|
"Na
antiquíssima vila de Manteigas, que já existia no
tempo dos Romanos, muito há que nos deixa encantados, como
uma das mais curiosas e pitorescas terras da região maravilhosa
da Serra da Estrela.
Uma modesta igreja ali foi erguida há muitos anos: a de SANTA
MARIA.
Na soleira da porta, isso demonstrando que é um templo velhíssimo,
notam-se os restos de uma inscrição em latim, ilegível,
pois lhe faltam bastantes letras. Segundo a tradição,
é uma lápide mandada fazer pelo imperador romano Júlio
César, para deixar assinalada a sua estadia ali, à
frente das suas tropas, pelos anos 3954 - cinquenta anos antes de
Cristo.
Na
bonita igreja avulta um Senhor do Esquife que o povo sempre venera
e tem como inigualável tesouro da Vila de Manteigas. Todos,
e com as mais justificadas razões, consideram essa muito
antiga escultura como admirável. É perfeita e bela,
de traços magníficos, apontados como impecáveis
de verdade. Tem uma cabeça caprichosamente trabalhada, rosto
mostrando-se amargurado, e lábios entreabertos. Tudo a revela
como uma obra escultural de excepcionais aspectos, e que teria sido
executada por um artista de grandes méritos.
Perante o Senhor do Esquife o povo faz, constantemente desde sempre,
as suas orações e promessas. Anotando a sua existência
nessa Igreja de Santa Maria, há que pôr em evidência
que, sendo uma obra maravilhosa que merece a maior admiração,
é um trabalho feito por um homem habitante de Manteigas,
um tanto rude e da maior simplicidade, mas de fé profunda
e da mais expressiva sinceridade.
Pacientemente
e animado pelos melhores pensamentos e sentimentos religiosos, conseguiu,
com extraordinária habilidade e, porque não dizer
(?), com espírito artístico invulgar e notável,
transformar um velho tronco de árvore nessa obra em tudo
digna de apreço.
A devoção com que homens, mulheres e jovens, fazem
as suas preces perante o Senhor do Esquife, dá ao encantador
trabalho um significado muito especial, recordando-se, inúmeras
vezes, que o tal homem do povo, logo que concluiu a obra, constantemente
e com fé a fitava repetidamente, possivelmente com a ideia
de lhe dar ainda maior perfeição.
Aconteceu, então, no dizer da lenda e das falas populares,
que viu, em dado momento, o Senhor erguer um pouco a cabeça,
olhando-o com grande ternura, após o que se lhe dirigiu com
estas palavras:
"Onde me miraste, que tão bem me retrataste, homem?
Dentro de três dias, estarás comigo no Paraíso".
Confundido, espantado e sentindo fortalecida a sua fé, afastou-se,
pouco depois, e contou a várias pessoas o que se tinha passado.
Muita gente entrou, depois, na sua casa, com a ideia de ouvir também
o Senhor. Quando o humilde homem lhe pediu para falar de novo, os
que ali estavam notaram, espantados, que o Cristo abriu ligeiramente
os olhos e principiou a sorrir. Perante isso, logo se ajoelharam,
e o modestíssimo artista, abraçando-se ao seu Senhor,
cai morto, debruçado sobre a sua mesa de trabalho.
A casa lá está ainda hoje, em Manteigas, na chamada
Rua da Praça".
NOTA
- Este é o texto integral recolhido de um recorte do jornal
de que não foi possível extrair o título nem
a data. A publicação inseria-se num concurso que tinha
por título "LENDAS DE PORTUGAL".
Há que fazer algumas rectificações e actualizações
relativamente a este original.
Assim:
a) - Já não existe a "modesta igreja" que
na lenda é referida, pois, entretanto, foi reconstruída
e totalmente remodelada entre os anos 1935/1937;
b) - Em consequência de tais obras, e por manifesta incúria
e desprezo por um importante documento histórico em pedra,
foi lançada nos alicerces a lápide que, segundo a
tradição, foi mandada executar pelo imperador romano
Júlio César pelos anos 3954, isto é, 50 anos
antes de Cristo;
c) - Já não existe a casa do milagre do Senhor do
Esquife, por, entretanto, ter sido demolida e sacrificada pelo moderno
plano de urbanização da Vila.
Todavia, existe ainda a mesa de trabalho onde o artista trabalhou
a imagem milagrosa, fazendo actualmente parte do recheio da casa
pertencente aos herdeiros de Dr. José Correia Tanganho (Granjas),
sita na rua do mesmo nome.
Não cabe aqui afirmar categoricamente, nem ninguém
o poderá atestar, onde acaba a lenda e começa a "vaga
verdade baseada na tradição local".
Seja como for, aqui fica reproduzida, para as gerações
futuras, a que pode, entre várias outras, ser considerada
a lenda mais comovente de Manteigas, que até nós chegou
através de muitas gerações passadas, ficou
e será sempre conhecida pela "LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE
DE SANTA MARIA DE MANTEIGAS".
 
Sempre
que visite esta página e tenha elementos ou críticas ou sugestões,
CONTACTE:
|