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LENDA
POPULAR DE MANTEIGAS
"Existia
na antiga Igreja Paroquial de Santa Maria, ao lado da Capela das
Fidalgas, um altar em estilo gótico-romano, ao qual se atribuía
uma idade respeitável, adivinhada nos rendilhados da sua
construção, na cor dourada dos seus dourados e, além
disso, na corrupção das suas madeiras.
Do alto, uma imagem de mulher deveras formosa, contemplava, num
sorriso de virgem, acolhedor, os lábios dos fiéis,
balbuciando o seu nome, ao ser invocado nas horas de aflição.
Então, os olhos da Virgem tinham não sei que estranho
brilho a destacar na penumbra carregada do templo. Outras vezes,
a capa, semeada de ondas verde-mar, agitava-se repentinamente e
dava a impressão de que a Virgem, envolvia no cimo das ondas
encapeladas de algum mar traiçoeiro, a deitar o cabo de salvamento,
que era o terço, a algum náufrago em agonia. Depois,
retomava o sorriso de sempre, a olhar o Menino Jesus sentado no
seu braço direito, que estendia o bracito nu para a frente,
a segurar na palma da mão uma embarcação de
velas desfraldadas.
Hoje já não existe nem o altar nem a Virgem. Era a
Senhora dos Mareantes, a Virgem Senhora do Rosário.
Por muito tempo habitou a casa de uma velhinha, cujas mãos
trémulas a vestia e enfeitava, dando-lhe o tratamento significativo
de Mãe.
A lenda
popular, que gostosamente restauro, fazendo-a ressurgir do esquecimento
em que caiu, foi-me contada por uma venerável anciã,
acrescida com o pormenor rústico de que, muitas vezes, iam
encontrar as vestes de tão milagrosa santa molhadas em água
salgada, tendo nas fímbrias do seu manto conchas do mar e
areia.
Sorri, não desfazendo afirmação tão
ingénua, porque sei que o povo tem uma religião sua,
pouco em harmonia com os textos sagrados, mas curiosa como documento
étnico.
A lenda da Senhora do Rosário foi, em tempos idos, motivo
de orgulho, comenda de que se ufanavam todos os Manteiguenses. Jóia
preciosa que eles mostravam aos de fora com estas simbólicas
palavras:
- "É a nossa Santa! Aquela que salvou os marinheiros!"
Como poderia isso acontecer?
É uma velhinha de cabelos alvos, fios de prata a coroar-lhe
a fronte, a voz a tremer-lhe de comoção e respeito,
que nos conta:
"Foi em Mil quatrocentos e... Portugal desvendara ao Mundo,
Novos Mundos. As naus, em cujos mastros tremulava o lábaro
sagrado das quinas, sulcavam os mares em todas as direcções
a firmar, com padrões encimados pela cruz de Cristo, as balizas
dum grande Império.
Uma esquadra que partia, e logo a notícia de novas descobertas,
Novos Mundos, colossal desbravamento dos cabouqueiros portugueses!
Pela Pátria corria o frémito dos grandes dias, das
grandes datas.
Realizavam-se as mais importantes descobertas e soavam, como clarins
de fama eterna, os nomes nunca esquecidos de Dias, Gama e Cabral.
Vergavam-se ante o ardoroso e audaz lusitano os mais temíveis
potentados estrangeiros, que se vêem obrigados pelos imorredouros
Albuquerque, Pacheco e Almeida a pagar tributo ao "Rei de Portugal
e dos Algarves, d'Aquém e d' Além-Mar em África,
Arábia, Pérsia e Índia".
Foi nesse tempo!... (era de Glórias a levantar bem alto uma
Nação pequenina) que um capitão regressava
de longínquas paragens, com a nau carregada de especearias,
que valiam riquezas fabulosas. Já há muito que tinham
largado da sua procedência, e poucos dias faltavam para chegar
ao seu destino.
A ânsia de abraçar os seus, que por muito tempo já
não via, levava-o a olhar ao longe o céu e a água,
a ver se descobria a Terra da Saudade, a Terra bendita de Portugal...
Olhava o mar azul, contemplando as suas águas que a proa
da nau abria, com reprimível ansiedade, agarrado à
amurada da coberta... Mas em vão!
A noite fechava-se para, na manhã seguinte, aparecer o cenário
grandioso de sempre, de todos os dias: Céu e água!
Numa tarde, tarde de Agosto a queimar, encontrava-se ele no mesmo
posto a observar o sol a esconder-se, vermelho-vivo, cujas reflexões
punha nas ondas cintilantes dourados fantásticos. Dir-se-ia
que o mar era de ouro e prata. na distância a perder de vista.
A aragem, que enfunava as velas, fazia levantar ondas de espuma
a luzir como palhetas de ouro, que vinham desfazer-se, mansamente,
nos costados da embarcação.
Pouco a pouco, porém, começou o tempo a arrefecer,
o vento a soprar com mais força, fazendo gemer os cabos das
enxárcias.
As águas turvavam-se e nas cristas das ondas apareciam algas
e plantas marinhas, que os albatrozes e gaivotas, em rápidos
voos, procuravam sofregamente.
Ao capitão não agradou aquela mudança brusca
do tempo. Contemplava o mar com atenção, a querer
sondar o abismo do gigante, quando um marinheiro, familiarmente,
lhe perguntou: - Quantos dias faltam para chegarmos a Portugal,
meu capitão?
- Dia e meio, se a Virgem do Rosário nos levar a porto de
salvamento, mas com o andamento que levamos, devemos ancorar amanhã
por estas horas. Receio, contudo, um contratempo, nada agradável.
Vês aquelas nuvens escuras, o mar revolto e as algas ao cimo
das ondas? Não reparaste como o vento assobia por entre o
velame? Tudo isto indica próxima tempestade, talvez ainda
para esta noite. Amaina a vela grande, arreia o traquete, colhe
a bujarrona e prepara a marinhagem para a borrasca.
...
... ... ... ...
Anoitecia!
O mar cada vez se picava mais, e bem depressa se viu que as previsões
do capitão não eram infundadas.
A nau, impelida com a força prodigiosa do tufão, corria
veloz sobre vagas alterosas, que ora a elevava como frágil
brinquedo na crista espumante das ondas, ora a sepultava com temerosos
ruídos nas profundezas do abismo.
Estranhos rumores se elevavam no espaço ao entrechocar das
enormes massa líquidas, cujo desfazer semelhava o desmoronar
ciclópico de gigantes serras.
O vento atingia velocidades desconhecidas e a mastreação
rangia em dilacerantes gemidos, fazendo embrenhar a nau numa carreira
vertiginosa e desordenada. Um solavanco mais forte partiu o quadrante,
e outro fez paralisar o leme. O relógio do sol e a bússola
também ficaram avariados.
Daí para diante, a embarcação deixou de ter
governo, estava entregue à sorte, à mercê do
destino.
Os relâmpagos iluminavam sinistramente o espaço e o
mar revolto; os trovões juntavam ao bramido das ondas o estrépito
do seu ribombo. A nau, agitada por forças ocultas, inclinava-se
assustadoramente para todos os lados, não deixando sequer
manter de pé a tripulação, que se agarrava
desesperadamente a todas as saliências, para cumprir as ordens
do capitão que, na coberta, encharcado, mal podia resistir
ao embate das ondas. A água, que em grandes rajadas varria
o convés, tinha arrastado para o Oceano, de mistura com o
cordame, alguns utensílios valiosos, tais como: âncoras,
amarras, velas, cabos, gramos, etc. Tudo era presa do terrível
furacão. Uma lufada devastadora galgou a ponte, arrancou
a amurada, e foi ter, em grande jacto, ao outro lado.
A marinhagem corria o risco de ser arremessada ao seio do mar e
tragada pelo remoinho das águas em torvelinho devorador.
Parecia que os elementos se conjugavam na destruição
da nau.
Quem lhe poderia valer, sem governo, quase despedaçada, agonizante
naquele grande sepulcro, que era o Oceano?
Ninguém, a não ser a Providência.
Foi na Providência Divina que o capitão pôs as
suas esperanças.
Fazendo
reunir os homens na tolda e expondo-lhes o perigo que os rodeava,
disse-lhes:
- Meus amigos, queridos marinheiros, que muito tempo servistes debaixo
do meu comando:
Nas tristes circunstâncias que nos rodeiam, tendo por caixão
este barco desmantelado pelo temporal, e por cemitério a
voragem das águas que nos cercam, eu não sou o capitão
a cuja guarda estava confiada a direcção da nau, nem
aquele no qual depositáveis todas as esperanças nas
horas de maior perigo. Não sou o destemido que lutou a vosso
lado na ocupação de Java. Não sou o capitão
cujas ordens e planos de batalha tornaram possível a conquista
de Sumatra. Não sou o caudilho cujo entusiasmo vos levou
a ocupar Bornéu. Em todas as partes vencemos. Homens do mar,
vivendo nele, falando e segredando-lhe as confidências, habituados
aos seus bramidos de revolta, devassando-lhe a incógnita
que o torna misterioso aos olhos da Europa, sendo nós, portugueses,
os primeiros a sulcar, temerariamente, estes mares que nunca por
ninguém foram navegados, vede como somos ínfimos perante
a sua força indomável. Este mar que nós conhecemos
e que nos conhece, o mesmo que vai suavemente beijar o litoral português,
é o mesmo que hoje nos ameaça sepultar para sempre
no insondável das suas águas.
Que poderei eu fazer como capitão? Nada, absolutamente nada.
Nas circunstâncias em que nos encontramos, repito, não
sou o capitão, mas sim um homem como vós. Capitão
é Deus. Estamos entregues à sua vontade soberana.
Que ele se amercie de nós nesta hora trágica que passa,
e que a Senhora do Rosário ouça a súplica destes
náufragos no meio da tormenta.
Nada nos pode valer, a não ser a sua milagrosa interferência.
Prometo oferecer-lhe um vaso sagrado e uma custódia para
o seu altar, se nos levar sem novidade a porto de salvamento. Ajoelhai
e orai, nada há a fazer, senão que Ela nos salve.
A escuridão era intensa, apenas iluminada pela luz vítrea
dos relâmpagos, que punham no negrume da noite riscos incandescentes
de milhares de faíscas.
Quantas horas seriam?
Que caminho teriam andado nas trevas da noite?
Para onde os teria levado a borrasca naquele andamento fantástico?
Qual a distância percorrida?
Um relâmpago mais forte iluminou, por momentos, a imensidade
do mar, e imediatamente uma voz gritou:
- Terra à vista!
Era o gajeiro.
Todos se precipitaram a esquadrilhar as trevas, mas o temporal redobrava
de violência cada vez mais.
Com a terra já assim tão perto, mais iminente era
o naufrágio.
A desolação lia-se naqueles rostos habituados a suportar
com verdadeira coragem os reveses do destino, e num instinto colectivo,
todos se tornam a ajoelhar invocando: "Senhora do Rosário
nos acuda, Senhora do Rosário, salvai-nos"! No mesmo
instante, inundou-se a atmosfera de luz e fogo, e um raio enorme
veio esfacelar, pelo meio, o mastro do traquete. O vulto escuro
da terra aumentava rapidamente, enquanto a tripulação
continuava ajoelhada a balbuciar: "Senhora do Rosário,
salvai-nos"!
É nesse momento de opressão angustiosa, quando todos
julgavam despedaçar-se de encontro à costa, que o
Céu se abre de estranha claridade, e a Virgem, tendo no seu
braço direito Jesus que sorri, indica com a mão esquerda
o litoral aos navegantes.
Por momentos, todos embevecidos, contemplavam as feições
de tão formosa Senhora; depois, sentem-se elevados a uma
altura prodigiosa e arremessados por uma onda gigantesca a uma praia
de areia que prende a nau, enquanto as águas se escapam produzindo
enorme ruído. O cavername estala sob a pressão e a
embarcação parece desconjuntar-se.
Estamos salvos!
Dos seus peitos oprimidos sai, como desabafo, o grito de gratidão
para com a Virgem.
Milagre! Milagre! A Senhora do Rosário salvou-nos!
Amanhecia, surgindo os primeiros alvores da madrugada. Com a primeira
claridade surgia a bonança, as nuvens eram varridas em últimas
rajadas, deixando a atmosfera limpa de uma côr azul, do azul
de Portugal.
Rompia o Sol a dourar as encostas e os campos. As avezinhas chilreavam
madrigais sonoros na terra entre as ramarias; as gaivotas, em voos
graciosos, poisavam na crista das ondas, que eram mais pequenas,
cada vez mais limpas, a espraiarem-se na areia e a deixarem, no
seu rápido estar, os indícios do medonho vendaval.
Eram as plantas aquáticas, algas, cordame e tábuas
velhas, lodo, conchas, pequenos moluscos mortos e uma série
de pequenas coisas a atestar a violência do furacão.
Passou um mês.
O capitão desejava saldar a promessa que fizera à
Virgem.
Mas como, se em todas as igrejas se adorava tão venerada
imagem?
Era este um problema de difícil solução. Como
achar nas diversas imagens, que de certo encontraria, o retrato
fiel da que lhe aparecera e à qual entregaria, então,
a sua oferta?
Obra bastante difícil, senão impossível.
Resolveu, por isso, peregrinar até achar a imagem verdadeira
da aparição.
Percorreu igrejas e mosteiros, catedrais e simples capelinhas, nichos,
ermidas. Tudo infrutífero, já desanimava, sem resultados
satisfatórios.
Té que um dia... dia de honra para Manteigas e de glória
para os seus habitantes, aqui chegou.
Foi à Igreja Matriz de Santa Maria, e qual não foi
o seu espanto, ao deparar-se-lhe uma Senhora, sorridente, a Virgem
que lhe aparecera!!!
Cai de joelhos, a chorar de alegria e a exclamar: "É
esta, foi esta que nos salvou"!
Depôs a seus pés, no altar, a custódia e o vaso
sagrado, que desde os tempos gloriosos das descobertas ficará,
para sempre, a pertencer à Igreja Matriz de Santa Maria,
pela milagrosa aparição da Virgem aos navegantes."
Hoje, somente o vaso e a custódia existem. O altar, em estilo
gótico-romano e a Virgem a sorrir, acolhedoramente, tendo
nos olhos um estranho brilho a destacar-se na penumbra carregada
do templo, e o seu manto a agitar-se com invisível brisa,
tudo desapareceu no rodar inclemente do tempo"..
Viriato
Zêzere
ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO
Do "Ecos de Manteigas" N.o 78 de 27-5-956

(Em
vez do "vaso e da custódia" oferecidas pelo agradecido
"Capitão" - uma "Adoração do
Magos")
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