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António
"No
alto da Serra da Estrela (Nave de Santo António ou Argenteira)
erguia-se, ainda não há muito tempo, donairosa e simples,
a encantadora capelinha de Santo António da Argenteira que,
infelizmente, hoje está abandonada, em ruínas. (1)
O Povo não sabe a razão erudita porque foi construída
a capela naquele ermo, mas tece-lhe imediatamente a lenda de que
o asceta Santo António ali aparecera, no tempo em que havia
veados e javalis na Serra, a salvar um rebanho de gado da voracidade
das feras.
Seria verdade? ...Como seria?...
Quando isto aconteceu, Santo António não tinha ido
ainda para Pádua.
Veio
um dia de longada à Estrela fazer umas pregações
por estes sítios. Já de volta, seguiu Serra fora em
direcção à Covilhã e, ao passar na Argenteira,
parou a descansar, cheio de fome e fadiga.
Não muito distante, um rebanho roía mansamente e cervum,
enquanto o pastor se ocupava a armar o bardo.
O sol apagava-se ao longe. Sobre os píncaros mais altos voavam
pombos bravos duma cor acinzentada, que recolhiam aos ninhos, a
rezar, baixinho, a saudade da tarde a morrer.
Dispôs-se o Santo a continuar a jornada, apoiado num grosso
pau nodosso.
- O Senhor seja convosco - disse o Santo.
- Com Deus venha - volveu o pastor. Para onde segue, santinho?
- Para a Covilhã, se Deus mo deixar.
- Já é tarde... Faz mal... Sabe o caminho?
- Não sei.
- Então fique aqui comigo e, de manhã, continua a
jornada.
Aceitou o Santo a oferta e bem depressa comia, regaladamente, reconfortante
miga de leite. Acabada a refeição e depois de terem
o gado dentro do bardo, apressaram-se a arranjar abrigo para passar
a noite.
Dentro do bardo comprimiam-se as pacientes ovelhas, denunciadas
pelo ruído constante dos enormes chocalhos, enquanto cá
fora ladravam, no escuro da noite, três corpulentos cães.
O mais era o sossego naquela amplidão imensa.
Já a noite ia longa quando o silêncio foi cortado por
um uivo que fez agitar desesperadamente o gado dentro do bardo e
ladrar os cães furiosamente. Passados poucos instantes tornou
a repetir-se, mas, desta vez, mais perto, e logo como se o primeiro
uivo fosse um sinal, outros, noutros pontos, se fizeram ouvir. O
pastor levantou- se rapidamente, esquadrinhou com a vista o escuro
da noite e verificou que certos vultos escuros se moviam perto,
em todas as direcções. Não havia dúvidas
de que estavam cercados por uma grande alcateia de lobos. Os uivos
cada vez se ouviam mais e mais perto.
Entretanto, o peregrino continuava a dormir indiferente ao perigo
que o cercava, pelo que o pastor tomou a resolução
de o acordar.
- Oiça, amigo... tenho o gado perdido! Se Deus Nosso Senhor
não me acode, os lobos vão-me assaltar o rebanho!...
- Que fazem os cães?
- São tantos lobos, que eles fugiram para dentro do bardo.
- Então que tenciona fazer?
- Nada.
- Quantos lobos calcula que temos perto de nós?
- Nada menos de vinte!...
- E pensa que eles se afastarão se lhes bradarmos?
- Isso é temerário, mesmo arriscado, porque podemos
ser atacados...
- Mas não haveria um meio de salvarmos o gado?
- Nenhum. Nestas circunstâncias, só um milagre...
- Bem; então, se só um milagre lhe pode salvar o gado,
ajoelhe comigo e reze.
Viam-se no escuro da noite brilhar, como pirilampos, os olhos das
feras que cada vez se aproximavam mais, só contidas com o
desesperado latido dos cães. De vez em quando, envolviam-se
em desordem e misturavam com os uivos o rosnar e o matraquear das
suas temíveis presas, agitavam com fustigadas no ar as caudas
compridas e volteavam, erguendo as cabeças, a farejar em
volta do bardo.
Um mais atrevido empinou-se, esteve alguns instantes com as patas
apoiadas nas cancelas, de boca escancarada, tomou impulso e galgou
para dentro. No mesmo instante, os outros seguiram-lhe o exemplo.
O pastor rezava, mas. ao mesmo tempo, não deixava de observar
os mais pequenos movimentos das feras e, assim viu distintamente
saltar os primeiros lobos e todos os outros.
Não quis ver mais nada. Tapou a cara com as mãos,
a chorar a sua desgraça, enquanto a seu lado Santo António,
muito recolhido, continuava a rezar.
Quanto tempo esteve assim? O que seria do gado desde que tinha tapado
a cara? Não poderia dizer.
Ao tornar a si, reparou que estava só.
Vinha rompendo a manhã.
No cimo de dois penedos os cães ladravam, olhando a figura
do Santo que se afastava cada vez mais, lá ao longe, envolvido
numa auréola brilhante de luz que cada vez era maior, a inundar
os cerros dum Sol bendito no mês de Junho...
No bardo, as ovelhas, intactas, balavam sacudindo os enormes chocalhos
e, cá fora, encostados às cancelas, mortos por estranho
mal, contava-se a matilha inteira dos lobos!
Só mais tarde se soube que aquilo fora obra do Santo, quando
de Pádua vinha a fama dos seus milagres.
Então erigiram-lhe uma capelinha, modesta, no alto da Estrela.
que o tempo vai tornando num montão de escombros.
Por muitos anos ali se realizaram festas que eram a confraternização
de todos os pastores dos Montes Hermínios.
Foi esta encantadora história contada de avós a netos
durante muitos anos, mas em nossos dias é quase desconhecida".
(1)
- Assim escrevia nos primeiros anos da década de 40 o compilador
desta lenda - ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica), num precioso
livro manuscrito que legou à posteridade.
Do mesmo livro se transcreve, também, a curiosa lenda que
se segue, que nos narra a origem da capela de São Lourenço.
A transcrição textual destas duas lendas só
foi possível por gentil assentimento e boa vontade dos Herdeiros
e detentores do livro manuscrito.
 
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