horas, campos de Coimbra fora,
em cata da Figueira, onde se lançaria, jubiloso, no seio
do Oceano, ao ganhar a porfiada contenda. O Alva esbravejou, como
atleta sanhudo, atirou-se ao adversário a ver se o lançava
fora do leito, espumou de "raiva" mas o outro, que deslizava
sereno e forte, riu-se, e... enguliu-o de um trago!
Ao lugar da contenda e foz do Alva, chama-se propositadamente "RAIVA"
em memória da sua atitude e do caso tremebundo."
VISCONDE
DE SANCHES DE FRIAS
Do
"Estrela da Beira" N.o 97 (11-2-1934)

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