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"Debaixo
de uma carvalha secular, onde ao Sol-pôr, coada pela ramaria,
uma luz fresca e irisada ia envolver a Virgem no seu doirado altar,
ficava a Capela da Senhora dos Verdes. O ambiente era doce e perfumado...
O Sol estivera de abrasar naquele mês de Julho. As fontes
secaram com o estio, e nos ribeiros, nem mais ténue fio de
água escorria. Os magros e famintos passarinhos poisavam
a miúdo nas eiras com os biquitos abertos da língua
ressequida.
As hortas e pomares vergavam torcidas pelo calor, cheias de lagartas
esverdeadas e repugnantes.
Era uma tristeza ver como se elevavam os arbustos - paus ressequidos,
desfolhados pela seca que lhe mirrava as folhas, e pela lagarta
que roía os ramos tenros.
Sentada
no balcão da sua casa branca e alegre, a Maria Clara - a
Clara do Gaspar, como lhe chamavam -, chorava a soluçar,
cabeça entre as mãos, a olhar ao longe os campos devorados
e a desfazerem-se em pó as últimas folhas.
- Nossa Senhora dos Verdes nos acuda; que Ela tenha piedade de nós,
murmurava baixinho.
Todos os anos, pelas Festas da Senhora, nenhuma oferta se podia
igualar à do Gaspar que, à sua custa e pelas mãos
da Maria Clara, lhe enfeitava o andor e vestia a formosa Imagem,
sempre com um manto novo. E era tão grande a sua fé
na Senhora dos Verdes, que fizera colocar na cabeceira do seu leito
Imagem igual à da Capela.
Mas um dia que fora às suas propriedades e que viu as culturas
devastadas, julgou ter enlouquecido; não podia acreditar
na verdade.
Prometeu construir um andor novo à Senhora dos Verdes se
a lagarta lhe poupasse as suas sementeiras, e guardava sempre a
certeza de que a Virgem lhe acudiria. Por fim, convencido pela evidência,
a sua dor foi enorme. Não se lamentou.
Na sua desgraça de homem a quem roubam os seus haveres, abandonou
o trabalho, esqueceu a mulher e renegou a própria Senhora
dos Verdes.
Ela que não ouviu a sua prece, Ela que conservava a mesma
expressão sorridente quando tamanha desgraça o aniquilava,
Ela não podia ter erguido em seu peito de rude, mas fervoroso
cristão, o Altar de respeito e confiança em que A
colocara.
Apesar das súplicas da mulher, dos rogos do Abade, das ameaças,
até, da gente do campo, nesse dia em que se realizava a Festa
da Senhora, abalou alta madrugada para o Pomar, sem ter rezado à
Santa Padroeira das culturas.
Decorreu todo o dia sem voltar a casa.
- Porque chorava a Clara, sentada no balcão? Que desgostos
tamanhos para dos seus olhos castanhos correr o pranto sem fim?
...
É que temia que a Virgem, desamparando o homem, os lançasse
por completo na desgraça.
Pobre Maria Clara... Era a hora em que os rebanhos desciam para
os redis. Ouviam-se, de espaço a espaço, os gritos
dos pastores:"
- Eh! laranja... Volta, lagarta... Uma pedrada certeira fazia regressar
de pronto ao rebanho a rês que fugira.
A mulher do Gaspar olhava, com os seus olhos lacrimosos, algumas
nuvens que forravam o horizonte de uma côr cinzento-escuro,
e o voo assustado da passarada procurando abrigo para passar a noite.
Súbito bateram Trindades... e a Clara benzeu-se e devotada-
mente foi rezando:
- Avé Maria cheia de Graça...
Era assim a primitiva e primeira Capela de Nossa senhora dos Verdes
à sombra da carvalha secular
Lá
em cima, no caminho do pomar, era um formigar de gente a acompanhar,
em procissão, a imagem da Virgem. O Gaspar, quando a Senhora
dos Verdes passou, apesar de toda a sua valentia, sentiu o remorso
revolver-lhe o coração e os seus lábios, a
medo, entreabriram-se numa prece:
- Senhora dos Verdes, valei-nos...
Pareceu-lhe que a Imagem lhe sorria cheia de bondade e durante largo
tempo contemplou a Virgem a quem o povo seguia, rezando. E só
saiu do devaneio em que estava quando qualquer coisa lhe caiu em
cima da cabeça descoberta.
Olhou, e reparando na oliveira sob a qual se encontrava sentado,
um - Oh que milagre!... - de espanto e admiração lhe
saiu dos lábios! A lagarta, como se oculto vendaval abanasse
as plantas, os arbustos e as ervas, caiu ao chão produzindo
um roído semelhante ao da chuva. Depois, reunia-se em filas
que, a breve trecho, desaparecia, enterrando-se.
- Ai que milagre!... que grande milagre! dizia consigo.
Já quando a Virgem entrava na Capela, surgiu no caminho,
ofegante chapéu na mão, casaco ao ombro.
- Milagre!... Milagre!... vede como a lagarta se afasta dos nossos
campos - bradava ele endoidecido à turba ajoelhada. Milagre!...
Milagre !... E o povo repetia: Milagre! Milagre!... Senhora dos
Verdes! Senhora dos Verdes!
A Maria Clara que viera numa corrida, caiu desmaiada nos braços
possantes do Gaspar.
Nesse instante, incendiou-se toda a atmosfera, e um trovão
fez estremecer a Terra.
A chuva, aquela chuva pela qual se cantavam preces à Virgem,
começou a cair em grossa bátega.
E a turba, num delírio de esperanças realizadas, gritava
sempre: - Milagre!... Salvé, Senhora dos Verdes... Senhora
dos Verdes...
Do
"Ecos de Manteigas" N.o 52, de 10 de Abril de 1955.
Subscrito por VIRIATO DE ZÊZERE, do livro
"A Fraga da Cruz" que tencionava publicar,
o que a morte prematura não lhe permitiu.
 
À
esquerda, a Capela antiga, à direita, como é actualmente,
desde a sua reconstrução... anos 1970?
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