Serra da Estrela - Manteigas

in joraga.net aminhaTEIAinterminávelnaREDEilimitada

um ANDARILHO em viagem pelas
7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

contacto © joraga - ® em construção desde Maio 2000 in joraga2000 - em rec. Outubro de 2002

CONTOS e LENDAS da minha STerra - Manteigas e da SERRA da ESTRELA

LENDAS de MANTEIGAS

in ANTOLOGIA - I, Depoimentos Histórico - Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro
de José Lucas Baptista Duarte
Câmara Municipal de Manteigas, 1985

LENDA DA CAPELA DE SÃO LOURENÇO

António Jesus de Carvalho (Bica)

LENDA DA CAPELA DE SÃO LOURENÇO

"Na encosta do Souto do Concelho, que se ergue esguia e altiva como a querer impor vassalagem às suas congéneres, manifestou-se, em tempos remotos, um vulcão (1) que, pela violência da sua erupção, prometia ser de consequências tão nefastas como foram as do Vesúvio no ano 79, soterrando as cidades de Herculano e Pompeia.

A lava gigantesca e tremenda ameaçava soterrar não só a vila de Manteigas mas até os povos circunvizinhos, parecendo que Deus decidira a ruína deste povo como outrora fizera a Sodoma e Gomorra.
O dragão iniciou a sua marcha triunfal devastando tudo na sua passagem. A perda de Manteigas era inevitável. Os seus habitantes, que viam próximo o seu fim, correm de roldão à Igreja e, de joelhos, ao pé do altar, imploram, num grito de angústia, em prece orvalhada de lágrimas e incensada com o perfume da sua dor, e fazem voto de erigir uma capela a S. Lourenço no local onde as fúrias do leão tivessem o seu término. E não foi debalde que imploraram o auxílio do Altíssimo.
Quando parecia que tudo se ia soterrar no pedregulho que a cratera do monstro vomitava sem dó nem piedade, repentinamente, no alto da Montanha que hoje conserva o nome do Santo, como se uma ordem sobre-humana a intimasse, a lava cessou o seu avanço. É que Deus, sempre Bom e Misericordioso, ouviu a oração saída do peito de milhares de crentes e assim, ordenou à corrente furiosa que parasse a carreira satânica. Esta, ainda que sobranceira a todos os obstáculos e orgulhosa de alguns quilómetros de domínio, já percorridos, não deixou, no entanto, de reconhecer a obediência que devia ao Senhor do Universo, e conservou-se submissa à Sua Divina Vontade. A tormenta tinha passado.
O Povo, em face do milagre que acabava de salvá-lo da ruína, fica embriagado de alegria e vai dar cumprimento ao voto prometido. Mas. vendo que o local era impróprio e de difícil ascensão, dificultando a romagem a muitas pessoas que, pela sua avançada idade, não tinham forças para subirem a íngreme vertente da Montanha, fá-la no sopé desta, lugar acessível a todos os devotos e abrigada das fúrias dos elementos de que a nossa Terra é açoutada com frequência. (Esta capela foi, mais tarde, votada ao culto de São Gabriel. O seu alpendre foi demolido há bem pouco tempo).

Conta a lenda que o Santo desaparecia da capela e era encontrado no ponto onde o Povo prometera a sua edificação. Era novamente colocado na ermida e, no dia seguinte, tornavam a encontrá-lo no referido lugar. O facto repetiu-se várias vezes, sendo, por fim, a capela transferida para onde (no dizer do Povo) o "Santo fugia".
São Lourenço foi levado em triunfo para a nova capela e lá se conserva ainda como sentinela vigilante, velando pela paz e segurança de Manteigas.

...

A capela foi reedificada em 1612, sendo ermitão Domingos Dias, segundo uma inscrição que se conserva dentro da dita capela.
Quando a tempestade surpreendia em plena Serra os caçadores e outros viandantes, era ele quem lhes dava abrigo.
Os pastores, vagueando de Serra em Serra, de colina em colina, sempre solitários e meditabundos, sem outra companhia senão os rebanhos que apascentavam e os morros a cuja sombra descansavam algumas horas nos dias calmosos do estio, passavam na Montanha de S. Lourenço, momentos de alegria e distracção. Após longos dias de solidão, encontravam um amigo que os ensinava a rezar e a elevar os seus pensamentos para Deus naquele lugar privilegiado.
Quando (o ermitão) baixava à vila a implorar das almas caridosas o sustento para a existência e para socorrer os que dele se acercavam, agradecia sempre o óbolo recebido com estas significativas palavras: "Quem bem faz, para si é".
Havia então uma casa que achava esse agradecimento um tanto desagradável e conceberam, um dia, a malfadada ideia de envenenar o ermitão.
O macabro projecto foi executado, envenenando um bofo que ele, ao recebe-lo, agradeceu com as referidas palavras: "Quem bem faz, para si é",
Porém, ao voltar à sua guarida, encontra-se com um filho da dita casa, que andava à caça e que foi surpreendido por uma violenta trovoada e se acerca da capela na esperança de se acolher debaixo de seu tecto.
Cheio de fadiga e de fome, pede comer ao ermitão. Este dá-lhe o bolo que recebera em casa dos pais, dizendo:
- Não tenha receio de comê-lo, pois o recebi das mãos da vossa mãe.

Sentindo-se então, depois de comer o bolo, um tanto incomodado, regressa rapidamente a casa. A mãe, ao vê-lo lívido e desfigurado, abraça-o, interrogando-o sobre a causa do seu mal-estar. O filho conta o sucedido. Ao ouvir-lhe a revelação, que lhe dilacera o coração, cai de joelhos a seus pés, exclamando:
- Perdão, meu filho; sou eu que, albergando a malévola intenção de assassinar o ermitão, te assassino a ti. Deus castiga a minha maldade no que de mais caro tenho no mundo.
Passados três dias, o cadáver do desditoso caçador baixava à sepultura e sobre aquela mãe ficou pesando sempre o remorso de um crime, cumprindo-se a predição do venerável ermitão quando agradecia a esmola recebida:
"Quem bem faz, para si é".

ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica)

(1) Para provar a veracidade deste facto, ainda hoje se vêem as ladeiras das montanhas de S. Lourenço e Souto do Concelho completamente cobertas de pedras negras e queimadas, que provam bem terem saído da cratera de um vulcão.

NOTAS COMPLEMENTARES

Não se sabe de quando data a Capela de S. Lourenço, construída no cimo do monte que tem também o seu nome e donde se desfruta um dos mais belos panoramas que a Serra oferece.
No velho e carcomido tecto da capela podem ler-se as seguintes inscrições:

"FOI REEDIFICADA ESTA CAPELA EM 1612 SENDO ERMITA DOMINGOS DIAS"
"COM A DIRECÇÃO DE MANOEL DA CRUS FILIPE, FOI REFORMADA EM 1875"
"DEVOÇÃO DE MARIA JOSÉ LEITÃO, POR ÚLTIMA VONTADE DE SEU IRMÃO ANTÓNIO JOSÉ LEITÃO".

Do lado direito da mesa do altar ficou também inscrita esta interessante informação:

"TEM A LADEIRA DO PENDIL A S. LOURENÇO 2620 PASSOS E FOI ACABADA A TORRE DE SANTA MARIA NO MESMO DIA DESTA CAPELA A 4 DE 12 DE 1875"

Mais se arquiva neste livro, à data da sua publicação, (1985) que esta preciosa relíquia do nosso património cultural e religioso, bastante degradada por acção do tempo e das intempéries, vai ser submetida a obras de restauro que a respeitarão na sua rusticidade típica.
Muito louvavelmente, a Câmara Municipal tomou a seu cargo a elaboração e execução do projecto de obras.

o COORDENADOR

Sempre que visite esta página e tenha elementos ou críticas ou sugestões, CONTACTE:

 

E-Mail: joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
pelo telefone 212 553 223 ou pelo Telmv. 917 632 524
e pelo CORREIO: Rua Almada Negreiros, 48 - 2855-405 CORROIOS.
visite ainda a minha TEIA na REDE além de joraga.net - joraga.net/gilViTeatro/cart2325/bart2838/alice2000rgGaleria

Compatível com IE/Netscape na resolução 800x600
Joraga 2000 em viagem