Serra da Estrela - Manteigas

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CONTOS e LENDAS da minha STerra - Manteigas e da SERRA da ESTRELA

LENDAS de MANTEIGAS

in ANTOLOGIA - I, Depoimentos Histórico - Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro
de José Lucas Baptista Duarte
Câmara Municipal de Manteigas, 1985

LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE

LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE DE
SANTA MARIA - MÀNTEIGAS

"Na antiquíssima vila de Manteigas, que já existia no tempo dos Romanos, muito há que nos deixa encantados, como uma das mais curiosas e pitorescas terras da região maravilhosa da Serra da Estrela.
Uma modesta igreja ali foi erguida há muitos anos: a de SANTA MARIA.
Na soleira da porta, isso demonstrando que é um templo velhíssimo, notam-se os restos de uma inscrição em latim, ilegível, pois lhe faltam bastantes letras. Segundo a tradição, é uma lápide mandada fazer pelo imperador romano Júlio César, para deixar assinalada a sua estadia ali, à frente das suas tropas, pelos anos 3954 - cinquenta anos antes de Cristo.

Na bonita igreja avulta um Senhor do Esquife que o povo sempre venera e tem como inigualável tesouro da Vila de Manteigas. Todos, e com as mais justificadas razões, consideram essa muito antiga escultura como admirável. É perfeita e bela, de traços magníficos, apontados como impecáveis de verdade. Tem uma cabeça caprichosamente trabalhada, rosto mostrando-se amargurado, e lábios entreabertos. Tudo a revela como uma obra escultural de excepcionais aspectos, e que teria sido executada por um artista de grandes méritos.
Perante o Senhor do Esquife o povo faz, constantemente desde sempre, as suas orações e promessas. Anotando a sua existência nessa Igreja de Santa Maria, há que pôr em evidência que, sendo uma obra maravilhosa que merece a maior admiração, é um trabalho feito por um homem habitante de Manteigas, um tanto rude e da maior simplicidade, mas de fé profunda e da mais expressiva sinceridade.

Pacientemente e animado pelos melhores pensamentos e sentimentos religiosos, conseguiu, com extraordinária habilidade e, porque não dizer (?), com espírito artístico invulgar e notável, transformar um velho tronco de árvore nessa obra em tudo digna de apreço.
A devoção com que homens, mulheres e jovens, fazem as suas preces perante o Senhor do Esquife, dá ao encantador trabalho um significado muito especial, recordando-se, inúmeras vezes, que o tal homem do povo, logo que concluiu a obra, constantemente e com fé a fitava repetidamente, possivelmente com a ideia de lhe dar ainda maior perfeição.
Aconteceu, então, no dizer da lenda e das falas populares, que viu, em dado momento, o Senhor erguer um pouco a cabeça, olhando-o com grande ternura, após o que se lhe dirigiu com estas palavras:
"Onde me miraste, que tão bem me retrataste, homem? Dentro de três dias, estarás comigo no Paraíso".
Confundido, espantado e sentindo fortalecida a sua fé, afastou-se, pouco depois, e contou a várias pessoas o que se tinha passado. Muita gente entrou, depois, na sua casa, com a ideia de ouvir também o Senhor. Quando o humilde homem lhe pediu para falar de novo, os que ali estavam notaram, espantados, que o Cristo abriu ligeiramente os olhos e principiou a sorrir. Perante isso, logo se ajoelharam, e o modestíssimo artista, abraçando-se ao seu Senhor, cai morto, debruçado sobre a sua mesa de trabalho.
A casa lá está ainda hoje, em Manteigas, na chamada Rua da Praça".

NOTA - Este é o texto integral recolhido de um recorte do jornal de que não foi possível extrair o título nem a data. A publicação inseria-se num concurso que tinha por título "LENDAS DE PORTUGAL".
Há que fazer algumas rectificações e actualizações relativamente a este original.
Assim:
a) - Já não existe a "modesta igreja" que na lenda é referida, pois, entretanto, foi reconstruída e totalmente remodelada entre os anos 1935/1937;
b) - Em consequência de tais obras, e por manifesta incúria e desprezo por um importante documento histórico em pedra, foi lançada nos alicerces a lápide que, segundo a tradição, foi mandada executar pelo imperador romano Júlio César pelos anos 3954, isto é, 50 anos antes de Cristo;
c) - Já não existe a casa do milagre do Senhor do Esquife, por, entretanto, ter sido demolida e sacrificada pelo moderno plano de urbanização da Vila.
Todavia, existe ainda a mesa de trabalho onde o artista trabalhou a imagem milagrosa, fazendo actualmente parte do recheio da casa pertencente aos herdeiros de Dr. José Correia Tanganho (Granjas), sita na rua do mesmo nome.
Não cabe aqui afirmar categoricamente, nem ninguém o poderá atestar, onde acaba a lenda e começa a "vaga verdade baseada na tradição local".
Seja como for, aqui fica reproduzida, para as gerações futuras, a que pode, entre várias outras, ser considerada a lenda mais comovente de Manteigas, que até nós chegou através de muitas gerações passadas, ficou e será sempre conhecida pela "LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE DE SANTA MARIA DE MANTEIGAS".

 

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