Serra da Estrela - Manteigas

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CONTOS e LENDAS da minha STerra - Manteigas e da SERRA da ESTRELA

LENDAS de MANTEIGAS

in ANTOLOGIA - I, Depoimentos Histórico - Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro
de José Lucas Baptista Duarte
Câmara Municipal de Manteigas, 1985

LENDA DA CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DA ARGENTEIRA

António Jesus de Carvalho (Bica)

LENDA DA CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DA ARGENTEIRA

"No alto da Serra da Estrela (Nave de Santo António ou Argenteira) erguia-se, ainda não há muito tempo, donairosa e simples, a encantadora capelinha de Santo António da Argenteira que, infelizmente, hoje está abandonada, em ruínas. (1)
O Povo não sabe a razão erudita porque foi construída a capela naquele ermo, mas tece-lhe imediatamente a lenda de que o asceta Santo António ali aparecera, no tempo em que havia veados e javalis na Serra, a salvar um rebanho de gado da voracidade das feras.
Seria verdade? ...Como seria?...
Quando isto aconteceu, Santo António não tinha ido ainda para Pádua.

Veio um dia de longada à Estrela fazer umas pregações por estes sítios. Já de volta, seguiu Serra fora em direcção à Covilhã e, ao passar na Argenteira, parou a descansar, cheio de fome e fadiga.
Não muito distante, um rebanho roía mansamente e cervum, enquanto o pastor se ocupava a armar o bardo.
O sol apagava-se ao longe. Sobre os píncaros mais altos voavam pombos bravos duma cor acinzentada, que recolhiam aos ninhos, a rezar, baixinho, a saudade da tarde a morrer.
Dispôs-se o Santo a continuar a jornada, apoiado num grosso pau nodosso.
- O Senhor seja convosco - disse o Santo.
- Com Deus venha - volveu o pastor. Para onde segue, santinho?
- Para a Covilhã, se Deus mo deixar.
- Já é tarde... Faz mal... Sabe o caminho?
- Não sei.
- Então fique aqui comigo e, de manhã, continua a jornada.
Aceitou o Santo a oferta e bem depressa comia, regaladamente, reconfortante miga de leite. Acabada a refeição e depois de terem o gado dentro do bardo, apressaram-se a arranjar abrigo para passar a noite.
Dentro do bardo comprimiam-se as pacientes ovelhas, denunciadas pelo ruído constante dos enormes chocalhos, enquanto cá fora ladravam, no escuro da noite, três corpulentos cães. O mais era o sossego naquela amplidão imensa.
Já a noite ia longa quando o silêncio foi cortado por um uivo que fez agitar desesperadamente o gado dentro do bardo e ladrar os cães furiosamente. Passados poucos instantes tornou a repetir-se, mas, desta vez, mais perto, e logo como se o primeiro uivo fosse um sinal, outros, noutros pontos, se fizeram ouvir. O pastor levantou- se rapidamente, esquadrinhou com a vista o escuro da noite e verificou que certos vultos escuros se moviam perto, em todas as direcções. Não havia dúvidas de que estavam cercados por uma grande alcateia de lobos. Os uivos cada vez se ouviam mais e mais perto.
Entretanto, o peregrino continuava a dormir indiferente ao perigo que o cercava, pelo que o pastor tomou a resolução de o acordar.
- Oiça, amigo... tenho o gado perdido! Se Deus Nosso Senhor não me acode, os lobos vão-me assaltar o rebanho!...
- Que fazem os cães?
- São tantos lobos, que eles fugiram para dentro do bardo.
- Então que tenciona fazer?
- Nada.
- Quantos lobos calcula que temos perto de nós?
- Nada menos de vinte!...
- E pensa que eles se afastarão se lhes bradarmos?
- Isso é temerário, mesmo arriscado, porque podemos ser atacados...
- Mas não haveria um meio de salvarmos o gado?
- Nenhum. Nestas circunstâncias, só um milagre...
- Bem; então, se só um milagre lhe pode salvar o gado, ajoelhe comigo e reze.
Viam-se no escuro da noite brilhar, como pirilampos, os olhos das feras que cada vez se aproximavam mais, só contidas com o desesperado latido dos cães. De vez em quando, envolviam-se em desordem e misturavam com os uivos o rosnar e o matraquear das suas temíveis presas, agitavam com fustigadas no ar as caudas compridas e volteavam, erguendo as cabeças, a farejar em volta do bardo.
Um mais atrevido empinou-se, esteve alguns instantes com as patas apoiadas nas cancelas, de boca escancarada, tomou impulso e galgou para dentro. No mesmo instante, os outros seguiram-lhe o exemplo. O pastor rezava, mas. ao mesmo tempo, não deixava de observar os mais pequenos movimentos das feras e, assim viu distintamente saltar os primeiros lobos e todos os outros.
Não quis ver mais nada. Tapou a cara com as mãos, a chorar a sua desgraça, enquanto a seu lado Santo António, muito recolhido, continuava a rezar.
Quanto tempo esteve assim? O que seria do gado desde que tinha tapado a cara? Não poderia dizer.
Ao tornar a si, reparou que estava só.
Vinha rompendo a manhã.
No cimo de dois penedos os cães ladravam, olhando a figura do Santo que se afastava cada vez mais, lá ao longe, envolvido numa auréola brilhante de luz que cada vez era maior, a inundar os cerros dum Sol bendito no mês de Junho...
No bardo, as ovelhas, intactas, balavam sacudindo os enormes chocalhos e, cá fora, encostados às cancelas, mortos por estranho mal, contava-se a matilha inteira dos lobos!
Só mais tarde se soube que aquilo fora obra do Santo, quando de Pádua vinha a fama dos seus milagres.
Então erigiram-lhe uma capelinha, modesta, no alto da Estrela. que o tempo vai tornando num montão de escombros.
Por muitos anos ali se realizaram festas que eram a confraternização de todos os pastores dos Montes Hermínios.
Foi esta encantadora história contada de avós a netos durante muitos anos, mas em nossos dias é quase desconhecida".

(1) - Assim escrevia nos primeiros anos da década de 40 o compilador desta lenda - ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica), num precioso livro manuscrito que legou à posteridade.
Do mesmo livro se transcreve, também, a curiosa lenda que se segue, que nos narra a origem da capela de São Lourenço.
A transcrição textual destas duas lendas só foi possível por gentil assentimento e boa vontade dos Herdeiros e detentores do livro manuscrito.

 

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