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António
"Na
encosta do Souto do Concelho, que se ergue esguia e altiva como
a querer impor vassalagem às suas congéneres, manifestou-se,
em tempos remotos, um vulcão (1) que, pela violência
da sua erupção, prometia ser de consequências
tão nefastas como foram as do Vesúvio no ano 79, soterrando
as cidades de Herculano e Pompeia.
A lava
gigantesca e tremenda ameaçava soterrar não só
a vila de Manteigas mas até os povos circunvizinhos, parecendo
que Deus decidira a ruína deste povo como outrora fizera
a Sodoma e Gomorra.
O dragão iniciou a sua marcha triunfal devastando tudo na
sua passagem. A perda de Manteigas era inevitável. Os seus
habitantes, que viam próximo o seu fim, correm de roldão
à Igreja e, de joelhos, ao pé do altar, imploram,
num grito de angústia, em prece orvalhada de lágrimas
e incensada com o perfume da sua dor, e fazem voto de erigir uma
capela a S. Lourenço no local onde as fúrias do leão
tivessem o seu término. E não foi debalde que imploraram
o auxílio do Altíssimo.
Quando parecia que tudo se ia soterrar no pedregulho que a cratera
do monstro vomitava sem dó nem piedade, repentinamente, no
alto da Montanha que hoje conserva o nome do Santo, como se uma
ordem sobre-humana a intimasse, a lava cessou o seu avanço.
É que Deus, sempre Bom e Misericordioso, ouviu a oração
saída do peito de milhares de crentes e assim, ordenou à
corrente furiosa que parasse a carreira satânica. Esta, ainda
que sobranceira a todos os obstáculos e orgulhosa de alguns
quilómetros de domínio, já percorridos, não
deixou, no entanto, de reconhecer a obediência que devia ao
Senhor do Universo, e conservou-se submissa à Sua Divina
Vontade. A tormenta tinha passado.
O Povo, em face do milagre que acabava de salvá-lo da ruína,
fica embriagado de alegria e vai dar cumprimento ao voto prometido.
Mas. vendo que o local era impróprio e de difícil
ascensão, dificultando a romagem a muitas pessoas que, pela
sua avançada idade, não tinham forças para
subirem a íngreme vertente da Montanha, fá-la no sopé
desta, lugar acessível a todos os devotos e abrigada das
fúrias dos elementos de que a nossa Terra é açoutada
com frequência. (Esta capela foi, mais tarde, votada ao culto
de São Gabriel. O seu alpendre foi demolido há bem
pouco tempo).
Conta
a lenda que o Santo desaparecia da capela e era encontrado no ponto
onde o Povo prometera a sua edificação. Era novamente
colocado na ermida e, no dia seguinte, tornavam a encontrá-lo
no referido lugar. O facto repetiu-se várias vezes, sendo,
por fim, a capela transferida para onde (no dizer do Povo) o "Santo
fugia".
São Lourenço foi levado em triunfo para a nova capela
e lá se conserva ainda como sentinela vigilante, velando
pela paz e segurança de Manteigas.
...
A capela
foi reedificada em 1612, sendo ermitão Domingos Dias, segundo
uma inscrição que se conserva dentro da dita capela.
Quando a tempestade surpreendia em plena Serra os caçadores
e outros viandantes, era ele quem lhes dava abrigo.
Os pastores, vagueando de Serra em Serra, de colina em colina, sempre
solitários e meditabundos, sem outra companhia senão
os rebanhos que apascentavam e os morros a cuja sombra descansavam
algumas horas nos dias calmosos do estio, passavam na Montanha de
S. Lourenço, momentos de alegria e distracção.
Após longos dias de solidão, encontravam um amigo
que os ensinava a rezar e a elevar os seus pensamentos para Deus
naquele lugar privilegiado.
Quando (o ermitão) baixava à vila a implorar das almas
caridosas o sustento para a existência e para socorrer os
que dele se acercavam, agradecia sempre o óbolo recebido
com estas significativas palavras: "Quem bem faz, para si é".
Havia então uma casa que achava esse agradecimento um tanto
desagradável e conceberam, um dia, a malfadada ideia de envenenar
o ermitão.
O macabro projecto foi executado, envenenando um bofo que ele, ao
recebe-lo, agradeceu com as referidas palavras: "Quem bem faz,
para si é",
Porém, ao voltar à sua guarida, encontra-se com um
filho da dita casa, que andava à caça e que foi surpreendido
por uma violenta trovoada e se acerca da capela na esperança
de se acolher debaixo de seu tecto.
Cheio de fadiga e de fome, pede comer ao ermitão. Este dá-lhe
o bolo que recebera em casa dos pais, dizendo:
- Não tenha receio de comê-lo, pois o recebi das mãos
da vossa mãe.
Sentindo-se
então, depois de comer o bolo, um tanto incomodado, regressa
rapidamente a casa. A mãe, ao vê-lo lívido e
desfigurado, abraça-o, interrogando-o sobre a causa do seu
mal-estar. O filho conta o sucedido. Ao ouvir-lhe a revelação,
que lhe dilacera o coração, cai de joelhos a seus
pés, exclamando:
- Perdão, meu filho; sou eu que, albergando a malévola
intenção de assassinar o ermitão, te assassino
a ti. Deus castiga a minha maldade no que de mais caro tenho no
mundo.
Passados três dias, o cadáver do desditoso caçador
baixava à sepultura e sobre aquela mãe ficou pesando
sempre o remorso de um crime, cumprindo-se a predição
do venerável ermitão quando agradecia a esmola recebida:
"Quem bem faz, para si é".
ANTÓNIO
DE JESUS DE CARVALHO (Bica)
(1)
Para provar a veracidade deste facto, ainda hoje se vêem as
ladeiras das montanhas de S. Lourenço e Souto do Concelho
completamente cobertas de pedras negras e queimadas, que provam
bem terem saído da cratera de um vulcão.
NOTAS
COMPLEMENTARES
Não
se sabe de quando data a Capela de S. Lourenço, construída
no cimo do monte que tem também o seu nome e donde se desfruta
um dos mais belos panoramas que a Serra oferece.
No velho e carcomido tecto da capela podem ler-se as seguintes inscrições:
"FOI
REEDIFICADA ESTA CAPELA EM 1612 SENDO ERMITA DOMINGOS DIAS"
"COM A DIRECÇÃO DE MANOEL DA CRUS FILIPE, FOI
REFORMADA EM 1875"
"DEVOÇÃO DE MARIA JOSÉ LEITÃO,
POR ÚLTIMA VONTADE DE SEU IRMÃO ANTÓNIO JOSÉ
LEITÃO".
Do
lado direito da mesa do altar ficou também inscrita esta
interessante informação:
"TEM
A LADEIRA DO PENDIL A S. LOURENÇO 2620 PASSOS E FOI ACABADA
A TORRE DE SANTA MARIA NO MESMO DIA DESTA CAPELA A 4 DE 12 DE 1875"
Mais
se arquiva neste livro, à data da sua publicação,
(1985) que esta preciosa relíquia do nosso património
cultural e religioso, bastante degradada por acção
do tempo e das intempéries, vai ser submetida a obras de
restauro que a respeitarão na sua rusticidade típica.
Muito louvavelmente, a Câmara Municipal tomou a seu cargo
a elaboração e execução do projecto
de obras.
o COORDENADOR

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