Serra da Estrela - Manteigas

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CONTOS e LENDAS da minha STerra - Manteigas e da SERRA da ESTRELA

LENDAS de MANTEIGAS

in ANTOLOGIA - I, Depoimentos Histórico - Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro
de José Lucas Baptista Duarte
Câmara Municipal de Manteigas, 1985

LENDA DOS TRÊS RIOS

Visconde de Sanches Frias

LENDA DOS TRÊS RIOS

(Mondego, Alva e Zêzere)

"O Mondego, o Alva e o Zêzere, nascidos da mesma mãe serpeando pelas vertentes da Serra da Estrela, em santa irmandade, amigos e camaradas, viviam tranquilos e alegres, mirando-se cada qual na limpidez das suas águas, e escondendo-se nas gargantas, furnas e sorvedoiros da gigantesca Serra.
Uma tarde, já quase boca da noite, envolveram-se em azeda conversa porque se arrogaram valentias, ao que parece, prometeram romper as prisões que os detinham, trovejavam rivalidades, e acabaram por desafiar-se para corrida vertiginosa, cuja meta seria o corpo enormíssimo do mar.
Era o que ia ver-se.
O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou a correr brandamente para não fazer barulho e não levantar suspeitas, é de crer, desde as vizinhanças da Guarda, nos territórios de Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim, e dirigiu-se, depois de se ter robustecido com a ajuda dos colegas que vieram cumprimentá-lo à "Raiva", na direcção de Coimbra, depois de ter atravessado, ofegante, as duas Beiras.
O Zêzere, que também estava alerta, entrou de mover-se ao mesmo tempo que o Mondego, ocultando-se até certa distância nas anfractuosidades do seu leito penhascoso. Foi direito propriamente a Manteigas, onde perdeu de vista o colega, passou também os terrenos da Guarda, correu para o Fundão, desnorteou obliquando para Pedrógão Grande e, finalmente, depois de ter atravessado três províncias, deu consigo em Constância, na Extremadura, abraçando-se ao Tejo, a quem ofereceu as suas águas, já cansado de caminhar umas 40 léguas, e desesperançado de alcançar o mar.
O Alva, dorminhôco e poeta, embora esses atributos não sejam sinónimos, entreteve-se a contemplar as estrelas, mais do que era prudente, adormeceu confiado no seu génio insofrido e nervoso, e quando despertou, alto dia, estremunhado, em sobressalto, avistou os colegas a correr sobre distâncias a perder de vista!
Um desastre, não havia que ver! Uma imprevidência que era forçoso remediar.
O Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros, bradou vingança temerosa, rugiu, e, quando julgou que estava a dois passos do triunfo, foi esbarrar com o seu principal antagonista, o Mondego, que lá ia, havia horas, campos de Coimbra fora, em cata da Figueira, onde se lançaria, jubiloso, no seio do Oceano, ao ganhar a porfiada contenda. O Alva esbravejou, como atleta sanhudo, atirou-se ao adversário a ver se o lançava fora do leito, espumou de "raiva" mas o outro, que deslizava sereno e forte, riu-se, e... enguliu-o de um trago!
Ao lugar da contenda e foz do Alva, chama-se propositadamente "RAIVA" em memória da sua atitude e do caso tremebundo."

VISCONDE DE SANCHES DE FRIAS

Do "Estrela da Beira" N.o 97 (11-2-1934)

 

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